O coronel Moreira César
escolhe a sua hora.
O que aconteceu nos
últimos momentos do coronel Moreira César só sabemos por meio do relatório do
major Rafael Augusto, ‘enfeitado’, para fins literários e políticos, por
Euclides da Cunha. Trechos desse relato aparecem em Manuel Benício. Eles nos
jogam para os primeiros dias de março de 1897, numa Quarta-Feira de Cinzas.
Seguirei também os dados do livro de Oleone Fontes: O Treme-terra Moreira
César, a República e Canudos, sempre fazendo referências aos grandes
esquecidos por esses livros: os jornais da época.
No penúltimo trajeto da
viagem, de Cumbe a Rancho do Vigário, tanto Euclides como Benício falam de um
terrível problema de falta d’água, agravado pelo fato de não terem levado
ferramentas adequadas para a instalação de uma bomba d'água. Benício fala que faltou
uma marreta para cravar a bomba no solo. Euclides, compreensivelmente, para o
objetivo de sua obra, diz que não só não levaram a marreta como levaram um
macaco, para erguer peso, como a querer mostrar que havia um completo maluco no
comando da tropa (12).
Mais estranho ainda é o
relato do sargento Marcos Evangellista da Costa Villela Junior, em Canudos:
memórias de um combatente, que descreve minuciosamente esse deslocamento,
ressaltando as dificuldades do transporte da artilharia — cada Krupp 7.5 pesava
cerca de 900 kg. Mas ele nada fala sobre fome, sede ou qualquer outra privação,
muito menos de bomba d’água, cujo fracasso certamente causaria um grande
impacto entre os soldados, supostamente muito sedentos, famintos e
cansados.
Não existe nada nos
depoimentos de Villela Junior, uma testemunha ocular, que se pareça com o
relato euclidiano de:
“A tropa estava
exausta. Exausta e sequiosa. Caminhara oito horas sem parar, em pleno arder do
sol bravio.
A tropa combalida
abalou à tarde… foi essa jornada de oito ou dez léguas, sem folga. Mil e tantos
homens penetrando, quase em cambaleios, torturados de sede, acurvados sob as
armas, em pleno território inimigo.”
O depoimento do general
Tristão de Alencar Araripe, estudioso do tema, complementa o sargento da
artilharia, negando Euclides:
“Até ali [dia 2
de março, no Rancho do Vigário, a 19 km de Canudos] vinha a expedição se
deslocando com método, em jornadas curtas, com longos descansos” (p. 59).
Segundo Villela Jr., em
Monte Santo, o capitão Jesuíno Lima, fugido de Canudos, se juntou à tropa para
acertar contas com Pajeú, o suposto matador de seus parentes, numa das versões.
Villela também fala da casa destruída de uma família, massacrada pelos jagunços;
ele disse que viu “pedaços de couro cabeludo pregados pelas paredes” (p.
18). Ou a comunidade de Canudos não é o remanso de paz e justiça que se conta,
ou estavam acontecendo coisas pelas costas do Conselheiro, ou as duas coisas.
A destruição vista por
Vilella confere com a afirmação de Robert Levine (O sertão prometido — O
massacre de Canudos, trad. Monica Danta, EDUSP, 1995, p. 241 e 249). Levine
é simpatizante de Canudos e do Conselheiro.
“Foi Zé Venâncio que
ordenou a destruição das fazendas e pequenas residências dos arredores para que
não pudessem ser utilizadas pelas forças do governo.
Os combatentes do
Conselheiro haviam deixado um mar de desolação ao redor de Canudos, queimando
sítios e fazendas… num raio de 10 km.”
Quem resistiu foi
morto, como se viu na casa ocupada por Vilella Jr.
Véspera
Moreira César reviu
seus planos, pesou e repesou as suas decisões até ali e as que tomaria no dia
seguinte, pois seus olheiros e até a enorme sensação de paz e tranquilidade que
havia ao redor do acampamento gritavam aos seus instintos: “Esta é a hora.” Não
retrocederia. Amanhã, Canudos será atacada e tomada, independentemente do que
políticos, povo e até outros militares pensassem, pois esse era o seu dever e a
coisa certa a fazer.
“Então vão me matar?”
Pensou ele enquanto manuseava cartas e telegramas de amigos vindos do Rio de
Janeiro, alertando-o. “Vou lhes facilitar as coisas.” Chamou o alferes Poli e,
com a ajuda de alguns soldados, levou a sua barraca vários metros para fora do
acampamento, ultrapassando o limite de segurança, e para lá levou suas coisas,
ficando sozinho. Olhou para o acampamento, enquanto dizia para si mesmo: “Se
querem me matar, estou aqui, sozinho.” Era o dia 2 de março, terça de carnaval,
início da lua nova.
