O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 12
O brinquedo preferido do marechal
Na repressão à revolta federalista no
Sul, quebrou-se um padrão em Santa Catarina. Ele é o único estado que não
tem corpos de vítimas de massacres para apresentar.
No Paraná, houve o massacre do Barão
do Serro Azul e seus companheiros, no km 65 da estrada de ferro
Curitiba-Paranaguá, quando se deslocavam para esse porto, a pretexto de pegar
um navio que os conduziria ao julgamento no Rio, sem falar nos fuzilados no
cemitério de Curitiba. O comandante do 5º Distrito Militar, o general Francisco
Raimundo Ewerton Quadros, ficou exposto nesse episódio, pois, quando o irmão do
barão, florianista, foi indagar a Floriano o que acontecera, este lhe mostrou
um suposto telegrama, que passara ao general, ordenando-lhe que mandasse os
prisioneiros ao Rio — mas ninguém foi punido.
No Rio Grande do Sul, os massacres se
produziram à luz do dia, em catadupas de sangue e violências bizarras. O
governador, Júlio de Castilhos, chamou a atenção de Floriano, encantado com o
seu estilo implacável, e lhe deu toda ajuda para exterminar os seus rivais, a
quem acusava de ‘monarquistas’ e ‘restauradores’, para enganar a opinião
pública e justificar o seu extermínio.
Coisa notável! Nesses dois estados, em
que houve provas claras de massacres, nenhum dos supostos responsáveis, Quadros
no Paraná e Castilho no RS, foi punido, nem por Floriano nem pela posteridade.
Floriano indicará Quadros ao STF, mas o Senado, que ainda prezava por sua
credibilidade, recusou-o. Quadros foi, posteriormente, promovido a marechal,
enquanto Castilho continuou como senhor do RS e teve os seus discípulos
governando ou influindo na política gaúcha até o final do regime militar, em
1985.
O castilhismo representou uma clara
ruptura com o verniz liberal que vigia no país, sob um substrato marcadamente
autoritário, defendendo a intervenção do Estado na economia e na vida dos
indivíduos, em nome de um ideal difuso de “virtude”, que todo mundo devia
seguir, mas que ninguém sabia direito o que significava, nem quem determinava o
que era ser virtuoso ou não. Diz Ricardo Vélez:
“Enquanto para o pensamento liberal o
bem público resultava da preservação dos interesses dos indivíduos, que
abrangiam basicamente a propriedade privada e a liberdade de intercâmbio, bem
como as chamadas liberdades civis, para Castilhos o bem público ultrapassava os
limites dos interesses materiais dos indivíduos, para tornar-se impessoal e
espiritual. O bem público se dá na sociedade moralizada por um Estado forte,
que impõe o desinteresse individual em benefício do bem-estar da coletividade.
Nessa conjuntura, o interesse pessoal é... imoralidade (citado na Wikipedia em português, Castilhismo).”
No Paraná e no Rio Grande do Sul,
grandes massacres foram perpetrados, sem que se achasse neles qualquer digital
de Floriano. Mas, no caso de Santa Catarina, com a iniciativa do coronel em
mandar os prisioneiros para o Rio, as digitais de Floriano ficaram expostas,
embora os brasileiros não as quisessem, e ainda não queiram, ver.
A melhor solução, para Floriano, era
eliminar os seus adversários lá onde criavam problemas, deixando-o com as mãos
limpas, como no caso do sargento Silvino, fuzilado, por sua ordem, em
Pernambuco. Em Santa Catarina, não aconteceu assim, e a solução foi ocultar a
chegada deles ao Rio e fazê-los desaparecer o mais rápido possível, jogando as
famílias de um lado para o outro, até a coisa esfriar. Para isso, os
florianistas contavam com um exército de aliados, muito bem posicionado.
