O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 10
Alguns pontos a esclarecer
Lendo o República,
de Desterro, sabe-se que o barco de guerra é um cruzador, como o Jornal do
Comércio assinalou. Entretanto, na marinha, só existia um cruzador de nome Parnahyba,
que bateu quilha em 24 de janeiro de 1878 e foi descomissionado em 3 de outubro
de 1900, e não havia nenhum de nome Parahyba. Ou houve erro de impressão
ou a informação foi alterada de propósito, para dificultar a busca dos
desaparecidos.
É possível,
também, que os prisioneiros tenham sido transferidos, no meio do caminho, para
o vapor Parahyba, pois havia um navio mercante com esse nome, fosse por razões
operacionais, fosse para dificultar o rastreamento.
Se alguém pegar
o Almanak do Exército de 1896, verá na página 5 da segunda parte,
referente ao pessoal da ativa, que o marechal Manuel Lobo D’Eça, Barão de
Batovi, é dado como “destino ignorado”. Entretanto, nesse mesmo Almanak,
no final, em página não numerada, referente às correções da segunda parte,
aparece o seguinte anexo: “Manuel… D’Eça. Fal. A 25 de abril de 1894,
comunicado pelo Auditor de Guerra da Capital Federal a 22 Jan.1896” [reprodução
literal].
Sem nenhuma outra informação.
Isso não quer
dizer que o auditor militar tenha algo a ver com o acobertamento ou adulteração
do seu falecimento, e propositalmente apresentou essa versão da morte do
marechal, sem citar local e circunstância do falecimento. Ele provavelmente
pesquisou em arquivos, onde encontrou esse dado na pasta do marechal. Quem
elaborou esse relato? Quem o pôs lá? Jamais saberemos, mas sabemos que
testemunhos e fortes evidências o afastam de Anhatormirim, assim como aos
outros “fuzilados”, e que o marechal Lobo D’Eça foi visto vivo, no Rio de
Janeiro, cinco dias depois de oficialmente morto…
Mas há outras considerações:
Primeiro: no
dia 25, Moreira César mal acabara de chegar, estando somente há 3 dias no
governo, sem conhecer ninguém em Santa Catarina. Não faz sentido ele sair
fuzilando aleatoriamente, sem julgamento ou ordem prévia, arriscando matar
alguém importante e destruir sua carreira.
Segundo: se
Moreira César quisesse criar questão, e até processar o Almanak por uma
informação caluniosa, não haveria elementos para isso, pois a informação é
muito vaga e nada afirma de concreto sobre a morte do barão.
A armadilha
estava se fechando sobre ele.
Mais tarde, no
“Guia Militar para o ano de 1898 — (referente aos anos de 1893,
1894, 1895, 1896, 1897)” (Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1897), em dois
volumes, sob os cuidados do capitão de artilharia José Feliciano Lobo Viana,
dedicado a dois florianistas ferrenhos: o general de divisão Dr. Bibiano Sergio
Macedo da Fontoura Costalatt e o general de brigada Francisco de Paula Argolo.
No volume 1, a sessão de “Falecidos em 1894”, na página 290, se abre
justamente com o Marechal Manuel de Almeida da Gama Lobo D’Eça, Barão de
Batovi. Entre parênteses, o local da morte (Santa Cath.).
Mais uma vez,
nada se diz sobre o contexto e a causa de sua morte. Aparecia, afinal, algo
que, começava a incriminar Moreira Cesar, convenientemente apresentado após a
sua morte.
E como os
catarinenses, em especial os desterrenses, julgavam o seu governo? No auge de
seu mandato como governador, apareceu um editorial do jornal República,
de 22 de maio de 1894, que diz:
“REORGANIZAÇÃO
DO ESTADO
Quando a
demagogia… converteu esse estado pela violência e pela anarquia… devemos nos
regozijar pela orientação que o distinto governador, coronel Moreira César, vai
dando aos negócios públicos, imprimindo-lhes uma direção inteligente e eficaz
que tem por objetivo a reorganização completa e eficaz e definitiva do mesmo
estado…
Foi assim que
restabeleceu a Constituição [estadual] promulgada em 1891…
E, felizmente,
para o nosso estado, acha-se à frente do governo um cidadão que, por meio da
economia sistematizada e inteligente, procura… reabilitar as nossas finanças,
não obstante as dificuldades oriundas do estado precário [em que estava]… o
cofre do tesouro, cujo dinheiro… foi gasto desordenadamente… [pelos
federalistas].
Tão acertado
procedimento do primeiro magistrado do estado teve, sobretudo, por fim, evitar
que houvesse solução de continuidade na gestão dos negócios públicos que cumpre
atender, confiado aos seus justos critérios e reconhecido patriotismo”.
Quem se der ao
trabalho de ler o texto completo desse editorial, verá que ele contraria
absolutamente tudo o que diz Schutell.
Note-se
que, além dos elogios generosos que o editorial faz ao coronel Moreira César,
ele também se refere a medidas punitivas que o coronel tomou contra a anarquia
federalista. Se atentarmos à data do artigo, 22 de maio, veremos que já passara
o grosso das supostas execuções em Anhatomirim. E o jornal não faz nenhuma
menção a elas, seja justificando ou negando. Simplesmente porque elas nunca
existiram, ou tiveram outro autor.
Mas
ao ler o livro de Raul Oliveira Rodrigues, Um militar contra o militarismo —
a vida de Saldanha da Gama, Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1959, vemos que a
prática de fuzilamentos clandestinos era típica da polícia de Floriano, no Rio
de Janeiro, durante a Revolta da Armada, sendo esta uma das causas da entrada
de Saldanha na revolta.
“No
Rio, os presos eram levados de mãos atadas pelas costas, e assim fuzilados, nos
fundos da Casa de Correção” (p. 174).
“Era
a ilha das Cobras… onde se acumulavam os sentenciados pela Justiça Militar… ali
retiravam, diariamente, grupos de marinheiros aprisionados, para serem
entregues à polícia, que os fuzilava” (p. 199).
Dessa
prática há vários testemunhos.
Em circunstâncias análogas, cinco marujos suspeitos de
simpatia pela Revolta da Armada, um deles, Antônio Ignacio Quatis, entre 14 e
16 anos, foram fuzilados no arsenal de Imbiribeira, no Recife, em 1893, e logo
após eles, o sargento Silvino, líder da revolta na fortaleza de Santa Cruz, em
19 de janeiro de 1892.
Nessa
ocasião, segundo uma tradição, indagado, de Pernambuco, sobre o que fazer com o
sargento, Floriano teria respondido: Fuzilem-no sem formalidades. Essa
frase é verossímil, embora eu não a tenha visto em nenhum documento insuspeito.
Eduardo Simões
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