quarta-feira, 15 de junho de 2016

AMARGA VITÓRIA

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Brasil, EUA, França, angola, Coreia do Sul, Rússia, Alemanha. Deus os abençoe.

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__ Creio ser correto acreditar que, até prova em contrário, ou nova manobra, começou a derrocada final do deputado Eduardo Cunha. Mas, ai de nós!, pois para vermos vencer, em nosso Congresso, a honra, a justiça e a verdade temos que esperar pela traição de desonrados, injustos e mentirosos!

__ Isso precisa mudar!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

NENHUM SER HUMANO É UMA ILHA, MAS É UM MUNDO, E PODE SER ASSUSTADOR.

Prof Eduardo Simões

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__ Fico imaginando alguém, homem ou mulher, entrando numa delegacia, dizendo que, após forrar sua carteira de dinheiro, saiu com o seu carro importado zero para a balada, tomando antes o cuidado de passar na zona mais barra pesada da cidade, o que era de seu conhecimento, e agora está ali, prestando queixa de roubo, apenas com a roupa do corpo.
__ Ele certamente dirá que é um adulto, no pleno gozo de seus direitos civis, entre os quais se incluem poder sair sozinho, levando suas posses, e de transitar em qualquer área da cidade, em qualquer hora do dia ou da noite. O delegado, certamente, cumprirá o seu dever e sairá em busca dos criminosos, mas mesmo assim não livrará a vítima de um grande prejuízo, tanto financeiro como moral, pois aquela ainda terá que ouvir muito de seus amigos e amigas “só um louco ou um otário circularia naquelas bandas”.
__ No dia seguinte ao horroroso e abominável massacre da boate Pulse, em Orlando, uma blogueira de VEJA, escreveu um artigo intitulado ABRAÇO DOS SOBREVIVENTES: ATAQUE AO ESTILO DE VIDA DAS DEMOCRACIAS E O DIREITO DOS ADULTOS FAZEREM O QUE QUISEREM. Ela podia ter completado a frase com “E SOFRER COM ISSO”, afinal o matador também era adulto, estava fazendo o que queria e morava num sistema democrático, que, fora da esfera sexual, aparentemente não o desagradava.
__ Omar Matteen era um desajustado, alguém que não conseguia entender o mundo à sua volta, sentindo-se minoritário e encurralado. Se pelo fato de ser islâmico ou de ascendência afegã pura e simples, ninguém poderá jamais afirmá-lo, afinal a grande maioria dos islâmicos e afegãos, morando em outros países, não sai por aí atirando contra tudo ou contra quem os desagrada.
__ Se o que mais o influenciou foi o fato de ele ter sido mal educado ou uma possível convivência com os terroristas do EI, será também difícil dizer, mas algumas coisas nós sabemos perfeitamente sobre a decantada sociedade americana e a sua democracia:
a) Há uma clara e onipresente cultura da violência e da agressão física, claramente perceptível, por nós brasileiros, nos cinemas e seriados, mas também nos grandes magazines, que costumam rechear suas páginas com abundantes fotos de cadáveres e combatentes em áreas de conflito.
b) Há um claro, poderoso e público incentivo à fabricação, comercialização, posse e uso de armas de fogo, contra o qual queda, impotente, um dos presidentes mais populares da história do país, incentivo esse que encontra uma de suas maiores justificativas justo no fato de o país ser uma democracia. É irônico, não é? E mais: se não fosse autorizada, democraticamente, a comercialização, inclusive, de armas pesadas, como fuzis automáticos, certamente que o número de vítimas seria bem menor.
c) A democracia, e mesmo a escola de tempo integral, não conseguiram vencer, por serem inadequadas para isso, a imensa barreira racial e cultural que os americanos, em que pese as generosas apresentações de seu sistema político, levantaram contra a absorção de gente estranha às comunidades fundadoras, criando um tabuleiro de comunidades estanques, e, nas fronteiras destas pessoas isoladas, lobos solitários, prontos para explodir, quando a sua sensação de solidão e encurralamento ultrapassar ao limite tolerável, que varia de pessoa a pessoa, na forma de grandes massacres; nas escolas, nas empresas, nas ruas, nas estações de entretenimento, ou ainda nos crimes hediondos dos serial killers, dos quais os EUA são campeões mundiais absolutos. A estes o americano médio só tem uma coisa a dizer: “PERDEDORES”, dito com a máxima entonação de desprezo possível, até acontecer a próxima tragédia, quando muitos verterão abundantes lágrimas, e todos se sentirão perdedores.
__ Em vista do que aconteceu na Pulse e do que acontece no Brasil, mais de uma centena de crimes de matiz homofóbica por ano, creio que é chegada a hora de discutir uma questão que fará certos “democratas” e “adultos” terem urticária, que é a necessidade de cuidar também dos preconceituosos, dos “perdedores”, das minorias, que não apenas aquelas que querer revolucionar costumes ou a política, mas também aquelas que são visceralmente conservadoras, pois todos, e não só os aliados próximos, merecem cuidado; cuidado esse que se expressa por meio de uma educação inclusiva, mas sem imposições ou ameaças, mesmo que seja a favor da tolerância, e não fazer da minha liberdade uma fonte de agressão contra aqueles que não conseguem ainda aceitar determinadas mudanças, porque para aqueles que escrevem artigos muito afirmativos, e até incendiários, tudo não passa de uma questão de ideias e princípios, mas para as vítimas e as suas famílias a perda, a dor e o trauma são reais, e não se resolveram com a leitura de teses inflamadas, por mais politicamente corretas que sejam.
__ Aqui cabe como uma luva uma expressão do apóstolo São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios: “tudo me é permitido, mas nem tudo convém”.
__ Não é só o conceito de democracia da blogueira que é falho, mas também o seu conceito de adulto, pois o verdadeiro adulto, uma pessoa psicológica e socialmente madura, não faz o que quer, mas o que deve, pensando principalmente no bem da comunidade, das outras pessoas, sem abrir mão de seus princípios. Quem faz o que quer, pensando apenas no seu bem estar e no seu prazer, a revelia do mundo, são as crianças e os adultos imaturos e mimados, talvez até doentes, como o atirador da boate Pulse.

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

CANUDOS (1896-1897): PEQUENA HISTÓRIA DE UM GRANDE MASSACRE - 1

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Brasil, Alemanha França, EUA, Coreia do Sul, Holanda, Romênia, Angola e Ucrânia. Deus os abençoe

Peço desculpa aos leitores por ter lutado em vão para reproduzir o português do final do século XIX, em algumas partes deste relato, mas a correção automática do computador me frustrou, mas ainda assim aparecem alguns erros clamorosos no meio da citação literal de documentos; além disso alguns erros de ortografia foram corrigidos (o autor).  

__ Tudo começou em outubro de 1896, segundo o governador da Bahia Luiz Vianna, com o recebimento, por este, de um telegrama urgente, enviado pelo juiz da comarca de Juazeiro, Arlindo Batista Leoni, pedindo o concurso da força pública estadual para conter um ataque previsto à sua cidade, por uma malta de gente ligada a um beato conhecido como Antonio Conselheiro, do vilarejo de Canudos. Mas antes disso muita água e, principalmente, muita poeira, passará por baixo dessa pinguela, e acima...

A influência do ambiente

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__ Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, nasceu no mais profundo semiárido nordestino, na chamada mesorregião dos Sertões Cearenses, a mais árida das sete microrregiões do estado, na cidadezinha então pobre e estagnada de Quixeramobim, em 13 de março de 1830, pagando por assim dizer o preço de nascer numa área fora do interesse do Estado e do grande capital, mas ainda assim intrinsecamente ligada ao projeto colonial tanto português como nacional-imperial, mas em virtude de sua pouca relevância política e econômica, para as atividades exportadoras e a grande política nacional, o semiárido nordestino foi relegado ao abandono e entregue à lei do mais forte, desde que não afetasse os interesses estratégicos da elite estabelecida ora em Lisboa ora no Centro-Sul do país.
__ Os tênues laços com a civilização do litoral e o abandono das autoridades fez com que prosperasse nessa região, de uma maneira bastante singular, o conceito da grande família e de fidelidade familiar, fornecedora de mão de obra e braço armado, para o sustento e a segurança do núcleo gerador – as famílias mais numerosas do semiárido, assim como os insetos, tinham mais chance de sobreviver e se impor aos seus adversários que as pequenas; minha avó, gente de Nova Russas, teve 17 irmãos. Mas isso também conspirou para criar um problema crônico nessa região: o número de habitantes era sempre superior às possibilidades da região em sustentá-los com conforto. A pobreza tornou-se endêmica, e a luta pelos meios de sobrevivência brutal.
__ A principal fonte de prosperidade no sertão eram os olhos d’água, emanações do espetacular oceano de água doce que jaz sob o solo crestado da superfície, capaz de garantir a sobrevivência das criações, principal fonte de sustento e a renda da família proprietária desse tesouro. Mas, como dissemos antes, havia mais gente que recursos prosperando, e esses outros também tinham o seu gado e também queriam ou precisavam daquele olho d’água. Sem o Estado para mediar os conflitos, ou o fazendo de forma muito precária, a solução era decidir “no braço”, por meio do conflito armado, quem teria direito aos olhos d’água, ou apossar-se da esparsa estrutura de estado existente, para usá-la em seu benefício, a perseguir e exterminar os adversários. Quem logrou esse objetivo, saiu-se melhor.
__ Afora e para além disso, havia uma “mentalidade”, uma “cultura”, intangível, que povoava e ainda povoa a mente dos nordestinos, incompreensível ou “irracional” para quem não viveu o cotidiano dessa gente, que é o conceito de “honra”, de “ofensa pessoal”, pelo qual o indivíduo pode, muitas vezes, por tudo a perder, indiferente aos ganhos e perdas financeiras, se partisse para uma solução negociada. Hoje, mesmo com a maior presença do Estado, é difícil fazer cessar o anseio de vingança, de “lavar a honra no sangue”, que torna alguns estados nordestinos campeões da violência nacional, em que pese o glamour e a publicidade que recai sobre os traficantes nas grandes cidades. Imagine-se como não era onipresente e desenfreada essa violência na primeira metade do século XIX!

