A força de uma mentira
O navio, que trazia
Moreira Cesar, aportou em Salvador às 14h, no dia 6 de fevereiro de 1897. A
bordo estavam, como já dissemos, além do 7º B.I., comandado pelo Major Rafael
Augusto da Cunha Mattos, uma seção de cavalaria e uma companhia de artilharia,
da qual fazia parte o segundo sargento Marcos Evangelista da Costa Villela
Júnior. Villela Junior foi um dos raros combatentes que escreveram um livro a
respeito - Canudos: memórias de um combatente (Marco Zero, São
Paulo, 1988), no frescor de seus 21 anos. Na página 15, ele diz:
Em fevereiro de 1897,
no Rio de Janeiro, eu… era sargento do 2º regimento de artilharia de campanha,
pertencente à 4ª bateria, quando esta foi designada para seguir com a coluna
Moreira César… seríamos transportados para o vapor Maranhão, do Lloyd
Brasileiro, que nos levaria à Bahia.
O sargento Villela não
sabia ainda que estava destinado a altos voos, pois seria pioneiro da aviação
militar no Brasil e o primeiro general aviador do Exército — seu bisneto, o
jornalista Carlos Fioravanti, escreveu uma singela e esclarecedora matéria sobre
a sua importância na aviação na revista Pesquisa Fapesp, onde nos diz que
Villela escreveu o seu livro aos 76 anos, em 1951. Por que será que ele esperou
tanto? Na página final, 121, Villela nos tranquilizará:
“Apesar de passados
54 anos, nada esqueci.”
Mas vejam o que ele diz
na página 15, sobre Moreira César.
“Desconfiava do
comandante do navio, achando que ele queria pregar-lhe uma peça: prendeu-o em
seu gabinete, com sentinela à vista.”
Villela Junior não
esqueceu esse episódio, mesmo porque ele nunca viu isso! Esse fato só aconteceu
uma vez, na viagem de Florianópolis ao Rio, a bordo do vapor Itaipú,
quando transportava somente o 7º B.I., e não no percurso do Rio para Salvador,
no vapor Maranhão, cujo comandante recebeu um bilhete de agradecimento
dos oficiais do 7º BI. O primeiro a assinar foi Moreira César — ver Oleone
Fontes. Então, por que Villela afirma que o viu?
a) O mais provável é
que foi uma falha da memória, ou contaminação pela forte presença, inclusive
nos meios militares, das “maluquices” do Coronel César, inventadas em Os
Sertões.
b) Ele pode ter
utilizado o episódio para tornar o seu texto mais atraente, como outros também
o fizeram (Barreto, Benício). Afinal, ninguém, até aquele momento, se
interessara em fazer uma pesquisa histórica sobre o que acontecera em Canudos.
Então, vamos fantasiar! É para isso que Canudos serve!
Famoso por seus
delírios, Manuel Benício, em seu livro O rei dos jagunços, diz que Moreira
César, afobado para desembarcar suas tropas em Salvador, teria obrigado, por
meio de pranchadas — golpes dados com o lado da espada — alguns curiosos, que
estavam ali assistindo, a auxiliarem no desembarque da bagagem.
Segundo Oleone Fontes,
em seu livro O Treme-terra — Moreira César, a república e Canudos, p.
28, a chegada de Moreira César a Salvador foi apoteótica. Uma comissão de
autoridades civis e militares o recebeu no trapiche, e de lá foram para o
arsenal da Marinha, no qual se encontrou com mais personalidades civis e
militares e, de lá, partiu para um encontro com o governador.
No Palácio da Vitória,
teve uma longa conferência com Viana, na presença de Rodrigo Brandão,
secretário do Tesouro, e Sátiro Dias, secretário do Interior. O que foi dito
nessa conferência, com certeza, é de importância crucial e parece que ninguém
se preocupou em recuperar isso, nem os que a testemunharam revelaram qualquer
coisa. Por que tanto segredo?
