quarta-feira, 13 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 12 


         O brinquedo preferido do marechal

Na repressão à revolta federalista no Sul, quebrou-se um padrão em Santa Catarina. Ele é o único estado que não tem corpos de vítimas de massacres para apresentar.

No Paraná, houve o massacre do Barão do Serro Azul e seus companheiros, no km 65 da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, quando se deslocavam para esse porto, a pretexto de pegar um navio que os conduziria ao julgamento no Rio, sem falar nos fuzilados no cemitério de Curitiba. O comandante do 5º Distrito Militar, o general Francisco Raimundo Ewerton Quadros, ficou exposto nesse episódio, pois, quando o irmão do barão, florianista, foi indagar a Floriano o que acontecera, este lhe mostrou um suposto telegrama, que passara ao general, ordenando-lhe que mandasse os prisioneiros ao Rio — mas ninguém foi punido.

No Rio Grande do Sul, os massacres se produziram à luz do dia, em catadupas de sangue e violências bizarras. O governador, Júlio de Castilhos, chamou a atenção de Floriano, encantado com o seu estilo implacável, e lhe deu toda ajuda para exterminar os seus rivais, a quem acusava de ‘monarquistas’ e ‘restauradores’, para enganar a opinião pública e justificar o seu extermínio. 

Coisa notável! Nesses dois estados, em que houve provas claras de massacres, nenhum dos supostos responsáveis, Quadros no Paraná e Castilho no RS, foi punido, nem por Floriano nem pela posteridade. Floriano indicará Quadros ao STF, mas o Senado, que ainda prezava por sua credibilidade, recusou-o. Quadros foi, posteriormente, promovido a marechal, enquanto Castilho continuou como senhor do RS e teve os seus discípulos governando ou influindo na política gaúcha até o final do regime militar, em 1985.

O castilhismo representou uma clara ruptura com o verniz liberal que vigia no país, sob um substrato marcadamente autoritário, defendendo a intervenção do Estado na economia e na vida dos indivíduos, em nome de um ideal difuso de “virtude”, que todo mundo devia seguir, mas que ninguém sabia direito o que significava, nem quem determinava o que era ser virtuoso ou não. Diz Ricardo Vélez:

“Enquanto para o pensamento liberal o bem público resultava da preservação dos interesses dos indivíduos, que abrangiam basicamente a propriedade privada e a liberdade de intercâmbio, bem como as chamadas liberdades civis, para Castilhos o bem público ultrapassava os limites dos interesses materiais dos indivíduos, para tornar-se impessoal e espiritual. O bem público se dá na sociedade moralizada por um Estado forte, que impõe o desinteresse individual em benefício do bem-estar da coletividade. Nessa conjuntura, o interesse pessoal é... imoralidade (citado na Wikipedia em português, Castilhismo).”

No Paraná e no Rio Grande do Sul, grandes massacres foram perpetrados, sem que se achasse neles qualquer digital de Floriano. Mas, no caso de Santa Catarina, com a iniciativa do coronel em mandar os prisioneiros para o Rio, as digitais de Floriano ficaram expostas, embora os brasileiros não as quisessem, e ainda não queiram, ver.

A melhor solução, para Floriano, era eliminar os seus adversários lá onde criavam problemas, deixando-o com as mãos limpas, como no caso do sargento Silvino, fuzilado, por sua ordem, em Pernambuco. Em Santa Catarina, não aconteceu assim, e a solução foi ocultar a chegada deles ao Rio e fazê-los desaparecer o mais rápido possível, jogando as famílias de um lado para o outro, até a coisa esfriar. Para isso, os florianistas contavam com um exército de aliados, muito bem posicionado.

Silveira Peixoto, em seu livro A tormenta que Prudente de Morais venceu (19), diz que os jacobinos e outros florianistas radicais haviam se infiltrado no funcionalismo público, aparelhando as instituições de estado: “as repartições públicas foram minuciosamente vasculhadas. Não somente os suspeitos, mas também os menos entusiastas foram todos substituídos por florianistas ardorosos. Sem qualquer respeito às leis, à vitaliciedade, aos direitos adquiridos, à capacidade, à eficiência.”

A mesma coisa aconteceu nas forças armadas, com a lealdade irrestrita ao florianismo exaltado se tornando o único critério para “promoções, demissões e reformas”, com um agravante: “Adiantamentos de soldo [à guisa de empréstimo]. É imenso o número de oficiais de todas as patentes contemplados com esses adiantamentos, alguns bem avultados.”

Utiliza-se do dinheiro público, em meio a uma enorme crise financeira, para garantir a lealdade dos militares.

No ‘reinado’ de Floriano, criou-se um poder paralelo, formado por simpatizantes, que, graças a uma intensa cooptação, tentava transformar o exército numa milícia florianista. Serão importantes membros desse poder paralelo que comandarão o combate final a Canudos e o atentado contra o presidente.

Um homem, entre outros menos conhecidos, recusou-se a participar dessa trama: Moreira César. Por causa disso, ele não só não recebeu nenhuma promoção como teve o seu corpo abandonado aos animais carniceiros — como os federalistas no Rio Grande —, além de ter a sua memória difamada pelos pósteros, por crimes que não cometeu.

      O jornalista e historiador Tobias do Rego Monteiro, do Jornal do Comércio, contemporâneo desses fatos, revela em seu livro, O presidente Campos Sales na Europa (20), uma faceta surpreendente do ‘Marechal de Ferro’, que era o uso de emissários particulares para dar ‘ordens especiais’, quando queria omitir sua participação.

