Eduardo Simões
Eu estava traduzindo
para meus leitores o longo artigo do professor Unwin, Companhia dos Mercadores
Aventureiros no reinado de Elisabeth I, quando me deparei com uma afirmação que
me atordoou, em vista do que já tinha assimilado nas fantasias de Karl Marx.
Que teria muito mais méritos se não recorresse tanto a elas.
Para tirar minhas
dúvidas e não ter que recorrer a um dos mais tediosos livros já escritos, O
Capital, resolvi pesquisar na inteligência artificial sobre esse assunto,
primeiro naquela em língua portuguesa e depois na de língua inglesa, para que
não ficassem dúvidas. As duas confirmaram a minha suspeita, mas devo dizer que
a resposta da Wikipedia em inglês pareceu-me bem mais militante que a Wikipedia
em português.
A pergunta foi: “Para
Karl Marx, a pirataria ajudou à prosperidade do capitalismo?”
A resposta em português
foi mais circunstanciada: “para Karl Marx, a pirataria não gerou riqueza de
forma pacífica, mas ajudou o capitalismo a nascer. Ela funcionou como uma
violência inicial. A pirataria enriqueceu alguns grupos por meio do roubo e do
saque. Essa riqueza financiou as primeiras grandes indústrias e bancos. — Como
funciona: O capitalismo precisa de muito dinheiro concentrado na mão de
poucos e de pessoas pobres que precisem trabalhar por um salário. — O papel
da pirataria: O saque de navios e de colônias enriqueceu a Europa
rapidamente. Esse dinheiro roubado virou o capital inicial para criar fábricas
e comércios” …
A resposta em inglês,
traduzida, foi mais direta:
“Sim, Karl Marx
argumentou que a pirataria desempenhou um papel fundamental no surgimento do
capitalismo. Ele explicou isso no Volume 1 de seu livro, O Capital — Marx
chamou esse estágio inicial de formação de riqueza de acumulação primitiva.
Ele rejeitou a ideia de que os primeiros capitalistas enriqueceram por meio de
trabalho árduo e poupança. Em vez disso, afirmou que a riqueza inicial provinha
de roubo, escravidão e violência.
Marx destacou estes
fatos fundamentais: Riquezas Roubadas: Ele escreveu que os tesouros
capturados fora da Europa por meio de saques e assassinatos foram trazidos para
o continente — Transformando o saque em capital: Piratas, conquistadores
e comerciantes transformavam esse ouro e prata roubados em “capital” — dinheiro
usado para investir em negócios e contratar trabalhadores — Evidências
históricas: Marx afirmou que a história da riqueza dos primeiros
comerciantes foi construída diretamente sobre atos como a pirataria no
Mediterrâneo.
Pense nisso como um
jogo de tabuleiro. Se um jogador começa com todo o dinheiro e as propriedades
porque os roubou dos outros jogadores, sua vantagem no jogo é injusta. Marx
acreditava que o capitalismo obtinha seu “dinheiro inicial” desse roubo global.
Ele concluiu, de forma memorável [meu
destaque, os outros da IA Google], que o capital vem impregnado de sangue
e sujeira da cabeça aos pés, por todos os poros.”
Depois disso, quem
disser que a IA Google é politicamente neutra, não sabe o que está dizendo.
Bem, como eu dizia,
estava traduzindo o artigo do professor Unwin, quando cheguei ao seguinte
trecho:
“Em nossa época,
novas descobertas de ouro, embora quase invariavelmente consumam mais capital
especulativo do que rendem, podem estimular, até mesmo superestimar, o crédito.
As descobertas do século XVI, de fato, tiveram uma forte tendência a fazer
isso. Mas, como tentei demonstrar em meu relato sobre o desenvolvimento do
crédito internacional, a caça ao ouro dos corsários mais do que
contrabalançou essa tendência. Ela desferiu um golpe fatal no próprio cerne do
crédito. Tornou o sistema bancário e financeiro internacional praticamente
impossível [meu destaque]. Diante desse resultado, o governo
recuou. Após a apreensão do ouro espanhol em 1568 [nesse ano, um navio
espanhol se refugiou no porto inglês de Plymouth, fugindo de um corsário, e a
rainha Elizabeth mandou seus soldados apreenderem a carga do navio espanhol], que
provocou uma crise que desestabilizou o comércio e a indústria por vários anos,
Elizabeth teve, por fim, que reconhecer a quantia como um empréstimo dos
banqueiros genoveses a quem pertencia [eles eram os donos legítimos da
carga roubada, pois esta deveria pagar os empréstimos que o rei da Espanha
contraiu com esses banqueiros para as despesas da colonização]. Esse efeito
direto e imediato sobre o crédito, decorrente da apreensão em Plymouth em 1568
e da posterior captura de Drake [de vários navios espanhóis com ouro e outras
cargas valiosas], é bastante evidente. Era como se — para usar um paralelo
moderno — os alemães saqueassem o Banco da Inglaterra.