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__ Em seu livro O rei dos jagunços, bem documentado, embora confuso e fantasioso às vezes, mas bastante fiel a essa mentalidade nordestina, o jornalista Manuel Benício relata entreveros memoráveis entre famílias, que o adolescente Antonio Vicente Maciel conheceu em primeira mão, quiçá contado por seus protagonistas, com todo aquele colorido emocional e riqueza de detalhes que é comum sair da boca dos cearenses, quando começam a contar seus “causos”, que causam eles serem repentistas imbatíveis e extraordinários contadores de histórias. E o que aqueles contavam a Antonio era a saga de uma guerras, brutalidade e violência sem limites e sem fim...
__ O período não era muito favorável: início das Regências, tempo de indefinição e alternativas, criado pela fuga tumultuária de D Pedro I, momento propício para a vazão e o aumento de acertos de contas locais, aproveitando-se do agravamento da corrupção local e da indiferença tradicionais das autoridades centrais, agravadas pelas incertezas políticas e a emergência de novos atores na cena política nacional.
__ Eram os Maciel, a família de Antonio Vicente, uma gente de pequenos criadores, muito numerosa, rústica e valente, que lutava a duras penas para sobreviver com os poucos recursos que lhes dava o sertão entre Quixeramobim e Tamboril, no Ceará. Disputando pelos mesmos recursos, embora mais abastados, estavam os Araújos e seus aliados: os Veras, em um ambiente tão hostil e carregado bastava uma palavra, um mal entendido, uma fofoca, para desencadear uma hecatombe de sangue, como ocorreu, quando um roubo sofrido por Silvestre Rodrigues Veras foi precipitadamente atribuído aos Maciel, e um deles, Miguel Carlos, tio do Conselheiro, lançou de volta a suspeita sobre gente dos próprios Veras, e ainda aproveitou para mandar um recado: quem chamasse um Maciel de ladrão, pagaria com a vida. Era o longínquo ano de 1833.
__ Tem então início uma guerra aberta entre os clãs, com fortes baixas de ambos os lados, e a muito custo, chamando capitães do mato de fora, os Veras-Araújos conseguem prender, sob garantia de vida, os principais chefes dos Maciel. Porém, sob o falso pretexto de transferi-los a outra prisão, os Araújo, como era tradicional acontecer nesses casos, montaram uma armadilha no meio do caminho e trucidaram vários Maciel, conseguindo outros fugir, entre eles, ferido, Miguel Carlos – é curioso que numa sociedade onde o conceito de honra era sempre evocado antes de se tomar decisões tão fatais, se desse tão pouco valor à palavra dada, e a emboscada, ao invés do duelo, fosse a forma tradicional de acerto de contas. Um conceito de honra estranho, para padrões civilizados, mas não para uma sociedade onde as pessoas eram consideradas essencialmente desiguais, e as relações humanas muito assimétricas.
__ Miguel ocultou-se na casa de uma irmã, mas, enquanto se tratava, um grupo de jagunço dos Araújo atacou o lugar, no momento que um valentão assoma temerariamente o umbral da porta é abatido por um tiro certeiro de Miguel, e cai. A irmã de Miguel corre para afastar o corpo e fechar a porta, mas nesse momento é abatida por um tiro do principal jagunço da volante, Pedro Martins Veiga, que, ao matá-la, se expõe, e recebe um balaço certeiro e vingador do irmão da vítima. Os outros recuam e esperam o anoitecer, quando se aproximam, sem ser vistos, e põem fogo no lugar. Miguel, aproveitando-se da escuridão, foge pela caatinga, sem ser visto, deixando para trás a sepultura incandescente da irmã. Haveria vingança.
__ A agressão era tanto mais odiosa para os Maciel, porque a mulher assassinada morrera solteira, por isso, quando souberam que Luciano Domingues de Araújo, filho de um importante Araújo, de casamento marcado, estava de passagem,  resolveram fazer o acerto de contas. Um tiro de Estacio José da Gama, de um ramo colateral da família, jogou por terra os sonhos futuros do quase casal. Luciano, no dia do casamento, chegou baleado à casa da noiva, apenas a tempo de casar e morrer.
__ Estácio foi preso, julgado e condenado à morte, pelo assassinato de Luciano, no dia 14 de março de 1834, e morreu por fuzilamento no dia seguinte, às 16:00, sem entregar ninguém dos envolvidos na trama. A execução imediata de Estácio, entretanto, foi um escândalo jurídico, pois conforme a lei vigente o condenado tinha o direito a um prazo de até oito dias para apelar ao Imperador – decretos de 11 de setembro de 1826 e 15 de novembro de 1827. O juiz do caso, Antonio Duarte de Queiroz (juiz leigo), aparentado aos Araújo, simplesmente alegou, num ofício datado de 21 de junho de 1834, que ignorava tais decretos! Queiroz foi levado a julgamento, num tribunal suspeito, e inocentado (ver Benício, 1899).
__ Não havia para onde correr, não havia de onde esperar justiça, nem havia como ficar neutro. O homem do semiárido já sabia, desde crianças, que teria duas opções na vida, ou se tornaria jagunço, a serviço irrestrito de um chefão local, em geral um grande proprietário, quiçá, com título de nobreza, matando gente ou falsificando papeis em cartórios, ou seria um cangaceiro, que é uma espécie de jagunço independente, embora próximo ou aliado a este ou aquele chefão. Um criminoso, como aquele, com mais liberdade para escolher suas vítimas. A única opção para quem não queria se expor à violência era se tornar padre ou beato, homem acreditado como próximo de Deus, ou do diabo, o bastante para fazer os circunstantes, inclusive os mais destemidos e famigerados jagunços, tremerem de medo só ao ver sua silhueta.
__ O assassinato do noivo levou ao episódio mais dramático e icônico dessa guerra bestial. Prostrado por uma bala, numa emboscada organizada pelos Araújos, Miguel Carlos tomba gravemente ferido. Quando Manuel Araújo, irmão do noivo, aproxima-se e crava-lhe a punhalada final, para poder, conforme manda a tradição dos “valentes”, gabar-se de ter morto o desafeto com as próprias mãos, Miguel, juntando as últimas forças, crava seu punhal no pescoço daquele. E assim ambos, inimigos incondicionais, morrem, um sobre o outro, abraçados, como se irmãos fossem, unidos pelo ódio recíproco, incontrolável, inconsciente e de origem, quiçá, indeterminada.
__ E assim por diante, em vários outras regiões do Nordeste, em uma infinidade de famílias.

A influência familiar

__ Miguel Carlos Maciel, o pai do Miguel Carlos acima, era avô de Antonio. Um homem destemido e brigador, teve, ao contrário dos grandes patriarcas nos sertões, apenas um filho ilegítimo: Vicente Mendes Maciel, assim descrito: “bonito, de tez ligeiramente morena, vigoroso e intelligente, mas rethraido, taciturno, mal e perigosamente desconfiado, bem que muito cortez, obsequioso e honrado. Tinha momentos terriveis de colera, principalmente quando tocava no alcool. Era de uma valentia indômita e meio surdo. Em um de seus momentos dera tantas facadas na mulher, que esta esteve sacramentada [recebeu a extrema unção]” (Benício; p 15) (1). Depois desse episódio, segundo Benício, ele fez as pazes com a mulher e abandonou a bebida.
__ E quem era essa mulher? Segundo pode-se depreender do batistério de Antonio, ela seria Maria Joaquina (2) com a qual Vicente teve duas filhas, além de Antonio: Maria Francisca (9/6/1831) e Francisca Maria (8/6/1833). Com a morte da primeira esposa ele se casa, em fevereiro de 1836, com Francisca Maria Conceição ou Francisca Maciel, com quem tem, segundo Fernando Câmara (1993), mais duas filhas Dorotea e Rufina – Benício (1899) só faz menção a uma: Rufina.
__ A morte de Maria Joaquina, segundo Benício, desestabilizou o psiquismo frágil do pai que, abandonando definitivamente as atividades de vaqueiro, marca registrada dos Macieis, resolveu se dedicar apenas ao comércio, e, apesar de ser completamente analfabeto, graças à sua diciplina e inteligência vivaz conseguiu razoável prosperidade, mas esta não lhe foi benéfica de todo, uma vez que começou a ser possuído por uma compulsão a construir casas. “Nos últimos tempos, diz Benício, Vicente era vítima de uma demência intermitente” (p 17), até morrer, em 1855, deixando a família ainda com alguns recursos.
__ Quando criança, Antonio era muito sério e compenetrado para a sua idade, característica herdada tanto do modelo paterno como aguçada pelos destratos insidiosos de sua madrasta, embora tenha crescido muito querido pelo povo da cidade, em virtude de seu comportamento exemplar, sua inteligência, sua grande religiosidade e sua paciência com as crianças. Teve, ainda assim, estudos onde se destacou principalmente por sua aplicação e sua letra, muito bonita e caprichosa. Gostava de se isolar e ler muito, em especial os livros piedosos da época, cheios e histórias milagrosas e edificantes, em especial, histórias românticas de cavalaria, a vida dos santos e conselhos de sabedoria bíblica sobre a vida, às vezes tratados de forma muito idealizada (Fernando Câmara, 1993, 1997). Câmara afirma que um livro que lhe causou mais impressão e o seguiu pelo resto da vida foi Missão abreviada, do padre Gonçalo Couto, de 1859 (cuidado com as datas eu aparecem em Câmara, várias estão erradas!) (3). Com a morte do pai, o adulto sonhador continua a aguentar o mau gênio da madrasta, agora inconformada com a sua falta de iniciativa e de tino para as coisas práticas do rapaz, sem falar de sua forte oposição, assim como a de amigos da família, quanto à encantamento dele em relação à jovem Brasilina Lima.
__ Quando a madrasta morreu, ele põe a mão numa bolada dinheiro razoável, mas a dilapida rapidamente devido a sua incompetência comercial, ao mesmo tempo em que é assediado por uma prima desmiolada, de costumes duvidosos, chamada Francisca Tereza de Lima, que em uma de suas aventuras gerara uma filha de tão grande beleza quanto pouco juízo e escrúpulos, de nome Brasilina Laurentina de Lima, de apenas 15 anos, que, experimentada na arte da sedução, quiçá orientada pela mãe, ganha o coração do ingênuo herdeiro. Antonio se apaixona e casa-se com ela às pressas, em janeiro de 1857, e logo têm um filho. Era realmente uma pessoa ingênua, despreparada, que age pelo impulso da paixão e da superficialidade.
__ Muda-se para a cidade de Ipu, e aí tenta carreira como professor e como advogado leigo ou rábula, dedicando-se à advocacia dos mais pobres, o que lhe rende tanta dor de cabeça, com a parcialidade dos juízes, como mui escassos honorários. O casal se empobrece, a vida familiar colapsa, no ano seguinte. Brasilina resolve recorrer a um amante, um furriel (entre cabo e sargento) da polícia, João da Mata, de quem ele era amigo. Segundo uma versão surpreende-os em pleno adultério e, mostrando um sangue frio incomum para m sertanejo, ainda mais para m Maciel, se despede dos dois abandonando a casa, mas outra versão diz que ela e o furriel fugiram com os filhos de Antonio, dois, e que ele, inclusive, teria se tornado cacheiro viajante, batendo todo o Ceará, em busca dos amantes, para acertar as contas, o que explicaria uma lacuna na sua biografia ao longo da década de 1860. Pressionado pela cobrança judicial de uma dívida, em 1871, e repleto de más lembranças, ele abandona o Ceará, por volta de 1873.
__ Brasilina, segundo Benício e Câmara, é, algum tempo depois, abandonada pelo furriel, prostitui-se, e termina seus dias como mendiga, nas ruas de Sobral.

O beato dos sertões

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Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2553462

__ Em algum momento nesse período ele se incorporou às missões do célebre padre Ibiapina (acima), que era o melhor dos mestres possíveis a um pretendente a beato ou padre poderia ter.
__ José Maria Antonio Ibiapina (1806-1883), nascido na cidade de Sobral, era um homem culto, formado em direito e juiz de comarca, que marcara a sua atuação pelo desejo de aplicar rigorosamente a justiça da forma mais correta, uma espécie de Sérgio Moro do semiárido, sendo, entretanto, marcado pelo Judiciário com o desengano causado pela parcialidade de seus colegas e as mazelas do sistema, o que o levou a abandonar o direito e se dedicar à religião, em especial à catequese dos mais pobres, e mais ainda àqueles que estavam esquecidos por todos, inclusive por seus colegas de batina, no mais profundo semiárido.
__ Andando pelos sertões a rezar missas, orando, dando conselhos, orientando, com um espírito animoso e uma oratória vibrante, ele conseguiu mobilizar enormemente o espírito daquela gente, e em pouco tempo começou a correr um boato generalizado de sua santidade e de seus milagres, embora a sua principal marca seja a dos conselhos práticos e os cuidados naturais, materiais, para com as necessidades do povo, a ponto de ser reconhecido por alguns como um pioneiro da Teologia da Libertação. Sua ação de orientando hábitos de higiene e medidas sanitárias adequadas à população rural foi imitada tanto por Antonio Conselheiro como pelo famoso padre Cícero, mas, diferente destes, soube evitar o encanto fácil do sucesso e do voluntarismo.
__ No fundo dos sertões, em busca de algo, que ele não sabe bem o que é, obrigado a enfrentar seus medos e carências, na solidão e no silêncio atordoante da caatinga, sob um sol abrasador, que queima os miolos e turva os sentidos e o juízo, estava Antonio Vicente. As árvores ressecadas, na maior parte do ano, lembravam a viajantes e moradores que ali é o território da morte, que pode vir pela insolação, por um animal peçonhento, pela falta de água ou de comida, além de tiro ou golpe de punhal, tudo de forma absolutamente natural. Lá, no meio da solidão e no combate diuturno com o aniquilamento e a loucura, ele fez o seu rito final de passagem, e deixou, pouco a pouco, de ser o Antonio Vicente Mendes Maciel, de Quixeramobim, para se tornar o Antonio Conselheiro, o mais impactante personagem da história dos sertões.
__ Como Antonio, um homem educado, de cidade, cujas maiores dificuldades até ali se restringiam à análise dos papeis impiedosos que traziam, mês a mês, a marca de sua dificuldade em prover a família, conseguiu sobreviver á inclemência do sertão e tornar-se quem se tornou? Ele, certamente, não se apartou completamente da convivência humana, como um típico anacoreta medieval, mas apenas foi mais para a periferia das vilas, junto às casinhas nas fazendas, onde mora o camponês e o vaqueiro, gente pobre, muito pobre, em termos materiais, mas não miserável, pois no seu meio se sente soberano, e é absolutamente incapaz de negar ajuda a quem pede. No meio dessa gente ele percebeu o valor da solidariedade desinteressada, para além dos laços de sangue, o desejo de paz e sossego, uma teimosia temerária e uma versão do catolicismo que, certamente, foi muito importante na preservação da sua sanidade mental e identidade; um objetivo para a sua vida, ao mesmo tempo em que concluía, na sua infinita solidão, que tudo que fizera para parecer bom aos outros teve como paga os maus tratos, da madrasta, a indiferença do pai, a miséria, do professorado, a hipocrisia, da justiça, e a traição, do amigo e da esposa.
__ Sempre fugindo aos moldes, mesmo os do padre Ibiapina, que conservou-se até o fim ligado à Igreja Católica – não que este fosse um acomodado ou incapaz de detectar as falhas do sistema, mas aprendera, já na magistratura, que não se pode ganhar todas e que é necessário dar tempo para o fruto amadurecer, antes da colheita. Antonio Maciel não era assim, durante quase toda a sua existência refugiara-se no mundo imaginário da literatura e da religão idealizada, onde era soberano, e do qual fora expelido com tanta violência. Agora o mundo seria do jeito que ele queria ou imaginava, e não haveria acordo. Aos poucos a sua mente obstinadamente convencional se transmuta para obstinadamente rebelde, e se afasta dos ideais do mestre Ibiapina. Em 1873 ele abandona o Ceará e se interna nos sertões de Pernambuco e da Bahia, a se aprofundar cada vez mais nos sertões geográficos do semiárido e nos sertão fantástico de seu psiquismo...

