terça-feira, 13 de outubro de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 42

O coronel Moreira César escolhe a sua hora.

O que aconteceu nos últimos momentos do coronel Moreira César só sabemos por meio do relatório do major Rafael Augusto, ‘enfeitado’, para fins literários e políticos, por Euclides da Cunha. Trechos desse relato aparecem em Manuel Benício. Eles nos jogam para os primeiros dias de março de 1897, numa Quarta-Feira de Cinzas. Seguirei também os dados do livro de Oleone Fontes: O Treme-terra Moreira César, a República e Canudos, sempre fazendo referências aos grandes esquecidos por esses livros: os jornais da época.

No penúltimo trajeto da viagem, de Cumbe a Rancho do Vigário, tanto Euclides como Benício falam de um terrível problema de falta d’água, agravado pelo fato de não terem levado ferramentas adequadas para a instalação de uma bomba d'água. Benício fala que faltou uma marreta para cravar a bomba no solo. Euclides, compreensivelmente, para o objetivo de sua obra, diz que não só não levaram a marreta como levaram um macaco, para erguer peso, como a querer mostrar que havia um completo maluco no comando da tropa (12).

Mais estranho ainda é o relato do sargento Marcos Evangellista da Costa Villela Junior, em Canudos: memórias de um combatente, que descreve minuciosamente esse deslocamento, ressaltando as dificuldades do transporte da artilharia — cada Krupp 7.5 pesava cerca de 900 kg. Mas ele nada fala sobre fome, sede ou qualquer outra privação, muito menos de bomba d’água, cujo fracasso certamente causaria um grande impacto entre os soldados, supostamente  muito sedentos, famintos e cansados.

Não existe nada nos depoimentos de Villela Junior, uma testemunha ocular, que se pareça com o relato euclidiano de:

“A tropa estava exausta. Exausta e sequiosa. Caminhara oito horas sem parar, em pleno arder do sol bravio.

A tropa combalida abalou à tarde… foi essa jornada de oito ou dez léguas, sem folga. Mil e tantos homens penetrando, quase em cambaleios, torturados de sede, acurvados sob as armas, em pleno território inimigo.”

O depoimento do general Tristão de Alencar Araripe, estudioso do tema, complementa o sargento da artilharia, negando Euclides:

“Até ali [dia 2 de março, no Rancho do Vigário, a 19 km de Canudos] vinha a expedição se deslocando com método, em jornadas curtas, com longos descansos” (p. 59).

Segundo Villela Jr., em Monte Santo, o capitão Jesuíno Lima, fugido de Canudos, se juntou à tropa para acertar contas com Pajeú, o suposto matador de seus parentes, numa das versões. Villela também fala da casa destruída de uma família, massacrada pelos jagunços; ele disse que viu “pedaços de couro cabeludo pregados pelas paredes” (p. 18). Ou a comunidade de Canudos não é o remanso de paz e justiça que se conta, ou estavam acontecendo coisas pelas costas do Conselheiro, ou as duas coisas.

A destruição vista por Vilella confere com a afirmação de Robert Levine (O sertão prometido — O massacre de Canudos, trad. Monica Danta, EDUSP, 1995, p. 241 e 249). Levine é simpatizante de Canudos e do Conselheiro.

“Foi Zé Venâncio que ordenou a destruição das fazendas e pequenas residências dos arredores para que não pudessem ser utilizadas pelas forças do governo.

Os combatentes do Conselheiro haviam deixado um mar de desolação ao redor de Canudos, queimando sítios e fazendas… num raio de 10 km.”

Quem resistiu foi morto, como se viu na casa ocupada por Vilella Jr.

Véspera

Moreira César reviu seus planos, pesou e repesou as suas decisões até ali e as que tomaria no dia seguinte, pois seus olheiros e até a enorme sensação de paz e tranquilidade que havia ao redor do acampamento gritavam aos seus instintos: “Esta é a hora.” Não retrocederia. Amanhã, Canudos será atacada e tomada, independentemente do que políticos, povo e até outros militares pensassem, pois esse era o seu dever e a coisa certa a fazer.

“Então vão me matar?” Pensou ele enquanto manuseava cartas e telegramas de amigos vindos do Rio de Janeiro, alertando-o. “Vou lhes facilitar as coisas.” Chamou o alferes Poli e, com a ajuda de alguns soldados, levou a sua barraca vários metros para fora do acampamento, ultrapassando o limite de segurança, e para lá levou suas coisas, ficando sozinho. Olhou para o acampamento, enquanto dizia para si mesmo: “Se querem me matar, estou aqui, sozinho.” Era o dia 2 de março, terça de carnaval, início da lua nova.

