sexta-feira, 24 de junho de 2016

CANUDOS (1896-1897): PEQUENA HISTÓRIA DE UM GRANDE MASSACRE - 2

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Brasil, Alemanha França, EUA, Coreia do Sul, Holanda, Romênia, Israel, Portugal, China e Ucrânia. Deus os abençoe

A guerra da república

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWL0pRndf8Hly3-MjBq9CV6Zuj78s8JbdVq-bO2w9y9TYbpraM7WaeKtO4WaMZbOCRIu-BIUXSkbyW7bi_NgK4EKD7Lp55IckH_uDu9WkQuzXbr6IzgAFELLC6kPZwQpGqfC46xKI-acUm/s1600/Bar%C3%A3o_Jeremoabo_1868.jpg
http://mortenahistoria.blogspot.com.br/

__ Um fato inesperado veio a unir, circunstancialmente, o profeta do sertão à Igreja: a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889, e a expulsão da família real do Brasil. Antonio conselheiro se colocou imediatamente contra essa mudança, lançando veementes sermões contra a nova forma de governo. Coisa “do diabo”. Segundo alguns testemunhos, em seu discurso ele acusava os antigos senhores de escravos de proclamarem a república para se vingar da Família Real, em especial a querida Princesa Isabel, que assinara a Lei Áurea no ano anterior, que foi muito elogiada por ele – há notícias bem fundadas de que ele não só acolhia ex-escravos entre os seus, como os ajudava muito. Seus maiores inimigos, como o Barão de Jeremoabo (acima), atestam isso, ao tentar desmerecer os adeptos daquele (1). Conselheiro repudiou, violenta e publicamente, o regime como um todo e as novas medidas tomadas como o casamento civil, a secularização dos demitérios, etc.
__ Nesse momento, vários padres do interior, cevados pela mentalidade oficialista e saudosos do Padroado Régio, começaram a aproximar-se de Conselheiro, pondo mais lenha na sua ira antirrepublicana. Na capital, as lideranças republicanas, assim que se recompuseram do susto, tão repentinoa e inesperada fora a deposição do monarca, agiram rápido, pedindo providências ao arcebispo contra os padres “refratários”. Este, por sua vez, mandou uma circular aos párocos, nos sertões, pedindo que afinassem seus discursos com o da arquidiocese, e aceitassem o fato consumado. Diante disso as igrejas e capelas oficiais fecharam novamente suas portas a Conselheiro, deixando-o novamente isolado, e, talvez por isso, ainda mais convicto de sua repulsa ao novo regime.
__ O sertanejo é um homem prático, que não se move fácil por ideias, filosofias, ideologias ou coisa que o valha, mas antes por fatos, por acontecimentos concretos, e o fato veio na forma de leis que, a partir de uma visão laicista de Estado, vinham aprimorar o departamento de estatística, melhorar o censo e normatizar, um pouco, a arrecadação de impostos, para evitar a evasão e mobilizar a maior quantidade possível de recursos para a tarefa de modernizar um país estagnado por 77 anos! Incluiu-se até uma lei que impunha a aplicação do sistema métrico decimal, que ficou, durante um bom tempo, icompreensível ao homem do sertão, a quem se negara, por quatro séculos, a mais elementar educação formal. Nas sedes dos municípios começou-se a estabelecer novas formas de organização e impostos para a realização das feiras livres, o grande momento de alegria e socialização do sertanejo, à semelhança do servo medieval, mas que atingiam principalmente aos mais pobres e confusos (“ignorantes”), que ficaram em grande aperto.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/fd/Conselheiro_Revista_Ilustrada.jpg/800px-Conselheiro_Revista_Ilustrada.jpg
Por Angelo Agostini - in: BrHistória, nº 4, junho/2007., Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2388859

__ Não havia como Antonio Conselheiro ficar alheio, e não repercutir, do seu jeito, contra aquela situação que confundia o homem rural, agravado pelo fato de ele estar em guerra declarada, por ele mesmo, contra o novo regime. O pretexto foi o edital de cobrança de impostos, afixados na porta da Câmara Municipal de Bom Conselho, que o Conselheiro, num acesso de “fúria santa” os queimou em meio a impropérios e maldições antirrepublicanas (2). Ante a reação das autoridades, ele e seu grupo se retiram do lugar, mas uma força pública, composta de uns trinta homens da polícia baiana, comandada pelo um alferes de nome Virgílio, saiu-lhes ao encalço, encontrando-os no dia 26 de maio de 1893, no distrito de Maceté.
__ O pequeno destacamento, menosprezando o valor daquela gente, quase todos “13 de maio”, a típica arraia miúda, que o policial sertanejo, ele mesmo originario dessa gente, pisa com sadismo, que Graciliano apresentou tão bem no “soldado amarelo” de Vidas secas, como que para compensar um profundo sentimento de inferioridade, nascido de sua convivência estreita e assimétrica com as elites políticas e econômicas, partiu para o ataque. O comandante da força decerto pensou: “quando virem as fardas, vão se borrar tudinho, e botar o rabo entre as pernas!” Mas após uma curta e renhida batalha, a força policial, sentindo a forte resistência, “meteu o pé na carreira”, com o seu comandante correndo à frente.
__ Após o confronto, os conselheiristas deixaram de frequentar as sedes dos municípios e as vilas, e se embrenharam no alto sertão baiano. O governo estadual, desmoralizado, pediu ajuda ao governo federal, que, lotado de problemas como a Revolta da Armada e a Revolta Federalista, liberou uma pequena tropa de 80 homens do exército para dar cabo do grupo. Essa força chegou a entrar em contato com os conselheiristas, mas percebendo a diferença entre as forças e a disposição do adversário, o seu comandante, e oficiais, preferiram evitar o combate, e retirou-se para a capital, no dia 9 de junho. Esses foram os únicos que agiram com o juízo.
__ O incidente em Bom Conselho pode ter sido fatal, pois a ele se seguiu o vexame da polícia em Maceté, que, com certeza deve ter propiciado ocasião para muitos versos e quadrinhas engraçadas, principalmente entre os repentistas de feira, que não perdem uma oportunidade, deixando em má situação a “moral” da autoridade que expedira aquela força, o juiz Arlindo Batista Leoni, que não esqueceria a desfeita (3).
__ Vagando pelo alto sertão da Bahia, em 13 de junho de 1893, Conselheiro e sua gente chegaram a um local recôndito, mas de seu conhecimento. Uma pequena fazenda, chamada Canudos, já há algum tempo abandonada, constando apenas de uma pequena casa de vaqueiro e uma capela, ambas em ruínas (4). A capelinha foi imediatamente reformada pelos conselheiristas, sendo mais tarde dedicada oficialmente, com a presença do vigário de Cumbe, a Santo Antonio – mais tarde eles ergueriam uma capela nova e mais imponente, a do Bom Jesus, que não chegou a ser concluída –  enquanto o local foi rebatizado como Arraial do Belo Monte, onde o Conselheiro e sua gente supunham ter encontrado definitivamente o seu lugar de descando, isolados da “maldita” república.

A fortaleza de Belo Monte

http://www.rhbn.com.br/uploads/docs/images/images/111-16-02.jpg
http://www.revistadehistoria.com.br/

Canudos em 1897. Em destaque a Igreja Nova, do Bom Jesus, à esquerda, e a Igreja Velha, Santo Antonio, à direita. Na verdade as duas eram, oficialmente, apenas capelas.

__ Como o Conselheiro e sua gente foram dar naquele lugar, ou, como diria Vargas Llosa, naquele “fim de mundo”? Decerto que a existência daquela fazenda abandonada não era desconhecida por muita gente da região nem pelos conselheiristas, em geral, acostumados a bater aqueles sertões em busca de assistência para suas prédicas, igrejas e cemitérios para obras de manutenção, sem falar da espetacular memória ancestral, praticamente já incorporada ao DNA daquela gente. Sertanejo tem “memória de elefante”.
__ Não temos muitos dados sobre o que motivou a escolha de Canudos como lugar de fixação dos conselheiristas, além da necessidade de evitar toda convivência possível com comunidades republicanas, principalmente por causa da completa destruição do arraial, antes que se fizesse um estudo mais detalhado. Há, entretanto, um estudo muito bem fundamentado, assinado por Cunha-Blaj (1974), que mostra o quão oportuna foi a escolha do lugar, para a eventualidade de uma guerra defensiva, fazendo supor que desde a sua fundação Belo Monte aspirava por uma posição militar defensiva, ou preventiva, consciente e muito bem estruturada.
__ Um relevo em torno, muito irregular e pedregoso, cheio de serras (5), de onde descortinam vastas paisagens (pontos de observação), penhascos, que limitam as manobras, estreitas passagens e abundância de pedregulho, que dificultam o uso da cavalaria, carroções de transporte, e mesmo o avanço de uma tropa, além de facilitar a armação de emboscadas e pontos de tiro.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLt1YSvHexicyU9PYCp-i1joRS1fFvXTN8i_xR6son9L1GtyTxo15_bV3eg8WjC86JeEZaeAAaCNTgBEcqqX1O6IsmsHhYY2A4WghSLXXO-HibY6ncsUFHVV0ds5fyYfSqVX6hvT8lfjE/s1600/C.+Enxada+nas+costas+02.jpg
http://acxmassa.blogspot.com.br/

__ Alguém poderia questionar que essa dificuldade de deslocamento também prejudicaria aos moradores e defensores em seus contatos com outras comunidades ou no seu enfrentamento com prováveis inimigos, mas não é bem assim; havia, e ainda deve haver, caminhos secretos, rotas alternativas, conhecidas apenas pelos moradores da região, sem falar que, da mesma forma que o caboclo amazônico não se perde nem se atrasa por entre os meandros naturais formados pelo rio Amazonas em suas cheias, o matuto, da mesma forma, não se perde nem se atrasa quando se desloca em meio ao cipoal de galhos e árvores crestadas, que se espalha pela caatinga nordestina. Ele sabe o melhor caminho de memória.
__ As condições básicas de vida estavam garantidas pelo curso do rio Vaza-Barris, com seus 450 km de extensão, que em seu curso intermitente, fornecia água suficiente para a manutenção de numerosa população. O fornecimento de água foi complementado pela existência de várias aguadas, dentro dos limites da cidade, e por cacimbas (6).
__ Em caso de guerra, a provisão de munição básica estava garantida, graças ás minas de salitre, que abundavam na região, sem falar da infinita provisão de cascalhos duríssimos, no leito do rio, que serviam de bala, causando um ferimento muito doloroso. Mas quem pensar que os canudenses dependiam apenas de armas rústicas e munição improvisada, pode estar enganado, e aí vem a mais importante característica dessa incrível comunidade: a sua localização.
__ Graças aos caminhos, conhecidos e obscuros, Belo Monte integrava uma rede de comunicação e transporte complexa, devido à sua relativa proximidade com vários municípios e distritos, com os quais os conselheiristas mantinham um intenso a animado comércio de manufaturados, produtos naturais e ideias. Entre eles Cunha-Blaj citam: Rodelas, Várzea da Ema, Vargem do Rio São Francisco Pambú, Capim Grosso, Canabrava, Bom Conselho, Cumbe, Fortaleza, Tucano, Massaracá, Rosário, etc.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgf4NlUm2cWxKE2lYuUBUZmnAIy9fIdYpV9RILFoCb7qPfvySMOPJo1N4tbKVghtoC1cfTjEpKIYznd5M8WQjatdE83g6ssjcsknNl-FCgA4Hx-QoLpxyGNVoHl5OO8cyQ7FNolsN7Fkuc/s400/C.+Companheira.jpg
http://acxmassa.blogspot.com.br/

