b)
Dinheiro.
A teoria monetária que
Aristóteles defendeu, em oposição consciente, ao que me parece, à teoria
alternativa defendida por Platão, era a seguinte: a própria existência de
qualquer sociedade não comunista envolve a troca de bens e serviços; essa
troca, a princípio, assume “naturalmente” a forma de escambo; mas as pessoas
que desejam o que outras pessoas têm podem não ter o que estas últimas desejam;
portanto, muitas vezes será necessário aceitar em troca o que não se deseja
para obter o que se deseja por meio de um novo ato de escambo (troca indireta);
a conveniência óbvia induzirá então as pessoas a escolher, tacitamente ou por
meio de ação legislativa, uma mercadoria — Aristóteles não considerou a
possibilidade de as pessoas escolherem mais de uma — como meio de troca.
Aristóteles mencionou brevemente o fato de que algumas mercadorias — como os metais — são mais adequadas para esse papel do que outras, antecipando assim algumas das passagens mais banais dos livros didáticos do século XIX sobre homogeneidade, divisibilidade, portabilidade, estabilidade relativa de valor, e assim por diante. Além disso, as exigências de sua regra de equivalência nas trocas o levaram naturalmente a observar que o meio de troca também seria utilizado como medida de valor. E, finalmente, ele reconheceu, pelo menos implicitamente, seu uso como reserva de valor. Três das quatro funções do dinheiro tradicionalmente listadas naqueles livros didáticos do século XIX — o quarto deve servir como padrão para pagamentos diferidos — podem, portanto, ser rastreados até Aristóteles.
Segundo
Schumpeter quatro são as funções da moeda:
a) Meio
de pagamento e troca = facilitação do comércio.
b)
Unidade de conta = referencial de preço.
c)
Reserva de valor = poupança para consumo futuro.
d) Instrumento de crédito ou financiamento = prover recursos para inovação — Schumpeter diferencia o fluxo circular (economia estática) do desenvolvimento (dinâmica). No desenvolvimento, o crédito bancário é o “motor” que viabiliza a criação de novas combinações produtivas, agindo como um poder de compra criado ex nihilo (do nada) pelos bancos, e não apenas uma transferência de poupança existente.
Essencialmente,
esta teoria incorpora duas proposições. A primeira é que, independentemente dos outros propósitos que o dinheiro possa servir, sua função fundamental é
servir como meio de troca. Portanto, esta teoria pertence ao que o Professor
von Mises descreveu como teorias “cataláticas” do dinheiro (para troca). A
segunda proposição é que, para servir como meio de troca nos mercados de
mercadorias, o próprio dinheiro deve ser uma dessas mercadorias. Ou seja, deve
ser algo útil que tenha valor de troca independentemente de sua função
monetária — é tudo o que o valor intrínseco significa neste contexto — um valor
que pode ser comparado com outros valores.
Assim, a
mercadoria dinheiro é determinada por peso e qualidade, como outras
mercadorias; por conveniência, as pessoas podem decidir colocar um selo nela
para evitar o trabalho de pesá-la sempre, mas esse selo apenas declara e
garante a quantidade e a qualidade da mercadoria contida em uma moeda e não é a
causa de seu valor. Esta proposição, que, obviamente, não é idêntica à primeira
nem está implícita nela, identificará o que daqui em diante chamaremos de
Metalismo ou Teoria Metalista da Moeda, em contraste com a Teoria Cartal, da
qual a de Platão é um exemplo.
Quaisquer
que sejam suas deficiências, essa teoria, embora nunca incontestável,
prevaleceu substancialmente até o final do século XIX e mesmo depois. Ela é a
base da maior parte de todo o trabalho analítico no campo da moeda. Portanto,
temos todos os motivos para assegurar nossa interpretação de Aristóteles, cuja
influência pessoal nessa questão é reconhecível pelo menos até A. Smith.
Nenhuma passagem da Política aceitará outra interpretação a menos que
atribuamos a Aristóteles certas visões que ele mencionou, mas que claramente
atribuiu a outros. Mas na Ética, jogando com a palavra grega para moeda
corrente (νóμισμα), ele afirmou que o dinheiro existe não por ‘natureza’, mas
por convenção ou legislação (νόμω), o que parece apontar em outra direção. O
fato, porém, de ele ter acrescentado, a título de explicação, que o dinheiro
poderia ser trocado ou desmonetizado pela comunidade, sugere que ele não queria
dizer mais do que a convenção ou a legislação que decide o material a ser utilizado
para cunhar dinheiro e a forma específica a ser dada às moedas.