Tempo de escuridão.

Partida

No dia 3, pela manhã, a brigada desperta excitada de seu acampamento em Rancho do Vigário, com a perspectiva, segundo o major Augusto, de marchar e acampar em Angico, a 9 km de Canudos, e aí descansar para o ataque no dia seguinte (13). O que não faz o menor sentido, pois seria o mesmo que dizer aos conselheiristas: “Preparem-se, que nós vamos atacá-los.”

Moreira César acordou bem disposto, fez a barba e escolheu a melhor farda que trouxe. Um soldado levou-lhe o desjejum, após o qual fez o asseio possível naquela circunstância e vestiu o seu uniforme. Impecável.

O tenente Francisco d'Ávila veio vê-lo, cumprimentou-o e, reparando no uniforme, estacou, arregalando os olhos.

— Está tudo bem, senhor?

— É por causa disso? Acenou com a cabeça, apontando o uniforme.

— Pois é, o senhor não acha perigoso?

— Algo me diz que hoje será um grande dia para mim. Nós os pegaremos totalmente desprevenidos e, se tivermos audácia e coragem, encerraremos essa campanha e voltarei para o meu ninho. Agora, se vou pedir que os meus soldados arrisquem a vida para vencer o inimigo, eu nem posso ficar na retaguarda nem me expor a um tiro, e isso é o máximo que farei, consoante às minhas obrigações, para estar mais próximo deles. Eles sabem o que espero deles, e eles o que esperar de mim. Confio que eles saberão o que fazer. No final, se Deus quiser, comemoraremos juntos um bom resultado.

— Tudo bem, senhor. Mas não se exponha com isso.

 — Não pretendo dar esse prazer aos conselheiristas.

Saiu e dirigiu-se a um grupo de oficiais que conversava animadamente. Ao vê-lo, calaram a conversa imediatamente e o olharam, estupefatos. E começaram a cochichar.

— Só pode ser provocação!

Os soldados, que também estavam se preparando e já quase perfilados para sair, quando o veem aproximar-se, voltam-se, como se fossem um só homem, na sua direção, e, ao vê-lo naquele uniforme, percebem instintivamente o que ele queria lhes dizer, ficando ainda mais alvoroçados.

— É isso aí, senhor, vamos pegá-los!

— O coronel é um dos nossos! Ele confia em nós!

— Hoje é um grande dia! — repete ele.

— Esse coronel é muito valente! — diz um soldado ao seu companheiro.

— Ao seu lado, a gente não sente medo, respondeu.

E se aglomeram ao redor do seu cavalo.

— Vamos para cima sim, meus amigos, nós somos todos soldados brasileiros, nada nos assusta nem nos detém no cumprimento do dever. Teremos daqui a pouco uma grande batalha na qual daremos o melhor de nós para nos tornarmos dignos dos que nos precederam. E falo não só dos grandes como Caxias, Osório, Sampaio, Mallet, mas também dos soldados, como vocês, que com eles partilharam suas jornadas, e hoje compartilham da celestial com eles, da mesma forma que nós, em breve, estaremos nos braços de Santo Antônio.

Os soldados entenderam que ele falava do Morro de Santo Antônio, no qual ficava a sede do batalhão. Um veterano aproximou-se emocionado, com lágrimas nos olhos.

— Senhor, é uma honra servir sob o seu comando.

— A honra é toda minha.

Ele estava alegre e falante, sentia-se à vontade, quando percebeu o jovem Cabo Colombo Sabino e chamou-o para junto de si. Abaixando-se, lhe diz:

— Quando rever seu pai, diga-lhe que foi uma honra conhecê-lo e que ele tem muitos motivos para ter orgulho do seu filho. Mande lembranças minhas ao povo de Santa Catarina.

O jovem cabo estranhou porque ele estava utilizando os verbos no passado, e ele quase o perguntou, não fosse o alvoroço ao redor. Pouco depois, empertigando-se no cavalo, o coronel gritou com toda a força:

— Sentido!

Todos correram para assumir o seu lugar de marcha, enquanto ele acelerava um pouco na direção dos oficiais. Enquanto se adiantava, os soldados gritavam, chamando-o pela sua patente, agitando o boné ou levantando os fuzis, fazendo um grande alarido, e lá seguia ele, num cavalo branco, com o seu uniforme de gala, também todo branco. Um alvo perfeito. Só faltava estar escrito em suas costas: “Se vão me matar, o alvo é este!” 