__ A própria cidade do Belo Monte foi urbanizada de um jeito que favorecia muito a defesa, uma vez que não havia grandes avenidas nem ruas retilíneas. A cidade era, para quem chegava, um tormentoso emaranhado de becos e vielas que acabavam abruptamente numa casa “mal localizada”, obrigando por vezes, a quem não era morador, a ter que sair dos limites do casario para poder ir de um extremo a outro do povoado. As casas eram de taipa e, durante o conflito, os matutos escavaram facilmente pequenos buracos, à guisa de seteiras, de onde podiam fazer fogo farto e certeiro sobre os assaltantes – o fato incomum dessas casas não terem janelas é um forte indicativo de um plano prévio de defesa. A cidade reproduzia, dessa forma, a confusa disposição natural da vegetação do entorno, e assim como esta, era excelente para deter o ataque de uma forte força invasora, como o experimentou, de uma maneira terrível, a expedição Moreira César.
__ Por fim, embora a questão dos recursos estivesse bem equacionada, ela não era suficiente para garantir o sucesso de um projeto como aquele; eram necessários uma ideia e ações relacionadas a essa ideia, para que Belo Monte alcançasse seu pleno poder mobilizador. A ideia foi a versão popular do catolicismo sertanejo, encarnada na pessoa de Antonio Conselheiro, que, apesar da sua “monomania” religiosa, continuava sendo um homem culto, e com tirocínio para certas coisas práticas. Mais tarde teve a ideia de levantar uma igreja mais imponente, a chamada igreja nova, dedicada ao Bom Jesus, defronte à capela de Santo Antonio, dois fortes baluartes interligados por túneis.
__ Essas medidas foram complementadas por outras, de caráter administrativo, que deram a Canudos aquela solidez, de curto prazo, das organizações centralizadas, além de outras vantagens, tornado-se um grande atrativo para a sofrida gente do sertão, como se vê abaixo:
a) Qualquer um que chegasse e fosse aceito pelo Conselheiro, uma condição indispensável, podia levantar sua casa, (onde quisesse?) sem ter que pagar nada a ninguém ou imposto público.
b) Não havia uma igualdade perfeita; o tamanho variável das casas mostrava o contrário, mas no geral todos convergiam para o mesmo objetivo e a desigualdade era bem menos notável que alhures. Ouso dizer que o principal fator de igualdade de Canudos era o entendimento do Conselheiro sobre o que decidir em cada situação, e a coerência dessas medidas, por mais “primitivas” que fossem, de tal sorte que suas determinações eram acolhidas como “lei” por todos, acabando com a aplicação indiscriminada da justiça familiar, típica dos sertões onde não havia estado, e que permitiam aos mais ricos e poderosos tripudiar sem peias sobre os mais humildes.
c) Roupas, alimentos e abrigo eram distribuídos gratuitamente entre os mais pobres.
d) Conselheiros cercou-se de elementos fieis e devotados, que lhe garantiam suporte e força física contra qualquer desafio ao seu poder, a começar pela Guarda Católica, que tinha uniforme, armamento e munição, soldo regular, e era responsável pela guarda dos símbolos máximos da comunidade, as duas igrejas e o Conselheiro; após eles havia a Companhia do Bom Jesus ou Companhia Santa, com umas mil pessoas; e um grupo de beatas, comandadas pela mordoma do Conselheiro, tia Benta, que cuidava diretamente do seu bem estar.
__ Havia ainda vários outros personagens, gente de confiança, que ajudavam-no a organizar e administrar a comunidade, mostrando que Belo Monte não foi um projeto improvisado ou fruto de uma mente desvairada e de fanáticos incultos, antes algo pensado para ser permanente e estável. A mente diretora de tudo aquilo podia até ser um pouco desvairada, mas também era, com certeza, muito inteligente (ardilosa?) e sabia conseguir de seus colaboradores o máximo que eles podiam dar, inclusive a vida. Só os gênios das relações humanas conseguem isso, para o bem ou para o mal.

A ruptura definitiva com a Igreja

https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/7352/1/Retrato%20do%20Gov.%20Joaquim%20Manoel%20Rodrigues%20Lima.jpg
http://ilustresdabahia.blogspot.com.br/

__ No início de 1895, o governador da Bahia, Rodrigues Lima (acima), preocupado com as inúmeras notícias que circulavam constantemente nos jornais da capital, com base em relatos de um correspondente anônimo em Monte Santo, que descreviam a prática dos maiores despropósitos e atropelos pela gente do Conselheiro, resolveu entrar em contato com o arcebispo de Salvador, D. Jerônimo Tomé da Silva, nascido cearense, em Sobral, para que enviasse emissários e tentasse, por meios pacíficos, a solução da situação, de preferência pela dispersão da comunidade conselheirista.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ec/Jeronimo_Tom%C3%A9_da_Silva.jpg/230px-Jeronimo_Tom%C3%A9_da_Silva.jpg
Wikipedia

__ D. Jerônimo (acima) buscou numa congregação famosa pela sua rusticidade e disposição a tarefas particularmente espinhosas, a Ordem dos Frades Capuchinhos (OFM-Cap), fundada na Contrarreforma, e que se tornara, o “pau para toda obra” da igreja no Brasil. Os frades dessa ordem gozavam de um especial prestígio entre os sertanejo devido a frequência com que seus membros faziam missões pelo interior do semiárido, nas quais granjearam popularidade e respeito da parte dos sertanejos. Entre os capuchinhos ele escolheu um frade italiano já conhecido naquelas paragens: frei João Evangelista do Monte Marciano.
__ Segundo Calasans (4), frei João tinha contra si o fato de ser um italiano que, embora naturalizado, ainda não dominava bem a língua portuguesa, e que, portanto, podia não ser bem entendido pelos sertanejos, sem falar de seu temperamento mais próximo do pavio curto. Seja como for, não havia muito que o arcebispo pudesse fazer,  porque os padres brasileiros, mais próximos culturalmente dos sertanejos, eram, em geral, produtos da antiga igreja católica imperial, oficialista e palaciana, e não estavam muito motivados a enfrentar as agruras do sertão, sem falar não era em qualquer lugar que se podia encontrar um Padre Ibiapina, morto 12 anos antes. Creio que foi o melhor que D. Tomé conseguiu

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjZr058SNf9LgHoxZKORgnnC_iMWAIBo40hCHHRQhCHkcnyOJKMugC1APTEjZbewki2xpQb0fUY3vbwPcWpVuht1_K7qbK7m8K-CVHZVpQOr5oOuMQq2fKev6HRHB9oZ6f4Xv-V2GruvGWY/s1600/101.jpg
http://cangaconabahia.blogspot.com.br/

__ Cheio de ânimo e um tanto temeroso, isso ele o confessa no seu Relatório, Frei João chama outro frade recém-chegado da Itália, para ir junto consigo a Canudos: frei Caetano de São Leo, e partem na direção de Cumbe, do qual, eclesiasticamente, Belo Montre era dependente (frei João e frei Caetano são os dois padres sentados no meio da foto). Em Cumbe eles se encontraram com o vigário local, padre Vicente Sabino dos Santos, que se ajuntaou à missão – há mais de ano que o padre Vicente não a Canudos-Belo Monte, por ter sido desacatado a última vez que lá fora.
__ No Relatório, frei João começa se queixando da dificuldade para chegar até Cumbe, e daí para Canudos-Belo Monte, que fez a viagem se arrastar por quase um mês, abril-maio, tanto por falta de condução como por falta de gente disposto a guia-los até lá. Receio da gente do Conselheiro? A três léguas de Cumbe, eles se defrontaram com um grupo de homens, mulheres e crianças, que, ao vê-los acorreram para suas armas, e, hostis, se recusaram a dar informação sobre com chegar a Cumbe. Eram, segundo o frade, “guarda avançada do Antonio Conselheiro” (Calasans, (4)).
__ Ao chegar a Canudos, no dia 13 de maio de 1895, ele notou a pobreza das casas (abaixo) : “construídas de barro, cobertas de palha, sem janelas... O interior é imundo, e os moradores... quase nus... atestam no aspecto esquálido e quase cadavérico as privações de toda espécie que curtiam...” (idem) Logo adiante, numa praça, à porta da “capela”, os missionários dão com uma multidão de “perto de mil homens armados de bacamarte, garrucha, facão, etc. dando aos Canudos a semelhança de uma praça d’armas”.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhRYAZ8zW1uCzcqEHs6gzGrBw0Okiq0Bkeq4_zRzqrXD2-OHeUG2JjVh_bJPDs0WNdsHh3Gt5LcnoAMxf5CskXiEMSKlxvG8Jm9IIAdCuFiJdXfPiCVhcG_3w21PNxfra_diAGAnIBHRVo/s1600/casa+de+taipa.jpg
http://noentremeio.blogspot.com.br/

__ Aí os missionários tem contato com a Guarda Católica, com seu uniforme e gorro todo azul, à semelhança do uniforme do exército imperial brasileiro, e da roupa do Conselheiro, sendo então levados para a casa paroquial, onde o vigário de Cumbe costumava ficar. De lá frei João observa uma coisa preocupante; séquitos de gente acompanhando vários funerais; “oito cadáveres, conduzidos por homens armados, sem o mínimo sinal religioso”. Ele ouve dizer que aquela taxa de mortalidade faz parte do cotidiano do arraial e deduz que é “devido às moléstias contraídas pela extrema falta de asseio e penúria” (idem). O Conselheiro mesmo era um exemplo dessa penúria e falta de asseio.
__ No dia seguinte foram ao encontro do Conselheiro na “capela”, e lá o encontraram em plena obra, mas cercado por gente armada, que comprimentaram os padres com o tradicional, “louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo”. Conselheiro foi assim descrito pelo frei: “vestia túnica de azulão, tinha a cabeça descoberta e empunhava um bordão: os cabelos crescidos, sem nenhum trato, os olhos fundos, raramente levantados para fitar alguém, o rosto cumprido e de uma palidez quase cadavérica; o porte grave e penitente” (idem). Que devia impressionar! O frade acrescenta ainda que ele era de “cor branca, tostada pelo sol” e dado a “frequentes e violentos acessos de tosse”. De caráter orgânico ou emocional? E que “ninguém pode falar-lhe a sós, porque seus pretorianos não deixam”.
__ Conselheiro andou com eles pelas obras e, uma vez na sacristia, frei João aproveita para falar-lhe da situação de miséria do povo e da presença de gente armada, numa comunidade que se presumia religiosa e cristã, ao mesmo tempo em que alertou que um dos objetivos de sua missão, de acordo com a ordem do arcebispo, era aconselhar o povo a se dispersar. Nesse momento um grupo de gente, entrando na sala, põe-se a clamar: “nós queremos acompanhar o nosso Conselheiro!” Este os fez calar e disse: “é para minha defesa que tenho comigo esses homens armados, porque v.rvma há de saber que a polícia atacou-me e quis matar-me no lugar chamado Maceté... No tempo da monarquia deixei-me prender, por que reconhecia o governo; hoje não, porque não reconheço a república” (idem).
__ O frei tentou argumentar que, sendo católico, não convinha ao Conselheiro o apelo a uma saída armada, e que, se a própria Igreja havia se submetido ao novo governo, ele também deveria se submeter, e concluiu dizendo-lhe temerariamente “é uma doutrina errada a vossa”. Um grupo recém-chegado cortou-lhe, excitado, a palavra: “v. rvma é que tem uma doutrina falsa, e não o nosso Conselheiro”. Este os fez silenciar e completou dizendo que não desarmaria os seus, mas também não impediria a missão. O grupo então levou os padres até em casa, e uma vez nela os visitantes ouviram gritos estrondosos, dando vivas “à Santíssima Trindade, ao Bom Jesus, ao Espírito Santo e ao Antonio Conselheiro”.
__ “Os aliciadores da seita, continua o frei, se ocupam em persuadir o povo de que todo aquele que quiser se salvar precisa vir para Canudos... nem é preciso trabalhar, é a terra da promissão, onde corre um rio de leite, e são de cuscuz de milho os barrancos”. Algo análogo às passagens de Ex 33,3; Is 51,1-2. Entre outras coisas o frade lembra-se de ter visto dois malfeitores, sempre presentes no séquito do Conselheiro: João Abade, da mais alta hierarquia, acusado de dois homicídios, e José Venâncio, com 18 acusações análogas às costas, embora também reconheça que “Antonio Conselheiro não se arroga nenhuma função sacerdotal”. Nesse sentido ele permaneceu dependente da Igreja, embora o frei também note que ele não faz muita questão de receber e incentivar os sacramentos. Enquanto os frades estiveram em Canudos-Belo Monte, Conselheiro se absteve de falar aos seus em público.
__ No dia 14 de maio abriu-se a missão, com a presença de umas “quatro mil pessoas”, inclusive de gente próxima ao Conselheiro, e este também compareceu, com o seu bordão, olhando atento para tudo e para todos, embora calado. Os de seu estado-maior, presentes, armados até os dentes. Nesse dia o frei falou sobre como deve ser o jejum correto, adequado a cada temperamento e à capacidade física do fiel, procurando um objetivo mais espiritual que físico. Ao recomendar um jejum mais moderado – carne de noite e uma chávena de chá pela manhã – “o Conselheiro estendeu o lábio inferior e sacudiu negativamente a cabeça, e os seus principais asseclas romperam logo em apartes... “Ora, isso não é jejum, é comer a fartar””.
__ No quarto dia da missão, o frei pregou sobre “o dever de obediência à autoridade”, citando a república como “governo constituído do Brasil”, citando inclusive a recomendação, nesse sentido, do “Sumo Pontífice” (7). “Estas minhas palavras, irritaram o ânimo de muitos... começaram a fazer propaganda contra a missão... arredando o povo de vir assistir... um padre protestante, maçon e republicano, e dirigindo-me quando passavam e até ao pé do púlpito, ameaças de castigo e até de morte. Espalharam que eu era emissário do governo... E, passando de palavra a atos, ocuparam com gente armada todas as estradas do povoado, pondo-o em estado de sítio” (idem).
__ Como o frade continuasse com seu látego firme, denunciando as mazelas, no seu entender, da comunidade, no dia 20, pelas 11 horas da manhã, os principais da cidade, tendo à frente João Abade, saíram pelas praças e vielas apitando e arregimentando povo, para uma estrepitosa passeata, engalanada com muitos fogos de artifício e gritos de ‘vivas’ “ao Bom Jesus, ao Divino Espírito Santo e a Antonio Conselheiro e de lá vieram até a nossa casa, dando ‘foras’ aos republicanos, maços e protestantes, e gritando que não precisavam de padres para se salvar, porque tinham o seu Conselheiro”. E aí ficaram por quase duas horas em grande reboliço. Assuntando os padres.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIT6SST0Y5r3N7lPCjDwmAAo2KtHXGeOsvdht55p0qIXszCHGG6wdrZPzEaEg_fYstzV0X6N4TsgoI4Czc5AxzMhU8otvgN3npCF_hqDai-DMCJt_MkBp2rTZXxq81KLiCnwz4iOQucvo/s400/C.+O+rosto+do+sertanejo+sofrido.jpg
http://acxmassa.blogspot.com.br/

