terça-feira, 21 de março de 2017

LAURO OLIVEIRA LIMA E A REFORMA DA ESCOLA MÉDIA - 1

Prof. Eduardo Simões

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A primeira escola do mundo: a eduba sumeriana, que preparava futuros escribas (trabalhadores intelectuais).

A colocação do problema
__ No início de seu livro Escola secundária moderna; Forense-Universitária; 1976; pg 21-37;  Lauro faz uma profunda e muito útil, até hoje, reflexão sobre a natureza e o papel da escola secundária de seu tempo, o Ensino Médio de hoje. Que gostaria de compartilhar com você, leitor, na esperança de que lance alguma luz no momento em que a educação, o Ensino Médio em especial, sofre mais uma reforma de gabinete, embora reconheçamos que isso acontece não apenas por culpa do governo atual, como quer a oposição, que teve a oportunidade de lançar um debate sobre o tema e não o fez, preferiu debater propina com as empreiteiras, seja por um desinteresse generalizado pelo tema (considere-se a diminuta quantidade de pais que aparecem nas escolas para pegar a nota e discutir sobre a situação de seu filhos), seja pela conveniente falta de transparência dos políticos (havia um projeto de lei sobre o tema, tramitando ou “gavetando” há quatro anos, no Congresso Nacional).
__ Ele começa o texto chamando a atenção para a estabilidade e a clareza das discussões acerca do caráter da universidade e da escola primária, em nossa sociedade: a primeira sempre foi tratada em nossa sociedade como uma escola de aprimoramento profissional, enquanto a segunda “todos concordam que a ela cabe fornecer às crianças “técnicas fundamentais” que permitam acesso à [espúria] pirâmide escolar e um mínimo de maleabilidade dentro do sistema de produção”; uma mentalidade canhestra e vã que até hoje persiste – em algumas escolas de São Paulo se faz simuladão de dois em dois meses, em crianças desde o 6° Ano (!), para prepará-las para o vestibular e concurso público; numa brutalidade à natureza de meninos e meninas inenarrável – e que demonstra que ainda não aprendemos a ver seres humanos como tais, mas antes como máquina de trabalho, como no tempo da escravidão.
__ Mas o “nó” do sistema, segundo Lauro se apresenta no “ensino médio – esse período escolar indefinido e fluido que medeia entre a escola primária e a superior... No dia em que se começou a denominar de “médio” esse período escolar, começaram também as dúvidas sobre a sua definição. Sendo escola para “adolescentes” (pré e pós), foi sempre equívoca, como equívoca é essa idade que separa o mundo fantasmagórico da infância, descuidada e lúdica, do engajamento tranquilo ou traumático na sociedade adulto... a escola que a essa fase corresponde terá de enfrentar, de uma forma ou de outra, o problema do engajamento [do jovem na sociedade]. É na adolescência que o indivíduo forma o seu conceito de sociedade (aceitando ou recusando as normas, os valores e os símbolos culturais) e planeja a sua atuação com relação ao futuro de seu grupo social”. Há, portanto, uma questão psicossocial premente, que nem sempre a sociedade consegue lidar com o discernimento exigido para sua complexidade.
__ A escola, por sua vez, pode alimentar dois propósitos diferentes – Lauro os vê diferentes, enquanto eu os vejo, dentro de certos limites, complementares: ou se dedica “a conservação de normas, valores e símbolos culturais, isto é preservação cultural” ou “a reestruturação permanente da sociedade, isto é, manter o processo diacrônico na evolução das formas de organização e de produção sociais”. Lauro, por conseguinte, vê uma contradição ou uma oposição absoluta entre conservação e transformação, entre o “moderno” e o “antigo”, de que eu, porém, discordo, uma vez que nem tudo que é antigo ou “mais velho” é necessariamente não funcional, descartável, que não serve, como orientação e alicerce para as mudanças que virão. Se formos tão radicais quanto Lauro, nesse tema, teremos que admitir que não existe sequer evolução, pois toda mudança de fato uma transformação, com coisas diferentes surgindo, uma após outra, do nada ou de estruturas já existentes, que sumiriam com a transformação e que, portanto, ficariam assim inexplicáveis. Por mais profunda que seja a mudança, a evolução, algo da estrutura antiga sempre permanece.
__ “Ora, a conservação e a reestruturação podem... referir-se à superestrutura (escola intelectualista) ou à infraestrutura (escola vocacional), de modo que não é o fato de a escola ser verbalista ou profissionalizante que determina o seu conteúdo conservador ou evolucionista [o aluno de uma escola técnica não é mais “revolucionário” que o de uma escola compreensiva, generalista, supostamente “burguesa”], mas a forma da abordagem dos conteúdos”. Ou seja, o que torna uma escola revolucionária é o método que ela usa para abordar a realidade: se permite a pesquisa e a troca de opinião sobre os resultados e liberdade de inovação ou se tenta impor respostas padronizadas e fazer valer o peso da “autoridade”.

Um problema social importante
__ As sociedades tratam diferentemente o problema da ascensão das novas gerações: “há sociedades que preparam a inserção dos imaturos em seu contexto, através de um processo de acesso gradual, de modo que não se configura nelas o chamado conflito de gerações. Outras esmeram-se por conter o ímpeto da juventude, tudo fazendo para prolongar, indefinidamente, a sua imaturidade [pelo mimo ou pela repressão]. A escola média reflete rigorosamente essas posições, podendo aparecer como estímulo à autonomia e à criatividade ou como rigoroso treinamento para a conformação aos padrões sociais vigentes”, porém, seja qual for a sociedade, “homogênea” ou “estratificada”, a “escola pode ser crítica e criativa ou conformista e transmissora [= repetidora]”. Embora tenda a reproduzir no seu seio o tipo de relação social dominante na sociedade, a escola possui uma certa autonomia em relação à sociedade e um espaço suficientemente aceito para tentar novas combinações sociais, da mesma forma que a escola, de per si, não tem força de determinar ou modificar sozinha o se entorno social.
__ “Os responsáveis pelo planejamento da escola média sempre estiveram oscilando (como os próprios adolescentes que a frequentam) entra o mental e o manual, o aplicado e o teórico, entre o especializado e o geral [como acontece na reforma atual]... Por vezes é uma iniciação conservadora ou evolucionista... à vida comunitária, mas, quase sempre, transforma-se em uma mera escola de transição para os níveis superiores de ensino, adiando o problema do engajamento [juvenil], indebitamente transferido para o nível da universidade”. Isso é claramente perceptível na quantidade enorme de alunos que se transfere de curso, depois de ingressar na universidade, mesmo excluindo aqueles que buscam nos cursos menos concorridos, um atalho torto para outro curso de maior status.
“a) do ponto de vista da “profissionalização” e do “desinteresse” da escola média [antigamente se chamava a escola compreensiva ou generalista de “desinteressada”; desinteressada das coisas deste mundo para cultivar só o “espírito”], não se trata evidentemente de um problema pedagógico, mas de uma concepção de sociedade... Nos EUA e na URSS... a ambivalência da escola média foi superada, obtendo-se uma escola comum para todos os adolescentes (escola compreensiva e escola politécnica)” É importante considerar agora que Lauro não é fã incondicional do sistema americano, e ele o exporá mais tarde.
b) do ponto de vista do “manual” e do “mental”, do “aplicado” e do “teórico”... (maneira sutil de camuflar a discriminação socioeconômica), verifica-se que o problema não é de conteúdo, mas de forma; o mesmo material pode ser abordado como automatização e como reflexão, o que revela... que a dicotomia não é pedagógica [ou “tão pedagógica assim” digo eu], mas sociológica (sociedade fechada x sociedade aberta)”