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__ Em 22 de novembro de 1874 saiu uma notícia sobre ele no jornal sergipano O Rabudo: "Há seis meses que por todo o centro desta Provincia e da Provincia da Bahia, chegado, diz ele, do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por Santo Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito, à  forma de um sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos), distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus [outros citam uma rústica alpercatas], o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo." Outro detalhe descrito por Benício é que ele sempre trazia nas mãos um exemplar da Missão abreviada, do padre Couto.
__ Pelo teor da matéria pode-se deduzir duas coisas: primeiro, o jornalista-editor publicava algo de que ouvira falar por terceiros; segundo, há uma clara intenção de acentuar os detalhes bizarros ou “nojentos”, embora perfeitamente dedutíveis das condições em que Antonio vivia, as mais pobres entre os mais pobres, para conduzir a uma conclusão necessária: esse homem ou não é normal ou não é bom.
__ Sabia-se que já há algum tempo ele vagava pelos sertões sem moradia fixa, sem nunca se deter muito tempo em um lugar, quase não comia nada, das refeições que lhes eram ofertadas pelos sertanejos, dormia onde tivesse abrigo ou mesmo ao relento, estirado diretamente no chão da caatinga, como os profetas mais rústicos do Primeiro Testamento. Achegava-se aos vilarejos e casinhas abandonadas nas fazendas a pregar as mensagens tradicionais de penitência do catolicismo, adaptado à psicologia do povo, ansioso por sinais maravilhosos e bons exemplos. Antonio podia falar do jejum penitencial e da pureza sexual com autoridade, porque isso ele praticava até ao extremo. Quando lhe davam esmolas em dinheiro, que ele achava excessivas, costumava devolver a maior parte.
__ A oração do terço e o cantar das ladainhas, no final do dia, num ritmo dolente, arrastado, monomelodioso, que, graças ao timbre das vozes femininas, que só quem escutou consegue sentir, tinham um poder envolvente e uma sua força primitiva irresistível, eram as suas práticas prediletas, como alguém torturado pedindo a paz, que sabe ser impossível nesse mundo. Havia o trabalho manual, gratuito, feito por ele e a multidão cada vez maior de sertanejos que o seguiam-no em sua peregrinação interminável, na restauração de igrejas e cemitérios e erguimento de capelas, talvez a reprodução inconsciente do modelo paterno, o que, a princípio agradou muito aos padres da região.
__ Mas havia também as pregações e os conselhos, conselhos bem tradicionais, dos quais ele não abria mão, e que recomendavam a conversão dos costumes, conforme prega a igreja, mas com uma ênfase quase “selvagem”, além da condenação peremptória de todos os vícios, o que, deve ter começado a apertar o calo de alguns padres não vocacionados, que devia ser comum numa época em que o catolicismo era religião oficial e o padre um funcionário do estado. Esses foram os primeiros a sentir o látego do profeta dos sertões e a refugar a pregação de Antonio Conselheiro.
__ Mas havia também os padres vocacionados, que podem ter sido a maioria, que não concordavam com os extremos a que Conselheiro se submetia, e incentivava o povo a se submeter por seu exemplo e palavras. Conselheiro, aparentemente, era “literal” demais; e se o literalismo em relação à Bíblia já não é indicado, quanto mais com as Missões abreviadas do padre Couto. Os conselhos e recomendações de Antonio, certamente extrapolavam o razoável, embora não se tenha colhido dele, nem ninguém cite, um ensinamento seu que se possa dizer teologicamente desviante ou “herético”. Embora possa até ter havido.

Começa o calvário

__ Manuel Benício (p 43) informa que ele foi preso, em 1876, numa localidade chamada Missão de Saúde, no extremo da comarca de Itapicuru, na Bahia, e, contra a vontade de seus seguidores, levado para Salvador, e de lá remetido em um navio para o Ceará, começando a sua fama de mártir entre os sertanejos. Com ele seguiu um ofício do Chefe de Polícia da Bahia, o Secretário de Segurança da época, João Bernardo de Magalhães, datado de 6 de junho de 1876, e dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará, com as seguintes justificativas:
“... Faço apresentar a V. S. O individuo que se diz chamar Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antonio Conselheiro, que suspeito ser [meu destaque] algum dos criminosos dessa Provincia, que andam foragidos.
Esse indivíduo apareceu... no logar chamado “Missão da Saúde”, e ahi ente gente ignorante, disse-se enviado de Christo, e começou a prégar, levando a superstição de tal gente a ponto de um fanatismo perigoso.
Em suas prédicas plantava o desrespeito ao vigário daquela freguesia...
Em virtude da reclamação que recebi do Ex. vigário capitular, contra o abusivo procedimento desse individuo... embolsando os dinheiros... enchendo as algibeiras... mandei-o busca-lo á Capital, onde, obstinadamente, não quis responder ao interrogatorio...
... Entretanto, si por ventura não for elle ahi criminoso, peço em todo caso... Para que não volte a esta Provincia para onde a sua volta trará certamente resultados desagradaveis pela exaltação que ficaram os espiritos dos phanaticos com a prisão do seu ídolo”.
__ Ou seja, baseado apenas em suspeitas de crimes já acontecidos ou futuros, Antonio é preso e deportado da Bahia. A Magna Carta, de 1215, ainda não chegara àquela Província. E se ele não era um criminoso provado, então era uma pessoa desequilibrada, que precisava atenção especializada, e isso a Bahia podia oferecer, antes de supor que o Ceará todo fosse um imenso manicômio. Era o jogo do “empurra”. Agora acusá-lo de simonia e amor ao dinheiro, a ele que vivia como vivia, foi de uma maldade e de uma hipocrisia incomensurável. Autoridades civis e eclesiásticas projetavam sobre o pobre homem os seus pecados mais recônditos.
__ As coisas ficaram pior ainda, segundo Benício (p 43), com tudo o que Antonio Conselheiro sofreu de privações e humilhações nessa viagem: rasparam-lhe, inclusive, seu volumoso cabelo e barba. De nada ele foi poupado pelos ‘civilizados’ ou ‘ajuizados’, que temiam a ‘loucura’ e o ‘fanatismo’ daquele. “Chegou a Fortaleza já em adiantado estado de demencia [provavelmente em crise], faminto, maltrapilho e açoitado” (idem). Enquanto passava por toda essa provação medonha, ele se agarrava obstinadamente a uma caixa de flandres com a imagem de Jesus crucificado, e graças a esta não perdeu de todo a sanidade...
__ Em 15 de julho de 1876, o chefe de Polícia do Ceará oficia ao juiz da comarca de Quixeramobim, avisando-o da remessa do prisioneiro para que seja feita investigação sobre o seu envolvimento em possíveis crimes. Feita as diligências o juiz Alfredo Alves Mateus, de Quixeramobim, oficia em 1 de agosto de 1876, avisando que em vista de não se achar o nome do Conselheiro envolvido em qualquer crime, libertava-o. Ele revê alguns amigos no Ceará e retorna à Bahia.

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__ A volta do Conselheiro foi considerada pelos sertanejos como um fato miraculoso, e ele recebido em triunfo. Dizia-se até que ele havia predito, com precisão absoluta, no momento em que fora preso, o dia em que retornaria a Bahia. Não havia mais dúvidas quanto a sua santidade e o seu poder perante Deus. As pregações dos padres foram ficando completamente esvaziadas, gerando muita preocupação entre as autoridades religiosas, que, fazendo valer o seu direito de representantes da religião oficial, pedem providências às autoridades civis. D. Luis Antonio dos Santos (acima), Arcebispo da Bahia, oficia ao presidente da província João Capistrano Bandeira de Mello, em 11 de junho de 1887:
“Chegando ao meu conhecimento... que o individuo de nome Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido nas populações pelo nome de Antonio Conselheiro, tem pregado doutrinas subversivas, fazendo grande mal á religião e ao estado, distrahindo o povo... procurando convencer de que é o Espirito-Santo” (Benício, p 48-49).
__ Observe-se o termo “doutrinas subversivas” e o lembrete de que elas podem fazer mal ao “estado”, para pressionar uma ação civil, entretanto essa ação se dirige mais ao atendimento especializado na área de saúde, como se depreende dos ofícios abaixo, do que por uma percepção de que Maciel é um homem mal ou um inimigo da Igreja. Em 15 de junho de 1887, o governador oficia ao arcebispo:
“A respeito do individuo Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido vulgarmente como Antonio Conselheiro, para quem solicito entrada no “Hospicio de Alienados”, da Côrte, como atacado de monomania religiosa...” (idem, p 51)
__ Nesse mesmo dia, 15 de junho, ele oficia ao Conselheiro do Império, Barão de Mamoré, pedindo vaga para o “infeliz monomaniaco”, num hospício do Rio de Janeiro, “para que cesse o estado de perturbação moral em que se acha grande parte do povo do interior desta província...” (idem, p 53). Um pobre louco agitando uma província do porte da Bahia! O que fazem as autoridades desta província nas horas vagas? Em 6 de julho chegou a fatídica resposta do Barão, e é uma das mais antigas e comuns no sistema de saúde pública do Brasil: “não há presentemente no Hospício Pedro II, lugar disponível para o alienado Antonio Vicente Mendes Maciel... ele mais facilmente poderá ser recolhido ao Asilo de Alienados, aí existente” (idem, p 53). Noutras palavras: “Te vira malandro!”
__ Antes mesmo dessa proposta de internação, em circular datada de 16 de fevereiro de 1882, D. Luiz fizera chegar aos párocos e vigários de sua diocese, a sua proibição explícita às pregações de Antonio, sob o patrocínio da Igreja Católica: “... [o] individuo denominado Antonio Conselheiro, pregando ao povo... doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida, com que esta perturbando as consciências e enfraquecendo a autoridade dos párocos... ordenamos á V. revma. Que não consinta e sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos paroquianos que lhes proibimos, absolutamente, de se reunirem, para ouvir tal pregação...” Era o rompimento oficial com a Igreja que sempre fora o centro de sua vida e de sua confusa busca de “santidade”, tanto devido à fraqueza de seu entendimento, quanto do mau comportamento de vários dos representantes daquela.

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Por Raphael Lorenzeto de Abreu - Image:Bahia MesoMicroMunicip.svg, own work, CC BY 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1132944