Os interessados receberam o aviso e se preparavam para a resposta no tempo oportuno. 

Pitombas

Meia légua depois, em Pitombas, ocorre uma escaramuça com as sentinelas de Canudos. Nesse tiroteio ocorre uma perda pessoal para o coronel: logo após os primeiros disparos, um esquadrão de cavalaria realiza uma carga temerária contra os atiradores e o alferes Poly Coelho, o seu braço direito, cai gravemente ferido. Outro que é ferido nesse combate, segundo relatos do Gazeta de Notícias (RJ), é o próprio Moreira César, com um chumbinho na omoplata — mostrando a precariedade das armas dos canudenses. 

Mesmo com esse desconforto, ele continua comandando ativamente as operações da tropa e ordena ao major Rafael Augusto uma carga de infantaria contra os tocaieiros.

O sétimo avançou firme sobre as sentinelas, que, surpreendidas pelo ímpeto da tropa, fogem. Na volta, sempre procurando atrair o major para o seu lado, e também porque ele o merecera, dirigi-lhe elogios — Augusto, segundo o seu relato, aproveita para mais uma vez dizer que aquilo era uma manobra e o pior os aguardava dentro da cidade. Alguns jornais do Rio, após a derrota da 3ª Expedição, reforçaram isso com histórias mirabolantes da coluna entrando numa Canudos, toda vazia, para ser atacada, de repente, por um número incontável de guerreiros bem armados e municiados, atirando de dentro de suas casas-fortalezas. Como se fosse uma cidade europeia.

O jornal República, de Florianópolis, reproduzindo matéria do República, do Rio de Janeiro, traz na edição de 6 de abril de 1897:

“Nesse primeiro tiroteio, foi ferido o coronel Moreira César, levemente, mas não menos dolorosamente, na omoplata, e o tenente Costa [da polícia], na coxa. Igualmente, sem gravidade.”

 

A morte de Poli Coelho.

Após o reinício da marcha, alguém vem anunciar-lhe que o alferes Poli falecera em virtude do ferimento. Ele fez alto e foi ver, pela última vez, o corpo do amigo, que ficara em Pitombas.

Ele mira o cadáver pensativo, e nesse momento tem um vislumbre do destino que lhe esperava, não diz nada, apenas olha o despojo, talvez pensando na sua própria morte. De alguma forma ele a antecipava. Bateu-lhe continência e saiu dali mais convicto do que nunca. Faz ainda uma última recomendação aos médicos e ao pessoal da retaguarda.

— Um soldado fica onde cai. Aqui não são os Pampas — o alferes era gaúcho — mas ainda é Brasil. Cavem uma sepultura digna para o alferes Poli Coelho e os outros, que em breve nos veremos. Voltou para a frente da coluna, onde ordenou, categórico:

— Major Rafael Augusto, mantenha seus homens na cola do inimigo. Corneteiro, toque acelerado!

Parece que o alferes Poli Coelho e um soldado foram as únicas baixas fatais que a coluna vai amargar antes de chegar a Canudos. Mais adiante, apresentam-lhe uma pequena espingarda sertaneja, modelo pica-pau ou lazarina, abandonada pelos atacantes. Ao vê-la, Moreira César, que já sabia da precariedade das armas dos sertanejos, brada: “Essa gente está desarmada!” Ao tenente Mário Barbosa, com uma companhia do 7º, é ordenado que espere, com a força da polícia e o esquadrão de cavalaria, que os médicos façam os primeiros curativos nos feridos, e depois sigam ao encontro da coluna.

É bom realçar aqui esse pequeno trecho do jornal Cidade do Rio de Janeiro, de 15 de março de 1897, chamado SUCESSOS DA BAHIA, 1ª página, produzido pelo correspondente do jornal na Bahia:

“A ambulância e o comboio vinham protegidos pela polícia; a cavalaria vinha comboiando o gado para a alimentação da brigada.”

Esse pequeno texto, referente a esse deslocamento, mostra o quanto é maldosa e pérfida a afirmação de que Moreira César atirou soldados cansados e famintos contra Canudos. Eles sempre tiveram comida, munição e descanso — segundo Dantas Barreto, quando saíram de Cumbe, a manada de bois, à disposição dos soldados, seria de 150 animais (Acidentes da guerra, Livraria Riograndense, Rio Grande do Sul, 1905, p. 95).

Considerando que cada bicho fornecia de 200 a 300 quilos de carne…   

Eduardo Simões.



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