Um pouco de história
__ Lauro então destaca que ao longo da história as incongruências da escola média mudavam ao sabor das mudanças sociais, determinadas por uma evolução amarrada a múltiplos fatores. A escola, em primeiro lugar, surge como um apêndice da superestrutura social, para aprimorar os conteúdos e práticas considerados a partir dos interesses daquela, que variam de acordo com a natureza do grupo ou da classe que controla essa superestrutura: “a escola nasceu como uma atividade que se opunha à ‘manualidade’”, numa sociedade que se dividia em homens livres e escravos, e por muito tempo manteve esse viés aristocrático, discriminatório, inclusive quando tentava disfarça-lo.
__“Os titulares das carreiras liberais não eram propriamente especialistas que prestavam serviços assalariados, mas homens livres que se dedicavam, por idealismo, (daí dizer-se, por exemplo, que a Medicina é um sacerdócio) a determinadas ‘artes liberais’ (medicina, engenharia, advocacia)... [daí que esses profissionais] não recebiam (ou não recebem) ‘pagamento’, mas ‘honorário’ (de honor, oris = honra, em latim)... os artistas [principalmente no início dos tempos modernos] dependiam dos mecenas para sobreviver, pois a sua atividade nem correspondia a uma arte liberal nem a um artesanato ou ofício manual. A arte, representando a rebeldia do espírito e a criatividade, foi sempre tida como uma atividade suspeita...”
__ “De fato, as chamadas artes liberais, no fundo eram apenas ‘literatura’ (no sentido pejorativo: elucubração mental) sem fundamentação científica nem tecnologia específica”. Mas é claro que foi assim e não poderia ter sido diferente, afinal a ciência moderna e a tecnologia dela decorrente é fruto de secular maturação, desde os alquimistas da Idade Média até a Teoria da Relatividade, passando por Copérnico, Galileu, Bacon, Lavoisier, etc. Lauro, no seu furor iconoclasta comete aqui, a meu ver, uma injustiça com a Idade Média e peca por anacronismo por julgar a escala de valores usada em um momento histórico pelos critérios ou escala de um período subsequente, mas a conclusão que ele tira daí é genial! “Na medida em que as artes liberais (e em parte as belas artes) se vão configurando como profissão (trabalho remunerado), começa-se a indagar se a universidade é mera escola profissional, fazendo a crise da escola média atingir o Ensino Superior”
__ Com o aprofundamento da Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX, “as máquinas [assumindo o trabalho manual] foram como que ‘liberalizando’ as profissões a ponto de não ser mais possível distinguir, hoje, com precisão, as atividades manuais das atividades intelectuais. Tradicionalmente, pois, a profissão se opunha ao conceito de escola (lazer, em grego). O que era profissão, por definição, não podia ser escola”. De fato, até fins do século XVIII, em virtude da simplicidade e do ‘primitivismo’ da tecnologia, muitas máquinas da Primeira Revolução Industrial foram inventadas por mecânicos diletantes e sua manutenção entregue, às vezes, a marceneiros ou carpinteiros. As profissões eram aprendidas em casa e passadas de pai para filho ou por meio de corporações de ofício, que, no Brasil, isso se estendeu até muito dentro do século XX, quando jovens pobres iam morar junto a um mecânico para aprender a consertar automóveis. Aliás, diz Lauro, “esse processo continua até os nossos dias, nas oficinas e nas fábricas, e talvez seja a única forma realmente eficiente de se aprender uma técnica... Mão se conhece escola profissional que faça o aluo transitar da sala de aula para o sistema de produção sem um ‘estágio’, ocasião em que realmente aprende uma profissão. As situações escolares são muito artificiais para levar a uma autêntica profissionalização. A profissão é constituída em grande parte, mas cada vez menos, de sequências estereotipadas e automáticas de conduta [muita linha de produção ainda é assim, hoje] que só podem ser aprendidas no próprio trabalho”. Essa mais pura verdade relativiza, e muito, o poder de panaceia que alguns querem dar às escolas técnicas e ao ensino profissionalizante, que nos parece, mais uma vez, uma solução meia-boca paternalista, feita para atender as crianças mais pobres, mantendo-as “no seu lugar”, uma vez que não têm recursos para financiar um curso superior e os governos têm se mostrado muito sovinas e pouco criativos nessa questão. Falta interesse.
__ Isso chega quase a parecer arcaico, mas no parágrafo seguinte ele complementa: “O que caracteriza ainda hoje o conceito de profissão não é a manualidade, mas a estereotipia e a automatização, apesar de, cada vez mais, aparecerem tarefas que exige flexibilidade operatória e alto grau de criatividade”. Isso dito no início dos anos 70 é muito revolucionário! Mas antes que saiam por aí dizendo que a escola deve preparar o trabalhador do futuro, que deverá ter um rol de habilidades e competências dignas de um superhomem, pela quantidade e o grau com que se exige, é preciso dar um “pare”, e argumentar a esses “fazedores” de política educacional, que nem todo mundo vai, ou quer, ser executivo de grandes multinacionais. A linha de produção moderna, por sinal, está tão complexa e diversificada que há lugares para todos, e a pior coisa que uma escola pode almejar é “fabricar” profissionais, como se fabrica uma mercadoria qualquer numa linha de produção, todos iguaizinhos, milimetricamente esquadrinhados e cinzelados, inclusive em suas predisposições internas, a pretexto de criar o profissional de um futuro idealizado, que ninguém sabe exatamente qual será.... (continua)
   
 

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Quadro Uma escola rural em 1848 do suíço Albert Samuel Anker (1831-1910).

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Escola de crianças bretãs,  de Jules Trayer (1824-1909)

domingo, 19 de março de 2017

O QUE ACONTECE QUANDO O ANJO DA GUARDA TIRA FÉRIAS


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quarta-feira, 15 de março de 2017

CINGAPURA SE RENDE - PISA DESMORALIZADO - LAURO OLIVEIRA LIMA TINHA RAZÃO.

Prof Eduardo Simões

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Frustração: “Ah, se eu conseguisse que os meus alunos, pelo menos, acompanhassem o jornal da televisão, vez ou outra!

