sexta-feira, 17 de julho de 2026


DA IMPORTÂNCIA DE LER O PROFESSOR UNWIN E DE NÃO CRER, ACRITICAMENTE, EM TUDO O QUE LHE DISSEREM.

Eduardo Simões

Eu estava traduzindo para meus leitores o longo artigo do professor Unwin, Companhia dos Mercadores Aventureiros no reinado de Elisabeth I, quando me deparei com uma afirmação que me atordoou, em vista do que já tinha assimilado nas fantasias de Karl Marx. Que teria muito mais méritos se não recorresse tanto a elas.

Para tirar minhas dúvidas e não ter que recorrer a um dos mais tediosos livros já escritos, O Capital, resolvi pesquisar na inteligência artificial sobre esse assunto, primeiro naquela em língua portuguesa e depois na de língua inglesa, para que não ficassem dúvidas. As duas confirmaram a minha suspeita, mas devo dizer que a resposta da Wikipedia em inglês pareceu-me bem mais militante que a Wikipedia em português.

A pergunta foi: “Para Karl Marx, a pirataria ajudou à prosperidade do capitalismo?

A resposta em português foi mais circunstanciada: “para Karl Marx, a pirataria não gerou riqueza de forma pacífica, mas ajudou o capitalismo a nascer. Ela funcionou como uma violência inicial. A pirataria enriqueceu alguns grupos por meio do roubo e do saque. Essa riqueza financiou as primeiras grandes indústrias e bancos. — Como funciona: O capitalismo precisa de muito dinheiro concentrado na mão de poucos e de pessoas pobres que precisem trabalhar por um salário. — O papel da pirataria: O saque de navios e de colônias enriqueceu a Europa rapidamente. Esse dinheiro roubado virou o capital inicial para criar fábricas e comércios” …

A resposta em inglês, traduzida, foi mais direta:

Sim, Karl Marx argumentou que a pirataria desempenhou um papel fundamental no surgimento do capitalismo. Ele explicou isso no Volume 1 de seu livro, O Capital — Marx chamou esse estágio inicial de formação de riqueza de acumulação primitiva. Ele rejeitou a ideia de que os primeiros capitalistas enriqueceram por meio de trabalho árduo e poupança. Em vez disso, afirmou que a riqueza inicial provinha de roubo, escravidão e violência.

Marx destacou estes fatos fundamentais: Riquezas Roubadas: Ele escreveu que os tesouros capturados fora da Europa por meio de saques e assassinatos foram trazidos para o continente — Transformando o saque em capital: Piratas, conquistadores e comerciantes transformavam esse ouro e prata roubados em “capital” — dinheiro usado para investir em negócios e contratar trabalhadores — Evidências históricas: Marx afirmou que a história da riqueza dos primeiros comerciantes foi construída diretamente sobre atos como a pirataria no Mediterrâneo.

Pense nisso como um jogo de tabuleiro. Se um jogador começa com todo o dinheiro e as propriedades porque os roubou dos outros jogadores, sua vantagem no jogo é injusta. Marx acreditava que o capitalismo obtinha seu “dinheiro inicial” desse roubo global. Ele concluiu, de forma memorável [meu destaque, os outros da IA Google], que o capital vem impregnado de sangue e sujeira da cabeça aos pés, por todos os poros.”

Depois disso, quem disser que a IA Google é politicamente neutra, não sabe o que está dizendo.

Bem, como eu dizia, estava traduzindo o artigo do professor Unwin, quando cheguei  ao seguinte trecho:

Em nossa época, novas descobertas de ouro, embora quase invariavelmente consumam mais capital especulativo do que rendem, podem estimular, até mesmo superestimar, o crédito. As descobertas do século XVI, de fato, tiveram uma forte tendência a fazer isso. Mas, como tentei demonstrar em meu relato sobre o desenvolvimento do crédito internacional, a caça ao ouro dos corsários mais do que contrabalançou essa tendência. Ela desferiu um golpe fatal no próprio cerne do crédito. Tornou o sistema bancário e financeiro internacional praticamente impossível [meu destaque]. Diante desse resultado, o governo recuou. Após a apreensão do ouro espanhol em 1568 [nesse ano, um navio espanhol se refugiou no porto inglês de Plymouth, fugindo de um corsário, e a rainha Elizabeth mandou seus soldados apreenderem a carga do navio espanhol], que provocou uma crise que desestabilizou o comércio e a indústria por vários anos, Elizabeth teve, por fim, que reconhecer a quantia como um empréstimo dos banqueiros genoveses a quem pertencia [eles eram os donos legítimos da carga roubada, pois esta deveria pagar os empréstimos que o rei da Espanha contraiu com esses banqueiros para as despesas da colonização]. Esse efeito direto e imediato sobre o crédito, decorrente da apreensão em Plymouth em 1568 e da posterior captura de Drake [de vários navios espanhóis com ouro e outras cargas valiosas], é bastante evidente. Era como se — para usar um paralelo moderno — os alemães saqueassem o Banco da Inglaterra.