A teoria
monetária de Aristóteles é uma teoria no sentido comum do termo, ou seja, uma
tentativa de explicar o que é o dinheiro e o que ele faz. Mas ele a apresentou
de forma genética, como era seu costume ao lidar com uma instituição social:
ele permite que o dinheiro se desenvolva no que pretende ser uma sequência
histórica que parte de uma condição ou “estágio” em que não havia dinheiro.
Claro, não precisamos ver nisso mais do que um recurso expositivo. O leitor
deve lembrar-se dessa possível interpretação, que redimirá do absurdo total
muitos argumentos que se apresentam sob o disfarce de uma “história” puramente
imaginária, como fazem, por exemplo, as teorias do Estado que utilizam a ideia
de um contrato social original… Mas o caso do dinheiro é diferente, porque a
teoria aristotélica da origem lógica do dinheiro pode ser aceita — com alguma
dificuldade — como uma teoria verificável de sua origem histórica.
Exemplos
como o siclo semita ou o dinheiro do chá [tijolos de chá] dos nômades mongóis
bastam para demonstrar isso. É em tais casos que surge nossa questão
metodológica. É um procedimento válido rastrear o mais longe possível na
história de uma instituição para descobrir seus significados essenciais ou mais
simples? Claramente não. As formas primitivas de existência são, em regra, mais
complexas do que as posteriores: o chefe que é juiz, sacerdote, administrador e
guerreiro, tudo em um só, é, evidentemente, um fenômeno mais complexo do que
qualquer um de seus sucessores especializados em épocas posteriores; o feudo
medieval é conceitualmente um fenômeno mais complexo do que a Corporação
Siderúrgica dos EUA.
As
origens lógicas e históricas devem, portanto, ser mantidas distintas. Mas essa
distinção só se apresenta em estágios avançados de análise. O analista pouco
sofisticado invariavelmente as confunde. Essa confusão está, sem dúvida,
implícita nas teorias de Aristóteles sobre o dinheiro e também sobre outras
instituições sociais. Ele a legou a toda a linhagem de pensadores que descende
dele, incluindo os utilitaristas ingleses. E ela sobreviveu, em alguns pontos,
até os dias de hoje.
(c)
Juros.
O
restante da economia “pura” de Aristóteles, considerada do nosso ponto de
vista, quase não merece menção. Muitas, senão a maioria, das coisas que se
tornariam problemas para o economista de épocas posteriores foram tomadas por
ele como certas, no espírito do senso comum pré-científico; e ele emitiu seus
juízos de valor sobre uma realidade da qual, em grande parte, deixou de
explorar. A renda predominantemente agrária do cavalheiro de sua época
evidentemente não lhe representava um problema; o trabalhador livre era uma
anomalia em sua economia escravista tratado superficialmente; o artesão,
exceto no que dizia respeito ao preço justo de seu produto, não se saiu muito
melhor; o comerciante (e armador), o lojista, o agiota foram considerados
principalmente com vistas à avaliação ética e política de suas atividades e
seus ganhos, nenhum dos quais parecia exigir a atenção de uma análise
explicativa.
Nos
primórdios da análise científica, a massa dos fenômenos permanece inalterada no
conjunto do conhecimento de senso comum, e apenas fragmentos dessa massa
despertam a curiosidade científica e, a partir daí, se tornam
“problemas”. Para Aristóteles, os juros não eram um desses
fragmentos. Ele aceitava o fato empírico dos juros sobre empréstimos monetários
e não via problema nisso. Ele sequer classificava os empréstimos de acordo com
os diversos fins que podiam servir e parece não ter percebido que um empréstimo
para consumo é algo muito diferente de um empréstimo para comércio marítimo
(foenus nauticum).
Aristóteles condenava os juros — que equiparava à “usura” em todos os casos — sob
o argumento de que não havia justificativa para o dinheiro, um mero meio de
troca, aumentar de valor ao circular (o que, obviamente, não acontece). Mas ele
nunca questionou por que os juros eram pagos mesmo assim. Essa questão foi
levantada pela primeira vez pelos doutores escolásticos. A eles pertence o
mérito de terem sido os primeiros tanto a coletar informações sobre juros
quanto a desenvolver os contornos de uma teoria sobre eles. Aristóteles não
tinha uma teoria sobre juros. Em particular, ele não deve ser aclamado como o
precursor das teorias monetárias sobre juros de hoje. Pois, embora ele tenha
relacionado juros com dinheiro, isso não se deveu a um esforço analítico, mas à
sua ausência.
Obs: O texto abaixo não faz parte da análise de Schumpeter, sendo pinçado de um breve texto explicativo, esclarecedor, como é a porposta desse blog, do site mises.org.br, que eu recomendo. Desse texto eu retirei algumas partes
Os sete
pecados capitais da economia.