__ Na edição online da agência de notícias inglesa BBC, em português, de 11/03/2017, nossa atenção é chamada para o título: Porque Cingapura, 1ª no ranking mundial, quer reduzir o foco em notas na escola. O texto é claro, a eterna campeonissima do PISA está ansiosa por saltar do “barco” behaviorista e safar-se dos efeitos maléficos de uma educação feita para amestrar animais de circo ou ratos de laboratórios, que como certos psicólogos e gestores educacionais enxergam como seres humanos (matéria completa http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39203674).
__ Segundo o texto do site, escrito por uma das autoridades educacionais mais prestigiadas em Cingapura, a professora Lim Lai Sheng, que tem alguns vídeos bem provocadores já postados no Youtube, um dos quais é Today’s Students Tomorrow’s Underemployed’s (alunos hoje, subempregados amanhã), já começa dizendo a que virá essa nova reforma: criar “uma postura mais positiva nos alunos e em sua capacidade de enfrentar situações adversas”, que jamais poderão ser reproduzidas em canhestras provas de múltipla escolha ou em currículos escolares que privilegiam essas provas.
__ Em seu livro Mutações em educação segundo McLuhan, de 1971, Lauro Oliveira Lima diz provocador: “Já não se pode dizer que a escola é uma “preparação para a vida”, uma vez que só os profetas podem prever como será a vida das crianças que hoje entram na escola. Uma disciplina que prepararia o aluno para a vida... seria Ficção Científica... O que os alunos precisam para enfrentar o ano 2000 é da flexibilidade operatória de seus esquemas de assimilação e não de respostas aprendidas (learning, dos americanos) [que é o que praticamos compulsivamente na preparação para exames como SARESP, AAP, PISA, etc.]. Quanto menos hábitos intelectuais fixos e mais poder de adaptação à situação nova [ou “adversa”, como diz a senhora Lim] mais preparado estará o jovem para a vida... A evolução da educação não procurará mais... separar [como acontece na escola atual], mas integrar o homem no seu contexto universal. A expressão “preparar para a vida”... tornar-se-á um absurdo. Não há uma vida previsível para a qual se possa preparar alguém. A todo momento, através dos retro-efeitos (feedback) a vida irá se transformando, segundo uma lei geral das probabilidades (auto-regulação). Foi a estratificação da sociedade que criou a necessidade de escola [e de exames de comprovação por mérito]: a escola foi mais um instrumento de estratificação da vida (desestimulação da criatividade), que fator de reequilibração permanente. A tecnologia levou, de roldão, em sua permanente criatividade, a estabilidade cíclica [a anualidade escolar] dos sistemas simbólicos (arquiteturas puramente ideológicas)” (14ª edição; Vozes; 1985; p 14-15 e 60-61). Bem no alvo! Os cingapurianos descobriram isso, com 46 anos de atraso! Nós, os brasileiros, quanto mais ainda vamos esperar?
__ O resultado da busca exclusiva por excelência acadêmica e primeiras notas em exames, por Cingapura, diz a senhora Lim, fez as escolas “se tornarem espaços estratificados e competitivos [não é esse o objetivo do behaviorismo americano?]. Famílias com renda mais alta têm mais capacidade de oferecer às crianças atividade extra... aulas de reforço... Os que não podem arcar com esses custos dependem da motivação pessoal das crianças, e dos recursos oferecidos pela própria escola...” Ou seja: a escola “made in PISA”, baseada no desempenho acadêmico e no controle por meio dos exames, agrava as desigualdades sociais, justo aquilo que a escola se propõe combater. É o fracasso completo! A melhor resposta a isso é o modelo finlandês: escola pública, para todos sem exceção e sem busca pelo desempenho, antes pelo desenvolvimento integral da criança. Uma educação, vista a partir do que é essencialmente humano, e as pessoas tratadas como fator e estratégico fundamental, algo muito difícil em uma sociedade tão marcada pela escravidão como a nossa.
__ A descrição dos males, pela senhora Lim, prossegue: “A divisão social no país está cada vez maior, porque as práticas do sistema educacional baseadas no princípio da meritocracia que renderam elogios a Cingapura não promovem mais a mobilidade social como deveriam.  Está em curso um trabalho para combater tudo no sistema que esteja prejudicando a coesão social [a preocupação com a “coesão social” foi, segundo Pasi Sahberg, um dos pilares da reforma do sistema escolar finlandês, em 1970]... Essa atualização terá de assegurar que o país possa criar uma sociedade mais justa, construa um sólido pacto social entre seus cidadãos e, ao mesmo tempo, desenvolva suas capacidades para a nova economia digital. As políticas estão se distanciando da obsessão nada saudável de pais e alunos por notas e vagas nas melhores escolas e enfatizando a valores e princípios. Escolas estão sendo encorajadas, especialmente as do ensino fundamental, a riscar do currículo exames padrões e focar no desenvolvimento integral da criança”.
__ A base psicológica para as mudanças foi encontrada no trabalho do americano Martin Seligman, da Pensilvânia. “ O modelo proposto por Seligman sustenta que o sucesso acadêmico e o bem-estar formam uma dupla hélice, e que a melhor educação deve ensinar crianças sobre valores e caráter bem como a interagir com outras pessoas, estabelecer metas para elas mesmas e trabalhar para alcançar esses objetivos. A "educação positiva"... trabalha para criar uma cultura escolar de relações baseadas em atenção e confiança [algo que jamais será alcançado com a fiscalização compulsiva e a obsessão por controle como existe hoje, por exemplo, nas escolas de São Paulo]. O foco está em desenvolver habilidades emocionais, intelectuais e encorajar um estilo de vida mais saudável...” Isso é uma necessidade humana fundamental, que as nossas autoridades educacionais esqueceram!
__ Até o Ensino Médio perde o seu caráter obsessivamente profissionalizante, e se abre para uma formação mais geral. “No ensino médio do país, programas ensinam jovens a serem mais empáticos, socialmente responsáveis e ativos em suas comunidades, estimulando o trabalho com idosos, migrantes e crianças em creches - cujos pais trabalham em tempo integral”. Que diferença do que se está querendo implantar em nosso país! As reformas alcançam inclusive o nível superior: “houve iniciativas pedindo que escolas e faculdades tivessem um processo de admissão mais flexível, com a avaliação de qualidades como motivação, resiliência e entusiasmo... Em nome da equidade, o Ministério da Educação também tentou distribuir recursos de forma mais uniforme em todas as escolas, promoveu um rodízio de diretores mais experientes naquelas que precisam de mais atenção. De forma geral, as autoridades defendem uma definição mais ampla de sucesso, que vá além das notas acadêmicas. Mídia e escolas de elite têm sido desencorajadas de fazer propaganda de seus melhores alunos e suas respectivas conquistas acadêmicas”. Coitados dos cursinhos de lá! Se é que tem algum! “Trata-se de uma abordagem mais suave, enfatizando valores e princípios e tentando aprimorar o elo entre escola e trabalho. É a busca para a próxima fórmula da educação em Cingapura”.
__ É, enfim, o esvaziamento proposital, estratégico do culto às provas e exames que se tornaram, em nosso país, em especial no nosso estado, uma compulsão nacional, em favor de uma avaliação mais abrangente e voltada para a adaptação do jovem ao ambiente social, ao trabalho, que é muito mais que saber dos princípios que movem as máquinas, os sistemas de informação, as transformações bioquímicas, etc., à vida, que sempre foi muito maior que a instituição escolar, à qual nossas “autoridades” teimam reduzi-la.

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O que foi que nós fizemos com os laboratórios de ciências de nossas escolas públicas? Conheci um, em minha cidade, repleto de equipamentos e de uma infinidade de substâncias químicas, em vidros ainda lacrados, que fora transformado em quarto de despejo, e camarim de teatro improvisado! Eliminamos os laboratórios de ciências para substituí-los por experimentos simulados no computador (dá para adquirir know-how em ciências vendo simulações na TV?). Agora nossos os professores dão aulas em ciências com cuspe e giz ou amparados em laboratórios manuais improvisados, insuficientes para o grande número de alunos, onde quem faz a experiência é quem menos precisa: o professor.

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As garotas islâmicas de Cingapura estão muito mais preparadas e competentes para o ramo das ciências e sobreviver no mundo do futuro, que a maioria dos alunos de nossas escolas públicas. Nada substitui a experimentação PESSOAL.

O mestre com a palavra
__ Lauro O Lima tem um capítulo magistral e profético sobre avaliação no seu Escola secundária moderna, de 1976. Ouçamo-lo:
“A seleção dos mais aptos... não se deve basear em “conhecimentos atuais” apurados numa emergência (por exemplo vestibulares e exame de admissão), mas nas aptidões gerais constatadas em longos e meticulosos períodos de observação [o fim do vestibular!]. Quando a observação não é correta os privilegiados levam vantagem”.
“O conceito de verificação de rendimento escolar, portanto, tomou outro sentido: “não é mais o meio para reprovar alguns... mas recurso para diagnosticar os alunos que merecem auxílio suplementar... por vezes um prato de sopa [a fome] é a diferença entre aprovação e reprovação”. A fome de pão, muito presente naquela época, foi parcialmente removida pela merenda escolar, mas e a fome de atenção e afeto, em meio ao colapso das famílias?
“Usar provas e exames como recurso de coação para promover o estudo não só demonstra a incapacidade do professor para liderar a classe, como cria tensões psicológicas altamente prejudiciais... o medo é fonte de desajustamento”. Essa tensão foi hipocritamente atenuada pelo método da aprovação automática, sem um atendimento extra adequado aos alunos com dificuldade. E para provar que nossas autoridades não mudam, os exames continuam “recurso de coação”, usado agora contra os professores, que tem seus ganhos atrelado ao rendimento de seus alunos em provas que não passam de uma grande farsa!
“o sistema de verificação que consiste em comparar alunos entre si [com acontece no SAREP, PISA, AAP, IDEB, etc.] não só é profundamente injusto (dadas as diferenças individuais) cm provoca hostilidades, desavenças, quebrando a desejável solidariedade que deve ser cultivada na juventude... As comparações criam competição, ódio, inveja, desânimo [quebram a coesão social; não é isso que os cingapurianos estão descobrindo hoje?]. Uma escola deve ser um centro de treinamento da cooperação [veja uma escola assim em  https://www.youtube.com/watch?v=nDXDrvd1utE]. 
““Se o aluno não aprendeu, o professor não ensinou”... não descobriu a forma própria com deveria para orientá-lo ou as causas que impediram a aprendizagem [impossível hoje nas salas superlotadas das escolas paulistas, com o dobro de alunos das congêneres europeias e americanas].  O professor deve ser um especialista em diagnosticar e em orientar aprendizagem”. Não é isso que se tenta fazer, hoje, nas escolas de tempo integral, e mesmo na atual reforma de Cingapura (ver o artigo completo), embora no caso brasileiro essa pressão toda não é tanto para promover o bem do aluno, mas para compensar uma certa “má impressão” de que o nosso professor “trabalha pouco”.
“Não deve haver horas especiais de verificação... Foi o sistema de aulas expositivas que criou a necessidade de testes, provas e exames. Substitua-se o processo pela atividade e desaparecera o imperativo das avaliações cíclicas”.
“O sistema traumático das provas e exames mede menos o rendimento real e as aptidões que o equilíbrio emocional... Provas e exames medem mais a resistência emocional que o nível intelectual”.
“Os alunos devem ser educados para a solidariedade... e não para a desenfreada competição”. É o que os cingapurianos buscam agora, seguindo as pegadas dos finlandeses, enquanto nós nos sentimos à beira da guerra civil ou já a experimentamos de uma forma não oficial, na criminalidade crescente.
“Provas e exames, dificilmente, permitem verificar o comportamento do indivíduo numa “situação de vida”... selecionam num sentido artificial desligado dos problemas da vida real”.
“O que não se deve fazer... estimular qualquer forma de memorização [inevitável em provas múltipla escolha]... a memorização é um subproduto da atividade racional [e é tanto mais aguçada quanto maior é o interesse do aluno pelo assunto]... Fazer julgamentos milimétricos [notas com décimos]”.
“Estimular os alunos a criticar os julgamentos dos autores que usam [e até os do professor]... O professor não deve adotar como critério de julgamentos o “conformismo”, mas a capacidade de encontrar novas soluções”. Como criar essa inteligência plástica, adaptável, com provas de múltipla escolha?
“As chamadas “provas objetivas”... são uma contrafação da objetividade (Quando se fala em “objetividade” a propósito destes testes, trata-se apenas de evitar a subjetividade do professor)” O que é uma aberração!
“O atual processo de verificação funciona menos como um instrumento científico de avaliação... que como um recurso de atemorização para levar os alunos a estudar, dada a generalizada incapacidade do magistério para entusiasmar os jovens [as carências atuais do professorado são agravadas pelo colapso da família e dos valores sociais]... promove a hipertrofia... do aspecto de memorização, de vez que as questões de arguição, provas e exames, para serem objetivas (sic!) solicitam apenas a reprodução de conhecimentos que possam ser comparados com os existentes nos manuais [de onde a farsa de chamar essas provas de “múltipla escolha”, como se o aluno pudesse escolher outra opção que não a “certa”, sem baixar a nota]  
__ Muito mais foi dito sobre esse assunto por Lauro, mas acho que está mais do que claro de como Lauro antecipou em várias décadas o que hoje é visto como o suprassumo da educação moderna. Quem o escutou?

