sábado, 17 de outubro de 2026

 


    A REPÚBLICA OPACA - TEXTO REVISADO
Acima, Rodrigues Alves no landau presidencial em 1908.

Eduardo Simões

A partir de 1898, o grupo paulista liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e Rodrigues Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia para resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto nacional e de discussões sobre a natureza da sociedade brasileira no início da República.

Esse início foi sacudido pelo personalismo autoritário dos militares, que se apresentavam, e de certa forma ainda se apresentam, como um grupo à parte, isolado da sociedade, mas o único com competência e disponibilidade para salvá-la de si mesma, conforme as regras estereotipadas dos ritos da caserna. Quando o general fala, todos calam a boca. A república inaugura no Brasil o personalismo sem freio nem outro contrapeso que não o humor do chefe do Executivo, ameaçando levar de roldão as instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.

A panaceia inventada por esse grupo, focado em ganhos financeiros e econômicos específicos de curto prazo, tinha o seu cerne na perspectiva de cooptar militares fogosos, ditadores em potencial e toda sorte de aventureiros aos interesses do grupo economicamente hegemônico, os cafeicultores paulistas,  dando uma espécie de verniz legal, institucional, à ação desses indivíduos, ganhando sua boa vontade para a política desse grupo, que só muito raramente se abria para as necessidades daquilo que no jargão político-sociológico costuma chamar-se “povo” ou “nação”.

A ideia diretriz era a de que o poder político no país nunca deixou de ser expressão dos desejos, necessidades, medos e aversões dos grandes chefes regionais, senhores de engenho, antigos barões e os barões do café paulistas e mineiros. Os fluminenses estavam em franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre esses grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, etiqueta verbal herdada do turbulento início do regime monárquico, mais tarde substituída pelo de “doutor”, como se a mudança dos termos causasse uma mágica mudança de comportamento, ainda que na fabricação de novos acordos fosse necessário sacrificar os mais “sagrados” princípios e valores; os mesmos que empolgaram as massas urbanas durante a campanha republicana. A nossa história às vezes parece uma ode ao “dia dos logrados”. 

Nada era “sagrado” nesse novo arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas ao bel-prazer dos caciques políticos ou das mais diversas necessidades do momento, em nome das quais se cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o soubesse, sendo mantido estrategicamente na sua bestificação original. Aqueles que se opuseram a essa desfaçatez, como o presidente Prudente de Morais, e o seu jovem grupo de dissidentes paulistas, gente com muito ideal, mas pouco apoio popular, foram tratorados sem cerimônia pela máquina, até retornarem ao "acordão" de Sales e Alves, para poderem continuar na política.

Esse projeto mambembe de república, que nos mostrava exatamente como éramos, justo quando mais nos imaginávamos diferentes, mais norte-americanos ou europeus, dignos de sentar-nos com as nações mais poderosas e avançadas do planeta, arrastou-nos na direção de uma sociedade de ciclos, exatamente como nas tribos pré-históricas que, ciclicamente, mudavam de endereço em função de fatores zoológicos ou meteorológicos. Economicamente, em virtude do Convênio de Taubaté, a economia e as finanças começaram a experimentar expansões e contrações, de acordo com o ritmo do plantio, colheita e venda anuais do café no exterior. Na política, o ciclo era mais espaçado, acontecendo de quatro em quatro anos, quando era necessário escolher um novo presidente. 

A esse respeito, o grande político e escritor mineiro Afonso Arino de Melo Franco, em sua biografia sobre Rodrigues Alves, tem algumas observações muito interessantes sobre isso:

“O poder pessoal do presidente, forte no presidencialismo norte-americano, embora refreado pelo Congresso e pela Suprema Corte, tornou-se praticamente absoluto na América Latina... o presidencialismo latino-americano é uma monarquia absoluta de prazo fixo” (Rodrigues Alves apogeu e declínio do presidencialismo; vol. II; José Olympo — Universidade de São Paulo; São Paulo; 1973; p. 524).

Noutro momento ele diz:

“A ausência de partidos nacionais e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”. Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do Brasil. Quando vários candidatos acorrem a um cargo, instaura-se uma crise no partido, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa, que acabou nos tribunais, e, no final, o partido ficou sem candidato. Quando situação análoga se abriu no PSD, o seu dono, Gilberto Kassab, disse logo: “a liderança do partido [ou seja, ele próprio] decidirá!” Nossa capacidade ou teimosia em repetir os mesmos erros são impressionantes.

