segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 37

A força de uma mentira

O navio, que trazia Moreira Cesar, aportou em Salvador às 14h, no dia 6 de fevereiro de 1897. A bordo estavam, como já dissemos, além do 7º B.I., comandado pelo Major Rafael Augusto da Cunha Mattos, uma seção de cavalaria e uma companhia de artilharia, da qual fazia parte o segundo sargento Marcos Evangelista da Costa Villela Júnior. Villela Junior foi um dos raros combatentes que escreveram um livro a respeito - Canudos: memórias de um combatente (Marco Zero, São Paulo, 1988), no frescor de seus 21 anos. Na página 15, ele diz:

Em fevereiro de 1897, no Rio de Janeiro, eu… era sargento do 2º regimento de artilharia de campanha, pertencente à 4ª bateria, quando esta foi designada para seguir com a coluna Moreira César… seríamos transportados para o vapor Maranhão, do Lloyd Brasileiro, que nos levaria à Bahia.

O sargento Villela não sabia ainda que estava destinado a altos voos, pois seria pioneiro da aviação militar no Brasil e o primeiro general aviador do Exército — seu bisneto, o jornalista Carlos Fioravanti, escreveu uma singela e esclarecedora matéria sobre a sua importância na aviação na revista Pesquisa Fapesp, onde nos diz que Villela escreveu o seu livro aos 76 anos, em 1951. Por que será que ele esperou tanto? Na página final, 121, Villela nos tranquilizará:

Apesar de passados 54 anos, nada esqueci.”

Mas vejam o que ele diz na página 15, sobre Moreira César.

“Desconfiava do comandante do navio, achando que ele queria pregar-lhe uma peça: prendeu-o em seu gabinete, com sentinela à vista.”

Villela Junior não esqueceu esse episódio, mesmo porque ele nunca viu isso! Esse fato só aconteceu uma vez, na viagem de Florianópolis ao Rio, a bordo do vapor Itaipú, quando transportava somente o 7º B.I., e não no percurso do Rio para Salvador, no vapor Maranhão, cujo comandante recebeu um bilhete de agradecimento dos oficiais do 7º BI. O primeiro a assinar foi Moreira César — ver Oleone Fontes. Então, por que Villela afirma que o viu?

a) O mais provável é que foi uma falha da memória, ou contaminação pela forte presença, inclusive nos meios militares, das “maluquices” do Coronel César, inventadas em Os Sertões.

b) Ele pode ter utilizado o episódio para tornar o seu texto mais atraente, como outros também o fizeram (Barreto, Benício). Afinal, ninguém, até aquele momento, se interessara em fazer uma pesquisa histórica sobre o que acontecera em Canudos. Então, vamos fantasiar! É para isso que Canudos serve!

Famoso por seus delírios, Manuel Benício, em seu livro O rei dos jagunços, diz que Moreira César, afobado para desembarcar suas tropas em Salvador, teria obrigado, por meio de pranchadas — golpes dados com o lado da espada — alguns curiosos, que estavam ali assistindo, a auxiliarem no desembarque da bagagem.

Segundo Oleone Fontes, em seu livro O Treme-terra — Moreira César, a república e Canudos, p. 28, a chegada de Moreira César a Salvador foi apoteótica. Uma comissão de autoridades civis e militares o recebeu no trapiche, e de lá foram para o arsenal da Marinha, no qual se encontrou com mais personalidades civis e militares e, de lá, partiu para um encontro com o governador.

No Palácio da Vitória, teve uma longa conferência com Viana, na presença de Rodrigo Brandão, secretário do Tesouro, e Sátiro Dias, secretário do Interior. O que foi dito nessa conferência, com certeza, é de importância crucial e parece que ninguém se preocupou em recuperar isso, nem os que a testemunharam revelaram qualquer coisa. Por que tanto segredo?

Por fim, ainda segundo Fontes, ele se retirou às 20h00 para conferenciar com o coronel Saturnino Ribeiro, do 3º DM, e depois voltou para o barco.

Para que espancar pessoas para esvaziar o navio, se no final ele volta para o mesmo barco? Como ele faria isso diante de inúmeros jornalistas e autoridades baianas que acompanharam a sua chegada, sem causar indignação pública e editoriais furiosos nos aguerridos jornais soteropolitanos? Como é que ninguém notou isso no momento, e só tempos depois?

O auge do delírio alucinógeno é a invenção de uma mulher de preto, viúva de um fuzilado em Anhatomirim, que, no trapiche, em alta voz, agourou a morte do coronel nas mãos dos jagunços. Só as pessoas que não estavam presentes a viram.

Por fim, menciono um trecho do “Treme-terra”, do baiano Oleone Fontes:

“Nenhum jornal baiano, e eram muitos na época, mencionou qualquer ato violento partido de Moreira César, ou de quem quer que fosse da sua brigada, contra o povo quando da chegada (p. 35).”

A relação entre   Moreira César e Luiz Viana precisa agora ser esclarecida. O ponto de partida é a enorme resistência que Luiz Viana opôs à nomeação de César, sendo-lhe praticamente imposta por Manuel Vitorino. Eis o que diz Luiz Viana Filho, em um pequeno folheto (À margem de Os Sertões; Livraria Progresso, Salvador, 1960, p. 26–27). É verdade que estamos em 1960, a reputação de Moreira César está destruída e ninguém quer mais proximidade com ele, mas vimos também que Viana preferia não mexer com Canudos.

“Manuel Vitorino nomeou Moreira César. Por sinal, contra a opinião de Luiz Viana.”

