O rompimento com a
Igreja
O governador Rodrigues
Lima, que em 1893 fizera uma tropa voltar da perseguição a Antônio Conselheiro,
incomodado com o crescimento de Canudos, solicitou ao arcebispo de Salvador,
Dom Jerônimo Tomé, a sua apreciação, afinal havia uma mensagem religiosa, pretensamente
católica, envolvida. Talvez o governador até alimentasse a esperança de que a
Igreja assumisse o pepino de dispersar aquela gente. D. Jerônimo concordou e
mandou uma missão de frades capuchinhos, sob a liderança do Padre João
Evangelista do Monte Marciano, acompanhado do Frei Caetano de São Leo. Os dois,
italianos.
A ação de padres
estrangeiros nesse momento pode ter a ver com a preocupação da Igreja em
romanizar o clero e a fé do povo brasileiro, que estiveram até ali presos às
regras do Padroado, que enfraquecia a relação dos padres com Roma,
transformando-os em funcionários públicos, pagos pelo imperador.
As mudanças provocadas
na relação Igreja-Estado, com a Proclamação da República, até certo ponto,
desejadas por Roma, confundiram o entendimento de muitos. Foi nesse momento que
surgiu o registro de nascimento em cartório, em substituição ao batistério para
efeito de censo, o casamento civil, independente do religioso e o único válido
para o Estado, a administração secular dos cemitérios e as capelanias militares
foram esvaziadas. Nada disso, Conselheiro e os seus, insuflados por padres e
bispos do antigo Padroado, admitiam, enquanto Roma as considerava questões
menores e perfeitamente negociáveis.
Sobre essa missão dos
frades, podemos considerar o seguinte:
a) Foi correto o
arcebispo mandar frades italianos? A outra questão é: na área da Arquidiocese
de Salvador, havia padres brasileiros com boa formação e interesse em
participar dessa missão?
b) O fato de eles serem
italianos comprometeu a missão? Vamos considerar: 1º — Frei João Evangelista já
estava no Brasil há mais de 20 anos e tinha um razoável conhecimento sobre a
terra e sua gente. 2º — O seu relatório tem uma linguagem objetiva: 'vi isso',
'ouvi aquilo'. Ou se prova que ele não poderia ter visto o que viu ou ouvido o
que ouviu, ou somos obrigados a reconhecer, no seu relatório, um testemunho
precioso sobre o que acontecia em Canudos.
Diz-se,
preconceituosamente, que se eles fossem brasileiros teriam sido mais
compreensíveis, e que seria mais fácil um acordo, mas afirmar isso é não
enxergar o óbvio. O impasse em Canudos foi agravado por decisões de autoridades
políticas brasileiras e o seu arrasamento foi obra exclusiva do Exército
Brasileiro. Quando os canudenses mais precisaram, só contaram com o apoio de
padres estrangeiros, como o frade italiano Jerônimo de Montefiore, em
Queimadas, e os frades alemães Gabriel Grömer e Pedro Sinzig, em Cansanção,
entre 22 de agosto e 28 de outubro de 1897.
Onde estavam o padre
Sabino e o padre Agripino, que celebravam missa em Canudos ou o recebiam com
festas em suas paróquias? E os padres brasileiros que, ao contrário da ordem do
arcebispo, autorizavam o Conselheiro a fazer suas pregações, vendo o aumento
das doações e os trabalhos grátis em suas paróquias? Frei João Evangelista
e Frei Sinzig nos deixaram dados sobre Canudos ou defenderam os canudenses.
Onde estão os testemunhos e as defesas dos padres brasileiros?
Eis, abaixo, um resumo
do que o frei João Evangelista do Monte Marciano viu em Canudos, entre 13 e 21
de maio de 1895, no chamado: “Relatório apresentado pelo Revdo. Frei João
Evangelista de Monte Marciano ao Arcebispado da Bahia sobre Antônio Conselheiro
e seu séquito no arraial dos Canudos.”
a) A viagem foi difícil
e lenta pela falta de recursos locais. Era uma região muito inóspita.
b) Dezoito quilômetros
antes de Cumbe, depararam-se com um grupo de homens, mulheres e crianças, seminus
e armados, sendo recebidos com desconfiança — a distância de Cumbe a
Canudos é de cerca de 250 km. Esse caminho, pelo Cumbe, será repetido pela
coluna Moreira César.
c) A entrada em Canudos
abriu-lhes um cenário de muita pobreza:
"Casinholas
toscas, construídas com barro e telhado de palha, de porta, sem janelas nem
arruadas. O interior é imundo… os moradores… quase nus… atestavam no aspecto
esquálido… as privações que curtiam."
