terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O CUNHADISMO E O NOSSO COMPLEXO DE INFERIORIDADE

Agradeço aos amigos da bendita Rússia, Brasil, Estados Unidos, Índia, Canadá, Alemanha, França e de outros países, pela visita ao nosso blog. Espero que lhes seja útil. Que Deus os abençoe.

Novo Verbete "Forte James" - Tecno

Prof Eduardo Simões


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__ Um episódio particularmente espinhoso para a angustiada alma latino-americana foi o da ligação supostamente afetiva e frequente entre índias e colonizadores europeus, nos primórdios da moderna colonização do continente, com resultados negativos para a população nativa, nas três Américas (do Sul, Central e do Norte), com desdobramentos curiosos e ricos de significado. Mas antes de qualquer análise é bom esclarecer dois pontos fundamentais.
1º - Não havia, a princípio, amor ou a busca de qualquer sentimento de simpatia mútua entre o casal formado dessas uniões, como era costume tanto na Europa com na Ameríndia. O casamento, tanto num como noutro continente era arranjado pelas famílias dos nubentes, a revelia do que pudessem sentir um pelo outro, ou como se dizia antigamente: o amor vem depois, da convivência. Portanto, a índia fazia aquilo que os índios a mandavam fazer. 
2º - Entre as comunidades tribais americanas predominavam os laços de sangue e desse modo a união entre uma moça da tribo e um viajante estrangeiro era o melhor meio de selar uma aliança entre uma tribo americana qualquer e a poderosa tribo recém-chegada do mar – os índios viam os europeus como uma tribo estranha – o  criando uma estratégia de “relações internacionais” que os estudiosos chamaram de cunhadismo (1).
__ A respeito do potencial de intermediação civilizatório-cultural da índia, tradicionalmente ignorado, é interessante ler o que diz Gilberto Freyre, em seu imortal Casa grande e senzala (50ª edição; Global; 2005; São Paulo; p 162-163 e 189-198); “À mulher gentia temos que considerá-la não só a base física da família brasileira, aquela em que se apoiou, robustecendo e multiplicando-se, a energia de reduzido número de povoadores europeus [ou seja, uma colaboradora vital], mas [também] valioso elemento de cultura... Por seu intermédio enriqueceu-se a vida no Brasil... de uma série de alimentos ainda hoje em uso, de drogas e remédios caseiros, de tradições ligadas ao desenvolvimento da criança, de um conjunto de utensílios de cozinha, de processos de higiene tropical – inclusive o banho frequente... ela nos deu a rede... o óleo de coco para o cabelo das mulheres [alguém se lembra?]; um grupo de animais domésticos amansados por suas mãos...” Noutro ponto ele arremata “vários desses processos [de tirar partido das riquezas naturais da terra] e conhecimentos... vale a pena acentuar que recebeu-os o colonizador europeu das mãos da mulher – elemento mais produtor que o homem nas culturas primitivas...”
__ A “multiplicação”, sugerida no texto acima, se refere aos filhos mestiços, chamados pelos padres de “mamelucos”, em referência a um conceito criado no contexto da Europa, nas regiões dominadas pelos árabes (2), e que reproduz fielmente o que por aqui passou. De fato, não só não existia amor como não havia reciprocidade derivada de um respeito mútuo, na grande maioria dos casos, pois a união entre esse homem e essa índia não ensejava a formação de família, mas antes uma aliança estratégica, com um objetivo marcadamente comercial, pelo menos da parte do “civilizado” (3). Era uma relação assimétrica, com um claro polo superior e outro inferior, transmitindo os conflitos decorrentes dessa bipolaridade para as gerações futuras: os mamelucos brasileiros eram ensinados, pelos pais e por amigos e parentes destes, de forma acintosa ou na convivência, a desprezar a cultura da mãe e a mulher em geral. Mas como ele era filho dessa mulher, e logo parte dela também, daí brotou um profundo sentimento de inferioridade, eventualmente compensado por brutais razias às tribos não “cunhadas”, como era do interesse econômico do pai e do sistema colonial, a cata de escravos, o negócio do momento, e onde ele podia provar a si mesmo e aos outros que não tinha nada a ver com aquela gente, apesar da pele, dos cabelos, dos trejeitos, da língua, etc.

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Wikipedia

__ Esse sentimento ambíguo em relação às nossas raízes, que dificulta a criação de uma identidade clara, livre e plenamente, vai se manifestar de uma maneira pendular deveras suis generis: no início do século XX a nossa grande frustração era não sermos como os povos europeus mais desenvolvidos – tentando sanar isso o nosso Rodrigues Alves vai fazer uma reforma no Rio de Janeiro para deixá-la nos moldes da Paris do barão Huismann, tendo antes que mover uma guerra, em 1904, contra setores da população, que ainda pensavam como “índios”, “primitivos” e “selvagens”. Gilberto Freyre tentará contornar, senão curar, o sentimento de inferioridade vigente, derivado da presença do índio e do negro na nossa formação no seu Casa grande e senzala, mostrando não as vantagens da cultura ameríndia e da africana, que, além de outras, levantaram o astral da nação ao longo dos anos 1950 e 1960.
__ Nesse ambiente, porém já se observava o desgaste contínuo dos antigos mitos cunhadistas, inclusive mais famoso deles: a união entre a índia Paraguaçu e o náufrago português Diogo Álvares, tão valorizados durante a fase Imperial, quando uma casa nobre luso-brasileira reinou no país, afinal Diogo era português, e Paraguaçu era apresentada como a mãe simbólica de uma nação mestiça, aparentemente subestimada pelos nossos imperadores que não se deram trabalho de criar um sistema escolar ou sequer uma universidade, como se o investimento não valesse a pena! Mas à medida que o nosso complexo nos levava para os países mais ricos, nos descolávamos também de Portugal, como uma carga incômoda, ou nos lembrávamos dele apenas para nos fazermos herdeiros do Império Romano. A língua portuguesa, afinal, não é a “última flor do Lácio, inculta e bela?”

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__ Brasileiro, brancos, de matriz cultural europeia, revoltados com o tratamento dado há séculos a índios, africanos e “populares” depredam o relógio comemorativo dos 500 anos da chegada dos europeus, ao som da “internacional socialista”, em Porto Alegre. A tropa mandada ao local foi, posteriormente, acusada por não impedir o vandalismo. 

__ Com avanço cada vez maior de vertentes do pensamento marxista-positivista em nossa sociedade, graças ao Regime Militar de 1964, que pela sua truculência anticomunista tornou odioso tudo que não era comunista, esses antigos mitos da nacionalidade passam por uma revisão geral, afinal eram só mitos, logo não eram afirmações “científicas”, como a sua ideologia proletária, além de estarem a serviço da ordem burguesa. Essa gente clamou, e muitos creram, que a nação brasileira não passa de um ajuste mal enjambrado de um projeto colonialista, burguês, sanguinário e excludente, jogando a nossa autoestima no mais baixo nível, em nome da nossa “libertação”. E assim, quando vieram os festejos pelos quinhentos anos da chegada dos europeus, o pêndulo do nosso sentimento de inferioridade, e de boa parte da América hispânica, estava no extremo oposto, não sendo então de admirar atos de violência e depredação, em protesto contra a vinda dos europeus, baseado num modelo ideológico importado da Europa! (4).  
__ Bem, se não dá para falar da história oficial, excessivamente contaminada pelas “classes dominantes”, conforme o surrado jargão marxista, que fazer com essa história mais antiga do Brasil, enquanto não vem à luz uma história “revolucionária” o bastante para se dar crédito ou não nos cause náuseas ou sono quando a lemos, como as insuportáveis descrições de estruturas, transformações econômicas, e outras abstrações que hoje povoam as páginas do livro de história brasileiros, didáticos ou não, e fizeram essa disciplina, de acordo com o jornal Folha de São Paulo, a segunda mais detestada pelos alunos brasileiros, depois da matemática, uma vez que não existem mais personagens situados historicamente ou comportamentos modelares, mas apenas vis interesses econômicos? Coloca-se uma pedra encima ou se abre esse conteúdo para a mais grotesca deformação.
__ Na impossibilidade de se tratar seriamente essa temática, seria politicamente incorreto, relegou-se temas como esse a abordagens carnavalizadas, como uma forma de ridicularizá-las da seguinte maneira:
1º - Esses assuntos são tratados como tema para samba-enredo de escola, onde a licença poética faz toda sorte de estrago ou benefício, de acordo com o gosto do “freguês”..
2º - Como uma extensão dessa “licença poética” aparecem os filmes picarescos e picaretas como o mais recente, Caramuru - A invenção do Brasil, de 2001, dirigido por um diretor premiado (Guel Arraes), e estrelado por alguns dos melhores atores da nova e antiga geração (Selton Mello, Camila Pitanga, Deborah Secco, Débora Bloch, Diogo Vilela, etc.) onde tudo gira em torno de triângulos amorosos, Caramuru é um garanhão preocupado em não virar touro, as índias são mulheres sensuais e fáceis (o estereótipo infame das brasileiras), a aldeia um bordel, o morubixaba um cafetão, e os europeus, para não fugir dos clichês e não parecer politicamente incorreto, pérfidos e gananciosos.
__ Mas, para que ninguém pense que nós não estamos completamente desamparados, pelo outro lado, o das comemorações oficiais e das autoridades constituídas, depois de rejeitar um projeto para construção de uma caravela da USP, o governo apoiou outro do Clube Naval, onde um respeitável engenheiro militar assinava para acobertar seu executor: um artesão francês não especializado. A nau não conseguiu terminar nem a primeira viagem e está encalhada até hoje, início de 2016, a Polícia Federal entrou em campo, o artesão francês correu do Brasil, entre quatro e dois milhões e meio de dólares foram para o ralo, assim como a crença de muita gente nas possibilidades desse país...

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__ Qual é a nação, neste mundo, que não tenha no seu passado um crime gravíssimo para expiar? Quando vamos parar de dar ouvidos a autoridades coloniais gananciosas, políticos desonestos e “revolucionários” demagogos e delirantes? Não dá para viver bem e construir uma sociedade cristã, justa e democrática com uma nação eternamente envergonhada de si mesma! Isso tem que mudar!

