domingo, 27 de setembro de 2026

 



OS TEMPOS E OS HOMENS MUDAM. A IA MUDARÁ?

Eduardo Simões 

A caça já foi motivo de demonstração pública de coragem, valentia e motivo de orgulho. Era vista como o máximo da aventura e da adrenalina que todos queriam experimentar, até para se sentirem “mais jovens” e “poderosos”. A multidão invejava o pequeno número daqueles que tinham dinheiro suficiente para ir a uma região remota da Ásia, à Índia, principalmente, para caçar tigres e transformar o seu couro num tapete para algum lugar privilegiado da casa!

Hoje essas cenas causam horror e repúdio. Não é mais aceitável, com os recursos que se tem e o conhecimento generalizado da importância e da finitude dos recursos naturais, a noção de caça como um esporte, sem falar que hoje, mais do que antes, os animais não têm chance alguma. Essa atitude é vista, com razão, como bárbara e até covarde. 

Portanto, é necessário, quando nos deparamos com uma cena dessas, ou quando avaliamos um acontecimento antigo, nos posicionarmos a partir do ponto de vista geral, ou da ideologia, da época em que tudo aconteceu, no seu desdobramento temporal, do qual podemos tirar ensinamentos adequados para o nosso tempo. Não podemos resvalar para a condenação genérica e burra, e não raro racista, do que aconteceu no passado, usando os critérios morais do presente, porque somos incapazes, pela nossa ignorância e preconceito, de colocar o fato na perspectiva do seu tempo.

Para isso acontecer com maior probabilidade e descortino, é preciso uma sólida formação acadêmica, mas, principalmente, uma ampla e integrativa cultura geral, baseada no conhecimento de muitos fatos e muitas abordagens diferentes em historiografia, sociologia, filosofia, etc. O conhecimento, como a excelência profissional, praticada com honestidade, melhora com o tempo e a prática, mas, quando já nasce eivada de preconceitos, predeterminada por uma ideologização precoce, torna-se um excelente pretexto para tornar o trabalho do pesquisador socialmente irrelevante e muito digno de ser esquecido.

E isso ninguém quer.

Infelizmente têm-se apresentado para nós alguns programas eletrônicos, com o pomposo epíteto de “Inteligência Artificial”, longe de serem minimamente inteligentes. Na verdade, são depósitos de memória cujas partes são mal e porcamente alinhavadas para construir um texto e dizer alguma coisa que pareça um texto conexo, mas, se analisado com cuidado, percebem-se furos e “forçações” inaceitáveis, como, numa resposta que ela me deu, dizendo entender os meus “sentimentos” e “frustrações”.

IA não sente, logo não pode aquilatar ou “entender”. Questionada, ela respondeu-me que aquilo não passava de uma resposta estereotipada — muitos passam por isso, não percebem e saem por aí dizendo sandices. Você, meu leitor, nem ninguém, pode entender claramente o que não vivenciou. Seja um fato acontecido numa sociedade diferente há 150 anos, seja uma temperatura que nunca existiu — como a “sensação térmica” de 63ºC no Rio de Janeiro. Pura histeria. Mas você pode utilizar palavras num contexto mais ou menos adequado, seja para manipular, seja para se adequar artificialmente a um contexto, como as crianças pequeninas fazem na chamada “informação adaptada.”

As crianças entre 3 e 5 anos fazem uma leitura ativa muito intensa do ambiente e podem pegar palavras ou expressões num determinado contexto e aplicá-las em outro e eventualmente dar certo, sem que a criança saiba realmente o significado do que está dizendo. Como quando um menino de pouco mais de 3 anos disse à mãe para ela não “oprimi-lo”, por insistir que terminasse o almoço. 

Discuti muito, esses dias, com a IA do Google, para ver se ela era essa sumidade ou esse perigo todo que dizem, e percebi o quanto ela é incapaz e repetitiva. Ela apenas repete ou tenta dar uma roupagem elegante a ideias ou abordagens predominantes em centros de pesquisa acadêmicas, logo eivadas de esquerdismo superficial e grandiloquência vazia, e muitas vezes fracassava na integração dos elementos da discussão sem perceber as contradições e insuficiências no que ela mesma dizia.

A princípio, ela chegava a reconhecer o próprio erro e que eu havia colocado argumentos que expunham fortemente a fragilidade de sua argumentação inicial, para depois adotar uma nova estratégia: saturar o debate com  informações diversas próximas ou longinquamente relacionadas com um tema, logo descontextualizadas, exatamente como faz um militante de uma ideologia, ignorante e fanático, que não consegue entender os contra-argumentos do debatedor, ou como fazem as crianças de 3 para 5 anos com a informação adaptada.

O que normalmente acontece é que técnicos, doutores, pós-doutores em teorias fajutas da aprendizagem e modelos de inteligência primitivos se sentam frente a uma IA, que também não é inteligente, e começam a trocar ideias. No meio do caos comunicativo, misturado com o desejo de descobrir uma mina de ouro, aparecem algumas colocações que parecem fazer sentido quando lidas de acordo com os medos e as limitações do significado de inteligência do pesquisador. Este começa a ver intenção naquela conversa, aparentemente manipuladora e consciente, e entra em crise, como a mãe daquela criança que narrou o fato à minha esposa, quase em colapso emocional. “Meu filho está me vendo como uma opressora”! Logo uma mãe que era bancária e muito simpatizante da esquerda.

O resultado da conversa entre uma máquina burra e alguém lotado de teoria da conspiração, como é próprio de quem acredita em luta de classes e outras coisas desse naipe, só pode ser um: “A IA VAI DESTRUIR O MUNDO!” Se for assim, é melhor começar a não tirar os olhos de crianças pré-lógicas, de 3 para 5 anos! Porque esse é o nível de entendimento da IA, e, se bobear, não muito superior à idade emocional desses profetas do apocalipse. Logo, o grande problema com a IA não é a IA, mas aqueles que, por ignorância, por desejo infantil de aventura ou por malícia, descobrirem, por exemplo, um jeito de usar o potencial do programa, que não cansa e tem uma memória formidável, como os animais na natureza, para invadir algo perigoso e burro, como um arsenal nuclear entregue aos cuidados de outros programas e máquinas.

O grande problema da humanidade continua sendo a incapacidade, talvez da maioria, em perceber que o atendimento das necessidades dos outros reflete positivamente no seu bem-estar, da mesma forma que desconsiderá-las pode acarretar problemas para todos, mas, acima de tudo, essa mania idiota de, por desconhecer a inteligência, acreditar que uma máquina ou um programa pode muito mais do que eles realmente podem e entregar para ela responsabilidades que ela não pode assumir. O grande perigo ainda são os homens idiotas ou insensatos, como nos tempos do Antigo Testamento.

Quanto a mim, não vou deixar o esquerdista ignorante e fanático que a Google colocou para encher o saco dos que usam seu navegador, encher o meu. Vou usá-lo apenas para as tarefas braçais e encerrar a conversa. Na próxima vez, vou entrar no tema a que me proponho: as “tribos criminosas” da Índia.

 

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