__ À tardinha, na hora de começar a missão,o frade denunciou a manifestação, que ele considerava como um “desacato” à sua pessoa, e, ato contínuo, declarou encerrada ali mesmo a missão, e, ainda cumpriu o preceito evangélico de sacudir o pó das sandálias contra as comunidades rebeldes, na frente deles. Segundo o frade o seu gesto causou grande impacto e descontentamento, de sorte que muitos que começaram a mostrar publicamente a sua discordância com o tratamento dado aos missionários, e ainda, por causa disso, várias famílias recém-chegadas começaram a abandonar o povoado. Uma comissão, na qual tomaram parte alguns dos “mais exaltados”, tentaram demover o frade de seu intento, mas ele permaneceu inarredável.
__ No dia seguinte, quando deveriam partir, o frade foi chamado para ministrar a confissão a um moribundo, sendo acompanhado por um bando armado. Uma vez na casa, o padre pediu que o bando saísse, para ele poder escutar a confissão, e eles então lhe disseram: “’custe o que custar, não sairemos’. Observei entã ao doente, que nem eu podia ouvir a sua confissão, nem ele estava obrigado a fazê-la naquelas circunstâncias”. Segue-se um bate boca, onde o frade vocifera contra aquele desrespeito às mais elementares normas da Igreja, e os conselheiristas, por sua vez, renovam insultos e ameaças.
__ O frade une-se aos seus companheiros, já com os animais arreados, e parte dali, sem olhar para trás, mas lembrando-se das palavras terríveis, que Jesus proferiu quando olhou para Jerusalém, do alto de uma colina, e que se cumpriram literalmente, num caso e no outro.

Balanço da missão
__ Calasans (4) é muito severo com frei João Evangelista do Monte Marciano, atribuindo a ele a responsabilidade pelo fracasso da missão de paz e, de uma maneira indireta, pelo desembocar da guerra: “O frade italiano não tinha as qualidades essenciais para levar a bom termo ação religiosa tão importante. Após uns poucos dias... a trindade missioneira teve de abandonar o local, agravando assim o relacionamento dos canudenses com o poder público... O chefe da missão... falava de maneira desabrida, misturando a língua materna com o idioma da terra de adoção. Suas pregações, segundo a tradição, eram repletas de ameaças anunciadoras de tremendos castigos celestiais... inábil no encaminhamento de problema tão significativo”.
__ Calasans divaga! É óbvio que o incidente propagador de tudo deve ser procurado em Maceté, onde o juiz local tentou fazer cumprir a lei, afinal o Conselheiro depredara patrimônio público e incentivava, de uma maneira ostensiva, o descumprimento da lei – ainda recentemente um juiz proibiu a publicação, no Rio de Janeiro, do livro Minha Luta, de Hitler, que estimula, ainda que de forma exclusivamente intelectual, a descumprir as leis contra o racismo e a violência em território nacional. O que há para notar a esse respeito é que o juiz agiu correto ao mandar um destacamento prender o Conselheiro, ao mesmo tempo em que chama a atenção o argumento que este usa, quando justifica a presença de um séquito armado: “a polícia atacou-me e quis matar-me”, como se o objetivo da polícia fosse matá-lo, e não prendê-lo, e como se não houvesse nenhuma razão para isso (prendê-lo). Havia, na cabeça dele, uma sentença republicana de morte contra ele, típico de maníacos e megalômanos.
__ Ele colocava à República um problema incontornável, pois ao mesmo tempo em que não queria deixar o Brasil, recusava-se a cumprir às leis da nossa república, comparadas à “lei do cão”, e as descumpria publicamente, fazendo-se cercar de gente armada para sua garantia. Ao demonizar a república fecha-se à possibilidade de diálogo. No ponto em que as coisas estavam será que o Barão do Rio Branco se sairia melhor? Talvez até houvesse menos bate-boca e estresse, mas e o resultado seriam diferente? Há mais um detalhe importante: essa gente armada não saáa de perto do Conselheiro, a sua mania de perseguição e o medo da repetição de 1876, contagiava a seu entourage, de sorte que já era muito difícil saber quem controlava quem. O mais certo é que a coisa já saíra de controle. O Conselheiro, a esse respeito, passa sinais ambíguos. Creio que mesmo que ele quisesse por fim à tudo aquilo, seus seguidores não o permitririam, pois eles já haviam perdido ou doado tudo o que tinham para seguir o Conselheiro e o seu projeto.
__ Ao acusar o padre de fazer sermões apocalípticos, muito severos, de um penitencialismo exacerbado, Calasans comete o erro de anacronismo e julga o conteúdo de sermões feitos no final do século XIX, tendo como parâmetro os que eram feitos na segunda metade do século XX, noutra circunstânca histórica, infensa aos excesos de retórica típicos de antanho. Ora, pelos testemunhos da época sabemos que esse gosto pelo excesso retórico e pelo apocalíptico era o que diferençava o “homem santo” dos outros, inclusive Antonio Conselheiro, apontado pelo arcebispo de pregar penitências imoderadas, numa carta já citada (ver parte 1). Era justamente nesse “excesso” que os ocnselheiristas e frei João Evangelista podiam construir uma ponte comum, mas nem isso foi possível, uma vez que aquilo que Calasans julga excessivo os conselheiristas viram como coisa de criança, de quem não leva penitência a sério. Para eles, frei João, em matéria de penitência, era frouxo, e por isso “maçon” e “protestante”.
__ O relatório do frade foi certeiro: a situação já está perdida, e a melhor alternativa é intervir logo, enquanto não cresce mais e fica mais difícil de resolver. O futuro lhe dará inteira razão. E o que fizeram nossos políticos do século XIX? O mesmo que os do século XXI: empurraram com a barriga, transferindo o abacaxi para o sucessor, no caso Luiz Vianna, eleito em 1896, cujos correligionários tentaram, inclusive, viver em paz com os conselheiristas, uma vez que estes criavam problemas para o seu maior desafeto político na região: o barão de Jeremoabo.
__ A violência e a hipocrisia sufocantes do sistema político crepublicano, acabarão por engolfar toda aquela gente e o país inteiro, num dos mais infames e absurdos conflitos de nossa história.