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Acima, incrível escola primária de Anyang, criada a partir de modelo do arco-íris. É uma gente que investe pesado na educação e o faz de maneira a atender às necessidades da criança.
A “maldição da educação”! Um prefeito de minha cidade, aconselhado por alguma múmia desorientada, ou, segundo alguns, para fazer uma homenagem à maçonaria, resolveu edificar em algumas escolas municipais uma biblioteca e espaço cultural em forma de pirâmide. O resultado foi um interior muito claustrofóbico, com a sensação de paredes caindo sobre o visitante, sem falar da perda colossal de espaço interno útil. COMO É QUE NINGUÉM FALOU PARA ESSE HOMEM QUE PIRÂMIDE É MONUMENTO FUNERÁRIO, E QUE NÃO SE CONSTRÓI MONUMENTO FUNERÁRIO EM ESPAÇO DEDICADO ÀS CRIANÇAS. Nada exprime melhor a falência da educação brasileira e o nosso desapreço pela infância do que uma coisa dessas!!!!    

A recepção do futuro no Brasil
__ O professor e autoridade educacional finlandesa Pasi Sahlberg diz que nas escolas finlandesas o professor se preocupa menos em ensinar conteúdo que ensinar o aluno a aprender. Vejam esse episódio que escutei de Lauro mesmo:
__ Na metade dos anos 1960 ele estava preso numa cela do 23º Batalhão de Caçadores, por envolvimento no projeto de educação “comunista” de João Goulart. O Capitão que o interrogaria estava particularmente nervoso, com uma pilha de papéis e livros de Lauro sobre uma mesinha.
__ “Que significa isso?” Perguntou
__ “Minha crença pedagógica!” Foi a resposta
__ “Mas porque se repete tanto? Por que essa frase foi posta tão repetitivamente em várias páginas de seus escritos?”
__ “Para ressaltar e fixar-se naqueles que os lerem. Não tem gente que canta o hino nacional todo dia? (os militares por exemplo)”
__ Os presentes se entreolham, enquanto folheiam nervosos aquelas páginas. “Só pode ser!” Diz um. “É, responde outro, deve ser a “senha” para alguma ação subversiva, que pode estar para acontecer!” O capitão toma uma decisão: “Avise a todos os comandos militares e policiais, para que procurem algo igual ou semelhantes em outros documentos subversivos já aprendidos, e que estejam atentos a isso nas próximas prisões e desmantelamento de células!”. E virando-se para Lauro disse ameaçador: “Nós vamos descobrir o que é isso, e vamos acabar com vocês; comunas filhos da.....”
__ Dessa época, também me lembro de um testemunho de uma filha de Lauro, relatando, com lágrima nos olhos, que muitas pessoas, que antes viviam na casa deles, algumas pedindo ajuda, que não lhe era negada, depois dessa prisão começaram a mudar de calçada, à vista do professor ou de seus familiares, para não ser constrangida a lhes dirigir a palavra...
__ A propósito, a frase que tanto dissabor causara a Lauro naquele momento, pode ser lida, solta no canto inferior de algumas páginas do Escola secundária moderna, e diz o seguinte:
__ O PROFESSOR NÃO ENSINA: AJUDA O ALUNO A APRENDER.


quinta-feira, 2 de março de 2017

LIÇÕES FINLANDESAS 2.0 E O SONHO DE LAURO DE OLIVEIRA LIMA - 1

Prof Eduardo Simões

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__ Conheci e privei com Lauro de Oliveira Lima, para mim um dos maiores educadores que o mundo já conheceu, um revolucionário com um descortino de visão impressionante, numa área do conhecimento marcada pelo tradicionalismo, o que o torna ainda mais raro. Seus textos sobre educação são os únicos que fazem algum sentido para mim, porque dizem coisas, descrevem situações, que eu posso facilmente identificar na realidade, uma vez que Lauro não fica apenas na divagação abstrata, nas grandes dimensões éticas, antropológicas, políticas, etc. do agir pedagógico, próprio de quem não tem muito claro onde quer chegar, mas busca ensinar aos seus leitores, de maneira por vezes confusa, por causa de sua abissal erudição, como fazer, passo a passo, para alcançar um fim almejado.
__ Suas palestras eram impressionantes. Seu humor cáustico disparava como uma metralhadora, não perdia uma piada, já os amigos... A sua erudição espetacular, as relações inesperadas e geniais que criava entre os fatos mais insignificantes, faziam-nos ficar mobilizados, de modo a não perder uma palavra, do princípio ao fim. Mas era um provocador! Um provocador compulsivo, que não raro incitava o horror e repulsa de parte considerável dos ouvintes, incapazes de perceber o caráter metafórico e o objetivo mobilizador, didático, de suas provocações. Noutras palavras, eram esses os ignorantes, os acomodados, os conformados com o status quo, que constituíam a maioria na educação do país, e que arrastaram a nossa escola formal para o fundo do abismo onde hoje se encontra.
__ Sim, Lauro lutou como um leão para que nossa educação fosse diferente, e pagou o preço de ter olho são em terra de cegos, mas estes sofrerão mais e, infelizmente, muito mais do que eles, os seus filhos, pois a causa de Lauro, e daqueles que admiram as suas ideias, é o pleno desenvolvimento de jovens e crianças, cada vez mais comprometido nesse manicômio em que se transformou o sistema escolar brasileiro, onde cada reforma não passa de uma grosseira repaginação de antigas práticas, já aleijadas de tão decrépitas e de tão errado que que deram... É mais do mesmo, até ver se a quantidade se transforma magicamente em qualidade, como nos livros de fábulas.
__ A pregação profética de Lauro começou no final dos anos 50 e alcançou plena maturidade nos 70, até que, por força das circunstâncias políticas, uma vez que estava associado às iniciativas educacionais do governo João Goulart, foi perseguido pelo Governo Militar, preso, cassado e precocemente aposentado, junto com a elite brasileira pensante na época, num movimento de pura vingança ou para não deixar dúvidas sobre a densidade das trevas do novo regime, que alguns ensandecidos, ignorantes, pedem hoje, nas ruas, para que volte. Nessa situação tremenda, tipicamente latino-americana, Lauro montou, sobre os alicerces da mais profunda e consistente teoria do conhecimento existente, a de Jean Piaget, um projeto de educação e de escola, que nunca chegou a se concretizar plenamente, uma vez que visava todo o Brasil, mas que deu frutos na escola fundada por ele e seus filhos no Rio de Janeiro e em Fortaleza, e numa escola fundada por mim e minha esposa em Guaratinguetá – 14 anos após sepultarmos essa nossa escola, recebemos de um ex-aluno, que agora reside na Austrália, um depoimento emocionante: “foi a melhor escola que eu já estudei na minha vida”, enquanto funcionava muitos pais nos contaram que seus filhos os importunavam no sábado e no domingo... para irem à escola! Resta-me um consolo: eu vi essa escola funcionando no Brasil!
__ Em terras de... de... de quem mesmo hein? Não sobrou ninguém da plêiade de grandes educadores brasileiros dos anos 50 e 60. Os porta-vozes da educação atual ou são militantes fanáticos de esquerda, prontos a usá-la como degrau para a conquista do poder a qualquer preço, ou empresários, economistas, estatísticos, administradores, de uma direita neobehaviorista, que não consegue pensar em outra coisa que “mão-de-obra” qualificada, nem barata nem cara o bastante para não parecer escravidão ou servidão medieval, sem deixar completamente de o ser, nem reduzir os lucros da escola-empresa ou sobrecarregar as despesas do Estado. O importante é que essa mão-de-obra se preocupe com desempenho e não pense muito, como os ratos de laboratórios de Watson e Skinner, o escravo romano antigo e o servo da gleba medieval. O trabalhador brasileiro deve viver para trabalhar, apertar botões no momento certo, como os ratos de Skinner vivem para apertar alavancas, a fim de receber sua porção diária de comida.  Voltamos às cavernas...
__ Nesse ambiente não é de admirar que um pensamento educacional tão avançado, fulgurante e desafiador, como o de Lauro O Lima, se encaminhasse lentamente para o ocaso, não fora um caso fortuito e espetacular. No final da primeira década do século XXI começou a ser noticiada pela imprensa a existência de um modelo educacional estonteante, capaz de arrastar ao seu país de origem, levas de educadores do mundo inteiro a perguntarem assombrados: “mas o que é que está acontecendo aqui? É o contrário de tudo que estamos acostumados a considerar “sagrado”, “intocável”, na educação, e aqui funciona muito melhor!” O sistema educacional finlandês subverteu todos os conceitos e crenças da “boa” educação e ameaça deixar o resto da humanidade para trás, se não aprender logo a sua lição! Avançando mais na leitura e nos vídeos sobre essa maravilhosa revolução educacional percebemos, pasmos, que essa estrutura é quase idêntica àquela que o professor Lauro buscava instaurar no Brasil, há uns 50 ou 40 anos atrás, e pela qual ele pagou tão caro!
__ Lauro previu e planejou para o Brasil, com décadas de antecedência, aquilo que hoje é considerado o maior fenômeno educacional do mundo e, decerto, a maior glória desse pequeno país do norte, enquanto o nosso país, em matéria de educação... Lauro, se estivesse vivo hoje, bem que poderia dizer aquelas palavras de Darcy Ribeiro: “fui derrotado em todos os projetos educacionais que sonhei para o Brasil, mas eu não queria estar no lugar dos que me venceram!”      