__ Conselheiro também atrai, ainda em pleno Império, olhos desconfiados das autoridades policiais, como se pode ver nos trechos do ofício abaixo, feito pelo delegado de Itapicuru, de 10 de novembro de 1886, ao Chefe de Polícia em Salvador:
“... no arraial do Bom Jesus existe uma súcia de fanatizados e malvados... Há 12 anos... com pequenas interrupções, fez residência nesse termo... Antonio Conselheiro, que... tem abusado da credulidade dos ignorantes, arrastando-os ao fanatismo...” Após fazer uma menção à prisão ilegal de Maciel em 1876, e o seu retorno aos sertões da Bahia, ele prossegue dizendo: “está no referido arraial construindo uma capella a expensas do povo... O fanatismo não tem mais limites... sem medo de erros e firmado em factos posso afirmar que adoram-no como um Deus vivo.
Nos dias e sermões e terços o ajuntamento sobe a mil pessoas. Na construção dessa capela [uma capela citada no início da carta], cuja feria semanal é de quase cem mil réis, décuplo do que devia ser pago, estão empregados cearenses aos quais Antonio Conselheiro presta a mais cega proteção, tolerando e dissimulando os atentados que cometem...
Entre os operários figura o cearense Feitosa, como chefe, que com os demais fanatizados fizeram no referido arraial uma praça de armas, intimando os cidadãos – como o negociante Miguel de Aguiar Mattos, para mudarem-se do lugar com sua família em 24 horas, sob pena de morte.
Havendo desinteligência entre o grupo de Antonio Conselheiro e o vigário de Inhambupe, está aquele municiado como se estivesse de ferir uma batalha campal, e consta que estão a espera que o vigário vá ao lugar denominado Junco, para assassina-lo. Faz medo... passar por alto, vendo aqueles malvados munidos de cacetes, facas, facões, clavinote; e ai daquele que for infenso a Antonio Conselheiro.
Há pouco mandando [o vigário de Itapicuru] chama-lo, para pôr termo a este estado de cousas, a resposta que mandou-lhe Antonio Conselheiro, foi: que não tinha negócios com ele, e não veio.
Consta que os vigários das freguesias tem lido a pastoral do Exmo. Sr Arcebispo... nesta ainda não foi lida, sem duvida pelo receio que tem o vigário de se revoltarem contra ele os fanatizados.
....
Cumpre dizer que Antonio Conselheiro que veste uma camisola de pauno azul, com barba e cabelos longos, é malcriado, caprichoso e soberbo.
Não convindo esta ameaça... solicito a V.S. um destacamento de linha para dispersar o grupo de fanáticos”  
__ Os documentos parcialmente citados acima, em especial a carta do delegado de Itapicuru, são muito esclarecedores pelas seguintes razões:
a) Datados de antes de 1889, em pleno regime imperial, eles mostram que a incompatibilidade de Antonio Maciel com as autoridades públicas, civis e religiosas, é anterior à República, à qual não pode ser reputada, exclusivamente, como responsável pelo desenlace final em Canudos, que fatalmente viria sob a monarquia, embora creio eu, de forma bem menos sangrenta, como se verá posteriormente.
b) As autoridades agiram de forma arbitrária, premeditada, violenta e preconceituosa contra Antonio Conselheiro, quiçá agravando seus problemas mentais, e sua “monomania religiosa”, senão o intenso sentimento de perseguição externa e injusta, que lhe movia os atos. A religião e as obras pias impediram-no de transformar-se num assassino psicopota, pistoleiro, como tantos no sertão, reproduzindo o infeliz histórico de sua família, embora tenha assistido impassível, sem mover uma palha em contrário, sem buscar qualquer negociação, o massacre final de todos, que a ele se agregaram em busca de esperança.
c) As autoridades agiram de forma frontalmente arbitrária e ilegal, ao prendê-lo sob a alegação de “fanatismo” e “superstição”, além de mera suspeita de prática de crime, que não estavam previstos no código penal do império e feriam os mais elementares normas de direito humano, mesmo para a época, sem falar da falha clamorosa falha ou má vontade em conseguir para ele atendimento médico hospitalar, mesmo quando a situação já se colocava ameaçadoramente fora de controle.
d) A carta do delegado de Itapicuru é muito reveladora, pois nos esclarece, por meio de um testemunho ocular, o quanto ele era benquisto pelo povo dos sertões, e o quanto esse povo evitava a Igreja tradicional, cujos sacerdotes nem sempre eram modelo de vida correta. Neste item Conselheiro batia de muito a muitos padres e para o homem do sertão é isto que vale – Jesus Cristo disse: “façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem”. O homem do sertão segue aquele que faz, não importando o que ele diga.
e) Que a sua popularidade já era impressionante, chegando congregar sistematicamente até mil pessoas, considere-se que, tomando como base a população de Salvador na época, esse ajuntamento, equivaleria hoje a umas 15 mil pessoas. O padre Marcelo Rossi do semiárido.
f) Que causava apreensão entre as elites locais, pelas quais fala o delegado, o fato de o Conselheiro pagar 10 vezes mais, que o preço de mercado, pela jornada dos trabalhadores braçais – ficando a questão de saber se isso era uma forma racional, adequada, de distribuição de renda ou uma forma de inserir uma distorção na economia local, que, devido ao seu caráter local, levaria, mais cedo ou mais tarde, a um processo inflacionário que prejudicaria a todos que não fossem contratados do “profeta”. Isso poderia ser isso considerado uma concorrência desleal, sobre a mão-de-obra, embora, pelo teor da carta, tal “graça” só era dada aos trabalhadores cearenses que se agregavam ao projeto, o que, de princípio não ameaçava a exploração tradicional de mão-de-obra, nem o seu concurso necessário à grande economia, ou será que o delegado, proposital ou inconscientemente superdimensionou a participação dos cearenses? Ele não cita o esvaziamento de mão-de-obra alhures.
g) Não creio que o delegado mentisse quando falou de atitudes agressivas, e mesmo criminosas, de elementos ligados ao grupo de Antonio Maciel, mas também não acredito no seu conhecimento sobre essas ações. Para mim são eventos que ocorriam na periferia de um ajuntamento descomunal, e que sempre acontece nessas situações, afinal um Judas prosperou entre apenas uma dúzia! Creio mesmo que, pelos testemunhos que alguns dão de Conselheiro nessa época, sempre com o olhar distante, de quem está em outro mundo, como que conversando com outros seres, um clássico sintoma de alheamento mental, que o sertanejo, de forte ascendência cultural indígena, via como sinal de uma possível interação com seres de outro mundo, ele realmente não desse a mínima para o que estava acontecendo ao seu redor, no mundo real, creio que nem o conseguia, absorvendo o mundo presente apenas pelos informes que lhe davam os colaboradores mais próximos.
h) Decorrente do parágrafo anterior, e também com base no ofício do delegado, longe de ser uma comunidade pacífica os conselheiristas eram gente de guerra, e faziam questão de demonstrar isso ostensivamente, talvez como uma decorrência da absurda prisão sofrida por ele em 1876, que só serviu para ampliar ainda mais o frenesi em torno da sua pessoa. Os sertanejos, ao considerá-lo uma pessoa um “ser iluminado”, um “profeta” de Deus, senão uma encarnação do próprio Jesus Cristo, estariam, de agora em diante, prontos para tirar, assim como para dar, tantas vidas quantas fossem necessárias para mantê-lo ali, junto deles, sem sofrer mais injustiça e maus tratos. A multidão agora protegia e dirigia o profeta, até as últimas consequências.
__ Em breve eles teriam a oportunidade para demonstrar isso...

Notas
(1) O texto aparece assim em Antonio Benício, sem qualquer indicação de autoria, mas Fernando Câmara, na Carta Mensal do Colégio Brasileiro de Genealogia, Genealogia de Antonio Conselheiro, ano VIII, Nº 46, out-dez de 1997, põe exatamente essas mesmas palavras na pena de João Brígido dos Santos, um conhecido jornalista e historiador cearense.
(2) O batistério de Antonio traz apenas o nome Maria Joaquina, mas Fernando Câmara, sem explicar a razão, diz que ela também era conhecida como Maria Joaquina de Jesus ou Maria Joaquina do Nascimento, com a qual Vicente Maciel se casará apenas em 31 de agosto de 1834, quando ela já estava muito doente.
(3) É um exemplo típico da pesada espiritualidade católica do século XIX, marcada pelo extremo penitencial e pelo ressentimento causado pelas derrotas nos embates contra as forças do mundo moderno, lideradas pela burguesia, arreligiosa, nas quais a Igreja só conseguia ver vícios. Esse penitencialismo pesado será ainda mais agravado com a tomada de Roma pela monarquia liberal do Piemonte, em 1870. Os padres, em grande número, só tinham condenações avisos fúnebres para ameaçar aqueles que não faziam parte do “rebanho”. O livro Missão abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores, e sustentar o fruto das missões, um calhamaço de quase mil folhas!, foi escrito pelo padre português Manuel José Gonçalves do Couto, nascido em 1819, e falecido em 17 de setembro de 1897, uns dezoito dias antes da queda de Canudos. Esse livro foi o mais editado em Portugal no século XIX, com 140 mil cópias. Eis alguns trechos copiados de Nobre e Alexandre (2011):
“Quando menos pensares, a morte há de vir sobre ti. Talvez se cortará o fio de tua vida, enquanto estás tecendo ou urdindo teia. Talvez fazendo planos para melhor viver segundo a tua vontade...”
“Tu quando pecas julgas que tens tempo para te confessares e para te emendares; mas, pergunto eu, não podes enganar-te? Por ventura és tu o senhor do tempo?... Quantos pecadores já estão ardendo e gritando no inferno, enganados por esse modo?”


“Considera pecador... virá um dia em que hás de morrer, e apodrecer em uma sepultura, onde serás comida dos bichos. Esse corpo, que agora tanto amas e regalas... As tuas faces, os lábios, os cabelos hão de cair a pedaços. O teu corpo se tornará um esqueleto o mais fétido e medonho. Os teus ossos hão de separar-se uns dos outros; a tua cabeça há de apartar-se do tronco.” etc  quem tentasse viver, literalmente, aquilo que esse livro pregava, poderia acabar com sérios problemas...  

terça-feira, 31 de maio de 2016

É PROIBIDO PENSAR ?

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de BR, EUA, Portugal, Holanda, Suécia, Egito. Deus os abençoe

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__ Se eu me dirigir a qualquer um e disser gratuitamente: “você me deve mil reais” este certamente me dirá: “prove!” No contexto atual eu bem que poderia dizer: “por que razão eu, com mais de 60 anos, professor conceituado, cidadão cumpridor da lei, esposo e pai de família, sou obrigado a provar um fato tão corriqueiro como esse, quando bastou uma garota de 16 anos entrar numa delegacia e dizer que foi estuprada por 33 homens, para causar a queda de um delegado e tanta manifestações de apoio incondicional, inclusive no exterior, além de irados testemunhos na televisão de pessoas que nunca viram essa menina?”
__ Por que essa diferença? Por acaso mil reais valem mais que a honra e o bem estar físico-emocional de nossa juventude? Por que se criou, instantaneamente, um dogma de fé pública, que diz que temos que acreditar piamente que a coisa se passou exatamente como a jovem falou, senão pior? Como não acredito em dogmas sociais, da mesma forma em que acredito, incondicionalmente, que todos são iguais perante a lei, afirmo em alto e bom som: ainda não estou convencido. Vejamos as razões.
__ O que nós temos de fato: um filme, que quase ninguém viu, onde, segundo nos contam, aparece a jovem nua, sendo apalpada e zoada por uns quatro rapazes. Que aconteceu com os outros 26?  MAS ELA ESTAVA INCONSCIENTE! Clamam jornalistas na TV. Como é que dá para saber, só olhando o filme? Por acaso as pessoas que morrem nos filmes artísticos morrem de verdade? O namorado, que estava com ela, conta outra versão. Essa versão, só por ser de um homem, não merece crédito? O texto legal da igualdade perante a lei é só uma farsa, para que aqueles que tradicionalmente escapam dos tentáculos da lei, os mais ricos, tanto homens como mulheres, continuem se divertindo com os apertos e atrapalhadas do povo mais pobre, nesse circo de horrores? Bom, os exames médicos, que poderiam atestar realmente o absurdo desse crime, já não podem falar e corroborar a versão da “vítima”, porque esta só procurou as autoridades quando não era mais possível atestar nada. Muito conveniente ou não?
__ Ah, o delegado ficou desconfiado que a moça não estivesse dizendo a verdade! E o que ele tem que fazer, acreditar piamente que uma jovem que adentra a sua delegacia e afirma que foi estuprada por mais trinta homens, fato raríssimo na crônica policial, está obviamente dizendo a verdade? Por quê? Por que é mulher? Os homens não são tratados assim. Quando um deles chega à delegacia denunciando algo grave, o delegado os criva de perguntas, algumas inclusive muito embaraçosas, para comprovar a seriedade daquela denúncia. Por que com uma mulher seria diferente. Ah, as mulheres são sensíveis! Os homens não o são, não têm sentimento de honra capaz de ser incomodado pelas perguntas indiscretas, mas necessárias, de um delegado?
__ A dica está dada pelas próprias autoridades de plantão, quando uma mulher, por mais canalha que seja, quiser estrepar um homem, por mais correto que seja, basta entrar numa delegacia e dizer que foi estuprada por aquele, precisando, quando muito, mostrar uma fotografia em que os dois apareçam juntos.
__ Independente dessa moça ser inocente ou culpada, de ser uma vítima real, ter contribuído com ou forjado tudo isso, começamos mal, muito mal, esse episódio, mostrando que não aprendemos nada com a Escola Base de São Paulo (quantos ainda se lembram disso?), quando a vida de duas famílias foram destruídas, esmagadas, pelo devaneio de uma criança de três anos, e as iniciativas de um delegado incapaz de sondar mais cautelosamente o “testemunho” da criança, e não dá ouvidos a balelas de que criança “não mente”, e que está certo, criança de fato não mente, mas fantasia, que por motivos diferentes alcança efeitos análogos. Já os adultos, independente de sexo, tanto fantasiam quanto mentem, mas parece que as mulheres brasileiras estão se tornando, não segundo a lei, mas conforme o dogma social, que é a lei acima da lei, imunes à fantasia e à mentira.

__ Pela moça todos estão velando, e fazem bem em velá-la, mas quem está cuidando da inteligência, da prudência, da sabedoria e da verdade, moças tão belas e preciosas, mas tão maltratadas em nosso país, sem as quais adianta nem ser homem ou mulher, porque são elas que nos tornam humanos, e parecem tão ausentes desse caso?   

domingo, 29 de maio de 2016

HISTORIA DA IGREJA BASEADA EM JEDIN – XVI

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos dos EUA, BR, Portugal, Holanda, Egito e Suécia. Deus os abençoe.



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No caldeirão, junto às outras

__ No início da era cristã, Roma era uma babel religiosa; havia “iluminação” e “salvação” para todos os gostos, mas também se podia observar uma mudança importante em curso: o esvaziamento paulatino e preocupante, para alguns membros da elite política, da primitiva religião oficial, de matiz greco-itálica, muito utilitarista e burocrática, voltada para a busca de um equilíbrio nas relações sociais dentro das cidades onde vigia a cultura ocidental-mediterrânea.
__ A questão é que Roma já não era mais a capital do Lácio ou mesmo de uma Itália, culturalmente unificada, mas a cabeça de um grandioso império, que incorporara não só imensas áreas rurais como numerosas cidades de cultura celta, ao norte dos Alpes, mas também povos de cultura ainda mais diferentes, “estranhas”, no Oriente, que, para desespero dos romanos tradicionalistas, era mais urbanizado e próspero que o Ocidente, além de ter uma cultura muito mais antiga e provada que a romana. Ademais os orientais tinham uma larga experiência na construção e manutenção de grandes impérios, e sabiam da necessidade de uma religião como elemento aglutinador da unidade política. Ora, isso jamais poderia ser feito por uma religião com perspectivas tão curtas e prosaicas como o politeísmo greco-romano tradicional. Era necessária uma religião com objetivos mais abrangentes, universais, como eram as religiões orientais – aliás, se pegarmos todas as religiões de cunho universalita do mundo nós veremos que todas elas nasceram no Oriente: cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo, etc.

