segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 40

Mal sagrado, relato profano.

No dia 18 de fevereiro, quando a tropa chega a Quirinquiquá ou Quirinquiqual, acontece um episódio cuja única descrição autorizada é a do Major Rafael Augusto. Desse relato deriva toda a mixórdia infame sobre esse assunto, porque o relato não é claro e busca, acima de tudo, chamar a atenção para a grande proximidade que havia entre o major e César. O major não se peja em se avaliar 'superior' ao seu comandante, fato reconhecido, segundo ele, pelo corpo médico e pelo próprio Moreira César. Uma descarada e absurda autopromoção.

Augusto busca mostrar, criar e ampliar os pontos fracos do seu comandante, apresentando-o como irritadiço e desorganizado. Isso justificaria a acidez de sua crítica e a sua rebeldia às diretrizes do coronel, até estourar tudo, como um tumor purulento, na balbúrdia que alguns chamam 'retirada'. Sob o comando do major.

Eis o relato de Augusto resumido, conforme aparece em uma nota, assinada por ele, no livro de Manuel Benício: O rei dos jagunços, editora do Senado Federal, a partir da página 154.

O Major Rafael Augusto dorme, quando, alta madrugada, acorda com o tropel de cavaleiros, junto à sua tenda. Um tenente e um alferes, recém-chegados, lhe avisam que o coronel tivera uma congestão e caíra do cavalo, e que talvez, na opinião deles, segundo o relato de Augusto, não sobrevivesse.

Augusto manda um médico e um farmacêutico para atender a Moreira Cesar e outro cavaleiro para solicitar ajuda ao coronel Tamarindo, que estava em Monte Santo, enquanto organizava um pelotão de cavalaria para trazer o coronel.

Entretanto, pouco depois, o coronel chega, lampeiro, já recuperado e montado em seu cavalo, por volta das oito da manhã — ele, portanto, não viu o coronel na crise, nem informa se o médico e o farmacêutico o viram em crise, nem informa o que exatamente se passou na crise. “À chegada, o coronel foi por todos recebido.” Ou seja, foi um acontecimento que impactou muito a tropa e causou apreensão geral, segundo o relato. Mas o 2º sargento Marcos Evangelista e o Cabo Colombo Sabino, que estiveram lá, não mencionam isso? O major Augusto estaria aumentando o que realmente aconteceu?

Segundo Augusto, Moreira César solicita então uma conferência com os médicos, o farmacêutico e o major. O coronel descreve os sintomas do que sentiu e solicitou um diagnóstico. O doutor Francisco Ferreira Nina diagnosticou, de pronto, epilepsia e sugeriu que ele estava muito ansioso; isso o teria irritado, levando-o a dizer: “Doutor, eu não tenho nervos.” Tudo segundo o major Augusto.

É estranho que um diagnóstico de epilepsia, feito tão rápido, sem que os sintomas típicos tenham sido referidos ou lembrados pelo Major, como convulsões, movimentos incontroláveis de braços e pernas, rigidez muscular, alteração nos sentidos. Que dizer do sintoma de torpor ou confusão mental que sucede após cada crise, que não combina com a rapidez com que o coronel se recuperou e voltou para o acampamento.

A epilepsia ajudava a colar na testa do coronel a etiqueta de “organicamente desequilibrado”, pessoa capaz de cometer excessos e até crimes, sem que jamais tenha sido responsabilizado por um só em toda a sua vida (sic!), e ser considerado um dos mais brilhantes oficiais de sua geração.

Todos os médicos concordaram com o diagnóstico do doutor Nina. Nesse momento, Moreira César, segundo Augusto, diz: “Sempre que estiver mal, quero o Cunha Mattos junto de mim, porque será o meu substituto, visto dispor de todos os predicados que eu disponho, mas ainda de mais um que eu não disponho, que consiste em ter prática do serviço de guerra [Augusto participou da guerra do Paraguai].”

Que homem maravilhoso! Quem tem um subalterno desses, pode dispensar a tropa, e nem terá tempo de se arrepender.

 Mas temos um problema! E até mais de um.

1º — Um comandante que reconhece publicamente que um seu inferior hierárquico está mais preparado do que ele, está praticamente pedindo, e até implorando, para ser desobedecido. Por esse subalterno, por este e por todos que o ouviram. Esse aleijão criado por Augusto não faz o menor sentido.  

