terça-feira, 22 de maio de 2018

DIÁLOGOS COM SCHUMPETER – 2

(Baseado na História da análise econômica de Joseph A. Schumpeter)



Eduardo Simões



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Algumas reflexões prévias



__ Com uma inteligência muito aguçada e uma cultura fora do comum, Schumpeter é precioso até nas suas notas de rodapé, de onde saltam, aqui e ali, observações imperdíveis, que em geral contestam antigas crenças, em especial as fabricadas no século XVIII, pelos iluministas franceses. Para ressaltar o avanço do conhecimento científico, pelo menos do pensamento crítico, baseado na lógica, ele diz numa nota, na p 32:



“Como ponto de referência [para mostrar o avanço do pensamento crítico no século XIII], escolhemos a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, que exclui a revelação de entre as disciplinas filosóficas, quer dizer de todas as ciências, exceto a teologia sobrenatural... Esse pode ser considerado como o mais antigo e um dos mais importantes passos dados pelo criticismo metodológico na Europa, depois da decadência do mundo greco-romano”.



__ Em seguida Schumpeter passa à análise do conceito de “teoria”, fundamental para distinguir, ao longo dos séculos os avanços e os recuos da compreensão e análise de fatos econômicos; houve observações muito avançadas sobre fenômenos específicos, mas que devem ser consideradas apenas como “descobertas” isoladas, que podem até ter influenciado outras descobertas e teorias posteriores, daquilo que, mesmo não sendo de grande valor em seu conjunto, tem, pela integração lógica e harmônica de vários elementos, um sentido lógico e o status de “teoria”, e teoria científica, uma vez que, para ele, Schumpeter, não há como negar o status de “ciência” à economia.

__ Os argumentos de Schumpeter, na tentativa de explicar o que se deve entender por “teoria”, nem sempre são felizes; um tanto obscuros, repetitivos, e de uma maneira geral se referem a questões que não cabem ser aprofundadas neste artigo, embora aqui e ali deixe escapar alguma observação interessante: como a sua não adesão ao “cientificismo”, ou seja, a submissão da economia aos métodos e abordagens aplicados às ciências naturais, muito em voga na primeira metade do século XX:



“Esse termo [Cientificismo] foi introduzido pelo professor von Hayek, para nomear o erro de copiar-se sem crítica alguma, os métodos das ciências naturais no pressuposto, igualmente acrítico, de que esses métodos tenham aplicação universal e que devam ser seguidos por toda atividade científica” (idem, p 39).



__ A respeito de uma certa similaridade entre os métodos usados pelas ciências naturais e a economia ele faz uma observação interessante:



“Há limites, porém, para esse paralelismo [economia e ciências naturais]... quando os economistas discutem a respeito de experimentação, querem significar algo muito diferente do que comumente se entende por experimentação em laboratório, mas dispõem, por outro lado, de uma fonte de informação que não está ao alcance da física, isto é o amplo conhecimento do homem a respeito do sentido das ações econômicas... quando falamos sobre indivíduos e grupos, nossa fonte de informações... será o conhecimento dos processos psíquicos, conscientes ou inconscientes, que seria absurdo não usar” (p 38-39)



__ Não dá para negar o forte teor weberiano nessa observação, compreensível pelo fato de que ele e Max Weber (1864-1920) terem sido muito próximos (1). Portanto ao contrário dos “clássicos” e, principalmente, “neoclássicos” que tendiam a abordar a economia como uma disciplina neutra, baseada em princípios estritamente lógicos, o que supunha modelos ideais submetidos a uma “racionalidade”, dirigindo as ações humanas, pelo menos no campo da economia – como dizem por aí, para saber se alguém está realmente louco basta saber se ele trata o dinheiro: se o queima com certeza é “caso perdido”. Schumpeter, por seu lado está consciente da precariedade estrutural do fator humano presente na pesquisa econômica, embora mostre uma confiança nas possibilidades reais de conhecimento da sua psicologia, que talvez não seja mais compartilhado no mesmo grau, hoje em dia; mas ao negar à economia uma objetividade na economia semelhante à das ciências naturais, nem por isso fica cego ao subjetivismo, por vezes pueril e anômalo, que pode se imiscuir na economia.



“É necessário que nos acautelemos contra uma ilusão de ótica similar a que tornou os marxistas tão relutantes a usarem termos como preço, custo, moeda, valor dos serviços da terra ou juro equivalente, quando tratam da futura ordem socialista, pois embora esses termos denotem conceitos da lógica econômica geral, parecem, aos socialistas, estar impregnados de significado capitalista, somente porque são usados também nas sociedades capitalistas” (p 40).



__ Outro alerta importante é contra o caráter por vezes difícil, quase “hermético”, do discurso dos economistas – em nosso país se usa o termo “economês” para referir-se a discursos ou textos que ninguém consegue entender, sem falar das inúmeras tentativas,  de nossos Ministros da Fazenda para se tornarem inteligíveis, ou explicar o inexplicável: quanto mais eles explicavam menos as pessoas entendiam –  o que amplia a resistência do cidadão comum a essa ciência, e o deixa, ao povo, mais propenso a seguir líderes populistas cevados de promessas econômicas irrealizáveis, mas com um discurso fácil.    

__ Outro problema ainda é o das alianças espúrias que economistas tenderam a firmar com as elites político-econômicas de seu tempo, que comprometeram, até certo ponto, a intenção geral de tornar a economia numa ciência... respeitável – para Schumpeter, boa parte dessas iniciativas se deve ao “imprevisível”, mas repetitivo padrão de comportamento oriundo da inflamação do ego dos economistas.



“Um exemplo clássico dessa situação foi a aliança da teoria econômica com o liberalismo político do século XIX... esse entendimento foi a causa de relacionar-se por algum tempo o malogro do liberalismo político com o da teoria econômica [ele deve se referir a episódios como a Quebra da Bolsa de 1929 e a ascensão de regimes totalitários no entreguerras]. A esse tempo, muitas pessoas definitivamente odiavam a teoria econômica por pensarem que a sua fundamentação era apoiar um programa político que elas desaprovavam. Essa convicção era reforçada porque os próprios teóricos econômicos... punham o seu aparato analítico a serviço de suas convicções liberais em matéria política... [e assim] os economistas satisfazem a estranha propensão de dedicar-se à política como amadores, mascateando as prescrições políticas, oferecendo-se como filósofos da vida econômica [dando asas à livre especulação], embaraçando-se nos julgamentos de valor [valores burgueses, é claro] que, inevitavelmente, introduziam em suas análises” (p 42)



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Clarificando a questão da “teoria”



__ Não é uma “sacada”, uma intuição, por mais genial que seja, nem mesmo um monte delas, sem qualquer interconexão aparente, que constituem uma “teoria” científica – Schumpeter não gosta do termo, coloca-o entre aspas no seu livro, por achar que este se presta a mal-entendidos, preferindo o de “análise”, que supõe uma apresentação mais integrativa e profunda, como deve ser um relato científico; entretanto ele foi “voto vencido” na evolução da ciência contemporânea, e o termo “teoria” se vulgarizou entre acadêmicos e leigos, com todos os perigos que advém de uma unanimidade, sempre a flertar com a máxima do dramaturgo pernambucano-carioca Nelson Rodrigues (1912-1980) de que “toda unanimidade é burra!”.