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__ Alguns imperadores, em especial Otávio Augusto, bem que tentaram resistir e impor, por decreto, o retorno triunfante de antigas práticas religiosas, para conter a atração irresistível das seitas e religiões orientais, algumas deveras muito bizarras, que se alastravam por Roma, esvaziando as cerimônias religiosas públicas, enquanto davam a impressão de uma certa decadência moral. Como disse um poeta satírico: “os esgotos do Orontes [rio da Síria] desaguam no Tibre”. Essa decadência, porém, certamente que estava mais ligada ao absurdo e à imoralidade da escravidão onipresente, que às estranhas doutrinas dessas religiões, que, no geral, exigiam uma conduta correta de seus fieis. A essas seitas acorriam a pequena classe média, os comerciantes, mais afeitos a contatos com outras culturas, sem falar da aderência maciça dos soldados, mais expostos à doutrinação nos países por eles ocupados. A penetração do cristianismo também não foi diferente e deve ter seguido o mesmo padrão de outras religiões, que entraram como que clandestinamente na capital do império, arriscando um futuro glorioso ou uma asfixia lenta e melancólica, em meio a tantas outras mensagens muito mais bem apresentadas e atraentes no curto prazo.
__ Quem foi o primeiro a levar o cristianismo à Roma é um mistério. Pode ter sido um soldado ou centurião de alguma legião ou unidade militar desmobilizada, que, após ter-se feito discípulo na periferia da comunidade principal do cristianismo palestinense, ao regressar à Roma tentou preservar aquilo que aprendera do misterioso rabi. Pode ter sido um comerciante, que, após passar um tempo de discipulado, precisou ir a Roma realizar negócios, um judeu convertido, etc. A história jamais saberá, exceto por uma certeza: não foi nenhum dos apóstolos. Pedro apenas, como disse o Senhor, confirmará a fé de seus irmãos (Lc 22,32). Foi, provavelmente, entre as pessoas mais humildes de Roma, romanos pobres e escravos, que o cristianismo deitará suas primeiras raízes, tanto é que passará seus primeiros anos completamente desapercebido, até que a perseguição de Nero jogará, sobre a Igreja, os holofotes que ela não pediu nem buscou...
__ Seus piores inimigos ajudaram-na a projetar-se. O preço, porém, foi arrasador, e, naquelas circunstâncias, era de se temer o seu desaparecimento precoce não fosse a força estranha que emanava de sua mensagem, e que crescia à medida que aumentava a perseguição das autoridades romanas e do povo insuflado pelos inimigos históricos do cristianismo – é curioso observar as estranhas e incríveis reações que essa igreja sempre apresentou, ao longo da história, toda vez que se vê a perigo de desaparecer ou sofrer perdas inestimáveis, por alguma catástrofe eminente, mas deixemos isso por ora. A perseguição de Nero deu oportunidade aos cristãos de mostrar a serena coragem de quem, mesmo sendo escravo, se vê liberto da prisão da história e soberano de seu destino. Isso impressionou sobremaneira aqueles que não haviam perdido o faro para as virtudes, e acendeu neles, independente da classe social, o desejo de ascender àquela graça. Não se sabe de ninguém, de certo peso social em Roma, sendo massacrado na perseguição de Nero, mas na de Domiciano, uns trinta anos depois, um dos atingidos foi Tito Flavio Clemente, cônsul e tio do próprio imperador, e membro de uma família importantíssima, uma das fundadoras da cidade: a gens Flavia.

Fazendo-se notar

__ O número e a qualidade dos membros da elite religiosa cristã não param de crescer e, tomando consciência do absurdo jurídico de sua situação, afinal eram perseguidos por um delito de opinião não previsto na lei romana, tomam a iniciativa de ir ao encontro das mais altas autoridades romanas denunciando abusos e pedindo justiça, justificando aos cristãos como cidadãos exemplares, mostrando que não havia, em absoluto, incompatibilidade entre a prática do cristianismo e a cidadania romana. Os primeiros que fizeram isso foram são Melitão de Sardes (morto em 180), bispo, Apolinário de Hierápolis (segunda metade do século II), bispo, e Atenágoras de Atenas (idem), filósofo cristão, que escreveram cartas ao imperador Marco Aurélio Antonino Augusto (161-180), para fazer uma apologia da fé cristã e pedir a sua intervenção contra as vexações injustas que os cristãos sofriam impunemente, e sem motivo legal aparente, nas mãos de autoridades civis, religiosas e do povo não cristão.

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__ De certa forma, essa queixa vai, aparentemente, contra um mandato do próprio Cristo: “a quem te ferir uma face, oferece a outra” (Lc 6,29). O contexto agora é diferente, não é mais uma questão pessoal, mas o legítimo direito de uma coletividade injustamente agredida dentro de uma ordem jurídica estável, e que não previa aquele tipo de tratamento. Calar-se e submeter-se seria compactuar com uma injustiça e, no extremo, agir hipocritamente, contra muitos irmãos que sofriam na carne aqueles desmandos legais. Qual foi a reação do Imperador Marco Aurélio a esses pedidos? Não sabemos, mas sabemos que, embora esse imperador tenha uma merecida fama de homem sábio, justo e equilibrado, a partir dos padrões mais elevados da filosofia pagã da época, ele não via o cristianismo com bons olhos: “[Marco Aurélio] desprezava profundamente os cristãos, já que, como ele acreditava, sacrificavam sua vida a uma ilusão... ele não estava disposto a permitir que a religião do estado fosse posta em perigo por exaltados sectários religiosos, nem pela introdução de cultos antes ignorados” (Jedin, p 252). Por conta disso o sangue dos mártires correu também durante o seu reinado (1), inclusive o famoso episódio dos mártires de Lyon (2), onde se nota cada vez mais a iniciativa de turbas descontroladas, agindo a revelia, pressionando as autoridades. O que ou quem estaria por trás desse movimento? Eis o que diz Jedin;

“Se agora um governador de província cedia mais frequentemente ao furor popular, também em Roma o ambiente público pesava mais contra os cristãos. O descontentamento geral da população contra o Império continuava também a se manifestar, no governo de Marco Aurélio, sob diversas formas. As campanhas militares intermináveis do imperador acarretavam várias sequelas, como a constante ameaça sobre as populações fronteiriças de invasões bárbaras, que aumentava a irritabilidade; a isso se somavam catástrofes naturais como inundações do Tibre [provavelmente causadas pelo assoreamento do leito devido ao desmatamento e ao excesso de gente morando em suas margens] e a peste (2a); e tudo isso ia se tornando prelúdio de inevitáveis perseguições. Se nos ritos de expiação que o imperador ordenara se notava a ausência de cristãos, já era sabido aonde se iria descarregar a fúria da população”.

__ As disputas com o judaísmo, no início, e com correntes internas heterodoxas, fruto da fragilidade estrutural da Igreja e da complexidade da mensagem cristã, deixavam os pagãos ainda mais perplexos e irritados. Para complicar surge entre eles uma corrente fanática, o montanismo, imprudentemente sequiosa por martírio, enquanto negava com afinco todo o patrimônio cultural das civilizações pagãs, a provocar os nervos já distendidos dos povos do império. “Os cristãos só nos trazem problemas”, diriam eles.

__ Infelizmente a lógica da história não é a mesma do espírito e da moral, e assim um imperador sábio e virtuoso, para os padrões do mundo greco-romano, além de filósofo notável, como Marco Aurélio, passa para a história como alguém que não entendeu nem aceitou a mensagem cristã, moralmente mais elevada que as virtudes utilitárias das sociedades pagãs, o seu filho, Cesar Comodo Augusto (180-192), um imperador depravado e abjeto, que tinha seu deleite nas lutas de gladiadores, graças a influência de uma concubina, Marcia, que ao que tudo indica era cristã ou nutria simpatias por essa religião (3), assinou alguns decretos que anulavam punições contra cristãos feitas no reinado de seu pai. Mas se Comodo era fraco o bastante para se deixar manipular por um rosto bonito, ou coisa que o valha, e desfazer algumas injustiças, certamente que não era lúcido nem moralmente capaz o suficiente para levar uma decisão às últimas consequências, de tal sorte que perseguições esporádicas e impunes continuaram por todo o império (4).
__ Seja como for tudo indica que estamos diante de iniciativas tomadas por uma turba revoltada contra os cristãos, cujos motivos ainda precisam ser esclarecidos, deixando, às vezes, constrangidas as autoridades responsáveis, como o pró-cônsul da Ásia, Tito Ario Antonino, que, segundo o escritor cristão Tertuliano, depois de prender muitos cristãos, movido por diversas denúncias, fez libertar a maior parte deles dizendo: “miseráveis, se quereis morrer aí tendes cordas e despenhadeiros” (p 257). Isso mostra, definitivamente, que não havia uma predisposição, e menos ainda uma conduta obrigada por lei, da parte do estado romano politeísta, contra o cristianismo, na maioria dos casos de martírio.

No Olimpo dos intelectuais

__ Mas se o povo começava a dar mostras de irritação contra os cristãos, seja essa irritação espontânea seja movida por grupos interessados, no seio da elite intelectual pagã nota-se um interesse crescente pela nova religião.
__ Nas primeiras menções ao cristianismo, feita por historiadores que relatavam o incêndio sob Nero, como Tácito e Suetonio, os cristãos são citados de passagem, de forma muito vaga e depreciativa; o primeiro fala de uma “abominável superstição” (pg 259), e o segundo chamará os cristãos como membros de uma “superstitio nova et maléfica” (idem). Mas essa atitude mudará:

“A partir da metade do século II, pode reconhecer-se claramente, em amplos círculos de pagãos cultos, uma crescente preocupação com o crescimento da religião cristã, que, a despeito dos tumultos populares e das medidas restritivas oficiais, não se consegue frear. Os representantes da filosofia pagã se veem agora obrigados a inteirar-se da doutrina cristã, para discuti-la ou combatê-la” (p 259).

__ O primeiro confronto que se tem notícia deu-se entre o apologista cristão Justino e um filósofo cínico chamado Crescencio (5), que propagava serem os cristãos “gente ateia e sem religião” (idem), enquanto aquele punha a nu as contradições morais do cinismo. Dizem os autores cristãos que Crescencio, enfurecido pelo silêncio que lhe foi imposto pela argumentação irretocável de Justino, denunciou-o às autoridades, que o fizeram decapitar, com outros seis companheiros e uma mulher, todos cristãos, em 165.

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__ Outro relato, é o que saiu da pena de um dos mais ilustres membros da elite romana, o senador, jurista e retórico romano Marco Cornelio Fronton (95-+/-167), que em uma alocução pública, depois espalhada na forma de um folheto, afirmava que “deveriam ser consideradas plausíveis as suspeitas do populacho contra os cristãos; que em suas reuniões, após suculenta comilança, regada a muito vinho, se entregavam aos piores excessos, inclusive ao incesto” (p 260). Aparentemente fica justificada a tese de que o incentivo á perseguição dos cristãos pelo povo saiu do seio da própria sociedade pagã, por meio de seus grandes intelectuais e personagens acatados – Fronton foi preceptor dos príncipes imperiais Marco Aurélio e Lucio Vero. Mas ainda assim fica a pergunta: por que esses homens espalharam essas notícias tão inverídicas? Com certeza eles não conviviam com os cristãos. Quem, dentro da corte, estava próximo o bastante das autoridades, para ser considerada fonte fidedigna a ponto de seu testemunho dar crivo de verdade a tamanhos absurdos? Ou será que homens tão ilustres acataram, sem mais, os alardes saídos da boca do povaréu? Por que não se promoveu uma investigação séria, isenta, pelas autoridades, para saber o que realmente acontecia nos bastidores do cristianismo, ante de liberar punições tão extravagantes?
__ Curiosa, embora tão ilustrativa do tratamento dado aos cristãos pela intelectualidade pagã, quanto irrisória em matéria de história ou material apologético anticristão é a obra Morte de Peregrino, do satírico Luciano de Samosata, cidade da atual Turquia (125-180), escrito após presenciar a morte do filósofo cínico (5) Peregrino Proteu (95-165), que se autoimolou numa fogueira, durante os Jogos Olímpicos de 165, após ter lido sua própria oração fúnebre, onde se comparava a Hércules, e que, por isso, devia morrer como tal, queimado, enquanto prometia a si mesmo, pelo seu gesto, glória imorredoura.
__ Luciano, que presenciou o fato e não só não ficou impressionado como desdenhou profundamente aquela demonstração de falta de juízo, deve ter procurado mais informações sobre aquele transtornado, e quando soube que ele, em algum momento, fora cristão, percebeu que o ocaso lhe dera uma oportunidade que não podia perder. Ele não se fez de rogado e escreveu uma das mais grotescas biografias que se tem notícia, e de quebra, um ataque arrasador ao cristianismo (6). Não que ele acreditasse que o cristianismo oferecia algum perigo às instituições do Império, antes os cristãos eram gente tão miseravelmente “trouxa”, tão completos idiotas, que só podiam ser levados no deboche.

