terça-feira, 23 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 27

A nau dos insensatos (II)

Enquanto no Rio corriam essas conspirações em torno do Poder Federal, em outro estado-chave, a Bahia, a intervenção de uma força inesperada vai sacudir o tênue equilíbrio que mantinha unidas as antigas oligarquias imperiais, agora travestidas de republicanas, após as habituais manobras de sobrevivência política a qualquer custo.

Com a Proclamação da República, após uma fase confusa, é eleito o primeiro governador da Bahia, José Gonçalves da Silva, do antigo Partido Conservador. Ele, porém, teve a infeliz ideia de apoiar o golpe de Deodoro, em 3 de novembro de 1891. Na virada política que alçou Floriano, ele foi obrigado a entregar o cargo em 24 de novembro, graças a um golpe acertado por florianistas baianos em contato direto com o marechal, entre eles um tal César Zama. Golpe por golpe, Gonçalves vai para casa.

Após a queda de Gonçalves, seguiu-se a presidência interina do general Tude Soares Neiva e do almirante Joaquim Leal Ferreira Junior, após os quais assumiu, regularmente, o Sr. Joaquim Manuel Rodrigues Lima, para o período de 1892–1896. Rodrigues Lima era do mesmo grupo de Luiz Viana, e durante o seu governo, houve a cisão definitiva dos republicanos baianos.

De um lado, no partido, estava a ala deodorista, liderada por José Gonçalves, e, do outro, a ala florianista, capitaneada por Luiz Viana, Rodrigues Lima, Sátiro Dias, Severino Vieira, César Zama, etc. Com a consequência previsível: Floriano, e depois Prudente, recusaram-se aos deodoristas, seja por exclusivismo ditatorial, seja por coerência política, respectivamente, enfraquecendo o grupo de Gonçalves.

Desse último grupo fazia parte um famoso político do Império, do Partido Conservador, Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, que, percebendo a inevitabilidade da República, foi se acomodando. Jeremoabo era um homem inteligente e culto, diferente, em alguns aspectos, da imagem tradicional dos coronéis do sertão semiárido, como homens bravios e ignorantes. Foi até o fim um defensor da escravidão, que ele resumia a uma mera questão de propriedade. Ele também sabia ser truculento, pois no semiárido daquele tempo, isso era inevitável. Até o Conselheiro percebeu isso.

A ala de Viana, agindo com método e maquiavelismo, se apropriou dos principais postos do PRF (Partido Republicano Federalista, que não tem nada a ver com os federalistas gaúchos) e, após descartar a permanência do grupo de Gonçalves e Jeremoabo, vai conectar-se a movimentos políticos no Rio de Janeiro. Os vianistas mudam o nome do partido para Republicano Federal, em 15 de abril de 1894, numa extensão do partido de mesmo nome fundado sob a batuta de Prudente de Morais e Francisco Glicério. Manuel Vitorino presidia esse partido na Bahia.

Gonçalves, Jeremoabo e os seus, isolados e sem alternativa, fundam o Partido Republicano Constitucional, em 19 de agosto de 1894, com um jornal próprio: O Republicano.

Embora os arranjos políticos tivessem um padrão acomodatício, de modo que as divergências pessoais não extrapolassem para uma luta aberta, elas aconteciam no ambiente juridicamente frouxo e indefinido da Primeira República, mas principalmente pela artificialidade do projeto republicano brasileiro, cópia de modelos estranhos à nossa realidade. Isso era agravado por momentos legalmente estabelecidos para a troca ou renovação de poder: as eleições. O principal elemento de sistemas democráticos consagrados, no nosso, era o calcanhar de Aquiles.

Em uma delas, a disputa quase descambou para um grande conflito entre gonçalvistas e vianistas, em virtude do sistema fraudulento e das 'degolas eleitorais', dessa vez utilizada contra a eleição do Barão de Jeremoabo ao Senado Estadual.

Em uma de suas cartas, transcrita por Álvaro Pinto Dantas de Carvalho Junior, em O Barão de Jeremoabo e a política do seu tempo — trajetória de um líder conservador na Bahia, Secretaria da Cultura e Turismo, Salvador, 2006, p. 248, José Gonçalves conta como evitou uma ação de Viana para constranger eleitores e candidatos eleitos pelos gonçalvistas em Vila Nova, para mudar o resultado das eleições. Tudo começou quando Gonçalves recebeu um telegrama alertando-o de que um alferes da polícia saíra de Salvador com 20 praças para Vila Nova, a fim de mudar o resultado das eleições. Gonçalves parte para lá, para preparar os moradores para a guerra.

