O deserto das almas
É pouco provável que os
jornais noticiassem a presença de gente infiltrada na coluna, com disposição e
meios para matar Moreira César, sem que ele, na Bahia, não o soubesse. Ao
contrário, esses boatos também alarmaram outros oficiais, seus amigos, que,
certamente, mantinham Moreira César atualizado.
Ele já percebera
a obediência forçada de alguns com quem tinha de trabalhar, e que seriam, mais
tarde, os primeiros a linchar a sua memória. Ele não era tolo. Sua carreira
fulgurante deixava isso claro, mas ele também sabia que era somente uma peça no
perigoso xadrez que se jogava à sua volta, cuja decisão final passava ao largo
de suas considerações. Eram as regras do jogo e ele devia se submeter. Mas até
que ponto se submeteria para salvar a sua própria vida?
Ele também sabia que o
maior perigo que lhe espreitava não vinha de Canudos.
Mas ele não ficou
passivo e aproveitou o tempo que tinha para exercer pressão contrária: “o risco
que corre o pau, corre o machado”, sempre buscando atrair oficiais resistentes,
ou somente para seguir a sabedoria que diz: “Mantenha seus amigos por perto, e
seus inimigos mais perto ainda”, mas em si mesmo já estava definitivamente
acertado: aconteça o que acontecer, ele faria a coisa certa, e não mudaria as
suas decisões livremente tomadas e pesadas, por temor do que pudesse lhe
acontecer.
Em certa ocasião, às
vésperas do ataque a Canudos, quando discutia com seu estado-maior quais seriam
as melhores opções, ele vira-se para Rafael Augusto e pergunta-lhe de
supetão.
— O que é que você acha
que devemos fazer, major?
Ele responde:
— Eu alteraria a ordem
de marcha para garantir um avanço mais cauteloso; montaria um novo acampamento
em um lugar seguro. Creio que Angico poderia ser esse lugar. E me fortificaria
aí, para ver se as condições são propícias. Dividiria a coluna em duas, ficando
uma a descansar pelas próximas 24 horas, enquanto a outra testaria as defesas
de Canudos. Se a coluna enviada regressasse com boas novas, efetuaria um longo
e pesado bombardeio sobre Canudos e investiria com a coluna descansada, ficando
a outra na reserva para alguma emergência. Mas, se o reconhecimento mostrasse
que as chances de vitória eram duvidosas, me retiraria para Monte Santo e
solicitaria reforço.
Essa observação, tirada
do relatório de Rafael Augusto, constante em uma nota de O rei dos jagunços,
de Benício, merece alguns reparos:
a) Dividir a coluna em
duas de 600 homens e só atacar com uma era repetir Febrônio de Brito, que os
canudenses já haviam encarado.
b) Isso enfraqueceria
pela metade o poder de choque devastador do conjunto. Se você pode garantir uma
vantagem de dois para um, por que iria para o um a um?
c) Todos esses
movimentos cautelosos, obviamente, só teriam um único resultado: dar tempo aos
canudenses para preparar suas defesas, conhecer os pontos fracos da tropa,
criar novas dificuldades, etc. Ou Rafael Augusto era muito incompetente, ou
estava ligado a grupos interessados em fazer Canudos mais perigosa do que era…
Ou os dois!
d) Isso faria a
campanha se arrastar, gastando mais tempo, recursos e vidas, sem nenhuma
vantagem, justo o que Moreira César não queria, em função de acontecimentos
políticos previstos para o Rio de Janeiro (11).
Moreira César olhou
para ele, desapontado; deu um sorriso murcho e passou para outro assunto, tendo
a certeza de que não podia contar com ele. Augusto, no seu relato, jurou que o
coronel fez um gesto explícito de aprovação, mas que, depois, fez justo o contrário
do que ele recomendara — o que é estranho, pois no trecho do ‘ataque de
epilepsia’ ele deu a entender que tinha o coronel em suas mãos! Ou a percepção
de Rafael Augusto o enganou, ou é mais uma tentativa fantasiosa de mostrar o
coronel como desequilibrado.
É curiosa a semelhança
entre a proposta de Rafael Augusto e a recomendação feita a Moreira César pela
trinca florianista Vitorino, Argolo e Costallat, conforme mostrado na edição de
10 de março de 1897 do jornal Gazeta de Notícias, página 2, no artigo
chamado EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR, quando a expedição já havia malogrado.
Neste artigo, parte-se
do pressuposto de que em Canudos havia um grande exército bem treinado e bem
armado.
“Várias conferências
houveram entre o ilustre morto e o governo, combinando-se não atacar Canudos,
fazer guerrilhas, tomar todos os pontos de comunicação… entre os
conselheiristas e seus auxiliares, estreitando o cerco até poder a força, com
consciência, dar batalha com vantagem.
