segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 36
[Segundo o blog 'Cangaço na Bahia', os dois padres sentados ao centro seriam os frades que foram a Canudos, mas o religioso que está à direita não é um frade capuchinho, mas um padre secular, denunciado pela fileira de botões na frente da batina. Provavelmente, pelo que se sabe, frei Caetano de São Leo deve ser o que está sentado à esquerda, enquanto frei João Evangelista do Monte Marciano é o frade de longas barbas brancas, bem no estilo dos velhos capuchinhos, sentado ao seu lado].

O rompimento com a Igreja

O governador Rodrigues Lima, que em 1893 fizera uma tropa voltar da perseguição a Antônio Conselheiro, incomodado com o crescimento de Canudos, solicitou ao arcebispo de Salvador, Dom Jerônimo Tomé, a sua apreciação, afinal havia uma mensagem religiosa, pretensamente católica, envolvida. Talvez o governador até alimentasse a esperança de que a Igreja assumisse o pepino de dispersar aquela gente. D. Jerônimo concordou e mandou uma missão de frades capuchinhos, sob a liderança do Padre João Evangelista do Monte Marciano, acompanhado do Frei Caetano de São Leo. Os dois, italianos.

A ação de padres estrangeiros nesse momento pode ter a ver com a preocupação da Igreja em romanizar o clero e a fé do povo brasileiro, que estiveram até ali presos às regras do Padroado, que enfraquecia a relação dos padres com Roma, transformando-os em funcionários públicos, pagos pelo imperador.

As mudanças provocadas na relação Igreja-Estado, com a Proclamação da República, até certo ponto, desejadas por Roma, confundiram o entendimento de muitos. Foi nesse momento que surgiu o registro de nascimento em cartório, em substituição ao batistério para efeito de censo, o casamento civil, independente do religioso e o único válido para o Estado, a administração secular dos cemitérios e as capelanias militares foram esvaziadas. Nada disso, Conselheiro e os seus, insuflados por padres e bispos do antigo Padroado, admitiam, enquanto Roma as considerava questões menores e perfeitamente negociáveis.

Sobre essa missão dos frades, podemos considerar o seguinte:

a) Foi correto o arcebispo mandar frades italianos? A outra questão é: na área da Arquidiocese de Salvador, havia padres brasileiros com boa formação e interesse em participar dessa missão? 

b) O fato de eles serem italianos comprometeu a missão? Vamos considerar: 1º — Frei João Evangelista já estava no Brasil há mais de 20 anos e tinha um razoável conhecimento sobre a terra e sua gente. 2º — O seu relatório tem uma linguagem objetiva: 'vi isso', 'ouvi aquilo'. Ou se prova que ele não poderia ter visto o que viu ou ouvido o que ouviu, ou somos obrigados a reconhecer, no seu relatório, um testemunho precioso sobre o que acontecia em Canudos.

Diz-se, preconceituosamente, que se eles fossem brasileiros teriam sido mais compreensíveis, e que seria mais fácil um acordo, mas afirmar isso é não enxergar o óbvio. O impasse em Canudos foi agravado por decisões de autoridades políticas brasileiras e o seu arrasamento foi obra exclusiva do Exército Brasileiro. Quando os canudenses mais precisaram, só contaram com o apoio de padres estrangeiros, como o frade italiano Jerônimo de Montefiore, em Queimadas, e os frades alemães Gabriel Grömer e Pedro Sinzig, em Cansanção, entre 22 de agosto e 28 de outubro de 1897.

Onde estavam o padre Sabino e o padre Agripino, que celebravam missa em Canudos ou o recebiam com festas em suas paróquias? E os padres brasileiros que, ao contrário da ordem do arcebispo, autorizavam o Conselheiro a fazer suas pregações, vendo o aumento das doações e os trabalhos grátis em suas paróquias? Frei João Evangelista e Frei Sinzig nos deixaram dados sobre Canudos ou defenderam os canudenses. Onde estão os testemunhos e as defesas dos padres brasileiros?