Afonso Arinos relata detalhadamente como era a dinâmica da escolha do candidato do grupo majoritário, ou melhor, do vencedor da eleição, durante esse período (1889–1930).

“Grupos muito pequenos de políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e, por isso mesmo, veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser divulgados completamente” (idem; p. 526).

O novo sistema político criado pelo golpe de 1889 já nascia, portanto, completamente caduco, ou com um curto prazo de validade, como são os ciclos republicanos até o presente. E, já na primeira intervenção do "acordão" implementado por Campos Sales e Rodrigues Alves, na sucessão do próprio Alves, este já mostrou toda a sua disfuncionalidade, embora só seja definitivamente abandonado numa intervenção cirúrgica, como quem é obrigado a cortar as pernas de um morto que se recusa a deitar.

Vejamos, de uma forma simplificada, acompanhando o relato de Afonso Arinos, já citado, como foi a tormentosa sucessão de Rodrigues Alves, cujo diário foi a fonte de Arinos. É informação de primeira mão.

1º momento:

De volta de uma viagem a Minas, em agosto de 1904, Alves fica sabendo que o general Pinheiro Machado estava arregimentando apoio à reeleição de Campos Sales — da mesma forma que, no Império, os áulicos da corte recebiam títulos de nobreza, políticos próximos às forças armadas ou membros da Guarda Nacional recebiam patentes militares. Pinheiro Machado participou de combates contra os federalistas, mas não era militar de carreira. Essas patentes eram os novos títulos de nobreza, e um dos mais conclusivos sinais do nosso fetiche pela “autoridade” e “títulos simbólicos”.

Pinheiro Machado é um político gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por manter a frente prevista no “acordão”, para o qual Machado não dá a mínima, embora se utilize dele para o seu objetivo: o engrandecimento político do Rio Grande do Sul e da ideologia que move o governo estadual: o positivismo. Lançando Campos Sales, que era mal visto em São Paulo, porque sua política deflacionista reduziu os ganhos dos exportadores, além de outros episódios internos derivados de sua personalidade arrogante, Pinheiro espera dividir os paulistas. O importante para Pinheiro era que o próximo presidente, se não fosse ele, teria que ser alguém fácil de ser manipulado por ele ou seu grupo.

Rodrigues Alves já tem um candidato no bolso: Bernardino de Campos, ex-braço direito de Prudente de Morais, cooptado para o “acordão”.

A justificativa de Pinheiro Machado parece ‘nobre’: era preciso ‘reparar uma injustiça’ — ele se referia à vaia colossal que os seguidores cariocas de sua ideologia e seus aliados deram em Campos Sales no final do seu mandato.

2º momento

Pinheiro foi ter com Rodrigues Alves e diz ter certeza de que não queria magoá-lo, afinal era um gaúcho propondo um paulista para a presidência, embora já fosse do conhecimento geral que Alves e os paulistas costuravam a candidatura de Bernardino, o que lhe foi exposto por Rodrigues Alves. Bernardino era um político muito mais viável e respeitável, justo o que Pinheiro não queria.

Rodrigues Alves fala ainda do apoio de Pernambuco à candidatura de Bernardino, mas Pinheiro não se impressiona e fala mal do líder pernambucano na Câmara, Rosa e Silva. Astuto e necessitado do apoio do pernambucano, Alves se cala, por saber que Pinheiro era mestre em jogar seus adversários uns contra os outros. Alves acha também que Pinheiro quer lançar Rui Barbosa. 

3º momento

A campanha por Campos Sales começa puxada pelos gaúchos e alguns paulistas. O primeiro objetivo foi atingido: os paulistas se dividem e, como nada é feito às claras nem dito oficialmente, a crença geral era de que esse era o desejo do grupo dominante em São Paulo. Mas não era necessário ser especialista para saber que, no momento em que ficasse sacramentada a candidatura de Campos Sales, o resto do Brasil se voltaria contra os paulistas. Era uma armadilha. E só Campos Sales poderia desarmá-la, negando-a peremptoriamente. Ele teria esse discernimento e essa grandeza?

