TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 9
A PERFORMANCE ANALÍTICA
DE ARISTÓTELES
Apenas uma pequena
parte de sua produção analítica se concentra em problemas econômicos. Seu
trabalho principal, assim como seu principal interesse, no que diz respeito aos
fenômenos sociais, situava-se no campo que poderíamos chamar de sociologia
econômica, ou melhor, no campo da sociologia política, à qual ele subordinava
tanto a sociologia econômica quanto a economia técnica.
É como um tratado ou
manual sobre Estado e sociedade que sua obra Política deve ser avaliada. E sua
Ética a Nicômaco — um tratado abrangente sobre o comportamento humano
apresentado sob a perspectiva normativa — também trata de forma tão
preponderante do homem político, do homem na cidade-estado, que deve ser
considerada um volume complementar à Política, constituindo, juntamente com
esta, a primeira apresentação sistemática conhecida de uma Ciência Social
unitária.
O leitor provavelmente
sabe que, até, digamos, a época de Hobbes, tudo o que se denominava ciência
política e filosofia política se alimentava da base aristotélica. Para os
nossos propósitos, basta observar:
(1) Que Aristóteles,
como um bom analista, não só foi muito cuidadoso com seus conceitos, mas também
os coordenou em um aparato conceitual, isto é, em um sistema de ferramentas de
análise inter-relacionadas e destinadas a serem utilizadas em conjunto.
(2) Que, como de fato
está implícito em sua abordagem “indutiva” mencionada acima, ele investigou
tanto processos de mudança quanto estados.
(3) Que ele tentou
distinguir entre características de organismos sociais ou de comportamento que
existem em virtude de uma necessidade universal de outras instituídas por decisão legislativa ou costume (νóμω).
(4) Que ele discutiu
instituições sociais em termos de propósitos e das vantagens e desvantagens que
lhe pareciam apresentar, e que ele próprio cedeu, e levou seus seguidores a
cederem, a uma forma particular do erro racionalista, a saber, o erro teleológico
[de finalidade]. Deixando de lado a consideração de seu conceito de Lei
Natural, restringimo-nos a três exemplos característicos de sua análise.
Sobre a origem do
estado, da propriedade privada e da escravidão.
Aristóteles não aceitou
a ideia de Platão de que o Estado se desenvolveu a partir da família patriarcal
ou gens. Tampouco aceitou completamente a ideia de um Contrato Social, que
parece ter sido corrente entre os sofistas, mas sempre pairou sobre seus escritos.
Ocasionalmente, ele até mencionava uma aliança original, de modo que a ideia
era facilmente assimilada pelos seus discípulos. Isso é interessante por dois
motivos.
Primeiro, nos séculos
XVII e XVIII, o contrato social tornou-se o ponto central de uma linha de
pensamento cujos expoentes teriam se ressentido muito de serem chamados
aristotélicos.
Segundo, a abordagem de
Aristóteles a esse tema é característica de sua atitude geral em relação às
ideias dos sofistas. Muito da obra de Aristóteles sugere fortemente influências
sofistas. No entanto, ele argumentou consistentemente contra as visões que
sabemos terem sido defendidas pelos sofistas. Em todo caso, porém, não devemos
permitir que isso apague o fato de que ele absorveu parte do pensamento deles e
que foi principalmente através de suas obras que algumas influências sofistas
chegaram à Idade Média.
No segundo livro da
Política, Aristóteles discutiu a propriedade privada, o comunismo e a família,
principalmente por meio de críticas a Platão, Faleas e Hipodamo. Sua crítica a
Platão — o único dos três cujo texto podemos comparar com a crítica — é surpreendentemente
injusta e, além disso, interpreta erroneamente a natureza e o significado da
obra de Platão. Mas os argumentos que ele apresentou em defesa da propriedade
privada e da família, e contra o comunismo, se assemelham quase exatamente aos
argumentos dos liberais de classe média do século XIX.
Aristóteles viveu em
uma sociedade para a qual a escravidão era essencial. No entanto, ele também
viveu em uma época em que essa instituição essencial estava sob ataque de
críticos sociais. A escravidão havia se tornado um problema. Aristóteles tentou
resolver esse problema postulando um princípio que serviria tanto como
explicação quanto como justificativa. Esse princípio afirmava o que ele
considerava um fato indubitável, a desigualdade “natural” dos homens:
em virtude de uma qualidade inata, alguns homens são predestinados à submissão,
outros ao domínio.