Notas
(1) Segundo Darcy Ribeiro, o cunhadismo foi uma instituição fundamental na formação do povo brasileiro, tratava-se num “velho uso indígena de incorporar estranhos à sua comunidade. Consistia em lhes dar uma moça índia como esposa. Assim que ele a assumisse, estabelecia, automaticamente, mil laços que o aparentavam com todos os membros do grupo”. Dessa maneira, “graças ao sistema de parentesco classificatório dos índios, que relaciona, uns com os outros, todos os membros do seu povo”, e dessa maneira os pais da índia passavam a ser seus pais ou sogros, os irmãos dela eram seus irmãos ou cunhados, e os filhos deles passavam a ser seus filhos ou genros. A vantagem desse sistema era evidente quando se tem em mente a tarefa de cortar e recolher o pau-brasil, cujo pagamento pela mão de obra podia sair mais barato, como acontece quando se abusa da boa vontade de parentes. “Como cada europeu da costa podia fazer muitíssimos desses casamentos, a instituição funcionava como uma forma vasta e eficaz de recrutamento de mão de obra”.
Ribeiro lembra bem: “como não havia um comando geral para os índios em região nenhuma, pois cada aldeia era uma unidade autônoma, cada aldeia levava uma moça para o branco que se aproximasse mais deles. E como muitas aldeias levavam muitas moças...” o indivíduo ficava cercado de esposas e parentes, como aconteceu com João Ramalho, em São Paulo, Diogo Álvares, na Bahia, Jerônimo de Albuquerque, em Pernambuco. Um bispo de Olinda denunciava, no final do século XVII, que o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho tinha seis mulheres! Que faria ele se soubesse que um cidadão espanhol, em Assunção, no Vice-Reinado da Prata, que chegou a ter oitenta mulheres? E este ainda poderia argumentar que a recusa a qualquer uma delas poderia ser vista, senão como uma ofensa, como um grande constrangimento, e um desserviço à causa colonial, que também interessava à Igreja.
O cunhadismo desempenhou um papel importante no povoamento da terra, embora também tivesse um defeito estrutural: era acessível a qualquer um que desembarcasse. “Sem a prática do cunhadismo era impraticável a criação do Brasil. Os povoadores europeus que por aqui vieram ter eram uns poucos náufragos e degredados [mesmo posteriormente, expedições com centenas de colonos eram raríssimas]... com base no cunhadismo se estabeleceu criatório de gente mestiça nos focos onde náufragos e degredados se assentaram. Primeiro, junto com os índios nas aldeias, quando adotam seus costumes... Outros formaram unidades apartadas das aldeias, compostas por eles, suas múltiplas mulheres índias, seus numerosos filhos, sempre em contato com a numerosa parentela delas”. “Assim o cunhadismo multiplica fantasticamente a população... Vemos então essa coisa espantosa: como Portugal, com apenas um milhão de habitantes, consegue dominar esse mundo enorme? Primeiro com o cunhadismo; depois pela ação do bandeirante. E o bandeirante, quem é? É o mameluco parido por uma índia, que não se identificava com a mãe, mas falava a língua da mãe [o que facilitava a sua inserção no que havia de pior no projeto colonial: o trabalho gratuito dos parentes e o trabalho compulsório dos nativos, não cunhados]”.
Os trechos de Darcy Ribeiro foram retirados de:
http://www.geocities.ws/terrabrasileira/contatos/cunhado.html
https://catatau.wordpress.com/2008/07/17/do-cunhadismo-ao-mameluco/
(2) Diz Ribeiro, que esse nome foi pela primeira vez dado aos paulistas pelo padre espanhol Antonio Ruiz de Montoya, e esclarece: “Aliás, “mameluco” é uma palavra para o menino criado na casa árabe... se era muito bruto, capavam e servia como eunuco; se era bom cavaleiro... podia ser um janízaro ou xipaio... Mas os que revelassem talento... alcançavam a alta condição de mameluco. Este era devolvido ao seu povo para administrá-lo; tinham então a cara de seu povo, mas a alma árabe” (https://catatau.wordpress.com/2008/07/17/do-cunhadismo-ao-mameluco/). É bom lembrar que, caso a administração não fosse bem acatada, sempre havia a possibilidade de lançar contra a comunidade rebelde represálias de temíveis janízaros, nascidos nessas comunidades, da mesma forma que os nossos mamelucos prestaram serviço análogo à colonização portuguesa, organizando, apoiando e realizando ataques às tribos adversárias.
(3) Esse é um dos grandes dramas da América católica, nunca descortinado com clareza pelo clero. O catolicismo, como toda religião cristã, excluídos os mórmons americanos, é fortemente fundamentado no conceito de família monogâmica. O problema é que na união entre colonos e índias pelo cunhadismo, se havia ainda alguma intenção de formar família, esta era exclusiva da parte “pagã”, que não passava pelo modelo monogâmico, sem falar em outros costumes considerados intoleráveis pelos padres, pois da parte do português ou espanhol cristão, em geral, a principal motivação era de sobrevivência física imediata e um vantajoso acordo comercial – que incluía, inclusive, a brutal exploração do trabalho infantil – ativamente estimulado pelos funcionários do governo, eles também “católicos”. O conceito de família, nascido precariamente da união entre o colono e a índia, vai ser ainda mais vilipendiado por meio da generalização da escravatura africana, igualmente tolerado pelo clero católico.
(4) São muito reveladores esses trechos de um manifesto elaborado pelo CIMI, Conselho Indigenista Missionário, órgão vinculado à CNBB, da Igreja Católica, por ocasião das comemorações dos 500 anos. Chama-se “Brasil: 500 anos de resistência indígena, negra e popular”.
“Disto [doenças, armas mortais, impulso de violência, exploração, depredação e saque], eram portadores privilegiados (!) aquele grupo de homens maltrapilhos e doentes que desceu na praia da hoje Cabrália, sul da Bahia, cinco séculos atrás... Naquele dia foi dado início à expansão do velho mundo [a Europa] nessas terras, através da sua brutalidade letal e organizada, pronta para lançar-se contra tudo e contra todos”. Em nome do combate ao racismo histórico de que foram vítimas os povos negros e indígenas, parte-se para o revide com expressões de um racismo grotesco, voltadas não contra um povo apenas, mas contra todo um continente, justo de onde veio o cristianismo, sem o qual não existiria CNBB, CIMI, e a colonização do jeito que foi.
“Não acreditamos numa história escrita pelas classes dominantes... numa versão mistificadora e falsa do processo histórico. Pretendemos, através do nosso movimento, desmistificar a construção da mentira oficial...” O que esse trecho questiona não são os critérios de fazer história, mas o fato de ela ser feita por uma classe, afinal tudo não passa de ideologia e confronto de ideologias, e nesse caso a diferença entre a mentira e a verdade é apenas a frequência com que uma ou outra é repetida. A luta é pelo monopólio dos meios de comunicação, e não pelo aprimoramento dos meios concretos de pesquisa e expressão da realidade histórica.
“Durante a difícil constituição da sociedade brasileira nesses 500 anos, a violência sempre permaneceu... De igual maneira, os exemplos de generosidade, criatividade e de vontade de construir um território livre e independente e uma sociedade justa e humana sempre existiram, e quem os legou a nós foram os povos indígenas, os negros escravizados e os setores populares”. E nesse caso como fica o cristianismo, uma vez que é de origem branca e europeia, e o magistério da Igreja, que preserva e mantém a incolumidade da doutrina cristã e é composto por bispos que moram em palácios? Os traficantes, que moram em favelas, podem ser considerados heróis “populares”, interessados em um mundo mais humano, mais justo?
“Para... nós a noção de conflito é central na história... A brutalidade do genocídio indígena, capitaneada pela empresa colonial e responsável pela extinção de povos inteiros [na América]... espoliou povos africanos... vitimou e vitima cotidianamente os setores populares, marca uma das sociedades mais desiguais do planeta: a sociedade brasileira”. Chamo a atenção para três coisas: o jargão marxista da luta de classes como motor da história, e até prova em contrário Karl Marx era de um continente onde só poderíamos esperar doenças, brutalidades, armas letais e ganância, o que demonstra que os autores do texto são pensantes europeus querendo falar pelos índios brasileiros; segundo para a negação da história sugerindo que a sociedade ou a “classe dominante” de hoje é exatamente igual à da época colonial: um convite a uma convivência impossível ou a uma guerra santa?; terceiro, a expressão que revela a existência de um profundo sentimento de inferioridade difuso e latente, na necessidade de frisar que a sociedade brasileira é uma das mais desiguais do “planeta”, com se tudo o mais passasse de uma introdução a essa conclusão fatal. Mas se a sociedade brasileira é assim tão ruim, essas pessoas maravilhosas (indígenas, afro-brasileiros e populares) devem ser uma minoria muito pequena, uma vez que, embora tão virtuosas e presentes aqui há 500 anos, não conseguiram ainda mudar o país! (CIMI; Povos indígenas aqueles que devem viver - Manifesto contra os decretos de exterminio; Brasília 2012)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

HISTÓRIA DA IGREJA BASEADA EM JEDIN – IX

Obrigado aos amigos da Rússia, Brasil, Estados Unidos, Canadá, Índia, França, Portugal, Espanha que acompanham esse blog. Que ele vos seja útil. Deus os abençoe.

Prof Eduardo Simões

As Igrejas de Paulo

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__ Figura central na difusão do cristianismo bacia oriental do Mediterrâneo, na formulação de uma teologia fundamental e dos ideais cristãos básicos, por meio de suas cartas, a pessoa de Paulo é tão significativa para a história do cristianismo que alguns pensadores menos reflexivos, principalmente no século XIX, quiseram atribuir-lhe o papel de fundador dessa religião, mas com certeza ele foi sim um “instrumento de escol” (At 9,15), um empreendedor e um organizador inigualável, que deixou sua marca pessoal em muitas igrejas da Ásia Menor e do Sul da Europa. Eis algumas observações de Jedin:
__ “Apoiado nessa consciência [de sua autoridade] toma decisões obrigatórias às suas igrejas, como quando ordena a expulsão do incestuoso da comunidade de Corinto [coisa que ele faz à distância, por carta!] (1Cor 5)... Paulo não é somente, para as suas igrejas, a suprema autoridade docente, ele é também juiz e legislador supremo, o ápice da ordem hierárquica” (1966; p 176). Paulo é, por assim dizer, o Papa ou o bispo de todas as igrejas por ele fundadas, e por cuja organização ele se esmera, “... são chamados para membros dessa ordem hierárquica [nas comunidades] outros homens, a quem se recomenda determinadas tarefas, como o cuidado com os mais pobres e a direção de culto; para o desempenho de suas funções gozam de um direito de governo ou de mando... Assim, pois, Paulo respalda com a sua autoridade a estes “ministros”, cuja autoridade é, portanto, uma extensão da sua, embora subordinada e limitada... Os titulares dessas funções são chamados anciãos, presbyteroi... No começo da carta aos filipenses aparecem, junto com os “epíscopos”, os diáconos, como sujeitos de funções especiais dentro nas comunidades” (1966; p 176). Paulo se preocupa me criar uma estrutura administrativa, para as igrejas, mas não é só isso...
__ “Junto aos sujeitos do poder e da ordem, se encontram, dentro das comunidades paulinas, os carismáticos, cujas funções são essencialmente diferentes. Seus dons, em especial o da profecia e o da glossolalia, veem diretamente do Espírito Santo... Não estão [esses dons], por conseguinte, necessariamente vinculados a uma pessoa [como no caso das funções anteriormente descritas, pois são dons gratuitos], nem são essencialmente necessários para a subsistência da Igreja. Os carismáticos atuam nas reuniões litúrgicas e... mantém vivo nelas o generoso entusiasmo da nova fé [que impede que ela se transforme numa burocracia religiosa “petrificada”], mas não são os guardiões nem garantia da ordem. Por vezes a perturbam ou a põem em perigo, pois o extraordinário e misterioso de sua atuação induz a alguns membros a sobrevalorizarem os seus dons, contra o quê Paulo tem que levantar a voz (1Cor 14)”. Os atuais carismáticos deveriam também refletir nisso.