Duas divergências importantes, mas não fundamentais
__ Filho do seu tempo, o efervescente Brasil dos anos 1950 e 1960, Lauro era um pessimista em relação à nossa sociedade, que ele via como que encruada em antigos costumes patriarcais, herdados do império e quiçá, do período colonial, controlado por pessoas de mentalidade estreita e repressora, que jamais permitiriam a crianças e jovens desenvolver toda a sua potencialidade. A melhor coisa a fazer, portanto, seria separar as crianças dessa sociedade, em escolas transformadas em comunidades educacionais, pelo maior tempo possível, até tornarem-se plenamente sujeitas de todo o imenso cabedal de conhecimento e inteligência que a natureza dotou a nossa espécie, aptas, por conseguinte, a revolucionar nossa sociedade estagnada. Lauro e a sua geração tinham pressa. Nesse sentido ele apoiou a escola de tempo integral e o aumento da carga horária letivo – no seu livro Escola secundária moderna ele apresenta essa questão de forma tão dimensionada que até parece ver aí a panaceia salvadora de nossa educação. A crise da segurança pública atual parece indicar que a escola pública é o melhor, caminho na atualidade, para nossas crianças e jovens. Já que o Estado não consegue dar segurança aos cidadãos...
__ Por caminho bem diferente foram os finlandeses, segundo  Pasi Sahlberg. A reforma da educação finlandesa foi considerada desde o início como uma condição e uma consequência necessária da reforma da sociedade finlandesa. O sucesso da reforma escolar dependeria assim do sucesso nas tentativas de legisladores finlandeses em reduzir as desigualdades sociais, em estabelecer uma sociedade mais justa para todos, e seria, ao mesmo tempo, um fator de aceleração desse mesmo processo de mudança social. Nesse sentido a sociedade torna-se uma extensão da escola e vice versa, no que tange aos cuidados com a infância, e um importante fator de experiências tanto cognitivas como emocionais, assim como a escola, sendo inclusive muito benéfico e esperado que a criança conviva ao máximo com sua família e comunidade de origem – as pessoas não imaginam o bem que faz a uma criança poder circular sem medo nas ruas do bairro e da cidade onde mora – não sendo, portanto, de admirar que o seu ano letivo e a carga horário dos estudantes finlandeses na escola sejam uma das menores do mundo.
__ Lauro frequentou uma escola que eu nem consigo imaginar seus méritos e suas deficiências. Ele, porém, percebeu mais a estas, principalmente aquelas derivadas da ação direta do professor, que nós sabemos que existem, embora não seja politicamente correto ou “revolucionário” apontá-las. Mas Lauro não se importava em ser politicamente incorreto, antes até considerava isso um atestado de inteligência, numa sociedade onde todos primavam por ser politicamente corretos, acomodados e submissos, e por isso ele estabeleceu como meta – ele me falou isso uma vez, numa conversa densa, recheada de maresia, nas areias da Praia do Futuro, em Fortaleza – criar “um método à prova de professor”, podendo passar para os mais desavisados que, para Lauro, o grande adversário da boa educação era o professor. Ele tinha muito péssimas memórias de seus professores, e às vezes era cruel e expunha publicamente as deficiências de professores consagrados, mas ele também era muito crítico em relação aos pais, em especial as “má-mães”, e as babás, que enchiam a mente das crianças de medos infundados. Para Lauro o cerne do sistema educacional era a criança, e não atender, por uma deformação da personalidade ou por puro comodismo, às necessidades naturais desta um crime.
__ Bem diferente, parece, o sistema finlandês onde o realce da pessoa do professor é mais do que evidente. O professor passa por uma “peneira” tremenda, e logo após esta uma preparação rigorosíssima, e então estará pronto a ser admitido em sala de aula. Na escola de Lauro também havia um sistema rigoroso e diário de formação do professor, que fazia com que sua escola, apesar de ser privada, não hesitasse em ficar com o professor, quando de uma pendência em que o aluno estava errado, porque os gestores da escola sabiam o quanto lhes custava preparar um professor minimamente apto para aplicar o seu complexo planejamento. E era estritamente a esse planejamento, às atividades nele descritas, que o professor tinha que se ater, embora sempre houvesse alguma liberdade para a criatividade. O sistema finlandês, ao contrário, dá completa liberdade aos seus professores, inclusive para, se acharem conveniente, dar as suas aulas usando apenas lousa e giz! Ele tem total liberdade sobre o método a ser usado e as formas de avaliação cognitiva, que por sinal lá são raríssimas, ao contrário do sistema de Lauro em que as avaliações são constantes. Os finlandeses colocaram o professor num patamar superior, e fizeram dele a principal coluna de seu sistema.
__ Eu, pessoalmente não me inclino nem a um nem a outro. Eu acredito que o cerne do sistema educacional escolar é uma relação, a relação professor-aluno, secundada pela outra que também é fundamental: a relação criança-família. Nesse sentido eu concordo com os finlandeses quando afirmam que nenhuma reforma de longo alcance atingirá o seu objetivo se, concomitante a ela, a sociedade também não se reformar, e as famílias não tiverem melhora real na sua qualidade de vida, no sentido mais abrangente possível desse termo. Também concordo com eles quando afirmam que nenhuma reforma duradoura acontecerá sem a participação fundamental, indispensável do professor, de onde a necessidade estratégica de turbinar as suas condições de trabalho, o seu status social e, em consequência, o seu salário; mas também concordo com o professor Lauro por achar que o professor deve conhecer tudo que puder sobre psicologia infantil, psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem – aliás esta parece ser a grande ausente nos debates sobre educação implementados pelos finlandeses, nos quais não se consegue perceber a matriz psicológica infanto-juvenil que os guia – de tal sorte que antes que um “expert” em alguma matéria o professor deve ser um especialista em criança. Haja psicologia! Cada vez mais!  
__ Bem, já que o nosso xenocentrismo, nosso complexo de inferioridade, nos fez perseguir a Lauro de Oliveira Lima e ignorar sistematicamente o seu chamado profético a uma educação escolar de qualidade, muito à frente de seu tempo, só nos resta aprender a um custo muito maior, mas de uma fonte também segura, embora estrangeira, os ditames de uma educação escolar que realmente funciona para além das promessas dos políticos, dos números e gráficos de pesquisas encomendadas, que de quatro em quatro anos tentam nos convencer que temos um dos melhores sistemas escolares do mundo, até o próximo exame internacional nos mostrar, cruamente, justo o contrário. Recuperemos com os finlandeses a educação que desprezamos com nosso Lauro de Oliveira Lima. É o mínimo que podemos fazer por nossas crianças e... professores.
__ A estes dedico esse trabalho.
   


