quinta-feira, 18 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 25

Um rio de sangue flui de Floriano Vieira Peixoto (1839–1895).

Floriano, parece, teve uma grande meta na vida: não deixar que ninguém soubesse o que ele pensava. Se é que havia algo dentro dele, além de uma sede instintiva de poder associada a um exacerbado instinto de sobrevivência, que o guiou, implacavelmente, aos mais altos postos do poder. A sua frase preferida, dita ao final de uma reunião conspiratória singular, era: “confiar desconfiando” (veja Hélio Silva, 1889, p. 109–110). Ela se tornou o lema entre os seus simpatizantes.

O seu discurso político era genérico, recheado de colocações ambíguas, aleatórias, pseudopatriotas, repletas de lugares comuns, conclamações e denúncias de conspirações secretas, que ninguém, fora ele, conseguia ver. Um estado de delírio permanente, que justificava as mais ferozes medidas, algumas feitas ao arrepio da lei, à qual Floriano, com a mais compenetrada e teatral seriedade, dizia estar defendendo. É antigo o sucesso dessa estratégia em nosso país, mesmo após tantos anos!

Alcançou o mais alto cargo de confiança no Exército Imperial e daí saiu, quase diretamente, para ser a principal liderança do movimento republicano, um 'herói por acaso' ou 'homem providencial', que impediu um banho de sangue no dia 15. Algo meritório, por meio de uma traição nada meritória, sobre uma possibilidade altamente improvável: resistência armada ao golpe. Mas todos acreditaram.

Seus movimentos na direção do poder eram marcados por manobras diversionistas, enganos, emboscadas e traições. Começava um movimento para um lado, para acabá-lo no extremo oposto. Nem se preocupava em criar desculpas pelas mudanças, como se sempre tivesse defendido a última opção, ou que mostrasse um mínimo de respeito à inteligência alheia. Ele usava as pessoas e sabia explorar como poucos as fraquezas humanas, em especial o medo e a busca por prestígio. Os que o conheceram bem, ou se fanatizaram ou se horrorizaram.

Era implacável em seus movimentos e decisões, e, se o seu corpo não era de ferro, o seu coração certamente o era. Quem o enfrentasse seria esmagado, de preferência por um de seus adeptos, porque ele, da mesma forma que não caía pela língua, costumava não deixar suas digitais nos crimes que se cometiam e que, no final, o beneficiavam. Mas também é verdade que premiava regiamente, com recursos públicos, seus mais próximos serviçais.

Seu projeto de poder era estritamente pessoal, familiar, espelhado no caudilhismo sul-americano e na sua desconfiança contra todos. Agia ao sabor da ocasião, no sentido de se preservar ou ampliar o seu poder. Se podia consegui-lo cumprindo a lei, cumpria-a, mas se não… não hesitava. E, apesar de nunca ter sido republicano, tornou-se a maior liderança republicana da ocasião, sem nenhum projeto para o país. Mas isso, entre nós, é uma virtude extraplanetária.

 A repressão aos que se lhe opunham foi feita em nome do combate à restauração monárquica, que nunca existiu como um coletivo, levou-o a comprar uma frota de sucatas, após haver perdido a marinha oficial para a oposição. Isso agravou a crise econômica, que ele despistou com o controle dos aluguéis, do preço de alimentos, ao sabor do momento, mas que lhe angariou a simpatia incondicional de um povo sedento de circo, ainda que falto de pão, como se tudo não passasse de um teatro de sombras.

Sua necessidade de vingança era imensa, alimentada por uma memória de paquiderme. Não esquecia nem perdoava quem lhe interpunha o passo, e tinha o cuidado de passar isso aos seus adeptos, embora, ao contrário destes, nunca perdesse o controle de suas emoções. Só expressava o que queria. A sua memória era a memória do seu movimento. E sua ação manifestava-se por momentos de paz e confiança, seguido do golpe súbito, inesperado, após movimentos de cerco meticulosamente executados, de modo a colocar a vítima numa posição em que não pudesse reagir. Sempre havia uma estratégia repleta de manobras diversionistas, nas quais Pinheiro Machado era mestre.