Pinheiro se entrevista de novo com Alves. Lisonjeia-o, promete-lhe lealdade, e Alves escuta tudo calado. Tudo que Alves disser, que pareça inamistoso a quem quer que seja, será usado por Pinheiro Machado.

Alves e o seu grupo resolvem acelerar o lançamento de Bernardino de Campo. Jorge Tibiriça, chefe de um grupo importante de São Paulo, hesita e começa a perguntar se não é melhor lançar outro paulista à presidência, mas, se der, vota em Bernardino.

4º Momento

Rodrigues Alves começa sondagens em favor de Bernardino e ganha adeptos entre seus ministros (JJ Seabra e Lauro Muller). A situação nacional, então, era a seguinte: os pequenos estados, menos Paraná, com São Paulo de Bernardino; o Rio Grande do Sul com Pinheiro; a Bahia com Rui Barbosa; o Rio de Janeiro, com Minas e Pernambuco, acompanha o governo (Rodrigues Alves).

5º momento

Começa uma campanha asfixiante de difamação contra Bernardino, a partir do jornal O Malho, do senador Antonio Azeredo, um crente incondicional dos estratagemas de Pinheiro Machado. No Rio de Janeiro, Nilo Peçanha começa a se afastar de Bernardino.

Para se ter uma ideia de com quem Alves se metia, em 1915, Azeredo conseguiu que o presidente Wenceslau Brás interviesse, sem qualquer razão séria, no governo do general Caetano de Albuquerque, do Mato Grosso, por causa da distribuição local de cargos. O dicionário de políticos da Primeira República da FGV diz o seguinte dele: “Antônio Azeredo tipifica exemplarmente o representante político que utilizava com frequência sua capacidade de influir nas questões internas de seu estado, agindo a partir do Rio de Janeiro”. Rasgando, na prática, a Constituição, sem que ninguém desse por isso.

Alves ficou particularmente chocado com a campanha de Azeredo, uma vez que semanas antes este lhe havia confessado apoio à candidatura de Rui Barbosa e uma neutralidade simpática a Bernardino de Campos!

 

6º Momento

Nilo Peçanha, ideologicamente próximo a Pinheiro, retira o apoio do Rio à candidatura de Bernardino. Aconteceu o que se esperava. Os movimentos de Pinheiro Machado no sentido de isolar São Paulo estão funcionando.

A situação de Rodrigues Alves piora, uma vez que ele se mantém coerente com a política fiscal responsável de Campos Sales, valorizando a moeda, o que beneficiava o povo e a classe média, mas prejudicava os exportadores, além de sua política de valorização do café, que causava justos ‘ciúmes’ em outros estados.

 7º momento

Campos Sales começa a se entusiasmar por sua própria candidatura e a ficar ressentido com aqueles que não o seguem, como Rodrigues Alves. Em 11 de maio de 1905, os estudantes acadêmicos paulistas afogueados encampam a candidatura de Campos Sales por meio de um vigoroso manifesto, no qual exaltam Pinheiro Machado. Como é tradicional, eles são tão ingênuos, desinformados e manipuláveis que, ao assumir esse candidato específico, ajudam a inviabilizar qualquer candidatura de um paulista, porque tanto lutavam! O que seria dos espertos se não fossem os trouxas?

Num trecho de seu diário, Rodrigues Alves diz que o movimento de Pinheiro Machado visava, primeiro, impedir a eleição de Pena, e que poderia até aceitar o Bernardino, embora o seu candidato preferido fosse Rui. Há muitas nuances aparecendo e não há certeza, até hoje, do que esses homens pretendiam realmente com esses movimentos erráticos. Este texto que eu escrevo é baseado nas impressões de Alves. Outros autores dirão coisas diferentes.

“Pinheiro, ao mesmo tempo em que concentrava os esforços divisionistas em torno... de Campos Sales, não deixava de acenar para outros nomes prestigiosos” (idem, p. 540). Alves fala de Pinheiro, sugerindo, num banquete, o nome de Joaquim Murtinho, enquanto o Barão do Rio Branco conta, para um filho de Alves, que Machado também o sondou. Leopoldo Bulhões também foi sondado. Ele espalha meticulosamente a mais crassa divisão no entorno de Rodrigues Alves.