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__ Percebemos então, pelas páginas dos Atos dos Apóstolos e das Cartas Paulinas, que, apesar de seu temperamento apaixonado, visceral, tipicamente semita, Paulo, longe de ser um “místico”, no sentido pejorativo de um “alheado”, um “alienado”, ou um histérico religioso, é orientado em suas decisões sobre a Igreja por um espírito realista, lógico, preocupado não só em abrir caminhos, o que fazia com uma disposição incomum, mas também de criar alicerces para o que viria depois, as bases de uma estrutura administrativo-burocrática, como o exige a fraqueza humana, e assim nem ele nem as futuras gerações perderiam a colheita de tão abundante semeadura. Era uma organização ambivalente, com uma linha de comando bem definida e vertical, mas que não cessava de fazer apelos ao coletivo, enquanto se abria ao influxo do entusiasmo carismático, “não extingais o Espírito, não desprezeis as professias” (1Ts 5,19-20), ao mesmo tempo em que alertava: “discerni tudo” (1Ts 5,21), e procurava colocar essa expansões sob certo controle: “Se há alguém que fale em línguas, falem um ou dois, no máximo três, um após o outro. E que alguém as interprete. Se não há interprete, cale-se o irmão na assembleia” (1Cor 14,27-28) e “vós todos podeis profetizar, mas cada um a seu turno... Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas. Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz” (14,31-32). É uma estrutura que muito classificariam como contraditória, mas que também poderia muito bem ser definida como flexível, aberta e adaptativa.
__ Além disso, deve-se ressaltar Paulo como o apóstolo da liberdade (1), tema caro e contundente em muitas passagens de suas cartas, em especial contra o perigo daqueles que queriam fazer os cristãos resvalarem para o jugo da Lei farisaica (Rm 7,6; 1Cor 9,1; 2Cor 3,17; Gl 4,26; 5,1.13; stc.), embora ele também recomende que essa liberdade seja vivida com prudência (1Cor 8,9; 6,12; 10,23; etc.). Essa liberdade, associada ao conceito grego de liberdade de expressão e pensamento, e do conceito romano de direito ou reciprocidade ante as instituições públicas, serviu às igrejas fundadas por ele ou por seus discípulos, para buscar outra liberdade igualmente preciosa para o desempenho de sua missão: a liberdade, ou antes, a independência em relação ao Estado. Cada um, Estado e Igreja, atuando em sua própria esfera de influência, e nesse sentido se pode dizer que Paulo foi o fundador do cristianismo ocidental, em sua luta titânica para se libertar das amarras do estado ou, mesmo quando muito unida a este, preservar a sua identidade, sem deixar de advogar a submissão do cristão às leis desse Estado. As cristandades orientais seguiram um caminho diferente, e pagaram o preço.
__ Sobre as comunidades paulinas, ainda segundo Jedin, podemos ressaltar a enorme ênfase dada ao sacramento do batismo, como uma maneira de dar “eficácia à morte expiatória de Cristo [o batismo, como a morte de Cristo, apaga os nossos pecados]” (idem; p 179); a reunião semanal no “primeiro dia da semana” (At 20,7), “embora [o uso do domingo] não se dê por razões religiosas... o fato de abandonar o sábado inicia claramente um distanciamento do culto jerusolimitano. Para que a comunidade possa celebrá-lo, são postas à sua disposição as casas dos cristãos mais abastados” (idem, idem). E ainda; “o centro e a culminação da liturgia é a celebração da ceia do Senhor” (idem, idem), que naquele momento consistia numa ceia propriamente dita com comidas e bebida, que certamente ajudavam a fortalecer o elo de união entre os membros da comunidade, mas que também gerava abusos. Certa vez, argumentando contra esses abusos, Paulo nos apresenta a essência dessa ceia, também chamada de “fração do pão”: “o cálice de benção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16)” (BJ) (2).

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http://www.britannica.com/

__ “Uma das grandes façanhas do Apóstolo das Nações, segundo Jedin, é que a consciência de uma igreja universal, por ele despertada e fomentada em suas comunidades, tornou possível a propagação do cristianismo no mundo pagão, sem que os cristãos se cindissem em dois grupos separados: um de origem judia e outro de origem pagã” (idem; p 178). Ou seja, criar na Igreja uma capacidade de moldar o ambiente cultural, ao mesmo tempo em que é por este influenciada, uma capacidade essa que, por exemplo, o judaísmo não desenvolveu e acabou ficando para trás na conquista espiritual do Mediterrâneo e do mundo, não sem ressentimentos mútuos.
__ Infelizmente não dispomos de informação dobre o que acontecia na seara dos outros apóstolos e discípulos, em outras áreas do império romano ou fora dele. Deus assim o quis, e eles sumiram da história, deixando, quando muito, rastros vagos na forma dos chamados escritos apócrifos e sobre eles Jedin é taxativo: “Apenas nos séculos II e III se tratou de preencher essas lacunas [da falta de informações sobre os apóstolos], por meio dos chamados Atos dos apóstolos apócrifos... Por seu gênero literário esses livros se assemelham a novelas e livros antigos de viagem [muito em voga no âmbito do helenismo], e seus heróis são descritos segundo o modelo do herói profano. Normalmente procedem de ambientes heréticos gnósticos, e nesse caso são claramente escritos com o objetivo de reforçar as doutrinas desses grupos, respaldando-as com o nome de uma autoridade reconhecida. Os Atos dos apóstolos apócrifos que procedem de ambientes eclesiásticos ortodoxos ou são neles refundidos, dirigem-se ao interesse da gente simples pelos detalhes pitorescos da vida desses grandes personagens do passado cristão... seu valor como fontes radica em nos permitir sondar as ideias religiosas da época em que foram escritos; mas seus dados sobre a atividade missionária, o gênero de morte e campo de trabalho deste ou daquele apóstolo são, em absoluto, inverificáceis” (idem, p 185). Voltamos à estaca zero.

O Epílogo Joanino

__ Caprichosamente situada na desembocadura do rio Caístro, Küçük Menderes, em turco – um riozinho com 114 km de extensão – ficava a cidade de Éfeso, uma das mais importantes da província romana da Ásia Menor. Servida por um porto, o Panormo, a cidade era um entroncamento rotas comerciais terrestres e marítimas, que lhe trouxeram grande prosperidade, e a tornavam um lugar estratégico para quem pretendesse difundir alguma ideia na área mais rica e populosa do império.
__ Muito povoada para os padrões da época: em torno de 100 mil habitantes, a cidade possuía uma biblioteca, a Biblioteca de Celso, que com seus 12 mil volumes era uma das maiores do mundo ocidental, um teatro para 25 mil espectadores, um odeon, espaço arquitetonicamente semelhante ao teatro, mas destinado exclusivamente a competições de canto e poesia, vários ginásios, uma grande terma, stadium para corridas de cavalos, uma sinagoga, vários templos pagãos, principalmente o Templo de Ártemis, ou Diana, nomeado por Heródoto com uma das sete maravilhas do mundo antigo, e que foi fonte de um sério contratempo para Paulo, quando lá esteve, de 52 a 54, uma vez que o sucesso de sua pregação ameaçava a prosperidade financeira do comércio de ídolos que crescera à sombra do Templo de Ártemis, e que fizera a riqueza de grandes comerciantes. Açulados por um tal Demétrio, os ourives de Éfeso levantaram-se contra a comunidade cristã nascente, pondo a todos em perigo, forçando Paulo a abandonar o lugar; Lucas reteve até o grito de guerra deles: “grande é a Diana dos efésios!” (At 19) (3). O alto padrão de vida dos efésios, escorado e até certo ponto mantido pelo politeísmo tradicional, resistiu, compreensivelmente, a uma religião que vinha combater aquilo que se julgava ser uma das fontes do sucesso de Éfeso: a religião politeísta tradicional. Mas a semente já fora plantada e seu progresso era irreversível, decerto ajudado pelo caráter cosmopolita da cidade, que recebia um afluxo contínuo de gente de toda parte, o que impuha uma certa abertura de espírito, necessária para a convivência entre tanta e tão diferentes pessoas, de sorte que Éfeso não só se renderá ao cristianismo como de lá e de seus arredores sairão grandes luminares da igreja nascente, graças não só a atuação de Paulo e seu grupo, mas também à presença de outro apóstolo, uma coluna da Igreja, e que também demonstrou em seus escritos muita afinidade com o pensamento de Paulo: São João Evangelista.

