Um rio de sangue flui
de Floriano Vieira Peixoto (1839–1895).
Floriano, parece, teve
uma grande meta na vida: não deixar que ninguém soubesse o que ele pensava. Se
é que havia algo dentro dele, além de uma sede instintiva de poder associada a
um exacerbado instinto de sobrevivência, que o guiou, implacavelmente, aos mais
altos postos do poder. A sua frase preferida, dita ao final de uma reunião
conspiratória singular, era: “confiar desconfiando” (veja Hélio Silva, 1889,
p. 109–110). Ela se tornou o lema entre os seus simpatizantes.
O seu discurso político
era genérico, recheado de colocações ambíguas, aleatórias, pseudopatriotas,
repletas de lugares comuns, conclamações e denúncias de conspirações secretas,
que ninguém, fora ele, conseguia ver. Um estado de delírio permanente, que justificava
as mais ferozes medidas, algumas feitas ao arrepio da lei, à qual Floriano, com
a mais compenetrada e teatral seriedade, dizia estar defendendo. É antigo o
sucesso dessa estratégia em nosso país, mesmo após tantos anos!
Alcançou o mais alto
cargo de confiança no Exército Imperial e daí saiu, quase diretamente, para ser
a principal liderança do movimento republicano, um 'herói por acaso' ou 'homem
providencial', que impediu um banho de sangue no dia 15. Algo meritório, por
meio de uma traição nada meritória, sobre uma possibilidade altamente
improvável: resistência armada ao golpe. Mas todos acreditaram.
Seus movimentos na
direção do poder eram marcados por manobras diversionistas, enganos, emboscadas
e traições. Começava um movimento para um lado, para acabá-lo no extremo
oposto. Nem se preocupava em criar desculpas pelas mudanças, como se sempre
tivesse defendido a última opção, ou que mostrasse um mínimo de respeito à
inteligência alheia. Ele usava as pessoas e sabia explorar como poucos as
fraquezas humanas, em especial o medo e a busca por prestígio. Os que o
conheceram bem, ou se fanatizaram ou se horrorizaram.
Era implacável em seus
movimentos e decisões, e, se o seu corpo não era de ferro, o seu coração
certamente o era. Quem o enfrentasse seria esmagado, de preferência por um de
seus adeptos, porque ele, da mesma forma que não caía pela língua, costumava
não deixar suas digitais nos crimes que se cometiam e que, no final, o
beneficiavam. Mas também é verdade que premiava regiamente, com recursos
públicos, seus mais próximos serviçais.
Seu projeto de poder
era estritamente pessoal, familiar, espelhado no caudilhismo sul-americano e na
sua desconfiança contra todos. Agia ao sabor da ocasião, no sentido de se
preservar ou ampliar o seu poder. Se podia consegui-lo cumprindo a lei, cumpria-a,
mas se não… não hesitava. E, apesar de nunca ter sido republicano, tornou-se a
maior liderança republicana da ocasião, sem nenhum projeto para o país. Mas
isso, entre nós, é uma virtude extraplanetária.
A repressão aos
que se lhe opunham foi feita em nome do combate à restauração monárquica, que
nunca existiu como um coletivo, levou-o a comprar uma frota de sucatas, após
haver perdido a marinha oficial para a oposição. Isso agravou a crise econômica,
que ele despistou com o controle dos aluguéis, do preço de alimentos, ao sabor
do momento, mas que lhe angariou a simpatia incondicional de um povo sedento de
circo, ainda que falto de pão, como se tudo não passasse de um teatro de
sombras.
Sua necessidade de
vingança era imensa, alimentada por uma memória de paquiderme. Não esquecia nem
perdoava quem lhe interpunha o passo, e tinha o cuidado de passar isso aos seus
adeptos, embora, ao contrário destes, nunca perdesse o controle de suas emoções.