__  Portanto, não dá para escapar desse assunto, ainda mais porque do correto entendimento desse termo dependem muitas das afirmações de Schumpeter em sua análise. A apresentação do tema em HAE não me parece clara para o iniciante, que é a quem eu me dirijo preferencialmente, e para não me alongar numa seara que não me atrai nem é a principal razão de ser desse projeto, apresento, de uma maneira esquemática, a moderna noção de teoria científica conforme aparece nos dicionários de filosofia, de Nicola Abbagnano (1901-1990) e José Ferrater Mora (1912-1991).   

__  A teoria científica cumpre várias funções, a primeira e mais simples é a de ser uma “hipótese explicativa”, Schumpeter fala disso, enquanto ressalta seu pouco valor e faz questão de assinalar a resistência que se lhe opôs o físico inglês Isaac Newton (1642/43-1727) (2). Entretanto, é inegável que há espaço para hipóteses numa teoria científica. Para reforçar isso Abbagnano cita as palavras do médico e pesquisador francês Claude Bernard (1813-1878): “O experimentador formula sua ideia [ou hipótese experimental] como uma questão, uma interpretação antecipada da natureza, mais ou menos provável, da qual deduz logicamente consequências que a cada momento compara com a realidade por meio da experiência... o objetivo das hipóteses não é só levar-nos a fazer experiências novas, mas também descobrir fatos novos que não teríamos percebido sem elas” (Abbagnano; 2000; p 952). O grande perigo é a multiplicação de hipóteses, comprometendo a higidez, a coerência do arcabouço teórico.

__ Em segundo lugar, “a teoria [que é um produto da mente do pesquisador] condiciona tanto a observação dos fenômenos quanto o uso de instrumentos de observação” (p 952-53), ou seja, a influência ideológica, das preferências pessoais e/ou sociais, que é mais perceptível nas chamadas “ciências humanas”, como se houvessem outras além destas!

__ Em terceiro lugar, “além de uma parte hipotética, uma teoria científica contém um aparato que permite sua verificação ou confirmação... Bergmann [Gustav Bergmann (1906-1987), fazendo uma analogia com a matemática] disse que uma teoria científica consiste em 1º axiomas [um sistema de declarações indemonstráveis, convencionadas, mas evidentes, no qual se baseia uma determinada teoria; esse sistema partilha a qualidades de ser coerente, completa, independente, pequeno e simples]; 2º teoremas [proposições demonstráveis]; 3º prova [ou demonstração] dos teoremas [mostra que a implicação lógica dos axiomas prevalece mesmo numa mudança de contexto = verificação de uma teoria no mundo real]; 4º definições [ou corolário = afirmação deduzida de uma verdade demonstrada, que equivaleria às conclusões sobre a validade da teoria]... [atenção! Mesmo considerando o quanto a proposta de Bergmann tem de analogia e paralelismo, um teorema não é exatamente a mesma coisa que uma teoria, ela, antes, nos ajuda no sentido de ressaltar que] as modalidades e o grau de prova ou confirmação que uma teoria deve possuir para ser considerada ‘científica’ não são definíveis segundo um critério unificado... a verdade de uma teoria psicológica ou de uma teoria econômica exige um tipo de comprovação completamente diferente do exigido por uma teoria física, visto que as técnicas de verificação são completamente diferentes”(p 953). Abbagnano também encarece, como decorrente das disposições de Bergmann, a necessidade de limitar o número de hipóteses contidas na teoria. Creio que se as pessoas tivessem a dimensão exata do quão difícil é estabelecer e articular os elementos envolvidos numa teoria científica, entrariam mais humildes e flexíveis nos debates acadêmicos, mais dispostos a aprender que a ensinar...

__ “Uma teoria não é necessariamente uma explicação do domínio dos fatos, mas um instrumento de classificação e previsão... A verdade de uma teoria está em sua validade, e a sua validade depende de sua capacidade de cumprir as funções às quais se destina... 1º uma teoria deve constituir um esquema de unificação sistemática de conteúdos diversos...; 2º... deve apresentar um conjunto de meios de representação conceitual e simbólica [uma linguagem] dos dados de observação... o critério ao qual deve satisfazer é o de economia dos meios conceituais, vale dizer, simplicidade lógica; 3º ... deve constituir um conjunto de regras de inferência [que lhe permitam algum grau de previsibilidade a partir dos fatos observados]... a capacidade de previsão de uma teoria é o critério fundamental para avaliá-la” (idem).

__ Ferrater Mora (1912-1991), chama a atenção para a diferença essencial entre uma teoria nas ciências naturais e outra das humanidades: “enquanto nas primeiras a teoria não modifica em princípio a realidade, antes pretende ajustar-se a ela [ou descrevê-la] o mais minuciosamente possível, nas segundas a teoria pode transformar, e quase sempre transforma, a realidade submetida à teorização, pois a teoria é neste caso fruto exclusivo da reflexão humana sobre atividades humanas. E assim uma teoria sobre uma realidade histórica ou social não é algo que permaneça à margem dessa realidade, mas se constitui antes um traço desta [é condicionada pelo período histórico ou pela sociedade assim observada]” (1964; p 775)

__ O físico inglês Stephen Hawking (1942-2018) arremata, reforçando uma das principais características daquilo que se pode chamar teoria científica: “uma teoria é boa se satisfaz dois requisitos: descreve com precisão uma extensa classe de observações e é capaz de realizar predições corretas acerca de resultados de futuras observações... Qualquer teoria física [ou científica] é sempre provisória, no sentido que é apenas uma hipótese, e, portanto, não pode ser provada. Não importa quantas vezes os resultados dos experimentos confirmem a teoria, nunca se estará seguro de que na próxima vez o resultado não a desmentirá. Por outro lado, basta uma única observação em desacordo com as predições da mesma, para que ela seja dada como refutada [bem diferente de certos grupos que clamam o caráter “científico” de sua teoria econômica, justo por não ser nunca refutada, uma vez que se recusam a encarar os “furos” grosseiros, em sua teoria]” (trecho traduzido da Wikipedia em espanhol) – nesse momento eu lembro de uma das frases mais felizes de meu mestre Lauro de Oliveira Lima (1921-2013), num artigo onde estigmatiza a velorização, nas escolas, do “saber sistematizado”: “a ciência, dizia ele, é um cemitério de ideias”. 

__ Para Schumpeter, mesmo reconhecendo as contribuições geniais feitas à análise econômica por inúmeros autores, ele não hesita em afirmar que a vasta maioria não chegou a construir uma teoria econômica científica, na acepção técnica do termo. O primeiro, para ele, a construir um arrazoado de hipóteses e explicações, que poderia ser chamado de uma “teoria” econômica, foi o economista franco irlandês Richard Cantillon (1680-1734) – nisso ele acompanha a outros, como o britânico William Jevons, que afirmou ser o livro de Cantillon, Ensaio sobre a natureza do comércio em geral, de 1755, “o berço da economia política”.

__ Quem diria!     



Notas

1 – O que não impediu desentendimentos um tanto ‘dramáticos’, quase “latinos”, entre eles, como quando no início dos anos 20, aborrecido com a indiferença que Schumpeter aparentava em relação ao sofrimento humano imposto pela Revolução Russa recém-acontecida, Weber retirou-se, resmungando a sapatear, da lanchonete onde se travou o diálogo.