Mas já havia
estratificação econômica e social, pois as melhores casas ficavam próximas da
casa do Conselheiro.
"Vimos depois da
praça… ladeada de cerca de doze casas de telha, e nas extremidades, de frente
uma à outra, a capela [creio que o edifício que o Conselheiro
chamava ‘santuário’] e a casa de residência de Antônio Conselheiro."
d) Em seguida, ele viu
uma guarda armada de perto de mil homens, muito excitados, mas com armas
primitivas: bacamarte, garrucha, facão, etc. Eles estavam fardados com
calça e blusa azul, semelhante ao exército do Império, com um gorro azul e
alpercatas.
e) A mortalidade era
alta. Em duas horas, ele viu passar pelo menos oito funerais, conduzidos por
homens armados, sem os cuidados religiosos de praxe. Soube depois (pelo padre
Sabino?) que isso era comum.
f) A descrição do
Conselheiro coincide com a da imprensa: cabelos longos, nos ombros,
desalinhados, barba grisalha mais para branca, camisolão azul, gestos
medidos e graves, rosto muito pálido.
g) Enquanto ele falava
com o Conselheiro, tentando demovê-lo, uma multidão se aproxima e, ignorando a
presença do chefe, começa a bater boca com o frade. Isso denota um fenômeno
comum em movimentos carismáticos de massa. Num primeiro momento, após atrair e
dirigir as pessoas, um líder carismático, teatral e superficial, é, às vezes,
por elas dirigido. Essa impressão é reforçada pela seguinte observação:
"ninguém consegue falar-lhe a sós, porque seus pretorianos não deixam…
dia e noite montam guarda a Antônio Conselheiro."
O líder já não tem o
controle de sua agenda, nem fica muito claro quem a tem. É o tempo das
eminências pardas. Nesse momento, Conselheiro lhe diz: "No
tempo da monarquia, deixei-me prender, porque reconhecia o governo; hoje não.
Porque não reconheço a república." Ele, portanto, está consciente de
que está em confronto direto com o poder público, e a razão que apresenta é
estritamente pessoal: "não reconheço a república."
Nesse raciocínio, onde
será que ficavam os milhares que o seguiam?
h) O Conselheiro
parecia prestar uma deferência especial aos padres, sem nunca assumir as
funções deles, mas frei Evangelista observa algo notável: "não dá
jamais o exemplo de aproximar-se dos sacramentos, fazendo crer com isso que não
carece deles". Isso seria um desvio doutrinário grave, mas também
expressão do catolicismo popular, menos sacramental e mais devocional. Noutro
extremo, isso poderia ser resultante da leitura compulsiva da Missão
Abreviada, que jamais consentiria a Conselheiro aproximar-se dos
sacramentos, após ter abandonado duas famílias — ouso dizer que ele devia se
sentir muito mal ao ler esse livro, enquanto se purgava com o seu estilo de
vida, enquanto pregava-o às multidões.
"As cerimônias do
culto a que preside… são mescladas de sinais de superstição e idolatria",
diz o frade, como se ele acrescentasse elementos ritualísticos desconhecidos
pela ortodoxia.
i) Estimula-se a
divisão dos bens dos que querem entrar para a comunidade, assim como guardam as
imagens de santos, que uns e outros trazem, para formar como que um panteão, no
santuário, e à frente deles o fiel realiza grandes reverências.
j) Notou a presença de
criminosos na comunidade, como João Abade (2 assassinatos) e José Venâncio
(dezoito assassinatos).
l) A missão começou no
dia 14 de maio. O fato notável foi a presença de povo, marcadamente do sexo
masculino, mas armado. Conselheiro compareceu, segurando o seu bordão — como
fazem os bispos (?) — e ficou ao lado do altar, de frente para o povo, provavelmente
atrás ou ao lado do frade. Ele não interveio, mas, por meio de gestos,
aprovando ou desaprovando, controlava a reação da multidão à pregação.
m) Ele normalmente
fazia pregações ao povo, mas, enquanto o frade esteve lá, ele não fez nenhuma.
