quarta-feira, 13 de maio de 2026

 

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 13


O senhor governador ou um senhor governador?

        Nas páginas 296 e 297 de Os Sertões, Euclides da Cunha diz: “Em 1893, já coronel, porque galgara velozmente três postos em dois anos… o Marechal Floriano Peixoto destacou-o armado de poderes discricionários, para Santa Catarina, como uma barreira à conflagração que se reanimara”.

       O primeiro a observar é que conseguir três patentes no Exército em somente dois anos, sem fortuna ou ‘pistolão’, é indício de uma organização completamente desmoralizada ou de uma capacidade pessoal acima da média. Moreira César era um exemplo de dedicação profissional.

      O segunda é que Euclides da Cunha adultera os fatos. O único estado do Brasil que Floriano não controlou e cujo governador agia discricionariamente foi o Rio Grande do Sul de Júlio de Castilhos. Por que ele iria enviar um oficial, com uma ascensão profissional meteórica e popularidade crescente, com poderes discricionários em um estado estratégico, no meio de uma revolta contra a sua autoridade e vizinho ao Rio Grande do Sul, já com um governador já autônomo demais?

        Na nomeação assinada por Floriano Peixoto em 19 de abril de 94, ele faz uma longa introdução sobre a situação calamitosa de Santa Catarina, para, no parágrafo final, dizer:

[O vice-presidente da República] “Resolve nomear o coronel do Exército Antônio Moreira César para exercer as funções de governador provisório do Estado de Santa Catarina” (23).

Seguem local, data e assinatura e... Nada mais. É notável que Floriano, embora prolixo em descrever as dificuldades do estado, não destaque nenhuma qualidade ou recomendação pessoal ao seu enviado, para facilitar a sua atuação. 

     A afirmação de Euclides é negada também no jornal desterrense Republica, de 12 de julho de 1894, numa coluna chamada sintomaticamente ORDENS DO RIO: “O Ministério da Marinha, em 11 de junho último, declarou à capitania do porto deste estado que deve mandar recolher presos os remadores que serviram com os revoltosos e já se apresentaram…”

        Logo, ele era acompanhado de perto e prestava contas ao Rio de Janeiro em casos que envolviam a segurança e o combate aos revolucionários. 

        O general Epaminondas Ferraz encontrou nos arquivos de Moreira César vários documentos, em geral telegramas que ele recebeu ou enviou a Floriano, que mostram que o controle do Rio sobre sua administração era minucioso:  “Nº 175 — … — Do Palácio do Desterro — Marechal Floriano Peixoto — Presidente da República — Alfândega tem poucos empregados em vista demissões. Devo apresentar proposta? Coronel César” (24).

        O telegrama seguinte mostra o quanto a declaração de Cunha é leviana: “Nº 186… Lugar procurador seccional vago e sendo urgente nomeação proponho o bacharel… Saúdo-vos Coronel César” (p 24).

No alto do telegrama, ele escreveu a lápis: “Dr. H [Hercílio] Luz o que diz?” A resposta de Hercílio, também escrita a lápis, diz: “Não conheço o bacharel indicado. O candidato combinado… é o bacharel… cunhado do… O Dr…. tem pedido (ilegível) neste sentido (idem).”

      Ele solicita a Floriano e a Hercílio Luz, que naquele momento era somente o candidato da situação ao governo do Estado, autorização para nomear um funcionário, e isso lhe é negado, em função de compromissos políticos assumidos por Luz. Onde está o poder discricionário?

        Nas eleições em Santa Catarina, que ele convoca, organiza e dá posse aos vencedores, também consulta a Floriano: “Nº 105… Estado em condições proceder eleições. Peço vossa opinião. Preciso avisar interior…"

     Pelo teor dos telegramas, pode-se pensar que Moreira César não passava de um “pau-mandado” nas mãos de Floriano, mas isso também é errado, pois ele era movido por valores éticos, para os quais não fazia concessões. Por isso, embora tenha cedido às injunções políticas na questão do procurador acima, no caso seguinte ele encarou dois figurões.

        O ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, o general de brigada Bibiano Costalatt, colaborador próximo de Floriano, mandou-lhe um pedido (ordem?) para reintegrar um funcionário dos telégrafos. Moreira César respondeu ao secretário de Costalatt: “Nº 144… Major Dr. Porto Carrero… Causou má impressão reintegração Dr.[nome] lugar chefe distrito telegráfico. Com esse ato será de justiça voltarem todos os outros que saíram do telégrafo. A manterem o ato será conveniente que não venha para este estado [meu destaque] (p. 25).”

        Ele está se opondo a uma decisão política e imoral de um general próximo de Floriano. O telegrama deve ter causado um reboliço no Rio, pois o telegrama seguinte será dirigido ao próprio Floriano, que, aparentemente, quis saber a razão da atitude de Moreira César.