2 – Segundo Abbagnano (2000), na concepção de Aristóteles, o criador do termo, hipótese é “um enunciado ou um conjunto de enunciados que só pode ser comprovado, examinado e verificado indiretamente, por meio de suas consequências. Portanto a característica da Hipótese é que ela não inclui nem garantia de verdade nem a possibilidade de verificação direta” (p 500). Aos poucos, porém, o significado de “hipótese” ganha mais abrangência e peso na filosofia, passando a designar o mesmo que “causa”, dando –lhe uma tonalidade mais metafísica, intolerável, por exemplo, para gente como Newton, que assim se exprimiu: “Até agora, não pude deduzir dos fenômenos [a queda dos objetos ao solo] as razões dessas propriedades da gravidade, e não formulo hipóteses. Tudo o que não se deduz dos fenômenos deve ser chamado hipótese, e as hipóteses, tanto as metafísicas como as físicas, sejam elas de qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental” (p 501). Abbagnano então completa com muita felicidade: “a renúncia de Newton às hipóteses, não mais é que a renúncia à explicação [ inevitável em quem observa fenômenos sociais] em favor da descrição [dos fenômenos naturais]” (p 501-02). No alvo!



Bibliografia

Abbagnano, Nicola; Dicionário de filosofia; trad. Alfredo Bosi – rev. Ivone C. Benedetti; 4ª edição; Martins Fontes; São Paulo; São Paulo; 2000

Bottomore, Tom; Dicionário do pensamento marxista; trad Waltensir Dutra; Zahar; Rio de Janeiro; 2012 – edição digital de 2013

Mora, José Ferrater; Diccionario de Filosofia; 5ª edición; Sudamerica; Buenos Aires; 1964

Schumpeter, Joseph A; História da análise econômica; trad Alfredo Moutinho Reis – José Luís Miranda – Renato Rocha; Fundo de Cultura; Rio de Janeiro – São Paulo – Lisboa; 1964; 3 vols.

Schumpeter, Joseph A; History of economic analysis – introduction of Mark Perlman; Routledge; 2006; UK (online)
BBC ONLINE



Mais uma vez essa história! Ela mostra o quanto as crianças adolescentes e jovens, no Brasil e no mundo estão abandonados, maltratados, vilipendiados pelos adultos, eternos descumpridores de promessas, a começar pela de cuidar daqueles a quem geraram. A culpa disso, aqui no Brasil, é a miopia moral e a ausência de valores sociais sólidos, coerentes com o mundo civilizado, enfim a ausência de modelos sadios dos adultos para os jovens, que se sentem cada vez mais abandonados, mimados ou machucados. Na minha juventude eu ouvia dizer: “não abandone o seu filho, para que um traficante não o adote”, pois a desgraça era quase certa, hoje é a Internet que os está adotando e desgraçando de várias maneiras possíveis, dentro de seu próprio lar: não há mais lugar seguro – naquela época, pelo menos em casa nós estávamos seguros.

E qual é a bandeira do principal grupo de pais mobilizados nesse momento, no Brasil? Fazer aprovar uma lei que obrigue os professores a se calarem dentro de sala de aula, a pretexto de os filhos não se verem propensos a apoiar candidatos e partidos políticos que os pais não querem, nem provocar uma situação que obrigue a eles, os pais, a falar com seus filhos, nem que seja sobre política... no Brasil! Escola Sem Partido: porque desgraça pouca é bobagem!

Papais, mamães, professores e adultos em geral, está na hora, e até já passou, de abrir os olhos, arregaçar as mangas e assumir as suas obrigações, num nível e numa intensidade muito superiores às que foram feitas até agora, porque a mensagem que esses episódios passam é a de que o mundo criado pelos adultos é tão ruim, tão "pesado" que é preferível sair dele o quanto antes, e da pior forma possível. A nossa missão é refazer o mundo, pois nem os jovens, tão autoconfiantes, o aguentam mais.





Polícia investiga grupos no Facebook suspeitos de incitar suicídio de jovens no Brasil

Vinicius Lemos De Cuiabá para a BBC Brasil



A morte trágica de um adolescente de 15 anos, que morava em Goiás e se enforcou em fevereiro deste ano, deu o alerta para a Polícia Civil do Estado sobre a atuação de um grupo online de incentivo ao suicídio nas redes sociais. Outras mortes de adolescentes, que teriam sido encorajadas pelos mesmos perfis online, também são investigadas. De acordo com os investigadores, os casos estariam relacionados a dois grupos de Facebook cujos nomes, por questões de segurança, a BBC Brasil optou por omitir.

__ Uma das páginas foi retirada do ar, a outra continua ativa, apesar de já ter sido temporariamente removida após denúncias. Ambas são apontadas como responsáveis por incentivar jovens a atentar contra a própria vida. Induzimento ao suicídio é crime previsto pelo Código Penal brasileiro: quando o resultado da indução é a morte de alguém, o acusado pode pegar até 6 anos de prisão.

__ De acordo com as investigações, as duas páginas de Facebook possuem o mesmo administrador, um perfil supostamente pertencente a um brasileiro. Juntas, chegaram a somar mais de 43 mil membros. A primeira, que segue ativa, possui, atualmente, 25,6 mil membros.

__ Os líderes dos grupos que incentivam suicídios se apresentam como adolescentes de diversos Estados, entre eles São Paulo, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas. Há também administradores em outras regiões do Brasil, que não foram reveladas pela polícia.

__Por meio de desafios, cuja missão final é atentar contra a própria vida, participantes dos grupos teriam sido induzidos ao suicídio.

__ As tarefas são repassadas aos adolescentes por meio de grupos de WhatsApp, para os quais são convidados os participantes dos grupos de Facebook que se interessam pelos desafios. "Nesta segunda fase, somente aqueles que recebem um link de convite podem entrar. É mais complicado termos informações sobre esses grupos, porque são fechados", afirma a delegada Sabrina Leles, da Delegacia Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC) de Goiás.

__ Entre os desafios estão: invasão a redes sociais e computadores de terceiros, disseminação de fake news e automutilação.

__ "Os grupos dizem que o objetivo deles é fazer piada, contar histórias e apoiar uns aos outros. No entanto, temos provas que mostram que o objetivo é criminoso", diz a delegada.



O jogo



__ Os desafios têm início quando os jovens são chamados para participar dos jogos. Na maioria dos casos, os convites são feitos por meio de mensagens privadas no Facebook, motivadas pela participação em páginas pertencentes aos grupos na rede social.

__ Segundo a Polícia Civil, os grupos investigados têm como figura mais importante o curador, cujo nome não será divulgado pela BBC Brasil. Abaixo dele estão os administradores e depois os moderadores. Cada um possui funções no jogo, que variam da cooptação de jovens à invasão de computadores.

__ Um adolescente que participou do grupo relatou à Polícia Civil que os organizadores se tornam íntimos dos participantes, perguntam sobre questões familiares e relacionamentos amorosos.

__ "Eles pegam nos pontos fracos dos participantes. Dizem que a família não os ama e que os amigos não gostam deles. Depois de um tempo, começam a incutir a ideia de que ninguém gosta do adolescente de verdade e, por isso, seria melhor ele acabar com o sofrimento e se matar, porque todo mundo morre no final. Aconselham o adolescente a 'adiantar o processo'", relata Leles.