Notas
(1) Jeremoabo chamava os conselheiristas de “gente do 13 de maio”. Calasans (1) recolheu as seguintes palavras, em um manuscrito do Conselheiro, chamado Tempestades que se levantam no coração da Virgem Maria por ocasião da Anunciação: “Quantos morriam debaixo de açoites por faltas que cometiam, alguns quase nus, oprimidos de fome e de pesado trabalho... Chegou enfim o dia em que Deus tinha de por termo a tanta crueldade, movido de compaixão em favor do seu povo,ordena para que se liberte de tão penosa escravidão”. Não nos enganemos, as palavras são cristalinas; não estamos diante de um abolicionista convicto, seu discurso é neutro, excessivamente “espiritual”, como se estivesse falando para interlocutores extraterrenos, mas ele pelo menos fez algo por aquela gente, enquanto o resto da nação lavava as mãos quanto ao destino de milhares de ex-escravos.
(2) Eis o que diz Facó (p 87) “em 1893, os municípios são autorizados pelo Governo Central a efetuar a cobrança de impostos no interior. Para fazê-lo, à falta de imprensa e outros meios de difusão... afixavam as autoridades municipais às portas das Casas da Câmara, uma tábua em que se pregava um edital de cobrança. Era uma novidade...
... em Bom conselho, num movimentado dia de feira... O Conselheiro manda arrancar os editais de cobrança de impostos e com eles faz uma fogueira em praça pública”
(3) Ao mesmo tempo inventaram uma história, de que um conselheirista, a exemplo do mestre, teria dado uma sova pública numa “despudorada” local, que seria a amante do juiz, o qual mandou prender o beatão, sendo este, posteriormente, libertado “na marra” pelo Conselheiro em pessoa. Era uma dupla desmoralização para o juiz, que o povo devia ter “pelo gogó”, por causa dos impostos e por representar o poder público local, que só se lembra do povo na hora de arrancar dinheiro.
(4) A falência gradual e inexorável da economia nordestina, em especial no semiárido, na segunda metade do século XIX, vez que baseada principalmente na pecuária periclitante e na mão de obra servil, que, para salvar seus donos da insolvência, foi vendida a mancheias aos ricos cafeicultores do Sudeste, antes da abolição, reduzirá em muito a oferta de mão de obra local, causando a forte decadência da economia nordestina, como um todo, daí a facilidade de encontrar antigas fazendas, grandes senhorios, abandonados pelo interior. Sobre o proprietário dessa fazenda abandonada não encontrei dados seguros. Uma fonte fala de uma casa grande em ruínas, propriedadede gente ligada ao Barão de Jeremoabo (Calasans), outra fala de apenas uma pequena casa de vaqueiro (Cunha-Blaj) e outra ainda de uma casa grande, de um tal de Dr Fiel, incendiada em junho de 1897, com um conjunto de três fazendas, com várias casinhas, todas de propriedade do dito doutor, cujo herdeiro, Dr Paulo Fontes, abandonou o lugar com a chegada do Conselheiro (Benício). Raríssimos dados sobre Canudos e o Conselheiro são estáveis ou não passíveis de forte contradição.
(5) Cunha-Blaj, baseadas em Euclides da Cunha, citam as seguintes serras e elevações: Canabrava, Poço de Cima, Cocorobó, Caypan. Euclides, numa matéria para o Estado de São Paulo (17/7/1897), fala de que havia “em torno de Canudos um círculo de cumiadas”, cortadas pelo Vaza-Barris, em Cocorobó.
(6) A Wikipedia em francês, detalhando mais Cunha-Blaj diz: “às margens do rio foram plantadas leguminosas, milho, feijão melancia, cana-de-açúcar, batata, abóbora, etc. Mandioca era cultivada nas áreas mais úmidas adjacentes. Em Canudos havia um abatedouro e os suprimentos eram estocados em armazéns. Em cada casa, carne e frutos secos eram mantidos dentro de tigelas de barro. Havia horticultura nos arrabaldes e criação de ovelhas e cabras, em pequeno número, além de gado bovino.
A venda de pele de cabra fornecia boa parte dos recursos necessários à aquisição de bens no exterior. Os emissários de Antonio Conselheiro faziam negócio diretamente com os comerciantes de Juazeiro [nesse sentido convém firmar aqui a declaração de Cunha-Blaj, de que Conselheiro pagava bem pelo que adquiria, assim como, por vezes, pagava adiantado, logo quase todos, inclusive vários fazendeiros, queriam negociar com os conselheiristas]...
A venda de pele, entretanto, não propiciava grande receita, de sorte que Conselheiro se viu obrigado a flexibilizar um pouco o seu ideal de isolamento, autorizando os canudenses a trabalhar em fazendas próximas... Mas esse isolamento nunca foi absoluto, uma vez que o comércio nunca foi interrompido, tanto que, mesmo durante o conflito, os correligionários de Vianna [governador Luiz Vianna, da Bahia, enquanto que na região de Canudos a oposição a Vianna era encabeçada pelo Barão de Jeremoabo, que era do grupo dos gonçalvistas, de José Gonçalves da Silva, ex-governador], no Partido Republicano da Bahia, continuaram a mandar suprimentos para a cidade [algo veementemente negado por Vianna].
Conselheiro não só exigia que os seus seguidores praticassem trabalhos de agricultura em Belo Monte, como contratou, por jornada, trabalhadores de fazendas vizinhas. Em caso de necessidade ou de algum novo empreendimento, como o levantamento da igreja nova, ele enviou vários de seus seguidores a pedir ajuda financeira às famílias [fora de Belo Monte] que eram simpatizantes de sua causa...” (verbete Guerre de Canudos). É importante ressaltar que os dados apresentados no verbete da Wikipedia francesa são baseados no livro do autor americano Robert M. Levine: Vale of Tears, Revisiting the Canudos Massacre in Northeastern Brazil, construído a partir da tese, que eu não acredito, de que Canudos foi uma guerra pela identidade nacional, uma expressão mortal de uma política de branqueamento ou antimiscigenação, como havia nos EUA, que, se houve por aqui, aconteceu apenas nos círculos acadêmicos, constituídos, literalmente, de meia dúzia de gatos pingados, em meio a um oceano de analfabetos, para sorte destes, vivendo a partir de suas tradições e costumes integrativos e das necessidades de sobrevivência, que, normalmente, não acolhem esse tipo de estupidez (o racismo). O que estava em jogo, em Canudos, não era a identidade nacional - o deboche quanto ao fanatismo dos jagunços foi apenas uma diversão da imprensa e uma justificativa para os excessos; o que estava em jogo, em primeiro lugar, era a honra do exército, e em segundo lugar a autoridade de alguns coronéis, e aquele a lavou com sangue, com muito sangue. A prosperidade de Canudo, vista por Levine, é fortemente negada por uma testemunha ocular, frei João Evangelista do Monte Marciano, em seu relatório ao arcebispo, corroborado tanto pelas precárias condições locais de clima, relevo e solo, como pelo aspecto mesmo das casas que aparecem nas fotografias de Flavio de Barros.
(7) Leão XIII

Bibliografia
Benício, Manuel; O rei dos jagunços – Chronica historica e de costumes sertanejos sobre os acontecimentos de Canudos; Jornal do Commercio; 1899; Rio de Janeiro. PDF
Calasans, José; Antonio conselheiro e os escravos; PDF (1)
_____    ; A vida de Antonio Vicente Mendes Maciel (1830-1897); PDF (2)
_____    ; No tempo de Antonio Conselheiro: figuras e fatos da campanha de Canudos – coletânea de textos do autor; PDF (3)
_______ ; Relatório de Frei João Evangelista; PDF (4)
Câmara, Fernando; Conselheiro e o Centenário de Canudos – palestra pronunciada na Federação das Associações Comunitárias de Quixeramobim, no dia 22 de outubro de 1993, durante a 1ª semana comunitária em homenagem à instalação de Canudos; 1993; PDF
Cunha, Cândida P. da – Blaj, Ilana; A urbanização em Canudos ocmo decorrência da necessidade de defesa; Anais do VII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História – A cidade e a história; vol I; Revista de História; São Paulo; 1974; PDF
_____  ; Carta Mensal do Colegio Brasileiro de Genealogia, Genealogia de Antonio Conselheiro, ano VIII, Nº 46, out-dez de 1997; PDF
Dobroruka, Vicente; Antonio Conselheiro o profeta do sertão; PDF
Facó, Rui; Cangaceiros e fanáticos – gênese e lutas; PDF
Galvão, Walnice N.; Viver e morrer em Belo Monte; Revista de História da Biblioteca Nacional; 1/12/2014; online

Nobre, Edianne S. – Alexandre, Jucieldo F.; Missão abreviada: práticas e lugares do bem morrer na literatura espiritual portuguesa da segunda metade do século XIX; Revista Brasileira de História das Religiões, ANPHU; Ano IV; Nº 10; maio 2011. PDF

sábado, 18 de junho de 2016

A DONZELA DE ORLEANS E A MOURA TORTA

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de BR, EUA, França, Ucrânia e Rússia. Deus os abençoe.

http://i0.statig.com.br/bancodeimagens/b0/8y/76/b08y764qcahbjv0btj4hmh22r.jpg
http://www.meusconteudos.com.br/

__ Sou contra a privatização do Ensino Superior, e de qualquer outro nível, no Brasil, ainda que parcial, quando os ricos pagariam para os pobres estudarem de graça, como é a proposta, por exemplo, do PSDB, porque acho que a pesquisa universitária é tão estratégica que compensa cada centavo gasto em seus alunos, desde que se faça um sistema seletivo que realmente acolha os mais capazes, indiferente à classe social, ao estúpido sistema de cotas e à coloração política. Para mim o estado brasileiro ganha muito investindo em um Oscar Niemeyer, mesmo este provindo de uma família “podre” de rica, que a um aluno pobre que sonha, como me disse um, ser outro Fernandinho Beira Mar...
__ Entretanto, vislumbro grandes perigos a pairar sobre a qualidade de nosso Ensino Superior, tanto no discurso supostamente pragmático da direita brasileira: “universidade gratuita é para os pobres” (traduzindo: “precisamos gastar menos em educação, para sobrar mais para as propinas”), e pelo aparelhamento desse nível de ensino pela esquerda, que transforma grandes centros de pesquisas em igrejas do obscurantismo. Um exemplo disso eu constatei, com grande surpresa, num artigo recente do, até agora para mim, grande físico brasileiro Rogério Cézar de Cerqueira Leite, da Unicamp, intitulado A donzela de Orleans e as pedaladas, que eu quero crer escrito após uma dose de remédio muito forte ou um impacto físico análogo.
__ Nesse artigo Cerqueira Leite comete o desplante de comparar Dilma Rousseff a Joana D’Arc, e o inquérito, aberto, conforme regras democráticas e republicanas, a uma perseguição inquisitorial, e à prisão infame da Donzela da Lorena, conspurcando a sua provecta e respeitosa idade: 84 anos. Como dá para comparar uma jovem de 19 anos que larga tudo para servir o seu país, e aos 21 preferiu ir até às últimas consequências, inclusive a morte, completamente só, por seus ideais, deixando o seu país maior e mais engrandecido do que quando ela começou sua missão, com uma macaca velha, que subiu ao poder nas costas de seu patrono, pegando um país enxuto e em acelerado processo de crescimento, que fez toda concessão possível a toda sorte de pilantra e no final entrega o país completamente arrasado, enquanto se agarrava, como uma craca ao poder, apoiada por uma taluda claque de obstinados?! Trazer a inquisição para esse debate! Será que ele não sabe que o inimigo mais encarniçado de Dilma é Eduardo Cunha, cuja religião é evangélica, derivada do protestantismo arqui-inimigo da inquisição?!
__ A saraiva de sandices continua, infelizmente. Ele, sozinho, detectou uma pedalada de 100 bilhões de reais do governo Temer, a revelia da PGR, da imprensa e dos próprios deputados e senadores do PT e aliados, que devem estar dormindo... Para tornar a situação ainda mais estarrecedora, ele pretende denunciar a hipocrisia dos “inquisidores” destacando as pedaladas de Fernando Henrique Cardoso, omitindo sintomaticamente as de Lula, enquanto justifica as de Dilma, afinal ela “atrasou pagamento aos bancos do próprio governo”. Por favor, alguém diga a este homem que não existe “banco do governo”, porque o governo, nem os bancos privados, fazem dinheiro, o dinheiro dos bancos ou é do povo, a quem Cerqueira Leite diz defender, ou de ricos acionistas, e é por isso que eles quebram, e foi isso que Fernando Henrique evitou, quando pagou em dia os bancos oficiais, e qualquer economista, que não seja físico da Unicamp, nem fanático pelo PT, sabe que foi a higidez do sistema bancário deixada por Fernando Henrique, que tornou a crise de 2008 na “marolinha” que o Lula desprezou, antes de nos lançar o “tsunami” Dilma.
__ Ele gaba as 23 universidades que o Lula criou, sem fazer qualquer menção à qualidade suspeita dessas universidades nem ao dinheiro em caixa e a estrutura de estado enxuta que aquele recebeu de seu antecessor, que, infelizmente não restará ao sucessor da aventura petista. Será que ele já ouviu falar de Campos Sales e Rodrigues Alves, ou isso é pedir demais a um “polímata” da UNICAMP. Tampouco faz qualquer menção à destruição do sistema econômico brasileiro sob o governo da Joana D’Arc às avessas, que já fez milhões de desempregados, problema que, decerto, nunca atingirá Cerqueira Leite, e obriga o atual governo inúmeros cortes, inclusive em áreas sociais importantes, por total falta de recursos, e evitar que o Brasil entre em estado de calamidade pública, como o Rio de Janeiro, de onde vêm os aliados mais fiéis e as manifestações mais ruidosas em prol da “donzela” sem juízo, sem moral e sem vergonha, que tanto nos envergonhou perante o mundo.
__ Por fim, incapaz de sustentar qualquer argumentação minimamente factual, lógica ou digna de crédito, e como que a colocar uma cereja sobre a cobertura de um bolo de vento, Cerqueira Leite se arrisca na profecia, entregando a sua vocação a sacerdote petista: “podem caçar Lula, podem caçar Dilma [já o estamos fazendo com dois “esses”, e se necessário vamos colocá-los na cadeia para que paguem por seus crimes, como se fossem gente comum, e não os deuses de uma seita de fanáticos], podem desbaratar o PT [não precisa, ele fará isso sozinho], mas o futuro lhes fará justiça...” Bem, a única coisa que lhes está restando no presente é enfrentar a possibilidade de serem lançados, já, no mais tenebroso lixo da história, fosse o nosso povo mais educado, como já aconteceu a vários outros aventureiros populistas, nessa infeliz América Latina. Sua profecia é um fracasso mesmo antes de ser proferida, melhor seria ter-se calado.
__ Por último eu gostaria de entender como um homem provecto e consagrado na sua área de estudo, como Rogério Cézar Cerqueira Leite, abandona-a, numa hora tão delicada, para fazer análises temerárias e descabidas, por vezes desonestas, em área que não é, em absoluto, de sua competência. Ele podia ter lutado pela sua presidenta e o seu partido, com a elegância e o autoconhecimento de quem tem massa intelectual e prestígio de sobra para ficar no patamar superior de luta, como vários o fazem, sem precisar rolar até a lama, para atingir seus opositores, deixando para todos bem claro, que uma coisa é ser especialista e outra é ser sábio.

