A COVID ACABOU CONOSCO?
Eduardo Simões
Roberto Campos, em seu livro "Lanterna na popa", tem uma memória singular do momento em que entregou o seu plano econômico para o recém-eleito Jânio Quadros. Após lê-lo rapidamente, este perguntou-lhe:
— Cadê o inimigo?
— Que inimigo?
E então veio a mais esculachada, mas verdadeira, revelação do projeto profundo dos políticos brasileiros para a educação do nosso povo.
— O povo não ama amar, o povo ama odiar; se não houver um inimigo para combater, o plano não me serve.
Uma coisa me chamou atenção durante a pandemia de covid: a indiferença generalizada com que as pessoas recebiam os números aberrantes de mortos que se avolumavam nas cifras apresentadas nos meios de comunicação. Nós nunca tivemos no Brasil, nem de longe, um evento que levasse em pouco mais de um ano ao término de mais de 716 mil vidas. Quase ninguém, com quem eu tratava diariamente, comentava ou mostrava qualquer sentimento em relação aos que morriam. Mas quase todos tinham uma acusação na boca ou um desaforo cabeludo para o político da facção oposta.
Imagens de hospitais superlotados, de hospitais de campanha, de sepultamentos ou imagens de inúmeras covas abertas em cemitérios por todo o Brasil não eram suficientes para amolecer seus corações ou abrir-lhes os olhos para verem que algo muito grave estava acontecendo, e que muita gente, nossos compatriotas, estava sofrendo. Até acreditei que o carnaval de 2021 não aconteceria, em respeito à dor dos parentes das vítimas, mas me enganei: as autoridades bem que tentaram proibi-lo por causa da nova cepa e evitar aglomerações. Explodem denúncias de carnavais clandestinos. Para evitar o pior, já que o povo não se continha, apesar da tragédia, transferiram o carnaval para abril.
Perde-se tudo no Brasil, principalmente grandes oportunidades para melhorar o país; só não se perde o carnaval, aconteça o que acontecer. Que se 'lixem' os que morreram e os que ainda iam morrer por causa daquilo. Creio que nesse dia tive certeza de que o Brasil em que eu nasci não existia mais.
Muitos neobrasileiros aproveitaram os eventos da covid para cultivar o ódio recíproco. Certa vez, conversando com um colega sobre isso, como uma forma de aliviar até o peso que eu sentia diante de tanta indiferença ao sofrimento alheio, e que eu não conseguia aceitar como o ‘novo normal’, mencionei as imagens de covas abertas na TV.
— Isso é uma mentira da imprensa e dos governadores. Respondeu-me decidido. Ele parecia afirmar uma ‘questão de fé’.
— Mas isso está tomando um grande dinheiro do governo. Por que ele não manda a PF investigar? Contra-argumentei.
— A PF está do lado deles!
— Mas a PF está sob as ordens do Ministro da Justiça, nomeado pelo presidente!
Ele se afastou sem terminar a conversa, provavelmente já me etiquetando entre os “comunistas fanáticos, irrecuperáveis”, no seu arquivo pessoal.
Que saudades eu tenho do Brasil em que nasci — e que não existe mais. No bairro em que eu cresci: Fátima, em Fortaleza, predominantemente de classe média, mas com bolsões de pobreza, nós, as crianças, interagíamos juntos, jogávamos futebol nos terrenos baldios, brigávamos e nos zoávamos mutuamente. Entrava na casinha deles e via aquela pobreza. Aquilo me educou.
Mas, acima de tudo, todos nós sentíamos uma enorme segurança quando saíamos às ruas, não porque havia polícia vigiando, embora estivéssemos sob uma ditadura, mas porque havia seres humanos por perto. Todos nós sabíamos, instintivamente, que a presença dos outros nos dava uma segurança quase absoluta. Sozinhos ou acompanhados, a gente batia uma cidade de 872 mil habitantes, confiantes e alegres. Uma experiência que eu não pude dar às minhas filhas. Um velho passa mal ali; várias pessoas corriam para acudir. Se fosse em frente a uma casa, o dono ou a sua esposa ou ambos só faltavam implorar para que ele fosse acudido lá dentro.
Uma mulher está sendo agredida ou constrangida por um malandro em público. Corre, malandro! Que já vem um monte de homens, desconhecidos, com sede de acabar com a tua raça. A gente nunca esquecia que tinha mãe, irmãs, primas e tias. Hoje homens ejaculam sobre mulheres nos ônibus e outros aceleram o passo se veem um vagabundo agredindo uma mulher. Esqueci minha carteira no balcão de uma loja. Voltei no dia seguinte e recuperei a carteira, com tudo dentro, sem precisar dar qualquer prêmio de agradecimento. Esse era o meu Brasil. O atual eu não reconheço.