Só expressava o que queria. A sua memória era a memória do seu movimento. E sua
ação manifestava-se por momentos de paz e confiança, seguido do golpe súbito,
inesperado, após movimentos de cerco meticulosamente executados, de modo a
colocar a vítima numa posição em que não pudesse reagir. Sempre havia uma
estratégia repleta de manobras diversionistas, nas quais Pinheiro Machado era
mestre.
O pior legado de
Floriano, por conseguinte, foi a criação de grupos apaixonados de civis e
militares, que se infiltraram no Estado para apoiar o seu projeto ditatorial ou
agir em seu nome, à revelia da lei. A ação mais bem-sucedida desses grupos foi
angariar apoio e recursos para o massacre de Canudos, para o qual partiram com
muita gana, e do qual se afastaram, como de vestes pestilentas, depois que
perceberam a forte repulsa da nação ao que aconteceu. E aí passaram a acusar
Prudente de Morais pelo ocorrido e a defender os canudenses. A sua maior
cartada foi a tentativa de assassinato do presidente, e a última, da primeira
geração de florianistas, a Revolta da Vacina, de 1904, quando mostraram até
onde eram capazes de ir com o seu oportunismo. Apareceram em episódios
recentes, sob nova roupagem, mas os mesmos métodos.
Não se envergonhavam em
comemorar acintosamente o fim de seus adversários, como aconteceu na morte do
almirante Saldanha da Gama. Luzes, gritos, algazarras, festas regadas a
cachaças ou champanhes importados, além de peças improvisadas em teatros
baratos, foram noticiadas nas ruas e mansões chiques do Rio de Janeiro. Os
castilhistas ocultaram o corpo do almirante Saldanha para impedir seu
sepultamento. Que apodrecessem ao relento! Como aconteceu em Canudos.
Os florianistas
ainda exultavam com a morte de Saldanha da Gama quando, 5 dias depois, em 29 de
junho de 1895, emudeceram acachapados. Na localidade de Divisa, fronteira sul
do estado do Rio de Janeiro, a morte tirou-lhes o ídolo.
Esse fato
natural, porém, criou neles um ressentimento profundo contra todos aqueles que,
de alguma forma, haviam contrariado o marechal, como Prudente de Morais e
Moreira César, que se opuseram à continuidade do seu poder pessoal.
O renomado jornalista Luís Edmundo, que viveu nessa
época, testemunhou o seguinte, no dia 6 de julho, quando foi realizado o
sepultamento:
“Nem pelos dias
reservados às cerimônias religiosas da Paixão de Cristo o Rio de Janeiro
apresentava uma aparência assim, tão cheia de desconsolo e tristeza. Toda uma
multidão silenciosa e abatida, desde cedo, havia saído para a rua. Não havia
nas lojas dos floristas uma só rosa… para vender [apesar da vinda de
carregamentos colossais da Serra Fluminense]… Muito antes da hora marcada
para o começo das exéquias, o povo já havia obstruído completamente os
logradouros mais próximos ao templo de onde deveria sair o ataúde… em
direção ao cemitério… Um terço dos moradores da cidade, ou talvez mais,
assistiu à solene passagem desse cortejo que levou horas e horas a desfilar.
(…). Vi homens de joelhos pelas ruas, senhoras que choravam. (…). Jamais uma
romaria cívica, até hoje, logrou, que eu saiba, uma imponência igual. (…). Para
se ter uma pequena ideia… basta lembrar que, no momento em que chegava à porta
do Campo Santo [cemitério São João Batista], o ataúde que conduziu o
corpo… a larga fila dos que o acompanhavam… ainda era vista pelo Largo da
Glória, entrando pela Rua do Catete [cerca de 8,4 km]” (citado pelo
almirante de esquadra Fonseca Hermes, Os militares e a política durante a
república Prudente José de Morais e Barros, parte XXXII, RMB, 2ºT, 2000, p.
32–33).