            Um telegrama de um amigo, datado de 4 de fevereiro, citado por Viana Filho, diz o seguinte (trechos):

“A situação agrava-se… Manuel Vitorino não ouviu Viana sobre a nomeação do M. César, oficiais e batalhões para a expedição dos Canudos. Ontem, a deputação federal, o governador e Severino pediram ao governo a nomeação de outro general para comandar a força expedicionária. Tiveram resposta negativa… A soldadesca diz que vai impor ao M. César a deposição do Viana.”

Vê-se que houve uma forte resistência, da parte do governo da Bahia, a Moreira César, e recíproca insistência da parte de Manuel Vitorino, dando a entender que havia, da parte do vice-presidente, um interesse incomum em afastá-lo do Rio.

No folhetim de Luiz Viana, o pai, escrito em 1897, para explicar os acontecimentos, o episódio é narrado diferente (Mensagem do governador da Bahia ao Sr. Presidente da República, Typographia do “Correio de Notícias”, Bahia, 1897, p. 10):

“Deliberou então esse governo [o federal] a vinda de uma brigada sob o comando do coronel Moreira César… Respondi imediatamente, declarando que o governo do estado se prontificava para dispor todos os elementos que pudessem aproveitar à nova expedição.”   

Viana Filho, porém, avança com algumas histórias esquisitas sobre Moreira César, cuja origem já diz tudo.

“Moreira César, por exemplo, ao vir comandar a terceira expedição, não tinha dúvidas sobre as origens monárquicas de Canudos, e tal concepção serviu para revitalizar a flama florianista em declínio. (Idem, p. 6).”

Essa afirmação é estapafúrdia, pois não há nenhuma declaração de Moreira César nos jornais ou nos telegramas que enviou ao Ministério da Guerra, que aponte nessa direção. Como a tese da origem monarquista de Canudos já era repudiada em 1960, Viana Filho a utiliza para desviar a atenção sobre seu pai e a jogar nas costas de Manuel Vitorino e Moreira César. Fazer história para alguns é defender o seu lado da fantasia.

A afirmação que Viana Filho faz de que Moreira César era alguém tentando revitalizar a “flama florianista” é desprovida de realidade e reforça o que foi dito antes sobre transferência de responsabilidades. Ele é um bom filho!

“O próprio Moreira César, aliás, viajara convicto de que o episódio sertanejo era apenas uma parcela da grande conspiração restauradora.”

Essa fantasia foi criada por Manuel Vitorino e publicada nos jornais, pouco depois da morte do coronel. Claro! O filho fiel de Viana repete-a agora, em aparente aliança com Manuel Vitorino, dizendo.

“Quando o governo [de Vitorino]… punha à sua disposição toda a força de que ele houvesse mister, o distinto patriota recusava, declarando que requisitaria qualquer reforço… de patriotas [voluntários], porque entendia não desfalcar as guarnições da capital e das cidades principais… Porque estava convencido de que esse movimento (Canudos) era auxiliado em obediência ao plano de distribuir forças para melhor facilitar a execução dos intuitos e planos monarquistas [uma armadilha para atrair tropas para os sertões]… Naturalmente, o temor de Moreira César… refletia o que era corrente entre os exaltados. E estes, morto o chefe… 'entenderam ser magnífico o ensejo — diz Aristides Milton [o homem em cuja casa foram afogados os arquivos de Luiz Viana] — para fazer o governador da Bahia e seus amigos passarem como responsáveis pelos acontecimentos'.”

As principais questões são as seguintes:

a) Essa desconfiança de Moreira César, de que Canudos era monarquista, Viana Filho ouviu do pai, leu-a em documentos que sobreviveram à destruição dos arquivos, foi aprendida em leituras posteriores, ou ele somente reproduz a desinformação criada por Vitorino?

b) A declaração de Vitorino de que Moreira César teria dito a ele que requisitaria Batalhões Patrióticos se precisasse, não tem o menor cabimento. Se os batalhões se justificaram num momento crítico do governo Floriano, isso não acontece em Canudos. Não há nenhum registro de Moreira César interessado em tais batalhões.

c) Se Moreira César fosse um florianista exaltado, ele jamais se oporia ao projeto ditatorial de Floriano ou de Vitorino. Tampouco teria merecido os elogios de Prudente de Morais — que extinguiu os batalhões patrióticos — nem os de José do Patrocínio, antiflorianista convicto. Vemos também que, depois que saiu tudo errado e a guerra virou um massacre, começou entre os principais envolvidos o jogo da ‘batata quente’, com cada um jogando a responsabilidade nos outros.

Uma questão intrigante é que Canudos foi um evento do mais alto significado do governo de Luís Viana. Era, portanto, de se esperar que ele escrevesse sobre o assunto, esclarecesse lacunas, revelasse os bastidores, livrasse o seu lado. Mas nada saiu de sua pena, exceto quando lhe tocavam os calos, e aí ele sacava o que todos já sabiam. 

Houve um episódio providencial para alguém. A destruição dos arquivos de Luís Viana na cheia do rio Paraguaçu, em Cachoeira, na casa de Aristides Milton. Isso lhe deu o pretexto para privar-nos do seu testemunho fundamental sobre as causas e a dinâmica do conflito. A única produção de sua pena sobre o assunto foi um pequeno folheto de 10 páginas, desmentido parcialmente pelo filho.

Na biografia mais densa de Luiz Viana Filho (A vida de Luiz Viana Filho, por João Justiniano da Fonseca, Senado Federal, V. 58, Brasília, 2005, p. 20–21), em que se espera alguma luz extra a respeito, a decepção é total. O autor, Justiniano da Fonseca, não gasta nem uma página no assunto e simplifica: "A história está contada e recontada."

É estranho que alguém, tão próximo de um acontecimento tão importante, não tenha nada a dizer sobre o que aconteceu.

Eduardo Simões

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