Abaixo alguns trechos de bate papos reproduzidos pelo site da BBC em português 



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https://ichef.bbci.co.uk/news/624/cpsprodpb/172C5/production/_101271949_suicidio2.jpg



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É impressionante o número de entradas nos vídeos de desafio na Internet, invariavelmente passam das centenas de milhares, quando não milhões, onde perfeitos idiotas, espertalhões e toda sorte de canalhas aparecem fazendo coisas perigosíssimas ou convidando os jovens a se machucarem, inclusive gravemente, para se tornar uma celebridade ou simplesmente dar fim à sua vida.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Tim Vickery: Thatcherismo abriu as portas da barbárie, que não fecharam até hoje (ampliado em 15/05/18)

Tim Vickery Colunista da BBC Brasil



9 março 2018



https://www.newstatesman.com/sites/default/files/styles/nodeimage/public/blogs_2015/10/rexfeatures_3423889a.jpg?itok=K4w_AxCg





Quatro décadas atrás, Margaret Thatcher iniciava a campanha que não somente a conduziria ao posto de primeira-ministra do Reino Unido, mas também lançaria um modelo que acabou por conquistar o mundo. Os princípios do thatcherismo viraram as certezas globais de ponta-cabeça. E, bem no centro do projeto, havia uma mentira enorme.



Havia uma frase que, lá em 1978, ela repetia e repetia: "Não podemos continuar gastando mais do que estamos ganhando". Mas ela criou uma economia baseada em quase todo mundo fazendo exatamente isso.



Quando ela assumiu o poder, em 1979, o nível de dívida privada (de pessoas e empresas) estava por volta de 60% do PIB britânico. Essa medida começou a ser calculada em 1880. Durante um século, nunca ultrapassou 72%, e ficava na média em 57%.



A partir da chegada de Thatcher, esse índice explodiu, e continuou explodindo posteriormente, no governo de Tony Blair, que em vários sentidos foi o seu herdeiro intelectual. Em 2010, beirou um alucinante 200%.



Esse desenvolvimento representa o triunfo do capital financeiro. Foi uma revolução dos bancos. Thatcher iniciou o processo de desregulamentação do setor. Os bancos passaram a poder fazer tudo que quisessem. E o que fizeram, é claro, foi semear dívida. O sonho do setor financeiro é transformar todos em escravos da dívida. A dívida do cidadão é o patrimônio do banco. E o maior potencial para isso estava no mercado imobiliário.





Thatcher promoveu como nunca antes o sonho da casa própria. E enquanto os preços subiam que nem balões, parecia - pelo menos no curto prazo - uma boa ideia. Mas o que estava por trás do aumento incrível do preço dos imóveis?



A resposta clássica seria que uma casa vale o que o comprador está disposto a pagar. Mas, nesse caso, não vale. Porque ninguém estava comprando, era tudo financiado. Nesse caso, a casa valia o que o banco estava disposto a emprestar - um montante crescente, daí o aumento dos preços. Então, uma casa que antigamente valia um salário médio de três anos de repente passou a valer um de 40 anos.



Mas o aumento do mercado imobiliário consiste somente em parte da revolução de Thatcher. Houve também o enfrentamento à mão de obra organizada.



Depois da Segunda Guerra Mundial, governos no Ocidente promoveram políticas econômicas de emprego pleno. Com sindicatos fortes, a mão de obra ganhava cada vez mais. Depois de três décadas, isso obviamente passou a produzir inflação: uma vez que os trabalhadores recebiam aumentos, a maneira mais fácil para as empresas manterem o lucro era elevando os preços, causando um círculo vicioso.



Thatcher e seus aliados chegaram à conclusão de que era impossível ter uma economia moderna com sindicatos fortes. Leis e tecnologias novas foram usadas para quebrar o poder dos sindicatos, e fábricas foram deslocadas para o terceiro mundo, onde dava para pagar muito menos.



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[O bebê de Margaret! Do outro lado do Atlântico, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve abençoava iniciativas análogas na América, misturando Ayn Rand, von Mises e a maior recessão desde 1929. Disse Paul Krugman, no início da grande crise de 2008: “Para um homem que já foi incrivelmente difícil de decifrar, Alan Greenspan é agora tão claro quanto um escritório vazio do Lehman Brothers”].



No auge do boom, Alan Greenspan, durante muitos anos presidente do Banco Central dos Estados Unidos (Fed), comentou sobre um paradoxo aparente: a produtividade do empregado subia, mas os salários, não. Atribuiu isso ao "trabalhador apavorado", a essa altura, preocupado demais em perder o emprego (e consequentemente a casa) para reivindicar um aumento.



Greenspan falou num tom de triunfo. Mas eis aí a bomba-relógio do projeto Thatcher, Reagan e etc.: como manter o consumo numa época assim? Com a expansão do crédito. Mas como conciliar isso com o aumento tão significativo do preço da moradia? Uma bolha no preço dos imóveis de um lado, salários estagnados e menos segurança de emprego do outro. Desequilíbrio total vira uma questão de tempo.



Chega um momento em que as pessoas não conseguem mais pagar as suas dívidas. Surge o perigo de um calote em massa. O sistema acaba balançando em cima de uma cabeça de pino. Desmoronou em 2008, e parece que até agora ninguém achou uma saída.



Existe um velho ditado no setor bancário: nunca empreste para quem precisa. Na revolução de Thatcher, os bancos deixaram isso de lado. Quando se empresta para quem precisa, o lucro é mais alto. Mas vem com riscos. E os bancos foram semeando dívidas, até quebrarem sobre o peso dos empréstimos tóxicos. Aí entra a velha história: enquanto deu certo, os lucros astronômicos foram distribuídos entre agentes privados. Quando o sistema quebrou, foi a sociedade que pagou o pato, sofrendo com o corte de gastos sociais, numa tentativa fútil de equilibrar as contas.



As consequências disso são terríveis no primeiro mundo - cada vez mais pessoas dormindo nas ruas, por exemplo. No Brasil atual, é simplesmente apavorante. O desequilíbrio entre o preço da moradia e a situação de emprego, a desigualdade histórica, o culto do consumo, a violência urbana…



As portas da barbárie estão abertas. Quatro décadas depois do crescimento do thatcherismo, precisamos com urgência de um novo modelo.





O resultado nos EUA



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Um release do The Guardian online, de dezembro de 2017, diz: "um novo estudo do governo [americano] descobriu que 554,742 pessoas foram expulsas de casa, em uma única noite este ano... a crise não mostra sinais de arrefecimento". O título da matéria é: "O número de sem-teto na América cresce pela primeira vez desde a Grande Depressão"  



https://businessmanagmentnews.files.wordpress.com/2017/11/o-homeless-children-facebook.jpg?w=1024
O site Insight News aponta que uns 4 milhões de jovens  estão morando nas ruas dos Estados Unidos 


http://salamtoronto.ca/wp-content/uploads/2013/01/2007_10_homeless.jpg
O incrível desperdício de capital.


https://i1.wp.com/consciouslifenews.com/wp-content/uploads/2013/10/US-80-percent-poor.jpg
Ninguém é poupado. 


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Não há misericórdia.



