segunda-feira, 28 de setembro de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 41

Mal sagrado relato profano - 2

Ele mesmo diz que, assim que o coronel chegou ao acampamento, reuniu o corpo médico e apresentou os sintomas que ele sentiu — os quais o major omite —, desejoso de ouvir a opinião dos médicos, como qualquer comandante responsável faria. Como é então que o major Augusto diz que os médicos tiveram receio da reação dele? Por que ele convocaria os médicos se já sabia o diagnóstico ou não estava disposto a escutar determinados diagnósticos? Se ele tinha esse temperamento, não seria mais razoável ele dizer que não foi nada e continuar como se nada tivesse acontecido?

Só faltou o major dizer que essa história foi pinçada diretamente de algum livro do Monteiro Lobato, sobre as aventuras no sítio do Pica-pau Amarelo!

Ressalte-se ainda que nenhum dos jornais da Bahia que diariamente relatavam o deslocamento da coluna comentou esse episódio, embora, segundo Mattos, ele tenha acontecido diante de “várias testemunhas”. O Gazeta de Notícias do dia 20 de fevereiro noticia que:

“Chegou ontem a Monte Santo o coronel Moreira César [etapa seguinte a Quirinquiquá] com toda a expedição, na melhor ordem; prepara-se o ataque decisivo a Canudos.”

Após relatar tudo isso, o major, como para confirmar que o coronel estava com problemas mentais, informa abruptamente que, no dia 2 de março, véspera do ataque, o coronel Moreira César armou, propositalmente, a sua barraca distante do acampamento militar, numa área que oferecia perigo, na visão de Mattos. Para ele, a área devia estar sendo vigiada por oficiais e instrutores estrangeiros, portando armas nunca antes vistas… nem depois.

Nada aconteceu a Moreira César nesse dia.

Esse episódio da suposta epilepsia apareceu em jornais do Rio, de forma bem diferente. No dia 30 de março, lê-se a seguinte matéria no jornal Gazeta de Notícias.

“Bahia 28 — O Correio de Notícias [jornal da Bahia], sob o título “PELA VERDADE DOS FATOS”, deu artigo em referência ao telegrama expedido daqui para o jornal O Paiz daí, datado de 19 do corrente. O telegrama começa assim: ‘Em viagem para Canudos, o coronel Moreira César foi acometido de ataque de epilepsia…’

O Correio transcreve o telegrama todo, observando que nele… foram introduzidas circunstâncias que reclamam imediata contestação em prol da verdade histórica e da perfeita integridade mental do denodado coronel Moreira César, que a verdade… é esta: na madrugada de 18 de fevereiro… o coronel César teve uma síncope, sendo socorrido pelos oficiais do estado-maior… mandou-se chamar um médico mais próximo, o Dr. Everaldino, que chegou às 7 horas da manhã, encontrando o coronel melhor, tendo marchado [cavalgado] já duas léguas depois do acidente [ou seja ele caiu do cavalo, levantou-se logo após, e continuou viagem; algo muito estranho para um ataque de epilepsia]; que na fazenda Lagoa de Cima o coronel apeou-se durante o tempo preciso para aplicar-lhe um sinapismo [cataplasma], seguindo sem mais incidente  para Monte Santo, que livre de qualquer incômodo esteve o coronel até 11horas do dia 22, quando, deitado em uma rede… teve uma vertigem que durou dez minutos mais ou menos, sem nenhum sintoma epilético; que, recobrando a fala, o coronel referiu tudo que se conversou em torno dele durante a vertigem; que do primeiro incômodo dão testemunho os oficiais do estado-maior; que o segundo teve lugar junto a si quase todo o corpo médico… que todas as circunstâncias narradas no referido telegrama, em discordância do que fica exposto, carecem de exatidão; que não passa de fantasia o incidente em que figura o nome de Cunha Mattos; que depois do dia 22 Moreira César não acusou sofrimento algum; … mostrando-se sempre o mesmo soldado inteligente, ativo, leal, brioso e denodado.”