Para isso, o governo
autorizou o coronel Moreira César a requisitar, quando entendesse, a força que
julgasse necessária dos estados do Piauí, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Alagoas e
Sergipe, por isso mesmo que o mesmo coronel Moreira César lembrara ser conveniente
não desfalcar os corpos de exército aqui estacionados, pois estava convencido
de tramarem os monarquistas contra as instituições republicanas
[nas cidades principais].
Assim prevenido, partiu
para a Bahia… mas o que ali se deu não se sabe… ali chegado, todas as
suas apreensões desvaneceram-se, ele já não acreditava no grande número de
fanáticos [e que de fato não havia], e o que é mais, o seu
maior receio era não encontrar em Canudos com quem bater-se.
O boato da retirada de
Conselheiro foi transmitido em telegrama para os jornais daqui… ele
[M. César] … telegrafara ao governo… dizendo: 'o que mais me aflige é a
ideia de não encontrar mais em Canudos os inimigos da República'”
1º — Pelo visto, o
conteúdo das conversas intermináveis com Argolo e Costallat, com o navio
prestes a partir, era que ele ficasse circundando o arraial, como um pateta.
2º — É curioso como
essa proposta repete o mesmo padrão observado no incidente a bordo do Itaipú. O
objetivo é desmoralizá-lo e/ou mantê-lo longe.
3º — A resposta de
Rafael Augusto mostra claramente que ele estava afinado com o alto-comando
florianista do Rio de Janeiro.
4º — A proposta de ele
solicitar tropas aos estados do Nordeste é ridícula, pois o tempo que ele
gastaria fazendo a requisição, esperando as tropas se armarem, treinarem e
serem remetidas faria dele objeto de piadas no país.
5º — Isso tudo mostra
que o objetivo da 3ª Expedição era tirá-lo do Rio de Janeiro e mantê-lo fora o
máximo possível.
6º — Quanto ao fato de
ele acreditar que o principal foco do ataque dos monarquistas seria as grandes
cidades, sendo Canudos somente uma distração, ou foi uma lenda posta em sua
boca após sua morte, ou foi uma forma de ele enganar os florianistas, fingindo
estar 'caindo' nas suas enganações, enquanto ganhava tempo para se informar da
verdade por outros canais.
Enquanto isso, em
Canudos, os boatos também fervilhavam. Na Gazeta de 28 de fevereiro,
saem algumas informações sobre o que lá ocorreu depois da expedição Febrônio de
Brito: a) desertores treinam os jagunços; b) eles pegaram algumas Comblains
jogadas no mato e cerca de oito caixas de munição da expedição Febrônio, mas também
alguns animais dispararam e foram para dentro de Canudos; c) Conselheiro está
sendo informado dos preparativos da próxima expedição, e que “corria em
Canudos que a força legal estava sob o comando de Tamarindo; depois, soube
Conselheiro não ser o comandante Tamarindo, mas um oficial conhecido como
Corta-Pescoço.”
É óbvio que só poderia
ser esse nome e não ‘corta-cabeças’, como muita gente, sem pensar, diz:
1º — Foi esse o método
de execução utilizado na revolta Federalista, e não a decapitação.
2º — O termo
‘corta-cabeças’ choca mais, atrai mais curiosidade e vende mais, mas está fora
da nossa realidade cultural e do que aconteceu em Canudos. Os dois jornais da
época que li — um do Rio, outro de Florianópolis — dizem ‘corta-pescoço’.
3º — Isso também mostra
que os conselheiristas não sabiam quem era Moreira César.
4º — O termo
‘Treme-terra’, tão caro a Oleone Fontes, nunca é citado em fonte original, nem
faz parte da tradição nordestina. Sabemos que na Grande Guerra Platina os
regimentos gaúchos punham-se apelidos para realçar sua combatividade, logo
aplicá-lo a Moreira César é de uma imprecisão atroz, pois os gaúchos, inclusive
o 12º B.I., o “Treme-terra”, só fizeram sua aparição em Canudos na 4ª
Expedição.
Prudente de Morais
estava próximo à janela, numa cadeira de balanço, absorto em contemplar uma
jabuticaba fora de época. Era mirrada, mas algo chamou a sua atenção sobre ela.
Após observá-lo um pouco, Adelaide chegou de mansinho, por trás da cadeira e, quase
sussurrando, diz:
— Devo começar a me
preocupar?
— O quê?
— Meu marido está
falando com uma jabuticaba; não prefere conversar comigo?
Ele sorriu levemente.
Fez um gesto para ela sentar-se na cama enquanto ele se virava para ela.