Ele respondeu: “Nº 259… Dr [nome] gozou passagens bordo esquadra revolucionáriaPediu e obteve licença governo revolucionário, foi promovido a major, cumprimentou o governo provisório em sua instalação, pediu dispensa major dizendo desejar servir como simples cidadão [para o caso de uma reviravolta na guerra], felicitou por telegrama ministro governo revolucionário. Em melhores condições que ele estão todos empregados telégrafos que foram demitidos visto que imitaram o chefe... Fui seu companheiro Escola Militar mas não se pejou [no original “queixou”] a pedir-me documento sua justificação. Saudações coronel César” (Ferraz, p 26).

Se Moreira César cedesse, ficaria desmoralizado. Ele não o permitiu, mas, ao não ceder, ganhou inimigos poderosos no exército e na política.

Como esse telegrama era datado de 28 de setembro de 1897, e ele passou a governadoria do estado a Hercílio Luz no dia anterior, em meio a aplausos e agradecimentos do Congresso de Santa Catarina (25). Floriano, Costalatt e Hercílio fizeram como entenderam.

E o seu comportamento na questão dos costumes? Deixou os soldados cometerem toda sorte de crimes e violências típicas de uma ocupação militar, que Duarte Schutell descreveu com tintas tão carregadas? 

Baseado em documentos oficiais, o general Epaminondas Ferraz enumera as seguintes ações do governador:

1º — Dois alferes que fizeram um tumulto nas ruas, após uma bebedeira: 30 dias de prisão com sentinela à vista.

2º — Um capitão e um alferes vistos dançando e confraternizando exageradamente num baile público, com mulheres “afamadas”: 25 dias recolhidos em Tubarão, prestando serviço ao Estado-Maior.

3º — Um alferes que causou graves alterações na ordem pública e tranquilidade da cidade: 25 dias de prisão e depois dispensa. Perdeu o posto (demérito para sua carreira e perda financeira).

4º — Mesma pena dada a outro alferes que, embriagado, saiu quebrando vidraças pela cidade.

5º — Trinta dias de cadeia para outro alferes que resolveu bancar o valentão na casa de uma meretriz.

        6º — A outro alferes que, se sentindo “dono do pedaço”, resolveu se acercar de uma respeitável senhora casada: 25 dias de prisão, com sentinela à vista. “Cabra safado, respeito é bom e eu gosto”.

        7º — Pune severamente praças que não batem continência para os policiais do Corpo de Segurança, a polícia ostensiva catarinense, feita por gente da terra, para que aqueles se lembrem de que estavam ali a serviço do povo brasileiro local (26).

Pergunto ao leitor: cabe na cabeça de alguém que um comandante, que vai a ponto de desgastar a sua liderança com os seus soldados, para garantir o respeito e o sossego de pessoas comuns, de meretrícios, saia fuzilando aleatoriamente pessoas prestigiosas, a troco de nada, como dizem Euclides e Schutell?

Há relatos de soldados que não pertenciam ao seu batalhão, que, após servir sob suas ordens por algum tempo, solicitavam transferência para o 7º, como aconteceu com o alferes que comandou o rebocador Audaz e o alferes Poli Coelho, gaúcho, que perecerá em Canudos. O nome disso é admiração, dedicação, lealdade. Um psicopata não provoca esses arrebatamentos.

Ao final de sua administração, Moreira César ainda permanece por dois anos em Santa Catarina, recebendo um tratamento de homem benemérito, amado por seus soldados e respeitado até pelos federalistas, que divulgam seus deslocamentos: “Chegou ontem de Paranaguá o sr. coronel Antônio Moreira César, que foi recebido a bordo do ‘Aymoré’ pela oficialidade da guarnição, tocando na ponte de desembarque a banda de música do 7º Batalhão de Infantaria.” (O Estado, 12 de maio de 1896).

Vejam essa nota federalista, na ocasião em que uma esquadrilha naval argentina visitou Desterro:  “Ontem pela manhã, o senhor Comandante da divisão argentina, acompanhado de seu ajudante de ordens, visitou o quartel do 7º batalhão de infantaria de linha, onde foi gentilmente recebido pelo seu ilustre Comandante [Moreira César] e oficiais (idem; 16 de setembro de 1896).”

 

Está documentado que Moreira César deixou o estado de Santa Catarina em meio a grandes manifestações de carinho e reconhecimento pelo seu trabalho. O seu comportamento íntegro, correto, também foi observado pelos “coronéis” do sertão da Bahia, conforme relata Walnice Galvão em seu livro No calor da hora e matérias em jornais.

Que ele era um homem culto e esclarecido, nos informa essa iniciativa tomada assim que as contas do Estado começaram a se normalizar, graças à sua administração. Jornal República de 7 de julho: “O sr. Coronel autorizou o cidadão inspetor do Tesouro a mandar proceder aos concertos de que necessita o teatro Álvaro de Carvalho, despendendo-se 2:000$000 [dois contos de réis, equivalente mais ou menos a uns 300 mil reais, hoje], conforme orçamento feito.”

