segunda-feira, 22 de junho de 2026

 


O SONHO ACABOU.

Eduardo Simões

O episódio envolvendo a jovem da ponte do Esqueleto não é apenas um fato digno das folhas policiais. Muito mais do que isso: é UM FATO SÍMBOLO, um FATO SÍNTESE, desse país, de nossa sociedade e do momento que vivemos.
Tudo nesse episódio é escalafobético, estapafúrdio, estupefaciente, destrambelhado, estuporado, alucinógeno, e seja mais qual for o termo esquisito da língua portuguesa que o leitor conseguir achar, para exprimir algo que, hoje, somos quase proibidos de dizer, nesse mundo onde tudo é normal: NÃO É NORMAL!  
Jovens que buscam sentir-se vivos, pondo suas vidas em perigo, nas mãos do primeiro canalha ou cafajeste, ansioso por fazer dinheiro, que lhes proponha uma emoção perigosa. Onde estão os velhos sábios de outrora, os que escaparam do moedor de carne que foi o século XX, para dar conselhos de vida saudáveis a esses jovens e mostrar, pelo seu exemplo de vida e prudentes reflexões, que mantenham os jovens seguros dos precipícios?
Antes, quem não tinha pai nem mãe, nem parente mais velho para lhe orientar, aconselhava-se com os professores, com padres e pastores, com os estranhos nas ruas — era um tempo em que os pais não ficavam ofendidos quando um estranho chamava a atenção de seus filhos que faziam algo errado fora de casa. Eu vivi isso; cresci numa sociedade educadora, afinal havia princípios morais comuns a todos. Fora isso, havia a biografia dos grandes personagens da história que líamos com avidez para aprender a nos safar de problemas análogos que enfrentássemos. A história adotava-nos e educava-nos.
Hoje vemos velhos de 64 anos, casados, com filhos, presos por envolvimento com menores. Não é que os jovens sejam ingratos, eles apenas cansaram de ser decepcionados pelos mais velhos. Embora esse não seja o caso da maioria dos jovens,  os mais velhos desaprenderam a tratar educativamente com os jovens, provavelmente porque já não têm muito que ensinar. Vivem para o trabalho, para o dinheiro, para a conquista de status.
Não que a jovem envolvida no acidente tivesse algum desses tipos de problema, mas como resistir quando tantos ao seu redor os têm, e buscam a sua companhia para viver as emoções que não conseguem expressar, e o jovem muitas vezes não consegue fugir deles. Absorvemos coisas boas e ruins do nosso entorno.
O local em si é simbólico demais! Uma velha ponte ferroviária, construída ao custo de milhões, e que nunca foi utilizada. Isso é falta de planejamento ou a certeza de que governam o povo mais submisso e indiferente do mundo, com datas indicadas para tomar as ruas e dar sinal de que ainda está vivo? Estamos vivendo delas agora. A ponte em questão também tem um nome simbólico: ponte do Esqueleto. O que todos seremos um dia, mas pelo menos sabendo o porquê.
Constatado o desperdício, ou o rombo, o que faz o Governo Federal? Passa, aparentemente, o cuidado com a ponte para o município — um presente de grego cem por cento latino-americano.
O município, a princípio, age com responsabilidade. Faz valas para impedir o acesso a lugar tão perigoso e põe placas. E o que fazem as pessoas? Exatamente o que grande parte dos brasileiros faz quando não tem um guarda por perto: ignora e vai se divertir sobre a ponte — inclusive a morte da jovem Maria não é a primeira. Uma ciclista despencou lá de cima com bicicleta e tudo. Quem vê a ponte, tão estreita e sem amurada de um lado, só pode pensar numa coisa: que criminoso destrambelhado promoveria um passeio ciclístico no local? Mas como o acidente-suicídio-assassinato não causou comoção, pôs-se uma pedra em cima, mesmo porque não é de nossa tradição gastar muito dinheiro com o bem-estar de estranhos ao nosso círculo familiar.
No fatídico dia, havia nada menos que 80 pessoas, fora a jovem, prontas para fazer algo irregular, sabidamente perigoso e contra a lei, descumprindo as determinações de um ente público. Ninguém ali era criança, e se o era, não estava desacompanhada de responsável maior de idade. Conta-se que, antes do fatídico salto, uma criança de 6 (seis) anos saltara — nada demais se considerarmos que, em 2017, o TJ-Rio de Janeiro autorizou a presença de crianças numa exposição de pornografia pesada, desde que acompanhadas pelos pais. A jornada de trabalho de anjo da guarda de criança brasileira está entre as maiores do mundo.
Nenhuma das 80 pessoas que estavam lá naquele dia, nem as dezenas de outras que já pularam daquela ponte, jamais pensou estar entregando a sua vida e a de pessoas que amavam nas mãos de bandidos irresponsáveis, vigaristas baratos, que fariam qualquer coisa para juntar uns tostões. E era tão fácil. Bastava conferir, na internet, ou nos órgãos de defesa do consumidor, as credenciais das empresas que ofereciam o salto, e descobrir que ambas — ‘Entre Cordas’ e ‘Ih Voei’ — eram clandestinas.