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Wikipeda

__ Não se sabe exatamente quando João, segundo a tradição dominante, embora não exclusiva, chegou a Éfeso (4), mas tudo indica que deve ter sido em algum período após o concílio de Jerusalém, muito provavelmente após o assassinato de Tiago, irmão do Senhor, quando a permanência dos discípulos mais próximos e conhecidos de Jesus, na Palestina, tornou-se inviável – há uma tradição que faz de João um primo de Jesus, posto que ele seria filho de Salomé, irmã de Maria, o que o tornaria altamente visado. Foi provavelmente em Éfeso que ele escreveu o quarto evangelho, as cartas e o Apocalipse, agregando ao que já se sabia de Jesus, por meio dos outros evangelhos, ditos sinópticos, um material de uma complexidade e de uma profundidade estonteante, e que ao revelar ao mundo a sua condição de “discípulo que Jesus amava”, nos dá uma pista de como Jesus deve ser assumido, para quem deseja por ele ser amado, e a transcendentalidade da pessoa e da mensagem de Jesus (5). Fora isso, podemos ainda chamar a atenção para o fato de, se considerarmos a seara de trabalho das grandes colunas da Igreja: Pedro, João e Paulo, que há uma clara ruptura com o ambiente rural da pregação de Jesus, e a percepção do caráter urbano do império romano, que também deu ao cristianismo uma boa vantagem.
__ Quase não há dados sobre o que se passava nessa igreja, e o pouco que sabemos precisa ser garimpado nos escritos comumente atribuídos a João e aos grandes personagens que brotaram desse tronco. Ao contrário dos sinóticos, cuja mensagem se dirige mais à inteligência, organização de dados biográficos, e ao comportamento, regras de conduta moral, e didático-apologética, instrumentos de defesa e propagação da doutrina, o Evangelho de João, cheio de símbolos, estresse e diálogos inesperados, busca testemunhar uma essência e uma forma de viver a presença do próprio Cristo, que transforma a história e o próprio fim do mundo, a escatologia, tão presente nos outros evangelhos, irrelevante, embora quando vá ao nível aos detalhes histórico-geográficos seja mais minucioso que os outros. É um cristianismo, arrebatado, intenso, muito introspectivo, contemplativo (6), não esquecer que o monaquismo foi uma “invenção” oriental, mas, ao contrário do senso comum, esse cristianismo é muito presente e generoso na hora de dar seu testemunho, como o fizeram, além de João, Policarpo de Esmirna, e muitos outros.
__ De João ficou a tradição de seu martírio, ocorrido durante a perseguição do imperador Domiciano, quando teria sido condenado a padecer num tanque de óleo fervente, do qual escapou na última hora, seja por uma intervenção maravilhosa, um milagre, seja por algum acontecimento fortuito, como a morte do imperador, acontecida em 96, sendo sucedido por outro mais tolerante, Nerva, que teria se limitado a condenar o apóstolo a um breve exílio na ilha de Patmos, do qual voltou para morrer em Éfeso, já muito avançado em idade, justificando a que se fizesse aquele famoso acréscimo no seu evangelho – capítulo 21, em especial o versículo 22 – pois já diziam que ele jamais morreria. Mas como em João nada é evidente ou exatamente o que parece, o seu sepulcro, que está em Éfeso, em meio às ruínas de uma basílica cristã, construída por Constantino, e onde se ministram até hoje ofícios religiosos, está vazio...
__ “Nos escritos joânicos... nos achamos diante de uma imagem total do cristianismo, que representa, inegavelmente, um estádio independente de sua evolução que, em muitos aspectos, está além dos estádios anteriores da comunidade cristã primigênia e até do cristianismo paulino. Urge destacar principalmente os traços que têm relevância na história da Igreja, ou seja os traços daquilo que será fundamental ao seu posterior desenvolvimento... a saber: a imagem de Cristo, que nos é traçada pelo quarto evangelho, e a imagem da Igreja, que recebe novas adições no livro do Apocalipse” (Jedin; 1966; p 194-195). Acima de tudo, nesse último livro, ele tenta alertar a Igreja da disposição necessária para enfrentar a maré de ódio, já prevista por Jesus, e que iria se levantar com toda força contra ela, mais cedo ou mais tarde.
__ A igreja de Cristo deve ser a Igreja dos mártires...
  
Notas
(1) É evidente que não se trata aqui da liberdade “burguesa”, conceito recente nascido de um individualismo compulsivo que anula o ambiente e o ditame moral, como uma possibilidade do indivíduo fazer o que quiser, principalmente quando tem recursos para pagar o preço dessa “liberdade”. Quem não tem recursos, entenda-se “dinheiro”, queda-se tolhido em sua “sagrada” liberdade, sem que isso provoque qualquer constrangimento ou obrigação por parte dos “mais livres”. Não, não é dessa liberdade de que o apóstolo Paulo, fala, mas daquela que leva o indivíduo a fazer o que a sua natureza consciente lhe induz, movido pelo imperativo moral ou pela crença religiosa. Para quem se crê ligado a uma filiação divina, a liberdade consistiria em fazer sempre o bem, o correto, o justo, submetendo-se a este ditame moral, da mesma forma que a divindade a ela submete-se, pois embora sendo onipotente, e talvez até por isso mesmo, proíbe a si mesma, por ser contrária à sua natureza, de praticar o mal, de causar gratuitamente o sofrimento, a humilhação e a perda, a quem quer que seja. Fora desse princípio o que sobra é a insatisfação essencial, uma sensação de incompletude de quem não se sente livre, visto que preso ao pecado, presente na fragilidade humana, compensada por tentativas infindáveis de buscar o novo, quando não o estranho e o bizarro, acarretando sempre a mais insatisfação e sentimento de impotência.
(2) Atos 20,7 e 1 Coríntios 16,2 não deixam dúvidas: as comunidades paulinas se reuniam sistematicamente para a celebração da eucaristia e da palavra no primeiro dia da semana – em hebraico Yom Rishôn = primeiro dia – conhecido hoje como “domingo”, independente dele ter sido dedicado originalmente, no mundo greco-romano, ao deus-sol, a quem Paulo, com certeza, não dava a menor pelota. Aliás, e nome original desse dia em Roma não era Domingo, em latim Dies domini ou Dies dominica (dia do Senhor), que em português deu “domingo”, o nome original era Dies solis (dia do sol).
A causa da mudança do sábado para o domingo tem uma excelente justificativa bíblica: os quatro evangelistas, quase sempre muito despreocupados com a questão temporal, são taxativos em afirmar, e mais do que isso, em precisar meticulosamente que a ressurreição de Cristo se deu nas primeiras horas da madrugada do primeiro dia da semana (Mt 28,1; Mc 16,1-2; Lc 24,1 e Jo 20,1) e é nesse dia também que ele aparece aos discípulos (Mt 28,9; Mc 16,9.12.14; Lc 24,13.36; Jo 2019.26), ceia com eles (Lc 24,42-43), e foi nesse dia que, segundo João 20,22-23, receberam o Espírito Santo. Este também diz, em Apocalipse 1,10, que foi arrebatado a uma grande Revelação num domingo – o “dia do senhor”, sem que seja problema o fato de o apocalipse ser escrito em língua grega, uma vez que o domingo, em grego, é “kiriaké” = dia do Senhor. Por fim o texto final do Concílio de Jerusalém não recomenda a observância do sábado, um dos elementos decerto fundamentais para os cristãos judaizantes da época (At 15,28-29). Aliás, não há nenhuma passagem no Segundo Testamento que nos induza a crer que em algum momento os primeiros cristãos observaram o sábado.
O presbítero e teólogo italiano Giuseppe Barbaglio, especialista em Igreja Apostólica, comentando esse fato e querendo demonstrar que desde essa época se observava o dia de domingo diz, comentando Ap 1,10 “de singular interesse resulta o termo novo que ali se emprega: día kirial... Muito provavelmente se evitou o genitivo [a língua grega, como a latina, tem declinações] Iou Kyriou, porque o dia do Senhor já estava qualificado no sentido escatológico como o momento da vinda gloriosa de Cristo no final da história (cf 1Cor 1,8;5,5; 1Ts 5,2...) Ademais, o adjetivo kiriaké só tem uma passagem paralela no Novo Testamento, em 1Cor 11,20, onde se fala da “ceia do Senhor”: nesta direção [conforme o sentido da língua grega] devemos buscar o significado da expressão “díakirial” como a ceia do Senhor, significando a comunhão eucarística dos crentes em Cristo (que experimentam a sua presença)... a presença de Jesus ressuscitado entre os seus... À terminologia judia para o domingo (primeiro dia) na semana sabática, que coexistiu pacificamente com o “dia do Senhor” dos cristãos, no Novo Testamento, se acrescentou, na ápoca patrística, uma denominação de procedência pagã “dia do sol”... A denominação judia [dos dias da semana] se conservou na Igreja... porque desde a primeira [geração] patrística, o domingo se vincula ao primeiro dia da criação, em que Deus fez a luz [que, ao contrário do que acreditavam os antigos semitas, não existe sem o sol, por isso no Gênesis Deus cria primeiro a luz e depois o sol e a lua!]. Esta vinculação com a criação se fez extensiva à geração do Verbo Eterno. Entretanto, na tradição dos primeiros séculos teve um êxito singular a denominação do domingo como o “oitavo dia”... A semana sabática começou, portanto, a marcar o tempo presente, enquanto o domingo significava o mundo novo, do futuro, da escatologia prometida e esperada” (tradução livre do espanhol). Mais argumentos e profundidade nessa questão podem ser encontrados no seguinte endereço, em espanhol, com alguns, erros gramaticais perturbadores  http://www.mercaba.org/DicTM/TM_dia_del_senor.htm
Fora isso existem testemunhos muito antigos que mostram a prática de reunião dos cristãos aos domingos, como:
a) No Didaqué: uma espécie de catecismo escrito por volta de 70, diz: “Reúnam-se no dia do Senhor, a partam o pão” (tradução Wikipedia em espanhol – Domingo)
b) Santo Inácio de Antioquia, discípulo do Apóstolo João, em sua Carta aos Magnésios, em 110, diz: “não mais guardando o Sábado, mas vivendo segundo o dia do Senhor (Domingo) dia em que nasceu a nossa vida por meio Dele” (idem)
c) Justino Mártir, que vivem entre 100 e 164, escreveu essa passagem: “No dia que se chama dia do sol tem lugar a reunião em um mesmo lugar, para todos os que habitam na cidade ou no campo. Celebramos essa reunião geral no dia do sol, por ser o primeiro dia [da Criação], quando Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e o dia também em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou de entre os mortos, pois como se sabe ele foi crucificado um dia antes do dia de Saturno [dies Saturni, que na semana romana era sábado, e o dia que o antecedia, a atual sexta-feira, era o dies Veneris, dia de Vênus], e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol [dies Solis], ele apareceu aos seus apóstolos (Mt 28,9) e discípulos” (idem)
d) São Jerônimo, que viveu entre 340 e 420, escreveu: “Os pagãos o chamam dia do Sol, e devemos reconhecê-lo como tal com a maior boa vontade, posto que neste dia apareceu a Luz do Mundo e nesse dia amanheceu o Sol da Justiça [Jerônimo lembra tanto do momento da primeira revelação da Ressurreição como das palavras da profecia de Zacarias (Lc 1,78), corroborada por Nm 24,17; Ml 3,20 e Is 60,1. Etc...
Chega por enquanto! Vemos que o culto do Domingo é tão antigo quanto a Igreja e que sobejam testemunhos a esse respeito, e para os católicos e cristãos de boa vontade deixo as palavras do apóstolo: “Que ninguém vos perturbe por questões de comida e de bebida, ou a respeito de festas anuais ou de lua nova ou de sábados, que são apenas sombras de coisas que haviam de vir, mas a realidade é o corpo de Jesus Cristo” (Col 2,16-17) (BJ).
(3) A representação efésia do ídolo dessa deusa era particularmente extravagante, pois no seu tronco se pendiam uma vintena de protuberâncias, que uns afirmam ser seios, outros os testículos dos bois sacrificados em sua homenagem, nas comemorações anuais.
(4) Existe uma corrente de santos Padres, entre os quais se colocam Pápias, Gregório de Nissa e São João Crisóstomo, que defendem a tradição que João morreu como mártir, embora não haja maiores detalhes a respeito, cumprindo literalmente a profecia de Jesus em Mt 20,22-23. Informes sobre a morte violenta e relativamente precoce de João aparecem em alguns martirológios, livros que compilavam as datas referentes às festas dos mártires cristãos, do séc V. Embora o peso maior e os dados mais consistentes apontem para uma velhice longa e uma morte natural em Éfeso. Outra questão digna de esclarecimento é que, embora a palavra martírio esteja tradicionalmente associada a uma morte violenta, o seu sentido original em grego é o de “testemunho”, e nesse caso o episódio da caldeira cheia de óleo fervente de João é um típico caso de martírio, embora não tenha levado à morte.
(5) O “discípulo que Jesus amava” era João, autor do quarto Evangelho, segundo Irineu de Lion (130-202), que obteve essa informação de Policarpo de Esmirna (70-155), que, junto com Inácio de Antioquia (+100), privou da companhia do Apóstolo João. Essa tradição foi mais tarde compartilhada, entre outros, por Agostinho de Hipona, João Crisóstomo, São Gregório Magno e Beda o Venerável etc. Porém, com o desenvolvimento dos estudos históricos da Bíblia e das fontes da Igreja, nos séculos XIX e XX, começaram a surgir questionamentos acerca dessa identidade, mas nenhum que tivesse apresentado evidências ou argumentação sólida o bastante para desautorizar essa antiga tradição. Essa questão, e tantas outras relacionadas ao seu Evangelho, ao discípulo que Jesus amava e às cartas, pois em João nada é excessivamente evidente ou superficial (João é melhor a síntese da “porta estreita e do caminho difícil” de Mt 7,13-14), fogem do propósito deste trabalho, por isso remeto o leitor a uma fonte simples e fácil, embora não completa, que é são os verbetes Juan el Apóstol, El discípulo a quien Jesús amaba, Evangelio de Juan, na Wikipedia em espanhol, além dos verbetes sobre “Juan, apóstol”, na Enciclopedia Católica Mercaba, no site espanhol mercaba.org, que é completo, para mim.
Para não encerrar abruptamente esse assunto e incentivar aqueles que querem ir além, cito os textos muito estimulantes, para mim, de dois autores de competência reconhecida: o padre dominicano Claude Marie-Emile Boismard, um especialista nesse período da Igreja, e o célebre cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, que divergem em alguns elementos da tradição antiga, embora concordem no essencial.
“Quem é o autor desse Evangelho tão rico e tão complexo? A tradição, quase unanimemente, responde: João. Vemos já na primeira metade do século II que muitos autores reconhecem e utilizam o quarto evangelho: Santo Inácio de antioquia, o autor das Odes de Salomão, Pápias, São Justino e, quiçá, Clemente Romano: tudo isso é prova de que o evangelho gozava de autoridade apostólica. O primeiro testemunho explícito é o de Santo Irineu, em torno de 180... Quase na mesma época Clemente de Alexandria, Tertuliano e o cânon Muratori atribuem formalmente o evangelho ao apóstolo João. Se houve uma opinião oposta entre os séculos II e III, isso se deve à reação de alguns contra os “espirituais” montanistas, que utilizavam o evangelho de João de maneira tendenciosa... Além do mais, nada há no mesmo evangelho que se oponha à tradição... Já vimos que o evangelho se apresenta sob a garantia de um discípulo amado pelo Senhor, testemunha ocular dos fatos que narra. Sua língua e seu estilo denunciam sua origem manifestamente semítica: se encontra perfeitamente a par dos costumes judeus, assim como da topografia palestinense do tempo de Jesus. Parece unido com especial amizade a Pedro, e Lucas nos informa [no seu Evangelho e em Atos] que, efetivamente, esse era o caso do apóstolo João” (tradução da wikipedia em espanhol - El discípulo a quien Jesús amaba).
Ratzinger segue noutra direção: “Essa informação é verdadeiramente digna de atenção [de que haveria um segundo João, o chamado “João o presbítero”, citado por Eusébio de Cesareia, que interveio na confecção do evangelho ou noutros escritos atribuídos ao apóstolo João]; dela, e de outros indícios afim, se depreende que em Éfeso houve uma escola joânica, que devia remontar a sua origem ao discípulo predileto de Jesus, e na qual havia, além deste, um “presbítero João”, que possuía uma autoridade decisiva. Esse “presbítero” João aparece na Segunda e na Terceira carta de João (ambas em 1,1) [cujo tema e estilo, segundo os especialistas, diferem consideravelmente da Primeira, assim como sofreram uma resistência muito maior para serem inclusas no cânon bíblico], como remetente e autor, com o título de “o presbítero” [traduzido por “o ancião”, na língua portuguesa] (sem mencionar o nome de João). É evidente que ele mesmo não é o apóstolo, de maneira que aqui, nesse versículo do texto canônico, encontramos explicitamente a enigmática figura do presbítero, que certamente estava estreitamente ligado ao apóstolo e, inclusive, deve ter conhecido a Jesus [seria um discípulo]. À morte do apóstolo foi considerado o depositário de seu legado, e na memória da comunidade a figura de ambos foi se mesclando cada vez mais [até se fundir]. Em qualquer caso podemos atribuir ao “presbítero João” uma função essencial na redação definitiva do quarto evangelho, durante a qual ele se considerou indubitavelmente sempre como administrador da tradição recebida do filho de Zebedeu” [a possibilidade do Evangelho de João ser fruto de um trabalho coletivo, escrito a partir das memórias do apóstolo, por aqueles que lhe eram próximo explica, tanto em João como nos outros evangelhos, um certo caráter de compilação de memórias, que por vezes quebram o fluxo da narrativa, que por vezes ocorrem nos textos, e impossibilitam a concordância, a harmonização, entre os evangelhos] (traduzido da wikipedia em espanhjol – Juan el Apóstol).
A postura de Ratzinger recebe também de Jedin, um apoio discreto “os escritos que levam seu nome [o de João] procedem também de seu espírito, embora tenham recebido das mãos de seus discípulos a sua forma definitiva” (idem, p 195)  
(6) É dessa contemplação que nasce a mais espetacular abertura de um livro na literatura ocidental e a mais rica definição de Deus feita por um homem: “No princípio estava o Verbo [Logos, em grego]/ E o Verbo estava em Deus/ E o Verbo era Deus./ No princípio, ele estava com Deus./ Tudo foi feito por meio dele/ E sem ele nada foi feito./ O que foi feito nele era a vida [o universo está vivo!],/ E a vida era a luz dos homens;/ E a luz brilha nas trevas,/ Mas as trevas não a retiveram...” (BJ). De onde veio isso? De onde veio tal inspiração? Como João e os seus discípulos sacaram isso? Nem parece coisa desse mundo!