        Diz Monteiro: “Quando [Floriano] precisava dar ordens para se cumprirem longe, ele não escrevia, mandava um emissário. Não deixava documento da sua ação. A um oficial… o Sr. Alfredo Vidal, deu de viva voz instruções reservadíssimas para serem transmitidas ao Major Faria. Ao terminar, disse-lhe: “Repita”. O oficial repetiu. Então ele ajuntou… “Quando acabar de dar esse recado, esqueça-o.”

No meio da Várzea, em Porto Alegre… onde não se enxergava vivalma… o fiel emissário reproduziu tudo quanto ouvira. Passados alguns minutos, o major perguntou-lhe se Floriano empregara realmente certa palavra… Ele respondeu que não sabia. O interlocutor estranhou… O oficial redarguiu: “O marechal recomendou-me esquecer esse recado, apenas o desse.” E não houve meio de fazê-lo proferir uma palavra mais.”

Noutras palavras, Floriano criou uma espécie de correio paralelo, um “telefone sem fio”, por meio do qual mandava mensagens que, por sua natureza, não deveriam se tornar públicas, enquanto cultivava a fachada de ‘consolidador’ da República e da legalidade. É possível que Floriano tenha utilizado esse método com Moreira César, mas este, aparentemente, não atendeu à chamada.

     Floriano sabia quem tinha pela frente — Euclides não se enganou quando disse que ele discerniu corretamente a Moreira César, e vice-versa —, e, por isso, tentou removê-lo para fora do Brasil, com um convite para cuidar da segurança de uma embaixada no exterior. Daí nasceu um diálogo que, segundo o marechal Dantas Barreto, existiu, e que mostra muito da inteligência e perspicácia de ambos em ler a motivação do outro, sem que nenhum dos dois tenha se colocado abertamente, e que, no entanto, ficou bem claro, para os dois, o que um e o outro queriam (21).

        À medida que se aproximava o fim do mandato de Floriano, surgiu uma dúvida: ele entregaria o cargo para o sucessor? Em duas ocasiões, ele já atrasara a data das eleições e fez o que pode, do seu jeito, para não transferir a faixa presidencial; e, no final, não a transferiu; deixou para outro. Prudente de Morais, eleito em 1º de março de 1894, só assumirá em 15 de novembro.

        Edgar Carone, em seu A República Velha II A evolução política (1889–1930) (22), diz que nesse momento se formaram ao redor de Floriano — alimentados por seu comportamento ambíguo e dissimulado, um teatro de negativas verbais públicas, teatrais, contraditadas por atos ou silêncios reveladores — grupos de oficiais, obcecados com a ‘corrupção dos civis’, e civis convictos, os positivistas e oportunistas de sempre, insistindo que Floriano ignorasse o resultado das eleições e impusesse uma ditadura militar.   

        Floriano então começa a fazer sondagens no meio militar, buscando apoio para um golpe. Mas encontrou em alguns chefes, em especial Moreira César, que já adquirira certa popularidade, uma muralha intransponível.

        Diz Edgar Carone: “Vencida a revolta da Marinha, ter-se-ia tramado com as maiores cautelas o golpe de estado para entregar a ditadura a Floriano. As condições de saúde deste e a oposição encontrada por parte de alguns florianistas radicais, como o próprio Coronel Moreira César [meu destaque], fizeram abortar o plano (p. 147).”

        Carone é um bom historiador e um profissional sério, mas, seduzido pelo euclidianismo, nem percebe a terrível contradição em que cai: como pode o coronel Moreira César ser “florianista radical” e se opor a um plano de golpe em favor de Floriano, para beneficiar um civil que o marechal detestava particularmente? Moreira Cesar foi a favor de Floriano em 23 de setembro de 1891, como Prudente e os paulistas também o foram, para evitar os riscos de guerra civil que um confronto eleitoral podia trazer, motivado pelo autoritarismo dos principais candidatos, sem falar do estresse nas relações do Exército com a Marinha. Era um “beco sem saída”. 

        Muito importante é o testemunho pessoal do jornalista Tobias Monteiro, um dos mais conceituados e bem informados do país, testemunha ocular desses eventos.

“Eleito Prudente de Morais… começou a revelar-se entre militares da intimidade de Floriano a mais franca hostilidade à transmissão do poder [como das outras vezes, ele não aparece nas articulações, das quais será o principal beneficiário]… A República não podia dispensar a sua tutela; algo faltava ainda para “consolidá-la”Para chegar-se a tal fim, seria preciso derrubar os governos dos Estados em que ele se apoiara [e indicara], com quem não contava [agora] para a nova empresa, e recorrer às oposições. Chamavam-se a conciliábulos vários políticos graduados, alguns deles saídos da cadeia. [Para dar o seu novo golpe, Floriano iria depor alguns governadores que ele mesmo nomeara, em 23 de novembro, e que agora se opunham à sua permanência, fazendo acordos com ex-governadores deodoristas, que ele antes depusera, alguns, inclusive, ainda presos, mas que concordavam com a ditadura]… A parte sincera e destemida da gente que combatera o caudilhismo de Custódio de Melo estaria pronta a quebrar o seu ídolo, se tão depressa o visse deformado. Moreira César [meu destaque] e Pedro Alves [coronel]… pronunciaram-se desde logo contra a insensata pretensão (idem, p. 47).”

Prudente assume, enquanto Floriano se enfurna em casa, sem querer conversa, e aí começa a conspirar e a lançar apelos incendiários a seus simpatizantes, em especial jovens cadetes  fanatizados, curtindo à sombra, como era do seu temperamento, o seu ódio e sentimento de autopiedade, como uma vítima da ‘ingratidão humana’. Isso degenerou em um intenso sentimento de vingança, que ele legou, vívido, aos seus seguidores.

Eduardo Simões

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