O site da BBC em português traz no dia 8 de maio de 2018 o seguinte quadro:


  • - 36% dos universitários pesquisados sofrem de "insegurança alimentar" [comem abaixo do adequado ou passam um ou outro dia sem comer ou sem todas as refeições); nos cursos técnicos, são 42%
  • - 36% dos universitários tinham uma "moradia precária", enquanto o número sobe para 46% no caso de estudantes de cursos técnicos
  • - 9% não tinham um lugar para morar em 2017: dormiam em albergues, em veículos ou em prédios abandonados; nos cursos técnicos, esse número era de 12%








sábado, 5 de maio de 2018

DIÁLOGOS COM SCHUMPETER – 1
(Baseado na História da análise econômica de Joseph A. Schumpeter - revisado em 07/05/18)

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Nenhum princípio ou teorema argumentativo, por mais complexo que seja, é superior a um ser humano, por mais insignificante que este seja; e a consciência disso é o melhor antídoto, na minha opinião, para aquele que tendem a lidar com hipóteses e teorias humanas, seja de qual for a área, como se fossem “revelações divinas”

Eduardo Simões

__ A História da análise econômica, do economista austríaco Joseph Alois Schumpeter, é para os teimosos, para os persistentes, que pacientemente retiram, camada por camada, a grossa, capa de erudição e conhecimento de dados, especialmente nomes – algo que beira à obsessão e sobrecarrega o texto, como se não quisesse se apropriar ou ligar inadequadamente a alguém, um mínimo que fosse, um conceito ou abordagem que pertencesse a outrem, mesmo considerando que, desde a invenção da escrita, creio eu, é praticamente impossível ser absolutamente original no que quer que seja (Schumpeter reconhece isso ao longo do livro) – com que ele envolve a história de uma ciência tão apaixonante, embora a atividade de desvelamento do texto se revele uma fonte de imenso prazer; a erudição de Schumpeter não cansa, embora possa causar algum embaraço a um neófito, uma vez que a última, não sei se a única, tradução disponível em língua portuguesa date de 1964, repleta de expressões pouco corrente hoje em dia e erros de ortografia extravagantes, decorrentes de uma revisão pouco cuidada. Para mim, entretanto, não há dúvida: História da análise econômica faz jus ao elogio que alguns fazem a ele de ser o mais erudito e profundo livro de história que já foi escrito.

“Há, como se pode ver neste livro, muita coisa que é redundante, irrelevante, enigmática, fortemente tendencioso, paradoxal, ou de outra forma inútil e mesmo prejudicial à compreensão. Quando tudo isso, porém, é deixado de lado, ainda resta o suficiente para constituir, por uma ampla margem, a mais construtiva, original, erudita e brilhante contribuição para a história das fases analíticas de nossa disciplina que já foi feita” (Jacob Viner (1892-1970), in Schumpeter; History of economic analysis – with a new introduction of Mark Perlman; Routledge Collection; 2006; UK; p viii  tradução livre).
  
__ Deve-se considerar ainda, caro leitor, que o livro está inacabado em decorrência da morte precoce de Schumpeter, em 8 de janeiro de 1950, nos Estados Unidos, sendo finalizado apenas graças ao empenho de sua esposa, Margareth Boody Schumpeter, ela também falecida antes de terminar a empreitada, finalmente concluída graças ao esforço de vários colegas de trabalho de ambos (ela também era economista), até a obra estar concluída, embora no seu interior abundem notas de partes faltantes, deixadas para uma finalização posterior, que nunca ocorreu...
__ História da análise econômica é assim uma das obras inacabadas mais profundas e marcantes da história do pensamento humano. Que monumento de saber não seria se o seu autor tivesse vivido o suficiente para deixá-la exatamente como a idealizou?

Apologia da história

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Fachada imponente do Theresianum, em Viena.

__ O interesse de Schumpeter pela história foi tão precoce e intenso (1) quanto seu interesse pela matemática, que no ocaso de sua vida o levará a ser fundador e presidente, nos Estados Unidos, da Sociedade de Econometria – alguns falam de seu hábito de transitar pelos corredores acadêmicos agarrado a grossos volumes de biografias diversas, um gênero tão interessante e enriquecedor quanto desprezado em nosso país; logo não é de admirar que no início de HAE ele faz uma crítica àqueles tratados, como os de economia, muito frequentes em sua época, que ignoravam as nuances históricas de sua área:

“A menos que o tratado apresente um mínimo de aspectos históricos [saiba-se lá que “mínimo” é esse], nenhuma parcela de correção, de originalidade, rigor ou elegância evitará uma certa carência de direção e sentido... Isso acontece porque os problemas e os métodos que estão em uso em uma certa época incorporam os resultados e preservam as características do trabalho que foi feito no passado sob condições bem diferentes. A importância e a validade, tanto dos problemas como dos métodos atuais não podem ser entendidos totalmente sem um conhecimento dos problemas e métodos anteriores para os quais são uma (tentativa) de resposta. A análise científica não é... um processo logicamente consistente que se inicia com algumas noções básicas... adicionadas, linearmente, a um conjunto preexistente. Não é também... a descoberta progressiva de uma realidade objetiva [como queriam os positivistas, os empiristas, muito influentes nos meios universitários anglo-saxões da época]... é, antes, uma incessante luta com criações de nosso próprio espírito e o de nossos predecessores e progride – quando o faz – como que serpenteando [há, portanto, recuos, e a economia está eivada deles!], não por um processo lógico, mas pelo impacto inesperado de novas ideias, observações ou necessidades, e também segundo as propensões e temperamentos de novos homens [novas sociedades, novas culturas ou, dito de outro modo, novos paradigmas]. Qualquer tratado que deseje mostrar o estado “presente da ciência”, realmente apresentará métodos, problemas e resultados historicamente condicionados e que têm sentido somente no processo histórico do qual resultam... o estado de qualquer ciência num tempo qualquer implica sua história anterior e não será entendido se não tornar explícita essa história” (Schumpeter; 1964; p 24-25).

__ Ele afirma ainda na página 27 ele afirma que “em Economia... os modernos problemas métodos e resultados não poderão ser satisfatoriamente entendidos sem algum conhecimento de como os economistas chegarão às conclusões que estabelecem”. Algo que aparentemente parece meio “fora de moda” no senso comum geral, afeito apenas aos acontecimentos de curtíssimo prazo, a resultados imediatos. 
__ A história é, portanto, para Schumpeter, um meio indispensável para apercebermo-nos do significado e da direção possível, ou antes das direções possíveis, de um ramo da ciência, se quisermos considerar o caráter aproximativo, portanto estatístico, de todo conhecimento que se pretende científico, racional, como o é a economia, além de explicar o nível de entendimento atual dos fenômenos que pretende deslindar; tudo, aparentemente, bem de acordo com o figurino habitual, “conservador”, daquilo que se convencionou chamar “história”, inaceitável, em seus detalhes, nos dias de hoje, mas perfeitamente compatível com o tempo em que foi escrito: anos 30 e 40 do século passado.
__ Mas que ninguém se engane o novo e o polêmico estão presentes nessa obra daquele que foi chamado de enfant terrible da economia. Partindo da premissa que os acontecimentos históricos se desdobram num continuum, em processos seculares, senão milenares, de maturação, cujas mudanças mal se fazem sentir até estarem firmemente consolidadas no seio das sociedades, e já a caminho para se tornarem outra coisa mais adiante, no tópico seguinte, quando discute a possibilidade de a economia ser uma ciência, Schumpeter faz a seguinte observação:

“Nossa definição original [da ciência ou ramo de ciência, como um esforço de conhecimento sobre questões específicas]... indica a razão porque é impossível, geralmente, datar – ainda que por aproximação de décadas – as origens e até os fundamentos de uma ciência, distinguindo-as do aparecimento de um método particular ou da instituição de uma escola... [Uma] ciência se desenvolve por acréscimos insignificantes, enquanto adquire existência própria, e ascende por meio de pequenos acréscimos, gradualmente diferenciados entre si, sob a influência de condições ambientes e pessoais... a partir de seu substrato de senso comum, e por vezes também de outras ciências... No que se refere à Economia, só a ignorância ou o espírito tendencioso podem admitir como pressuposto que A. Smith, F. Quesnay, Sir William Petty ou quaisquer outros tenham fundado essa ciência, ou que o historiador deva começar seu estudo por algum deles [dou-me aqui a liberdade de divergir um pouco do Mestre,  entendendo que nesse livro ele é um acadêmico se dirigindo a especialistas, que certamente, não precisam tanto de referenciais fora da economia para entender o que se está discutindo, para não falar da especificidade dos debates nesse nível, mas, ao apresentarmos os resultados de pesquisas para leigos, creio que podemos sim fazer uma concessão a "pais" e "escolas", desde que não se perca de vista o caráter acumulativo, contínuo de todo processo de aquisição e descrição de conhecimentos, avanço tecnológico, etc. marcando mais uma vez a importância da História, como uma ferramenta fundamental, indispensável, em todas as áreas do conhecimento]... O conhecimento leigo que diz que as colheitas abundantes estão associadas a preços mais baixos de gêneros alimentícios [como diziam os fisiocratas] ou que a divisão do trabalho aumenta a eficiência do processo produtivo [como pontificava Adam Smith] são obviamente pré-científicas e é absurdo visar tais afirmativas em velhos escritos como se constituíssem descobertas. O instrumental da primeira teoria da oferta e da procura é científico; mas essa realização científica é tão modesta – visto que ciência e senso comum estão muito interligados neste caso – que qualquer afirmação sobre o ponto exato em que se passa de um ao outro se torna necessariamente arbitrária [tão arbitrária como dizer que a ciência econômica começou com este ou aquele autor, o que não é de forma alguma ilegítimo fazer, mas não pode ser absolutizado ou tornado oficial]” (idem; p 30).

__ No parágrafo acima vê-se o quanto Schumpeter chacoalha a crença comum vigente entre liberais, e até marxistas, no Brasil, que de uma maneira geral prestam culto ao “fato” de Adam Smith ser o “fundador” da ciência econômica moderna, em especial da corrente liberal-capitalista, mas outras surpresas nos esperam ao longo do texto dessa obra magnífica, mas gostaria de fechar essa seção com um testemunho pessoal dele sobre o seu apreço à história:

“Se iniciasse novamente os meus estudos de economia e me dissessem que deveria escolher apenas um dos três ramos mencionados [ramos de estudos especialização na economia da época; os outros dois eram a “estatística” e a “teoria econômica”], minha preferência teria recaído sobre a História da Economia, por três razões... Ninguém poderá entender o complexo econômico (2) de qualquer época, a presente inclusive, se não possuir uma visão adequada [seja lá o que isso quer dizer] dos fatos históricos e senso histórico bastante [talvez uma espécie de consciência das mudanças ou do ritmo evolutivo das sociedades]... O relato histórico [na economia] não pode ser puramente econômico, mas, antes, refletirá também os fatos institucionais não econômicos: pois fornece o melhor método para entender como os fatos econômicos e os não econômicos estão relacionados... a maioria dos erros fundamentais frequentemente cometidos em análise econômica são devidos a deficiência de conhecimento histórico, mais do que qualquer outra coisa” (idem p. 34).


Notas
1 – Aluno brilhante, Schumpeter teve o privilégio de fazer sua educação escolar básica na mais prestigiosa e conceituada escola do antigo Império Austro-Húngaro, o Theresianum, de Viena, onde ingressou graças ao prestígio genealógico de seu padrasto – ele ficou órfão de pai aos 4 anos. Hoyos (2001), citando Gottfried Haberler (1900-1995) tem uma visão complementar desse período: “A passagem pelo Theresianum forjou em Schumpeter sua “agradável e às vezes excessiva cortesia e modos da aristocracia do velho mundo”. Também determinou muitos traços de sua personalidade, presentes em momentos posteriores de sua vida, nos quais se nota certa ambiguidade, camuflada por um sentimento de não querer incomodar, de não contrariar de chofre a quem quer que fosse, num equilíbrio bem balanceado de oportunismo e hipocrisia”. Schumpeter era, enfim, um aristocrata da velha escola.
2 – Schumpeter usa o termo “complexo econômico”, adaptando à sua área de conhecimento o conceito de “área cultural”, também traduzida por “traço”, “padrão” ou “complexo cultural”, definido, segundo um blog na internet (http://contraculturacm.blogspot.com.br/), como um “conjunto de traços ou grupo de traços associados, formando um todo funcional; ou ainda um grupo de características culturais interligadas, encontrado em uma área cultural. O complexo cultural é constituído, portanto, de um sistema interligado, interdependente e harmônico, organizado em torno de um foco de interesse central. Cada cultura engloba um número grande e variável de complexos inter-relacionados. Dessa maneira, o complexo cultural engloba todas as atividades relacionadas com o traço cultural. Exemplo: O carnaval brasileiro, que reúne um grupo de traços ou elementos relacionados entre si, ou seja, carros alegóricos, música, dança, instrumentos musicais, desfile, organização etc. A cultura do café, que abrange técnicas agrícolas, instrumentos, meios de transporte, máquinas. O complexo do fumo, entre sociedades tribais, envolvendo cultivo, produto, e os mais variados usos sociais e cerimoniais; o complexo do casamento, da tecelagem caseira etc.” Traduzindo em termos mais próximos diríamos, com as devidas ressalvas, que se assemelha ao tradicional conceito marxista de “modo de produção” ou ao conceito mais moderno de “sistema”. Um todo, definido tanto por um objetivo específico como por uma lei de formação (organização interna), enfim, um “momento” ou “período histórico” de uma sociedade visto pelo ângulo da economia.

Obs: no próximo deixarei a bibliografia consultada)

terça-feira, 1 de maio de 2018


CARTA A KIM KATAGUIRI
(ampliada em 09/05/18)

https://luizmullerpt.files.wordpress.com/2017/07/kata.jpg?w=501&h=286

Sr Kim Kataguiri, saudações.