Bibliografia
Bíblia de Jerusalém; 3ª impressão; Paulus; São Paulo; 2004
Bíblia Sagrada; 144ª edição; Ave-Maria; São Paulo; 2001
Bloch, Raymond e Cousin, Jean; Roma e o seu destino; trad Ma. Antonieta M Godinho; Cosmos; Lisboa-Rio de Janeiro; 1964
Cornell, Tim e Matthews, John; Roma legado de um império; col. Grandes Impérios e Civilizações; trad Maria Emilia Vidigal; Del Prado; 2 vol; Madrid, 1996;
Diacov, V. e Covalev, S.; História da Antiguidade – Roma; trad João Cunha Andrade; Fulgor; São Paulo; 1965
Giordani, Mario Curtis; Antiguidade Clássica II – História de Roma; 9ª edição; Vozes; Petrópolis; 1987.
Jedin, Hubert (org); Manual de Historia de la Iglesia – e la Iglesia primitiva a los comienzos de la gran Iglesia - tomo primero; versión castellana Daniel Ruiz Bueno; Herder; Barcelona 1966; (online)
McKenzie, John L.; Dicionário bíblico; trad. Álvaro Cunha e outros; 8ª edição; Paulus; São Paulo; 2003.
Mora, Jose Ferrater; Diccionario de Filosofia; Sudamericana; Buenos Aires (online)

Reale, GiovanniAntiseri, Dario; História da Filosofia – Patrística e Escolástica; trad. Ivo Torniolo; 4ª edição; Paulus; vol 2; São Paulo; 2009

domingo, 27 de dezembro de 2015

HISTORIA DA IGREJA BASEADA EM JEDIN – VIII

Obrigado aos amigos do Brasil, Estados Unidos, Canadá, Venezuela que acompanham esse blog. Que ele vos seja útil. Deus os abençoe.

Prof Eduardo Simões

A Tumba de Pedro

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Debaixo do baldaquino de Bernini, protegida por um vidro.

__ Um dos episódios mais marcantes da Bíblia é o relatado por Mateus, sobre a confissão de fé de Pedro (16,13-20), também narrado mais direto e secamente por Marcos (8,27-30) e Lucas (9,18-21). O fato teria acontecido no território de Cesareia de Filipe onde, após uma oração (Lc 9,18), seu momento de comunicação com o Pai, Jesus fez uma pergunta de supetão, como quem quer provocar uma revelação ou, de acordo com a psicologia humana, sondar as disposições de alguém, aparentemente a esmo: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13). Os discípulos, pegos de surpresa, relatam as opiniões disparatadas do vulgo, conforme o contexto da da época.
__ “E vós, prosseguiu Jesus, quem dizei que eu sou?” (16,15). Era a hora da verdade, provavelmente muitos já o tinham abandonado (Jo 6,66 ), e até aos apóstolos ele já teria feito um desafio, “e vós também não quereis ir?” (6,67). Era hora de ir além, de cada um justificar a Jesus e a si mesmo se valia a pena continuar investindo naquela empreitada perigosa. Os apóstolos hesitam, talvez ainda não entendessem bem o impacto de tudo o que até ali lhes fora revelado ou apenas se tivessem deixando levar pelo bem estar que lhes provocava a proximidade com Jesus. Simão, ousadamente, toma a palavra e diz algo que ele, Simão, provavelmente, nem entendia direito seu significado – os fatos futuros comprovariam esta suspeita – e diz: “tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. A resposta de Jesus é a de alguém profundamente alegre e impressionado com o que acaba de ouvir: “Bem-aventurado és tu, Simão filho de Jonas (Simão Bar Jonas), porque não foi a carne nem o sangue [Simão se tornara canal direto da Revelação] que te revelaram isso, e sim meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro [Pedro é um nome grego, mas Jesus deve ter dito “Cefas”, pedra em aramaico], e que sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades [o mal personificado] nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus...”