O jornal acusa diretamente, utilizando o piedoso termo “fantasia”, o relato do Major Rafael Augusto de falsear os fatos. Agora, se Rafael Augusto deturpou o relato sobre o que aconteceu em Quirinquiquá, ele não pode ter deturpado em outras partes do seu relato? Ele é o relato oficial do Exército e a principal fonte de Euclides da Cunha sobre a 3ª Expedição. Mas ainda assim dou o benefício da dúvida a quem acredita nessa versão, desde que me prove, com exemplos históricos, que uma tropa funciona melhor sob o comando de um chefe doente e desequilibrado, e colapsa quando tem à frente um chefe competente e ‘maravilhoso’, como o major Rafael Augusto (9).

No dia 18 de fevereiro, ele chegou a Monte Santo, onde passou 5 dias.

Em Monte Santo ficou a segunda base de operações, complementando Queimadas. Aí ficaram cerca de 80 praças vigiando mantimentos e munições com os quais a coluna poderia se socorrer caso a luta demorasse mais que o previsto, sob o comando do Coronel Souza Meneses, do 16º B.I. Daí partiu Moreira César com uma força de 1.281 soldados e oficiais, rumo a Canudos. A esse respeito, dá o general Tristão de Alencar Araripe (Expedições militares contra Canudos, o aspecto marcial, 2ª edição, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1985, p. 58), uma informação crucial: “Não sabemos quais eram os meios de transporte da expedição, nem o que levava em termos de água, víveres e munição.”

Também, segundo Araripe, não se tem uma ideia clara do quanto desses elementos ficaram em Monte Santo, embora logo depois ele diga que a tropa estava mal fardada, mal equipada e mal instruída — com base em quê Araripe deduz isso, se não temos nenhuma informação sobre o equipamento e os números da logística do deslocamento? É o medo de contrariar Euclides da Cunha? É ordem superior?

Quando chegou a Cumbe, César deve ter achado graça da enorme quantidade de crianças com a cara do padre, mas, na madrugada do dia 25, já estava em marcha, acampando na fazenda Cajazeiras. No dia seguinte, estava em Serra Branca. Daí partiu, na tarde de 26, para a fazenda Rosário, onde permaneceu até o dia 2 de março, deslocando-se depois para o Rancho do Vigário, quase no meio do percurso de 40 km que separava Canudos de Rosário.

Aqui, é preciso fazer um parêntese. Quando chegou a Monte Santo, Moreira César, que até ali vinha seguindo o itinerário de Febrônio de Brito, fez uma alteração drástica. Nos cinco dias em que permaneceu em Rosário, mandou os tenentes da comissão de engenharia, Domingos Alves e Alfredo Nascimento, fazerem uma prospecção do terreno à frente, e optou por um caminho mais longo, fazendo uma curva que passava por Cumbe, e daí para Canudos.

Oleone Fontes fala de enormes areais no caminho, enquanto o mapa topográfico mostra um relevo menos acidentado, mais propício a quem ataca. Evitando o caminho mais curto, porém mais acidentado, e tendo o suporte de um esquadrão de cavalaria para proteger seus flancos, César evitava as emboscadas e os ataques de pequenos grupos. Foi um plano bem feito que, no jogo de cena, fazia parecer que ele se afastava de Canudos.

O general Araripe faz, então, uma observação contraditória (p. 59), com o que ele já dissera antes: “Vinha a expedição se deslocando com método, em jornadas curtas, com longos descansos.” 

Ou seja, nada da precipitação, ou ausência de preocupação com o bem-estar dos soldados, como alguns dizem, e mais uma vez Araripe reforça: não se tem dados sobre o abastecimento da expedição. 