8º momento

Cada vez mais “assanhado”, Campos Sales alimenta grandes esperanças, justo quando Rodrigues Alves enfrenta a rumorosa Revolta da Vacina, em setembro de 1904. A bancada federal paulista cai no jogo de Pinheiro Machado, se divide e enfraquece o presidente e o seu candidato preferido. Campos Sales sonha!

“Não era pequeno [quantos?] o número dos que, tendo estado em franca hostilidade ao meu governo, me traziam agora a sua adesão leal e desinteressada” (idem; p. 541). Dizia Sales em um manifesto, em agosto de 1905, completamente embalado por suas próprias fantasias.

Quando um amigo lhe sugere que busque uma aproximação com Rodrigues Alves, Sales responde: “Uma intervenção, mesmo velada, do presidente, seria bastante para fazer suspeitar da espontaneidade do movimento... Ao Rodrigues Alves só cabe, pois, uma única atitude... a mais completa e escrupulosa abstenção” (idem; idem). “Ficaram, pois, os meus amigos sabendo... que eu repudiava... com absoluta intransigência a ideia de voltar ao Catete, com a condição de lá entrar pela mão de quem lá estava” (idem; idem).

Campos Sales já não mais fantasia; ele delira. Ao dizer isso, ele reproduz exatamente a mesma atitude de Prudente, em 1898, e da qual ele se queixou tão amargamente, afirmando que nada o ligava à assunção presidencial de Sales. Como o ébrio, que tentou tirar o padre para dançar no meio de um funeral, ele posteriormente expressará, em carta a Pinheiro Machado (de 5 de março de 1905), profunda mágoa pela falta de apoio de Alves à sua candidatura.

O escarro de Sales seguiu o mesmo percurso dos outros, obedecendo à lei da gravidade.

9º momento

Em meados de 1905, a candidatura de Campos Sales naufraga melancolicamente. Restava-lhe dar o troco em Alves, o que aconteceu no desfecho das discussões sobre o Convênio de Taubaté, no ano seguinte.

Nesse momento, Jorge Tibiriça e Rodrigues Alves cometem um grande erro. Lançam a candidatura de Bernardino de Campos num ambiente paulista muito dividido.

10º Momento

Bernardino de Campos dá uma entrevista catastrófica a Alcindo Guanabara, de O Paiz, em 26 de junho, criticando a política econômica de seus dois antecessores e falando em reformar a Constituição. Arinos suspeita que foi de caso pensado para implodir de vez uma candidatura que não pegava tração. No início de julho, ela é insustentável, mesmo em São Paulo.

11º Momento

Pinheiro Machado e sua turma, unidos na "Coligação", ainda tentando isolar São Paulo, convidam Afonso Pena de Minas para se candidatar à presidência. Ele topa e Minas se aparta de São Paulo. Rápido, Rodrigues Alves pede a Bernardino que abra mão de sua candidatura e apoie Pena, para não parecer que São Paulo foi derrotado. Bernardino se manifesta por escrito, abrindo mão de sua candidatura, elogiando Rodrigues Alves e aderindo à candidatura de Pena, seguido pela massa dos paulistas. São Paulo adere aos vencedores e os mineiros não tinham por que recusá-lo, pois não se viam como oposição ao governo. O plano de Machado gorou!

Pinheiro e Rui Barbosa ficaram muito irritados. Rodrigues Alves escreve: “Dizem que foi o senador Rui quem mais se irritou com essa atitude” [a adesão dos paulistas] (idem; p. 545). Pinheiro Machado, ‘virado no moi de coentro’, faz um discurso agressivo, quase ameaçador, no lançamento da chapa em Belo Horizonte, em 7 de setembro de 1906.

12º Momento

Outros movimentos, porém, partem da Bahia. Em março de 1905, é lançada a candidatura de Rui Barbosa, pelo governador da Bahia, José Marcelino, num ambiente dividido. O ex-governador Severino Vieira alerta Marcelino: “O nosso Rui... se impõe à admiração de todos pelo seu talento e erudição; porém, não é, nunca foi, e não poderá ser jamais um estadista” (idem, p. 546). Pura verdade. A candidatura de Rui só serviu para aumentar a confusão.

Indagado sobre Rui, o líder pernambucano Rosa e Silva é categórico: “Com Rui, nem para o céu”.

