terça-feira, 25 de agosto de 2026

 


A VELHICE É COMUNISTA?   

Eduardo Simões

Conversando com um amigo, infelizmente aficionado por um maluco sem projeto, ouvi-o dizer as piores coisas da Europa. Inclusive, como é comum entre os apoiadores desse maluco, defendeu o fim da União Europeia, sob pretexto de que ela estaria se tornando ‘comunista’, enquanto elogiava Trump — nada disso faz sentido, uma vez que quem levanta publicamente a bandeira da União Soviética é Putin, da Rússia, tanto na Ucrânia como nos desfiles em Moscou, e conta tanto com a simpatia do maluco como com a de Trump, 'extrema direita', mas é ferozmente combatido pela União Europeia, comunista.

Mas o detalhe que escapa a esse homem, e aos fiéis seguidores do maluco, é que, em virtude da paz, do avanço tecnológico e de políticas humanitárias, a população europeia, e a de todos os países do mundo onde o capitalismo com paz, estabilidade jurídico-política e progresso econômico vingou, experimentou um período de prosperidade e distribuição natural de riquezas, com o consequente avanço na expectativa de vida.

Mas, se o avanço da medicina garantiu o prolongamento da vida, ela não conseguiu ainda prolongar a juventude ou o auge físico dos seres humanos que continuam vivos, embora envelhecendo do mesmo modo como acontecia com os povos caçadores-coletores, um milhão de anos atrás.

Que fazer então para sobreviver, sem o vigor da juventude para produzir mais e até para cuidar de si mesmo? Para completar, as exigências da vida moderna, as expectativas culturais do pós-guerra, o feminismo, etc., vieram no sentido de reduzir o tamanho das famílias, diminuindo ou extinguindo para muitos o tradicional esteio de cuidados com os idosos: a sua grande parentela. O ser humano moderno é um solitário e, se ainda não é, quando se tornar idoso o será.

Então, quem cuidará dele quando se tornar, naturalmente, ou em virtude de alguma doença, incapaz de se cuidar sozinho? Quantos terão recursos suficientes para contratar cuidadores profissionais? Considerando que as pessoas comuns, fora do Brasil, não querem ver seus velhos morrendo à míngua, com corpos idosos estirados nas calçadas, e outros só descobertos quando o cheiro vindo do apartamento se torna insuportável, a melhor saída ainda é a intervenção estatal, com a sua abundância de recursos e mão de obra especializada, em setores que podem fazer a diferença no prolongamento digno da vida dessas pessoas. Mas como fazer intervenção em uma área tão significativa da sociedade sem mexer em outras, como a educação, a saúde e os serviços de suporte urbano, deixando correr tudo pela iniciativa privada, como querem os mais fanáticos e defensores do maluco?

Vejamos alguns dados: nos EUA, o paraíso dos ultraliberais, de 7 a 13 mil indigentes são recolhidos mortos nas ruas todo ano (só em Nova York são 500 — no condado de San Diego, Califórnia, um caso grave de desrespeito: se a família não aparecer, o cadáver é incinerado e as cinzas jogadas no mar; a prefeitura transforma a pessoa em comida de peixe); no Reino Unido foram recolhidos 169 cadáveres nas ruas; na França, antes da crise da imigração, eram 340 os sem-teto mortos por ano, hoje beira os 750; na Itália esse número chega a pouco mais de 400; etc. No Brasil, calcula-se que sejam uns 6 mil. Portanto, aqui, como nos EUA, há um coliseu em cada esquina, onde vários tipos de pessoas, inclusive velhos desassistidos, lutam contra a natureza e sistemas sociais falidos e sempre perdem.

O caso mais extremo são os kodokushi, no Japão, nome que se dá aos velhos que morrem solitários em seus apartamentos, só notados quando o cheiro dos corpos transborda para ruas e corredores dos prédios. No último ano foram 76.900 pessoas! Das quais 70% eram idosos. Quantos não terão se suicidado por desespero ou pura solidão? O mais grave é que, apesar de a população japonesa encolher todo ano a olhos vistos, esses casos só vêm aumentando.

Assim, podemos, sem qualquer contorção lógica, deduzir que essa predileção por partidos que tragam uma mensagem que se aproxime mais daquela que é tradicional à esquerda é justificada pelas necessidades do novo perfil etário da Europa, que continuará nessa mesma batida, independentemente de existir União Europeia ou não.

Esses votos, portanto, têm motivos completamente opostos àqueles que um tradicional defensor do maluco normalmente imagina, e só de tabela podem estar turbinando partidos pretensamente esquerdistas ou esquerdistas de fato, que aproveitam para ‘surfar na onda’. Isso tudo por falta de alternativa 'à direita'.

Fora isso, tem a opção escolhida por alguns, nem todos, povos caçadores-coletores, como os achés ou guaiaquis, no Paraguai, que, quando um indivíduo idoso não conseguia acompanhar o deslocamento do grupo, este seguia em frente e o abandonava. Os inuits e os hopis na América do Norte abandonavam seus velhos até a morte. Entre os kaulong, na Nova Guiné, a viúva do morto era assassinada por seus parentes. Da mesma forma que os civilizados indianos faziam, antes da chegada dos ingleses. Estamos longe disso aqui no Brasil? (https://super.abril.com.br/historia/a-caca-ao-conhecimento-perdido/)

Talvez esse suposto esquerdismo da população europeia não passe de falta de alternativa, diante de um liberalismo que se cristalizou em velhas fórmulas resistentes à realidade, o paleoliberalismo, e também porque há muito tempo eles não veem graça nenhuma em lutas de gladiadores.

 


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