Houve, contudo, efeitos indiretos sobre o crédito, decorrentes da preocupação do governo e da nação com o ouro, que, por serem menos óbvios, foram mais insidiosos na época e que merecem maior atenção do estudioso. Em resumo, a preocupação prática com o ouro gerou uma reação à teoria bullionista, da qual o comércio e a indústria pareciam prestes a escapar. Por mais paradoxal que pareça, é um fenômeno psicológico natural que as nações com maior acesso ao ouro e à prata também tivessem as leis menos liberais sobre metais preciosos. Enquanto milhões fluíam para seus cofres, o espanhol ressentia-se de cada ducado enviado para o estrangeiro [meu destaque]. Gresham [conselheiro de Maria I e Elisabeth I] nos deu um relato vívido de como foi hostilizado na Espanha, quando foi, como agente da Rainha Maria, trazer alguns metais preciosos, com a aprovação de seu marido, Filipe [a rainha Maria, da Inglaterra, teve um breve casamento ‘torto’ com Filipe II de Espanha]. O mesmo ocorreu na Inglaterra, quando os bucaneiros começaram a trazer ouro de minas descobertas em alto-mar [os navios que saqueavam], ou quando os aventureiros trouxeram pó de ouro da costa da Guiné, ou ainda nas grandes esperanças de muitos de que as cargas de lastro [pedras comuns que eram postas na parte mais baixa da quilha dos navios para lhe dar estabilidade] de Terra Nova [no Canadá] dos navios Frobisher contivessem uma alta porcentagem de metais preciosos [a turma queria minerar o fundo dos barcos]. Todos os antigos mecanismos pelos quais o fluxo de ouro e prata havia sido restringido foram revividos [gerando uma queda na sua circulação e consequentemente queda do comércio mundial].

Com um saque imediato de ouro e prata sempre em mente, a nação deixou de confiar nas silenciosas, porém irresistíveis, agências do comércio externo e do crédito internacional, pelas quais o fluxo de ouro e prata era mantido em um nível mais baixo. E, em sua ânsia de reter o estoque ilícito de ouro e prata, prejudicou as agências que mantinham um fornecimento regular. Agarrou-se à sombra — o ouro e prata — e deixou cair a substância — o crédito [meu destaque].”

Como a análise de Marx sobre o capitalismo é pueril!

Todas essas iniciativas, a autorização dos ataques e das cartas de corso, assim como a sua realização, foram tomadas por reis e rainhas e por seus lugares-tenentes, nobres e burocratas residuais das antigas cortes medievais, interessados em metais de uso exclusivo deles próprios, inacessíveis aos burgueses endinheirados, que lucravam muito mais com o comércio e as taxas de câmbio, que foram profundamente prejudicados pela ação desses rebotalhos da ordem médio-feudal.

Vejam como era asfixiante o controle do estrato medieval sobre os outros estratos da sociedade inglesa no século XVI, quando, segundo o douto Marx, a burguesia estava acumulando riquezas pela pirataria, o roubo de metais preciosos em outros continentes e vendendo escravos.

Diz a IA Google.

“Na Inglaterra do século XVI, as leis suntuárias (conhecidas como Estatutos do Vestuário [Statutes of Apparel]) foram criadas para proteger as rígidas hierarquias de classe. Como os ricos comerciantes e plebeus acumularam riquezas sem precedentes, essas leis os impediam de utilizar tecidos luxuosos como seda, veludo e peles. Isso, legalmente, impedia que a crescente classe média se vestisse de forma mais refinada do que sua condição social, ofuscando a nobreza tradicional.