Houve, contudo, efeitos
indiretos sobre o crédito, decorrentes da preocupação do governo e da nação com
o ouro, que, por serem menos óbvios, foram mais insidiosos na época e que
merecem maior atenção do estudioso. Em resumo, a preocupação prática com o ouro
gerou uma reação à teoria bullionista, da qual o comércio e a indústria
pareciam prestes a escapar. Por mais paradoxal que pareça, é um fenômeno
psicológico natural que as nações com maior acesso ao ouro e à prata também
tivessem as leis menos liberais sobre metais preciosos. Enquanto milhões fluíam
para seus cofres, o espanhol ressentia-se de cada ducado enviado para o
estrangeiro [meu destaque]. Gresham
[conselheiro de Maria I e Elisabeth I] nos deu um relato vívido de como foi
hostilizado na Espanha, quando foi, como agente da Rainha Maria, trazer alguns
metais preciosos, com a aprovação de seu marido, Filipe [a rainha Maria, da
Inglaterra, teve um breve casamento ‘torto’ com Filipe II de Espanha]. O mesmo
ocorreu na Inglaterra, quando os bucaneiros começaram a trazer ouro de minas
descobertas em alto-mar [os navios que saqueavam], ou quando os
aventureiros trouxeram pó de ouro da costa da Guiné, ou ainda nas grandes
esperanças de muitos de que as cargas de lastro [pedras comuns que eram
postas na parte mais baixa da quilha dos navios para lhe dar estabilidade] de
Terra Nova [no Canadá] dos navios Frobisher contivessem uma alta porcentagem de
metais preciosos [a turma queria minerar o fundo dos barcos]. Todos os
antigos mecanismos pelos quais o fluxo de ouro e prata havia sido restringido
foram revividos [gerando uma queda na sua circulação e consequentemente
queda do comércio mundial].
Com um saque
imediato de ouro e prata sempre em mente, a nação deixou de confiar nas
silenciosas, porém irresistíveis, agências do comércio externo e do crédito
internacional, pelas quais o fluxo de ouro e prata era mantido em um nível mais
baixo. E, em sua ânsia de reter o estoque ilícito de ouro e prata, prejudicou
as agências que mantinham um fornecimento regular. Agarrou-se à sombra — o ouro
e prata — e deixou cair a substância — o crédito
[meu destaque].”
Como a análise de Marx
sobre o capitalismo é pueril!
Todas essas
iniciativas, a autorização dos ataques e das cartas de corso, assim como a sua
realização, foram tomadas por reis e rainhas e por seus lugares-tenentes,
nobres e burocratas residuais das antigas cortes medievais, interessados em
metais de uso exclusivo deles próprios, inacessíveis aos burgueses
endinheirados, que lucravam muito mais com o comércio e as taxas de câmbio, que
foram profundamente prejudicados pela ação desses rebotalhos da ordem
médio-feudal.
Vejam como era
asfixiante o controle do estrato medieval sobre os outros estratos da sociedade
inglesa no século XVI, quando, segundo o douto Marx, a burguesia estava
acumulando riquezas pela pirataria, o roubo de metais preciosos em outros
continentes e vendendo escravos.
Diz a IA Google.
“Na Inglaterra do século
XVI, as leis suntuárias (conhecidas como Estatutos do Vestuário
[Statutes of Apparel]) foram criadas para proteger as rígidas hierarquias de
classe. Como os ricos comerciantes e plebeus acumularam riquezas sem
precedentes, essas leis os impediam de utilizar tecidos luxuosos como seda, veludo
e peles. Isso, legalmente, impedia que a crescente classe média se vestisse de
forma mais refinada do que sua condição social, ofuscando a nobreza
tradicional.