O pior legado de Floriano, por conseguinte, foi a criação de grupos apaixonados de civis e militares, que se infiltraram no Estado para apoiar o seu projeto ditatorial ou agir em seu nome, à revelia da lei. A ação mais bem-sucedida desses grupos foi angariar apoio e recursos para o massacre de Canudos, para o qual partiram com muita gana, e do qual se afastaram, como de vestes pestilentas, depois que perceberam a forte repulsa da nação ao que aconteceu. E aí passaram a acusar Prudente de Morais pelo ocorrido e a defender os canudenses. A sua maior cartada foi a tentativa de assassinato do presidente, e a última, da primeira geração de florianistas, a Revolta da Vacina, de 1904, quando mostraram até onde eram capazes de ir com o seu oportunismo. Apareceram em episódios recentes, sob nova roupagem, mas os mesmos métodos.

Não se envergonhavam em comemorar acintosamente o fim de seus adversários, como aconteceu na morte do almirante Saldanha da Gama. Luzes, gritos, algazarras, festas regadas a cachaças ou champanhes importados, além de peças improvisadas em teatros baratos, foram noticiadas nas ruas e mansões chiques do Rio de Janeiro. Os castilhistas ocultaram o corpo do almirante Saldanha para impedir seu sepultamento. Que apodrecessem ao relento! Como aconteceu em Canudos.

 Os florianistas ainda exultavam com a morte de Saldanha da Gama quando, 5 dias depois, em 29 de junho de 1895, emudeceram acachapados. Na localidade de Divisa, fronteira sul do estado do Rio de Janeiro, a morte tirou-lhes o ídolo.

 Esse fato natural, porém, criou neles um ressentimento profundo contra todos aqueles que, de alguma forma, haviam contrariado o marechal, como Prudente de Morais e Moreira César, que se opuseram à continuidade do seu poder pessoal.

            O renomado jornalista Luís Edmundo, que viveu nessa época, testemunhou o seguinte, no dia 6 de julho, quando foi realizado o sepultamento:

“Nem pelos dias reservados às cerimônias religiosas da Paixão de Cristo o Rio de Janeiro apresentava uma aparência assim, tão cheia de desconsolo e tristeza. Toda uma multidão silenciosa e abatida, desde cedo, havia saído para a rua. Não havia nas lojas dos floristas uma só rosa… para vender [apesar da vinda de carregamentos colossais da Serra Fluminense]… Muito antes da hora marcada para o começo das exéquias, o povo já havia obstruído completamente os logradouros mais próximos ao templo de onde deveria sair o ataúde… em direção ao cemitério… Um terço dos moradores da cidade, ou talvez mais, assistiu à solene passagem desse cortejo que levou horas e horas a desfilar. (…). Vi homens de joelhos pelas ruas, senhoras que choravam. (…). Jamais uma romaria cívica, até hoje, logrou, que eu saiba, uma imponência igual. (…). Para se ter uma pequena ideia… basta lembrar que, no momento em que chegava à porta do Campo Santo [cemitério São João Batista], o ataúde que conduziu o corpo… a larga fila dos que o acompanhavam… ainda era vista pelo Largo da Glória, entrando pela Rua do Catete [cerca de 8,4 km]” (citado pelo almirante de esquadra Fonseca Hermes, Os militares e a política durante a república Prudente José de Morais e Barros, parte XXXII, RMB, 2ºT, 2000, p. 32–33).