Eis, abaixo, um resumo do que o frei João Evangelista do Monte Marciano viu em Canudos, entre 13 e 21 de maio de 1895, no chamado: “Relatório apresentado pelo Revdo. Frei João Evangelista de Monte Marciano ao Arcebispado da Bahia sobre Antônio Conselheiro e seu séquito no arraial dos Canudos.

a) A viagem foi difícil e lenta pela falta de recursos locais. Era uma região muito inóspita.

b) Dezoito quilômetros antes de Cumbe, depararam-se com um grupo de homens, mulheres e crianças, seminus e armados, sendo recebidos com desconfiança — a distância de Cumbe a Canudos é de cerca de 250 km. Esse caminho, pelo Cumbe, será repetido pela coluna Moreira César.

c) A entrada em Canudos abriu-lhes um cenário de muita pobreza:

"Casinholas toscas, construídas com barro e telhado de palha, de porta, sem janelas nem arruadas. O interior é imundo… os moradores… quase nus… atestavam no aspecto esquálido… as privações que curtiam."

Mas já havia estratificação econômica e social, pois as melhores casas ficavam próximas da casa do Conselheiro.

"Vimos depois da praça… ladeada de cerca de doze casas de telha, e nas extremidades, de frente uma à outra, a capela [creio que o edifício que o Conselheiro chamava ‘santuário’] e a casa de residência de Antônio Conselheiro."

d) Em seguida, ele viu uma guarda armada de perto de mil homens, muito excitados, mas com armas primitivas: bacamarte, garrucha, facão, etc. Eles estavam fardados com calça e blusa azul, semelhante ao exército do Império, com um gorro azul e alpercatas.

e) A mortalidade era alta. Em duas horas, ele viu passar pelo menos oito funerais, conduzidos por homens armados, sem os cuidados religiosos de praxe. Soube depois (pelo padre Sabino?) que isso era comum.

f) A descrição do Conselheiro coincide com a da imprensa: cabelos longos, nos ombros, desalinhados, barba grisalha mais para branca, camisolão azul, gestos medidos e graves, rosto muito pálido.

g) Enquanto ele falava com o Conselheiro, tentando demovê-lo, uma multidão se aproxima e, ignorando a presença do chefe, começa a bater boca com o frade. Isso denota um fenômeno comum em movimentos carismáticos de massa. Num primeiro momento, após atrair e dirigir as pessoas, um líder carismático, teatral e superficial, é, às vezes, por elas dirigido. Essa impressão é reforçada pela seguinte observação: "ninguém consegue falar-lhe a sós, porque seus pretorianos não deixamdia e noite montam guarda a Antônio Conselheiro."

O líder já não tem o controle de sua agenda, nem fica muito claro quem a tem. É o tempo das eminências pardas. Nesse momento, Conselheiro lhe diz: "No tempo da monarquia, deixei-me prender, porque reconhecia o governo; hoje não. Porque não reconheço a república." Ele, portanto, está consciente de que está em confronto direto com o poder público, e a razão que apresenta é estritamente pessoal: "não reconheço a república."

Nesse raciocínio, onde será que ficavam os milhares que o seguiam?

h) O Conselheiro parecia prestar uma deferência especial aos padres, sem nunca assumir as funções deles, mas frei Evangelista observa algo notável: "não dá jamais o exemplo de aproximar-se dos sacramentos, fazendo crer com isso que não carece deles". Isso seria um desvio doutrinário grave, mas também expressão do catolicismo popular, menos sacramental e mais devocional. Noutro extremo, isso poderia ser resultante da leitura compulsiva da Missão Abreviada, que jamais consentiria a Conselheiro aproximar-se dos sacramentos, após ter abandonado duas famílias — ouso dizer que ele devia se sentir muito mal ao ler esse livro, enquanto se purgava com o seu estilo de vida, enquanto pregava-o às multidões.

"As cerimônias do culto a que preside… são mescladas de sinais de superstição e idolatria", diz o frade, como se ele acrescentasse elementos ritualísticos desconhecidos pela ortodoxia.

i) Estimula-se a divisão dos bens dos que querem entrar para a comunidade, assim como guardam as imagens de santos, que uns e outros trazem, para formar como que um panteão, no santuário, e à frente deles o fiel realiza grandes reverências.

j) Notou a presença de criminosos na comunidade, como João Abade (2 assassinatos) e José Venâncio (dezoito assassinatos).

l) A missão começou no dia 14 de maio. O fato notável foi a presença de povo, marcadamente do sexo masculino, mas armado. Conselheiro compareceu, segurando o seu bordão — como fazem os bispos (?) — e ficou ao lado do altar, de frente para o povo, provavelmente atrás ou ao lado do frade. Ele não interveio, mas, por meio de gestos, aprovando ou desaprovando, controlava a reação da multidão à pregação.