Aparentemente, segundo Arinos, mesmo não recebendo apoios significativos, aparentemente consciente de suas limitações, Rui engajou-se na campanha com afinco, pois a última coisa que queria era uma vitória de Bernardino de Campos, dentro do seu projeto político pessoal de ser sempre oposição. E ele foi coerente a esse objetivo até o fim, mesmo ao preço de sua maior frustração: nunca ter sido presidente da república, logo, nunca ter sido situação. Vá entender!

13º Momento

Rui vai à imprensa e apresenta um quadro maravilhoso sobre sua escolha e o seu poder de arregimentar apoios. Tudo fantasia. Mas ele acreditava nela. Mais tarde, mesmo reconhecendo a falta de apoio, ele continuou teimando. Mas vamos aos poucos.

Nessa ocasião, Minas ainda não se decidira. O governador do estado, Francisco Sales, apoia Rodrigues Alves. Mas se vê premido pela possibilidade de um candidato mineiro.

14º Momento

Pinheiro, sempre ele, promove um encontro entre Rui Barbosa e Afonso Pena. Rui se compromete a apoiar Pena, se ele unificar Minas Gerais, que ainda estava dividida entre Bernardino e Pena, com vantagem para este.

No Congresso, políticos afinados com Pinheiro começam a provocar os mineiros, para que estes acelerassem sua escolha caseira. Os acadêmicos mineiros saem às ruas em prol de Afonso Pena.

15º Momento

Espalha-se um boato de que Francisco Glicério e Campos Sales se articulavam contra Bernardino. Glicério procura Rodrigues Alves em favor da solução mineira, encampada por Pinheiro e os detratores do Malho.

16º momento

Rodrigues Alves recebe notícia de que Pinheiro Machado resiste a Afonso Pena. Arinos acha que Pinheiro resistia a Pena por simulação, para valorizar a sua escolha e ficar bem, mais tarde, aos olhos dos mineiros, fazendo parecer que sua escolha foi fruto de muita elucubração e estudo, e não consequência natural de seus conchavos e manobras, nem sempre honestas e transparentes.

Nesse momento, Pinheiro lança outro rojão de fumaça: Afonso Pena desistia de ser candidato em favor do governador Francisco Sales. A confusão aumenta.

17º Momento

Em 29 de julho de 1905, os jornais noticiam a desistência de Campos Sales e Afonso Pena. No meio de tanta desinformação, toda sorte de manchete estapafúrdia era possível.

A propósito: ninguém foi preso nem investigado pelo Supremo por isso

18º Momento

Afonso Pena procura Rodrigues Alves, notificando-o de sua candidatura, e fala-lhe de apoio de outros estados, com dados desatualizados ou não garantidos. Rodrigues Alves também é informado de que, nesse momento, em Minas, poderosos caciques ainda se opõem à candidatura de Pena. Esta informação teve prazo de validade curto.

19º Momento

Depois que o governo e os paulistas aderiram à candidatura de Pena, a Coligação reagiu indicando Nilo Peçanha, do Rio, para vice de Pena, um republicano radical e adversário visceral de Bernardino.

O nome de Peçanha foi escolhido por Rui Barbosa, como ele mesmo assume e afirma que “não podia haver termo de conciliação mais desinteressado, mais simpático e mais auspicioso” (idem; p. 550).

Alves reage, afirmando que o vice era antes “um aviso para o Pena [pois ele, um herdeiro da política imperial, teria ao seu lado um republicano radical] e uma provocação para o governo” (idem; idem). Ou o Rui era muito cínico, ou vivia no mundo da lua. As duas possibilidades não são desprezíveis.

20º Momento

Pena é procurado por Alves e Rosa e Silva (PE) e alertado sobre o perigo, mas diz que “receava renovar agitações” (idem; idem). Ou seja: “deixa para lá”, “para que fazer marola e ter mais trabalho”. O eterno caminho mais fácil, do “acordão” genérico, que cobrará no final a própria vida do Pena. Alves não devia ficar chateado com isso, afinal, foram ele e Campos Sales que puxaram o “acordão”.

Afonso Arinos completa:

“Afonso Pena não resistiu à política imposta pelo Bloco [o nome seguinte da ‘Coligação’ de Pinheiro], que culminou com a ameaça do seu próprio ministro da Guerra [Hermes da Fonseca, que, segundo alguns, levou-o à morte antes do término do mandato]. Com a morte de Pena, Nilo assumiu. Mas assumiu para ser instrumento passivo da antiga Coligação e consolidar a candidatura de Hermes. Rui Barbosa, parte fundamental em todo esse processo, rebelou-se, inutilmente, porém, na Campanha Civilista” (idem; p. 551). Rui cevou o bicho que, ao final, o devorou.