Por fim, ainda segundo
Fontes, ele se retirou às 20h00 para conferenciar com o coronel Saturnino
Ribeiro, do 3º DM, e depois voltou para o barco.
Para que espancar
pessoas para esvaziar o navio, se no final ele volta para o mesmo barco? Como
ele faria isso diante de inúmeros jornalistas e autoridades baianas que
acompanharam a sua chegada, sem causar indignação pública e editoriais furiosos
nos aguerridos jornais soteropolitanos? Como é que ninguém notou isso no
momento, e só tempos depois?
O auge do delírio
alucinógeno é a invenção de uma mulher de preto, viúva de um fuzilado em
Anhatomirim, que, no trapiche, em alta voz, agourou a morte do coronel nas mãos
dos jagunços. Só as pessoas que não estavam presentes a viram.
Por fim, menciono um
trecho do “Treme-terra”, do baiano Oleone Fontes:
“Nenhum jornal baiano,
e eram muitos na época, mencionou qualquer ato violento partido de Moreira
César, ou de quem quer que fosse da sua brigada, contra o povo quando da
chegada (p. 35).”
A relação entre Moreira César e Luiz Viana precisa agora ser
esclarecida. O ponto de partida é a enorme resistência que Luiz Viana opôs à
nomeação de César, sendo-lhe praticamente imposta por Manuel Vitorino. Eis o
que diz Luiz Viana Filho, em um pequeno folheto (À margem de Os Sertões;
Livraria Progresso, Salvador, 1960, p. 26–27). É verdade que estamos em 1960, a
reputação de Moreira César está destruída e ninguém quer mais proximidade com
ele, mas vimos também que Viana preferia não mexer com Canudos.
“Manuel Vitorino nomeou
Moreira César. Por sinal, contra a opinião de Luiz Viana.”
Um telegrama de um amigo, datado de 4 de fevereiro,
citado por Viana Filho, diz o seguinte (trechos):
“A situação agrava-se…
Manuel Vitorino não ouviu Viana sobre a nomeação do M. César, oficiais e
batalhões para a expedição dos Canudos. Ontem, a deputação federal, o
governador e Severino pediram ao governo a nomeação de outro general para
comandar a força expedicionária. Tiveram resposta negativa… A soldadesca diz
que vai impor ao M. César a deposição do Viana.”
Vê-se que houve uma
forte resistência, da parte do governo da Bahia, a Moreira César, e recíproca
insistência da parte de Manuel Vitorino, dando a entender que havia, da parte
do vice-presidente, um interesse incomum em afastá-lo do Rio.
No folhetim de Luiz
Viana, o pai, escrito em 1897, para explicar os acontecimentos, o episódio é
narrado diferente (Mensagem do governador da Bahia ao Sr. Presidente da
República, Typographia do “Correio de Notícias”, Bahia, 1897, p. 10):
“Deliberou então esse
governo [o federal] a vinda de uma brigada sob o comando
do coronel Moreira César… Respondi imediatamente, declarando que o governo do
estado se prontificava para dispor todos os elementos que pudessem aproveitar à
nova expedição.”
Viana Filho, porém,
avança com algumas histórias esquisitas sobre Moreira César, cuja origem já diz
tudo.
“Moreira César, por
exemplo, ao vir comandar a terceira expedição, não tinha dúvidas sobre as
origens monárquicas de Canudos, e tal concepção serviu para revitalizar a flama
florianista em declínio. (Idem, p. 6).”
Essa afirmação é
estapafúrdia, pois não há nenhuma declaração de Moreira César nos jornais ou
nos telegramas que enviou ao Ministério da Guerra, que aponte nessa direção.
Como a tese da origem monarquista de Canudos já era repudiada em 1960, Viana
Filho a utiliza para desviar a atenção sobre seu pai e a jogar nas costas de
Manuel Vitorino e Moreira César. Fazer história para alguns é defender o seu
lado da fantasia.