“Foi então que ele [Proteus] conheceu a maravilhosa doutrina dos cristãos, associando-se a seus sacerdotes e escribas na Palestina. (...) E o consideraram como protetor e o tiveram como legislador, logo abaixo do outro [legislador], aquele que eles ainda adoram, o homem que foi crucificado na Palestina por dar origem a este culto.(...) Os pobres infelizes estão totalmente convencidos, que eles serão imortais e terão a vida eterna, desta forma eles desprezam a morte e voluntariamente se dão ao aprisionamento; a maior parte deles. Além disso, seu primeiro legislador os convenceu de que eram todos irmãos, uma que vez que eles haviam transgredido, negando os deuses gregos, e adoram o sofista crucificado vivendo sob suas leis." (Copiado de http://adcummulus.blogspot.com.br/)

__ É difícil dizer até que ponto um escrito de cunho tão satírico e grotesco, como o de Luciano, que privilegia situações tanto burlescas como escabrosas, como o parricídio cometido por Peregrino, além de outros crimes, ajudava a aplacar, afinal o cristianismo não era algo para se levar a sério, ou agravava a predisposição da turba contra os cristãos, que, em Peregrino, não passam de pobres coitados, embora fique a questão: quem gostaria que uma pessoa amada sua, um filho ou filha, fosse transformado, por alguns “esquisitos”, em um completo idiota. Mais sério, e mais bem argumentado, porém, foi o ataque de um filósofo grego do final do século II, de nome Celso, em seu livro Discurso da verdade.
__ Sobre a vida de Celso nada se sabe, tampouco nada sobrou de suas obras, além do que está escrito na resposta que o apologista cristão Orígenes, escreveu em sua obra Contra Celso, uns 70 ou 80 anos depois. O que sabemos de Celso, portanto, vem exclusivamente da pena de Orígenes.
__ Lendo aquilo que Orígenes deixou sobre Celso podemos deduzir que Celso é um filósofo pagão, que admite o politeísmo, mas reprova as histórias mitológicas criadas em torno dos deuses, aproximando-se do discurso dos platonistas, mas, ao contrário de Luciano, seu escrito apresenta muito mais profundidade e é, certamente, baseado em pesquisa muito mais abrangente, inclusive nos meios judaicos. Mas há, em sua argumentação, um sério problema de origem: Celso parte do princípio de que aquilo que ele já crê é absolutamente correto, de tal sorte que, a ideia de criação a partir do nada, por exemplo, é-lhe completamente absurda, pois para a filosofia grega era “evidente” que a matéria sempre existira e que, por ser má, jamais poderia ter sido criada por um deus bom, o que o remeterá, inapelavelmente, à condenação do cristianismo. Seria como um julgamento com veredito prévio.
__ Deus, segundo a concepção de Celso, “está assentado muito longe, inacessível, e não pode revelar-se sem modificar o seu ser e penetrar na história, sem por-se em perigo ao aproximar-se demasiado do que é mau [a matéria]” (Jedin; p 263). Isso nega de antemão, e ao mesmo tempo, os conceitos de “revelação” e de “profecia”, fundamentais ao cristianismo. A possibilidade de encarnação de Deus é-lhe “totalmente ignominiosa: “Nenhum Deus ou filho de Deus, jamais baixou nem baixará a este mundo”” (p 264). Para Celso Jesus seria “um mero homem que, utilizando-se de resursos próprios dos magos do Egito, havia ganhado prestígio e autoridade”. Tanto nisso, como no nascimento virginal de Jesus, Celso faz eco à mais grosseira contrapropaganda judaica (7), que fazia espalhar boatos muito ofensivos sobre o nascimento de Jesus e sua pregação.
__ Os cristãos, no entender de Celso, de uma certa forma fazendo eco ao discurso de Luciano, “são, em sua maioria, gente espiritualmente limitada, que não entendem suas próprias doutrinas [atitude típica, da parte de Celso, de quem se considera intelectualmente “superior”] nem se prestam a discussão alguma... exaltam intencionalmente a loucura e têm a insensatez como algo excelente [provável alusão a 1Cor 1,25]. Sua fé é a fé dos tolos ou da loucura... a atitude de alguns pregadores cristãos, ao prevenir contra a sabedoria do mundo, o espanta e a todo aquele que via na paideia grega (8) um ideal” (idem), por isso não era de espantar que tal religião só encontrasse eco nas classes mais baixas, como “entre os escravos, entre trabalhadores manuais e gente de ofício semelhante, além de mulheres e crianças, ainda não dotadas de razão” (idem). Celso, aqui, força um pouco, pois, vimos que na perseguição de Domiciano, pessoas das mais altas esferas sociais começavam a se interessar pelo cristianismo. Conclui Jedin:

“Celso funda a sua desestima moral aos cristãos... no fato de que eles tomaram, propositalmente, conceitos forjados na história cultural grega e os distorceram ou modificaram na sua propaganda, desconsiderando a tremenda reverência que os gregos nutriam por esse passado [tal “deformação” pode ser vista, por exemplo, no conceito do Logos, no início do Evangelho de São João, contrário ao sentido original dado pelos filósofos gregos]... adversários inconciliáveis do verdadeiro logos que impera entre os gregos. Ademais, os cristãos pecam também contra outro ideal do helenismo, a fidelidade ao nomos [a lei e os costumes], em especial no reverente respeito à tradição e às leis do culto religioso, que de alguma forma é guardado na forma de leis não escrita por todos os povos [todos os povos da bacia do Mediterrâneo, na Antiguidade, eram politeístas]... [Essa atitude condenaria os cristãos a inevitável isolamento] cujos sequazes, compara Celso, a um montão de lombrigas, dispostas sobre um lodaçal, a discutir interminavelmente, entre elas, quem seria a mais pecadora” (idem; p 265).

__ Daí retira Celso sua conclusão final, de que os cristãos se constituem sim um perigo para a ordem pagã, que ele deseja proteger, em especial à sua expressão política, o Estado, o qual não deve a menor compaixão de tão maléfica malta de malfeitores como são os cristãos. E depois de descer às mais abjetas acusações e calúnias contra aquilo que os cristãos tinham como mais sagrado, Celso faz um apelo ao retorno, dos já convertidos, ao paganismo anterior, que, por razões óbvias, caiu no vazio, afinal eles já haviam sido colocados, por Celso, em um leque de insanidades e malfeitorias, que iam da mais completa idiotia até o mais repugnante banditismo.

Partindo para o combate

__ Aos poucos, lá por volta da metade do século II, à medida que o movimento cristão prospera e personalidades cultas, que têm algum reconhecimento na sociedade romana e manejam a língua latina com mais desembaraço, se agregam a ele, começa a surgir uma produção literária crsitã, de cunho apologético, que os cristãos faziam de olho, principalmente na elite pagã, de quem queriam se defender, e se possível converter. Segundo Jedin, essa produção tem algumas características especiais.
a) É toda escrita em língua grega.
b) tenta não só fazer um resumo sistemático da crença cristã, mas avança no esclarecimento de alguns pontos da crença. Nem sempre de uma forma feliz.
c) Tenta rebater as acusações e calúnias absurdas, igualmente insidiosas, que se joga contra o cristianismo.
d) Em relação ao judaísmo focava no tema do Messias, ligando-o a Cristo.
__ Contra o paganismo a temática era mais abrangente. Diz Jedin;

“Neste campo era necessário, primeiramente, desmentir tenazes rumores que atribuíam aos cristãos as mais abjetas desordens sexuais, ateísmo e inutilidade social, que incitavam as massas pagãs contra eles. Um espaço mais amplo é concedido à exposição positiva da mensagem cristã e ao relato do alto nível moral e ético que acompanham seus afazeres diários. A isso os apologistas ajuntavam, fatalmente, uma crítica mais ou menos acentuada à fé pagã” (p 270).

__ Entre os primeiros apologistas se contam:

Cuadrato
__ Mencionado por Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, como alguém que teria, lá por volta de 125, entregue ao imperador Publio Elio Adriano (117-138) uma defesa (apologia) do cristianismo; fora isso não se tem nenhuma outra notícia de Cuadrato, que é, por alguns, confundido com um bispo de Atenas de mesmo nome, nem de sua obra, que se perdeu, exceto um parágrafo, chamado Fragmento de Cuadrato, que consta da História Eclesiástica – esse fragmento está reproduzido em sua totalidade no verbete Fragmento de Cuadrato, na wikipedia em espanhol.

Arístides de Atenas
__ Era contemporâneo de Cuadrato, e parece que também escreveu uma apologia do cristianismo ao imperador Adriano, mas ao contrário do que aconteceu com Cuadrato, o seu escrito chegou até nós, graças a descoberta de uma versão dessa apologia, acontecida em 1889, no mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai.
__ Os dados de Eusébio de Cesareia nos falam de um filósofo ateniense de nome Arístides, que teria se convertido ao cristianismo e que escreveu uma apologia dirigida ao imperador Adriano. O seu escrito faz uma digressão geral sobre a caminhada da humanidade, rumo às luzes da verdade, dividida em quatro grupos: bárbaros, gregos, judeus e, por fim os cristãos, que possuem “a verdadeira doutrina e a correta vida moral” (p 271). O escrito de Arístide não causa impacto nem revela brilhantismo formal.

“Este primeiro ensaio conservado de um apologista cristão, que quer fazer a sua fé acessível aos seus concidadãos politeístas, sugere a ideia de que foi um pagão recém-convertido, que abraçou uma tarefa para a qual não estava em absoluto preparado” (p 272).

São Justino Mártir
__ Justino nasceu em Flavia Neápolis, atual Nablus, na Cisjordânia; o ano é incerto, por volta de 100, e morreu por volta de 165, em Roma, martirizado durante o reinado de Marco Aurélio, por defender publicamente a sua crença. Justino, quanto ao local de origem, era um samaritano, entretanto como nascera do seio de uma abastada família pagã de fala grega, pode-se dizer que ele era um gentio, que, graças aos estudos, se familiarizou bem com o pensamento grego, até se tornar um mestre de filosofia, tendo feito sua opção pela escola platônica.
__ Sua opção pela filosofia fê-lo viajar muito e conhecer diversas pessoas. Pesquisador incansável da verdade, sua busca só encontrou seu objetivo quando conheceu “um velho”, segundo seu testemunho em Diálogo de Trifon, que debateu com ele sobre as premissas do cristianismo, fazendo uma interessante ponte entre os profetas e os filósofos, cada um, a seu modo, levando para Cristo, conseguindo converter a Justino, o que proporcionou um frutuoso enlace da cultura Ocidental com a Bíblica-oriental – e é aqui, principalmente, que está a vantagem do cristianismo sobre o judaísmo da época, que se recusava a esse debate, exigindo a completa conversão espiritual e cultural dos prosélitos. Justino terminou seus dias em Roma, onde fundou uma escola de filosofia.

“Justino combate a mitologia politeísta pagã com as armas que haviam sido fabricadas pelo racionalismo filosófico [combate o adversário com suas próprias armas]. A ela, à mitologia, ele opõe a imagem do Deus uno “pai do universo”... Que o Deus uno seja pai, não justifica Justino pelo fato de ele ter dado a graça da filiação divina a todos os homens, mas antes em ser a causa última da criação... [Justino reforça a identificação de Cristo com o Logos (9) da filosofia] O Logos estava desde o princípio em Deus, é engendrado pelo Pai e apareceu encarnado na sua completa divindade em Cristo... Não tem, portanto, a mesma dignidade do Pai [aqui Justino afasta-se do que é considerado, hoje, “ortodoxia”, mostrando o quão foi difícil chegar a um consenso a esse respeito, e a quantos perigos não se expunham os primeiros cristãos, dentro e fora da Igreja], mas participa, enquanto Filho, da mesma natureza divina... antes de sua aparição, em Jesus Cristo, esse Logos já estava ativo, pois não só por ele o Pai criou o mundo, senão que apareceu por diversas vezes como “anjo do Senhor”. Falou pelos profetas do Antigo Testamento, e a homens sábios como Heráclito, Sócrates e Musonio... de tal sorte que esses homens também viviam conforme o Logos, que dirigia a sua razão, e que, por isso, devem também ser contados entre os cristãos [algo controvertido, mas não heterodoxo]... Deus confiou aos anjos bons o cuidado dos homens e coisas deste mundo... Os anjos não são espírito puro, mas antes possuem uma corporeidade aérea, que se nutre de uma espécie de maná... A queda de alguns anjos se deveu ao seu comércio carnal com mulheres (10), e seus filhos são os demônios que, dos ares, exercem funesta influência sobre os homens... Eles são os inventores do culto idolátrico pagão, e também foram eles que cegaram os judeus diante da revelação do Logos... e tentam agora, pela astúcia, impedir a conversão da humanidade ao cristianismo... ” (p 273-274).

__ No âmbito do comportamento e da moral, ao contrário do que diziam seus detratores, “o alto nível dos cristãos nesse campo era, para ele, a prova irrefutável de que eles estão de posse da verdade. Os cristãos são verazes e castos, amam seus inimigos, e morrem alegres pelos seus ideais, não induzidos por raciocínios filosóficos... mas porque Jesus Cristo exige uma vida de acordo com esses ideais... os cristãos cumprem as previsões contidas no Antigo Testamento. Justino concede a este uma importância parelha com os evangelhos, que são “a memória dos apóstolos” (p 274). Justino fala também do batismo que “livra dos pecados antes cometidos e cria um homem novo por Cristo”.

