sábado, 20 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 26

A nau dos insensatos (I)

Embora Canudos seja um dos temas mais recorrentes na História do Brasil, é notável o quanto os autores, inclusive consagrados, erram na apresentação de fatos elementares sobre o assunto. O que isso significa? Talvez indiferença pela pesquisa, talvez uma credulidade ingênua, reflexo da síndrome de Os Sertões, que fez muitos acreditarem que ali estava tudo que se precisava saber sobre o tema. É estranho!

Seja como for, os dados que aparecem são confusos, quando não errados, e as conclusões, por vezes, não fazem o menor sentido. Helio Silva, que em seu livro Os civis no poder, p. 52–53 (edição online), escreveu assim:

“Prudente de Morais sofrera todo o impacto da Guerra de Canudos…

Um de seus últimos atos fora o de mandar chamar ao Rio de Janeiro o Cel. Moreira César, encarregando-o da nova expedição a Canudos… coube a Manuel Vitorino ultimar as providências iniciadas.”

E mesmo Marco Antônio Villa, muito bem fundamentado, não se sai melhor nesse trecho de Canudos o povo da terra, 3ª edição, São Paulo, 1999, p. 57.

“Moreira Cesar… no trajeto do Rio de Janeiro a Salvador, começou a agir de forma descontrolada. No terceiro dia da viagem, passou a desconfiar do comandante… e que haveria um plano para atrasar a chegada… Resolveu prender o capitão… Só o libertando quando se aproximaram da capital baiana.”

Infelizmente, há reparos a serem feitos nessas duas afirmações.

Prudente não tem nada a ver com a expedição de Moreira Cesar a Canudos, pois havia uma missão mais importante para ele no Rio, para a qual Prudente o chamara: preservar a legalidade — a situação era, e manteve-se, tão preocupante nesse período, que, embora a polícia do Rio fosse uma das mais bem treinadas e armadas do país, não mandou tropa a Canudos. Ficou no Rio para proteger o presidente, talvez do próprio Exército!  

A linha do tempo mostra que a ida de Moreira Cesar ao Rio de Janeiro nada tem a ver com Canudos.

Dia 28 de outubro de 1896 — chega, ao governador Luís Viana, BA, o primeiro telegrama do juiz Arlindo Leoni, de Juazeiro, solicitando ajuda contra os conselheiristas.

Dia 1º de novembro — Moreira César parte de Florianópolis para o Rio de Janeiro.

Dia 3 de novembro — Moreira César chega ao Rio.

Dia 4 de novembro — chega um segundo telegrama do juiz de Juazeiro, insistindo no envio de tropa.

Dia 6 de novembro — uma força de 113 militares, comandada pelo tenente Manuel Pires Ferreira, autorizada pelo ministro da guerra Dionísio Cerqueira, certamente do conhecimento de Prudente de Moraes, parte de Salvador para proteger Juazeiro.

Dia 10 de novembro — Prudente de Moraes passa o cargo para Manuel Vitorino e se retira de licença.

Dia 21 de novembro — a força sob o comando do tenente Pires Ferreira, que marchou contra Canudos, é atacada em Uauá. Começa a guerra.

Portanto, quem nomeou César para atacar Canudos na 3ª Expedição, por razões políticas, foi exclusivamente Manuel Vitorino, um dos principais responsáveis por essa tragédia.

A confiança de Prudente de Morais em Moreira César era antiga. Numa carta de 22 de dezembro de 1889 a Benjamin Constant, então ministro da guerra de Deodoro, Prudente lhe solicita a cessão de Moreira César para comandar o Corpo Policial de São Paulo, porque ele:

Reúne todas as condições… é inteligente, criterioso, tem curso, é paulista e dedicado à causa da república. (Epaminondas Ferraz, Defesa Nacional, Nº 639, p. 51).  

Como nessa época ele estava no Mato Grosso e não podia assumir logo, Prudente escolheu outro.

O que explica a ida de Moreira César ao Rio era a necessidade de Prudente de Morais se submeter a uma cirurgia com risco de morte altíssimo, seguida de uma longa e delicada convalescença, que o obrigaria a transmitir o cargo ao vice Manuel Vitorino e aos seus florianistas radicais.

Prudente e aliados sabiam que a simples presença de Moreira Cesar na capital dissuadiria os aventureiros contra qualquer tentativa de tomada do poder. Mas foi na viagem de Moreira César de Santa Catarina para o Rio que houve um incidente estranho no navio que o transportava: o vapor Itaipú, da Companhia Nacional de Navegação Costeira, da família Lage, que Euclides da Cunha narra de uma forma execrável.

