terça-feira, 12 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 9

O navio fantasma engoliu um barão.

Um personagem que sempre empolga os especialistas em Anhatomirim é Manuel de Almeida da Gama Lobo D’Eça, o Barão de Batovi. Filho de uma importante família local, D’Eça era um respeitado veterano da guerra do Paraguai, que teve a “péssima” ideia de aderir à revolta contra Floriano Peixoto.

Preso na ofensiva que levou de roldão o que sobrara do movimento federalista em Santa Catarina, o barão, após um tempo nas cadeias de Desterro, desapareceu sem deixar vestígio, sendo então incorporado à lista dos desaparecidos e fuzilados por Moreira César, em pessoa, ao lado de seu filho, Alfredo, por pura impaciência.

Na lista anteriormente citada, ele é a vítima nº 58.

Em fins de 2024, li no jornal República, de Desterro, de 13 de maio de 1894, a seguinte chamada: “Lê-se no Correio Mercantil de Pelotas, de 3 de maio, o seguinte telegrama expedido do Rio, em data de 2 do mesmo mês: 'Chegaram do estado de Santa Catarina o marechal Lobo D’Eça (Barão de Batovi) e outros prisioneiros políticos feitos naquele estado. Foram todos recolhidos e presos na fortaleza de Santa Cruz.'”

            Se Batovi e os outros foram mandados vivos para serem julgados no Rio de Janeiro, não faz sentido condená-los à morte e mandá-los de volta a Santa Catarina, para o cumprimento da sentença!

Minhas buscas confirmaram: um grande jornal do Rio de Janeiro, o Gazeta de Notícias, em notas avulsas na 1ª página da edição de 1º de maio de 1894, traz o seguinte informe: “De Santa Catarina chegou ontem o vapor Parahyba, trazendo a seu bordo alguns presos políticos, entre os quais o marechal barão de Batovi. Os presos foram, por ordem do governo, recolhidos à fortaleza de Santa Cruz”.

            Essa notícia aparece idêntica no Correio da Tarde, e mais curta em O Paiz e no Jornal do Comércio, todos do Rio. Temos, portanto, a data da chegada ao Rio e o nome do navio, mas há um problema: o último jornal fala do cruzador Parnahyba, e não Parahyba, como noticiam os outros. Uma coisa a conferir.

            O terceiro momento consistiu em encontrar algum traço da rota desse navio a caminho do Rio, ou dados de sua chegada ou partida de Desterro. Ora, a edição do jornal República, de 28 de abril de 1894, na coluna NOTICIÁRIO, traz as seguintes notícias:

“Partiu ontem [dia 27] para a capital federal no cruzador Parahyba o nosso patrício Francisco Emiliano de Oliveira, que tinha vindo em comissão do governo no heroico batalhão Benjamin Constant.

Uma comissão composta por moças e senhoras federalistas foi ontem [dia 27] ao palácio pedir ao coronel Moreira Cesar clemência para os implicados na revolução.

Seguiu ontem para a capital federal o cruzador Parahyba levando a bordo… alunos da escola militar e do batalhão Benjamin Constant, que aqui se achavam em comissão do governo.”

“[Na coluna SOLICITADAS, reproduz-se um telegrama]. Os abaixo-assinados, seguindo hoje no vapor Parahyba para a capital federal, pedem desculpas a todos os seus amigos e camaradas por não haver se despedido de todos… devido à precipitação de sua viagem… Desterro, 26-4-94. Major Affonso F. Pereira de Mello, capitães Francisco de Borja Conceição, José Luiz Buchele, Gonçalo Muniz Telles, tenentes Aristides Villas-Boas, Carlos Alberto Camisão, Acastro Jorge de Campos, Oscar Capella.”

            BINGO!

Numa missão repentina, sigilosa, na calada da noite de 26 e madrugada de 27, com alguns detalhes errados, como o nome e a classificação do navio, talvez propositalmente, descortina-se a trama do terror florianista sobre os ‘insolentes’ que, em Santa Catarina, ousaram discordar do senhor do Brasil.

Considerem esses elementos:

Primeiro: um navio de médio porte da esquadra, um cruzador, é destacado, pelo governo federal, para um bate-volta entre Rio de Janeiro e Desterro/Anhatomirim. Uma viagem comissionada às pressas, sem objetivo instrucional, tecnológico, humanitário ou militar discernível. Aparentemente para evitar a curiosidade pública.

Segundo: a bordo seguem, além da tripulação da Marinha, os voluntários do Batalhão Patriótico Benjamin Constant, uma organização paramilitar, fanaticamente florianista, secundados por alunos da Escola Militar, igualmente radicais (10). Se era uma missão oficial, por que não mandar uma unidade regular, em vez da milícia e jovens alunos? Uma resposta provável para isso é que, se fosse uma unidade militar regular teria que ficar registrado. Deixava ‘digitais’.

Terceiro: um seleto grupo de oficiais do exército segue com essa milícia e os alunos. Pelo teor do telegrama, percebe-se que eles tinham uma ligação próxima com pessoas da elite desterrense, tanto que pedem desculpas pela precipitação. Ou eram conterrâneos ou militares que haviam servido em Santa Catarina por um bom tempo, e, portanto, conheciam pelo rosto quem era quem na lista dos que seriam transferidos para a capital.

Quarto: tudo indica que esse navio chegou à noite de 26 e partiu na madrugada de 27. É possível que os membros do batalhão patriótico, alunos e oficiais, tenham varejado as prisões da cidade, e/ou em Anhatomirim, pego aqueles que lhes interessavam, conforme a instrução do governo, e se foram.

Quinto: logo correu na cidade, a notícia de que presos eram transferidos, à noite, por um navio da Marinha. Mostrando o quanto a cidade era pequena e como todo mundo sabia o que estava acontecendo, ainda que envolto de sigilo, esposas, mães e filhas dos aprisionados correm aflitas, de manhã cedo, ao palácio do governador para implorar clemência. Mas não havia nada que César pudesse fazer. O destino de várias dessas mulheres será procurar pelo paradeiro dos seus familiares no Rio de Janeiro, como a esposa de Caetano Nicolau. Algumas delas nunca mais os verão…

Entretanto, a censura de Floriano ‘cochilou’ em 30 de abril e a notícia vazou para os jornais. Uma fonte do Gazeta de Notícias assistiu, no Rio, ao desembarque do Barão de Batovi, além de outros. Todos desapareceram posteriormente. 

O dia da chegada ao Rio, 30 de abril, não foi aleatório: esse era o dia de aniversário de Floriano Peixoto, configurando-se a missão como uma espécie de presente para o marechal, ao mesmo tempo em que a magnitude dos festejos desviaria a atenção do desembarque dos presos. Sabendo disso, creio que ele deve ter apreciado muito esse aniversário, e pensado muito, em meio aos festejos e às artificialidades desses momentos o fim que daria a esses presos.

Quase deu certo.

Eduardo Simões

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