__ Entretanto:

“A forma mais pura do culto divino é o sacrifício eucarístico, em que os crentes, unidos em comunhão fraterna, apresentam o pão e o vinho, sobre os quais o presidente da comunidade apresenta uma oração de ação de graças. Esses dons se distribuem novamente entre os membros da comunidade, mas não mais como uma comida ou bebida comum, mas como carne e sangue de Jesus Cristo... Essa transformação é operada pelas palavras que Jesus Cristo pronunciou sobre o pão e o vinho, na última ceia, e que pediu que os apóstolos a repetissem em sua memória... E este é o único sacrifício “lógico”... porque seu centro é o Logos mesmo, Jesus Cristo (11)” (p 274-275).

__ Enfim todo o discurso de Justino, tirado de obras que chegaram até nós, desde época tão remota, como Diálogo com Trifão e Apologia, atestam de maneira cabal a antiguidade dos ensinamentos da Igreja Católica e a sua fidelidade à mensagem original de Jesus Cristo.

Taciano
__ Nascido na Síria, no seio de uma família pagã, assim como Justino ele possuía uma inteligência inquieta e afiada, e também se sentiu obcecado por uma busca da “verdade”, o que o fez partir pelo mundo em busca de sentido e resposta para as suas dúvidas existenciais. Essa busca o fez chegar até Roma, lá por volta de 152, onde se converteu ao cristianismo e entrou em contato com São Justino, tornando-se não só cristão como um dos melhores discípulos deste. A morte de Justino em 165, porém, deu uma guinada na sua vida, e ele foi se afastando da ortodoxia cristã, para assumir uma versão extremamente rigorista da mensagem cristã, descambando para a heresia. Em 172 ele viaja de Roma para o Oriente onde, segundo seus adversários, cristãos ortodoxos, aprofundou ainda mais seus erros, até morrer ignorado lá por volta de 180.

“[seu livro Discurso aos gregos] supõe uma regressão em relação a apologia de Justino. Enquanto este encontra na filosofia grega elementos de verdade, Taciano só tem críticas e escárnio para as conquistas culturais do helenismo... a teologia dos gregos é uma parvoíce, seus teatros, escolas de vícios, sua filosofia está cheia de embustes, seu circo, música e poesia são fontes de pecado... Um juízo condenatório tão taxativo e global não era nada propício a que um adepto dessa cultura se abrisse á mensagem cristã de Taciano. O centro desta é Deus uno e sem princípio, claramente distinto do mundo material... o homem é dotado de livre arbítrio e pode, desse modo, escolher o bem e entrar na imortalidade... Demônios são aqueles que querem fazer o homem acreditar no destino [o “fado”, mencionado na religião e na filosofia dos gregos]... O homem pode libertar-se de seu domínio [dos demônios], sob a condição de renunciar, por meio de rigorosa mortificação, à matéria [uma possível referência à teoria grega tradicional da maldade essencial da matéria?] (p 276).

__ Jedin arremata sua análise dizendo: “o seu ataque desmedido contra a cultura helenística (e a helênica em geral) correspondia a um traço do caráter de Taciano, sua tendência obsessiva ao extremo, que, na sua volta à Síria... terminou por apartá-lo da Igreja e o levou a fundar a seita dos encratitas, que condenava o matrimônio como um pecado e proibia em absoluto o consumo de carne e vinho” (p 276-277). Foi um que se perdeu pelo caminho, e nos faz meditar na assustadora previsão de Lc 13,24...

Atenágoras de Atenas
__ Sabe-se apenas que foi um “filósofo cristão de Atenas”, que lá por volta de 177 escreveu uma apologia ao imperador Marco Aurelio e seu filho Cômodo, em favor dos cristãos, onde, segundo a Wikipedia em espanhol, “defende os cristãos das três principais acusações que os pagãos lhes lançavam: ateísmo, antropofagia e incesto. Desde as primeiras frases, a apologia se faz notar pela moderação e cortesia de suas expressões. É uma obra-prima pelo seu alto voo literário, pela clareza de sua argumentação e pela vasta erudição expressa pelo autor. Sua composição é clara e metódica, a fraseologia bem acabada e rica em ideias, o raciocínio é firme e vigoroso, o estilo é sóbrio, quase seco, mas simples e preciso” (verbete Atenágoras de Atenas). O autor da Wikipedia ainda ressalta que ele, nessa apologia, maneja a dialética melhor que São Justino, com a vantagem de ser mais benevolente com a cultura grega que Taciano. Diz Jedin:

“Nobre, como o tom do conjunto de seu escrito, é a atitude de Atenágoras diante da filosofia grega, entre cujos representantes se pode descobrir, amiúde, tendências monoteístas, sem que se assaque contra eles a pecha de ateus [como se fazia com os cristãos]... A existência desse Deus uno pode inclusive demonstrar-se por argumentos racionais... e a revelação também nos permite reconhecer a divindade do Logos; a ação do Espírito Santo, que é uma emanação de Deus [ainda evoluiremos nessa questão], se torna palpável nos profetas. O alto nível da moralidade cristã se faz notar pela pureza da vida conjugal e a estima da virgindade; um segundo matrimônio não passa, para os cristãos, de um decente adultério [também evoluiremos quanto a isso]... nesse apologista [conclui Jedin] a argumentação filosófica cristã ganhou qualidade enquanto a teológica ganhou profundidade” (p 277-278) (12).

Teófilo de Alexandria
__ Nada se sabe da vida de Teófilo, exceto aquilo que sobre ele diz Eusébio de Cesareia, que o apresenta como sexto bispo de Antioquia, com data provável de sua morte em 183. A única obra dele que chegou até nós foram os três livros que compõem a A Autólico, uma apologia do cristianismo dirigida a um amigo pagão do bispo, Autólico, esclarecendo sobre certos mal-entendidos e calúnias que este ouvira a respeito da doutrina cristã (13). Diz Jedin:

“Quer fazer ver [a Autólico]... que os escritos cristãos, como o Antigo Testamento, sobrepujam em antiguidade e em matéria de religião e filosofia tudo o que já fora produzido pelo pensamento grego... Os autores dos evangelhos, como os profetas, são para ele portadores do Espírito, e seus escritos, assim como os de Paulo, têm a autoridade da “palavra santa e divina”... A alma humana possui uma imortalidade potencial [algo controvertido]; a imortalidade se lhe é concedida apenas pela livre observância dos mandamentos de Deus (14)” (p 278).

__ Além destes, pode se mencionar a Melitão de Sardes, Miltíades da Ásia Menor e Apolinário de Hierápolis, cujas obras, por tão fragmentárias, não podem ser corretamente aquilatadas. A respeito de todos esses apologistas vale a pena ler a seguinte reflexão de Jedin:

“Uma abordagem global da obra dos apologistas do século II já não permite sustentar sem restrições a tese [protestante] de que, em seu intento de fazer entender no mundo helenístico, o cristianismo se helenizou [de onde a contrapartida, tipicamente protestante, de sobrevalorizar o Primeiro Testamento e, em consequência, a tradição e a cultura judaica, principalmente nos EUA, chegando ao extremo, às vezes, de querer ligar o cristianismo às aventuras imperiais do estado israelense]. O conteúdo genuinamente cristão da literatura apologética contradiz inequivocamente essa afirmação, sobretudo quando se tem em vista a sua finalidade, que, ao pretender estabelecer um diálogo ao mesmo tempo com judeus e pagãos, não permitia uma exposição completa da teologia cristã, e por isso tiveram que abrir mão, desde o princípio, de uma descrição detalhada dos mistérios cristãos. Entretanto, quando comparados aos Padres Apostólicos, esses apologetas apresentam um desenvolvimento considerável da doutrina sobre Deus, da cristologia do Logos, do pensamento trinitário e da antropologia cristã... o trabalho bíblico fez consideráveis progressos; nota-se o princípio da formação do cânon, começa a se desenvolver uma doutrina sobre a inspiração e o Antigo Testamento é explorado em vistas de uma cristologia com fundamentação bíblica” (p 280).

__ É verdade, ainda segundo Jedin, que o principal objetivo da literatura apologética, que era conseguir o reconhecimento do Estado romano e o respeito das autoridades para como os cristãos e o cristianismo, não foi alcançado, mas o trabalho deles encheu os cristãos de confiança para enfrentar o discurso e a zombaria pagã usando das armas da argumentação em alto nível intelectual, sem o uso da força, inviável, ou do espetáculo charlatanesco, como faziam algumas seitas mistéricas, distinguindo nitidamente o cristianismo destas. Essas obras certamente deram a uma comunidade espezinhada, acabrunhada, por tanta perseguição e injustiça, a certeza de que faziam parte de uma projeto de salvação social e espiritual bem mais amplo, que os propostos pelo paganismo, e isso, naquela hora, pode ter salvo o cristianismo.