LIÇÕES FINLANDESAS 2.0 (DE PASI SAHLBERG)

Tradução, entre aspas e em itálico, e comentários [entre colchetes]: Eduardo Simões

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Escola Kanniston, em Helsinque

Prefácio da Segunda Edição (Salhberg)

“Quando eu sou convidado para falar sobre lições finlandesas... Eu sempre começo chamando a atenção sobre três questões que merecem destaque. Primeiro, minha intenção com esse livro e na apresentação do sistema escolar finlandês não é convencer a minha audiência de que a Finlândia tem o melhor sistema educacional do mundo. A imprensa internacional e alguns especialistas criaram a falsa impressão de que existe uma métrica universal para determinar qual é o melhor – ou o pior – sistema educacional do mundo... quando o primeiro resultado do PISA foi divulgado em 2001, mostrando a Finlândia em primeiro lugar, alguns finlandeses disseram a si mesmos: “nós devemos estar fazendo alguma coisa errada, para sermos os melhores em um exame de avaliação estandardizado, que mede as aquisições dos alunos em três áreas do conhecimento acadêmico...”
[eles, entretanto, não estavam fazendo nada errado, mas apenas ativaram, talvez sem o saber plenamente, o principal motor da aprendizagem inteligente – que é extremamente adaptativa – a motivação, a mobilização da afetividade, fruto de métodos e expectativas sociais saudáveis sobre crianças e jovens. Os testes estandardizados, em áreas do conhecimento dos alunos, são uma coisa banal, banal demais para uma criança inteligente e motivada]
.......

“Segundo, eu jamais digo, em meu livro ou em minhas palestras, que se outros países quiserem imitar o modelo finlandês na reforma de seus sistemas de ensino, que eles estão fazendo a melhor escolha... o que faz sentido e traz progresso a um sistema de ensino, numa determinada realidade, pode não ter o mesmo efeito em outra realidade... A Finlândia apenas pode oferecer a educadores de outros países oportunidade para refletir mais profundamente sobre suas próprias escolas ou sobre suas próprias culturas...

[O fundamental, creio eu é descobrir os princípios gerais que movem o sistema, sem se impressionar com as aparências, ou aquilo que se destaca mais aos sentidos, que em geral é o menos relevante, e uma vez captado o sentido, aplica-lo em outra realidade que, se for formada por outros seres humanos, fatalmente dará bons resultados. Princípio geral: descobrir os princípios gerais da educação finlandesa, para além das escolas, as sociedade e da cultura finlandesa, e que funcionam bem pelo simples fato de eles serem humanos]

Finalmente é preciso ter em mente que muito da reforma do sistema escolar finlandês foi inspirado em políticas educacionais de outros países. No início do século XX, quando a Finlândia se tornou uma nação independente, e começou a estabelecer o seu sistema escolar, a Alemanha e a Suíça serviram de inspiração às primeiras escolas. A ideia de uma escola compreensiva igualitária veio de seus vizinhos nórdicos, em especial a Suécia. Mais recentemente, Escócia, Inglaterra e Estados Unidos foram lugares onde educadores finlandeses buscaram ideias para o atual modelo de ensino-aprendizagem”.

[Princípio geral: abrir-se para aprender com outros países, estar atento ao que ocorre no exterior]
...
“Eu espero que “Lições finlandesas 2.0” inspire a você e o convença que dá para construir uma escola de boa qualidade para todas as crianças. A receita finlandesa para uma boa educação é simples: pergunte a você mesmo se a política ou a reforma que você pretende começar vai ser igualmente boa para alunos e professores. Se você hesita na resposta então é melhor nem começar”.

[Princípio geral: ter bem claro que são os atores principais do processo. Entre os finlandeses são os alunos e os professores, igualmente]


Introdução: Sim Nós Podemos (aprender uns com os outros)

.........
“Ser bem-sucedido nessa reforma [a da educação] é um imperativo moral e econômico para uma nação assim como para seus líderes. É uma obrigação moral porque toda pessoa bem formada e minimamente feliz é mais valorada pelo conhecimento, habilidades, e cultura geral que se adquire com uma boa educação escolar. É também um imperativo econômico porque o bem-estar das nações depende mais do que nunca do know-how tecnológico...”
......

A vitrine do norte
“As lições finlandesas podem ser sempre retomadas porque elas partem de ideias e sugestões frequentemente encontradas em livros e jornais especializados em desenvolvimento educacional [não há mistério, antes uma vontade política honesta]. Além disso, essas lições mostram que a melhoria sistêmica é possível apenas quando as políticas e estratégias são construídas de forma realista e sustentável, envolvendo professores e diretores no planejamento, implementação e revisão sobre todos os aspectos os quais se pretende aperfeiçoar.

[Princípio geral: envolver todos os sujeitos do processo nas mudanças]

Embora essas lições contenham em si uma grande promessa, elas também clamam por paciência. Nesse tempo de busca de resultados imediatos, a educação exige outra predisposição mental. A reforma de um sistema educacional é um processo lento e complexo; acelerá-lo [como tentamos fazer em São Paulo] seria a sua ruína...”

[Princípio geral: toda mudança educacional requer tempo, muito mais tempo que a média das mudanças em outros setores da sociedade. É algo de longo prazo. Não podemos continuar com essa política de resultados de curto prazo, estritamente quantificáveis, em função do ciclo das empresas ou das eleições, o ciclo da educação é muito mais longo; se mede por décadas, talvez seja o caso de tirar a educação do Brasil do controle dos políticos, que só podem garanti-la nos quatro anos de seu mandato]
........

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(idem)
Interior da escola Kanniston

A Finlândia como uma inspiração   
“Os sistemas de educação pública estão em crise no mundo inteiro... por falhar em prover uma educação de qualidade para todas as crianças [noutras palavras: a discriminação social as emperra], embora tentativas de soluções nada ortodoxas não faltem nesses países [na Europa e América do Norte] como: aumentar a competição entre as escolas, complexificar a avaliação de resultados dos alunos, condicionar os ganhos dos professores ao desempenho das turmas, fechar escolas com baixos índices [ou entregá-las a outro ente público; os municípios por exemplo] é tudo parte do receituário falho imposto a esses sistemas [fala São Paulo!].
Esse livro não sugere que o aumento da competição ou da carga horária das aulas, o enfraquecimento das associações e sindicatos de professores, a entrega de escolas à iniciativa privada [as charter-schools americanas], o emprego de elementos da gestão corporativa em sistemas educacionais possa dar uma solução para a crise... O outro caminho [tomado pela Finlândia] é buscar o fortalecimento do status do professor, limitar as avaliações ao mínimo possível, estimular o senso de responsabilidade e a confiança antes das avaliações e controles, investir em igualdade educacional, entregar a direção das escolas e dos órgãos intermediários a experimentados profissionais da educação”
[Nós preferimos denunciar e expor os maus profissionais e fazer deles o suposto modelo de toda a categoria, forçar a aposentadoria ou exoneração dos professores mais antigos, a pretexto de sua inabilidade em novas tecnologias].