Eis como essas leis impactaram especificamente a burguesia do século XVI:

  • Regras rígidas de vestuário: A coroa estabelecia exatamente o que as diferentes classes sociais podiam usar, com base em sua renda ou posição social. Por exemplo, a esposa de um rico comerciante era legalmente proibida de usar sedas importadas, bordados em ouro ou certos tipos de pele, mesmo que pudesse comprá-los facilmente.
  • Proteção de Classe para a Nobreza: A antiga nobreza latifundiária frequentemente possuía menos recursos financeiros do que os prósperos mercadores. As leis impediam que os “novos ricos” se vestissem como lordes. Isso protegia o poder visual e o status social da nobreza.
  • Controle econômico: Monarcas como Henrique VIII e Elizabeth I usaram as leis para manter o dinheiro dentro da Inglaterra. Ao limitar a capacidade da burguesia de comprar tecidos de luxo importados, o governo tentava evitar a saída de metais preciosos e apoiar o comércio local [cujos interesses, às vezes, conflitavam com os da alta burguesia, muitas vezes obscuros para ambas as classes sociais, como o professor Unwin vai colocar muito bem no seu artigo; vemos aqui também uma mentalidade mercantilista de saqueio, tipicamente medieval].
  • Estigmatização social: usar roupas que pertenciam a uma classe social mais alta era ilegal. Plebeus ricos que infringissem essas regras arriscavam enfrentar multas pesadas, prisão ou humilhação pública.
  • Rebelião Emergente ['Emerging Rebellion'?]: À medida que a burguesia enriquecia, ignorava cada vez mais essas regras. As leis tornaram-se mais difíceis de serem aplicadas. Isso desencadeou uma grande mudança na forma como a sociedade encarava o status. O status passou a ser definido pela riqueza bruta, e não apenas pelo direito de nascimento [Por que a IA trata como “rebelião” o que não passa de uma mudança de mentalidade? Seria a ânsia de referir-se à luta de classes?].

Em última análise, essas leis evidenciaram a luta entre a elite latifundiária tradicional e a crescente classe média rica, antes de serem finalmente abolidas em 1604.”


É óbvio que essa realidade de guerras por qualquer pretexto, roubos, pirataria, comércio forçado etc. ocorre dentro de uma ordem ainda predominantemente médio-feudal contra a qual a burguesia precisou lutar ainda por muito tempo até descobrir uma opção melhor e se desvencilhar dela.

Longe de uma abordagem tipo teoria da conspiração, onde perigosas classes opressoras classes emergem da história com um plano acabado de uma nova ordem,  elaborado quase por geração espontânea, ou por sentimentos ruim e imperfeições morais, que por alguma razão inexplicável, mágica, só mancham os membros de uma determinada classe social, como se ela fosse a serpente do paraíso, justificando o banditismo rasteiro de todas as outras classes, devemos entender a formação da grupamento burguês e a ordem decorrente de suas iniciativas como resultantes de um longo percurso cheio de nuances, ora avançando, ora retrocedendo, às vezes por suas proprias iniciativas, à sombra de poderosos estados que se formaram do que sobrou da ordem médio-feudal, sendo ainda por eles dirigidos. Esses estados, controlados pela aristocracia medieval, dominavam e usavam a burguesia comercial, assim como as outras classes, em função de seus interesses econômicos, políticos e sociais, determinados pelo nível de compreensão geral que se tinha do conjunto das interações sociais ocorridas no espaço da Europa Ocidental, que influenciariam intelectualmente servos, burgueses, nobres e reis, ainda por muito tempo.

A ordem burguesa, ainda em construção nos dias de hoje, é fruto de interações, conscientes ou não, determinadas por limitações intelectuais do meio historicamente dado, progredindo na direção de algo que ninguém sabe ainda como é, nem jamais saberá, salvo os dotados do dom da profecia, e dos falsos profetas de sempre, que, às vezes, fazem mais sucesso do que deveriam, rumo a um mundo melhorado, e até ideal, e que, por isso mesmo, nunca será alcançado.

Creio, enfim, que a leitura judiciosa do texto do professor Unwin, A Companhia dos Mercadores Aventureiros no Reinado de Elisabeth I, será um dos excelentes antídotos aos enganos que pululam por aí sob o disfarce de ‘grande descoberta’ e até de ‘descoberta final’.

Em breve sairão novos trechos do artigo do professor Unwin.

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