Tempo de escuridão.
Partida
No dia 3, pela manhã, a
brigada desperta excitada de seu acampamento em Rancho do Vigário, com a
perspectiva, segundo o major Augusto, de marchar e acampar em Angico, a 9 km de
Canudos, e aí descansar para o ataque no dia seguinte (13). O que não
faz o menor sentido, pois seria o mesmo que dizer aos conselheiristas:
“Preparem-se, que nós vamos atacá-los.”
Moreira César acordou
bem disposto, fez a barba e escolheu a melhor farda que trouxe. Um soldado
levou-lhe o desjejum, após o qual fez o asseio possível naquela circunstância e
vestiu o seu uniforme. Impecável.
O tenente Francisco
d'Ávila veio vê-lo, cumprimentou-o e, reparando no uniforme, estacou,
arregalando os olhos.
— Está tudo bem,
senhor?
— É por causa disso?
Acenou com a cabeça, apontando o uniforme.
— Pois é, o senhor não
acha perigoso?
— Algo me diz que hoje
será um grande dia para mim. Nós os pegaremos totalmente desprevenidos e, se
tivermos audácia e coragem, encerraremos essa campanha e voltarei para o meu
ninho. Agora, se vou pedir que os meus soldados arrisquem a vida para vencer o
inimigo, eu nem posso ficar na retaguarda nem me expor a um tiro, e isso é o
máximo que farei, consoante às minhas obrigações, para estar mais próximo
deles. Eles sabem o que espero deles, e eles o que esperar de mim. Confio que
eles saberão o que fazer. No final, se Deus quiser, comemoraremos juntos um bom
resultado.
— Tudo bem, senhor. Mas
não se exponha com isso.
— Não pretendo
dar esse prazer aos conselheiristas.
Saiu e dirigiu-se a um
grupo de oficiais que conversava animadamente. Ao vê-lo, calaram a conversa
imediatamente e o olharam, estupefatos. E começaram a cochichar.
— Só pode ser
provocação!
Os soldados, que também
estavam se preparando e já quase perfilados para sair, quando o veem
aproximar-se, voltam-se, como se fossem um só homem, na sua direção, e, ao
vê-lo naquele uniforme, percebem instintivamente o que ele queria lhes dizer,
ficando ainda mais alvoroçados.
— É isso aí, senhor,
vamos pegá-los!
— O coronel é um dos
nossos! Ele confia em nós!
— Hoje é um grande dia!
— repete ele.
— Esse coronel é muito valente!
— diz um soldado ao seu companheiro.
— Ao seu lado, a gente
não sente medo, respondeu.
E se aglomeram ao redor
do seu cavalo.
— Vamos para cima sim,
meus amigos, nós somos todos soldados brasileiros, nada nos assusta nem nos
detém no cumprimento do dever. Teremos daqui a pouco uma grande batalha na qual
daremos o melhor de nós para nos tornarmos dignos dos que nos precederam. E
falo não só dos grandes como Caxias, Osório, Sampaio, Mallet, mas também dos
soldados, como vocês, que com eles partilharam suas jornadas, e hoje
compartilham da celestial com eles, da mesma forma que nós, em breve, estaremos
nos braços de Santo Antônio.
Os soldados entenderam
que ele falava do Morro de Santo Antônio, no qual ficava a sede do batalhão. Um
veterano aproximou-se emocionado, com lágrimas nos olhos.
— Senhor, é uma honra
servir sob o seu comando.
— A honra é toda minha.
Ele estava alegre e
falante, sentia-se à vontade, quando percebeu o jovem Cabo Colombo Sabino e
chamou-o para junto de si. Abaixando-se, lhe diz:
— Quando rever seu pai,
diga-lhe que foi uma honra conhecê-lo e que ele tem muitos motivos para ter
orgulho do seu filho. Mande lembranças minhas ao povo de Santa Catarina.
O jovem cabo estranhou
porque ele estava utilizando os verbos no passado, e ele quase o perguntou, não
fosse o alvoroço ao redor. Pouco depois, empertigando-se no cavalo, o coronel
gritou com toda a força:
— Sentido!
Todos correram para
assumir o seu lugar de marcha, enquanto ele acelerava um pouco na direção dos
oficiais. Enquanto se adiantava, os soldados gritavam, chamando-o pela sua
patente, agitando o boné ou levantando os fuzis, fazendo um grande alarido, e
lá seguia ele, num cavalo branco, com o seu uniforme de gala, também todo
branco. Um alvo perfeito. Só faltava estar escrito em suas costas: “Se vão me
matar, o alvo é este!”