__ O quanto a sabedoria está a fazer falta na nossa academia, que deve continuar aberta e acessível a todos os brasileiros que tiverem vocação e competência para o nível superior de ensino, pelo menos enquanto ainda valer a pena. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

AMARGA VITÓRIA

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Brasil, EUA, França, angola, Coreia do Sul, Rússia, Alemanha. Deus os abençoe.

http://blogdobocao.com/wp-content/uploads/2015/10/Charge-do-Cunha.jpg
http://participardapolitica.blogspot.com.br/

__ Creio ser correto acreditar que, até prova em contrário, ou nova manobra, começou a derrocada final do deputado Eduardo Cunha. Mas, ai de nós!, pois para vermos vencer, em nosso Congresso, a honra, a justiça e a verdade temos que esperar pela traição de desonrados, injustos e mentirosos!

__ Isso precisa mudar!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

NENHUM SER HUMANO É UMA ILHA, MAS É UM MUNDO, E PODE SER ASSUSTADOR.

Prof Eduardo Simões

http://gfebespiritismo.com.br/wp-content/uploads/homemmuitotriste.png
http://www.gfebespiritismo.com.br/

__ Fico imaginando alguém, homem ou mulher, entrando numa delegacia, dizendo que, após forrar sua carteira de dinheiro, saiu com o seu carro importado zero para a balada, tomando antes o cuidado de passar na zona mais barra pesada da cidade, o que era de seu conhecimento, e agora está ali, prestando queixa de roubo, apenas com a roupa do corpo.
__ Ele certamente dirá que é um adulto, no pleno gozo de seus direitos civis, entre os quais se incluem poder sair sozinho, levando suas posses, e de transitar em qualquer área da cidade, em qualquer hora do dia ou da noite. O delegado, certamente, cumprirá o seu dever e sairá em busca dos criminosos, mas mesmo assim não livrará a vítima de um grande prejuízo, tanto financeiro como moral, pois aquela ainda terá que ouvir muito de seus amigos e amigas “só um louco ou um otário circularia naquelas bandas”.
__ No dia seguinte ao horroroso e abominável massacre da boate Pulse, em Orlando, uma blogueira de VEJA, escreveu um artigo intitulado ABRAÇO DOS SOBREVIVENTES: ATAQUE AO ESTILO DE VIDA DAS DEMOCRACIAS E O DIREITO DOS ADULTOS FAZEREM O QUE QUISEREM. Ela podia ter completado a frase com “E SOFRER COM ISSO”, afinal o matador também era adulto, estava fazendo o que queria e morava num sistema democrático, que, fora da esfera sexual, aparentemente não o desagradava.
__ Omar Matteen era um desajustado, alguém que não conseguia entender o mundo à sua volta, sentindo-se minoritário e encurralado. Se pelo fato de ser islâmico ou de ascendência afegã pura e simples, ninguém poderá jamais afirmá-lo, afinal a grande maioria dos islâmicos e afegãos, morando em outros países, não sai por aí atirando contra tudo ou contra quem os desagrada.
__ Se o que mais o influenciou foi o fato de ele ter sido mal educado ou uma possível convivência com os terroristas do EI, será também difícil dizer, mas algumas coisas nós sabemos perfeitamente sobre a decantada sociedade americana e a sua democracia:
a) Há uma clara e onipresente cultura da violência e da agressão física, claramente perceptível, por nós brasileiros, nos cinemas e seriados, mas também nos grandes magazines, que costumam rechear suas páginas com abundantes fotos de cadáveres e combatentes em áreas de conflito.
b) Há um claro, poderoso e público incentivo à fabricação, comercialização, posse e uso de armas de fogo, contra o qual queda, impotente, um dos presidentes mais populares da história do país, incentivo esse que encontra uma de suas maiores justificativas justo no fato de o país ser uma democracia. É irônico, não é? E mais: se não fosse autorizada, democraticamente, a comercialização, inclusive, de armas pesadas, como fuzis automáticos, certamente que o número de vítimas seria bem menor.
c) A democracia, e mesmo a escola de tempo integral, não conseguiram vencer, por serem inadequadas para isso, a imensa barreira racial e cultural que os americanos, em que pese as generosas apresentações de seu sistema político, levantaram contra a absorção de gente estranha às comunidades fundadoras, criando um tabuleiro de comunidades estanques, e, nas fronteiras destas pessoas isoladas, lobos solitários, prontos para explodir, quando a sua sensação de solidão e encurralamento ultrapassar ao limite tolerável, que varia de pessoa a pessoa, na forma de grandes massacres; nas escolas, nas empresas, nas ruas, nas estações de entretenimento, ou ainda nos crimes hediondos dos serial killers, dos quais os EUA são campeões mundiais absolutos. A estes o americano médio só tem uma coisa a dizer: “PERDEDORES”, dito com a máxima entonação de desprezo possível, até acontecer a próxima tragédia, quando muitos verterão abundantes lágrimas, e todos se sentirão perdedores.
__ Em vista do que aconteceu na Pulse e do que acontece no Brasil, mais de uma centena de crimes de matiz homofóbica por ano, creio que é chegada a hora de discutir uma questão que fará certos “democratas” e “adultos” terem urticária, que é a necessidade de cuidar também dos preconceituosos, dos “perdedores”, das minorias, que não apenas aquelas que querer revolucionar costumes ou a política, mas também aquelas que são visceralmente conservadoras, pois todos, e não só os aliados próximos, merecem cuidado; cuidado esse que se expressa por meio de uma educação inclusiva, mas sem imposições ou ameaças, mesmo que seja a favor da tolerância, e não fazer da minha liberdade uma fonte de agressão contra aqueles que não conseguem ainda aceitar determinadas mudanças, porque para aqueles que escrevem artigos muito afirmativos, e até incendiários, tudo não passa de uma questão de ideias e princípios, mas para as vítimas e as suas famílias a perda, a dor e o trauma são reais, e não se resolveram com a leitura de teses inflamadas, por mais politicamente corretas que sejam.
__ Aqui cabe como uma luva uma expressão do apóstolo São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios: “tudo me é permitido, mas nem tudo convém”.
__ Não é só o conceito de democracia da blogueira que é falho, mas também o seu conceito de adulto, pois o verdadeiro adulto, uma pessoa psicológica e socialmente madura, não faz o que quer, mas o que deve, pensando principalmente no bem da comunidade, das outras pessoas, sem abrir mão de seus princípios. Quem faz o que quer, pensando apenas no seu bem estar e no seu prazer, a revelia do mundo, são as crianças e os adultos imaturos e mimados, talvez até doentes, como o atirador da boate Pulse.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjPoliyT4SI6ym8mcGxLFE7J9CpXyG2NGBVVoshwEVuUr-u7qYB-7hULcFxdNlTVDa7knlge6ylFO092MWLLQh7VyggPnH2HiRgO4CTuuA2Nsv2OTRoHcGmFDx8J7hY3h7CIhzUGW45oDE/s1600/Homem+s%25C3%25B3.jpg

http://golp-piracicaba.blogspot.com.br/

sexta-feira, 10 de junho de 2016

CANUDOS (1896-1897): PEQUENA HISTÓRIA DE UM GRANDE MASSACRE - 1

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Brasil, Alemanha França, EUA, Coreia do Sul, Holanda, Romênia, Angola e Ucrânia. Deus os abençoe

Peço desculpa aos leitores por ter lutado em vão para reproduzir o português do final do século XIX, em algumas partes deste relato, mas a correção automática do computador me frustrou, mas ainda assim aparecem alguns erros clamorosos no meio da citação literal de documentos; além disso alguns erros de ortografia foram corrigidos (o autor).  

__ Tudo começou em outubro de 1896, segundo o governador da Bahia Luiz Vianna, com o recebimento, por este, de um telegrama urgente, enviado pelo juiz da comarca de Juazeiro, Arlindo Batista Leoni, pedindo o concurso da força pública estadual para conter um ataque previsto à sua cidade, por uma malta de gente ligada a um beato conhecido como Antonio Conselheiro, do vilarejo de Canudos. Mas antes disso muita água e, principalmente, muita poeira, passará por baixo dessa pinguela, e acima...

A influência do ambiente

http://tribunadoceara.uol.com.br/blogs/blog-verde/files/2012/07/Caatinga_Brown_Jay_adventures2.jpg
http://tribunadoceara.uol.com.br/

__ Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, nasceu no mais profundo semiárido nordestino, na chamada mesorregião dos Sertões Cearenses, a mais árida das sete microrregiões do estado, na cidadezinha então pobre e estagnada de Quixeramobim, em 13 de março de 1830, pagando por assim dizer o preço de nascer numa área fora do interesse do Estado e do grande capital, mas ainda assim intrinsecamente ligada ao projeto colonial tanto português como nacional-imperial, mas em virtude de sua pouca relevância política e econômica, para as atividades exportadoras e a grande política nacional, o semiárido nordestino foi relegado ao abandono e entregue à lei do mais forte, desde que não afetasse os interesses estratégicos da elite estabelecida ora em Lisboa ora no Centro-Sul do país.
__ Os tênues laços com a civilização do litoral e o abandono das autoridades fez com que prosperasse nessa região, de uma maneira bastante singular, o conceito da grande família e de fidelidade familiar, fornecedora de mão de obra e braço armado, para o sustento e a segurança do núcleo gerador – as famílias mais numerosas do semiárido, assim como os insetos, tinham mais chance de sobreviver e se impor aos seus adversários que as pequenas; minha avó, gente de Nova Russas, teve 17 irmãos. Mas isso também conspirou para criar um problema crônico nessa região: o número de habitantes era sempre superior às possibilidades da região em sustentá-los com conforto. A pobreza tornou-se endêmica, e a luta pelos meios de sobrevivência brutal.
__ A principal fonte de prosperidade no sertão eram os olhos d’água, emanações do espetacular oceano de água doce que jaz sob o solo crestado da superfície, capaz de garantir a sobrevivência das criações, principal fonte de sustento e a renda da família proprietária desse tesouro. Mas, como dissemos antes, havia mais gente que recursos prosperando, e esses outros também tinham o seu gado e também queriam ou precisavam daquele olho d’água. Sem o Estado para mediar os conflitos, ou o fazendo de forma muito precária, a solução era decidir “no braço”, por meio do conflito armado, quem teria direito aos olhos d’água, ou apossar-se da esparsa estrutura de estado existente, para usá-la em seu benefício, a perseguir e exterminar os adversários. Quem logrou esse objetivo, saiu-se melhor.
__ Afora e para além disso, havia uma “mentalidade”, uma “cultura”, intangível, que povoava e ainda povoa a mente dos nordestinos, incompreensível ou “irracional” para quem não viveu o cotidiano dessa gente, que é o conceito de “honra”, de “ofensa pessoal”, pelo qual o indivíduo pode, muitas vezes, por tudo a perder, indiferente aos ganhos e perdas financeiras, se partisse para uma solução negociada. Hoje, mesmo com a maior presença do Estado, é difícil fazer cessar o anseio de vingança, de “lavar a honra no sangue”, que torna alguns estados nordestinos campeões da violência nacional, em que pese o glamour e a publicidade que recai sobre os traficantes nas grandes cidades. Imagine-se como não era onipresente e desenfreada essa violência na primeira metade do século XIX!

http://s2.glbimg.com/cqrdGYgAXdyMRZfgjLKkVcE_ieM=/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2014/03/19/bettini_17.jpg
http://g1.globo.com/