[Quatro são os fatores porque a Finlândia tornou-se uma inspiração para o mundo... inteligente]
1º - “A Finlândia é especial por ter sido capaz de criar um sistema educacional onde os estudantes aprendem bem e onde uma educação de qualidade foi garantida em todos os rincões do país, de sorte que há muito pouca diferença entre as escolas espalhadas no território finlandês”.
[Nós sempre colocamos como opostas, como contraditórias, educação de qualidade e educação para todos, e sempre optamos pela segunda, por ser mais fácil e barata de implementar...]
2º - “A Finlândia demonstra que há outro caminho para construir um sistema educacional bem-sucedido, usando soluções diferente das propostas de uma educação orientada pelo mercado, que se tornou muito comum no resto do mundo [como em São Paulo]. A fórmula finlandesa de mudanças... se baseia na confiança, no profissionalismo e na responsabilidade compartilhada... e despreza a inspeção nas escolas [o que reduz os custos e não estressa professores e alunos], a dependência de dados colhidos por órgãos externos, currículo estandardizado, testagem contínua de estudantes, avaliações padronizadas e definidoras...”
3° - “... A Finlândia pode oferecer alternativa para que se pense sobre o problema educacional crônico que atinge outros países... tais como as altas taxas de desistência na escola secundária [só 4% dos alunos, na Finlândia, não chegam à escola secundária], o desgaste prematuro dos professores e educação especial inadequada”.
4º - “A Finlândia tem uma alta performance mundial em comércio, desenvolvimento de tecnologia sustentável, boa governança, prosperidade, igualdade de gênero e proteção à infância, e dessa maneira tem levantado questões muito instigantes sobre a interdependência entre a educação e outros setores da sociedade. Aparentemente, outros setores de políticas públicas, tais como saúde e emprego, respondem aos efeitos benéficos de longo prazo das mudanças ocorridas na educação”.
.....
“Embora haja limites quanto ao que se pode transferir do sistema educacional finlandês para os outros países, algumas lições básicas podem ser repetidas com sucesso alhures, como encaminhar uma política de valorização dos professores, criar situações de aprendizagem para os alunos livres de estresse, criar um ambiente de confiança mútua dentro do sistema escolar”. 
“... Eu gostaria de citar três elementos das mudanças educacionais ocorridas a partir de 1970, na Finlândia, que transcendem a cultura nacional:
1º é preciso estar claro para todos que é possível uma educação pública de boa qualidade: Toda a Finlândia se comprometeu seriamente com a construção de uma escola pública para todas as crianças, cem por cento financiada pelo Estado e gerida pelos governos locais [desconfio que isso não seja possível ou adequado no Brasil, em virtude do nosso ainda pouco comprometimento com o poder local, e ausência de uma cultura da vizinhança – os brasileiros veem suas cidades como meros locais de passagens, como estações de rodoviária numa viagem sem fim]... Desde a introdução da peruskoulu [escola básica compreensiva], no início dos anos 1970, houve cerca de 20 governos diferentes, representando diferentes correntes políticas, com 27 ministros de educação diferentes, dirigindo os caminhos da reforma...”

[Eis aí o grande segredo da Finlândia e a nossa maior dificuldades: a continuidade, no governo seguinte, das boas inciativas do governo anterior. Sem isso nunca haverá nada consistente na nossa educação, uma vez que nesse setor os resultados só aparecem no longo, quando não no longuíssimo, prazo! Talvez a reforma educacional brasileira precise ser tocada por um organismo próprio, independente dos percalços da política, em especial das eleições, prestando contas diretamente a um corpo técnico superior; talvez o STF ou uma outra instância judiciária, ou ainda outra composta por elementos dos três poderes. Fica também patente a necessidade de preservar e ampliar a educação pública gratuita, enquanto instrumento indispensável de igualdade social, que jamais uma escola privada poderá propiciar]

“2° observar e aprender com os vizinhos... A via finlandesa de reforma educacional preserva o que há de melhor na sua cultura e práticas educativas, combinando-as com inovações trazidas de fora...”

3º a criação de respeitosas e inspiradoras condições de trabalho para professores e diretores. Que fazer para que os melhores e mais talentosos jovens se sintam motivados a fazer carreira no magistério? A experiência finlandesa... mostra que não é suficiente programas esporádicos para prepará-los para o mundo da sala de aula [como acontece nesses treinamentos, que vicejam nas escolas pública e desviam milhões para empresas especializadas em cursos de fins de semana] ou apenas pagar bem aos professores. A Finlândia paga bem aos seus [ganham metade do salário de um deputado... de lá!]. Mas a grande diferença da Finlândia é que seus professores sabem que poderão ministrar o seu conhecimento e exercer o seu julgamento, sozinho ou em grupo, com irrestrita liberdade e autoridade profissional. Os professores controlam o currículo, a avaliação dos alunos, as melhorias na escola, o envolvimento desta com a comunidade...

Aprendendo Com os Outros
[Para Sahlberg a Finlândia pode aprender com os outros por não ser tão diferente destes como se pensa, conforme descrito nas três situações descritas abaixo]
“1º a Finlândia é mais cultural e etnicamente homogênea que os EUA, por exemplo. Mas isso também é verdade para Estônia, Coreia, Japão, Xangai, Polônia. O índice de cidadãos nascidos no exterior é de 5,2%, em 2013, e o número de cidadãos não falantes do finlandês é superior a 10%... Note-se que a Finlândia é um país trilíngue, onde o finlandês, o sueco e o lapão são línguas oficiais. Entre as minorias as línguas mais faladas são o russo, o estoniano e o somali. A diversidade da sociedade finlandesa, após os anos 1990, aumentou a uma taxa de 800%, a mais alta da Europa...
2° a Finlândia é considerada muito pequena para ser um bom referencial de educação... Quando o fator tamanho é considerado em uma reforma educacional, é importante notar que muitas unidades federadas, como os estados nos grandes países, gozam de uma grande autonomia em questões educacionais. A população da Finlândia é hoje de 5,5 milhões de pessoas, a mesma do estado de Minesota, nos EUA, ou de Vitória, na Austrália, e um pouco mais que a de Alberta, no Canadá... [ou estados como Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, etc].
3º alguns não acreditam comparações internacionais sejam relevantes ou confiáveis naquilo que se propõem mostrar. Alguns desses testes como o PISA da OCDE... focam em áreas muito estreitas; estreitas demais para capturar tudo o que é relevante no conjunto do espectro da educação escolar, ignorando as habilidades sociais, o desenvolvimento moral, a criatividade ou a destreza digital, conquistas importantes numa educação pública dirigida para todos.
Há ainda críticas crescentes contra essas comparações por induzirem a criação de políticas educacionais “governadas por números” [São Paulo na cabeça!!!]

Outro grupo de céticos questiona que as metodologias de medida e avaliação aplicadas nesses testes, por acaso coincidem com aquilo que aparece na cultura e currículo das escolas finlandesas... Howard Gardnes, de Harvard, ao tratar desses testes, num encontro recente na Finlândia, alertou que os seus resultados devem ser vistos com cautela, uma vez que os seus resultados podem ser influenciados pela área de conhecimento escolhida e a metodologia de avaliação dos resultados usada... Há um número crescente de pessoas que questionam a credibilidade do PISA e a possibilidade de toda uma complexa rede de transformações, exigida por reformas educacionais no mundo inteiro, ser orientadas por um único instrumento de medida".
(Continua)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

LIÇÕES FINLANDESAS 2.0 (DE PASI SAHLBERG)

Tradução, entre aspas e em itálico, e comentários [entre colchetes]: Eduardo Simões

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A representação mais exata que eu encontrei sobre os testes de avaliação que no presente torturam professores e alunos em nossas escolas, e que definem índices como SARESP, IDEB, IDESP, AAP, etc. O avaliador diz aos animais à sua frente: “Para haver uma seleção justa é necessário submeter a todos ao mesmo exame: Por favor subam naquela árvore!”

Comentário de Diane Ravitch
“O Presidente Barack Obama e o Ministro da Educação Arne Duncan foram defensores entusiásticos de “reforma” no ensino. Seu programa, chamado de “Corrida para o topo”, foi lançado em 2009, e apresentava os seguintes ingredientes chaves: testagens [contínuas avaliações, que só podem ser feitas, por motivos óbvios, por meio do sistema eufemisticamente chamado de “múltipla escolha” ou prova “objetiva”], controle [ou centralização], seleção. Os educadores foram pegos de surpresa, uma vez que eles esperavam que a proposta de Obama acarretasse o fim do tão odiado programa do ex-presidente George Bush, “Nenhuma criança para trás” (NCPT). Porém, o programa de Obama foi montado justamente sobre as bases do NCPT. Ao invés de extinguir os testes de alta performance, o Corrida para o topo aumentou ainda mais a sua importância. Agora, não somente alunos e escolas seriam medidos pelos testes, mas também professores poderiam receber bônus ou serem demitidos em função de seus resultados”.
[O teste de alta performance é uma criação de prestidigitadores americanos, gurus da nova era da gestão empresarial, todos eles confortavelmente instalados, que sobrecarrega de estresse e responsabilidades os testados, ainda mais porque em função dos resultados desses testes, em geral de múltipla escolha, o futuro de uma criança ou um profissional pode ser definitivamente sepultado]

“Uma matéria de capa do Newsweek Magazine, nesta primavera [em 2010], dizia: “Nós devemos demitir os maus professores”, como se asa escolas estivessem lotadas de “maus” professores. Nesse outono, o filme “Esperando pelo superman” foi lançado com uma propaganda massiva. Sua mensagem era: as nossas escolas públicas estão falhando, e a única esperança para uma criança presa em uma escola pública “falha” é emigrar para uma escola administrada pela iniciativa privada” [a chamada Charter School, cujo prédio pertence ao Estado mas a administração é entregue a uma empresa privada]

“Vários estados como Michigan, Wisconsin e Indiana voltaram atrás em acordos coletivos, barganhando direitos, e os sindicatos de professores se tornaram bodes expiatórios, acusados pelos baixos índices nos testes e pelos altos custos da educação, em virtude dos auxílios-pensões e gratificações a professores”.
[alguma diferença da caça às bruxas levadas a cabo no Brasil, em especial em São Paulo?]