Ele percebeu a
dificuldade de identificar essa proposição com a proposição bastante diferente
de que a primeira classe de homens fornece, de fato, os escravos da vida real,
e que a segunda classe de homens fornece, de fato, os senhores da vida real.
Mas ele eliminou essa dificuldade admitindo casos "antinatural" e
"injusto" de escravidão, como os que surgiriam da escravização
indiscriminada de prisioneiros de guerra (helênicos). A maioria de nós verá
nessa teoria um exemplo inconfundível de viés ideológico aliado a uma intenção
apologética. É ainda mais importante deixar bem claro o que justifica essa
impressão. Nossa adesão à proposição de que a escravidão se deve a uma
inferioridade congênita nos escravizados certamente não a justificaria.
Tampouco basta que a teoria de Aristóteles contenha várias falácias. Isso
estabeleceria uma falha na análise, mas não um viés ideológico. Ao mesmo tempo,
se os erros cometidos em um argumento apontam todos na mesma direção e se essa
direção coincide com o que podemos conceber como sendo a ideologia do analista,
provavelmente estamos no direito de suspeitar de viés ideológico. Mesmo assim,
não é a suspeita de viés, mas a comprovação dos erros que deve motivar a
rejeição.
A
ECONOMIA “PURA” DE ARISTÓTELES
Tendo em
mente esses princípios de interpretação, voltemo-nos agora para a economia
“pura” embrionária de Aristóteles, cujos elementos se encontram principalmente
em Política, I, 8–11, e em Ética, V, 5. Nada seria mais fácil do que mostrar
que ele se preocupava principalmente com o “natural” e o “justo”, vistos do
ponto de vista de seu ideal de vida boa e virtuosa, e que os fatos econômicos e
as relações entre eles, que ele considerava e avaliava, aparecem à luz das
ideias preconcebidas esperadas de um homem que vivia e escrevia para uma classe
ociosa e culta, que desprezava o trabalho e os negócios e, naturalmente, amava
o agricultor que a alimentava e odiava o agiota que a explorava.
Essas
coisas são igualmente interessantes, embora não mais, do que os
correspondentes, juízos de valor e ideologias do intelectual moderno. Os pontos
que realmente importam para nós são estes. Aristóteles baseou sua análise
econômica diretamente nas necessidades e em suas satisfações. Partindo da
economia de famílias autossuficientes, ele introduziu a divisão do trabalho, o
escambo e, como meio de superar as dificuldades do escambo, o dinheiro. Não há
uma teoria da “distribuição”. Isso — presumivelmente um trecho de uma vasta
literatura que se perdeu — constitui o legado grego, no que diz respeito à
teoria econômica. Seguiremos seu curso até A Riqueza das Nações, de A. Smith,
cujos cinco primeiros capítulos são apenas desenvolvimentos da mesma linha de
raciocínio. Portanto, examinemos esse legado mais de perto.
a)
Valor.
Aristóteles
não apenas distinguiu o valor de uso do valor de troca com a mesma clareza que
qualquer escritor posterior, mas também percebeu que o último fenômeno deriva,
de alguma forma, do primeiro. Mas isso, por si só, não é apenas senso comum,
mas também lugar-comum, e ele não avançou além disso.
Sua falha
foi compensada pelos escolásticos posteriores, aos quais se atribui o mérito de
terem desenvolvido a teoria do preço, que ele próprio não conseguiu.
Argumentou-se que isso se deveu à sua preocupação com o problema ético da
justiça na precificação das coisas, que desviou seu interesse do problema
analítico da precificação propriamente dita. Nada poderia estar mais longe da
verdade. A preocupação com a ética da precificação, como o exemplo dos
escolásticos posteriores basta para demonstrar, que este é precisamente um dos
motivos mais fortes para um homem analisar os mecanismos reais do mercado.
Diversas passagens mostram, de fato, que Aristóteles tentou fazê-lo e falhou.
Ele considerou, no entanto, o caso do Monopólio que ele definiu como tem sido
definida desde então, como a posição em um mercado de um Vendedor
Único. Ele a condenou como ‘injusta’.
Esses
fatos parecem fornecer a solução para um problema que tem preocupado alguns
historiadores da teoria do valor. Aristóteles, sem dúvida, buscava um cânone de
justiça na precificação e o encontrou na “equivalência” entre o que
um homem dá e recebe. Visto que ambas as partes em um ato de troca ou venda
devem ganhar necessariamente com ele, no sentido de que devem preferir suas
situações econômicas após o ato de compra e venda àquelas que existiam antes do
ato — caso contrário, não teriam nenhum motivo para realizá-lo —, embora não
exista equivalência entre os valores ‘subjetivos’ ou de utilidade dos bens
trocados, nem entre o bem e o dinheiro pago ou recebido por ele.