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Wikipedia

__ Em 1939, o recém-eleito Papa Pio XII, resolveu mexer em uma área “tabu” dentro do Vaticano: uma área, debaixo do majestoso baldaquino de Bernini, onde fica o altar principal, chamado “da confissão” – a confissão de Pedro de que Jesus é o “Filho de Deus” – bem no centro da gigantesca cúpula que se eleva sobre a Basílica de São Pedro, onde, de acordo antiga tradição, estariam enterrados os ossos de São Pedro, local sempre cercado de respeito, devoção e pudor; um pudor quase sobrenatural de provocar a Deus, perturbando o descanso de uma pessoa tão venerável, só para conferir o acerto da tradição, sem falar que o cristão católico maduro, como o justo da Bíblia, vive da fé e não de sinais concretos (Hb 10,38). Estes não são mais que suportes, apoios, principalmente para aqueles que estão no início da caminhada.
__ Mas o mundo mudara. A incredulidade ativa, travestida de ceticismo, ganhara o mundo ocidental, capitalista, burguês, onde a Igreja Católica estava inserida, agora, como um apêndice, prestes ao seu final melancólico, como uma instituição desnecessária para o mundo moderno, propenso a crer somente naquilo que tinha substância suficiente para provocar os sentidos. O mundo, não a Igreja, precisava de uma demonstração sensível da fé, de uma prova, antes de ir pelos ares com as guerras que seus interesses mesquinhos estavam provocando, como a 1ª Guerra Mundial. Pio XII, entendendo esse momento, estava disposto a dar essa prova concreta. Ele resolveu, pela primeira vez desde o século IX, abrir as grutas do Vaticano à pesquisa de estudiosos e da moderna arqueologia, entregando os trabalhos aos cuidados do monsenhor alemão Ludwig Kaas, teólogo, historiador, político excessivamente pragmático e filósofo (1), que, apesar de sua boa vontade, não era um pesquisador de carreira e por pouco não pôs tudo a perder...

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Vatican_Necropolis_01.jpg
Wikipedia
Necrópole Vaticana, uma cidade para os mortos debaixo da Basílica de São Pedro

__ Quando começaram as escavações os arqueólogos quase perderam o fôlego. Havia, e ainda há, debaixo da Basílica de São Pedro, uma vasta necrópole – conjunto de edificações próximas, a semelhança de uma vila, feito para abrigar cadáveres, que, pelo seu luxo revelavam o elevado status das pessoas ali sepultadas – pré-cristã. A Necrópole Vaticana. De certa forma, se o túmulo de Pedro estivesse ali, parecia reproduzir as circunstâncias da morte de Jesus, sepultado com apreço (Mt 57,60), conforme previsto numa das leituras possíveis do profeta Isaías (53,9). Acima de tudo espantara-os o tamanho do terrapleno que fora feito por ordem do imperador Constantino, em 318, mais de um milhão de metros cúbicos de areia, quando havia uma área já aplainada ao lado, no chamado Circo de Nero, para plantar os alicerces da sua basílica! O que ele quis preservar ou marcar ali, inclusive soterrando túmulos de famílias importantes de Roma!

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http://stpetersbasilica.info/
Sepultura de Pedro vista de frente e em corte: upper niche = nicho superior; graffiti wall = muro dos grafites; repository = local onde se acharam os ossos em 1942; red wall = muro vermelho; original ground level of the tropaion = nível original do tropaion (monumento a Pedro mais antigo); surviving part of Peter’s grave = parte restante da sepultura [a primeira] de Pedro

__ Em 1942, foram encontrados alguns ossos, muito revolvidos, no local onde se supunha estar sepultado o apóstolo. Kaas, aparentemente sem saber de quem eram, os recolheu, temendo que fossem desrespeitados ou mal manuseados, guardou-os num local a parte, para submetê-los, posteriormente, a análise, enquanto os trabalhos se arrastavam sem nada digno de nota. Lá fora o mundo se autodestruía na 2ª Guerra Mundial. Entretanto, antes que algo pudesse ser feito em relação a esses ossos, Ludwig Kaas morreu, e os ossos, guardados noutro lugar, dentro de uma caixa, foram esquecidos (2). Outro momento embaraçoso foi quando, ao ser derrubada uma das paredes próximas à suposta tumba de Pedro, caíram em pedaços algumas das primeiras estruturas, e um dos dirigentes das escavações, o Pe. Antonio Ferrua, supondo ser entulho – a história nunca foi explicada direito – resolveu pegar um pedaço para guardar consigo. Amadorismo, excesso de pudor, caça às relíquias e até vaidades pessoais ameaçavam comprometer todo trabalho. E assim transcorreram as coisas até o ano de 1950, quando as escavações são encerradas oficialmente. Na radiomensagem de Natal daquele ano, 23/12/1950, o Papa Pio XII anuncia o descobrimento da tumba de São Pedro, mas deixa em aberto a questão sobre os ossos do apóstolo.

http://www.parrocchie.it/milano/spiov/parrocchia/images/Roma/TombaPt06.jpg
http://www.parrocchie.it/
Mesmo monumento acima visto de cima

__ Em 1952, Após a morte de Kaas, a direção dos trabalhos foi entregue a uma famosa epigrafista, a doutora Marguerita Guarducci (2), que começou a traduzir as inúmeras inscrições (grafites) nos muros que isolavam a área ao redor. Num deles podia se ler: “Pedro roga por nós, os cristãos que estamos sepultados junto ao seu corpo”. Havia ainda inúmeras referências a Pedro, com uma característica suis generis: à haste vertical da letra “P” se acrescentavam três pequenos apêndices horizontais, simulando uma chave, mas ainda faltava o principal. Os vários ossos encontrados nas imediações do suposto túmulo pertenciam a homens e mulheres comuns, sepultados sem maiores cuidados, além de animais diversos, pequenos mamíferos e aves, que rondam os cemitérios ou eram oferecidos em sacrifício aos mortos.  Nesse transe, ficou-se sabendo que o padre Ferrua estava de posse de um artefato, suposto entulho, retirado das escavações. Imediatamente foi expedida uma ordem dos mais altos escalões: “devolva-o já!” Nesse pedregulho o olhar clínico da doutora Guarducci identificou um tesouro valiosíssimo, um grafite incompleto, em grego, uma língua muito falada na Roma do século I, principalmente entre cristãos – o cristianismo criou fortes raízes na Grécia, antes de chegar a Roma – onde se podia ler: “PETROS ENI” = PEDRO ESTÁ AQUI ou PEDRO ESTÁ AQUI DENTRO. Mas onde estava Pedro?

http://www.parrocchie.it/milano/spiov/parrocchia/images/Roma/TombaPt00.jpg
(idem)
Reconstituição.

__ Nesse momento de perplexidade, um trabalhador lembrou-se que o padre Kaas havia retirado uns ossos do local e guardado noutro lugar, um armazém nas oficinas do Vaticano, onde estavam colocados dentro de uma caixa, devidamente classificados (3). Os ossos foram submetidos à análise pelo Professor de Antropologia Venerando Correnti, da Universidade de Palermo, e as conclusões foram as seguintes:
1º - Os ossos continham terra semelhante a da tumba encontrada vazia – uma vez que Kaas retirara os ossos sem o conhecimento dos arqueólogos – e que era diferente da terra das outras sepulturas próximas.
2° - Os ossos continham, em seus poros, muita terra entranhada, sinal que estiveram por um bom tempo em contato diretamente com o solo, como seria de se esperar, tendo em conta as circunstâncias da morte de Pedro.
3º - Esses ossos apresentavam, misturados a eles, fios de um tecido de cor púrpura, emaranhados com fios de ouro finíssimos, uma trama que, na época, era exclusiva de vestes imperiais, mostrando que aqueles ossos, pertenciam a uma pessoa muito considerada, mas que morreu pobre, uma vez que esses indícios não estão associados ao primeiro sepultamento.
4º - Os ossos seriam de um homem robusto, que morreu entre os sessenta e setenta anos. A robustez coincidia com a profissão e o estilo de vida de Pedro, a idade também coincidia com a suposta pela tradição.
5º - As rótulas estavam muito gastas, como acostuma acontecer com pescadores, que as forçam muito ao empurrar seus barcos para dentro ou fora da água.
6º - foram encontrados ossos de todas as partes do corpo, menos dos pés, o que confirma um costume romano de cortar os pés daqueles que eram crucificados de cabeça para baixo, uma vez que era trabalhoso tirar os cravos que perfuravam os ossos dos pés e que também, neste caso, ficavam numa posição incômoda (no alto).

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__ Na área da tumba também foram encontradas muitas moedas antigas, dos séculos finais da Antiguidade e início da Idade Média, além dos cadáveres de homens e uma mulher, sepultados sem o mesmo cuidado. Pedro decerto não morreu sozinho. Seria essa mulher a sua esposa, confirmando mais um fato da tradição?

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(idem)
Reconstituição do muro de grafites

__ Percebendo o impasse interminável criado pelos limites da ciência humana – indagado sobre se a ossada na caixa era de fato a do Apóstolo Pedro, o professor Correnti respondera que havia uma “alta probabilidade”, de realmente serem de Pedro; e isso de fato era o máximo que a ciência então podia afirmar – e do clima “pesado” que se criara em torno da equipe responsável pelas escavações, em especial os atritos entre Margherita Guarducci e Antonio Ferrua, Paulo VI toma a iniciativa e declara oficialmente, em 26 de junho de 1968 a descoberta dos ossos de São Pedro, 12 séculos depois deles terem sido lacrados, por questões de segurança. Alguns desses ossos serão expostos ao público, numa missa campal, em 24 de novembro de 2013, pelo Papa Francisco, na abertura do Ano da Fé

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Estado atual do muro dos grafites

Palavras da Professora Guarducci – entre aspas ou parênteses, as minhas intervenções estão entre colchetes.