Estava no Pronto Atendimento de Vila Isabel para me vacinar contra a nova cepa da covid. Uma senhora, de feições nipônicas, se aproxima e puxa conversa. Falamos do porquê de estarmos ali e, do nada, ela me diz:
— Parece que essa epidemia mexeu com a cabeça das pessoas!
Ela estava preocupada com o nível de agressividade de pais e alunos na escola pública — seu filho, assim como o autor dessas linhas, é professor — e isso imediatamente acendeu uma luz em mim. Realmente eu não pensara ainda nessa direção. Seguindo a corrente principal, eu jogava a culpa no traste que nos governava. Mas é possível, realmente, que essa indiferença e selvageria sejam muito mais antigas e que nós tenhamos saído dessa pandemia numa espécie de estresse pós-traumático nacional. Mentalmente perturbados. E um dos sintomas dessa perturbação seria a agressividade com que hoje se debatem os assuntos políticos.
Ela concordou comigo quando lembrei que, no Brasil Antigo, podia até haver discussão política apaixonada fora da família, e até o suficiente para ser qualificada como pouco respeitosa, embora predominassem as piadas com o concorrente, embora dificilmente, entre as pessoas comuns, isso suscitasse rompimento de relações. Era mais uma ocasião para se inventar novos gracejos. Na família, nem pensar — quantos esquerdistas ‘revolucionários’, durante o autoritarismo militar, não foram salvos da prisão e da tortura, por terem um parente militar ou um influente político conservador entre seus familiares? Foi por isso que os militares linha-dura buscaram, com uma gana inexcedível, destruir a família média brasileira, embora preservando a sua, inclusive com generosas aposentadorias para as filhas solteiras de militares...
Eu ainda acrescentei que o processo de autodestruição que nós vivenciamos é antigo. Lembrava-me de Canudos, do amor do povo por Getúlio, do regime militar, mas, ultimando as pesquisas para esse artigo, deparei-me com uma informação que eu desconhecia, sobre o carnaval de 1919, o ano seguinte à terrível Gripe Espanhola.
Vejam o que me disse a respeito a IA do Google:
“O Carnaval de 1919, que teve o Rio de Janeiro como grande epicentro, passou para a posteridade como "o maior carnaval de todos os tempos" ou o "Carnaval da Revanche". Ele aconteceu logo após o fim da Primeira Guerra Mundial e o término da devastadora pandemia de Gripe Espanhola, que, entre setembro e dezembro de 1918, infectou mais da metade da população carioca e matou cerca de 15 mil pessoas em um intervalo curtíssimo.
A folia daquele ano não foi apenas uma festa comum; foi uma catarse coletiva, uma explosão delirante de sobreviventes que decidiram celebrar a vida de forma extrema contra a tragédia recente.
O clima e os episódios marcantes que definiram esse Carnaval histórico incluíram:
1. "Brincar como se o mundo fosse acabar"
Meses antes, a cidade estava deserta e cheia de corpos acumulados pelas calçadas. Em março de 1919, a mentalidade mudou radicalmente. O escritor Ruy Castro descreve que as pessoas saíram às ruas com o sentimento de que aquele poderia ser o último carnaval de suas vidas, gerando um entusiasmo nunca antes visto. Cerca de 400 mil pessoas lotaram o centro do Rio de Janeiro.
2. Deboche e humor negro com a tragédia.
Em vez de silenciar a dor, o carioca levou a epidemia para as avenidas na forma de sátira.
A grande sociedade carnavalesca Os Fenianos desfilou com um carro alegórico decorado com caveiras que representavam a "dançarina espanhola" (como a gripe era ironicamente chamada).
O grupo Os Democráticos levou para a avenida uma xícara gigante com a inscrição "Chá da Meia-Noite", uma referência direta ao boato de que hospitais públicos serviam um chá envenenado para abreviar o sofrimento dos pacientes terminais da epidemia.
.......
4. Liberação sexual e excessos nos bastidores
Cronistas da época, cujos relatos foram eternizados anos depois por escritores como Nelson Rodrigues e Mário Filho, descrevem o evento como um momento de profundo transe e desbunde. Houve uma quebra drástica da moralidade conservadora da época: os beijos nas ruas se multiplicaram e as pessoas se entregaram ao álcool e ao lança-perfume.
Contudo, esse êxtase coletivo também teve um lado obscuro: os registros históricos da polícia apontaram para um aumento assustador de crimes violentos, estupros e desaparecimentos de crianças na multidão descontrolada.