21º Momento

Abandonando a forma solene de anunciar o nome do candidato à presidência pelo grupo majoritário por meio de uma reunião solene das duas casas do Congresso, opta-se  por um documento assinado pela maioria dos deputados e senadores — afinal, o que estava se propondo ‘não valia nada’, e poderia ser completamente mudado na eleição seguinte, nem se propunha a nada que não fossem somente os interesses particulares e imediatos dos grupos hegemônicos. Rui redigiu o manifesto, que foi lido em 1º de setembro de 1905.

22º Momento

Em 27 de setembro, Rodrigues Alves registra que, num encontro com o general Mallet, Pinheiro Machado diz que estava recebendo cartas de oficiais do Exército, que se mobilizavam em oposição a Bernardino, e que o general Hermes da Fonseca estava disposto a ir falar com o presidente contra Bernardino, mas que ele, Pinheiro, o demoveu depois que Alves abriu mão da candidatura de Bernardino. Tudo uma invenção?

Em 1909, Hermes será lançado à presidência como uma ‘criatura’ de Pinheiro Machado, para um dos quadriênios mais catastróficos, senão o mais, da história da república.

23º Momento

Em 12 de outubro, realiza-se um banquete no Congresso, em que Pinheiro Machado faz um cavalheiresco brinde ao seu astuto e pertinaz adversário, Rodrigues Alves, que respondeu à gentileza, por carta, com outras amabilidades. Eram tempos horríveis, selvagens, patriarcais e desumanos, e não como hoje, quando, por exemplo, na posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023, ele chamou várias vezes seu antecessor de “genocida”. No final, a CIVILIZAÇÃO VENCEU!!!

Em particular, Alves escreveu em seu diário uma observação do velho conselheiro Lafayette Pereira, do Império, que comparava Afonso Pena a “uma fechadura velha, que abria para todos os lados com chave, prego, dedo, etc.” (idem; p. 554).

O texto do manifesto de Rui, antes de ser lido, foi modificado, em alguns pontos, por Joaquim Murtinho, e, no banquete do dia 12, pego de surpresa, Rui rompe com a Coligação, ou Bloco, dizendo não ‘ser camarilha’ a decisões de que não participara. Não sacrificaria ‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo”. E depois foi aos jornais. O divórcio antecedeu o casamento.

24º Momento

Em 18 de dezembro, Rodrigues Alves sobe a Petrópolis com a família, diante do novo surto de febre amarela, na cidade que fizera guerra à vacina, e lá ficou até após a eleição, sem ser molestado, pois nessa época o voto era um direito, que os brasileiros exerciam se quisessem; como todo direito, e não uma obrigação para agraciar espetáculos infames.

As eleições no Rio e em muitas partes foram tão esvaziadas e desinteressadas que faltaram cédulas eleitorais e várias seções ficaram fechadas; os números que apareceram nas atas eram ‘fabricados’ na hora da contagem e escritos no papel ao sabor de quem o escrevia.

Mesmo as seções que funcionaram apresentavam um ar desolador de salas abandonadas. Segundo o jornal A Tribuna, “as mesas sonolentas e tristes esperavam debalde os eleitores... que só por maravilha apareciam, olhando com espanto as salas desertas”. (idem, p. 555)

Enquanto Rodrigues Alves ganhou 592.038 votos, 93,30% dos votos válidos, em 1902, Afonso Pena recebeu 288.285 votos, cerca de 97,92% dos votos válidos, em 1906. Menos da metade em termos absolutos.

25º Momento

Alguns jornais de grande circulação, desinformados ou mal informados, em meio a tantos boatos, faziam as análises tão ridículas — diferente de hoje. Para eles, Rodrigues Alves maculara sua biografia mostrando apenas oportunismo, ao se agregar ao grupo vencedor. A grande estrela dessa eleição seria o inigualável gênio nacional Rui Barbosa; enquanto Pinheiro Machado seria o agente fracassado de uma comédia barata. Essa gente não tinha a menor ideia do que acontecia no país, embora fossem a principal fonte de informações sobre o país.