__ Em seu livro O rei dos jagunços, bem documentado, embora confuso e fantasioso às vezes, mas bastante fiel a essa mentalidade nordestina, o jornalista Manuel Benício relata entreveros memoráveis entre famílias, que o adolescente Antonio Vicente Maciel conheceu em primeira mão, quiçá contado por seus protagonistas, com todo aquele colorido emocional e riqueza de detalhes que é comum sair da boca dos cearenses, quando começam a contar seus “causos”, que causam eles serem repentistas imbatíveis e extraordinários contadores de histórias. E o que aqueles contavam a Antonio era a saga de uma guerras, brutalidade e violência sem limites e sem fim...
__ O período não era muito favorável: início das Regências, tempo de indefinição e alternativas, criado pela fuga tumultuária de D Pedro I, momento propício para a vazão e o aumento de acertos de contas locais, aproveitando-se do agravamento da corrupção local e da indiferença tradicionais das autoridades centrais, agravadas pelas incertezas políticas e a emergência de novos atores na cena política nacional.
__ Eram os Maciel, a família de Antonio Vicente, uma gente de pequenos criadores, muito numerosa, rústica e valente, que lutava a duras penas para sobreviver com os poucos recursos que lhes dava o sertão entre Quixeramobim e Tamboril, no Ceará. Disputando pelos mesmos recursos, embora mais abastados, estavam os Araújos e seus aliados: os Veras, em um ambiente tão hostil e carregado bastava uma palavra, um mal entendido, uma fofoca, para desencadear uma hecatombe de sangue, como ocorreu, quando um roubo sofrido por Silvestre Rodrigues Veras foi precipitadamente atribuído aos Maciel, e um deles, Miguel Carlos, tio do Conselheiro, lançou de volta a suspeita sobre gente dos próprios Veras, e ainda aproveitou para mandar um recado: quem chamasse um Maciel de ladrão, pagaria com a vida. Era o longínquo ano de 1833.
__ Tem então início uma guerra aberta entre os clãs, com fortes baixas de ambos os lados, e a muito custo, chamando capitães do mato de fora, os Veras-Araújos conseguem prender, sob garantia de vida, os principais chefes dos Maciel. Porém, sob o falso pretexto de transferi-los a outra prisão, os Araújo, como era tradicional acontecer nesses casos, montaram uma armadilha no meio do caminho e trucidaram vários Maciel, conseguindo outros fugir, entre eles, ferido, Miguel Carlos – é curioso que numa sociedade onde o conceito de honra era sempre evocado antes de se tomar decisões tão fatais, se desse tão pouco valor à palavra dada, e a emboscada, ao invés do duelo, fosse a forma tradicional de acerto de contas. Um conceito de honra estranho, para padrões civilizados, mas não para uma sociedade onde as pessoas eram consideradas essencialmente desiguais, e as relações humanas muito assimétricas.
__ Miguel ocultou-se na casa de uma irmã, mas, enquanto se tratava, um grupo de jagunço dos Araújo atacou o lugar, no momento que um valentão assoma temerariamente o umbral da porta é abatido por um tiro certeiro de Miguel, e cai. A irmã de Miguel corre para afastar o corpo e fechar a porta, mas nesse momento é abatida por um tiro do principal jagunço da volante, Pedro Martins Veiga, que, ao matá-la, se expõe, e recebe um balaço certeiro e vingador do irmão da vítima. Os outros recuam e esperam o anoitecer, quando se aproximam, sem ser vistos, e põem fogo no lugar. Miguel, aproveitando-se da escuridão, foge pela caatinga, sem ser visto, deixando para trás a sepultura incandescente da irmã. Haveria vingança.
__ A agressão era tanto mais odiosa para os Maciel, porque a mulher assassinada morrera solteira, por isso, quando souberam que Luciano Domingues de Araújo, filho de um importante Araújo, de casamento marcado, estava de passagem,  resolveram fazer o acerto de contas. Um tiro de Estacio José da Gama, de um ramo colateral da família, jogou por terra os sonhos futuros do quase casal. Luciano, no dia do casamento, chegou baleado à casa da noiva, apenas a tempo de casar e morrer.
__ Estácio foi preso, julgado e condenado à morte, pelo assassinato de Luciano, no dia 14 de março de 1834, e morreu por fuzilamento no dia seguinte, às 16:00, sem entregar ninguém dos envolvidos na trama. A execução imediata de Estácio, entretanto, foi um escândalo jurídico, pois conforme a lei vigente o condenado tinha o direito a um prazo de até oito dias para apelar ao Imperador – decretos de 11 de setembro de 1826 e 15 de novembro de 1827. O juiz do caso, Antonio Duarte de Queiroz (juiz leigo), aparentado aos Araújo, simplesmente alegou, num ofício datado de 21 de junho de 1834, que ignorava tais decretos! Queiroz foi levado a julgamento, num tribunal suspeito, e inocentado (ver Benício, 1899).
__ Não havia para onde correr, não havia de onde esperar justiça, nem havia como ficar neutro. O homem do semiárido já sabia, desde crianças, que teria duas opções na vida, ou se tornaria jagunço, a serviço irrestrito de um chefão local, em geral um grande proprietário, quiçá, com título de nobreza, matando gente ou falsificando papeis em cartórios, ou seria um cangaceiro, que é uma espécie de jagunço independente, embora próximo ou aliado a este ou aquele chefão. Um criminoso, como aquele, com mais liberdade para escolher suas vítimas. A única opção para quem não queria se expor à violência era se tornar padre ou beato, homem acreditado como próximo de Deus, ou do diabo, o bastante para fazer os circunstantes, inclusive os mais destemidos e famigerados jagunços, tremerem de medo só ao ver sua silhueta.
__ O assassinato do noivo levou ao episódio mais dramático e icônico dessa guerra bestial. Prostrado por uma bala, numa emboscada organizada pelos Araújos, Miguel Carlos tomba gravemente ferido. Quando Manuel Araújo, irmão do noivo, aproxima-se e crava-lhe a punhalada final, para poder, conforme manda a tradição dos “valentes”, gabar-se de ter morto o desafeto com as próprias mãos, Miguel, juntando as últimas forças, crava seu punhal no pescoço daquele. E assim ambos, inimigos incondicionais, morrem, um sobre o outro, abraçados, como se irmãos fossem, unidos pelo ódio recíproco, incontrolável, inconsciente e de origem, quiçá, indeterminada.
__ E assim por diante, em vários outras regiões do Nordeste, em uma infinidade de famílias.

A influência familiar

__ Miguel Carlos Maciel, o pai do Miguel Carlos acima, era avô de Antonio. Um homem destemido e brigador, teve, ao contrário dos grandes patriarcas nos sertões, apenas um filho ilegítimo: Vicente Mendes Maciel, assim descrito: “bonito, de tez ligeiramente morena, vigoroso e intelligente, mas rethraido, taciturno, mal e perigosamente desconfiado, bem que muito cortez, obsequioso e honrado. Tinha momentos terriveis de colera, principalmente quando tocava no alcool. Era de uma valentia indômita e meio surdo. Em um de seus momentos dera tantas facadas na mulher, que esta esteve sacramentada [recebeu a extrema unção]” (Benício; p 15) (1). Depois desse episódio, segundo Benício, ele fez as pazes com a mulher e abandonou a bebida.
__ E quem era essa mulher? Segundo pode-se depreender do batistério de Antonio, ela seria Maria Joaquina (2) com a qual Vicente teve duas filhas, além de Antonio: Maria Francisca (9/6/1831) e Francisca Maria (8/6/1833). Com a morte da primeira esposa ele se casa, em fevereiro de 1836, com Francisca Maria Conceição ou Francisca Maciel, com quem tem, segundo Fernando Câmara (1993), mais duas filhas Dorotea e Rufina – Benício (1899) só faz menção a uma: Rufina.
__ A morte de Maria Joaquina, segundo Benício, desestabilizou o psiquismo frágil do pai que, abandonando definitivamente as atividades de vaqueiro, marca registrada dos Macieis, resolveu se dedicar apenas ao comércio, e, apesar de ser completamente analfabeto, graças à sua diciplina e inteligência vivaz conseguiu razoável prosperidade, mas esta não lhe foi benéfica de todo, uma vez que começou a ser possuído por uma compulsão a construir casas. “Nos últimos tempos, diz Benício, Vicente era vítima de uma demência intermitente” (p 17), até morrer, em 1855, deixando a família ainda com alguns recursos.
__ Quando criança, Antonio era muito sério e compenetrado para a sua idade, característica herdada tanto do modelo paterno como aguçada pelos destratos insidiosos de sua madrasta, embora tenha crescido muito querido pelo povo da cidade, em virtude de seu comportamento exemplar, sua inteligência, sua grande religiosidade e sua paciência com as crianças. Teve, ainda assim, estudos onde se destacou principalmente por sua aplicação e sua letra, muito bonita e caprichosa. Gostava de se isolar e ler muito, em especial os livros piedosos da época, cheios e histórias milagrosas e edificantes, em especial, histórias românticas de cavalaria, a vida dos santos e conselhos de sabedoria bíblica sobre a vida, às vezes tratados de forma muito idealizada (Fernando Câmara, 1993, 1997). Câmara afirma que um livro que lhe causou mais impressão e o seguiu pelo resto da vida foi Missão abreviada, do padre Gonçalo Couto, de 1859 (cuidado com as datas eu aparecem em Câmara, várias estão erradas!) (3). Com a morte do pai, o adulto sonhador continua a aguentar o mau gênio da madrasta, agora inconformada com a sua falta de iniciativa e de tino para as coisas práticas do rapaz, sem falar de sua forte oposição, assim como a de amigos da família, quanto à encantamento dele em relação à jovem Brasilina Lima.
__ Quando a madrasta morreu, ele põe a mão numa bolada dinheiro razoável, mas a dilapida rapidamente devido a sua incompetência comercial, ao mesmo tempo em que é assediado por uma prima desmiolada, de costumes duvidosos, chamada Francisca Tereza de Lima, que em uma de suas aventuras gerara uma filha de tão grande beleza quanto pouco juízo e escrúpulos, de nome Brasilina Laurentina de Lima, de apenas 15 anos, que, experimentada na arte da sedução, quiçá orientada pela mãe, ganha o coração do ingênuo herdeiro. Antonio se apaixona e casa-se com ela às pressas, em janeiro de 1857, e logo têm um filho. Era realmente uma pessoa ingênua, despreparada, que age pelo impulso da paixão e da superficialidade.
__ Muda-se para a cidade de Ipu, e aí tenta carreira como professor e como advogado leigo ou rábula, dedicando-se à advocacia dos mais pobres, o que lhe rende tanta dor de cabeça, com a parcialidade dos juízes, como mui escassos honorários. O casal se empobrece, a vida familiar colapsa, no ano seguinte. Brasilina resolve recorrer a um amante, um furriel (entre cabo e sargento) da polícia, João da Mata, de quem ele era amigo. Segundo uma versão surpreende-os em pleno adultério e, mostrando um sangue frio incomum para m sertanejo, ainda mais para m Maciel, se despede dos dois abandonando a casa, mas outra versão diz que ela e o furriel fugiram com os filhos de Antonio, dois, e que ele, inclusive, teria se tornado cacheiro viajante, batendo todo o Ceará, em busca dos amantes, para acertar as contas, o que explicaria uma lacuna na sua biografia ao longo da década de 1860. Pressionado pela cobrança judicial de uma dívida, em 1871, e repleto de más lembranças, ele abandona o Ceará, por volta de 1873.
__ Brasilina, segundo Benício e Câmara, é, algum tempo depois, abandonada pelo furriel, prostitui-se, e termina seus dias como mendiga, nas ruas de Sobral.