— A forma da jabuticaba
é esférica, e a esfera é considerada por alguns filósofos como a forma
geométrica perfeita; o seu começo e o seu fim são iguais e absolutamente
indiscerníveis. Ela é o símbolo da harmonia, da equidistância que todo
governante deve ter na aplicação da justiça e no equilíbrio de suas ações.
— Isso é belo, mas não
sei se é prático. O que o levou a essa reflexão.
— Eu sou o presidente
do Brasil, mas parece que não tenho me comportado à altura, em especial com os
que estão mais próximos de mim e a quem devo tanto, além da minha família. O
último telegrama que Bernardino me enviou fez-me refletir se tenho sido um bom
presidente e um bom amigo, ou se, para exercer essa posição de poder e
prestígio, tenho utilizado meus amigos como degraus. Ele não suporta mais a
convivência com aquela gente e tem toda razão.
Tomando fôlego.
— Até onde posso pedir
que ele se sacrifique por mim, além do que já se sacrificou, a fim de que eu
não só recupere a minha saúde, mas também continue presidente, como se ele
também não estivesse sacrificando a sua saúde, a sua família e os seus ouvidos,
só para me manter nesse cargo, do qual ele extrai tão pouco prestígio, enquanto
eu o usufruo plenamente. Não é justo. Deveria ser o oposto, já que tenho mais
regalias; logo, a maior disposição para o sacrifício deveria ser minha, e não
ficar aqui me recuperando à custa da saúde de meus amigos.
Ela percebeu logo
o rumo que a conversa estava tomando. Ficou triste e preocupada, mas não sabia
como contradizê-lo.
— Já encrenquei um
amigo, a quem trouxe para o Rio para proteger a República e, de tabela, o meu
mandato, e o abandonei. Agora ele está distante, enfrentando algo que ninguém
consegue dizer exatamente o que é, em meio a tanto boato. Só Deus sabe os perigos
que enfrenta, e, embora não exista ninguém mais preparado do que ele para esse
tipo de situação, sinto que ao trazê-lo para o Rio, para proteger a integridade
do meu governo, eu acabei expondo-o a isso…
Ela fez um gesto para
que ele se calasse.
— Nunca diga isso. Você
o trouxe para proteger a República, que você acredita ser o melhor sistema para
esse país. Essa sempre foi a sua meta, e uma das coisas que o fazem admirável
para mim e para os seus filhos. Quis o destino que o seu bem-estar naquele
momento coincidisse com o bem-estar da República, mas foi só coincidência!
— Que seja, mas agora
basta de fazer os outros se sacrificarem por mim. Está na hora de eu assumir
aquilo pelo qual lutei, e que não posso deixar ser tirado de mim, assim fácil.
Vamos para o Rio!
— Adianta eu dizer não?
Ele limitou-se a sorrir
e disse:
— Bem que a minha mãe
me disse que eu era um homem de sorte por casar com você. Disse ele, tentando
animá-la.
— E a minha, para eu
não me meter com advogados. Olha o que arrumei. Mas você tem certeza?
— Sim, pois até recebi
ontem uma cartinha do Glicério.
Ela, que ia abrir o
guarda-roupas, estacou, arregalou os olhos e perguntou.
— O que foi que ele
disse?
— Nada demais —
respondeu ele, displicente — disse que está aborrecido com Vitorino e que está
ansioso por minha volta. Até perguntou quando será.
Ela como que recebeu
uma poderosa descarga elétrica. Arregalou os olhos e disse quase gritando:
— NÃO RESPONDA, QUE
ISSO É UMA ARMADILHA! — disse quase histérica. Vamos para o Rio imediatamente,
apresse-se, homem, que vou mandar o Francisco comprar nossas passagens no
primeiro trem.
— Mas…
— Vamos, não fique aí
parado, homem, como um dois de paus… Ah, desculpe-me. Estou me deixando
contaminar por todo esse clima de conspiração. Mas vamos, não percamos tempo.
— Segundo Bernardino, é
importante, caso queiramos voltar ao Rio, não fazer alvoroço, não sermos
vistos, diz ele, pelo fato de existirem unidades do Exército comandadas por
oficiais que podem se prestar a uma ação mais radical, como deter-me no
Arsenal.
— E agora?
— Soube por Bernardino
que os que estarão de serviço hoje no Arsenal são legalistas. Hoje é o melhor
dia. Mas eu tenho outro trunfo. Depois que tomarmos o barco em Magé,
pedirei ao Francisco para esperar um tempo e mandar um telegrama ao Arsenal, anunciando
a minha chegada. Não lhes dará tempo de preparar alguma surpresa.
E assim aconteceu. O
trem de Teresópolis parou em Magé, ele pegou um navio no píer da Piedade e de
lá partiu com destino ao Rio de Janeiro. Após esperar um tempo, Francisco
telegrafou para o Arsenal de Guerra, anunciando a chegada do presidente.