Antony
Mueller e Samuel Vaz-Curado 18 de
julho de 2023
Alguns
dos grandes pensadores da Grécia Antiga, como Platão e Aristóteles, embora
tenham contribuído enormemente para a filosofia, introduziram uma série de
graves erros que continuam a atrapalhar a ciência econômica.
[Obs: ele não introduziram erros, se o fizessem seriam irresponsáveis, e quase criminosos, o que eles fizeram foi uma “análise econômica” compatível com os dados de sua realidade e o arsenal conceitual de que dispunham — o que é errado hoje era o único ou melhor possível a 2.300 anos; quando Mueller e Vaz-Curado dizem isso, incidem no erro que eles condenam nos filósofos (mais Platão) de absolutizar, logo destemporalizar, os conceitos]
Tese 1:
Platonismo
O
platonismo introduziu na filosofia o conceito de ideias absolutas, que nos
guiam para observar o mundo real. Por exemplo, uma ideia absoluta do bem, da
beleza, da justiça etc. Isso cria na mente uma certa ideia de onisciência.
......
O
platonismo, na economia, pressupõe que nós sabemos mais do que a realidade, e
que a realidade econômica é inerentemente deficiente. Assim, é necessário mudar
este mundo real em sua totalidade para criar nossa visão quase utópica.
......
Hoje em
dia, nós encontramos isso de maneira moderada em todos os lugares na forma do
intervencionismo. Em todos os governos, mesmo fora do totalitarismo, ainda
existe esse voluntarismo e a prática do intervencionismo.
........
Tese 2:
Esterilidade da moeda (tradicionalmente atribuído a Aristóteles)
“O
dinheiro não é produto da convenção dos homens engajados em atividades
econômicas, nem um produto resultante de atos legislativos (…). Foram
indivíduos (…) que, aumentando a consciência de seus interesses econômicos,
adquiriram também a consciência de que a troca de mercadorias menos vendáveis
por aquelas mais vendáveis representa progresso notável na busca de seus
interesses econômicos específicos, e assim surgiu o dinheiro (…), acompanhando
o desenvolvimento progressivo da economia”. Carl Menger.
A moeda
aparece desde a discussão de Aristóteles até hoje como símbolo de riqueza. Hoje
em dia, na fala popular, ainda se diz que um homem é rico por ter muito
dinheiro. Na realidade, a riqueza de uma nação não está na moeda, mas nas
forças produtivas.
A moeda
não é estéril. Tem uma função fundamental no processo da divisão de trabalho. A
moeda, ou o dinheiro, aumenta a produtividade ao possibilitar o aumento da
divisão de trabalho e de capital.
Sem
moeda, também não podemos praticar o cálculo econômico, e não temos preços nem
indicadores de escassez para obter uma alocação eficiente dos recursos.
Assim, em dois lados, esta ideia errada ainda continua na confusão de moeda com riqueza. E segundo, no outro lado, que o dinheiro não contribui para a produtividade.
Tese 3:
Postulado da antiética de cobrar juros
......
A
proibição de cobrar juros é a consequência da tese da esterilidade do dinheiro.
Se o dinheiro não serve para nada, apenas para a riqueza, então cobrar juros é
uma ação antiética.
A Escola
Austríaca de Economia nos ensinou, depois de muitos séculos, que os juros
refletem a preferência temporal e estão intimamente ligados à função do
capitalista. O capitalista, em seu conceito puro, é a pessoa que tem um
diferente nível de preferência temporal e, por isso, está disposta a emprestar
parte de seu dinheiro.
Aquele
que cobra juros recebe uma recompensa pelo tempo de espera, e o que paga juros
ganha tempo em suas decisões econômicas – é como se ele pudesse acelerar o
tempo. Essa é a troca econômica que ocorre em um empréstimo.
[Há
também aqui um custo de oportunidade, pois o dinheiro que se empresta hoje para
um negócio deixa de estar disponível para outro que apareça depois, até mais
lucrativo]
Nos anos 1930, Keynes usou o termo “eutanásia do rentista” para defender políticas de juros baixos que colocassem um fim às pessoas que “vivem de renda”. Keynes não entendeu a função dos juros. Os juros não são um fenômeno de oferta e demanda da moeda, como explicam equivocadamente algumas teorias. Os juros são a consequência da preferência temporal e a recompensa pelo tempo de espera.
Tese 4:
Valor objetivo.
“O valor
subjetivo que um determinado bem tem para uma pessoa é um fenômeno puramente
individual e, portanto, não pode ser imediatamente comparado ao valor subjetivo
que esse mesmo bem tem para as outras pessoas”. Ludwig von Mises.
A tese do
valor objetivo consiste na ideia de que objetos têm um valor intrínseco. No
entanto, valor intrínseco é algo impossível, porque o que se deseja de um
determinado produto não é o produto por si mesmo, mas o serviço que ele pode
nos dar.