__ “As escavações começaram [em 1940] e duraram até 1949. Forma umas escavações estranhas nas quais muitos achados foram destruídos e se cometeram erros indescritíveis”
__ “Encontraram uma necrópole, um antigo e vasto cemitério, que se estendia de leste a oeste, paralelo ao Circo de Nero, o mesmo circo onde Pedro teria sofrido o martírio. Esta grande necrópole estava coberta de terra, porque Constantino, ou alguém em seu nome... queria construir aí os alicerces sobre os quais se erigiria a primeira basílica em honra de Pedro”
__ O que encontraram sob o altar papal? Uma sucessão de monumentos e altares: uns debaixo de outros, uns dentro de outros. Isto significava que aquele lugar... havia sido, desde séculos atrás, objeto do culto a Pedro. Debaixo do altar papal, que é o atual altar de Clemente VIII (1594), se encontrou o anterior, de Calisto II (1123); dentro do altar de Calisto II se encontrou o altar de Gregório Magno (590-604); o altar de Gregório Magno, por sua vez, se apoiava sobre o monumento que Constantino, ainda antes de construir a basílica, havia mandado erigir sobre a tumba de Pedro, e que pode ser datado de entre 321 e 326. O monumento ode Constantino abarcava outro mais antigo, que teria sido construído no século II, o primeiro monumento a Pedro... se incluía uma pequena edificação, encostada em um muro rebocado de vermelho, que fazia as vezes de fundo ao primeiro monumento de Pedro. Nesta pequena edificação havia um muro [lateral, pequeno e grosso] coberto de símbolos e antigas inscrições (naturalmente anteriores ao monumento de Constantino...)... epígrafos que indicavam, por sua abundância, a imensa devoção dos fieis. Depois, atrás dessa edificação, se vê que o primeiro monumento de São Pedro era uma espécie de forro, que cobria uma antiga tumba de terra [a sepultura original de Pedro], sobre a qual haviam se sobreposto todos esses monumentos. Sob esse forro, desgraçadamente, não havia nada...
__ “Esse era o estado das coisas quando se concluíram as escavações de 1940-1949... Comecei a ocupar-me das escavações de São Pedro, depois que estas haviam terminado e fora publicado um relatório, em 1952”
__ “Um dos escavadores [provavelmente o padre Ferrua] havia publicado, embora não corretamente, um dos epígrafos que se havia encontrado no lugar onde estava o muro coberto de inscrições citado acima”
__ “Já havia tido oportunidade de ver um dos epígrafos, do qual se havia intuído a leitura “Petros Eni” (“eni” no sentido de “enesti”: Pedro está dentro)”.
__ “Foi então que pedi autorização a Pio XII para visitar as escavações... Pio XII me concedeu a permissão, e então comecei a procurar a inscrição “Petros eni”, mas não a encontrei, porque um dos escavadores [Ferrua] a havia levado para casa”
__ “Comecei a estudar o muro das inscrições, que estava dentro do monumento constantiniano. Agora esse muro era como uma selva impenetrável... me propus a decifrá-lo. A tarefa durou meses. Foi uma das mais difíceis que já fiz... em um determinado momento, porém, eu peguei o fio da meada e comecei a entender. Usava-se, ali, uma criptografia mística, ou seja, se jogava, em um certo sentido, com as letras do alfabeto. Ali superabundava o nome de Pedro, expresso nas letras P, PE, PET, vinculado normalmente ao nome de Cristo, com a sigla de Cristo e com o nome de Maria, e, sobretudo, dominava, nesse muro, aclamações à vitória de Cristo, de Pedro e de Maria. Também se recordava a Trindade, a Cristo, segunda pessoa... toda a teologia do momento estava ali, escrita no muro”.
__ “Depois comecei a interessar-me pelos ossos de Pedro... Os ossos de Pedro estavam na tumba, na terra, sob o forro, como sustentava a tradição da Igreja. Depois, quando Constantino quis fazer um monumento em honra ao apóstolo, os ossos foram tirados da terra e envoltos num precioso manto de púrpura e ouro e depositado nesse nicho (4), e foi lacrado para sempre. Sucedeu que durante as escavações, os escavadores, ansiosos por chegar ao lugar que a tradição indicava como sepultura de Pedro, não se preocuparam com os detalhes. Derrubaram o altar de Calisto II a golpes de marreta... para chegar o quanto antes à tumba. E o que aconteceu? Sob os fortes golpes da marreta caiu uma grande quantidade de escombros, do antigo muro rebocado em roxo, e tudo ficou misturado nessa cavidade, com os infelizes ossos que Constantino havia mandado depositar no nicho do monumento. Assim pareciam [aos olhos dos amadores e de arqueólogos pensando noutras coisas] um montão de entulhos, onde não se reconheceram os ossos”.
__ “Naquele momento... Monsenhor Kaas (Homem de confiança de Pio XII) notou que entre os escombros do nicho havia alguns ossos. Fê-los apartar dos escombros [a todos eles?] e guardá-los dentro de uma caixa, posteriormente trancada em um armário nas grutas vaticanas, onde permaneceu ignorada por uns dez anos”
__ “Um antropólogo de minha confiança, o professor Correnti, examinou o grupo de ossos da caixa, e me disse: “Há algo estranho neles, porque todos os grupos de ossos que me fizeram examinar até agora [os primeiros que foram achados “oficialmente”] eram de indivíduos diversos, já estes são de um só indivíduo”. Perguntei-lhe: “De que sexo”. “Masculino”, respondeu-me. “Idade?”. “Avançada”. “Compleição?”. “Robusta”. [Fim do relato da professora Guarducci]
__ O texto é claro e igualmente muito embaraçoso para a equipe arqueológica original, da mesma forma que para todos os católicos, pelas vicissitudes desnecessárias que os ossos de Pedro tiveram que passar. Ele não deixa lugar para dúvidas ou maledicências, como as mostradas em sites e artigos de pretensas autoridades científicas que, impossibilitadas de atacar a honorabilidade da professora Guarducci e do professor Correnti, apegam-se a detalhes insignificantes que abundam em quase todos os sítios arqueológicos, sem nem por isso perderem a sua credibilidade, ou omitem escandalosamente dados fundamentais. Gente, enfim, que é movida não pelo amor à verdade, mas por um não querer crer (5).

Tumba de São Paulo

__ Bem menos trabalho deu a tumba do apóstolo Paulo!
__ Segundo uma antiga tradição, São Paulo foi decapitado em algum lugar da Via Ostiense, que ligava, e ainda liga, Roma ao porto de Óstia, como se pode depreender do testemunho muito antigo do presbítero Gaios, do século II, citado por Eusébio de Cesareia na História Eclesiástica, e o de Jerônimo, em seu Vidas ilustres, além de outros testemunhos de sua decapitação feitos por Tertuliano, Lactâncio, João Crisóstomo e Sulpício Severo (6).
__ Segundo a tradição, após sua execução, acontecida às margens da via Ostiense, fora dos muros de Roma, o seu corpo foi sepultado numa área funerária próxima, pertencente a uma rica matrona romana, simpatizante do cristianismo, chamada Lucilla ou Lucina, a uns 3 quilômetros do local da execução. No início do século IV, o imperador Constantino fez construir uma basílica, justo nesse local, que já era objeto de culto, tal como nos informa o testemunho de Gaios. Essa basílica chamou-se de São Paulo Extramuros. Como o afluxo de peregrinos aumentasse de ano a ano, os imperadores Valentiniano II, Teodósio e Honório resolveram, no final desse mesmo século, ampliar a basílica. Grandes reformas, acontecidas em 433, sob o Papa Leão Magno, após um terremoto ter comprometido a estrutura, lacrarão a sepultura definitivamente. Mais tarde a basílica será saqueada por um ataque dos árabes, em 846. O pior ainda estava por vir!
__ Na noite de 15 para 16 de julho de 1823, um incêndio tremendo, provocado pelo descuido de um operário, durante uma obra de manutenção, destrói completamente a antiga basílica; todo o teto desabou, ficando apenas as paredes enegrecidas pelo fogo. Na reforma que se seguiu optou-se por “atualizar” o edifício, alterando-se completamente o aspecto da antiga basílica romana. Entretanto, durante o processo de restauro, as crônicas monásticas locais, a basílica estava sob os cuidados dos monges beneditinos, apontaram que num determinado momento, sob o altar principal, apareceu uma lápide de mármore branco onde se podia ler nitidamente a inscrição: “PAULO APOSTOLO MART”, que, por razões desconhecidas, não constou dos relatórios oficiais finais, e tornou a ser coberta. E assim as coisas continuaram.

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Reprodução fotográfica da lápide de São Paulo

__ Entretanto, no jubileu do ano 2000, pressionado pelos peregrinos, que reclamavam de não poder rezar aos pés do apóstolo Paulo, o bispo Marcelo Costalunga, o administrador da basílica, pediu e recebeu autorização do Papa para realizar escavações no local tradicionalmente atribuído à sepultura de São Paulo, sob o altar principal. Escavando com todo cuidado a área ao redor do altar, bem diferente do que aconteceu com a tumba de Pedro, a equipe do arqueólogo Giorgio Filippi deu numa lápide de mármore, em pedaços colados, de 2,12 m por 1,27, onde estava escrito em letras bem grandes PAVLO APOSTOLOMART[YRI] = PAULO APÓSTOLO E MÁRTIR, com uma característica curiosa, que comprova a sua antiguidade: 3 buracos feitos nela, um circular e dois quadrados, que facilitariam o costume antigo de jogar substâncias aromáticas dentro de sepultura, sem ter que abri-la completamente, ou inserir dentro dela objetos atuais, que se tornariam relíquias por contato com os ossos do santo.
__ Ao invés de abri-la, os arqueólogos optaram por uma outra abordagem, introduzindo pinças mecânicas pelas aberturas, que recolheram algumas amostras e as entregaram a um laboratório de análise, sem que seus profissionais soubessem o que iam analisar. O que se concluiu dessas análises foi o seguinte:
a) restos de incenso e substâncias aromáticas
b) amostras de linho de cor púrpura, costurado com fios de ouro; como na sepultura de Pedro.
c) ossos de um homem datados pelo carbono 14 como sendo do Iº ou IIº século.
__ Juntando tudo a conclusão é óbvia, e ela veio de forma muito discreta e ponderada, da mesma forma como na tumba de Pedro, na homilia do Papa Bento XVI, em 28 de junho de 2009, quando do fechamento do Ano Paulino: “[Depois de uma breve descrição das conclusões da análise científica] Isto parece confirmar a unânime e incontrovertida tradição de que se trata dos restos mortais do Apóstolo Paulo” (traduzido de www.audioguiaroma.com/san-pablo-extramuros.php).

__ Fim das dúvidas. Tanto quanto é possível, com a ciência e a tecnologia contemporâneas, podemos acreditar no encontro dos restos mortais de Pedro e Paulo, personagens tão gloriosos e cercados de veneração, que nem pareciam mais ser desse mundo, quase elementos míticos ou lendários pela incrível sorte que tiveram de ver o que viram e enfrentar o que enfrentaram, e mais ainda: podemos apontar o seu endereço. Todos os dois na Igreja Católica e, no caso de Pedro, embaixo e bem no centro da sede da Igreja Católica – dizem os estudiosos que se for colocado um fio de prumo bem no centro da cúpula da Basílica de São Pedro, ele vai apontar diretamente para o sepulcro do fundador da Igreja – cumprindo literalmente a profecia de Cristo: “SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA”, que tem demonstrado ao longo da história uma capacidade imensa, misteriosa, de resistir incólume, quando não sai fortalecida, aos seus mais encarniçados inimigos; isto é o que mais veremos ao longo dos próximos capítulos dessa história apaixonante, sem falar que são dois exemplos cabais do acerto da Igreja em colocar a Tradição dos Santos Padres como uma de suas fontes de fé.