n) No dia 18, o
frade falou da necessidade de se submeter às autoridades e de eles saírem dali,
o que causou grande desagrado. No dia seguinte, beatos e pessoal da guarda
fizeram manifestação pública contra o frade, espalharam boatos de um ataque do
governo e reforçaram a vigilância das estradas.
o) Dia 20 de maio, João
Abade organiza uma grande manifestação contra os padres, agora chamados de maçons,
republicanos e protestantes.
p) Começa, segundo o
frade, um controle rigoroso de quem entra no povoado; no geral, “aos amigos
do governo ou republicanos conhecidos e suspeitos, ela [a milícia do
Conselheiro] faz logo retroceder, ou tolera que entrem, mas trazendo-os em
vista”.
q) Ele também faz uma
acusação séria: "Sucedeu durante a minha estada a um pobre coitado que,
por exigir a restituição das imagens que tinha trazido [aparentemente
desistira de morar em Canudos], foi posto na prisão." Isso desmente
o bordão de que a cadeia de Canudos estava sempre vazia. Robert Levine, em seu
livro O sertão prometido — massacre de Canudos, também fala de outros
aprisionamentos.
r) Aqueles que entravam
na cidade com recursos, mas sem compromisso com a fé no Conselheiro, corriam o
risco de saque. "Um certo comerciante, que lá se estabelecera, vindo da
cidade do Bonfim", sofreu essa desdita. Semelhante destino teve a loja
dos Mota, após a execução dos proprietários.
O frade suspende a
missão no dia 21 de maio e, após uma tentativa fracassada de confissão, ele
parte, amaldiçoando o arraial, rompendo oficialmente qualquer elo entre este e
a Igreja Católica, embora para o Conselheiro e os seus nada tenha mudado.
Eis alguns comentários
do frade:
"Não é só um foco
de superstição e fanatismo… é, principalmente, um núcleo, na aparência
desprezível, mas um tanto perigoso e funesto, de ousada resistência e
hostilidade ao governo constituído do país.
É aquilo um estado
no estado: ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as
autoridades, não é admitida a circulação do próprio dinheiro da república."
O frade, decerto,
‘carregou nas tintas’, mas é preciso considerar também que:
a) A Igreja Católica
precisava esclarecer qual era a situação teológica da Comunidade de Canudos,
uma vez que Conselheiro continuou utilizando um discurso parecido, costumes,
nomes e símbolos da igreja. No seu testamento, Conselheiro falará na necessidade
de defesa e pertencimento à Igreja, que ele seguia naquilo que lhe interessava
ou compreendia, sem perceber a contradição.
b) Esse relatório, ao
contrário do que dizem, e da ‘profecia’ do Conselheiro, feita quando os padres
se foram, não teve a menor influência no que se seguiu. Ninguém o citou para
justificar ou anular alguma decisão durante a campanha. Foi um aviso às autoridades,
que, se tivessem agido antes, poderiam ter resolvido o assunto com menos
perdas.
c) Canudos era um
estado, com leis próprias, diversas da Constituição, com uma forma diferente de
governo, e que estava se expandindo. Os primeiros combates se darão a dezenas
de quilômetros de seu núcleo urbano. Deixada a si mesma, a tendência seria a sua
expansão, num desafio crescente ao Estado, com outras lideranças aparecendo,
talvez mais inteligentes, mais ousadas e menos escrupulosas. A guerra seria tão
inevitável quanto foi, só que muito pior.
As leis e a
Constituição devem ser seguidas, e quando queremos atender a casos especiais,
esses casos precisam estar previstos em lei, sob pena de o país ficar entregue
à lei da selva, à lei do mais forte. É um grande erro pessoas defenderem uma
posição de indiferença frente a Canudos. A lei escrita, quando obedecida, dá
estabilidade à sociedade e protege os mais fracos. Os canudenses estavam
sujeitos a um homem mentalmente instável, cercado por valentões armados.
As autoridades tinham a
obrigação de intervir e, com moderação, fazer acordo para o cumprimento da lei
e dos valores dominantes na sociedade nacional, além de proteger os mais
fracos, antes que aquilo convulsionasse todo o sertão. O governador Joaquim
Rodrigues Lima leu o relatório do frei João Evangelista, colocou-o sobre a mesa
de trabalho, estalou os lábios, franziu o cenho e disse para si mesmo:
— O bispo não conseguiu
resolver. Quem quiser, que descasque esse abacaxi!
Mandou arquivar.
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