O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 9
O navio fantasma engoliu um barão.
Um personagem que
sempre empolga os especialistas em Anhatomirim é Manuel de Almeida da Gama Lobo
D’Eça, o Barão de Batovi. Filho de uma importante família local, D’Eça era um
respeitado veterano da guerra do Paraguai, que teve a “péssima” ideia de aderir
à revolta contra Floriano Peixoto.
Preso na ofensiva
que levou de roldão o que sobrara do movimento federalista em Santa Catarina, o
barão, após um tempo nas cadeias de Desterro, desapareceu sem deixar vestígio,
sendo então incorporado à lista dos desaparecidos e fuzilados por Moreira César,
em pessoa, ao lado de seu filho, Alfredo, por pura impaciência.
Na lista
anteriormente citada, ele é a vítima nº 58.
Em fins de 2024,
li no jornal República, de Desterro, de 13 de maio de 1894, a seguinte
chamada: “Lê-se no Correio Mercantil de Pelotas, de 3 de maio, o seguinte
telegrama expedido do Rio, em data de 2 do mesmo mês: 'Chegaram do estado de
Santa Catarina o marechal Lobo D’Eça (Barão de Batovi) e outros prisioneiros
políticos feitos naquele estado. Foram todos recolhidos e presos na fortaleza
de Santa Cruz.'”
Se Batovi e
os outros foram mandados vivos para serem julgados no Rio de Janeiro, não faz
sentido condená-los à morte e mandá-los de volta a Santa Catarina, para o
cumprimento da sentença!
Minhas buscas
confirmaram: um grande jornal do Rio de Janeiro, o Gazeta de Notícias,
em notas avulsas na 1ª página da edição de 1º de maio de 1894, traz o seguinte
informe: “De Santa Catarina chegou ontem o vapor Parahyba, trazendo a seu
bordo alguns presos políticos, entre os quais o marechal barão de Batovi. Os
presos foram, por ordem do governo, recolhidos à fortaleza de Santa Cruz”.
Essa notícia
aparece idêntica no Correio da Tarde, e mais curta em O Paiz e no
Jornal do Comércio, todos do Rio. Temos, portanto, a data da chegada ao
Rio e o nome do navio, mas há um problema: o último jornal fala do cruzador Parnahyba,
e não Parahyba, como noticiam os outros. Uma coisa a conferir.
O terceiro
momento consistiu em encontrar algum traço da rota desse navio a caminho do
Rio, ou dados de sua chegada ou partida de Desterro. Ora, a edição do jornal República,
de 28 de abril de 1894, na coluna NOTICIÁRIO, traz as seguintes notícias:
“Partiu ontem [dia 27] para a capital federal no cruzador Parahyba o nosso
patrício Francisco Emiliano de Oliveira, que tinha vindo em comissão do governo
no heroico batalhão Benjamin Constant.
Uma comissão
composta por moças e senhoras federalistas foi ontem [dia 27] ao palácio pedir ao coronel Moreira Cesar clemência
para os implicados na revolução.
Seguiu ontem para
a capital federal o cruzador Parahyba levando a bordo… alunos da escola militar
e do batalhão Benjamin Constant, que aqui se achavam em comissão do governo.”
“[Na coluna
SOLICITADAS, reproduz-se um telegrama]. Os abaixo-assinados, seguindo hoje
no vapor Parahyba para a capital federal, pedem desculpas a todos os seus
amigos e camaradas por não haver se despedido de todos… devido à
precipitação de sua viagem… Desterro, 26-4-94. Major Affonso F. Pereira de
Mello, capitães Francisco de Borja Conceição, José Luiz Buchele, Gonçalo Muniz
Telles, tenentes Aristides Villas-Boas, Carlos Alberto Camisão, Acastro Jorge
de Campos, Oscar Capella.”
BINGO!
Numa missão
repentina, sigilosa, na calada da noite de 26 e madrugada de 27, com alguns
detalhes errados, como o nome e a classificação do navio, talvez
propositalmente, descortina-se a trama do terror florianista sobre os
‘insolentes’ que, em Santa Catarina, ousaram discordar do senhor do Brasil.
Considerem esses
elementos:
Primeiro: um
navio de médio porte da esquadra, um cruzador, é destacado, pelo governo
federal, para um bate-volta entre Rio de Janeiro e Desterro/Anhatomirim. Uma
viagem comissionada às pressas, sem objetivo instrucional, tecnológico,
humanitário ou militar discernível. Aparentemente para evitar a curiosidade
pública.
Segundo: a bordo
seguem, além da tripulação da Marinha, os voluntários do Batalhão Patriótico
Benjamin Constant, uma organização paramilitar, fanaticamente florianista,
secundados por alunos da Escola Militar, igualmente radicais (10). Se
era uma missão oficial, por que não mandar uma unidade regular, em vez da
milícia e jovens alunos? Uma resposta provável para isso é que, se fosse uma
unidade militar regular teria que ficar registrado. Deixava ‘digitais’.
Terceiro: um
seleto grupo de oficiais do exército segue com essa milícia e os alunos. Pelo
teor do telegrama, percebe-se que eles tinham uma ligação próxima com pessoas
da elite desterrense, tanto que pedem desculpas pela precipitação. Ou eram
conterrâneos ou militares que haviam servido em Santa Catarina por um bom
tempo, e, portanto, conheciam pelo rosto quem era quem na lista dos que seriam
transferidos para a capital.
Quarto: tudo
indica que esse navio chegou à noite de 26 e partiu na madrugada de 27. É
possível que os membros do batalhão patriótico, alunos e oficiais, tenham
varejado as prisões da cidade, e/ou em Anhatomirim, pego aqueles que lhes
interessavam, conforme a instrução do governo, e se foram.
Quinto: logo
correu na cidade, a notícia de que presos eram transferidos, à noite, por um
navio da Marinha. Mostrando o quanto a cidade era pequena e como todo mundo
sabia o que estava acontecendo, ainda que envolto de sigilo, esposas, mães e
filhas dos aprisionados correm aflitas, de manhã cedo, ao palácio do governador
para implorar clemência. Mas não havia nada que César pudesse fazer. O destino
de várias dessas mulheres será procurar pelo paradeiro dos seus familiares no
Rio de Janeiro, como a esposa de Caetano Nicolau. Algumas delas nunca mais os
verão…
Entretanto, a
censura de Floriano ‘cochilou’ em 30 de abril e a notícia vazou para os
jornais. Uma fonte do Gazeta de Notícias assistiu, no Rio, ao
desembarque do Barão de Batovi, além de outros. Todos desapareceram
posteriormente.
O dia da chegada
ao Rio, 30 de abril, não foi aleatório: esse era o dia de aniversário de
Floriano Peixoto, configurando-se a missão como uma espécie de presente para o
marechal, ao mesmo tempo em que a magnitude dos festejos desviaria a atenção do
desembarque dos presos. Sabendo disso, creio que ele deve ter apreciado muito
esse aniversário, e pensado muito, em meio aos festejos e às artificialidades
desses momentos o fim que daria a esses presos.
Quase deu certo.
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