quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 


GUERRA DO PARAGUAI: A RESPONSABILIDADE DO BRASIL — II

 Eduardo Simões.

Para a confusão de Doradioto, Paranhos e Calógeras, um outro Calógeras, muito mais douto e conhecedor do Brasil, escreveu também a respeito da Guerra do Paraguai, chegando a conclusões muito diferentes: o grande político, escritor e economista brasileiro João Pandiá Calógeras, neto de João Batista, em seu livro Formação histórica do Brasil (edições Senado Federal); sem falar dos fatos históricos.

João Pandiá começa criticando a restrição brasileira à navegação uruguaia na lagoa Mirim e no rio Jaguarão, mas reconhece que a atuação dos uruguaios na fronteira do Rio Grande justificava essa restrição, pois desde o fim da intervenção contra Oribe e Rosas:

As incessantes incursões uruguaias, a prear gados e rebanhos e tropilhas, exercendo sua ação devastadora por centenas de léguas quadradas, e roubando centenas de mil cabeças, 800.000 ao que se computava na época, aos estancieiros dos municípios da fronteira” (p. 227).

Mesmo se considerarmos que 800 mil é um crasso exagero, não se pode negar que foram muitas, e que isso era inaceitável.

Numerosos brasileiros eram possuidores de terras no Uruguai… O sentimento hostil, não público a princípio, manifestava-se em pirraças e pequenos vexames; mais tarde, foram ataques mais graves, assassínios, roubos de gado, ao longo de toda a fronteira. Passado mais tempo, fizeram-se incursões dentro da Província, cada vez mais audaciosas e prejudiciais, à medida que o ódio crescia contra o Brasil no país lindeiro

Tais processos de vexatória hostilidade puseram a província toda em pé de guerra; sua única propriedade, o gado, estava ameaçada; suas vidas, postas em perigo; suas fazendas, invadidas e destroçadas. Não se tratava de prejuízos sem importância… atos de banditismo se exerciam por mais de seiscentas léguas quadradas de pastagens, ricas em campos finos.

Queixas afluíam ao Rio, e o gabinete reclamava diplomaticamente em Montevidéu perante suas autoridades…

Cônscio disto [da anarquia interna do Uruguai], o Brasil não podia e não queria insistir demasiado em seus esforços de exigir reparações pelos males e prejuízos sofridos por seus nacionais, e adiava tal prestação de contas para dias mais calmos.

Assim se foi protelando, até a subida de Berro à presidência. Mas eram assim doze anos de abandono e de paralisação na defesa dos interesses rio-grandenses, e estes sofriam e gritavam, até que, cansados de se verem a sós, começaram a procurar justiça por suas próprias mãos” (p. 231–232).

Nesses doze anos, dez anos foram de governo do Partido Conservador de Paranhos, e dois de uma aliança de Conservadores e Liberais ‘moderados’ (ou envergonhados?)

O Brasil foi leniente, eu diria superleniente, irresponsável, idiota e infame contra seus próprios interesses e a sua  honra — como ele queria que os outros a respeitassem? O presidente uruguaio Atanásio Aguirre, que nos odiava compulsivamente, quando recebeu uma nota do Rio, reclamando de ataques diários de bandidos uruguaios às propriedades brasileiras, disse, debochando,  como o Brasil reclamar de ataques diários, se ao longo de doze anos o nosso país só reclamara 63 vezes contra tais abusos!!!!!! (Doradioto, p. 53).

QUE PAÍS NO MUNDO ESPERARIA, INERME, MAIS DE 60 AGRESSÕES CONTRA A SUA SOBERANIA ANTES DE TOMAR UMA PROVIDÊNCIA?

Ainda por volta de 1862, na Câmara, Paranhos, segundo Doradioto, asseverou ‘que o Paraguai não poderia provocar uma guerra contra o Brasil, devido à desigualdade de recursos entre os dois países’ e acrescentou:

Quando se trata de uma nação fraca, não queiramos só resolver as questões à valentona, porque pode haver também uma nação forte que nos queira aplicar a pena de talião” (p. 380).

Ou seja: antes de agir na defesa de seu direito legítimo, o Brasil deve pedir autorização a alguma outra nação mais poderosa e só agir com a sua permissão, para evitar um castigo posteriormente. Existe uma expressão mais COVARDE de soberania nacional do que essa? 

O curioso é que a livre navegação da bacia platina era considerada absolutamente estratégica para a manutenção de vastas regiões produtoras do Centro-Oeste do Brasil, e os países com que dividíamos essa bacia viviam em um torvelinho de agitação, golpes e anarquia constante. Ou seja: tudo apontava para a região platina como o grande problema externo do Brasil.