Os interessados receberam o aviso e se preparavam para a resposta no tempo oportuno.
Pitombas
Meia légua depois, em
Pitombas, ocorre uma escaramuça com as sentinelas de Canudos. Nesse tiroteio
ocorre uma perda pessoal para o coronel: logo após os primeiros disparos, um
esquadrão de cavalaria realiza uma carga temerária contra os atiradores e o alferes
Poly Coelho, o seu braço direito, cai gravemente ferido. Outro que é ferido
nesse combate, segundo relatos do Gazeta de Notícias (RJ), é o próprio Moreira
César, com um chumbinho na omoplata — mostrando a precariedade das armas dos
canudenses.
Mesmo com esse
desconforto, ele continua comandando ativamente as operações da tropa e ordena
ao major Rafael Augusto uma carga de infantaria contra os tocaieiros.
O sétimo avançou firme
sobre as sentinelas, que, surpreendidas pelo ímpeto da tropa, fogem. Na volta,
sempre procurando atrair o major para o seu lado, e também porque ele o
merecera, dirigi-lhe elogios — Augusto, segundo o seu relato, aproveita para
mais uma vez dizer que aquilo era uma manobra e o pior os aguardava dentro da
cidade. Alguns jornais do Rio, após a derrota da 3ª Expedição, reforçaram isso
com histórias mirabolantes da coluna entrando numa Canudos, toda vazia, para
ser atacada, de repente, por um número incontável de guerreiros bem armados e
municiados, atirando de dentro de suas casas-fortalezas. Como se fosse uma
cidade europeia.
O jornal República, de
Florianópolis, reproduzindo matéria do República, do Rio de Janeiro, traz na
edição de 6 de abril de 1897:
“Nesse primeiro
tiroteio, foi ferido o coronel Moreira César, levemente, mas não menos
dolorosamente, na omoplata, e o tenente Costa [da polícia], na
coxa. Igualmente, sem gravidade.”
A morte de Poli Coelho.
Após o reinício da
marcha, alguém vem anunciar-lhe que o alferes Poli falecera em virtude do
ferimento. Ele fez alto e foi ver, pela última vez, o corpo do amigo, que
ficara em Pitombas.
Ele mira o cadáver
pensativo, e nesse momento tem um vislumbre do destino que lhe esperava, não
diz nada, apenas olha o despojo, talvez pensando na sua própria morte. De
alguma forma ele a antecipava. Bateu-lhe continência e saiu dali mais convicto
do que nunca. Faz ainda uma última recomendação aos médicos e ao pessoal da
retaguarda.
— Um soldado fica onde
cai. Aqui não são os Pampas — o alferes era gaúcho — mas ainda é Brasil. Cavem
uma sepultura digna para o alferes Poli Coelho e os outros, que em breve nos
veremos. Voltou para a frente da coluna, onde ordenou, categórico:
— Major Rafael Augusto,
mantenha seus homens na cola do inimigo. Corneteiro, toque acelerado!
Parece que o alferes
Poli Coelho e um soldado foram as únicas baixas fatais que a coluna vai amargar
antes de chegar a Canudos. Mais adiante, apresentam-lhe uma pequena espingarda
sertaneja, modelo pica-pau ou lazarina, abandonada pelos atacantes. Ao vê-la,
Moreira César, que já sabia da precariedade das armas dos sertanejos, brada:
“Essa gente está desarmada!” Ao tenente Mário Barbosa, com uma companhia do 7º,
é ordenado que espere, com a força da polícia e o esquadrão de cavalaria, que
os médicos façam os primeiros curativos nos feridos, e depois sigam ao encontro
da coluna.
É bom realçar aqui esse
pequeno trecho do jornal Cidade do Rio de Janeiro, de 15 de março de 1897,
chamado SUCESSOS DA BAHIA, 1ª página, produzido pelo correspondente do jornal
na Bahia:
“A ambulância e o
comboio vinham protegidos pela polícia; a cavalaria vinha comboiando o gado
para a alimentação da brigada.”
Esse pequeno texto,
referente a esse deslocamento, mostra o quanto é maldosa e pérfida a afirmação
de que Moreira César atirou soldados cansados e famintos contra Canudos. Eles
sempre tiveram comida, munição e descanso — segundo Dantas Barreto, quando saíram
de Cumbe, a manada de bois, à disposição dos soldados, seria de 150 animais (Acidentes
da guerra, Livraria Riograndense, Rio Grande do Sul, 1905, p. 95).
Considerando que cada
bicho fornecia de 200 a 300 quilos de carne…
Eduardo Simões.

Nenhum comentário:
Postar um comentário