À frente de uma multidão armada, ele vai à estação ferroviária para recepcionar os vianistas. Quando estes chegaram, com os 20 soldados da polícia de Queimadas, encontraram a estação lotada de oposicionistas armados.

"Passaram a noite [de segunda-feira] em sobressalto. Na terça-feira, dia para a bernarda [para o golpe]… não botaram a cabeça fora. Na quarta, na passagem do trem de carga… meteram-se neles… e foram corridos. Com a fuga das pestes, voltou à cidade a calma (Dantas, p. 248)."

Porém, chegou uma intimação de Salvador, ordenando que ele se retirasse da cidade, pois viria agora uma tropa de 100 homens para tomar conta da localidade. Gonçalves acirra os preparativos, manda escavar trincheiras e avisa que nem um certo presidente: “Se vier, vai ter”. O governo não arriscou.

Antônio Conselheiro e os seus tiveram ótimos professores.

O estado da Bahia era uma gigantesca bomba-relógio, só acumulando energia de detonação, para ser liberada a qualquer momento.

As eleições no Brasil, desde a Independência, sempre tiveram a marca da violência e da fraude. E, no caso da Bahia, a fraude foi tal que, em 1894, se reuniram dois congressos estaduais, um da situação vianista e outro da oposição gonçalvista, cada um num lugar diferente. Jeremoabo era o presidente do congresso da oposição. Quando o governador vianista Rodrigues Lima precisou entrar de licença, Jeremoabo pleiteou assumir o cargo, mas isso lhe foi negado pelo congresso situacionista. Jeremoabo, pensando como um coronel, apela para Prudente, esperando dele a postura de um coronel, dizendo: “Façam isso e aquilo!”

Prudente, entretanto, evitou a armadilha e preferiu seguir a lei, pesando que Viana se afastara do florianismo, respondeu a Gonçalves que a questão, conforme a lei, deveria ser resolvida pelo Legislativo estadual, que decidiu a favor do grupo de Viana. Magoado com a posição de Prudente. O grupo de Gonçalves, mostrando o mais rasteiro personalismo oportunista, anos depois se volta para o florianismo. Numa das cartas de Gonçalves a Jeremoabo, ele, que foi deposto por Floriano, e que a este se opôs ferozmente, chega a dizer que o que faltava à nação era “um homem como Floriano”.

Mais tarde, quando Severino Vieira se indispôs com Luiz Viana, o mesmo Gonçalves, que se dispusera a enfrentá-lo à bala na estação de Vila Nova, passou, todo pressuroso, para o lado dele.

As oligarquias baianas eram bem estruturadas e possuíam uma história longa e cheia de tradições pessoais e familiares. No semiárido, elas viviam em um ambiente rústico, difícil, mas perfeitamente viável, para quem se dispusesse a fazer acordos e ficar do lado do mais forte. A luta pelo poder político e pelas nesgas de terras férteis, agricultáveis ou propícias ao pasto tornava a convivência dessas famílias tumultuosa, abrindo-se para uma sequência infindável de lutas pela terra e, principalmente, pelas fontes de água. A rapidez com que se deu a transição do Império para a República só fez confundir e acirrar ainda mais o quadro. O sertão de Canudos é dominado pelos gonçalvistas.

Foi justamente nessa região que, por volta de 1874, apareceu um homem, vindo do Ceará, que fazia pregações religiosas impressionantes, atraindo uma legião de seguidores, fazendo obras de caridade, construindo e reformando igrejas e cemitérios. Sua pregação era apocalíptica, recheada de conselhos moralistas severos, no estilo do catolicismo popular. Ele se autodenominava “Peregrino”, mas no meio do povo era conhecido como Antônio Conselheiro.

Essa época coincidiu com a criação de uma estrutura de impostos municipais, que tentava adaptar a economia sertaneja, isolada e pouco produtiva, baseada no consumo local de artigos de primeira necessidade, com perfil agropecuário-artesanal, a uma aberta aos mercados maiores e mais distantes no Brasil e no mundo. Isso causaria uma maior presença da burocracia estatal para recolher e gastar os impostos advindos dessas atividades, e, já que não havia uma cultura empreendedora de mercado, como uma opção ao baixo rendimento da economia, que os impostos vinham viabilizar, por meio de investimentos públicos. Daí começa a se ampliar a incompatibilidade entre a primitiva sociedade natural pregada pelo Conselheiro e a versão coronelística da proposta econômica modernizadora das elites do Centro-Sul do país.