O beato dos sertões

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/17/Padre_Ibiapina_1.jpg
Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2553462

__ Em algum momento nesse período ele se incorporou às missões do célebre padre Ibiapina (acima), que era o melhor dos mestres possíveis a um pretendente a beato ou padre poderia ter.
__ José Maria Antonio Ibiapina (1806-1883), nascido na cidade de Sobral, era um homem culto, formado em direito e juiz de comarca, que marcara a sua atuação pelo desejo de aplicar rigorosamente a justiça da forma mais correta, uma espécie de Sérgio Moro do semiárido, sendo, entretanto, marcado pelo Judiciário com o desengano causado pela parcialidade de seus colegas e as mazelas do sistema, o que o levou a abandonar o direito e se dedicar à religião, em especial à catequese dos mais pobres, e mais ainda àqueles que estavam esquecidos por todos, inclusive por seus colegas de batina, no mais profundo semiárido.
__ Andando pelos sertões a rezar missas, orando, dando conselhos, orientando, com um espírito animoso e uma oratória vibrante, ele conseguiu mobilizar enormemente o espírito daquela gente, e em pouco tempo começou a correr um boato generalizado de sua santidade e de seus milagres, embora a sua principal marca seja a dos conselhos práticos e os cuidados naturais, materiais, para com as necessidades do povo, a ponto de ser reconhecido por alguns como um pioneiro da Teologia da Libertação. Sua ação de orientando hábitos de higiene e medidas sanitárias adequadas à população rural foi imitada tanto por Antonio Conselheiro como pelo famoso padre Cícero, mas, diferente destes, soube evitar o encanto fácil do sucesso e do voluntarismo.
__ No fundo dos sertões, em busca de algo, que ele não sabe bem o que é, obrigado a enfrentar seus medos e carências, na solidão e no silêncio atordoante da caatinga, sob um sol abrasador, que queima os miolos e turva os sentidos e o juízo, estava Antonio Vicente. As árvores ressecadas, na maior parte do ano, lembravam a viajantes e moradores que ali é o território da morte, que pode vir pela insolação, por um animal peçonhento, pela falta de água ou de comida, além de tiro ou golpe de punhal, tudo de forma absolutamente natural. Lá, no meio da solidão e no combate diuturno com o aniquilamento e a loucura, ele fez o seu rito final de passagem, e deixou, pouco a pouco, de ser o Antonio Vicente Mendes Maciel, de Quixeramobim, para se tornar o Antonio Conselheiro, o mais impactante personagem da história dos sertões.
__ Como Antonio, um homem educado, de cidade, cujas maiores dificuldades até ali se restringiam à análise dos papeis impiedosos que traziam, mês a mês, a marca de sua dificuldade em prover a família, conseguiu sobreviver á inclemência do sertão e tornar-se quem se tornou? Ele, certamente, não se apartou completamente da convivência humana, como um típico anacoreta medieval, mas apenas foi mais para a periferia das vilas, junto às casinhas nas fazendas, onde mora o camponês e o vaqueiro, gente pobre, muito pobre, em termos materiais, mas não miserável, pois no seu meio se sente soberano, e é absolutamente incapaz de negar ajuda a quem pede. No meio dessa gente ele percebeu o valor da solidariedade desinteressada, para além dos laços de sangue, o desejo de paz e sossego, uma teimosia temerária e uma versão do catolicismo que, certamente, foi muito importante na preservação da sua sanidade mental e identidade; um objetivo para a sua vida, ao mesmo tempo em que concluía, na sua infinita solidão, que tudo que fizera para parecer bom aos outros teve como paga os maus tratos, da madrasta, a indiferença do pai, a miséria, do professorado, a hipocrisia, da justiça, e a traição, do amigo e da esposa.
__ Sempre fugindo aos moldes, mesmo os do padre Ibiapina, que conservou-se até o fim ligado à Igreja Católica – não que este fosse um acomodado ou incapaz de detectar as falhas do sistema, mas aprendera, já na magistratura, que não se pode ganhar todas e que é necessário dar tempo para o fruto amadurecer, antes da colheita. Antonio Maciel não era assim, durante quase toda a sua existência refugiara-se no mundo imaginário da literatura e da religão idealizada, onde era soberano, e do qual fora expelido com tanta violência. Agora o mundo seria do jeito que ele queria ou imaginava, e não haveria acordo. Aos poucos a sua mente obstinadamente convencional se transmuta para obstinadamente rebelde, e se afasta dos ideais do mestre Ibiapina. Em 1873 ele abandona o Ceará e se interna nos sertões de Pernambuco e da Bahia, a se aprofundar cada vez mais nos sertões geográficos do semiárido e nos sertão fantástico de seu psiquismo...

https://www.fatosdesconhecidos.com.br/wp-content/uploads/2014/11/393.jpg
http://www.fatosdesconhecidos.com.br/

__ Em 22 de novembro de 1874 saiu uma notícia sobre ele no jornal sergipano O Rabudo: "Há seis meses que por todo o centro desta Provincia e da Provincia da Bahia, chegado, diz ele, do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por Santo Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito, à  forma de um sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos), distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus [outros citam uma rústica alpercatas], o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo." Outro detalhe descrito por Benício é que ele sempre trazia nas mãos um exemplar da Missão abreviada, do padre Couto.
__ Pelo teor da matéria pode-se deduzir duas coisas: primeiro, o jornalista-editor publicava algo de que ouvira falar por terceiros; segundo, há uma clara intenção de acentuar os detalhes bizarros ou “nojentos”, embora perfeitamente dedutíveis das condições em que Antonio vivia, as mais pobres entre os mais pobres, para conduzir a uma conclusão necessária: esse homem ou não é normal ou não é bom.
__ Sabia-se que já há algum tempo ele vagava pelos sertões sem moradia fixa, sem nunca se deter muito tempo em um lugar, quase não comia nada, das refeições que lhes eram ofertadas pelos sertanejos, dormia onde tivesse abrigo ou mesmo ao relento, estirado diretamente no chão da caatinga, como os profetas mais rústicos do Primeiro Testamento. Achegava-se aos vilarejos e casinhas abandonadas nas fazendas a pregar as mensagens tradicionais de penitência do catolicismo, adaptado à psicologia do povo, ansioso por sinais maravilhosos e bons exemplos. Antonio podia falar do jejum penitencial e da pureza sexual com autoridade, porque isso ele praticava até ao extremo. Quando lhe davam esmolas em dinheiro, que ele achava excessivas, costumava devolver a maior parte.
__ A oração do terço e o cantar das ladainhas, no final do dia, num ritmo dolente, arrastado, monomelodioso, que, graças ao timbre das vozes femininas, que só quem escutou consegue sentir, tinham um poder envolvente e uma sua força primitiva irresistível, eram as suas práticas prediletas, como alguém torturado pedindo a paz, que sabe ser impossível nesse mundo. Havia o trabalho manual, gratuito, feito por ele e a multidão cada vez maior de sertanejos que o seguiam-no em sua peregrinação interminável, na restauração de igrejas e cemitérios e erguimento de capelas, talvez a reprodução inconsciente do modelo paterno, o que, a princípio agradou muito aos padres da região.
__ Mas havia também as pregações e os conselhos, conselhos bem tradicionais, dos quais ele não abria mão, e que recomendavam a conversão dos costumes, conforme prega a igreja, mas com uma ênfase quase “selvagem”, além da condenação peremptória de todos os vícios, o que, deve ter começado a apertar o calo de alguns padres não vocacionados, que devia ser comum numa época em que o catolicismo era religião oficial e o padre um funcionário do estado. Esses foram os primeiros a sentir o látego do profeta dos sertões e a refugar a pregação de Antonio Conselheiro.
__ Mas havia também os padres vocacionados, que podem ter sido a maioria, que não concordavam com os extremos a que Conselheiro se submetia, e incentivava o povo a se submeter por seu exemplo e palavras. Conselheiro, aparentemente, era “literal” demais; e se o literalismo em relação à Bíblia já não é indicado, quanto mais com as Missões abreviadas do padre Couto. Os conselhos e recomendações de Antonio, certamente extrapolavam o razoável, embora não se tenha colhido dele, nem ninguém cite, um ensinamento seu que se possa dizer teologicamente desviante ou “herético”. Embora possa até ter havido.

Começa o calvário

__ Manuel Benício (p 43) informa que ele foi preso, em 1876, numa localidade chamada Missão de Saúde, no extremo da comarca de Itapicuru, na Bahia, e, contra a vontade de seus seguidores, levado para Salvador, e de lá remetido em um navio para o Ceará, começando a sua fama de mártir entre os sertanejos. Com ele seguiu um ofício do Chefe de Polícia da Bahia, o Secretário de Segurança da época, João Bernardo de Magalhães, datado de 6 de junho de 1876, e dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará, com as seguintes justificativas:
“... Faço apresentar a V. S. O individuo que se diz chamar Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antonio Conselheiro, que suspeito ser [meu destaque] algum dos criminosos dessa Provincia, que andam foragidos.
Esse indivíduo apareceu... no logar chamado “Missão da Saúde”, e ahi ente gente ignorante, disse-se enviado de Christo, e começou a prégar, levando a superstição de tal gente a ponto de um fanatismo perigoso.
Em suas prédicas plantava o desrespeito ao vigário daquela freguesia...
Em virtude da reclamação que recebi do Ex. vigário capitular, contra o abusivo procedimento desse individuo... embolsando os dinheiros... enchendo as algibeiras... mandei-o busca-lo á Capital, onde, obstinadamente, não quis responder ao interrogatorio...
... Entretanto, si por ventura não for elle ahi criminoso, peço em todo caso... Para que não volte a esta Provincia para onde a sua volta trará certamente resultados desagradaveis pela exaltação que ficaram os espiritos dos phanaticos com a prisão do seu ídolo”.
__ Ou seja, baseado apenas em suspeitas de crimes já acontecidos ou futuros, Antonio é preso e deportado da Bahia. A Magna Carta, de 1215, ainda não chegara àquela Província. E se ele não era um criminoso provado, então era uma pessoa desequilibrada, que precisava atenção especializada, e isso a Bahia podia oferecer, antes de supor que o Ceará todo fosse um imenso manicômio. Era o jogo do “empurra”. Agora acusá-lo de simonia e amor ao dinheiro, a ele que vivia como vivia, foi de uma maldade e de uma hipocrisia incomensurável. Autoridades civis e eclesiásticas projetavam sobre o pobre homem os seus pecados mais recônditos.
__ As coisas ficaram pior ainda, segundo Benício (p 43), com tudo o que Antonio Conselheiro sofreu de privações e humilhações nessa viagem: rasparam-lhe, inclusive, seu volumoso cabelo e barba. De nada ele foi poupado pelos ‘civilizados’ ou ‘ajuizados’, que temiam a ‘loucura’ e o ‘fanatismo’ daquele. “Chegou a Fortaleza já em adiantado estado de demencia [provavelmente em crise], faminto, maltrapilho e açoitado” (idem). Enquanto passava por toda essa provação medonha, ele se agarrava obstinadamente a uma caixa de flandres com a imagem de Jesus crucificado, e graças a esta não perdeu de todo a sanidade...
__ Em 15 de julho de 1876, o chefe de Polícia do Ceará oficia ao juiz da comarca de Quixeramobim, avisando-o da remessa do prisioneiro para que seja feita investigação sobre o seu envolvimento em possíveis crimes. Feita as diligências o juiz Alfredo Alves Mateus, de Quixeramobim, oficia em 1 de agosto de 1876, avisando que em vista de não se achar o nome do Conselheiro envolvido em qualquer crime, libertava-o. Ele revê alguns amigos no Ceará e retorna à Bahia.

http://www.arquidiocesedefortaleza.org.br/wp-content/uploads/2011/02/DOM-LUIS-ANTONIO-DOS-SANTOS.jpg
http://www.arquidiocesedefortaleza.org.br/