E como
Aristóteles não ofereceu nenhuma teoria do valor de troca ou do preço, esses
historiadores concluíram que ele devia ter em mente algum misterioso Valor
Objetivo ou Absoluto das coisas, intrinsecamente inerente a elas e independente
das circunstâncias, de valorações humanas ou das ações. A falta de explicação
do valor de troca não significa a falta de reconhecimento do mesmo como um
fato. E é muito mais razoável supor que Aristóteles simplesmente pensava nos
valores de troca do mercado, expressos em termos monetários, em vez de alguma
substância de valor misteriosa medida por esses valores de troca.
Mas isso
não implica que ele aceitou os preços reais das mercadorias como padrão de sua
justiça comutativa e, portanto, perdeu os meios de se pronunciar sobre sua
justiça ou injustiça? De modo algum. Vimos que ele condenou os preços de
monopólio. Não é descabido equiparar, para os propósitos de Aristóteles, preços
de monopólio a preços que algum indivíduo ou grupo de indivíduos estabeleceu em
seu próprio benefício. Preços que são dados ao indivíduo e com os quais ele não
pode interferir, ou seja, os preços competitivos que emergem no livre mercado
em condições normais, não se enquadram na proibição. E não há nada de estranho
na conjectura de que Aristóteles possa ter tomado os preços normais de mercado
como padrões de justiça comutativa ou, mais precisamente, que ele estivesse
disposto a aceitar como “justa” qualquer transação entre indivíduos realizada a
tais preços — o que, aliás, era o que os doutores escolásticos faziam
explicitamente.
Se essa
interpretação estiver correta, seu conceito de justo preço de uma mercadoria é
de fato “objetivo”, mas apenas no sentido de que nenhum indivíduo pode
alterá-lo por sua própria ação. Além disso, seus valores justos eram valores
sociais — expressivos, como ele quase certamente pensava, da avaliação que a
comunidade fazia de cada mercadoria³ — mas apenas no sentido de que eram o
resultado supraindividual de ações de uma massa de homens racionais. Em todo
caso, elas não são em nada mais metafísicas ou absolutas do que quantidades de
mercadorias multiplicadas por seus preços normais de mercado.
O leitor
não terá dificuldade em perceber que, se os valores forem definidos dessa
maneira, a exigência aristotélica de justiça comutativa adquire um significado
sólido e perfeitamente simples. Ela será cumprida pela igualdade entre os
valores em cada ato de troca ou venda: se A troca sapatos por pães de B, a
justiça aristotélica exige que os sapatos sejam iguais aos pães quando ambos
forem multiplicados por seus preços normais de mercado; se A vender os sapatos
para B em troca de dinheiro, a mesma regra determinará a quantia que ele deve
receber. Visto que, nas condições previstas, A de fato receberia essa quantia,
temos diante de nós um exemplo instrutivo da relação que, para o próprio
Aristóteles e uma legião de seguidores, subsiste entre o ideal lógico e o ideal
normal, e entre o “natural” e o “justo”.
A
passagem mais característica encontra-se em Ética, V (1133), que interpreto
assim: ‘Assim como o trabalho do agricultor se compara ao trabalho do
sapateiro, da mesma forma o produto do trabalho do agricultor se compara ao
produto do trabalho do sapateiro.’ Não consigo extrair outro sentido dessa
passagem. Se estiver certo, então Aristóteles estava buscando alguma teoria de
custo-trabalho para o preço, que ele não conseguiu enunciar explicitamente.
Dedicamos
tanta atenção a este argumento porque ele elimina de uma vez por todas as
especulações metafísicas sobre o valor objetivo ou absoluto, onde quer que elas
surjam. Rejeitando definitivamente o que vimos ser um problema espúrio,
entenderemos daqui em diante por valor objetivo de uma mercadoria a magnitude
definida [pelo mercado] e nada mais. Da mesma forma, não nos preocuparemos com
qualquer possível significado metafísico do conceito de Valor Intrínseco, visto
que é sempre possível (e na maioria dos casos muito fácil) atribuir-lhe um
significado inteiramente não metafísico — como, por exemplo, quando se fala do
valor intrínseco de uma moeda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário