O jornal O Corsário foi
lançado em 2 de outubro de 1880 e, ao longo dos três anos de publicação, Castro
consolidou a reputação de alguém ávido por denunciar as
irregularidades políticas e pessoais cometidas por autoridades, bem como a
corrupção, a degradação e as atividades imorais praticadas por pessoas de todas
as classes sociais. Logo, o jornal de quatro páginas, publicado duas vezes por
semana até junho de 1881 e, posteriormente, três vezes por semana (terças,
quintas e sábados), atingiu uma circulação de cerca de 20.000 exemplares, o que
demonstrava seu grande apelo entre uma ampla parcela da população alfabetizada
da cidade.
“Todos liam”,
recordou um jornalista da época, ainda que fora das vistas. Segundo outra publicação crítica ao establishment
político da época, “Apulco de Castro tinha admiradores; tinha compradores”. Ao
persistir em campanhas implacáveis baseadas no lema que acabou por adornar o
cabeçalho do jornal, “Órgão de Moralização Social”, bem como em ataques verbais
a diversas instituições e indivíduos, desde os líderes de gangues de capoeira
até o próprio Imperador Pedro II, Apulco de Castro angariou muitos inimigos.
Comentaristas posteriores sugeriram, sem entrar em detalhes, que, por ofender a honra do Exército [como o afirma, por exemplo, Euclides da Cunha], membros dessa instituição tomaram medidas drásticas para defender a reputação da instituição que representavam.
Natural da Bahia, Apulco de
Castro trabalhou durante alguns anos como tipógrafo antes de fundar O
Corsário… Como escreveu em 1881: “Cidadãos trabalhadores, nasci entre
vocês e vivi com vocês. Meu pai era operário, como eu ainda sou…” Assim
como muitos outros jornalistas cariocas da época, como Ferreira de Menezes e
José do Patrocínio, da Gazeta da Tarde, ele tinha ascendência
afro-brasileira. Diferentemente de muitos outros de sua etnia e classe social,
porém, identificava-se publicamente como “homem de cor” e, posteriormente, como
“negro”. Embora raramente escrevesse sobre sua identidade racial, considerava-a
importante… Comentaristas posteriores afirmaram que ele foi morto por ousar
ofender a honra do Exército, mas ele próprio disse que seria morto por causa de
sua raça. Embora possa haver um fundo de verdade em ambas as afirmações, os
detalhes revelam uma sequência de eventos mais prosaica, e não menos
instrutiva, sobre raça, poder e memória histórica no Brasil.
No início da noite de 9 de
outubro de 1883, um grupo
uniformizado de oficiais e soldados do primeiro regimento de cavalaria ligeira [hoje os Dragões da Independência],
que servia como guarda palaciana do Imperador Pedro II, invadiu a gráfica do
jornal O Corsário, no número 52 da Rua São José, deixando-a em ruínas.
Invadiram também uma residência adjacente, destruíram os móveis e espancaram um
dos moradores até deixá-lo ensanguentado. Na hora a polícia não
tomou nenhuma providência… mas, posteriormente, colocou um guarda na gráfica.
Por volta das 15h do dia 25
de outubro de 1883, Castro entrou na sede da polícia civil, na Rua do Lavradio,
alegando ter recebido ameaças de morte e solicitando proteção policial [ele também teria visto homens suspeitos rondando o seu jornal].
Enquanto estava na delegacia conversando com o chefe de polícia Belarmino Peregrino
da Gama e Melo, um grupo de suspeitos, totalizando cerca de 100 homens de aparência
rude, se reuniram dentro e ao redor dos prédios adjacentes. O chefe de polícia
Melo não dispunha de efetivo suficiente para conter tal multidão; Os cinco
guardas urbanos e os dez policiais militares à sua disposição eram
insuficientes… Mas, com base no ataque anterior à gráfica e no pedido de
proteção de Castro, ele suspeitou que oficiais do primeiro regimento de
cavalaria ligeira estivessem envolvidos.
O gabinete do governo
imperial estava reunido na sede do Ministério do Interior, nas proximidades,
então Melo enviou um de seus delegados (o segundo em comando na sede da
polícia) para receber instruções do Ministro da Justiça, Manoel Pinto de Souza
Dantas, o supervisor da atividade policial. Este último consultou o Ministro da Guerra, Rodrigues Júnior, e
ambos enviaram uma mensagem a Melo aconselhando-o a evitar um confronto com o
exército. Concluindo que a única maneira de evitar o derramamento de sangue era
apelar ao alto comando do exército para que controlasse os oficiais subalternos
fora de seu gabinete e garantisse salvo-conduto a Castro, Melo enviou um
mensageiro ao quartel-general do exército no Campo de Santana (atual Praça da
República).
Em resposta, o Capitão João
Antônio de Ávila, ajudante pessoal do comandante do exército, apresentou-se à
delegacia de polícia. Ávila conversou com vários dos homens suspeitos, que ele conhecia e que
estavam perto da sede da polícia [que, podemos logo deduzir, eram militares]. Eles o asseguraram de que não tomariam nenhuma
atitude enquanto Castro estivesse sob sua proteção. O capitão do exército então
assumiu a responsabilidade de guardar Castro, que saiu da sede da polícia em
sua companhia. Ávila chamou um táxi na rua, mas mal haviam começado a andar
quando um grupo de homens à paisana, com os rostos cobertos por grandes barbas
postiças, parou o carro e atacou Castro com adagas e pistolas. Mortalmente
ferido, ele foi retirado do táxi e levado para o saguão da sede da polícia,
onde faleceu em poucos minutos. Um exame médico posterior determinou que ele
faleceu em decorrência de 16 ferimentos, incluindo 10 facadas (todas pelas
costas, duas das quais penetraram o tórax), cinco cortes e um ferimento à bala [o número de ferimentos vária conforme a fonte].
Os agressores escaparam sem
serem incomodados em meio à grande multidão de espectadores que se reunira no
momento em que o jornalista buscou proteção pela primeira vez e após rumores se
espalharem de que algo estava acontecendo. De acordo com declarações oficiais,
os ferimentos sofridos pelo Capitão Ávila durante o incidente o mantiveram
confinado em seus aposentos, incomunicável, por várias semanas. O chefe de
polícia Melo foi demitido dois dias depois, durante os tumultos generalizados
que irromperam na sequência.
Uma investigação formal em
março de 1884 concluiu que 11 oficiais do exército haviam cometido o crime, mas
no final de novembro de 1884, mais de um ano após o ataque, o Ministério
Público apresentou um relatório concluindo que as evidências dos depoimentos
das testemunhas oculares divergiam em pontos cruciais e que não havia provas
suficientes para a acusação. Um juiz então arquivou o caso. Nenhum dos
envolvidos jamais foi preso ou levado a julgamento. Apulco de Castro tinha
muitos seguidores, que foram às ruas. Por várias noites após o assassinato,
multidões percorreram o centro da cidade, engajando-se em diversas formas de
protesto violento.
Segundo o visitante alemão
Carl von Koseritz, que testemunhou esses eventos, manifestantes destruíram
postes de luz ao som de gritos de “Viva a revolução!” sendo recebidos por
“destacamentos da guarda urbana armados, de forma pouco urbana, com fuzis”, enquanto
uma “cavalaria da polícia militar desobstruiu as ruas a galope, com sabres
desembainhados”, e agentes da polícia secreta à paisana repeliram os
manifestantes com cassetetes. Um grupo de manifestantes encontrou dois grandes
barris na Praça São Francisco, aos quais fixaram tochas de palha, atearam fogo
e rolaram ruidosamente os barris em chamas pela Rua do Ouvidor, principal local
de compras e socialização da classe alta no centro do Rio, gritando para os comércios fecharem.
“Mendigos e capoeiras se
juntaram aos pivetes, e quando a guarda urbana apareceu, foram recebidos com
uma chuva de pedras da multidão.” No final do dia 29 de outubro, um grupo tentou incendiar o prédio que abriga o
Ministério da Justiça na Praça da Lapa. Quando a multidão atacou o prédio onde
o Gabinete Imperial estava reunido, os ministros de Estado tiveram que fugir
pelas portas dos fundos. Os panfletos convocando o público a se reunir na
Praça São Francisco, no centro da cidade, não mencionavam nenhuma causa ou
grupo político. Tudo indica que era um movimento espontâneo.
Pelo que as autoridades
puderam concluir, os manifestantes culpavam a polícia por não impedir a
morte de Castro e por não prender os perpetradores — uma acusação razoável perante o que se viu. O
governo finalmente conseguiu controlar a situação em 29 de outubro, segundo o
recém-empossado chefe de polícia Tito Augusto Pereira de Matos, quando as celas
das delegacias do centro estavam “lotadas de presos”. Em 30 de outubro, mais de
300 pessoas haviam sido presas, e Matos emitiu um decreto proibindo todas as
reuniões públicas “nas ruas, praças e prédios públicos”. Ele reconheceu que o
assassinato de Castro foi a faísca que desencadeou os distúrbios, mas, em sua
opinião, os envolvidos não passavam de rufiões e capoeiras que se entregavam à
desordem por puro prazer, buscando uma desculpa para “semear o terror na
população”.
Um jornal ligado
à elite social e política do Rio de Janeiro não se mostrou tão indiferente às
motivações dos manifestantes, nem às implicações sociais e políticas
subjacentes ao ocorrido. Ao avaliar os distúrbios públicos após o restabelecimento
da calma, o Jornal do Comércio declarou que “podemos ver aqui o início de
eventos muito sérios”. Este órgão de imprensa, embora
reconhecendo que o problema não provinha de nenhum movimento organizado nem
partido político, tinha uma explicação mais sinistra [e abrangente: a
possibilidade de convulsão social]. Por outras palavras, a fúria social que se
seguiu ao assassinato de Apulco de Castro revelou o potencial destrutivo da
plebe urbana e acentuou a manutenção de um aparelho repressivo para a preservação do Estado e dos setores sociais em benefício dos
quais o Estado operava.
O recém-nomeado chefe de polícia
estava longe de ser brando e recebeu carta branca para lidar com a plebe nas
ruas. Matos decidiu que uma operação policial contínua era necessária para
restaurar a calma na cidade e, em meados de dezembro, mais de 1.200 prisões
haviam sido feitas em batidas constantes.
A casa de detenção estava superlotada e, em 14 de dezembro, os prisioneiros se amotinaram, derrubando as paredes internas que separavam as celas e fazendo todo o possível para romper os muros externos e escapar em massa. Em 31 de outubro, a família de Apulco de Castro patrocinou uma missa do sétimo dia na igreja do Sacramento, uma igreja paroquial no coração da cidade, marcada para as 8 horas da manhã. Às 9 horas da mesma manhã, a apenas um quarteirão de distância, na mais imponente igreja da Ordem Terceira de São Francisco, uma missa semelhante foi patrocinada pela Sociedade Abolicionista Luso-Brasileira, da qual Apulco de Castro havia sido membro. Mais de mil pessoas compareceram a esses eventos, e a ameaça de novos distúrbios públicos foi suficiente para a polícia recomendar o fechamento dos estabelecimentos comerciais no centro da cidade.
O primeiro movimento [para a tragédia] foi uma
breve nota que apareceu em 25 de setembro de 1883, exatamente um mês antes do
assassinato, na seção do jornal onde os itens eram publicados “sob
encomenda” [A Pedidos]:
Primeiro
Regimento de Cavalaria Ligeira.
Solicita-se
um favor a um oficial deste corpo, que compareça a uma taverna na Rua da
Quitanda para resolver uma pequena questão. Ele deve fazê-lo o mais breve
possível, ou então seu nome completo, a origem da dívida, suas cartas,
documentos e desculpas serão publicados nas colunas deste periódico. E a
atenção do General [Comandante] será chamada para um indivíduo que
usa as insígnias de um oficial do exército e que vive às custas de taberneiros
e outras pessoas que têm o azar de confiar nele.
O valor mencionado era uma soma considerável, numa época em que um artesão livre no Rio de Janeiro podia ganhar um salário de dois mil-réis por dia. Esta primeira mensagem não obteve resposta, então, em 29 de setembro, Castro dobrou a aposta, desta vez não na seção “A Pedidos”, mas em um anúncio no corpo do jornal, fornecendo mais detalhes, mas ainda sem revelar o nome do infrator. A carta era dirigida ao comandante da unidade do infrator, na esperança de que a disciplina militar preponderasse ante a possibilidade de mácula à honra do regimento.