Em sua crise pessoal, o Conselheiro, que se adaptou de forma precária aos ritmos e tradições da sociedade imperial, se posicionou decididamente contra a República. Isso pode ser atribuído à cobrança regular de impostos e ao processo de semicapitalismo que se alastrava pelo sertão, rompendo as estruturas socioeconômicas tradicionais de sociedades de transição, herdadas dos períodos colonial, presentes na região.

 

Quanto ao caso das tabuletas de imposto quebradas pelo Conselheiro, eu prefiro seguir a descrição constante no artigo “A importância dos acervos judiciais para a pesquisa em história, um percurso”, escrito pela Dr. Prof.ª Mônica Duarte Dantas e pelo Dr. E Me. Felipe Nicoletti Ribeiro, na revista eletrônica LexCult, v. 4, n. 2, p. 47–50.

Tudo começou quando um grupo invadiu o galpão onde se realizava a feira, na Vila do Soure, em 10 de abril de 1893, instigado pelo comerciante José Honorato de Souza Neto, do grupo vianista. Soure, na comarca de Itapicuru, era área sob a influência de Jeremoabo. Esse grupo se põe a destruir as tabuletas dos impostos. Depois disso, houve ajuntamentos análogos nos dias 17 e 24 daquele mês, em uma ação orquestrada e cada vez mais violenta.

Baseado nas investigações, o Promotor denunciou 33 pessoas pela sedição, embora, mais tarde, o Juiz tenha reduzido esse número a 14, excluindo Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, e a causa disso é:

"Ele estava ausente por ocasião dos primeiros protestos [segundo testemunhos] — chegando à vila, com seus seguidores, quando o movimento já estava em curso —, como agiu de maneira a impedir que as autoridades, entre elas o próprio Juiz de Direito, fossem atacadas pelos “sediciosos”. Quando chegaram as forças repressivas, contudo, ele e seus seguidores se juntaram aos sediciosos em fuga. Daí em diante, o grupo passaria por várias outras vilas da região, inflamando os protestos contra os novos impostos (p. 50)."

Ou seja, segundo essa versão, os conselheiristas foram pegos no meio de um fogo cruzado e empurrados para a confusão, que eles não armaram. Receando represálias — Conselheiro fora preso no Império — fugiram com os envolvidos, para em seguida sofrer um ataque precipitado de uma força policial em Masseté, que foi escorraçada até o ridículo. Aparentemente contaminados pelo incidente, começaram a atacar tabuletas em outras localidades, como no arraial do Bom Jesus e na vila do Amparo. Se é que as últimas denúncias não foram inventadas por gente interessada em manter o Peregrino sob pressão.

Levado a um tribunal sob a presidência do próprio Luís Viana, o comerciante responsável pelo conflito foi absolvido; já os conselheiristas, temerosos, internaram-se nos sertões de Canudos, ainda na primeira metade de 1893.

Posteriormente, um grupo de 80 soldados do Exército foi enviado no encalço dos devotos, mas, de repente, sem explicação, o governador Rodrigues Lima muda de ideia e chama a tropa de volta, sem explicações.

Penso que a causa disso foi que o Conselheiro iria se embrenhar no coração da área sob o domínio do Barão de Jeremoabo. Rodrigues e Viana viram nisso um grande potencial de problemas que aquele “esquisito” poderia criar ao seu desafeto político, e por isso deixaram-no em paz. Canudos/Belo Monte crescia à sombra da insanidade política e moral vigente.

Essa visão também é compartilhada pelo Almirante-de-Esquadra Mario Jorge de Fonseca Hermes.

"O governador Rodrigues Lima obteve autorização do Marechal Floriano Peixoto para enviar 80 militares do Exército em perseguição ao beato. Contudo, ele determinou o retorno da tropa para Serrinha. Cumprira orientação de Luís Viana, que, realmente, mandava no governo, e que entendera ser Antônio Conselheiro… útil aos seus desígnios políticos… naquela região encontravam-se as fazendas do Barão de Jeremoabo e de seus correligionários… formavam a 3ª Região Eleitoral… Luiz Viana imaginava que Conselheiro e seus homens criassem dificuldades aos fazendeiros locais, minando o prestígio de Jeremoabo" (Os militares e a política na República — Canudos: tentativa de uma análise conclusiva, Revista Marítima Brasileira, Serviço de Documentação Geral da Marinha, vol. 121, Nº 1/3, jan–mar, 2002, p. 123).