m) Ele normalmente fazia pregações ao povo, mas, enquanto o frade esteve lá, ele não fez nenhuma.

n) No dia 18, o frade falou da necessidade de se submeter às autoridades e de eles saírem dali, o que causou grande desagrado. No dia seguinte, beatos e pessoal da guarda fizeram manifestação pública contra o frade, espalharam boatos de um ataque do governo e reforçaram a vigilância das estradas.

o) Dia 20 de maio, João Abade organiza uma grande manifestação contra os padres, agora chamados de maçons, republicanos e protestantes.

p) Começa, segundo o frade, um controle rigoroso de quem entra no povoado; no geral, “aos amigos do governo ou republicanos conhecidos e suspeitos, ela [a milícia do Conselheiro] faz logo retroceder, ou tolera que entrem, mas trazendo-os em vista”.

q) Ele também faz uma acusação séria: "Sucedeu durante a minha estada a um pobre coitado que, por exigir a restituição das imagens que tinha trazido [aparentemente desistira de morar em Canudos], foi posto na prisão." Isso desmente o bordão de que a cadeia de Canudos estava sempre vazia. Robert Levine, em seu livro O sertão prometido — massacre de Canudos, também fala de outros aprisionamentos.

r) Aqueles que entravam na cidade com recursos, mas sem compromisso com a fé no Conselheiro, corriam o risco de saque. "Um certo comerciante, que lá se estabelecera, vindo da cidade do Bonfim", sofreu essa desdita. Semelhante destino teve a loja dos Mota, após a execução dos proprietários.  

O frade suspende a missão no dia 21 de maio e, após uma tentativa fracassada de confissão, ele parte, amaldiçoando o arraial, rompendo oficialmente qualquer elo entre este e a Igreja Católica, embora para o Conselheiro e os seus nada tenha mudado.

Eis alguns comentários do frade:

"Não é só um foco de superstição e fanatismo… é, principalmente, um núcleo, na aparência desprezível, mas um tanto perigoso e funesto, de ousada resistência e hostilidade ao governo constituído do país.

É aquilo um estado no estado: ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as autoridades, não é admitida a circulação do próprio dinheiro da república."

O frade, decerto, ‘carregou nas tintas’, mas é preciso considerar também que:

a) A Igreja Católica precisava esclarecer qual era a situação teológica da Comunidade de Canudos, uma vez que Conselheiro continuou utilizando um discurso parecido, costumes, nomes e símbolos da igreja. No seu testamento, Conselheiro falará na necessidade de defesa e pertencimento à Igreja, que ele seguia naquilo que lhe interessava ou compreendia, sem perceber a contradição.

b) Esse relatório, ao contrário do que dizem, e da ‘profecia’ do Conselheiro, feita quando os padres se foram, não teve a menor influência no que se seguiu. Ninguém o citou para justificar ou anular alguma decisão durante a campanha. Foi um aviso às autoridades, que, se tivessem agido antes, poderiam ter resolvido o assunto com menos perdas.

c) Canudos era um estado, com leis próprias, diversas da Constituição, com uma forma diferente de governo, e que estava se expandindo. Os primeiros combates se darão a dezenas de quilômetros de seu núcleo urbano. Deixada a si mesma, a tendência seria a sua expansão, num desafio crescente ao Estado, com outras lideranças aparecendo, talvez mais inteligentes, mais ousadas e menos escrupulosas. A guerra seria tão inevitável quanto foi, só que muito pior.

As leis e a Constituição devem ser seguidas, e quando queremos atender a casos especiais, esses casos precisam estar previstos em lei, sob pena de o país ficar entregue à lei da selva, à lei do mais forte. É um grande erro pessoas defenderem uma posição de indiferença frente a Canudos. A lei escrita, quando obedecida, dá estabilidade à sociedade e protege os mais fracos. Os canudenses estavam sujeitos a um homem mentalmente instável, cercado por valentões armados.

As autoridades tinham a obrigação de intervir e, com moderação, fazer acordo para o cumprimento da lei e dos valores dominantes na sociedade nacional, além de proteger os mais fracos, antes que aquilo convulsionasse todo o sertão. O governador Joaquim Rodrigues Lima leu o relatório do frei João Evangelista, colocou-o sobre a mesa de trabalho, estalou os lábios, franziu o cenho e disse para si mesmo:

— O bispo não conseguiu resolver. Quem quiser, que descasque esse abacaxi!

Mandou arquivar.


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