Sou o professor Eduardo Coelho Simões, da rede pública estadual paulista, em Guaratinguetá, usando do facebook de minha esposa, que conhece um pouco da luta do MBL, e embora me considere de um liberal assumido, como vocês, devo dizer que os senhores estão muito errados acerca do projeto Escola Sem Partido, pelas seguintes razões:
É ANTILIBERAL COM OS PROFESSORES – uma vez que cassa para estes, ainda que parcialmente, um direito político que nasceu do liberalismo, no mundo ocidental, e é a essência do significado do nome “liberal”, que quer dizer “liberdade”, em especial a liberdade de opinião.
É ANTILIBERAL COM OS PAIS – pois desconhece que a atitude de muitos alunos nas escolas, se comportando como esquerdista, é aprendida na família, junto a seus pais, que professam essa crença político-ideológica, e nós podemos até discordar deles, mas não podemos negar-lhes o direito, conforme a mais legítima e límpida teoria liberal, para não falar da mensagem cristã, de ensinarem seus filhos a sua crença política.
MASCARA O MAIS GRAVE PROBLEMA DA INFÂNCIA BRASILEIRA: O ABANDONO - quem, entre os mais velhos, esqueceu que nos anos 1980 éramos o campeão mundial de crianças abandonadas? Será que esse abandono acabou pelo fato de a maioria das crianças viverem hoje sob um abrigo, seja sob a guarda de pais que precisam ser ameaçados para irem à escola pegar as notas de seus filhos, seja nos abrigos precários onde as mas pobres são alojadas? Se crianças de famílias de "direita" se sentem atraídas por professores doutrinadores, emocionalmente imaturos, poder ser porque lhes falta diálogo e atenção em casa, por isso, ao invés de calar os professores esses pais deveriam era estimular mais o diálogo dentro das famílias, em especial os dos senhores pais, os homens, e seus filhos. Senhores, não é vergonhoso participar e até curtir a formação dos próprios filhos.
DESVIA A ATENÇÃO DA SOCIEDADE DAQUELES QUE SÃO OS MAIORES INIMIGOS DAS CRIANÇAS - é relativamente fácil criar constrangimentos aos professores, embora eu não creia que isso vá dar certo, pelo contrário,  por meio de uma lei, e apontá-los como o grande vilão dos descaminhos das crianças de qualquer classe social, mas enquanto a família ESP se esquece que, uma vez encurralados os professores, as crianças que ainda se sentirem sem diálogo adulto dentro de casa irão procurá-lo em outro lugar, fora da escola, e aí fatalmente encontrar-se-ão com traficantes de drogas, rufiões, etc. O professor doutrinador, que já é um desastre, pode ser o menor dos males na vida de uma criança abandonada.   
DIVIDE PERIGOSAMENTE E IRREMEDIAVELMENTE O CORPO ESCOLAR – alunos e professores se dividirão e se atacarão reciprocamente em função de suas simpatias e antipatias político-partidárias, acirradas pelo conteúdo da lei. A quem interessa tão perigosa desunião? Quem vê o nosso instante político e conhece a Bíblia sabe perfeitamente a resposta.
DIVIDE PERIGOSA E IRREMEDIAVELMENTE A COMUNIDADE ESCOLAR – todos procurarão se situar num campo que lhe corresponda de sorte que uns ficarão à “direita”, enquanto outros se colocarão à “esquerda”. Assim, se um grupo de pais, supostamente de direita, começar a pressionar professores supostamente de “esquerda”, os pais de “esquerda” se mobilizarão para constranger a professores supostamente de “direita”, a assim sucessivamente
FACILITA A DOUTRINAÇÃO NOS CURSOS SUPERIORES – ao defender que a escola se torne estritamente conteudista o ESP facilita o trabalho de doutrinação que por ventura haja nos cursos de formação, nas licenciaturas das universidades, quando esse aluno, dispondo apenas de retalhos de conteúdos “técnicos” terá que lidar com a formulação de “teorias”, e a aplicação de seu ramo de conhecimento ou tecnologia num meio social. Este aluno será presa fácil de um professor doutrinador em uma universidade... A melhor alternativa, portanto, é fazer justo o contrário do que propõe a ESP, estimulando os debates nas escolas, cuidando para que estes sejam os mais abrangentes e respeitosos possíveis, dentro de uma pedagogia voltada para a interação e a integração bem ajustada, mas crítica, do indivíduo à sociedade, dando-lhe um firme substrato lógico-conceitual e uma afetividade madura, que lhe permita fazer frente a professores doutrinadores em um curso superior. Pressionados por esse alunos esses mestres doutrinadores terão que mudar...