A Sua Excelência Antônio Nicolao Falcão da Frota, Coronel Comandante do Primeiro Regimento de Cavalaria Ligeira: Um taberneiro da rua da Quitanda teve o infortúnio de emprestar 156 mil-réis a um oficial de sua unidade, quando este residia na referida rua. Após a dívida atingir esse valor, o oficial mudou-se do bairro… Em vão o taberneiro esgotou todas as medidas pacíficas e persuasivas para obter o pagamento pelos seus serviços, mas o oficial apenas lhe ofereceu lamentações e desculpas, sempre marcando um novo prazo para o pagamento!... O Filho de Marte, então, em 3 de novembro de 1882, enviou um documento no qual prometia pagar 25 mil-réis mensais até a quitação da dívida. Até hoje, 28 de setembro [de 1883], ele não efetuou um único pagamento! O taberneiro, convencido de que o oficial do primeiro regimento de cavalaria ligeira jamais pagaria a conta, concluiu que, cobrando-lhe por meio destas colunas, poderia receber o dinheiro que desejava! Sabe, Senhor Comandante, o que fez então o oficial sob seu comando? Armado com um chicote, dirigiu-se à taverna, a mesma onde, em outras ocasiões, saciara a sua fome e a de sua família, com a intenção de açoitar o taberneiro, o que não conseguiu fazer porque outras pessoas intervieram. Este oficial, sem dúvida, pensa que o chicote intimida e que, com ele, os credores se afugentam. Como se engana! Não cessaremos de chamar a atenção não só de Vossa Excelência, mas também de Sua Excelência o Comandante-Geral do Exército, para este fato. A moral e a disciplina do Exército Brasileiro exigem que Vossa Excelência obrigue este oficial a pagar as dívidas contraídas na taverna, especialmente quando essas dívidas são legalizadas por documentos assinados e selados, escritos de próprio punho pelo devedor, indivíduo que ostenta as insígnias de oficial…
Numa época
em que uma parcela significativa da população do Rio de Janeiro era composta
por escravos, e muitos membros das classes
baixas livres descendiam de escravos e possuíam algum grau de ascendência
africana, o chicote era um lembrete brutal da hierarquia social e do
poder coercitivo. Ameaçar alguém com chicotadas carregava fortes conotações da
relação entre a autoridade transcendente do senhor e a subjugação do escravo. Sem obter nenhuma satisfação, em 6 de outubro, Castro republicou essa
declaração na íntegra. Na edição seguinte de seu jornal, Castro relatou um incidente separado,
acusando tropas do primeiro regimento de cavalaria ligeira, a guarda pessoal do
imperador Pedro II, de abuso de autoridade de maneira flagrante:
Atenção: Solicitamos que as autoridades competentes tomem providências para lidar com uma triste cena ocorrida no dia 5 do corrente mês, na Rua Guarda Velha. As tropas de cavalaria da guarda imperial atacavam os transeuntes, exigindo dinheiro, e se não ficassem satisfeitas com suas exigências, ameaçavam as pessoas com suas espadas.
E na
mesma edição de 9 de outubro de 1883, Castro voltou a denunciar a dívida com o
taberneiro, alertando outros comerciantes para que ficassem atentos aos membros
da Guarda Imperial:
“Primeiro
Regimento de Cavalaria Ligeira. O canalha de um oficial desse corpo não fez um
único movimento para pagar o taberneiro da Rua Quitanda. Nem o comandante, a
quem o credor recorreu, achou por bem salvaguardar a honra da unidade que
chefia. O general comandante do exército também não procurou descobrir quem é o
oficial do primeiro regimento de cavalaria ligeira que está dando calote em
seus débitos e cinicamente assina documentos comprometendo pagá-los, mas não os
cumpre….”
Naquela
noite, os escritórios de O Corsário foram invadidos por um grupo de oficiais e
soldados uniformizados do primeiro regimento de cavalaria ligeira, que causaram
danos suficientes para tornar o equipamento de impressão inutilizável. Castro
tinha acesso a outra impressora e, em 11 de outubro, sem perder nenhuma edição,
publicou um jornal de quatro páginas sem a habitual placa de cabeçalho, que
aparentemente se perdera ou fora danificada no ataque à gráfica de 9 de
outubro. Neste “Boletim”, Castro identificou publicamente, pela primeira vez, o
oficial que ainda devia o dinheiro ao taberneiro… Ele também relatou os
insultos racistas explícitos gritados nas ruas pelos soldados envolvidos,
utilizando o “nós” editorial para se referir a si próprio:
“Os bandidos declararam abertamente sua intenção de nos matar, a ponto de, quando não encontraram nenhum de nossos funcionários [no local], quase matarem um pobre homem que mora ao lado da nossa gráfica e espancarem mulheres e crianças que encontraram. Canibais! O primeiro regimento de cavalaria, o corpo especial do rei do Brasil, soldados pagos pelo povo, não passa de uma quadrilha de canalhas [safados].”
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