Eis como essas leis
impactaram especificamente a burguesia do século XVI:
- Regras rígidas de vestuário:
A coroa estabelecia exatamente o que as diferentes classes sociais podiam
usar, com base em sua renda ou posição social. Por exemplo, a esposa de um
rico comerciante era legalmente proibida de usar sedas importadas,
bordados em ouro ou certos tipos de pele, mesmo que pudesse comprá-los
facilmente.
- Proteção de Classe para a Nobreza:
A antiga nobreza latifundiária frequentemente possuía menos recursos
financeiros do que os prósperos mercadores. As leis impediam que os “novos
ricos” se vestissem como lordes. Isso protegia o poder visual e o status
social da nobreza.
- Controle econômico:
Monarcas como Henrique VIII e Elizabeth I usaram as leis para manter o
dinheiro dentro da Inglaterra. Ao limitar a capacidade da burguesia de
comprar tecidos de luxo importados, o governo tentava evitar a saída de
metais preciosos e apoiar o comércio local [cujos interesses, às vezes,
conflitavam com os da alta burguesia, muitas vezes obscuros para ambas as
classes sociais, como o professor Unwin vai colocar muito bem no seu
artigo; vemos aqui também uma mentalidade mercantilista de saqueio,
tipicamente medieval].
- Estigmatização social:
usar roupas que pertenciam a uma classe social mais alta era ilegal.
Plebeus ricos que infringissem essas regras arriscavam enfrentar multas
pesadas, prisão ou humilhação pública.
- Rebelião Emergente ['Emerging
Rebellion'?]: À medida que a burguesia enriquecia, ignorava cada
vez mais essas regras. As leis tornaram-se mais difíceis de serem
aplicadas. Isso desencadeou uma grande mudança na forma como a sociedade
encarava o status. O status passou a ser definido pela riqueza bruta, e
não apenas pelo direito de nascimento [Por que a IA trata como “rebelião”
o que não passa de uma mudança de mentalidade? Seria a ânsia de referir-se
à luta de classes?].
Em última análise,
essas leis evidenciaram a luta entre a elite latifundiária tradicional e a
crescente classe média rica, antes de serem finalmente abolidas em 1604.”
É óbvio que essa realidade de guerras por qualquer pretexto, roubos, pirataria,
comércio forçado etc. ocorre dentro de uma ordem ainda predominantemente
médio-feudal contra a qual a burguesia precisou lutar ainda por muito tempo até
descobrir uma opção melhor e se desvencilhar dela.
Longe de uma abordagem
tipo teoria da conspiração, onde perigosas classes opressoras classes emergem
da história com um plano acabado de uma nova ordem, elaborado quase por
geração espontânea, ou por sentimentos ruim e imperfeições morais, que por alguma
razão inexplicável, mágica, só mancham os membros de uma determinada classe
social, como se ela fosse a serpente do paraíso, justificando o banditismo
rasteiro de todas as outras classes, devemos entender a formação da grupamento
burguês e a ordem decorrente de suas iniciativas como resultantes de um longo
percurso cheio de nuances, ora avançando, ora retrocedendo, às vezes por suas
proprias iniciativas, à sombra de poderosos estados que se formaram do que
sobrou da ordem médio-feudal, sendo ainda por eles dirigidos. Esses estados,
controlados pela aristocracia medieval, dominavam e usavam a burguesia
comercial, assim como as outras classes, em função de seus interesses
econômicos, políticos e sociais, determinados pelo nível de compreensão geral
que se tinha do conjunto das interações sociais ocorridas no espaço da Europa
Ocidental, que influenciariam intelectualmente servos, burgueses, nobres e
reis, ainda por muito tempo.
A ordem burguesa, ainda
em construção nos dias de hoje, é fruto de interações, conscientes ou não,
determinadas por limitações intelectuais do meio historicamente dado,
progredindo na direção de algo que ninguém sabe ainda como é, nem jamais
saberá, salvo os dotados do dom da profecia, e dos falsos profetas de sempre,
que, às vezes, fazem mais sucesso do que deveriam, rumo a um mundo melhorado, e
até ideal, e que, por isso mesmo, nunca será alcançado.
Creio, enfim, que a
leitura judiciosa do texto do professor Unwin, A Companhia dos Mercadores
Aventureiros no Reinado de Elisabeth I, será um dos excelentes antídotos
aos enganos que pululam por aí sob o disfarce de ‘grande descoberta’ e até de
‘descoberta final’.
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