Mas, enquanto as tropas, no sertão, iam se acomodando como podiam ao áspero terreno da caatinga, a 1.800 quilômetros dali, outro Brasil, tradicionalmente distante da realidade e das responsabilidades, comemorava mais uma fantasia triunfalista. Milhares de pessoas aglomeradas nas ruas próximas e em frente ao Palácio do Catete, calculadas em 20 mil na edição de 25 de fevereiro de O Paiz, esperavam ansiosas a inauguração do novo palácio presidencial.

Na hora aprazada, alguém, na usina elétrica privada que havia no palácio, acionou a chave do registro e todo o prédio apareceu envolto em trilhas de luzes que destacavam a sua fachada, deslumbrando os populares na rua, ainda mergulhados na iluminação a gás. Ouviu-se um prolongado “Ó!”, quase gritado pela multidão, seguido de uma estrepitosa salva de palmas e gritos de “Viva!” e “Bravo!”. Os populares, já excitados com a proximidade do carnaval, eletrizaram-se. Alguns jogavam confetes para o alto, enquanto outros quedavam parvos, inebriados, num sentido e noutro, orgulhosos da força e da pujança do país, que seguia gastando por conta.

Mais um pouco e um poderoso facho de luz cruzou os céus da baía da Guanabara, enquanto os acanhados, mas bucólicos e tão característicos prédios coloniais refulgiam na luz difusa que saía do clarão. Eram os holofotes do cruzador Benjamin Constant e do vapor de transporte Carlos Gomes (10). Lá pelas 21:00 h, ouvem-se estrondos e um novo “Ó!”. Eram os canhões da fortaleza de São João dando uma salva de 21 tiros para saudar o aniversário da Constituição de 1891 e a festiva inauguração do novo palácio presidencial. Duas bandas de música, estrategicamente colocadas, começaram a tocar o hino nacional, com o povo a desfiá-lo no maior entusiasmo.

Há uma nova comoção nos presentes. O elegantíssimo landau do vice-presidente em exercício se aproxima, puxado por duas magníficas parelhas de cavalos, cercado por duas colunas de cavalarianos, com seus requintados uniformes de gala e capacetes emplumados — nossas autoridades sempre souberam torrar o dinheiro do contribuinte e ainda deixá-lo contente e agradecido! O povo prorrompeu em vivas e aplausos à nova estrela da política nacional, o hábil ilusionista Manuel Vitorino, com sua esposa e dois comandantes militares, do Exército e da Marinha. Ele faz um discreto sinal para o cocheiro reduzir a marcha, acenando, condescendente, para a multidão, que se apertava para vê-lo mais de perto.

Um tipo popular exótico, com cadeira cativa em todos os quiosques de bebidas e tira-gostos baratos, além de poeta nas horas vagas, aproveita a ocasião para se promover.

“Adeus, lerdo biriba.

Te arreda, velho gambá.

E leva a tua futrica.

De volta pro teu mafuá”.

— Tenha dó do pobre coitado! — diz Vitorino, rachando de rir, enquanto fingia algum sentimento pelo colega. Faz sinal para o cocheiro prosseguir, em meio ao delírio popular.

Após a entrada do presidente, houve um desfile monumental de suntuosas carruagens, trazendo o pessoal diplomático, a alta cúpula do Exército e da Marinha. Seguiam-nos a alta burguesia local e, é claro, os políticos. Faziam numa demonstração de elegância e superioridade social tão excessiva, ostensiva e aparatosa, que flertava com o ridículo, em tantas e exageradas penas de pavão, equilibradas nas graciosas cabeças das 'locomotivas' do high society carioca. Além delas, as estimadas acompanhantes de sempre, exalando odores estrangeiros a metros, além do brilho nas maquiagens cintilantes à base de pó de pérolas, enquanto ameaçavam os holofotes do Carlos Gomes com o fulgor de suas joias. Ninguém supera o esbanjamento visual de nossas elites. 

Ao evento compareceram  também dirigentes de instituições públicas, grandes nomes das artes, do jornalismo e da cultura. Todos servidos por gentis e prestativos garçons, vestidos com elegantes fraques e um menu tipicamente francês.