26º Momento

Rodrigues Alves termina seu mandato completamente isolado e repudiado pelas lideranças políticas da república, inclusive as de São Paulo, como já acontecera com Prudente de Morais e Campos Sales, para não falar da solidão mortal de Afonso Pena, em seguida. No final do seu governo, “com exceção dos auxiliares diretos, da família e de alguns amigos mais chegados, Rodrigues Alves [mesmo muito popular] termina o governo abandonado pelo meio político... Hostilizado no Congresso e na imprensa... Os amigos mais chegados, como Glicério, iam se bandeando... A presença do general Hermes [num duelo de Pinheiro Machado contra um jornalista] violava os regulamentos militares, mas consolidava a aliança entre Pinheiro e uma poderosa corrente dentro do exército... Em 29 de abril [de 1905] desceu de Petrópolis... Em tais ocasiões recebia numerosos congressistas; desta vez eram seis... [Em] 7 de julho, seu aniversário... ‘Dei recepção no palácio como de costume... muitas cartas e telegramas [de políticos], mas afastamento dos amigos’... Em São Paulo...o presidente Tibiriçá só com muita insistência concordou em fazer o clássico brinde de honra ao presidente da República... Em Lorena, quando da inauguração da fábrica de pólvora... o representante de Tibiriçá não quis fazer brinde ao presidente da República [que investira na fábrica].

A ideia de que as classes agem monoliticamente em vista a uma fantasiosa luta de classes, gerando análises que supõem os representantes da classe no governo se sucedem pacífica e consensualmente na Primeira República do Brasil, é de uma jocosidade impagável. Não resiste nem a um segundo de documentação séria. Frequentemente, o pior inimigo desses chefes era outro chefe do mesmo quilate e não os seus empregados por ele 'explorados'. Não raro esses chefes se aliam a seus empregados e os promovem para enfrentar seus pares.

Que o autor Afonso Arinos tinha qualificação para dar informações confiáveis, basta saber que ele foi casado por 61 anos com uma neta de Rodrigues Alves.

Conclusão.

Do exposto acima, podemos tirar algumas conclusões:

1 – O processo de escolha do presidente da República era feito em reuniões secretas, pelos mais poderosos chefes da política nacional, sem qualquer regra prévia que permitisse um certo preparo por parte dos que poderiam eventualmente se candidatar ao cargo. Mais ou menos como no Império Romano, quando não havia regra pactuada para a escolha do Imperador e os indivíduos mais inadequados acabavam ocupando o cargo.

2 – A dinâmica do processo era desconhecida até pelos principais articuladores, que precisavam a cada momento se adaptar às mais variadas mudanças de cenário e, no final, até apoiar a quem antes faziam oposição.

3 – Uma das principais características desse processo era a sua obscuridade, a sua completa opacidade, de sorte que ninguém, fora de alguns grupos muito seletos, ficasse sabendo de fato o que estava acontecendo. Era fundamental não parecer perdedor diante do grande público, que lidava com esse assunto como um torcedor, durante uma partida de futebol, em que se vibra com a vitória do seu time e se entristece com a derrota, porque, nesse caso, vai ser vítima das brincadeiras do time oposto. Esse é o espírito que embala nossos políticos atuais, convencidos de que o pior e único pecado do político é perder a eleição. As eleições viraram um fim em si mesmas, confundidas com a essência da democracia, embora nenhuma ditadura sobreviva sem eleição.

4 – Não há em nenhum momento dessas negociações qualquer apelo ou preocupação com danos ou benefícios ao país a curto ou longo prazo. Pelo menos isso não aparece nos discursos de Rodrigues Alves e nos complementos de Afonso Arinos. É tudo uma questão de nomes e valores adaptáveis às circunstâncias do presente.

5 – Não há nenhum apelo ao povo ou menção dele, como se não importasse de maneira alguma. Mesmo dentro dessas seitas sem doutrina que eram e ainda são os partidos, ninguém pensava, ou pensa, em fazer uma mobilização de militantes para resolver uma pendência ou situação de difícil acerto. O povo era o grande ausente nos projetos políticos dessa elite; já hoje é tratado como massa de manobra, como escudo, para proteger maus políticos do alcance da Justiça, nas raras vezes em que esta decide fazer justiça.


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