Como era um evento
florianista, os discursos proferidos à beira do seu túmulo são violentos e
sobejamente acusatórios — entre eles o do escritor Raul Pompeia (12) —
terminando com vivas a Floriano e morras a Prudente. Com os ânimos insuflados,
os jacobinos, em seguida, se envolvem em furiosos combates com a cavalaria da
polícia. No dia da morte de Floriano, um grupo de pessoas, encabeçado por
deputados florianistas, vai ao Chefe de Polícia impor que os teatros em
funcionamento fechem as portas, em luto, no que são atendidos. Nessa mesma
noite, um grupo deles atacou cadetes da Marinha que comemoravam num
restaurante, havendo tiros, pedradas e gente ferida. Dez dias depois,
florianistas inconformados porque o jornal de Patrocínio não hasteava a
bandeira a meio mastro, atacaram a tiros a sua sede, sendo recebidos à bala.
Patrocínio teve que fugir do Rio.
Só a dor deles merecia
respeito, e respeito extremo. A dos outros podia ser selvagemente
pisoteada.
Com Floriano, os
brasileiros experimentaram o regime que mais se aproximou do totalitarismo, e
parece que gostaram, pelo menos os que sobreviveram.
E ele foi floriano até
o final, ao dizer que queria ser sepultado ali mesmo, na pequena cidade de
Divisa, mas a família e os amigos não o permitiriam, e lhe ergueram um belo
mausoléu no cemitério mais tradicional do Rio.
Os florianistas
chegaram a organizar um culto cívico em torno da sua sepultura, numa espécie de
'canonização civil', reunindo-se em torno dela a cada aniversário de morte,
imitando o estilo das procissões católicas. Mas, já em 1903, esse 'culto'
atraía as críticas de um florianista raiz, Arthur Azevedo, pelas situações
ridículas que criava. Disse ele no jornal O Paiz:
De hoje há 2 anos que
vi, na esquina da rua Dona Luiza, no Catete, uma idosa ajoelhar-se
e, batendo nos peitos, rezar quando passou o andor de Floriano coberto com um
pálio… muitas outras se têm dado durante o trajeto da romaria.
Segundo O Paiz de 1º de
julho de 1895, Floriano escrevia cartas, para um militar chamado Mena Barreto,
que naquele momento reprimia a Revolução Federalista, até começar a passar mal. Por volta das 15:00 h de 28 de junho, se recolheu. O mal-estar, porém, agravou-se.
Pressentindo a morte, chamou a família para junto de si. Ao beijar a pequena
Maria Josina, de 4 anos, diz sua última frase audível: Que infelicidade!
(13)
A sua doença era uma
espécie de inflamação no fígado devido ao acúmulo de gordura, que o levou a
óbito por “esclerose hepática hipertrófica”. Às 20:00 h, seu corpo 'fechou-se
sobre si', reproduzindo a sua psicologia. Ele não conseguia mais urinar ou excretar,
e logo depois entrou em coma, apresentando episódios de vômitos e dejeções
sanguíneas, até que, às 17:00 h do dia seguinte, faleceu.
Essa morte teve
analogia com a sanguinolência que foi a sua passagem pelo governo. Ele não
hesitou em utilizar o poder que tinha, até criminosamente, contra seus
opositores, cujos corpos foram ocultos e/ou abandonados ao tempo, para que se
perdesse sua memória, prática continuada por seus discípulos, animados pelo
espírito violento e conspiratório do seu alucinante testamento político.
Um rio de sangue, que
ele tanto fez derramar fora de si, inundou-o, incontrolável, a partir de
dentro, e o matou.
O seu sócio nessa
empreitada, o governador Júlio de Castilho, com sua proverbial incapacidade de
negociar com quem pensava diferente, ao final de seus dias viu crescer, na
laringe, um tumor maligno, que a princípio se imaginou ser uma faringite.
Castilhos falecerá em casa, em 24 de outubro de 1903, durante uma tentativa de traqueostomia para corrigir um suposto edema de glote, aparentemente por causa de uma reação alérgica ao clorofórmio utilizado para a anestesia. O destino foi generoso com ele, pois, embora tenha perecido de um mal na garganta, não experimentou os cruéis estertores de centenas de gaúchos e outros brasileiros, degolados em sua luta pelo poder (14).
Eduardo Simões.
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