Notas
(1) Do grupo diretor das escavações faziam parte, além do Monsenhor Kaas, os arqueólogos Enrico Josi, Pe Antonio Ferrua, arqueólogo, Pe Engelberto Kirschbaum, arqueólogo, e o arquiteto Bruno Maria Apolonj Ghetti, e os trabalhos se estenderam de 1941 a 1950.
(2) Aqui começa uma situação particularmente espinhosa. Erros grosseiros cometidos durante as escavações, explicitados posteriormente pela doutora Guarducci, devem ter contaminado os relatórios feitos ao Papa Pio XII, induzindo-o a pensar em mudanças profundas na direção dos trabalhos, e tentar salvar todos os esforços já feitos. Houve, aparentemente, um grande açodamento no início das escavações, que levou à destruição precipitada de, no mínimo, importantes testemunhos epigráficos – antigas pichações deixadas nas paredes – talvez até por se desconhecer a sua importância! Será que algumas das pessoas envolvidas, percebendo a transcendental importância de sua tarefa, e a sorte de terem sido designadas para ela, entraram numa disputa do tipo “corrida do ouro”, buscando a primazia no achado e na divulgação dessa incrível descoberta? Seja como for, em 1952, aproveitando a morte de seu grande amigo e colaborador próximo, Ludwig Kaas, Pio XII começou tratativas com a famosa epigrafista Margherita Guarducci.
Marguerita era membro da tradicional e influente família italiana, e alguns quiseram ver nisso a influência do poderoso patriciado romano, que tantos problemas causou à Igreja, por sua excessiva ingerência nos assuntos papais, ao longo da história. Ela tinha contra si, também, o fato de não constar, desde o início, da equipe diretora da escavação, de não ser uma arqueóloga, mas uma epigrafista, especialista em ambiente, em “circunstâncias”, que pouco podia optar sobre o que mais interessava: o corpo de Pedro, de ser uma mulher em um mundo ainda muito masculino: o Vaticano, que ainda estava a digerir a famosa madre Pascalina Lehnert, o braço direito do Papa, a primeira mulher a morar no Vaticano, sem falar que, além de não ser  uma típica  “católica praticante”, nos moldes da época, chocada com o que vira, ela divulgará, com discrição, mas sem meias palavras, as barbaridades cometidas no início das escavações, que comprometiam a equipe original.
Entretanto é preciso reconhecer que o comportamento da professora, ao longo do período que ela esteve à frente dos trabalhos, foi absolutamente profissional e científico, em contraste com a de seus êmulos, em especial o Padre Antonio Ferrua, que se apropriará indevidamente de uma peça importantíssima das escavações, e que, até o final de seus dias, negará o valor das conclusões da sua chefa – para o padre Ferrua, morto em 2003, com 103 anos, os ossos encontrados nas escavações, nenhum deles, são de Pedro. No entanto, os Papas Pio XII e Paulo VI acatarão rigorosamente as conclusões da professora Guarducci e reconhecerão, no final, o seu papel fundamental para o sucesso da empreitada. Ela será a porta-voz oficial das escavações.
(3) Esse estranho episódio veio a luz em 1953, relatado pela professora Marguerita Guarducci, que, perplexa com a quantidade de grafites, quase todos referentes a Pedro, numa área das escavações, resolveu investigar mais a fundo se realmente nada fora encontrado na cripta abaixo deles, o local da tumba. Foi aí que ela entrou em contato com o funcionário responsável pela manutenção da Basílica, Giovanni Segoni, o braço direito do Monsenhor Kaas. Segoni contou que, certa vez, como costumavam fazer todos os dias, à noite, ele e o Monsenhor Kaas foram examinar o resultado das escavações, e encontraram uma pilha de pedras e ossos misturados no local da tumba, e que o Monsenhor, angustiado pela possibilidade de se estar profanando sepulturas alheias, mandou recolher e classificar todos os ossos que estivessem no meio daquela pilha de entulhos, guardando-os adequadamente, julgando, inclusive, que fossem de várias pessoas. Os ossos foram então guardados nos armazéns das Oficinas de São Pedro, nas grutas do Vaticano. Segoni foi então com Guarducci até o armazém, e mostrou a caixa com os ossos. Estava tudo como ele havia dito. Foram esses ossos, ao todo uns 135, de diversos tamanhos, que Venerando Correnti, analisando, concluiu serem de um homem só, que reunia as características mais prováveis de Pedro – apenas um osso craniano não batia com o conjunto.
(4) O famoso crítico de arte italiano Frederico Zeri, que se identifica como um “não crente” escreveu: “o que mais me persuadiu de que os ossos encontrados naquele nicho são os que a tradição atribuía a Pedro, ou melhor, que na época de Constantino eram considerados ossos de Pedro, é o fato de que estavam envoltos naquele tecido... isto é, um tecido púrpura (tingido com uma concha que vinha da costa da Síria, na costa libanesa) costurado com fios de ouro. Um tecido deste gênero estava reservado exclusivamente à autoridade mais sagrada do império, isto é, ao imperador... só o augusto tinha esse atributo [o uso exclusivo] da púrpura e do ouro. Não existe em absoluto outra possibilidade: o próprio imperador deve tê-los envolvido naquele tecido precioso, que era o símbolo de sua autoridade e, inclusive, de sua vontade” (traduzido do espanhol de http://www.conoze.com/doc.php?doc=1506). Noutras palavras: ou os ossos são de Pedro ou do mais excêntrico imperador romano que se tem notícia, ainda não descoberto...
(5) Na mesma linha seguem aqueles que fizeram, e ainda fazem estardalhaço por causa da descoberta de alguns ossuários, por frades franciscanos, em 1953, numa caverna no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, próximos à igreja Dominus Flevit, “o Senhor que chora”, no mesmo local onde, segundo uma tradição do tempo das cruzadas, Jesus chorou após ter uma vista geral de Jerusalém (Lc 19,41-44). No Monte das Oliveiras também, todos lembram, Jesus viveu seu momento mais angustiante, antes de morrer, seus discípulos o mais vergonhoso e foi lá que o prenderam. Naquele ano os franciscanos levantavam um muro para marcar a área de ocupação da futura igreja de Dominus Flevit, planejada e erguida entre 1953 e 1955, próximo às ruínas do tempo dos cruzados, quando deram com um cemitério muito antigo – os achados datavam do tempo dos cananeus até a ocupação bizantina – sem qualquer vestígio na tradição cristã, anterior às cruzadas, ligada aos apóstolos. Vários ossuários foram achados e em um deles pode se ler: “Shimon Bar Yonah” ou Simão filho de Jonas. Para alguns, então, as escavações do Vaticano eram falsas, e como foram encontradas evidências de ser um cemitério cristão, além dos ossuários de uma Marta e uma Maria, a conclusão foi imediata: Pedro fora sepultado junto com as irmãs de Lázaro! Mas há problemas; e que problemas!
a) Só havia um Simão Bar Jonas na Palestina daquela época?
b) Por que Pedro iria querer ser sepultado em um lugar de tão péssimas recordações? Se o sepultamento foi feito por cristãos a revelia das memórias de Pedro, então eles não podiam ter imaginado uma punição pior para o seu querido Apóstolo.
c) Se Pedro está sepultado ali, por que o local nunca foi lugar de culto?
d) Que relação há ou poderia ser encontrada, em qualquer lugar que seja, entre Pedro e as irmãs de Lázaro e entre estas e Jerusalém?
e) Por que os ossuários ficariam todos misturados, como se todos fossem do mesmo nível ou tivessem a mesma importância dentro da comunidade cristã, quando é exatamente isso que não se vê nem nos Evangelhos nem nos Atos dos Apóstolos.
O professor Stephen Pfann, da Universidade da Terra Santa, num estudo muito erudito, mostra que as inscrições devem ser lidas antes como “Shimon Barzillai”, membro dos Barzillai, uma poderosa e conhecida família judia da Palestina. O estudo do professor Pfann pode ser visto em http://www.uhl.ac/en/projects/talpiot-tomb/shimon-barzillai/
(6) Numa página do site do Vaticano lê-se que São Paulo foi decapitado “fora das muralhas aurelianas, na Via Ostiense, sem dúvida alguma em Aquas Salvias”; que “as escavações confirmaram a presença de um cemitério debaixo da Basílica e ao seu entorno, composto de nichos e fossas para pobres, escravos e libertos”; que “o presbítero Gaios, “que vivia no tempo de Zeferino, bispo dos romanos de 199 a 217”, foi o primeiro que disse ter visto a memória [os monumentos] dos dois apóstolos”; que “o orifício redondo, que não altera a inscrição, é sem dúvida nenhuma contemporâneo [ao período do sepultamento de Constantino], trata-se de um pequeno conduto unido à sepultura e recorda um costume romano, e depois também cristão, de verter perfumes nas tumbas. Esta lápide dos séculos IV/V testifica um culto anterior à grande construção de 386 [feita por Teodósio e outros imperadores]”    http://www.vatican.va/various/basiliche/san_paolo/sp/basilica/tomba.htm  

Bibliografia
Bíblia de Jerusalém; 3ª impressão; Paulus; São Paulo; 2004
Bloch, Raymond e Cousin, Jean; Roma e o seu destino; trad Ma. Antonieta M Godinho; Cosmos; Lisboa-Rio de Janeiro; 1964
Cornell, Tim e Matthews, John; Roma legado de um império; col. Grandes Impérios e Civilizações; trad Maria Emilia Vidigal; Del Prado; 2 vol; Madrid, 1996;
Diacov, V. e Covalev, S.; História da Antiguidade – Roma; trad João Cunha Andrade; Fulgor; São Paulo; 1965
Giordani, Mario Curtis; Antiguidade Clássica II – História de Roma; 9ª edição; Vozes; Petrópolis; 1987.
Jedin, Hubert (org); Manual de Historia de la Iglesia – e la Iglesia primitiva a los comienzos de la gran Iglesia - tomo primero; versión castellana Daniel Ruiz Bueno; Herder; Barcelona 1966; (online)
McKenzie, John L.; Dicionário bíblico; trad. Álvaro Cunha e outros; 8ª edição; Paulus; São Paulo; 2003.
Mora, Jose Ferrater; Diccionario de Filosofia; Sudamericana; Buenos Aires (online)
Reale, GiovanniAntiseri, Dario; História da Filosofia – Patrística e Escolástica; trad. Ivo Torniolo; 4ª edição; Paulus; vol 2; São Paulo; 2009
Sobre a tumba de Pedro recomendo as seguintes páginas em espanhol, francês, inglês e italiano.
http://www.conoze.com/doc.php?doc=1506
http://w2.vatican.va/content/paul-vi/fr/audiences/1968/documents/hf_p-vi_aud_19680626.html
https://web.archive.org/web/20041127084958/http://www.amaldi2000.it/Giribaldi/itomba_di_pietro.htm
http://www.conocereisdeverdad.org/website/index.php?id=4969
http://stpetersbasilica.info/Necropolis/MG/TheTombofStPeter-1.htm
http://infocatolica.com/blog/razones.php/1008071230-san-pedro-en-el-vaticano-las

http://kaire.wikidot.com/san-pedro-en-vaticano-las-pruebas-indiscutibles