__ A volta do Conselheiro foi considerada pelos sertanejos como um fato miraculoso, e ele recebido em triunfo. Dizia-se até que ele havia predito, com precisão absoluta, no momento em que fora preso, o dia em que retornaria a Bahia. Não havia mais dúvidas quanto a sua santidade e o seu poder perante Deus. As pregações dos padres foram ficando completamente esvaziadas, gerando muita preocupação entre as autoridades religiosas, que, fazendo valer o seu direito de representantes da religião oficial, pedem providências às autoridades civis. D. Luis Antonio dos Santos (acima), Arcebispo da Bahia, oficia ao presidente da província João Capistrano Bandeira de Mello, em 11 de junho de 1887:
“Chegando ao meu conhecimento... que o individuo de nome Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido nas populações pelo nome de Antonio Conselheiro, tem pregado doutrinas subversivas, fazendo grande mal á religião e ao estado, distrahindo o povo... procurando convencer de que é o Espirito-Santo” (Benício, p 48-49).
__ Observe-se o termo “doutrinas subversivas” e o lembrete de que elas podem fazer mal ao “estado”, para pressionar uma ação civil, entretanto essa ação se dirige mais ao atendimento especializado na área de saúde, como se depreende dos ofícios abaixo, do que por uma percepção de que Maciel é um homem mal ou um inimigo da Igreja. Em 15 de junho de 1887, o governador oficia ao arcebispo:
“A respeito do individuo Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido vulgarmente como Antonio Conselheiro, para quem solicito entrada no “Hospicio de Alienados”, da Côrte, como atacado de monomania religiosa...” (idem, p 51)
__ Nesse mesmo dia, 15 de junho, ele oficia ao Conselheiro do Império, Barão de Mamoré, pedindo vaga para o “infeliz monomaniaco”, num hospício do Rio de Janeiro, “para que cesse o estado de perturbação moral em que se acha grande parte do povo do interior desta província...” (idem, p 53). Um pobre louco agitando uma província do porte da Bahia! O que fazem as autoridades desta província nas horas vagas? Em 6 de julho chegou a fatídica resposta do Barão, e é uma das mais antigas e comuns no sistema de saúde pública do Brasil: “não há presentemente no Hospício Pedro II, lugar disponível para o alienado Antonio Vicente Mendes Maciel... ele mais facilmente poderá ser recolhido ao Asilo de Alienados, aí existente” (idem, p 53). Noutras palavras: “Te vira malandro!”
__ Antes mesmo dessa proposta de internação, em circular datada de 16 de fevereiro de 1882, D. Luiz fizera chegar aos párocos e vigários de sua diocese, a sua proibição explícita às pregações de Antonio, sob o patrocínio da Igreja Católica: “... [o] individuo denominado Antonio Conselheiro, pregando ao povo... doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida, com que esta perturbando as consciências e enfraquecendo a autoridade dos párocos... ordenamos á V. revma. Que não consinta e sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos paroquianos que lhes proibimos, absolutamente, de se reunirem, para ouvir tal pregação...” Era o rompimento oficial com a Igreja que sempre fora o centro de sua vida e de sua confusa busca de “santidade”, tanto devido à fraqueza de seu entendimento, quanto do mau comportamento de vários dos representantes daquela.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/3a/Bahia_Municip_Itapicuru.svg/800px-Bahia_Municip_Itapicuru.svg.png
Por Raphael Lorenzeto de Abreu - Image:Bahia MesoMicroMunicip.svg, own work, CC BY 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1132944


__ Conselheiro também atrai, ainda em pleno Império, olhos desconfiados das autoridades policiais, como se pode ver nos trechos do ofício abaixo, feito pelo delegado de Itapicuru, de 10 de novembro de 1886, ao Chefe de Polícia em Salvador:
“... no arraial do Bom Jesus existe uma súcia de fanatizados e malvados... Há 12 anos... com pequenas interrupções, fez residência nesse termo... Antonio Conselheiro, que... tem abusado da credulidade dos ignorantes, arrastando-os ao fanatismo...” Após fazer uma menção à prisão ilegal de Maciel em 1876, e o seu retorno aos sertões da Bahia, ele prossegue dizendo: “está no referido arraial construindo uma capella a expensas do povo... O fanatismo não tem mais limites... sem medo de erros e firmado em factos posso afirmar que adoram-no como um Deus vivo.
Nos dias e sermões e terços o ajuntamento sobe a mil pessoas. Na construção dessa capela [uma capela citada no início da carta], cuja feria semanal é de quase cem mil réis, décuplo do que devia ser pago, estão empregados cearenses aos quais Antonio Conselheiro presta a mais cega proteção, tolerando e dissimulando os atentados que cometem...
Entre os operários figura o cearense Feitosa, como chefe, que com os demais fanatizados fizeram no referido arraial uma praça de armas, intimando os cidadãos – como o negociante Miguel de Aguiar Mattos, para mudarem-se do lugar com sua família em 24 horas, sob pena de morte.
Havendo desinteligência entre o grupo de Antonio Conselheiro e o vigário de Inhambupe, está aquele municiado como se estivesse de ferir uma batalha campal, e consta que estão a espera que o vigário vá ao lugar denominado Junco, para assassina-lo. Faz medo... passar por alto, vendo aqueles malvados munidos de cacetes, facas, facões, clavinote; e ai daquele que for infenso a Antonio Conselheiro.
Há pouco mandando [o vigário de Itapicuru] chama-lo, para pôr termo a este estado de cousas, a resposta que mandou-lhe Antonio Conselheiro, foi: que não tinha negócios com ele, e não veio.
Consta que os vigários das freguesias tem lido a pastoral do Exmo. Sr Arcebispo... nesta ainda não foi lida, sem duvida pelo receio que tem o vigário de se revoltarem contra ele os fanatizados.
....
Cumpre dizer que Antonio Conselheiro que veste uma camisola de pauno azul, com barba e cabelos longos, é malcriado, caprichoso e soberbo.
Não convindo esta ameaça... solicito a V.S. um destacamento de linha para dispersar o grupo de fanáticos”  
__ Os documentos parcialmente citados acima, em especial a carta do delegado de Itapicuru, são muito esclarecedores pelas seguintes razões:
a) Datados de antes de 1889, em pleno regime imperial, eles mostram que a incompatibilidade de Antonio Maciel com as autoridades públicas, civis e religiosas, é anterior à República, à qual não pode ser reputada, exclusivamente, como responsável pelo desenlace final em Canudos, que fatalmente viria sob a monarquia, embora creio eu, de forma bem menos sangrenta, como se verá posteriormente.
b) As autoridades agiram de forma arbitrária, premeditada, violenta e preconceituosa contra Antonio Conselheiro, quiçá agravando seus problemas mentais, e sua “monomania religiosa”, senão o intenso sentimento de perseguição externa e injusta, que lhe movia os atos. A religião e as obras pias impediram-no de transformar-se num assassino psicopota, pistoleiro, como tantos no sertão, reproduzindo o infeliz histórico de sua família, embora tenha assistido impassível, sem mover uma palha em contrário, sem buscar qualquer negociação, o massacre final de todos, que a ele se agregaram em busca de esperança.
c) As autoridades agiram de forma frontalmente arbitrária e ilegal, ao prendê-lo sob a alegação de “fanatismo” e “superstição”, além de mera suspeita de prática de crime, que não estavam previstos no código penal do império e feriam os mais elementares normas de direito humano, mesmo para a época, sem falar da falha clamorosa falha ou má vontade em conseguir para ele atendimento médico hospitalar, mesmo quando a situação já se colocava ameaçadoramente fora de controle.
d) A carta do delegado de Itapicuru é muito reveladora, pois nos esclarece, por meio de um testemunho ocular, o quanto ele era benquisto pelo povo dos sertões, e o quanto esse povo evitava a Igreja tradicional, cujos sacerdotes nem sempre eram modelo de vida correta. Neste item Conselheiro batia de muito a muitos padres e para o homem do sertão é isto que vale – Jesus Cristo disse: “façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem”. O homem do sertão segue aquele que faz, não importando o que ele diga.
e) Que a sua popularidade já era impressionante, chegando congregar sistematicamente até mil pessoas, considere-se que, tomando como base a população de Salvador na época, esse ajuntamento, equivaleria hoje a umas 15 mil pessoas. O padre Marcelo Rossi do semiárido.
f) Que causava apreensão entre as elites locais, pelas quais fala o delegado, o fato de o Conselheiro pagar 10 vezes mais, que o preço de mercado, pela jornada dos trabalhadores braçais – ficando a questão de saber se isso era uma forma racional, adequada, de distribuição de renda ou uma forma de inserir uma distorção na economia local, que, devido ao seu caráter local, levaria, mais cedo ou mais tarde, a um processo inflacionário que prejudicaria a todos que não fossem contratados do “profeta”. Isso poderia ser isso considerado uma concorrência desleal, sobre a mão-de-obra, embora, pelo teor da carta, tal “graça” só era dada aos trabalhadores cearenses que se agregavam ao projeto, o que, de princípio não ameaçava a exploração tradicional de mão-de-obra, nem o seu concurso necessário à grande economia, ou será que o delegado, proposital ou inconscientemente superdimensionou a participação dos cearenses? Ele não cita o esvaziamento de mão-de-obra alhures.
g) Não creio que o delegado mentisse quando falou de atitudes agressivas, e mesmo criminosas, de elementos ligados ao grupo de Antonio Maciel, mas também não acredito no seu conhecimento sobre essas ações. Para mim são eventos que ocorriam na periferia de um ajuntamento descomunal, e que sempre acontece nessas situações, afinal um Judas prosperou entre apenas uma dúzia! Creio mesmo que, pelos testemunhos que alguns dão de Conselheiro nessa época, sempre com o olhar distante, de quem está em outro mundo, como que conversando com outros seres, um clássico sintoma de alheamento mental, que o sertanejo, de forte ascendência cultural indígena, via como sinal de uma possível interação com seres de outro mundo, ele realmente não desse a mínima para o que estava acontecendo ao seu redor, no mundo real, creio que nem o conseguia, absorvendo o mundo presente apenas pelos informes que lhe davam os colaboradores mais próximos.
h) Decorrente do parágrafo anterior, e também com base no ofício do delegado, longe de ser uma comunidade pacífica os conselheiristas eram gente de guerra, e faziam questão de demonstrar isso ostensivamente, talvez como uma decorrência da absurda prisão sofrida por ele em 1876, que só serviu para ampliar ainda mais o frenesi em torno da sua pessoa. Os sertanejos, ao considerá-lo uma pessoa um “ser iluminado”, um “profeta” de Deus, senão uma encarnação do próprio Jesus Cristo, estariam, de agora em diante, prontos para tirar, assim como para dar, tantas vidas quantas fossem necessárias para mantê-lo ali, junto deles, sem sofrer mais injustiça e maus tratos. A multidão agora protegia e dirigia o profeta, até as últimas consequências.
__ Em breve eles teriam a oportunidade para demonstrar isso...

Notas
(1) O texto aparece assim em Antonio Benício, sem qualquer indicação de autoria, mas Fernando Câmara, na Carta Mensal do Colégio Brasileiro de Genealogia, Genealogia de Antonio Conselheiro, ano VIII, Nº 46, out-dez de 1997, põe exatamente essas mesmas palavras na pena de João Brígido dos Santos, um conhecido jornalista e historiador cearense.
(2) O batistério de Antonio traz apenas o nome Maria Joaquina, mas Fernando Câmara, sem explicar a razão, diz que ela também era conhecida como Maria Joaquina de Jesus ou Maria Joaquina do Nascimento, com a qual Vicente Maciel se casará apenas em 31 de agosto de 1834, quando ela já estava muito doente.
(3) É um exemplo típico da pesada espiritualidade católica do século XIX, marcada pelo extremo penitencial e pelo ressentimento causado pelas derrotas nos embates contra as forças do mundo moderno, lideradas pela burguesia, arreligiosa, nas quais a Igreja só conseguia ver vícios. Esse penitencialismo pesado será ainda mais agravado com a tomada de Roma pela monarquia liberal do Piemonte, em 1870. Os padres, em grande número, só tinham condenações avisos fúnebres para ameaçar aqueles que não faziam parte do “rebanho”. O livro Missão abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores, e sustentar o fruto das missões, um calhamaço de quase mil folhas!, foi escrito pelo padre português Manuel José Gonçalves do Couto, nascido em 1819, e falecido em 17 de setembro de 1897, uns dezoito dias antes da queda de Canudos. Esse livro foi o mais editado em Portugal no século XIX, com 140 mil cópias. Eis alguns trechos copiados de Nobre e Alexandre (2011):
“Quando menos pensares, a morte há de vir sobre ti. Talvez se cortará o fio de tua vida, enquanto estás tecendo ou urdindo teia. Talvez fazendo planos para melhor viver segundo a tua vontade...”
“Tu quando pecas julgas que tens tempo para te confessares e para te emendares; mas, pergunto eu, não podes enganar-te? Por ventura és tu o senhor do tempo?... Quantos pecadores já estão ardendo e gritando no inferno, enganados por esse modo?”


“Considera pecador... virá um dia em que hás de morrer, e apodrecer em uma sepultura, onde serás comida dos bichos. Esse corpo, que agora tanto amas e regalas... As tuas faces, os lábios, os cabelos hão de cair a pedaços. O teu corpo se tornará um esqueleto o mais fétido e medonho. Os teus ossos hão de separar-se uns dos outros; a tua cabeça há de apartar-se do tronco.” etc  quem tentasse viver, literalmente, aquilo que esse livro pregava, poderia acabar com sérios problemas...