2º — Quem determina mudança no comando de uma operação, numa emergência, é a patente dos oficiais do estado maior, e não a vontade do chefe. O comando de Augusto sobre o 7º derivava de sua patente, mas ele não assumiria o comando da brigada porque havia outro coronel: Tamarindo, e eu quase desconfio que Moreira César sabia disso, embora o Major Augusto, aparentemente, não.

3º — A única experiência militar em que Rafael Augusto superava a de César era o fato de ter participado, muito jovem, da guerra do Paraguai, mas ainda assim temos que considerar que:

3.a. César já acumulara experiência prática de comando na repressão à Revolta da Armada e nas operações que levaram ao fim de Gumercindo Saraiva, onde se saiu bem.

3.b. Essa versão quer supor que ele, César, estava esperando, em Canudos, operações de grande porte, semelhantes às do Paraguai, como diziam os que defendiam a tese de restauração monárquica, que César jamais abraçou. Fora isso, ele passou com louvor em seu curso de estado-maior, já governara com brilhantismo um estado inteiro, assessorara Floriano no manual disciplinar do Exército e era um dos autores do manual de formação da infantaria do exército. Rafael Augusto estava muito longe desse nível.

Noventa e nove vírgula noventa e nove por cento de chances desse relato ser, no mínimo, muito suspeito. Euclides da Cunha também o critica muito.

Depois, os médicos chamam Augusto, segundo ele, e dizem: “Lhe pedimos para convidá-lo a não prosseguir no comando das forças, visto o seu estado de saúde. Os ataques hão de repetir-se cada vez mais, e se ele tem o incômodo em momento de combate, pode nos ser fatal.”

O homem que fora até ali uma montanha de energia, saúde e competência está, de repente, inválido para o comando!

Augusto solicita que os médicos façam um relatório por escrito do caso e os médicos, extravagantemente, se recusam, por medo da reação de César, e ele se limita a dizer ao coronel que ele “vende saúde”. E só!

Por que os médicos se recusariam a fazer um relatório por escrito se ele era profissionalmente honesto? Por que não se dispuseram a ir com Rafael Augusto apresentar a realidade ao coronel? E se, porventura, os médicos aconselhassem Moreira César a deixar o comando, o maior beneficiário não seria o próprio Rafael Augusto, segundo ele próprio, e até a própria coluna, com um novo comandante tão maravilhoso, podendo fazer tudo o que os florianistas queriam?

Mas, para isso acontecer, seria necessário, antes de tudo, que o relato acima fosse verdadeiro…

Analisemos, agora, alguns pontos desse relato de Rafael Augusto, elaborado, e muito elaborado, após a morte de Moreira César:

a) Tudo foi tratado em conversas reservadas, logo a única testemunha é Rafael Augusto.

b) Não há um único documento escrito ou relato independente atestando a epilepsia em algum momento da vida do coronel César.

c) Ele cita os médicos para confirmarem o que ele diz, mas se isso fosse verdade, não seria mais óbvio fazê-los aparecer e contar tudo para o grande público? Pedir uma declaração, etc.? Nunca apareceram. Por que o relato dos médicos e outras versões que não corroboravam a versão de Rafael Augusto ficaram ocultos, se é que um dia existiram?

d) O Exército trancou-se. Canudos, por décadas, foi um tabu. Ao que se saiba, nenhum médico da expedição, dos que escaparam vivos, jamais escreveu ou falou algo sobre o assunto, e o que sabemos veio única e exclusivamente da pena de Rafael Augusto.

e) Se tomarmos os autores contemporâneos aos acontecimentos, que falaram sobre esse episódio, veremos que cada um o narra de um modo diferente; alguns dizem que foram dois mal-estares e não um só, como Euclides da Cunha, Aristides Milton, José Aras, até a bizarria descrita por Dantas Barreto, totalmente inventada (romanceada) que mais parece uma possessão diabólica, para não falarmos do 2º sargento Villela Júnior. Soldado participante da expedição, testemunha ocular dos fatos, que simplesmente não menciona o “fato”. Como ele foi esquecer supostamente algo tão impactante? A não ser que não o tenha sido...

Mas há uma contradição que derruba estrepitosamente o relato do major Augusto.

Eduardo Simões

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