As entradas foram: sandwiches variés, escalopes de merlan à la venitiene, petitees crustaces aux écrevisses, fillet de veau au madére, langue écarlate à la geleé, galantine de macuco em belle-vue, aspic de foie gras, salade de homard à la parisienne…

Punch à la americaine, fruits, bombons, marrons, cossaques, etc.

Dessert varié, thé, café, chocolate, etc.

Vins. — Madère, Xérès, Solis blanc, Rhin, Chablis, Solis rouge, Listrac… Porto (reserva e velhíssimo), Moscatel, Tokay, etc.

Eaux minérales, bières assortis, liqueurs cognac, whisky, sirop de frambois, orangead, etc (o Gazeta de Notícias de 26 de fevereiro de 1897 é o responsável por qualquer erro na grafia dos nomes franceses).

Definitivamente à prova de pobre.

Esse espetáculo caríssimo, no momento em que o país se via ante a possibilidade de perder o seu crédito para comprar libras esterlinas, o que paralisaria o seu comércio internacional, foi feito pelo grupo que dizia ser Canudos, resultado de uma intervenção estrangeira. Que precisava ser combatido com força e recursos excepcionais. Mas que também tinha tanta certeza de ter o povo nas mãos, que nem se preocupava em ser coerente.

Em um momento, o vice-presidente aproximou-se de uma das janelas e, olhando para o espetáculo da baía iluminada pelas luzes das fortalezas e os holofotes dos navios, beijou a mão de sua bela esposa e lhe diz cheio de convicção.

— Em breve seremos promovidos.

O Gazeta acrescenta:

“Tudo aquilo dava a sensação do início de uma nova era, compatível com a dignidade da República, auspiciosa para a nossa reputação de povo, há muito tempo arrancado às doçuras da tanga e do cocar” (idem, idem).

Deixamos de ser ‘índios’, e agora somos civilizados, por causa de uma festa que nem podíamos pagar! O esbanjamento numa festa, às custas das futuras entradas no Tesouro, para uma minoria microscópica, era um bom começo para o jornal. Que complexo de inferioridade! Que vontade de parecer europeu, sem ter a menor ideia do que isto significava.

Enquanto isso, no sertão da Bahia, os soldados dormiam no chão de suas barracas ou onde pudessem improvisar uma cama, após comer a sua parte da boia preparada com algum esmero, mas nem tanto para não ficarem mal-acostumados. Alguns preferiram preparar sua própria refeição, talvez uma carne na trempe de paca ou preá, precariamente temperada, achando fazer um banquete, na companhia de amigos falastrões, a sua maior motivação. Alguns levaram esposa, amante e filhos, todos envolvidos pelo odor de suor genuinamente nacional, após um dia de duras marchas e exercícios com a finalidade de preservar a ordem numa sociedade que os tratava como bucha de canhão, entremeados pelo brilho das baionetas recém-engraxadas.

A luz que fulgia das fogueiras, exalando o cheiro da comida recém-preparada ou só aquecida, fazia a grande maioria ignorar o espetáculo do céu estrelado. O grandioso e inesquecível céu do sertão. Ah, que saudades que eu tenho. Eu o vi quando ainda não era maculado pela luz simulada dos geradores de eletricidade. O grande tapete de estrelas, que, em conjunto, rodeava e acolhia a lua, como em uma imponente assembleia ou o agasalho de uma alma bondosa, funcionava como uma luz de fundo, reverberando a luminosidade do astro noturno, que prateava a grandiosidade tão selvagem e tão humana da caatinga sertaneja. Esse fundo luminoso era violado de quando em quando pelo perfil opaco das sentinelas. Só faltava Deus aparecer e pronunciar o “Faça-se!”, esperando que dessa vez o resultado fosse diferente.

Da superfície brotavam gotas prateadas de orvalho. Como num choro sem fim.

Eduardo Simões. 

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