A afirmação que Viana
Filho faz de que Moreira César era alguém tentando revitalizar a “flama
florianista” é desprovida de realidade e reforça o que foi dito antes
sobre transferência de responsabilidades. Ele é um bom filho!
“O próprio Moreira
César, aliás, viajara convicto de que o episódio sertanejo era apenas uma
parcela da grande conspiração restauradora.”
Essa fantasia foi
criada por Manuel Vitorino e publicada nos jornais, pouco depois da morte do
coronel. Claro! O filho fiel de Viana repete-a agora, em aparente aliança com
Manuel Vitorino, dizendo.
“Quando o governo
[de Vitorino]… punha à sua disposição toda a força de que ele houvesse
mister, o distinto patriota recusava, declarando que requisitaria qualquer
reforço… de patriotas [voluntários], porque entendia não desfalcar as
guarnições da capital e das cidades principais… Porque estava convencido de que
esse movimento (Canudos) era auxiliado em obediência ao plano de distribuir
forças para melhor facilitar a execução dos intuitos e planos monarquistas
[uma armadilha para atrair tropas para os sertões]… Naturalmente, o temor de
Moreira César… refletia o que era corrente entre os exaltados. E estes, morto o
chefe… 'entenderam ser magnífico o ensejo — diz Aristides Milton [o homem
em cuja casa foram afogados os arquivos de Luiz Viana] — para fazer o
governador da Bahia e seus amigos passarem como responsáveis pelos
acontecimentos'.”
As principais questões
são as seguintes:
a) Essa desconfiança de
Moreira César, de que Canudos era monarquista, Viana Filho ouviu do pai, leu-a
em documentos que sobreviveram à destruição dos arquivos, foi aprendida em
leituras posteriores, ou ele somente reproduz a desinformação criada por Vitorino?
b) A declaração de
Vitorino de que Moreira César teria dito a ele que requisitaria Batalhões
Patrióticos se precisasse, não tem o menor cabimento. Se os batalhões se
justificaram num momento crítico do governo Floriano, isso não acontece em
Canudos. Não há nenhum registro de Moreira César interessado em tais batalhões.
c) Se Moreira César
fosse um florianista exaltado, ele jamais se oporia ao projeto ditatorial de
Floriano ou de Vitorino. Tampouco teria merecido os elogios de Prudente de
Morais — que extinguiu os batalhões patrióticos — nem os de José do Patrocínio,
antiflorianista convicto. Vemos também que, depois que saiu tudo errado e a
guerra virou um massacre, começou entre os principais envolvidos o jogo da
‘batata quente’, com cada um jogando a responsabilidade nos outros.
Uma questão intrigante
é que Canudos foi um evento do mais alto significado do governo de Luís Viana.
Era, portanto, de se esperar que ele escrevesse sobre o assunto, esclarecesse
lacunas, revelasse os bastidores, livrasse o seu lado. Mas nada saiu de sua
pena, exceto quando lhe tocavam os calos, e aí ele sacava o que todos já
sabiam.
Houve um episódio
providencial para alguém. A destruição dos arquivos de Luís Viana na cheia do
rio Paraguaçu, em Cachoeira, na casa de Aristides Milton. Isso lhe deu o
pretexto para privar-nos do seu testemunho fundamental sobre as causas e a
dinâmica do conflito. A única produção de sua pena sobre o assunto foi um
pequeno folheto de 10 páginas, desmentido parcialmente pelo filho.
Na biografia mais densa
de Luiz Viana Filho (A vida de Luiz Viana Filho, por João Justiniano da
Fonseca, Senado Federal, V. 58, Brasília, 2005, p. 20–21), em que se espera
alguma luz extra a respeito, a decepção é total. O autor, Justiniano da
Fonseca, não gasta nem uma página no assunto e simplifica: "A
história está contada e recontada."
É estranho que alguém,
tão próximo de um acontecimento tão importante, não tenha nada a dizer sobre o
que aconteceu.
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