Em pleno mar, com surpresa dos próprios companheiros, prende o comandante. Assaltara-o — sem que para tal houvesse o mínimo pretexto — a suspeita de uma traição, um desvio na rota, adrede disposto para o prender e aos soldados. O ato seria absolutamente inexplicável se não o caracterizássemos como aspecto particular da desorganização psíquica que o vitimava. Não lhe diminuiu, contudo, o prestígio [Isso não é estranho?] (Os Sertões, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 297).

Os destaques são todos meus.

Entretanto, há uma narrativa sólida, circunstanciada, que desmente essa invenção euclidiana, feita por um jornalista de O Paiz, que, na primeira página da edição do dia 4 de novembro de 1896, no artigo DESEMBARQUE DO 7º, relata, a partir de Florianópolis:

Essas alegrias [a festa que os florianopolitanos fizeram no seu embarque, e que o jornalista chama de “delírio”]… começaram a ser toldadas por um fato excepcional… quando em pleno oceano.

A hora marcada para a partida foi demorada, a pretexto de que o navio precisava carregar mais algumas reses [proteína fresca], não obstante estar provido de todas as munições de boca [alimentação].

O coronel Moreira Cesar insistiu para que o Itaipú levantasse ferro, e essa insistência só produziu efeito quando ele a revestiu do tom solene de uma ordem imperativa”.

Resumindo: o navio atrasa a sua saída porque o capitão está enchendo o porão de comida extra, só iniciando a viagem após uma ordem severa do coronel! Continua o jornalista:

“O pretexto para uma demora injustificada à saída do navio o aconselhou talvez a ficar… atento à navegação da costa, ao demais muito sua conhecida.

Desconfiado da rota… o coronel Moreira Cesar consultou a própria carta geográfica do navio, consultou o rumo que lhe aparecia indicado, e viu então [pelos instrumentos] que o navio ia a caminho do leste, mais e mais se amarando [indo para o alto-mar].”

O navio seguia na direção do continente africano — isso explica a preocupação do comandante em encher os porões de comida, mostrando que a sua ação era premeditada!

"[O coronel] observou calmamente o fato ao comandante [meu destaque], e este, por entre evasivas, acabou por confessar que o coronel Moreira Cesar tinha razão, e que ia pôr o paquete a caminho.

Efetivamente mudou de rumo, mas dessa vez andando para o sul [o Rio de Janeiro ficava ao norte], como se o navio tivesse que arribar ao próprio porto de saída.

Desde então, o coronel considerou o caso digno de enérgica providência e prendeu o comandante do Itaipu, com sentinelas à vista [um soldado o vigiaria no seu camarote, com a porta sempre aberta].

O Itaipú navegou então à conta da pilotagem de bordo, sob a máxima vigilância dos oficiais do 7º e das suas praças [meu destaque]."

Assim chegou ao seu destino. Algumas perguntas:

a) Ele tinha ou não motivos para intervir no navio?

b) O jornalista diz que oficiais e soldados se revezavam na vigilância da ponte de comando, onde estavam os instrumentos de navegação, o piloto e demais operadores do navio. Como Euclides diz que os oficiais ficaram surpresos com a intervenção de Moreira César?

c) Ele mostrou-se capaz de ler as cartas náuticas, conferir a rota pelos instrumentos e levar o navio até o seu destino. Isso é exemplo de alguém ignorante e descontrolado, em desorganização psíquica, como Euclides sugere, ou antes de uma pessoa de inteligência aguçada e abrangente?

Aparentemente, foi ele quem levou o navio até o Rio de Janeiro e, provavelmente, com a cidade à vista, deve ter devolvido o comando para o capitão.

O navio chegou às 7 h da manhã do dia 3 de novembro, em meio a uma neblina, entre as fortalezas de Santa Cruz e São João, onde irromperam estrepitosas as primeiras saudações ao 7º batalhão de infantaria, sob o comando do bravo coronel Moreira Cesar, segundo O Paiz.

Antes mesmo de o navio atracar, subiram a bordo para cumprimentá-lo:

O coronel Bento Thomaz Gonçalves, comandante do 22º BI [lembram-se do Apulco?], alferes Bentes representando o ministro da guerra, tenente Lins… major Polycarpo, Comissão do Clube Militar, vários outros cavalheiros, oficiais de muitos corpos da guarnição [da polícia do Rio de Janeiro] e um representante de O Paiz.

No Arsenal de Guerra [que tinha um trapiche] havia uma multidão compacta, aguardando o desembarque do batalhão, que foi recebido com estrepitosos vivas…

Bandas de música do 22º e do 24º de infantaria e as duas da brigada policial tocavam o hino nacional, quando, por entre abraços disputados, o bravo comandante e seus oficiais puseram o pé em terra.