Silveira Peixoto, em seu livro A
tormenta que Prudente de Morais venceu (19), diz que os jacobinos e
outros florianistas radicais haviam se infiltrado no funcionalismo público,
aparelhando as instituições de estado: “as repartições públicas foram
minuciosamente vasculhadas. Não somente os suspeitos, mas também os menos
entusiastas foram todos substituídos por florianistas ardorosos. Sem qualquer
respeito às leis, à vitaliciedade, aos direitos adquiridos, à capacidade, à
eficiência.”
A mesma coisa aconteceu nas forças
armadas, com a lealdade irrestrita ao florianismo exaltado se tornando o único
critério para “promoções, demissões e reformas”, com um agravante: “Adiantamentos
de soldo [à guisa de empréstimo]. É imenso o número de oficiais de todas
as patentes contemplados com esses adiantamentos, alguns bem avultados.”
Utiliza-se do dinheiro público, em
meio a uma enorme crise financeira, para garantir a lealdade dos militares.
No ‘reinado’ de Floriano, criou-se um
poder paralelo, formado por simpatizantes, que, graças a uma intensa cooptação,
tentava transformar o exército numa milícia florianista. Serão importantes
membros desse poder paralelo que comandarão o combate final a Canudos e o
atentado contra o presidente.
Um homem, entre outros menos
conhecidos, recusou-se a participar dessa trama: Moreira César. Por causa
disso, ele não só não recebeu nenhuma promoção como teve o seu corpo abandonado
aos animais carniceiros — como os federalistas no Rio Grande —, além de ter a
sua memória difamada pelos pósteros, por crimes que não cometeu.
O jornalista e historiador Tobias do Rego Monteiro, do Jornal do
Comércio, contemporâneo desses fatos, revela em seu livro, O presidente
Campos Sales na Europa (20), uma faceta surpreendente do ‘Marechal
de Ferro’, que era o uso de emissários particulares para dar ‘ordens
especiais’, quando queria omitir sua participação.
Diz Monteiro: “Quando [Floriano] precisava
dar ordens para se cumprirem longe, ele não escrevia, mandava um emissário. Não
deixava documento da sua ação. A um oficial… o Sr. Alfredo Vidal, deu de
viva voz instruções reservadíssimas para serem transmitidas ao Major Faria. Ao
terminar, disse-lhe: “Repita”. O oficial repetiu. Então ele ajuntou… “Quando
acabar de dar esse recado, esqueça-o.”
No meio da Várzea, em Porto Alegre…
onde não se enxergava vivalma… o fiel emissário reproduziu tudo quanto ouvira.
Passados alguns minutos, o major perguntou-lhe se Floriano empregara realmente
certa palavra… Ele respondeu que não sabia. O interlocutor estranhou… O oficial
redarguiu: “O marechal recomendou-me esquecer esse recado, apenas o desse.” E
não houve meio de fazê-lo proferir uma palavra mais.”
Noutras palavras, Floriano criou uma
espécie de correio paralelo, um “telefone sem fio”, por meio do qual mandava
mensagens que, por sua natureza, não deveriam se tornar públicas, enquanto
cultivava a fachada de ‘consolidador’ da República e da legalidade. É possível
que Floriano tenha utilizado esse método com Moreira César, mas este,
aparentemente, não atendeu à chamada.
Floriano sabia quem tinha pela frente — Euclides não se enganou
quando disse que ele discerniu corretamente a Moreira César, e vice-versa —, e,
por isso, tentou removê-lo para fora do Brasil, com um convite para cuidar da
segurança de uma embaixada no exterior. Daí nasceu um diálogo que, segundo o
marechal Dantas Barreto, existiu, e que mostra muito da inteligência e
perspicácia de ambos em ler a motivação do outro, sem que nenhum dos dois tenha
se colocado abertamente, e que, no entanto, ficou bem claro, para os dois, o
que um e o outro queriam (21).