Ao final, não temos certeza das supostas causas econômicas do início de Canudos. Pesando as informações mais seguras, podemos afirmar com boa dose de certeza que elas não foram motivação da ação dos conselheiristas em Soure, e o que aconteceu nas outras cidades pode muito bem ser fruto de pressão política local sob a redação de jornais pouco independentes ou somente boatos.  

Canudos tornou-se um centro de atração de indivíduos e famílias ao redor, inclusive de outros estados. O Conselheiro logo teve à sua disposição uma força política e militar considerável, menos pelo poder de choque do que pela motivação, o que não impossibilitava uma convivência acordada com os coronéis locais, no esquema da tradicional troca de favores e votos. O problema era que o Conselheiro não queria fazer acordo, e nesse sentido ele se tornava um desafio direto à autoridade de Jeremoabo, nos seus redutos políticos, e, no melhor dos casos, um mau exemplo. Por enquanto, ele era pequeno demais para ser percebido, mas os políticos situacionistas logo descobririam que estavam brincando com fogo.

A situação ficou mais angustiante para Jeremoabo, à medida que a população do arraial assoma milhares de pessoas — talvez em torno de 7 mil —, pois todos ainda se lembravam dos efeitos devastadores da seca de 1877–79, chamada Grande Seca, e a de 1888–1889, a Seca dos Três Oitos. Todos sabiam que, no ano em que houvesse uma seca mais intensa, milhares de pessoas sairiam dali famintas e desesperadas, a saquear as fazendas próximas para sobreviver. Esse temor aparece claramente em Canudos: Cartas para o barão, de Consuelo Novais Sampaio. Para o grupo de Viana, Canudos isso era um presente inesperado.

Em fins de outubro de 1896, porém, foi expedido pelo juiz de direito de Juazeiro, Arlindo Leoni, um telegrama alarmista ao governador Luiz Viana, informando que homens armados de Canudos estavam ameaçando invadir e saquear a cidade, e solicitava proteção. Viana diz que não moveria a polícia por boatos. Por que mexer no que estava dando certo?

Nesse momento, Viana também estava ocupado, atacando, com a sua polícia, os domínios de outros coronéis no centro-sul da Bahia. Mas Leoni insistiu e, no dia 4 de novembro, ele mandou outro telegrama, ainda mais alarmista. Contra a vontade e para 'tirar o juiz da cola', mas sem tropa, Viana apelou para o comandante do 3º Distrito Militar de Salvador, o general Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, pai de Saninha, a esposa de Euclides da Cunha.

O pedido do governador chegou ao Governo Federal, cujo ministro da guerra interino, o general Dionísio Cerqueira, considerando o artigo 6º da Constituição, que ainda não fora regulamentado por lei, ordenou a Sólon que cedesse ao governador as tropas que ele precisasse para manter a ordem pública. Naquele momento, a questão resumia-se a defender a cidade de Juazeiro.

Se nós fizéssemos uma analogia, diríamos que o episódio de Canudos começou como uma pequena ferida, à qual ninguém deu importância, porque a cabeça da sociedade, a elite político-econômica, estava muito atarefada planejando golpes e descumprindo as leis que ela mesma criara. Em meio à luta furiosa pelo poder, a sociedade, nas suas porções mais pobres, embora nem sempre, distantes e abandonadas, foi sistematicamente ignorada, enquanto nelas se desenvolvia uma perigosa inflamação, do ponto de vista da cabeça, ou das elites dirigentes.

De repente, a inflamação cresceu, virou tumor, causando febre e incômodos, mas, ao invés de recorrerem a uma cura duradoura, as elites, com a cabeça só na disputa do poder, começaram a usar o tumor para criar problemas umas às outras. Nesse momento, uma terceira força, um médico maluco (Manuel Vitorino), pensando em ganhar vantagens com a crise, interviu desastradamente, transformando um problema local numa perigosa crise nacional. A sua intervenção apenas agravou o quadro.

Por fim, quando a coisa ameaçou tornar-se uma gangrena, foi inevitável partir para uma solução cirúrgica. O responsável por contratar o cirurgião (Argolo) convida um (Arthur Oscar) pior que o médico maluco que fez um estrago imensurável na sala de cirurgia, contaminando e ferindo, com a sua imperícia, médicos e auxiliares presentes que, aos poucos, contaminaram toda a sociedade, fazendo as pessoas verem em Canudos coisas que nunca estiveram lá. 

Uma nação imprevidente, que só age depois que o mal, evitável, torna o tratamento mais duro inevitável.

Eduardo Simões

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