GUERRA DO PARAGUAI: A RESPONSABILIDADE DO BRASIL — II
Eduardo Simões.
Para a confusão de Doradioto,
Paranhos e Calógeras, um outro Calógeras, muito mais douto e conhecedor do
Brasil, escreveu também a respeito da Guerra do Paraguai, chegando a conclusões
muito diferentes: o grande político, escritor e economista brasileiro João
Pandiá Calógeras, neto de João Batista, em seu livro Formação histórica do
Brasil (edições Senado Federal); sem falar dos fatos históricos.
João Pandiá começa criticando a
restrição brasileira à navegação uruguaia na lagoa Mirim e no rio Jaguarão, mas
reconhece que a atuação dos uruguaios na fronteira do Rio Grande justificava
essa restrição, pois desde o fim da intervenção contra Oribe e Rosas:
“As incessantes incursões
uruguaias, a prear gados e rebanhos e tropilhas, exercendo sua ação devastadora
por centenas de léguas quadradas, e roubando centenas de mil cabeças, 800.000
ao que se computava na época, aos estancieiros dos municípios da fronteira”
(p. 227).
Mesmo se considerarmos que 800
mil é um crasso exagero, não se pode negar que foram muitas, e que isso era
inaceitável.
“Numerosos brasileiros eram
possuidores de terras no Uruguai… O sentimento hostil, não público a princípio,
manifestava-se em pirraças e pequenos vexames; mais tarde, foram ataques mais
graves, assassínios, roubos de gado, ao longo de toda a fronteira. Passado mais
tempo, fizeram-se incursões dentro da Província, cada vez mais audaciosas e
prejudiciais, à medida que o ódio crescia contra o Brasil no país lindeiro…
Tais processos de vexatória
hostilidade puseram a província toda em pé de guerra; sua única propriedade, o
gado, estava ameaçada; suas vidas, postas em perigo; suas fazendas, invadidas e
destroçadas. Não se tratava de prejuízos sem importância… atos de banditismo se
exerciam por mais de seiscentas léguas quadradas de pastagens, ricas em campos
finos.
Queixas afluíam ao Rio, e o
gabinete reclamava diplomaticamente em Montevidéu perante suas autoridades…
Cônscio disto [da anarquia
interna do Uruguai], o Brasil não podia e não queria insistir demasiado em
seus esforços de exigir reparações pelos males e prejuízos sofridos por seus
nacionais, e adiava tal prestação de contas para dias mais calmos.
Assim se foi protelando, até a
subida de Berro à presidência. Mas eram assim doze anos de abandono e de
paralisação na defesa dos interesses rio-grandenses, e estes sofriam e
gritavam, até que, cansados de se verem a sós, começaram a procurar justiça por
suas próprias mãos” (p. 231–232).
Nesses doze anos, dez anos foram
de governo do Partido Conservador de Paranhos, e dois de uma aliança de
Conservadores e Liberais ‘moderados’ (ou envergonhados?)
O Brasil foi leniente, eu diria
superleniente, irresponsável, idiota e infame contra seus próprios interesses e
a sua honra — como ele queria que os outros a respeitassem? O presidente
uruguaio Atanásio Aguirre, que nos odiava compulsivamente, quando recebeu uma
nota do Rio, reclamando de ataques diários de bandidos uruguaios às
propriedades brasileiras, disse, debochando, como o Brasil reclamar de
ataques diários, se ao longo de doze anos o nosso país só reclamara 63
vezes contra tais abusos!!!!!! (Doradioto, p. 53).
QUE PAÍS NO MUNDO ESPERARIA,
INERME, MAIS DE 60 AGRESSÕES CONTRA A SUA SOBERANIA ANTES DE TOMAR UMA
PROVIDÊNCIA?
Ainda por volta de 1862, na
Câmara, Paranhos, segundo Doradioto, asseverou ‘que o Paraguai não poderia
provocar uma guerra contra o Brasil, devido à desigualdade de recursos entre os
dois países’ e acrescentou:
“Quando se trata de uma nação
fraca, não queiramos só resolver as questões à valentona, porque pode haver
também uma nação forte que nos queira aplicar a pena de talião” (p. 380).
Ou seja: antes de agir na defesa
de seu direito legítimo, o Brasil deve pedir autorização a alguma outra nação
mais poderosa e só agir com a sua permissão, para evitar um castigo
posteriormente. Existe uma expressão mais COVARDE de soberania nacional do que
essa?
O curioso é que a livre navegação
da bacia platina era considerada absolutamente estratégica para a manutenção de
vastas regiões produtoras do Centro-Oeste do Brasil, e os países com que
dividíamos essa bacia viviam em um torvelinho de agitação, golpes e anarquia
constante. Ou seja: tudo apontava para a região platina como o grande problema
externo do Brasil.