“O que muitos educadores americanos amam em Lições finlandesas 2.0 é que elas são o retrato de uma realidade alternativa, onde se respeita o professor e se os capacita para fazer um trabalho melhor... Sahlberg reconhece que a experiência finlandesa em educação contrasta com o que acontece nos EUA e em outros países, orientados por movimentos educacionais que reforçam os controles e a seleção, que ele chama de Movimento Global de Reforma Educacional (MGRE).
Sim, enquanto EUA, Inglaterra e outros países [Brasil e São Paulo, especialmente] estão contaminados pelo MGRE, Lições finlandesas 2.0 são a desinfecção [existe melhor comparação?]. Elas nos lembram que uma nação pode construir um admirável sistema escolar, se focar a sua atenção nas necessidades das crianças, se seleciona e prepara bem a seus professores, se constrói comunidades educacionais não apenas fisicamente atraentes, mas que também são capazes de recuperar a alegria de ensinar e aprender”. 

Comentário de Andy Hargreaves
[após fazer uma breve síntese dos percalços da educação americana na segunda metade do século XX, sempre a correr atrás de suas congêneres opostas: a soviética nos anos 60 e a chinesa, mais recentemente, Andy Hargreaves conclui] Apesar de já termos percorrido duas décadas de reforma educacional, tudo que os EUA, e outros países de cultura anglo-saxônica, fizeram foi confirmar aquele dito popularizado por Einstein: “se você apenas acrescenta mais do mesmo, você não pode esperar um resultado diferente”. Força, pressão, ameaça, intervenções de cima para baixo, destaques, competição, modelagem, controle por meio de exames, facilitar e acelerar a aprendizagem, enquadramento de escolas fracas, demissão de professores e diretores ineficientes e novos começos com novos professores, em escolas recentemente criadas, são estratégias que nesses últimos vinte anos vêm sendo continuamente propostas e repropostas, com o mesmo vigor e determinação” [não é isso que copiam de forma tão escancarada, salvo detalhes, os governos de Brasil e São Paulo?].

[Após chamar o programa de Obama de “Corrida dos lemingues ao topo”, ironizando a corrida lendária desses roedores do estremo norte para o mar, onde morrem afogados, Hargreaves cita um crítico da reforma de Obama: Fullan] A estratégia [de Obama], diz Fullan, dá pouca ou nenhuma atenção à capacitação de diretores e professores ou tenta integrá-los como em um sistema, antes se baseia na premissa falsa de que a qualidade do ensino melhora automaticamente em um sistema de recompensas competitivas e se apoia num modelo muito equivocado de gestão, onde cada gestor é responsável exclusivo pela sua unidade escolar e o único responsável pelos resultados, enquanto compete com outros diretores por, criando feudos, ilhas, nas escolas, desestimulando esses profissionais a ajudarem uns aos outros... O plano [de Obama] promove a entrega da gestão de escolas públicas para iniciativa privada, mesmo quando as evidências mostram não haver diferenças consistentes entre estas e as públicas, e que elas simplesmente “atraem os melhores alunos das comunidades pobres [cujos pais estão sedentos para verem seus filhos numa boa escola privada, trombeteadas como “melhores” pelas autoridades educacionais, de lá e de cá].

“Yong Zhao, reconhecida autoridade americana em reformas educacionais na China e no Sudeste Asiático, assinala que a China... está descentralizando o seu currículo, diversificando a sua avaliação [enquanto nos EUA, e aqui, observa-se o monopólio, até por uma necessidade prática, do sistema “múltipla escolha” ou prova “objetiva”], encorajando a inovação e a autonomia local... enquanto a China descentraliza e Singapura busca promover um ambiente de criatividade na escola, insuflado pelo slogan “Ensine menos e aprenda mais”, os americanos seguem submissamente “na direção do autoritarismo... (Zhao, 2009)”” [isso é tanto mais irônico, porque os americanos entraram nesse autoritarismo todo tentando copiar as nações orientais, em especial japoneses e coreanos, dos anos 80, que já apresentavam índices de aprendizagem melhores em testagens internacionais, se é que essas testagens merecem confiança]

[OBS: É interessante considerarmos as críticas de Diane Ravitch e Andy Hargreaves ao sistema americano de ensino, porque é exatamente este sistema que nós procuramos reproduzir aqui no Brasil, em sua versão mais diluída e aparentemente mais bem-sucedida... no PISA...: o sistema “australiano”. Hargreaves e Ravitch, menos manhosos e mais transparentes, e também mais “por dentro” dessa realidade, tratam esses sistemas todos como uma coisa só, chamada “países anglo-saxões”. É sempre mais do mesmo!]

[Após apresentar o autor do livro, Pasi Sahlberg, Hargreaves apresenta alguns segredos do sucesso finlandês]
“ * Eles desenvolveram uma filosofia própria de mudança social e educacional vinculadas à inclusão e à criatividade, sem fazer concessão a visões bitoladas e estandardizadas vindas de fora.
* integraram e uniram professores muito bem treinados, e com uma alta qualificação acadêmica, com títulos de Mestrado e Doutorado, muito motivados a cumprir sua missão social com autonomia e todo o suporte que necessitam – compare-se isso com a facilidade de ingresso e formação às pressas [em São Paulo temos o costume de suprir as carências de professores em cursos de fins de semana ou palestras pela TV!], além da intensa rotatividade dos professores, como acontece na Inglaterra e Estados Unidos[e no Brasil].
* há uma estratégia especial de educação inclusiva onde aproximadamente metade das crianças recebem algum tipo de reforço pelo menos uma vez durante a educação básica de nove anos, ao invés de uma estratégia de educação especial baseada na identificação legal, colocação, e rotulagem, favorecido pelos anglo-saxões [no sistema americano, a criança deficiente ou superdotada é logo identificada e recebe tratamento especial, em detrimento de sua integração ao grupo, em especial as do segundo grupo]   
* eles desenvolveram nos professores a responsabilidade e a capacidade de, em grupo e com autonomia, de desenvolver tanto o currículo como a avaliação diagnóstica, mais que apenas seguir um currículo prescrito, escorado por testes de avaliação estandardizados, impostos pelo governo central.
* eles ligaram a reforma educacional ao desenvolvimento criativo da competitividade econômica assim como o estímulo à coesão social, inclusão e solidariedade comunitária dentro da sociedade nacional.

[O último parágrafo de Hargreaves é valioso e cabe como uma luva no nosso sistema escolar, em especial São Paulo] Uma das formas dos professores melhorarem o seu trabalho é trocando experiências uns com os outros. Escolas melhoram realizando trocas com outras escolas. Nós temos despendido décadas estimulando o isolamento de nossos professores dentro de nossas escolas. É tempo de acabar com a ideologia da diferenciação ou do destaque dentro dos Estados Unidos e nações anglo-saxônicas, se nós queremos fazer reformas que realmente inspirem os nossos professores a melhorar a aprendizagem de todos os nossos alunos – em especial aqueles que têm mais dificuldades [massacrados nos EUA, abandonados por aqui]. Nesse quesito em especial Pasi Sahlberg é um dos melhores professores do mundo.   

[a quebra da unidade dos professores e do sistema é feita, aqui em São Paulo, por meio dos exames para receber aumento de salários, pelo sistema de bônus ligado a resultado de provas, pela classificação das escolas de acordo com SARESP e outras pseudoavaliações, pelo distanciamento hierárquico do cargo de diretor, inatingível, como se fora um “feitor” dentro das escolas].