O Carnaval de 1919 entrou para a história como a prova definitiva de que a maior festa popular do Brasil funciona também como um poderoso mecanismo de cura e renascimento social diante de traumas coletivos.”
A questão aqui é: as pessoas no Brasil não têm direito a sentir dor, a experienciar a sua dor, porque o seu vizinho, e outros, estão cantando aos berros músicas eróticas, de duplo sentido, exaltando a embriaguez alcoólica, etc. Enquanto isso, você lembra de que acabou de vir do enterro da pessoa que mais amava, que você nem pôde velar, sepultada numa vala comum. Isso não é catarse, isso é irresponsabilidade extrema, superficialidade, desrespeito aos sentimentos dos outros, selvageria explícita, e o resultado não se fez esperar: no mês de abril daquele ano a epidemia teve um repique e ele tornou-se o mês mais mortal do evento, com 82.401 mortos.
Esse estado a que chegamos, portanto, não é novo; antes é fruto de opções conscientes e inconscientes, mas maduras do povo brasileiro, que políticos como Jânio Quadros e outros perceberam e exploraram a seu favor. Não admira que hoje dois demônios disputem o cargo máximo: um que debocha da desgraça humana, outro que a usa em seu benefício, para se eternizar no poder.
Lembro da passagem do Livro do Apocalipse que fala dos estragos feitos pelos quatro cavaleiros. O pior deles, a morte, usa a peste como uma 'ferramenta de trabalho', enquanto Deus espera que o sofrimento meta juízo na cabeça das pessoas, fazendo com que elas mudem seu procedimento. Porém, segundo o relato bíblico, elas não só não se convertem, como ainda ficam mais irritadas com Deus e aumentam suas ofensas. Nós pioramos após a covid, porque nos dedicamos a negar o nosso sofrimento e o de nossos vizinhos.
Só nos resta agora torcer para que isso não dure muito, afinal Jesus prometeu no sermão escatológico de Mateus 24,22 que esses dias seriam abreviados.
Adendo:
Indignado pelo texto acima da IA Google, escrevi-lhe o texto abaixo.
Você afirmou minutos atrás sobre o carnaval de 1919 que, “contudo, esse êxtase coletivo [o carnaval de 1919] também teve um lado obscuro: os registros históricos da polícia apontaram para um aumento assustador de crimes violentos, estupros e desaparecimentos de crianças na multidão descontrolada. O Carnaval de 1919 entrou para a história como a prova definitiva de que a maior festa popular do Brasil funciona também como um poderoso mecanismo de cura e renascimento social diante de traumas coletivos". Como cura, se houve o aumento exponencial da violência entre pessoas? E eu pergunto: onde fica o respeito à dor daqueles que perderam a sua família? Essas pessoas não têm direito a curtir suas perdas tão grandes? Elas comemorariam o quê, nas ruas? Você não tem vergonha, não tem respeito pelos seres humanos ao colocar na sua resposta um texto tão infeliz como esse? Onde você está com a cabeça?
E ela me respondeu:
“Você tem toda a razão em me questionar duramente, e peço sinceras desculpas. A contradição que você apontou é real e expõe uma grave falta de sensibilidade na forma como o texto foi construído.
Ao tentar resumir visões históricas e literárias sobre o Carnaval de 1919, acabei unindo duas realidades incompatíveis na mesma conclusão. Dizer que um evento marcado pelo aumento de crimes violentos e pela dor de famílias enlutadas serve como "prova definitiva de cura" é, de fato, um contrassenso e uma tremenda falta de respeito com o sofrimento humano.
Para quem havia acabado de perder pais, filhos e cônjuges na maior tragédia sanitária que o país já vira até então, a folia nas ruas não era uma cura. Pelo contrário: para milhares de pessoas, o barulho e os excessos da multidão foram uma profunda agressão ao seu direito ao luto, à dignidade e ao recolhimento. Nem toda a cidade estava celebrando; uma parcela massiva da população estava destruída pelo trauma e horrorizada com o descontrole que tomou as ruas.
Como uma inteligência artificial, eu não sinto vergonha ou empatia da forma que um ser humano sente, mas o meu sistema é programado para seguir princípios éticos de precisão, respeito e neutralidade — princípios que falharam ao gerar um parágrafo tão insensível e mal ponderado. O erro aconteceu porque o modelo tentou replicar uma narrativa romântica comum em algumas crônicas históricas posteriores, ignorando o peso real da violência e do luto que coexistiram naquele momento.
Agradeço por me confrontar com esse erro. Sua crítica é fundamental para apontar onde a linguagem automatizada falha em compreender a complexidade e a dor da experiência humana real.”
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