O que um país normal faria num
caso desses? Estacionaria forças poderosas perto dessa região — no mínimo uns
dez mil infantes bem armados e treinados em operações fluviais; deixaria bem
claro aos vizinhos que essa força entraria em ação em casos claramente
estipulados, e que agiria sempre que tais casos acontecessem, criando um padrão
de conduta; junto a essa infantaria haveria uma nutrida força fluvial com
embarcações adaptadas para operar em rios. Em caso de um grande conflito,
essa força daria conta de segurar os inimigos até o resto do exército se
mobilizar.
E o que o Brasil, ou melhor, os
gabinetes conservadores da turma de Paranhos fizeram? Reduziram e dispersaram o
exército e construíram uma poderosa e absurda marinha oceânica, para projetar
poder onde não tínhamos condições de projetar. Fora da América do Sul. Os
navios mais poderosos de nossa esquadra mal podiam manobrar nas margens
estreitas, para esse tipo de navio, dos rios da bacia platina. Isso bagunçou e
atrasou as operações durante o conflito, assim como a criação improvisada de um
exército a partir de quase nada.
O Brasil nada fez, em 12 anos,
para deixar bem claro aos seus vizinhos o quanto a navegação livre daqueles
rios era importante e até onde ele estava disposto a ir para garantir isso. Ao
contrário, preferiu ficar de quatro levando chute dos aventureiros uruguaios e
argentinos e, no final, quando sentiu o chute dos paraguaios, levantou-se cheio
de fúria ‘NUM BRINCO MAIS’, e aí pode ter exagerado. Mas foi ele quem
transmitiu livremente essa autoimagem degradante aos seus parceiros da região,
o que fez os uruguaios nos tratarem como covardes, e os paraguaios nos
representarem como macacos, enquanto massacravam sem dó os brasileiros que lhes
caíam nas mãos.
E se o Brasil tivesse, desde o
início, dado provas concretas de sua disposição de luta ao invés de empurrar os
problemas para debaixo do tapete, será que teríamos chegado a essa guerra
a que a política de apaziguamento dos conservadores nos arrastou e aos nossos
vizinhos, com tanta morte e desgraça?
O futuro deu razão a Paranhos?
Houve 50 anos de atraso, como previu Cotegipe — até 1920? Vamos aos fatos:
Quantas guerras entre nações
houve na área após a Guerra do Paraguai nesse período? Nenhuma.
Quantas guerras civis
intermináveis e com ajuda de países estrangeiros houve na região, como a luta
entre blancos e colorados do século XIX? Nenhuma, apenas revoltas domésticas e
breves.
Quantos governos foram derrubados
no Uruguai nesse período? Nenhum.
Quantos governos foram derrubados
na Argentina nesse período? Nenhum.
O Paraguai, o causador de tudo,
acostumado precocemente a um regime totalitário, entrou numa fase de caos e
anarquia, e mergulhou de novo numa longa ditadura, antes de aproveitar, como os
outros, as vantagens de um regime democrático-liberal.
Com o fim da brigalhada, os povos
platinos puderam se dedicar ao que é próprio de povos civilizados e tirar o
máximo partido da liberdade de navegação daqueles rios, atraindo o olhar de
inúmeros investidores e empreendedores externos e internos, que agora podiam,
num clima de estabilidade, tirar partido da posição estratégica da região.
De 1880 a 1930, a Argentina se
torna um dos países mais ricos do mundo e o segundo das Américas.
Entre 1900 e 1950, o Uruguai
experimentou um surto de progresso e bem-estar que lhe valeu o apelido de
'Suíça das Américas'.
O Paraguai, após abrir mão
definitivamente das ditaduras e apostar na democracia capitalista liberal,
experimenta agora um processo de forte crescimento econômico, que um dia,
acreditamos, o fará abandonar essa crença absurda de que o país deve alguma coisa
a Solano López além do seu pior momento — para grande tristeza dos
'historiguaios' brasileiros e desmoralização daqueles que, em que pese acertos
noutras áreas, acreditaram que o apaziguamento a qualquer custo seria bom para
as relações entre esses países.
Por causa da política de apaziguamento dos conservadores, apoiado por historiadores como Doradioto, sofremos por anos agressões e provocações inaceitáveis, com grandes perdas financeiras e destruição de bens particulares e desgaste na imagem do Império. Fomos forçados a entrar numa guerra gigantesca, que provocou desgraças intermináveis, forçados por um dos mais vis e desmoralizantes atos de pirataria, só para receber até hoje acusações de genocídio e o ódio gratuito de muitos paraguaios, incapazes de assumir a sua parte nesse conflito.
Relações de respeito mútuo e equilíbrio são obrigatórias para todos nas relações internacionais, sem nunca abrir mão da verdade histórica. Tomara que ninguém nunca mais esqueça isso.
JAMAIS DEVEMOS ACEITAR UMA PAZ E UMA
CONVIVÊNCIA BASEADA EM MENTIRAS COM OS NOSSOS VIZINHOS, SEJA ELA CONTRA NÓS OU A
NOSSO FAVOR.
FIM
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