Nota
(1) Esse foi o caso de São Justino Mártir, e mais seis companheiros, denunciados como cristãos ao prefeito de Roma, Junio Rustico, que governou entre 162 e 168. Compelidos por este a sacrificar aos deuses, eles se recusaram, o que os levou a serem açoitados e decapitados. Publio, bispo de Atenas, foi martirizado entre 161 e 170. Ságaris, bispo de Laodiceia, martirizado por volta de 164. Thraseas, bispo de Eumenia, seguiu o mesmo destino, além de um martírio coletivo em Pérgamo, no qual foram mortos o bispo de Tiatira, Carpo, acompanhado do diácono Papilo, além Agatodhoro, que era servo de Carpo e Agatônica, irmã de Papilo. Os homens foram decapitados e a mulher foi estrangulada com tendões de boi.
(2) Este fato é o seguinte: durante um festival religioso pagão, na colônia romana de Lyon, na Gália, atual França, no ano de 177, a multidão, por razões desconhecidas, espontaneamente atirou-se contra os cristãos que eles conheciam, assacando-lhes as mais grotescas acusações, como canibalismo, infanticídio e incesto, exigindo que as autoridades tomassem providências: os massacrassem para evitar seu linchamento certo – alguns autores hipotetizam que a iniciativa se deveu a adoradores de Cibele, que também prometiam vida eterna após a morte, e, portanto, temiam a concorrência dos cristãos, e que teriam uma festa comemorativa naquele ano, coincidindo com alguma celebração cristã, mas a arqueologia em Lyon tem enfraquecido essa tese; outros afirmam que isso nasceu do preconceito do povo contra os cristãos, que tendia a vê-los como “ateus”, por se recusarem a sacrificar aos deuses, embora contra essa tese exista o fato de que os romanos eram muito tolerantes em matéria de religião, o Imperador Marco Aurélio mais ainda, e não existia por parte do Estado, ao que se sabe, nenhuma política oficial dirigida contra os cristãos; outros autores falam de atitudes provocativas por parte de cristãos montanistas, “confirmada” pelo radicalismo de alguns, em especial um tal Alcibiades, sem falar que a pátria de boa parte dos cristãos envolvidos nesse processo era a Frígia, pátria do montanismo. Para mim essa explosão foi, decerto, fruto de uma contrapropaganda muito insidiosa, feita por um grupo organizado e influente dentro da comunidade lionesa, com fortes motivos para detestar os cristãos. Mas quem?
Instaurado o processo, um homem, Vetios Epagatos, se prontifica para defender os cristãos, mas ao saberem que ele também é cristão, as autoridades, com o populacho nos calcanhares, o prendem. Tudo não passa de um linchamento oficial. Sob ameaças e possibilidade de torturas, 10 cristãos renegam a fé e salvam suas vidas, já o restante, uns 47, entre os quais 22 mulheres, preferiram antes enfrentar os verdugos e a insalubridade da prisão, que, junto com a tortura descontrolada, levou 18 a óbito, entre os quais o primeiro bispo de Lyon e das Gálias: Potino, já ancião.
Aqueles, em número de 22, que não negaram a fé, mas tinham cidadania romana, foram, após as torturas, decapitados.
Seis foram condenados ao suplício público, no anfiteatro Três Gálias, e a servir de banquetes às feras, entre os quais se encontrava um adolescente, de nome Pônticos, e sua grande amiga, uma escrava frígia de nome Blandina, cuja história é muito edificante: quando presa, seus companheiros temeram que não suportasse as torturas devido a fragilidade de sua compleição física. Mas ela sobreviveu com galhardia às maiores sofrimentos e indignidades na prisão, sempre afirmando: “sou cristã, e não cometi nenhum crime”, e, além disso, começou a incentivar os outros a preservar a fé! Levada à arena, viu seus amigos serem torturados e mortos até o último, enquanto ela, amarrada a um poste, por alguma razão não foi atacada pelas feras, isso por vários dias. Cansados da resistência daquela mulher, espancaram-na novamente a e fizeram deitar sobre uma grelha incandescente, mas não conseguiram demovê-la da fé. Diz uma testemunha ocular que a sua obstinação começava a mexer com os nervos do povo na plateia, que, impressionado, pôs-se a clamar para que ela abjurasse logo da fé e sacrificasse aos deuses. Em vão,
Por fim ela foi posta destro de uma rede de cordas e posta na arena junto a touros furiosos, que a chifraram inúmeras vezes, atirando-a para o ar. Mas como ao final do espetáculo ela ainda estivesse viva, foi por fim degolada por um soldado, num gesto de misericórdia.
(2a) Essa peste, chamada de Peste Antonina ou Praga de Galeno, foi uma das mais mortíferas da Antiguidade. Segundo as fontes da época ela teria começado na Ásia Menor, durante as operações de guerra empreendidas pelos romanos contra o Império Parto, por volta de 165, e de lá foi trazida pelos soldados, e se espalhou pelo Ocidente, em todo Império Romano. Segundo alguns cálculos, que aparecem na Wikipedia em italiano (Peste antonina), morriam cerca de 2 mil pessoas por dia em Roma, enquanto que o total de mortos no império pode ter chegado a 5 milhões. O exército ficou tão desfalcado que operações de guerra tiveram que ser suspensas, e a defesa da fronteira periclitou - Roma foi salva porque a epidemia também se espalhou além da fronteira e vitimizou muitas tribos germânicas. Os sintomas da peste, descritos por Galeno fazem lembrar da varíola, embora também se especule se não era sarampo. Seja como for dá para entender o estresse das pessoas com a resistência dos cristãos em participar dos ritos mágicos que, segundo a crença mais difundida, afastaria a doença. 
(3) Marcia seria a amante-consorte de Cômodo, depois que ele, em 181, se separou da sua esposa, Brutia Crispina, uma mulher fútil e superficial do alto patriciado, por quem nutria desinteresse e desprezo, banindo-a sob a falsa acusação de adultério – Crispina seria assassinada em 191, por ordem dele. Segundo uma informação do historiador greco-romano Dion Cassio, Marcia teria por mestre um presbítero cristão de nome Jacinto, e mantinha relações amistosas com a comunidade cristã de Roma, embora não haja qualquer prova ou notícia mais consistente de que ela era cristã de fato e, batizada. Seus atos posteriores apontam noutra direção. Na passagem do ano romano de 192, ela cometeu o “erro” de não apoiar uma ideia tresloucada de Cômodo, e este a inscreveu em sua lista negra, para ser executada no dia seguinte. Essa lista, porém, caiu nas mãos de Márcia, que resolveu envenenar o imperador, mas este, sentindo-se mal, vomitou a refeição, com o veneno junto, e foi tomar banho. Nesse momento, Marcia e outros dois, que também estavam na lista, fizeram entrar um enorme lutador, nos aposentos de Cômodo, que o estrangulou ali na banheira. O assassinato, entretanto, deu início a uma confusa guerra civil, que levou à execução todos os responsáveis pela morte de Cômodo, uma vez que sobre eles pesava a marca da traição, e quem já traiu uma vez pode trair outra.
(4) Em 17 de julho de 180 (Marco Aurélio morreu em 17 de março), na cidade de Scillium, próxima a Cartago foram executados 12 mártires, 7 homens e 5 mulheres, a espada, por ordem do pro-cônsul Vigelio Saturnino; houve o martírio do Senador Apolônio, que teria escrito uma defesa do cristianismo, lida no Senado, mas que hoje está perdida. Fala-se também de martírios em Apameia, na Frígia, e perseguições difusas na Síria, segundo Teófilo de Antioquia.
(5) O cinismo foi uma escola filosófica, embora um de seus principais representantes, o grego Diógenes Laercio (séc III), o considere antes uma forma de vida, que prega a indiferença e um desprezo radical às convenções sociais – seu representante mais conhecido foi Diógenes de Sinope (412–323 a.C), que viveu boa parte de sua vida dentro de um tonel. Sobre Crescencio nada se sabe.
(6) Peregrino seria o charlatão por excelência o canalha por vocação e por essência, que é expulso da casa paterna, pelo pai exasperado com a sua canalhice. Vagando pelo mundo, aplicando golpes por onde passava, principalmente entre os cristãos que eram tolos o bastante para verem nele alguma coisa mais que um esculachado mau-caráter. Luciano debocha do apoio e conforto que os cristãos davam a Peregrino quando este esteve preso, sem atinar, por lhe faltar a verdadeira sabedoria, que era justamente aí que estava a maior força do cristianismo, pois a compaixão, inclusive para com os maus, não era uma qualidade típica do antigo paganismo.
(7) “A partir de los fragmentos del Discurso verídico se puede deducir que los primeros cristianos aducían el nacimiento virginal de Jesús como una prueba de su divinidad. La insistencia con que Celso transmite calumnias en torno al nacimiento de Jesús muestra la fuerza del argumento; y el hecho que estas calumnias sean de origen judío _Celso las pone en boca de un judío_ muestra la antigüedad del mismo argumento (cf. I,28; I,32; I,39; I,69; II,13). En este caso no hay un verdadero cuestionamiento a la predicación cristiana, por parte de Celso, sino simplemente la repetición de una calumnia que busca desacreditar a Jesús” (Fernández; 2004).
(8) Paideia é o nome que os gregos davam ao seu ideal de autoformação e formação das futuras gerações. O seu significado pode ser entendido como o de educação, ensino, formação, num sentido muito mais amplo, abrangente e integrado que o da educação especializada, utilitarista e burguesa da atualidade.
(9) O termo “logos”, que aparece na filosofia grega com o filósofo Heráclito, “como princípio unificador universal que sustenta o mundo em um fluxo perpétuo. Para os estoicos... o logos era o princípio ativo e unificador do universo e fonte de todas as coisas existentes por meio dos logoi esparmatikós, sementes, por meio das quais as coisas vêm à existência. O logos era também a lei natural em conformidade com a qual as pessoas devem viver. No judaísmo helênico de Filon, o termo “logos” denotava o instrumento pelo qual o mundo fora criado e representava uma ponte entre o Deus transcendente e o mundo material. Da perspectiva do AT, o conceito evoca a palavra de Deus que chamou à existência a criação... a palavra reveladora que veio aos profetas... a palavra como equivalente à Lei... como agente de salvação... ou de juízo de Deus... João rompe com os conceitos gregos, indo além da perspectiva do AT ao afirmar a preexistência pessoal e a encarnação do Logos. Seu foco não se volta para qualquer dos conceitos metafísicos do Logos, mas sim, para a identificação de Cristo como o Logos divino, por quem o mundo foi feito... era Cristo por eles [os apologistas cristãos] entendido como a razão imanente (logos endiatethos) do Pai, surgida e existente antes da criação (logos prophorikos, a palavra proferida), sendo então, embora já existente no pai, gerada, manifesta, para se tornar homem na encarnação. O Logos era, dessa forma, entendido como: a) revelador e interprete do pai invisível e transcendente; b) o princípio racional em Deus, relacionado à razão do homem (para Justino Mártir e Clemente de Alexandria, o Logo era o inspirador da melhor filosofia grega); c) a (expressão da) vontade do Pai mantendo assim a unidade de palavras e atos... a ideia de “datação” da geração do Filho no tempo [nascido no ano 14 do reinado de Augusto] criou dificuldade. Por outro lado o conceito (de Fílon) do Logos como intermediário entre um Deus transcendental e um mundo material (e.g. em Justino Mártir) levou facilmente a alguma forma de subordinacionismo [crença que Jesus Cristo era subordinado ao Pai, rompendo a igualdade fundamental e essencial ao conceito de Deus único, que deve existir entre as pessoas da Trindade]  ” (Fergusson; p 622-623).
Eis uma passagem, traduzida da wikipedia em espanhol, onde aparece, de uma forma clara, o subordinacionismo de Justino, no seu Diálogo com Trifão, parágrafo LVI: “eu te convencerei, uma vez que compreendes as Escrituras (da verdade), que há, conforme se diz que existe, outro Deus e Senhor subordinado ao Criador de tudo; que é chamado Anjo, porque ele anuncia aos homens qualquer coisa que o Criador, acima do qual não existe outro deus, quer que ele saibam” (verbete Justino Mártir)
(10) Velha lenda derivada de antigos mitos, que narravam o intercurso sexual entre deuses e seres humanos; muito comum entre gregos e romanos, porém, mais naqueles, difundida também no judaísmo rabínico, de onde proveio, devido às duas narrativas da criação do homem (Gn 1,27 e 2,4-25), a lenda de Lilite, a primeira mulher perversa de Adão, que abandonou o paraíso para dar vazão à sua sexualidade exacerbada com Satã, recém-despejado do céu, e que se transformou, posteriormente, na serpente que seduziu Eva, só para destruir a felicidade do primeiro casal. É o símbolo da mulher adúltera e vingativa, e, até certo ponto, da “fraqueza essencial” da mulher, principalmente entre os povos do Oriente, o que justificaria a vigilância constante e irrestrita de pais e maridos.
(11) Eis o texto em espanhol sobre o discurso de Justino sobre as práticas eucarísticas de seu tempo, copiado da wikipedia em espanhol, verbete Justino Mártir:
“El día que se llama día del sol tiene lugar la reunión en un mismo sitio de todos los que habitan en la ciudad o en el campo. Se leen las memorias de los Apóstoles y los escritos de los Profetas. Cuando el lector ha terminado, el que preside toma la palabra para incitar y exhortar a la imitación de tan bellas cosas. Luego nos levantamos y oramos por nosotros… y por todos los demás dondequiera que estén, a fin de que seamos hallados justos en nuestra vida y nuestras acciones y seamos fieles a los mandamientos para alcanzar la salvación eterna.
"Luego se lleva al que preside el pan y una copa con vino y agua mezclados. El que preside los toma y eleva alabanzas y gloria al Padre del universo, por el nombre del Hijo y del Espíritu Santo, y da gracias largamente porque hayamos sido juzgados dignos de estos dones.
"Cuando el que preside ha hecho la acción de gracias y el pueblo ha respondido “amén”, los que entre nosotros se llaman diáconos distribuyen a todos los que están presentes el pan y el vino “eucaristizados”. (SAN JUSTINO, Carta a Antonino Pío, Emperador, año 155) “A nadie le es lícito participar en la Eucaristía, si no cree que son verdad las cosas que enseñamos y no se ha purificado en aquel baño que da la remisión de los pecados y la regeneración, y no vive como Cristo nos enseñó. Porque no tomamos estos alimentos como si fueran un pan común o una bebida ordinaria, sino que así como Cristo, nuestro salvador, se hizo carne y sangre a causa de nuestra salvación, de la misma manera hemos aprendido que el alimento sobre el que fue recitada la acción de gracias, que contiene las palabras de Jesús y con que se alimenta y transforma nuestra sangre y nuestra carne, es precisamente la carne y la sangre de aquel mismo Jesús que se encarnó.
"Los apóstoles, en efecto, en sus tratados llamados Evangelios, nos cuentan que así les fue mandado, cuando Jesús, tomando pan y dando gracias dijo: “Haced esto en conmemoración mía. Esto es mi cuerpo”. Y luego, tomando del mismo modo en sus manos el cáliz, dio gracias y dijo: “Esta es mi sangre”, dándoselo a ellos solos. Desde entonces seguimos recordándonos unos a otros estas cosas. Y los que tenemos bienes acudimos en ayuda de otros que no los tienen y permanecemos unidos. Y siempre que presentamos nuestras ofrendas alabamos al Creador de todo por medio de su Hijo Jesucristo y del Espíritu Santo”. (SAN JUSTINO, Carta a Antonino Pío, Emperador, año 155). Há trechos muito interessantes da obra de Justino, em espanhol, no seguinte endereço: http://www.mercaba.org/TESORO/427-11.htm
(12) Se o leitor quiser ter ler alguns trechos de Atenágoras, em espanhol, recomendo o seguinte endereço: http://www.mercaba.org/TESORO/427-13.htm
(13) Trechos de Teófilo, em espanhol, podem ser encontrados em:  http://mercaba.org/TESORO/427-14.htm
(14) O texto da Wikipedia em espanhol é mais claro quanto a isso e outros ensinamentos de Teófilo a saber:
“1. Teófilo de Antioquia foi o primeiro a usar o termo grego Trias, na metade do século II, para expressar a união em Deus de três pessoas divinas Deus (o Pai), sua Palavra (Logos) e sua Sabedoria (Sofia). Dessa palavra surgiu o vocábulo latino Trinitas [Trindade] de autoria de um seu contemporâneo, Tertuliano, no início do século III.
2. Foi o primeiro autor cristão a distinguir entre Logos endiazetos e Logos proforiscos, o Logos interno e imanente de Deus, que estava Neste antes da criação (endiazetos), e o Logos pronunciado por Deus, ao realizar a obra de criação do mundo (proforiscos). Todas as epifanias do Antigo Testamento são obras do Logos, não do Pai (é o Logos quem fala com Adão).
3. Teófilo considera a imortalidade da alma não como algo imanente à sua natureza, mas como uma recompensa pela observância dos mandamentos... A alma humana em si não é mortal nem imortal, mas capaz de mortalidade ou imortalidade. Tudo depende da fidelidade a Deus... Deus, portanto, fez o homem livre e dono de seus próprios atos” (verbete Teófilo de Antioquía). Como vemos os autores antigos dão um forte destaque ao livre arbítrio, ao contrário do que acontece no cristianismo dos últimos séculos. 

Bibliografia – Fontes Diversas
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Mercaba.org (um site completíssimo sobre tudo que diz respeito à fé católica, em espanhol)
Mora, Jose Ferrater; Diccionario de Filosofia; Sudamericana; Buenos Aires (online)

Reale, Giovanni – Antiseri, Dario; História da Filosofia – Patrística e Escolástica; trad. Ivo Torniolo; 4ª edição; Paulus; vol 2; São Paulo; 2009.