Um momento marcante na imprensa local foi quando chegou a Florianópolis a notícia da morte de Moreira César. O Estado tratou-a burocraticamente, procurando ser objetivo na apresentação dos fatos. Já o República aproveitou para fazer a apoteose do coronel, em matérias de 1ª página, normalmente chamadas de EXPEDIÇÃO A CANUDOS. Na edição de 10 de março de 1897, num artigo muito borrado, quase ilegível, tiramos essa vibrante declaração:

“[Será] dispersa a multidão que trucidou César, Tamarindo e outros a cuja memória a nossa folha presta agora sentida homenagem.”

Segue-se então uma lista de condolências enviadas ao governador Hercílio Luz, vindas de várias partes do estado.

“Itajaí, 8 – Inexprimível pesar… causa a notícia de terem morrido os coronéis Moreira César, Tamarindo… outros oficiais e praças. Sinceros pêsames. São imensas perdas que sofre o Exército Brasileiro em holocausto à pátria e à república… a memória dos que assim morreram viverá perenemente, como poderoso estímulo e edificante ensinamento(?)…

Brusque, 8 – Dolorosa notícia morte bravo coronel César enluta alma republicana. Pêsames à pátria pelo passamento grande homem…

Araranguá, 10 — É um verdadeiro desastre morte coronel Moreira César e derrota forças Bahia

Tijucas, 10 — Associo-me àqueles que sentem do fundo d’alma morte coronel César certo de que a República perdeu um dos seus melhores defensores”.

No dia 13 de março, há um editorial particularmente tocante, cujo título é CORONEL MOREIRA CÉSAR.

“Há contradições sublimes no destino dos grandes homens: morrer para eles é — começar a viver.

Enquanto a pátria se cobre de luto, eles se cobrem de glória… assistindo ao seu espírito a apoteose da vida que deixam, aureolada pela gratidão dos povos.

Um desses homens foi o bravo coronel Moreira César, vulto heroico que acaba de sucumbir, regando com o seu sangue o solo da pátria em defesa da causa pública...

A vida do ilustre oficial… foi uma verdadeira epopeia, e, por isso, o seu nome tornou-se respeitado e cercado de largo prestígio…

Neste estado, como governador militar, durante cinco meses, deixou traços luminosos... tais foram os serviços prestados com acrisolado patriotismo e sincera abnegação, de modo a conquistar a estima e a admiração do povo catarinense.

Foi ele que conseguiu, ... hastear... o pavilhão da liberdade... restabelecendo a ordem e o sossego sociais...

Foi nessa data memorável que... caiu no apogeu da glória o vulto grandioso de Moreira César.” 

        Em 14 de março, o República traz trechos do Gazeta de Notícias, do Rio, sobre o fim da 3ª Expedição, do qual selecionamos a seguinte parte:

A tragédia de agora, e que envolve, além das forças regulares... uma personalidade que era o orgulho de sua classe, o coronel Moreira César...

        Em 4 de abril, outro emocionante testemunho editorial da excelente fama do coronel em terras catarinenses aparece sob o título MOREIRA CÉSAR — esse trecho está muito borrado, exigindo grande esforço de leitura.

Enquanto o seu espírito descansa nas regiões do infinito... Saudamos a sua memória e prestamos-lhe as homenagens de que se tornou digno...

À mão da morte, fechando-lhe os olhos, porém, o Panteão dos homens ilustres abriu-lhe as portas para guardar a sua memória como uma relíquia...

Morreu como viveu — honesto, probidoso, disciplinador, valente até a bravura e justiceiro, traços que constituirão a página de luz na história brasileira, no julgamento de seus atos traduzidos pelo alto valor e pela imaculada reputação que lhe deram um lugar entre as glórias nacionais.

        Em 8 de abril, deu para salvar esses trechos de um artigo sobre o coronel, todos publicados na primeira página, sob o título MOREIRA CÉSAR.

Fechou-se o ciclo de vida de um ilustre brasileiro…

Desapareceu na escuridão do túmulo, porém, não morreu, porque — morrer pela pátria é viver, e ele viverá sempre no acontecimento que perpetuou e na lembrança de todos os que amam a liberdade, como base da democracia, como símbolo da igualdade e fraternidade.

As suas últimas palavras… foram: “Adeus república”."

        Etc.

        Todo mundo sabia que o coronel Antônio Moreira César estava massacrando o povo de Santa Catarina, menos o povo de Santa Catarina, que sempre o homenageava, com uma gratidão incomum, como na alvorada em que a banda de música do Corpo de Segurança tocou para ele, na comemoração de um 15 de novembro, em 1895 ou 1896.

Hoje, jovens vestem-se com roupas tingidas como de sangue e vão pelas ruas de Florianópolis, simulando um massacre que não houve. São livres para fantasiar. Prefiro os fatos apresentados pela imprensa catarinense da época.

Como diz o poeta paraibano Augusto dos Anjos: “O beijo é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja”.

        Assim são os seres humanos.

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