À medida que se aproximava o fim do mandato de Floriano, surgiu uma dúvida: ele
entregaria o cargo para o sucessor? Em duas ocasiões, ele já atrasara a data
das eleições e fez o que pode, do seu jeito, para não transferir a faixa
presidencial; e, no final, não a transferiu; deixou para outro. Prudente de
Morais, eleito em 1º de março de 1894, só assumirá em 15 de novembro.
Edgar Carone, em seu A República Velha II A evolução política (1889–1930) (22),
diz que nesse momento se formaram ao redor de Floriano — alimentados por
seu comportamento ambíguo e dissimulado, um teatro de negativas verbais
públicas, teatrais, contraditadas por atos ou silêncios reveladores — grupos de
oficiais, obcecados com a ‘corrupção dos civis’, e civis convictos, os
positivistas e oportunistas de sempre, insistindo que Floriano ignorasse o
resultado das eleições e impusesse uma ditadura militar.
Floriano então começa a fazer sondagens no meio militar, buscando apoio para um
golpe. Mas encontrou em alguns chefes, em especial Moreira César, que já
adquirira certa popularidade, uma muralha intransponível.
Diz Edgar Carone: “Vencida a revolta da Marinha, ter-se-ia tramado com as
maiores cautelas o golpe de estado para entregar a ditadura a Floriano. As
condições de saúde deste e a oposição encontrada por parte de alguns
florianistas radicais, como o próprio Coronel Moreira César [meu
destaque], fizeram abortar o plano (p. 147).”
Carone é um bom historiador e um
profissional sério, mas, seduzido pelo euclidianismo, nem percebe a terrível
contradição em que cai: como pode o coronel Moreira César ser “florianista
radical” e se opor a um plano de golpe em favor de Floriano, para
beneficiar um civil que o marechal detestava particularmente? Moreira Cesar foi
a favor de Floriano em 23 de setembro de 1891, como Prudente e os paulistas
também o foram, para evitar os riscos de guerra civil que um confronto
eleitoral podia trazer, motivado pelo autoritarismo dos principais candidatos,
sem falar do estresse nas relações do Exército com a Marinha. Era um “beco sem
saída”.
Muito importante é o testemunho pessoal
do jornalista Tobias Monteiro, um dos mais conceituados e bem informados do
país, testemunha ocular desses eventos.
“Eleito Prudente de Morais… começou a
revelar-se entre militares da intimidade de Floriano a mais franca hostilidade
à transmissão do poder [como
das outras vezes, ele não aparece nas articulações, das quais será o
principal beneficiário]… A República não podia dispensar a sua tutela; algo
faltava ainda para “consolidá-la”… Para chegar-se a tal fim, seria
preciso derrubar os governos dos Estados em que ele se apoiara [e indicara],
com quem não contava [agora] para a nova empresa, e recorrer às
oposições. Chamavam-se a conciliábulos vários políticos graduados, alguns deles
saídos da cadeia. [Para dar o seu novo golpe, Floriano iria depor alguns
governadores que ele mesmo nomeara, em 23 de novembro, e que agora se opunham à
sua permanência, fazendo acordos com ex-governadores deodoristas, que ele antes
depusera, alguns, inclusive, ainda presos, mas que concordavam com a ditadura]…
A parte sincera e destemida da gente que combatera o caudilhismo de Custódio
de Melo estaria pronta a quebrar o seu ídolo, se tão depressa o visse
deformado. Moreira César [meu destaque] e Pedro Alves [coronel]…
pronunciaram-se desde logo contra a insensata pretensão (idem, p.
47).”
Prudente assume, enquanto Floriano se
enfurna em casa, sem querer conversa, e aí começa a conspirar e a lançar apelos
incendiários a seus simpatizantes, em especial jovens cadetes
fanatizados, curtindo à sombra, como era do seu temperamento, o seu ódio e
sentimento de autopiedade, como uma vítima da ‘ingratidão humana’. Isso
degenerou em um intenso sentimento de vingança, que ele legou, vívido, aos
seus seguidores.
Eduardo Simões
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