Como era um evento florianista, os discursos proferidos à beira do seu túmulo são violentos e sobejamente acusatórios — entre eles o do escritor Raul Pompeia (12) — terminando com vivas a Floriano e morras a Prudente. Com os ânimos insuflados, os jacobinos, em seguida, se envolvem em furiosos combates com a cavalaria da polícia. No dia da morte de Floriano, um grupo de pessoas, encabeçado por deputados florianistas, vai ao Chefe de Polícia impor que os teatros em funcionamento fechem as portas, em luto, no que são atendidos. Nessa mesma noite, um grupo deles atacou cadetes da Marinha que comemoravam num restaurante, havendo tiros, pedradas e gente ferida. Dez dias depois, florianistas inconformados porque o jornal de Patrocínio não hasteava a bandeira a meio mastro, atacaram a tiros a sua sede, sendo recebidos à bala. Patrocínio teve que fugir do Rio. 

Só a dor deles merecia respeito, e respeito extremo. A dos outros podia ser selvagemente pisoteada.  

Com Floriano, os brasileiros experimentaram o regime que mais se aproximou do totalitarismo, e parece que gostaram, pelo menos os que sobreviveram.

E ele foi floriano até o final, ao dizer que queria ser sepultado ali mesmo, na pequena cidade de Divisa, mas a família e os amigos não o permitiriam, e lhe ergueram um belo mausoléu no cemitério mais tradicional do Rio.

Os florianistas chegaram a organizar um culto cívico em torno da sua sepultura, numa espécie de 'canonização civil', reunindo-se em torno dela a cada aniversário de morte, imitando o estilo das procissões católicas. Mas, já em 1903, esse 'culto' atraía as críticas de um florianista raiz, Arthur Azevedo, pelas situações ridículas que criava. Disse ele no jornal O Paiz:

De hoje há 2 anos que vi, na esquina da rua Dona Luiza, no Catete, uma idosa ajoelhar-se e, batendo nos peitos, rezar quando passou o andor de Floriano coberto com um pálio muitas outras se têm dado durante o trajeto da romaria.

Segundo O Paiz de 1º de julho de 1895, Floriano escrevia cartas, para um militar chamado Mena Barreto, que naquele momento reprimia a Revolução Federalista, até começar a passar mal. Por volta das 15:00 h de 28 de junho, se recolheu. O mal-estar, porém, agravou-se. Pressentindo a morte, chamou a família para junto de si. Ao beijar a pequena Maria Josina, de 4 anos, diz sua última frase audível: Que infelicidade! (13)

A sua doença era uma espécie de inflamação no fígado devido ao acúmulo de gordura, que o levou a óbito por “esclerose hepática hipertrófica”. Às 20:00 h, seu corpo 'fechou-se sobre si', reproduzindo a sua psicologia. Ele não conseguia mais urinar ou excretar, e logo depois entrou em coma, apresentando episódios de vômitos e dejeções sanguíneas, até que, às 17:00 h do dia seguinte, faleceu.

Essa morte teve analogia com a sanguinolência que foi a sua passagem pelo governo. Ele não hesitou em utilizar o poder que tinha, até criminosamente, contra seus opositores, cujos corpos foram ocultos e/ou abandonados ao tempo, para que se perdesse sua memória, prática continuada por seus discípulos, animados pelo espírito violento e conspiratório do seu alucinante testamento político.

Um rio de sangue, que ele tanto fez derramar fora de si, inundou-o, incontrolável, a partir de dentro, e o matou.

O seu sócio nessa empreitada, o governador Júlio de Castilho, com sua proverbial incapacidade de negociar com quem pensava diferente, ao final de seus dias viu crescer, na laringe, um tumor maligno, que a princípio se imaginou ser uma faringite.

Castilhos falecerá em casa, em 24 de outubro de 1903, durante uma tentativa de traqueostomia para corrigir um suposto edema de glote, aparentemente por causa de uma reação alérgica ao clorofórmio utilizado para a anestesia. O destino foi generoso com ele, pois, embora tenha perecido de um mal na garganta, não experimentou os cruéis estertores de centenas de gaúchos e outros brasileiros, degolados em sua luta pelo poder (14). 

Eduardo Simões.

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