HOMENAGEEMOS OS NOVOS REIS DO FUTEBOL (Título que foi nosso, e que eles conquistaram com galhardia e bravura, e que nós o entregamos com vergonha e covardia).
Eduardo Simões
E agora, brasileiros? O que vamos fazer com os nossos craques milionários, ativistas? Não que não mereçam ganhar muito dinheiro, só não precisam mostrar que é só isso que importa. Não que eles sejam proibidos de assumir grandes causas, mas quando se ensaia partir para o confronto físico contra toda uma torcida, por causa de xingamentos, isso deixa de ser ativismo para se tornar descontrole emocional, e até falta de confiança em si mesmo.
Nem me digam que o nosso futebol está doente, porque não está, ou pelo menos não é ele a causa principal, mas é a nossa alma e a nossa inteligência, porque nós não nos acreditamos mais como nação, e os argentinos, que têm um amor fulgurante pelo seu país e pela sua cultura nacional, utilizaram disso justamente como alavanca e apoio para tirar de nós, atualmente soltos e perdidos no espaço, e ao mesmo tempo presenteando o mundo com uma arte inigualável, o título de PAÍS DO FUTEBOL, de PÁTRIA DE CHUTEIRAS.
Vejo isso em dois momentos-sínteses:
1º Momento: O choro de Lautaro Martinez após a vitória sobre a Inglaterra, em 15 de julho. Após a partida, ele dá uma declaração que diz tudo:
“É muito forte isso. Na primeira vez que joguei por um par de chuteiras, sempre sonhei com a seleção. Desde os tempos de Racing, das vezes que sonhei… Isso vale mais do que qualquer gol e qualquer final. Tenho amigos, filhos e pessoas que estão me apoiando. Vou aproveitar tudo isso. Quero aproveitar também. Minha filha que me trouxe uma mudança. Sou um homem diferente. Sonhei que iria fazer um gol. Foi maravilhoso.”
2º Momento: uma declaração feita pelo jogador Roberto Carlos em 21 de junho de 2001, após ter se recusado a participar de um jogo pela seleção.
“Vi outras seleções na Europa passarem pelo mesmo problema que a Seleção Brasileira está passando [recusa de jogadores em abrir mão de partidas bem pagas pelos patrocinadores do seu time, para jogar na seleção de seu país, sem esses ganhos]. O problema é que no Brasil existe sempre uma cobrança muito forte. E esta história de amor à camisa é conversa furada. Tenho que ter amor à minha família. A minha função é entrar em campo e jogar futebol, que é o que a Seleção precisa fazer para voltar a ser a número um do mundo.”
Para o argentino de hoje, jogar na seleção é tudo, é um sonho dourado de uma vida, desde a infância, algo transcendente, que ele não consegue falar sem se emocionar, como alguém que lembra de um pai, uma mãe ou uma pessoa muito amada. Fazer o gol decisivo numa partida decisiva é algo que não tem explicação, é divino, e a família tem uma participação fundamental nisso, em especial a sua filhinha, que certamente vai ficar cheia de orgulho do pai, que melhora por causa disso. O nome disso é gratidão!
Para o brasileiro Roberto Carlos, a seleção brasileira é uma seleção como qualquer outra, perante a qual não mais se nutre, como no passado, sentimentos e deferências especiais. Ora, a seleção é uma vitrine formidável para qualquer jogador, em início de carreira, sonhar com salários milionários e uma vida de estrela. E Roberto Carlos quer ganhá-los, sem ser cobrado, como se fosse uma divindade! Não é uma ‘gracinha’? Roberto Carlos, ao contrário de Fernandez, usa a família para justificar o desinteresse e até o descaso pela camisa da seleção. O jogador de futebol é um funcionário como outro qualquer, desempenhando uma função na seleção como outro qualquer, principalmente quando a seleção já o tiver deixado financeiramente bem e famoso. E, segundo ele, é isso que vai fazer a seleção ser vencedora novamente!
Pois é, os jogadores de hoje que ganham uma fortuna toda vez que entram em campo, esnobam a seleção a pretexto de precisar cuidar da família, enquanto deixam uma memória lamentável e arrastam na lama o bom nome da seleção, que ninguém mais respeita. Até o Marrocos partiu para cima, e por pouco não se deu muito bem. Roberto Carlos não tem do que se queixar, saiu do futebol muito mais rico do que entrou, a torcida está quite com ele e, se for sábia, ansiosa por esquecê-lo.
No tempo em que éramos os reis do futebol, nossos craques não amealhavam tantos recursos, mas nos deixavam orgulhosos de sermos brasileiros. Hoje só colhemos vergonha: 7×1 e seis copas seguidas sem vencer: somos Hexas. Hexas perdedores.
Mas não nos iludamos, nem vamos ficar cultivando bodes expiatórios. Todos são culpados, até a torcida, que tem adquirido cada vez mais gosto em brigar com a torcida adversária do que ver seu time vencer. Não serão as sangrentas brigas de torcedores o principal motor de ida aos estádios de uma parte relevante das torcidas? Somos um povo doente. Adoecidos pelos seus próprios pensamentos, preconceitos e uma colossal ignorância turbinada por uma ingratidão visceral.
Enquanto os argentinos enaltecem a sua história e os seus antepassados, “gente superior, e por isso nós também somos superiores”, os brasileiros afundam na misantropia e na autopiedade. Seus antepassados são invasores de terras indígenas, escravocratas e genocidas, como se isso não fosse comum em TODOS, TODOS, TODOS, os outros povos, na época histórica em que tais fatos se deram. Os brasileiros adoram amaldiçoar os seus antepassados, mas quem amaldiçoa os seus antepassados é por eles amaldiçoado, com uma diferença fundamental: a nossa maldição se refere a um passado que não pode ser mudado, sequer ocultado, sem que reapareça de forma piorada adiante, mas a maldição dos antepassados atinge de frente o nosso presente e o nosso futuro, e o futebol é só um dos retratos disso.
Nós nos odiamos tanto que votamos cinco vezes nos candidatos de um partido que diz que a essência da história é a luta de classes, enquanto o seu atual presidente não cessa de lembrar a necessidade de os pobres odiarem os ricos, porque estes só querem se aproveitar dos mais pobres, estando ele garantido que não será mais pobre, como foi no passado. E assim, os pobres devem odiar ricos, pretos aos brancos, mulheres aos homens, da mesma forma como os corintianos odeiam os palmeirenses, os flamenguistas aos vascaínos, etc. Bye, bye, Brasil!
No final das contas, é isso que
importa. É por isso que sonham os nossos craques, graças ao nosso suado dinheiro,
tempo, e agora ferimentos, gastos nas arenas de futebol? Eu pensava que o motor
era a preocupação com a família, mas vejo ser o direito e a honra de frequentar
camarotes especiais, cercados de sheiks, investidores e patrocinadores milionários,
longe da família e do passado. Só para assistir a mais uma derrota da seleção
brasileira e a vitória de uma filosofia de vida infame.
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