O que um país normal faria num caso desses? Estacionaria forças poderosas perto dessa região — no mínimo uns dez mil infantes bem armados e treinados em operações fluviais; deixaria bem claro aos vizinhos que essa força entraria em ação em casos claramente estipulados, e que agiria sempre que tais casos acontecessem, criando um padrão de conduta; junto a essa infantaria haveria uma nutrida força fluvial com embarcações adaptadas para operar em rios. Em caso de um grande conflito, essa força daria conta de segurar os inimigos até o resto do exército se mobilizar.

E o que o Brasil, ou melhor, os gabinetes conservadores da turma de Paranhos fizeram? Reduziram e dispersaram o exército e construíram uma poderosa e absurda marinha oceânica, para projetar poder onde não tínhamos condições de projetar. Fora da América do Sul. Os navios mais poderosos de nossa esquadra mal podiam manobrar nas margens estreitas, para esse tipo de navio, dos rios da bacia platina. Isso bagunçou e atrasou as operações durante o conflito, assim como a criação improvisada de um exército a partir de quase nada.

O Brasil nada fez, em 12 anos, para deixar bem claro aos seus vizinhos o quanto a navegação livre daqueles rios era importante e até onde ele estava disposto a ir para garantir isso. Ao contrário, preferiu ficar de quatro levando chute dos aventureiros uruguaios e argentinos e, no final, quando sentiu o chute dos paraguaios, levantou-se cheio de fúria ‘NUM BRINCO MAIS’, e aí pode ter exagerado. Mas foi ele quem transmitiu livremente essa autoimagem degradante aos seus parceiros da região, o que fez os uruguaios nos tratarem como covardes, e os paraguaios nos representarem como macacos, enquanto massacravam sem dó os brasileiros que lhes caíam nas mãos.

E se o Brasil tivesse, desde o início, dado provas concretas de sua disposição de luta ao invés de empurrar os problemas  para debaixo do tapete, será que teríamos chegado a essa guerra a que a política de apaziguamento dos conservadores nos arrastou e aos nossos vizinhos, com tanta morte e  desgraça?

O futuro deu razão a Paranhos? Houve 50 anos de atraso, como previu Cotegipe — até 1920? Vamos aos fatos:

Quantas guerras entre nações houve na área após a Guerra do Paraguai nesse período? Nenhuma.

Quantas guerras civis intermináveis e com ajuda de países estrangeiros houve na região, como a luta entre blancos e colorados do século XIX? Nenhuma, apenas revoltas domésticas e breves.

Quantos governos foram derrubados no Uruguai nesse período? Nenhum.

Quantos governos foram derrubados na Argentina nesse período? Nenhum.

O Paraguai, o causador de tudo, acostumado precocemente a um regime totalitário, entrou numa fase de caos e anarquia, e mergulhou de novo numa longa ditadura, antes de aproveitar, como os outros, as vantagens de um regime democrático-liberal.

Com o fim da brigalhada, os povos platinos puderam se dedicar ao que é próprio de povos civilizados e tirar o máximo partido da liberdade de navegação daqueles rios, atraindo o olhar de inúmeros investidores e empreendedores externos e internos, que agora podiam, num clima de estabilidade, tirar partido da posição estratégica da região.

De 1880 a 1930, a Argentina se torna um dos países mais ricos do mundo e o segundo das Américas.

Entre 1900 e 1950, o Uruguai experimentou um surto de progresso e bem-estar que lhe valeu o apelido de 'Suíça das Américas'.

O Paraguai, após abrir mão definitivamente das ditaduras e apostar na democracia capitalista liberal, experimenta agora um processo de forte crescimento econômico, que um dia, acreditamos, o fará abandonar essa crença absurda de que o país deve alguma coisa a Solano López além do seu pior momento — para grande tristeza dos 'historiguaios' brasileiros e desmoralização daqueles que, em que pese acertos noutras áreas, acreditaram que o apaziguamento a qualquer custo seria bom para as relações entre esses países.

Por causa da política de apaziguamento dos conservadores, apoiado por historiadores como Doradioto, sofremos por anos agressões e provocações inaceitáveis, com grandes perdas financeiras e destruição de bens particulares e desgaste na imagem do Império. Fomos forçados a entrar numa guerra gigantesca, que provocou desgraças intermináveis, forçados por um dos mais vis e desmoralizantes atos de pirataria, só para receber até hoje acusações de genocídio e o ódio gratuito de muitos paraguaios, incapazes de assumir a sua parte nesse conflito.

Relações de respeito mútuo e equilíbrio são obrigatórias para todos nas relações internacionais, sem nunca abrir mão da verdade histórica. Tomara que ninguém nunca mais esqueça isso.

JAMAIS DEVEMOS ACEITAR UMA PAZ E UMA CONVIVÊNCIA BASEADA EM MENTIRAS COM OS NOSSOS VIZINHOS, SEJA ELA CONTRA NÓS OU A NOSSO FAVOR.

FIM 


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