Por falar nisso, desde 2014, doze anos, empresas clandestinas oferecem saltos sobre a ponte, e isso não devia ser segredo para ninguém da cidade, pois não é uma estrutura que dê para pôr atrás de um armário. Logo a Prefeitura estava sabendo. Por que não fez nada?
Três homens, três criminosos irresponsáveis, não muito mais velhos do que ela, estavam ali e a prepararam ou a viram se preparar e nada notaram sobre a ausência da corda. A corda não era equipamento de segurança, era simplesmente a atividade, a única coisa que definia se aquilo era rope jump e não um mero salto de uma estrutura. A corda era o ‘esporte’, e ninguém se preocupou com isso, apesar de haver um autoproclamado ‘supervisor de segurança’ completamente fajuto, orientando o trabalho.
Aliás, a presença dos três na delegacia, entrando e prestando depoimento, é simplesmente assustadora e lembra-me muito da reação de vários dos meus alunos diante de qualquer coisa nova que eu levasse para a aula, por mais incomum que fosse, nos últimos anos antes da aposentadoria: indiferença e a mais completa abulia. “Foi uma fatalidade”, diz um sem mostrar a menor emoção. Outro, um mano das quebradas, já bem escolado, só repetia: “Eu não lembro!” Ninguém assume nada nesse país, muito menos a responsabilidade por seus erros. 
Por falar em não assumir responsabilidade. A Prefeitura de Limeira já disse que vai processar o Governo Federal por causa da ponte. Há notícia de que a família, com razão, vai processar a Prefeitura. O Governo Federal diz que a responsabilidade é da Prefeitura. Adultos brincando do joguinho da ‘batata quente’. Para emoldurar todo esse absurdo ‘non sense’ nacional, o Governo Federal disse que vai demolir a ponte do esqueleto. Por que não fizeram isso logo quando viram que as pessoas não iam respeitar as placas de aviso ou quando morreu a primeira pessoa? Será que é a proximidade das eleições?
Resumo da ópera política. Gastou-se milhões para levantar a ponte e agora vamos gastar outros milhões para derrubá-la, sem que tenha servido para nada além de mostrar o quanto somos irresponsáveis e tirar vidas humanas valiosas, sem preço.
Uma jovem enfermeira, que estava na fila de espera, contou em vídeo que os que iam pular estavam tão encharcados de adrenalina que não prestavam atenção em nada. Muito menos na corda, apenas esperando o seu momento, mostrando o quanto havia de inconsciência e espírito de rebanho, ou de moda, indiferente a tudo o mais, nesse episódio. Um caso de loucura coletiva ou retorno à primeira adolescência, quando as crianças, em movimentos de autoafirmação, fazem tudo o que desagrada os adultos, as leis, as autoridades.
Outro detalhe infame desse conjunto maluco de infâmias, maluquices, bizarrias, mas também sintomático, é o roubo do equipamento de filmagem no capacete da jovem, fosse porque é caro, fosse porque mostraria o rosto daqueles que a acudiram embaixo da ponte, e que também são responsáveis pelo assassinato, mostrando muita frieza diante da tragédia, dando-nos a impressão de uma quadrilha de bandidos barra pesada.  
Aconteceu a tragédia. Uma jovem cheia de esperança e sonhos, que poderia ter nos ajudado a melhorar o mundo ou esse país, não estará mais entre nós. Agora é só mais um marco da certeza de que pioramos a cada momento, enquanto nos aproximamos sem freio de um perigoso precipício, onde não faltam doidos querendo que a gente pule.
No momento, estamos muito chocados com a sua morte, mas o que mais me chocou, desde que vi o vídeo pela primeira vez, foi a calma e o quase desinteresse dos criminosos que a atiraram lá de cima quando a viram arrebentar-se ao chão. Os que a arremessaram ficam olhando, abúlicos e sem reação, como quem joga algo para ver se espatifar embaixo. Enquanto isso, o supervisor de segurança olha para baixo com as mãos na cintura. A ausência completa, própria dos psicopatas e dos adultos que não conseguiram superar o seu egocentrismo infantil mais primitivo, de empatia, de cuidado, de respeito, pelo outro (veja abaixo).
Como construiremos uma grande potência, um país rico e próspero, com as pessoas comuns, a gente do povo, pela qual sempre nutrimos tanta esperança, agindo dessa maneira? Como adolescentes e jovens poderão sonhar em segurança, fazendo os seus generosos voos de reforma social para o bem do maior número de pessoas, e sem esses sonhos, onde eles e nós terminaremos?
O país do futuro ficou no passado. O sonho acabou. Está na hora de acordar.



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