Entre as pessoas presentes em terra estavam:

O general Paulo Argolo [meu destaque] e o seu ajudante de ordem; alferes Duarte Bentes, representando o ministro da guerra; comandantes do 1º, do 22º, do 24º, e toda oficialidade [desses batalhões]; comandante do 26º, Francisco Felix; coronel Travassos; coronel Jardim, comandante dos bombeiros; tenente-coronel Ilha Moreira; João Clapp [esse comerciante, foi um benemérito presidente da Confederação Abolicionista e investiu dinheiro de sua empresa para criar centros para educar os ex-escravos, reforçando o testemunho de Patrocínio de que Moreira Cesar apoiou a luta pelo abolicionismo]; Senador Esteves Junior [Santa Catarina]; deputado Emilio Blum [federal, por Santa Catarina]; Luiz Arthur, representando o ‘general’ Glicério [um político civil]; comissão do Clube Militar [e muitos outros].

Compareceu também uma estudantada ruidosa da Escola Militar, mostrando a dimensão do seu prestígio…

Caro leitor: tem a mínima condição de alguém que carregava o peso de ter massacrado tanta gente da mais alta sociedade catarinense, e até um heroico marechal do Exército, por simples capricho, ser recebido dessa maneira? Por que as principais autoridades militares e importantes políticos iriam comparecer ou mandar representantes para recepcionar o assassino grosseiro e compulsivo de Euclides da Cunha?

Mas as comemorações não terminaram por aí:

“Depois de receber os cumprimentos dos generais Argolo e Cantuária [João Tomás de Cantuária, um heroico participante da Retirada da Laguna]."

O batalhão desfilou por diversas ruas próximas ao Arsenal:

“Trazendo à frente as bandas do 1º e 24º batalhões, o 7º percorreu as ruas… recebendo palmas e aclamações entusiásticas… essas manifestações calorosas subiram de ponto quando o batalhão passou em frente à Escola Politécnica, cujos alunos os receberam com palmas e vivas frenéticos.

As janelas do quartel-general estavam repletas de militares e civis, que acenavam com lenços, saudando os valentes soldados.

Deu-se-lhe pequeno repouso, depois do qual ele desfilou de novo para o morro de Santo Antônio [onde ficava a sua sede]… Marchou seguido das bandas do 22º e as da Brigada Policial e com uma imensa cauda de povo [marchando atrás]

Acompanharam o 7º a cavalo os comandantes do 22º e do 1º de cavalaria e a pé os do 24º e do 1º de infantaria.

Às 4 horas da tarde, um grande grupo de patriotas, à frente do qual ia o major Dias Jacaré, precedido da banda de música do 23º, foi ao quartel do 7º saudá-lo e ao seu comandante”.

Tem mais!

É grato noticiar que o comandante em chefe da esquadrilha argentina, quando de passagem por Florianópolis, assistiu a um longo exercício deste corpo [o 7º B.I.], após o qual manifestou verdadeira admiração, porque (palavras textuais) viu em cada soldado um modelo de disciplina e um atirador dos mais completos.

Como um homem “desequilibrado”, dominado por um “demônio crudelíssimo”, conseguiria tal feito? Como é que uma tropa dessas, uma unidade de elite do Exército Nacional, promoverá, poucos meses depois, uma das páginas mais infames da história do Exército Brasileiro, até ser extinta em 1908? Será que nos esconderam algo?

E o incidente no Itaipu? A solução encontrada pela autoridade competente foi, no mínimo, 'estranha'. Eis o que diz o jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, na edição de 6 de novembro de 1896, no artigo ITAIPÚ, na primeira página:

“Sobre o caso do vapor Itaipú, consta que o governo mandou abrir um inquérito…

Deve ser um caso bem difícil de chegar à evidência, atendendo-se ao fato de que duas ordens de testemunhas poderão depor.

A prova que foi colhida de um lado, contra o comandante do navio, ficará imediatamente destruída apenas tenham deposto as testemunhas da guarnição do navio.

O inquérito, nesta hipótese, apurará, em vez de um, dois únicos responsáveis: o sr. coronel Moreira Cesar e o comandante do Itaipú.

É edificante!”

A armação do circo é clara: o comandante será responsabilizado por imperícia e o coronel por motim. Fica a palavra de um contra a do outro, e não dará em nada para nenhum dos dois. A sentença, é claro, saiu depois que Prudente licenciou-se, com o vice já no poder.

Esse episódio deixa patente a estratégia dos florianistas contra César: tratá-lo como a um tolo e, se ele reagir, apontá-lo como mentalmente desequilibrado, embora nesse momento ainda esperassem cooptá-lo para a causa. No caso do Itaipu, ou ele ficava vagando pelo Oceano Atlântico, até chegar ao Rio muito tempo depois, desmoralizado, ou ele tomaria a direção do barco, para conduzir a viagem ao seu desfecho, e então seria tratado como um louco, um descontrolado, como faz Euclides da Cunha.

Mas haveria outra festa ainda maior, para o coronel, e desta até os florianistas participariam.

Eduardo Simões


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