Foi uma surpresa no
Arsenal de Guerra. Os soldados corriam para vestir o uniforme de gala e formar
fileiras minimamente apresentáveis para o ilustre personagem e sua família.
Dispensando os rituais, Prudente e Adelaide dirigiram-se, apressados, ao fiacre
que um dos soldados fizera parar. Prudente abre a porta para Adelaide, enquanto
diz:
— Rápido para o Palácio
do Catete!
O cocheiro hesitou um
pouco.
— Ah, o Palácio do
Doutor Vitorino! Diz em voz alta.
— Mas é muita audácia!
Diz Adelaide lá de dentro, elevando a voz.
Prudente entra fazendo
sinal para ela com a mão para que baixasse o tom de voz.
— Shhh, já é Quaresma!
Na entrada do Catete,
havia uma sentinela tão largada como o resto do prédio nessa época do ano,
Quaresma, em que ninguém aparecia. Entediada pela falta de movimento, o cabo
telegrafista pegou um agasalho e, após enrolá-lo, à guisa de travesseiro,
estendeu-o sobre o braço de um pequeno sofá no corredor, e pôs-se a roncar como
um bugio enamorado, curtindo a ressaca do dia anterior. Prudente o achou lá,
todo babado, com as pernas abertas em compasso.
Prudente deu-lhe um
sacolejo no seu braço: “Sentinela!”.
Como esta resistisse,
dizendo coisas desconexas, aumentou o volume da voz e a força do sacolejo.
—SENTINELA!
Ele acordou e, se
esforçando para abrir os olhos, viu a imagem borrada de um homem alto de barbas
grisalhas. Veio-lhe de imediato um pensamento: “Conheço esse tipo de algum
lugar!” Deu um pulo de onde estava e já batendo continência.
— Cabo Lira, sentinela,
em que posso ajudar?
Prudente estava com
pouca paciência.
— LEVE-ME AO MEU
GABINETE, AGORA, ESTEJA ONDE ESTIVER!!!
— Mas se nem o senhor
sabe onde é, como é que eu vou saber?
— Meu Deus! O DO
PRESIDENTE! Rápido!
— Ah, sim… Mas, espere,
ele não está aqui hoje… O senhor vai ter que passar outro dia?
O tom de voz mais
elevado de Prudente chamou a atenção dos poucos funcionários presentes e deu
início a um certo corre-corre no palácio. Alguém, que passava por perto, tocou
no ombro do cabo, dizendo ao seu ouvido:
— Leve-o, logo!
— Esse também é
presidente?
— Ele ééé o presidente,
leva. Diz a pessoa, quase empurrando-o.
Prudente entra na sala,
senta-se no birô, e escreve um breve bilhete, assina-o, sela-o com o sinete
presidencial, e diz à sentinela:
— Entregue-me isso ao
vice-presidente, quanto antes.
“Lá se foi o meu
sossego!” Pensou o cabo.
Manuel Vitorino acabara
de almoçar na residência presidencial do Palácio das Laranjeiras; acompanhava-o
o seu secretário particular. Estava contente e relaxado, degustando um de seus
indefectíveis charutos cubanos. Ofereceu-os ao secretário, que os recusou, e
pôs-se a soltar generosas baforadas, pensando na sua penosa infância e em seu
pobre pai, um humilde marceneiro português. Agora ele era presidente da
república, muito mais do que o velho português imaginara. Pensou nisso e
emocionou-se, mas logo afastou esses pensamentos depressivos, e como o rico da
Bíblia dizia para si mesmo: “Tudo te vai bem.” Estava cheio de autoconfiança.
“Nem precisei fazer muito esforço! A natureza o fez por mim!”
Nesse instante, um
mordomo entra com o bilhete de Prudente, em uma bela bandeja de prata. Ele o
toma admirado.
— Mas quem está
brincando com o meu sinete presidencial? Ah, se eu pegar esse infeliz…
Quando abriu o bilhete
e leu o escrito, e, principalmente, quem o assinara, seus olhos se arregalaram,
a boca se abriu, e ele nem percebeu que o charuto caiu entre suas pernas.
— RÁPIDO, ME TRAGA O
TELEFONE!
O mordomo saiu
apressado.
— Senhor, o charuto no
bilú. Diz o secretário, apontando preocupado.
Ele se dá conta e
levanta num pulo.
— Meus documentos!
O secretário pega uma
jarra de cristal na mesa, cheia de água.
— NÃO! Grita, Vitorino.
Chuáááá!
Nesse momento, Glicério
entra apressado na sala, já dizendo: “Vocês já souberam da última?” … Todos param e se entreolham. Glicério rompe o
silêncio:
— Eu ia perguntar se
você tinha se mijado com a notícia, mas, pelo visto, choveu aqui dentro.
Eduardo Simões
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