quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 


O PAÍS DO CAMINHA NÃO CAMINHA

Eduardo Simões

Uma frase no nosso documento fundador, a carta do escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, chama a atenção ao augurar um futuro próspero do Brasil: “em se plantando, tudo dá”, embora ela não esteja exatamente assim no documento oficial — “Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem.” Um ‘paraíso’.

O espírito e o significado do que é dito são os mesmos e apontam para a ideia de um ambiente farto de riquezas naturais, que o futuro mostrou ser correta. Como é um documento escrito a partir de uma cultura mais aristocrática do que burguesa, em que pese o objetivo comercial da frota, parece ter um viés particularmente extrativista, e nenhuma referência é feita ao trabalho. Aliás, ele poderia até ter acrescentado após essa expressão: “e nem precisa trabalhar muito!”

Ninguém vai ao paraíso com intenção de trabalhar, antes o contrário, e os colonos portugueses acreditaram tanto nisso que tudo fizeram para conseguir pessoas que trabalhassem para eles, na forma de trabalho compulsório dos indígenas e colonos mais pobres, apesar do nome da colônia, absolutamente contrário a essa mentalidade: Terra de Santa Cruz, convenientemente modificado para Brasil.

À medida que a acumulação de capital oriunda das trocas comerciais sobre o pau-brasil e o desenvolvimento dos primeiros engenhos de açúcar começaram a encher os cofres dos seus donos e do estado português, aqueles mais bem-sucedidos começaram a importar mão de obra compulsória africana, criando novas perspectivas de comércio e um ramo altamente rentável: o tráfico de gente.

Cria-se aqui uma elite ociosa — desenvolvida a partir do complexo da rede, uma invenção indígena, com muitos senhores, segundo Gilberto Freyre, fazendo nelas até as suas necessidades mais básicas (ver Casa-grande e senzala). Ociosa, sim, mas política e culturalmente muito influente, a apontar para o resto da nação que uma das principais condições para ser elite no país seria não precisar trabalhar, justo no momento em que o mundo moderno, baseado no trabalho livre e eficiente, começava a se erguer.

Não é de admirar que, em 1822, quando nos tornamos independentes, fôssemos quase tão ricos como os Estados Unidos e, como eles, candidatos a ter um grande peso futuro no concerto das nações. Mas, em 1900, enquanto eles estavam entre as maiores potências do mundo, nós patinhávamos na estagnação, entre os países periféricos, como éramos em 1822 — Jorge Caldeira apresenta um interessante capítulo sobre isso no seu livro História da riqueza do Brasil.

Podemos imaginar o quanto isso gerava de dissonância cognitiva no conjunto dessa mesma elite que promovia (outra fonte de dissonância) a religião católica como a oficial, e ouviu certamente, por uns trezentos anos, recomendações como: “ganharás o teu pão com o suor do teu rosto” e “amai-vos uns aos outros”, enquanto reforçava a ociosidade e a escravidão.

Hoje, quando ouvimos o noticiário nas mídias sociais, percebemos duas coisas: a nossa sociedade, especialmente a nossa elite, não mudou nada a esse respeito, e continua plenamente válida a assertiva antiga que dizia que a ociosidade nunca vem sozinha. Ela está sempre acompanhada pela sua irmã gêmea: a corrupção.

A situação dessa elite colonial ou imperial não deixa de nos dar um certo paralelo com a situação do filho do atual presidente, comprometido até o pescoço no mais escandaloso caso de tráfico de influência, em que, graças à sua condição de ‘filho do presidente’, aparentemente garantiu uma fortuna, para si e para os amigos, facilitando contatos entre estes e o pai poderoso — na Inglaterra os príncipes herdarão a coroa dos pais, quando estes morrerem; aqui, os filhos de presidentes herdam a chave do cofre do Tesouro, sem nem ter que esperar a morte dos genitores. O importante é não trabalhar.

Isso se manifesta também na oposição, quando o principal líder, igualmente envolvido em muita coisa confusa, fez um nome famoso o bastante para eleger a cargos políticos seus quatro filhos, o que lhe garante altos salários, a proximidade dos cofres públicos e nenhuma cobrança por eficiência. Isso não deixa de suscitar uma dúvida legítima: se o atual presidente, com um único filho, faz esse estrago, quanto estrago causará o opositor, com quatro?

As grandes fortunas, aqui, são geradas e asseguradas a servidores públicos, que parasitam o sangue da nação, enquanto acumulam a fama de estar entre os mais caros do mundo e entre os que mais reclamam de seus salários, enquanto asseguram ganhos extras e férias maiores que os outros. Já imaginaram o gênio do Vorcaro e de outros grandes ladrões dos inúmeros escândalos da nossa história trabalhando em coisas úteis e honestas? Em que patamar de progresso não estaríamos?

Há um político conhecido que vendeu chinelos artesanais em feiras públicas para financiar sua faculdade de direito, mas, depois que entrou para a política e fez toda sorte de acordo para ficar sempre com os vencedores, sua vida mudou. Apesar de inúmeras acusações públicas de corrupção, ele não só se elege regularmente, como o seu filho, assim como se tornou um dos homens mais ricos do seu estado, sem criar empregos ou inventar qualquer coisa útil à sociedade. Só mamando nos cofres públicos a cada oito anos e, decerto, traficando influência.

Essa mentalidade nos fez parar no tempo e no espaço, e os seus efeitos já se fazem sentir tão escandalosos quanto a pletora de escândalos que todos os dias jorra dos noticiários. Foi-se o tempo de compararmo-nos com as grandes potências, pois até nossos pobres vizinhos, muito, muito mais carentes de recursos naturais, começam a nos ultrapassar.

Vejam esse caso. Em 1960, o PIB per capita/ano do Chile era de 469 dólares, corrigidos no valor de hoje, enquanto o do Brasil era de 2.603. Em 2026, os indicadores registravam 37.336 para o Chile e 24.428 para o Brasil, em paridade do poder de compra, ambos estimados.

Talvez uma grande sorte nossa seja não ter o Chile colado na nossa fronteira.

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