Assim, o
valor não está dentro do diamante, mas no serviço da beleza, por exemplo, que
queremos desse diamante. Ou no caso de uma comida, em que queremos a saciedade
provocada pelo alimento ou o prazer que temos ao comê-lo.
Esse erro
continuou com Adam Smith, que, a partir do valor objetivo, postulou a teoria do
valor trabalho, em que o valor dos produtos se cristaliza no valor do trabalho
dispendido em sua produção. Como efeito, a teoria clássica do valor trabalho
foi o ponto de partida para a teoria da exploração de Karl Marx. O grave erro
da teoria do valor objetivo está na ideia de que os custos determinam os
preços, sem perceber que os próprios custos já são preços.
Isso leva
à ideia de que existem valores falsos, que precisam ser corrigidos. Nesse caso,
caberá a algum indivíduo ungido, invariavelmente inserido no aparato estatal, a
função de julgar o “verdadeiro” valor dos bens e determinar quais bens são
necessários ou desnecessários.
... Para os marginalistas, entre eles Carl Menger, o que conta para a determinação da utilidade de um bem é a satisfação de uma necessidade ou desejo. Dessa forma, a utilidade se torna situacional, isto é, ela muda de acordo com a avaliação subjetiva e individual em determinada situação. Em poucas palavras, o valor é marginal, situacional, individual e subjetivo.
Tese 5:
Troca de equivalentes.
......
Uma troca
voluntária só ocorre porque há ganhos e benefícios mútuos. Se duas pessoas
concordam em trocar um produto, a percepção do valor do produto para as duas
pessoas não pode ser a mesma. Do contrário, por que o fariam?
Uma
pessoa só troca um bem por outro caso atribua a este bem um valor maior do que
àquele. O raciocínio é o mesmo, porém inverso, para o outro indivíduo envolvido
na troca. A diferença na valorização incentiva a troca, não a igualdade entre
eles. É a desigualdade dos valores subjetivos que incentiva e, em última
instância, possibilita a troca.
[Cada um
dos que trocam vê um ganho, um aumento de valor, no objeto que vai receber, em
relação ao que tinha, como se o objeto do outro fosse mais valioso que o seu]
Enquanto o preço é objetivo, e está dado para todos os participantes do mercado, o valor é subjetivo e é o que nos motiva a trocar uma coisa por outra.
Tese 6:
Postulado da existência do preço justo.
“Só um
tolo tentaria separar esses valores de tal forma que o preço legal devesse ser
diferente do natural [preço de mercado]”. Juan de Mariana.
O
postulado do preço justo é a consequência das teses da objetividade do valor e
da equivalência na troca. Ademais, esse postulado também mescla moralidade com
análise econômica.
Como consequência, a ideia de que existe preço justo para bens econômicos leva a uma espiral de intervencionismo no mercado. Nesse sentido, dado que alguém deve, por um lado, determinar qual é o preço “justo” e, por outro, aplicar esse preço, o efeito é o fortalecimento do estado em detrimento do indivíduo.
Tese 7:
ilegitimidade do lucro.
“Que
função tem o empreendedor realizado? Em sua busca por lucro (…), ele tem
servido ao consumidor melhor, antecipando onde os fatores são mais valiosos”.
Murray Rothbard.
Ainda
hoje, tem-se a ideia de que o lucro é resultado da exploração. Lucro não é
resultado da exploração, mas da previsão correta. Lucro e prejuízo juntos – não
pode haver lucros sem a possibilidade de prejuízo – são indicadores da ação
empresarial.
Diferente
dos juros, que refletem a preferência temporal, lucro e prejuízo refletem a
incerteza. Se uma empresa obtém lucro, o tamanho do lucro é um indicador de que
os empreendedores desta empresa são capazes de antecipar melhor o futuro do que
os outros.
Não teria
sentido em falar de lucro empresarial sem a possibilidade de prejuízo. Se assim
o fosse, por que não seguirmos todos uma determinada empresa bem-sucedida? O
problema é que, para se ter lucro, é preciso ter uma boa previsão do futuro, no
sentido do produto e não necessariamente para a toda a economia.
[Noutras
palavras conhecer bem a sociedade, os indivíduos e as relações internacionais]
Sempre
que refletirmos sobre esses pecados, devemos separar moralidade e análise
econômica, e evitar esta ideia platônica de que se sabe tudo, pois ela leva à
imposição da moralidade, ética ou perfeição sobre a economia.
Também
devemos ter em conta que o dinheiro é produtivo, e que é necessário cuidar da
moeda, pois uma boa moeda contribui para a nossa produtividade.
.......
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