ENCURRALA TODO O SISTEMA – é bem provável que um professor doutrinador teve a sua formação numa faculdade doutrinadora. Ora, de nada adianta coibir a doutrinação os professores nas escolas se esta não for coibida nas universidades; logos estaremos falando de um projeto análogo para os cursos de licenciatura na Academia. Entretanto, de nada adianta coibir a doutrinação nas universidades se não a coibirmos em sua origem: os partidos políticos de ideologia contrária à nossa; logo esses partidos serão obrigados a cerrar as portas e nós voltaremos ao período mais negro da ditadura recente, tão decantada por alguns defensores da ESP.  
ACIRRA UMA DICOTOMIA ULTRAPASSADA E PERIGOSA – justamente as famosas “esquerda” e “direita”, obrigando a pais, alunos e professores a se acochambrarem num desses dois “espectros” políticos artificiais, com os quais muitos não se veem identificados, e se criará, assim, uma situação de compromissos artificiais: “na falta de mais opções, como existem no mundo real, é melhor ficar neste ou naquele grupo”. Tudo se tornará artificial dentro da escola, como artificial, extemporâneo e danoso é esse projeto. A única coisa real serão os conflitos graves nascidos da aplicação daquele.  
INCENTIVA AINDA MAIS A JÁ COMUM AGRESSÃO VERBAL OU FÍSICA AOS PROFESSORES – dando aos pais e alunos agressores mais um motivo para “partirem para cima”, caso venham a supor que o professor está fazendo a tão odiada como mal conhecida prática de “doutrinação”, visto que é um termo nascido e usado no seio das classes médias; portanto muitos nem entendem direito o que significa, poderão julgar que o termo se refere a tudo aquilo que alguém não gosta de ouvir... Ai de nós professores! Antes; ai do Brasil...!
É ANTIPEDAGÓGICO – uma vez que cria uma dificuldade absolutamente desnecessária para o nosso já deteriorado sistema de ensino, do qual os professores doutrinadores são um sintoma, uma vez que acrescenta às já incontáveis dificuldades da prática docente mais uma: a perda parcial de um direito, pelo simples exercício da profissão. Se o objetivo é destruir de vez a autonomia técnica dos professores, e por no seu lugar autômatos falantes, os senhores estão no caminho certo... para afundar esse país.
É ANTIEDUCACIONAL – uma coisa é alguém se privar de emitir uma opinião por respeito a imaturidade do interlocutor, outra bem diferente é ser forçado a isso por via de lei, pois certamente todos os alunos saberão da lei, se aprovada, e terão mais uma razão para não quererem ser professores no futuro nem respeitar os seus professores atuais, definidos previamente, por esse projeto, como potenciais “corruptores” de menores.
DESEDUCA AOS PAIS E FRAGILIZA A FAMÍLIA – muitos jovens que buscam os pais para entender coisas que ouviram na escola estão, por ventura, querendo criar pontes com genitores ocupados demais em ganhar dinheiro, mas sem tempo para dialogar com os filhos. O ESP tenta artificialmente, pela força bruta da lei, que o problema sequer exista, sem resolver a questão básica da falta de tempo, que alguns pais alegam, para não participar da educação dos filhos. Não será melhor os pais discutirem política e outros problemas do mundo moderno às claras com os filhos, ao invés de simplesmente tentar obrigar os professores a se calarem quanto aos assuntos mais delicados, ainda que existam, só porque a família não quer falar deles? É melhor deixar esses jovens na ignorância, com a curiosidade aguçada, para irem buscar resposta com os corruptos do mundo, para transtorno futuro da família?
IGNORA O PAPEL DA ESCOLA – pois ela é uma instância social que prepara a criança para o seu ingresso na grande sociedade, coisa para o qual a família nem sempre está bem preparada, assim sendo é um absurdo considerá-la apenas como um apêndice da família, imaginando que só exista um tipo de família e uma única ideologia norteando as famílias. Como a escola poderá preparar o educando para a sociedade diversificada, que já existe lá fora, se justo os temas que fazem a sociedade ser diversa forem previamente proibidos? A família pode até ter o direito de alienar o seu filho, mas pode-se querer transformar isso em lei para todas as famílias, bloqueando na escola o acesso a uma informação sadia sobre o assunto?  Os professores são responsáveis pelas escolhas heterodoxas que outras pessoas fazem fora da escola?
IGNORA QUE OS PROFESSORES DOUTRINADORES SÃO UMA MINORIA – muito barulhenta e idiota, mas uma minoria, por que então punir a todos, sem sequer ter feito previamente uma pesquisa sobre o alcance dessa doutrinação? Será o ESP um movimento motivado por fakenews?
IGNORA A NATUREZA AFETIVA DO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM – que o senhor certa vez definiu como apenas “ensinar conteúdos”. Errado; quem ensina só conteúdo é o Google, e nesse sentido aqui desponta uma das maiores críticas ao atual sistema de ensino escolar brasileiro: é estritamente conteudista, ignorando os aspectos afetivos dos atos humanos, inclusive na aquisição de novos conhecimentos e habilidades, como acontecia a 50 ou 60 anos atrás, em uma outra realidade histórica. Quem está dentro do sistema, como eu e muitos colegas que ainda não desanimaram diante de tanto descalabro, sabe que o grande problema em sala de aula hoje, além da superlotação, é o de como motivar os alunos a querer aprender: eles são normais, há recursos, mas a gente não consegue fazer eles se interessarem pelo conteúdo. É aí que está o nó, que conteúdo nenhum consegue desatar. Uma escola que só ensina conteúdo só forma maus profissionais, gente que só sabe cumprir ordens e as cumprem mal.
PROVOCA UMA GROTESCA INVERSÃO DE VALORES – não será mais o ancião, o mestre, a maturidade, o sábio, que orientará o discípulo e velará pelo seu progresso, mas este, ainda que imaturo, insensato, doidivanas, uma pobre criança eivada de preconceitos aprendidos, às vezes, em famílias desajustadas, quem fiscalizará o mestre e o denunciará às autoridades por ter emitido uma opinião, tomada por ele como “doutrinação”. É a desmoralização final da função do professor. Aqueles a quem a Bíblia recomenda a correção, a até a vara, serão os maiores responsáveis pela denúncia e condenação de seus mestres. É o “elogio à loucura”, made in Brasil
BASEIA-SE EM CRITÉRIOS ABSTRATOS E SUBJETIVOS – onde começa e acaba a doutrinação e começa uma opinião válida, uma preleção necessária em virtude de um acontecimento social ou escolar, como fazer uma apresentação absolutamente neutra de conteúdos como de história, filosofia, sociologia, que não podem ser pesados, medidos, de forma a que professor possa dizer, numa acusação: “eu provo que lecionei três quilos, ou três metros, de teoria liberal e três quilos, ou três metros, de teoria marxista”. É possível reconstituir, na tela de um celular todo contexto que deu início à discussão, e se houver edição? A única testemunha, enfim, será o aluno, com a sua imaturidade biopsicológica natural e a carga de preconceitos, senso comum e crença social trazidos de casa. Pare-se a aula, senão a escola toda, e vamos discutir, na delegacia ou num tribunal, se houve doutrinação ou não! ONDE ISSO VAI PARAR? Será que daqui a algum tempo falar de “evolução” será considerado doutrinação? Repetiremos, cem anos depois, o “julgamento do macaco”, do professor John Scopes!
INCENTIVA O DESCUMPRIMENTO DE LEI PELAS CRIANÇAS, CORROMPENDO-AS – pois em vários estados é proibido o uso de celulares em sala de aula por razões não só pedagógicas como de saúde pública – graves sintomas de dependência tecnológica, que já assusta pais responsáveis pelo mundo afora – supondo que a base para o início das ações penais seja pelo menos alguma imagem e áudio de celular, até pouco tempo usado ilegalmente para flagrar e divulgar professores em situações vexaminosas, indiscretas, para curtir nas redes sociais. Agora eles serão para pegar o professor “na palavra”. Legalmente, desta vez?
NÃO ENTENDE NADA SOBRE PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM DE JOVENS E CRIANÇAS – na verdade usa uma abordagem arcaica, no sentido pejorativo, para justificar sua necessidade. Não é porque um monte de criança, insuflada por um energúmeno qualquer, começa a gritar “fora Temer”, “fora Dilma”, que houve, naquela escola, uma reversão de crença nas crianças. Se o sr. Arthur du Val, muito hábil nisso, se infiltrasse entre essas crianças e perguntasse porque elas haviam gritado aquilo, a maioria esmagadora responderia “porque todo mundo está gritando” ou “o professor mandou” etc., como se tudo não passasse de uma “farra”, uma grande festa, perfeitamente compreensível num sistema escolar sufocante e bitolador. Aqueles que se mostrassem convictos decerto diriam: “meus pais me disseram que ele (ou ela) não presta...”
BASEIA-SE EM PREMISSAS DE APRENDIZAGEM FALSAS – se nós professores tivéssemos o poder de, com nossas palavras, fazer mudar o comportamento das crianças, a escola seria um paraíso e a história da humanidade já teria acabado a muito tempo – viveríamos numa situação de equilíbrio social permanente, pacífico e próspero. Se nós tivéssemos o poder, que o ESP diz que nós temos com as crianças, a primeira coisa que com certeza faríamos seria convencê-las a não mais nos mandarem tomar seja lá o que for naquele local tão inadequado e acreditarem que nossas mães são ou foram mulheres honestas. A premissa fundamental, o suposto controle do discurso do professor sobre os alunos, ainda que uma razoável minoria, é totalmente falso, e as pesquisas do grande pesquisador suíço Jean Piaget, mostram isso sobejamente.   
IGNORA PROCESSOS E FATOS SOCIAIS BÁSICOS, GRITANTES – ao afirmarem que a educação das crianças e de exclusividade única das famílias, ignora que as famílias humanas só conseguem existir e se manter mantém em um meio social estável, do qual, agora, o ESP quer isolar as crianças. É a civilização, entendida como comunidade estável, regida por leis, costumes, tradições, etc., que possibilitam a existência das famílias, se não fosse assim seríamos como os animais selvagens, incapazes de constituir família. A família é portanto, profundamente devedora do processo civilizatório, ao mesmo tempo em que o viabiliza, com a ajuda daquela instituição que todos dizem odiar, mas que sem a qual não haveria civilização: o Estado. Sr Kataguiri, se não fosse a obrigatoriedade de sigilo nos eventos criminais ou disciplinares que envolvem crianças, eu poderia lhe narrar com nomes e circunstâncias inúmeras histórias de horror narradas por meus alunos, nos seios de suas famílias, e a história de professores e professoras que buscam de alguma forma libertá-las de uma opressão tão desestabilizante quanto esta. Aliás, se o senhor lesse com atenção os jornais da grande imprensa decerto saberia que as estatísticas apontam para o ambiente familiar como a origem da maioria das agressões sofridas pelas crianças no Brasil, assim como da política de perda relativamente fácil do pátrio poder, levada a cabo nos Estados Unidos, o país que é tradicionalmente a lanterna do liberalismo. Eles certamente fazem isso porque sabem que toda vez que uma família abandona uma criança é o Estado quem deve acolher, que quando uma criança adoece sem recursos, às vezes por imprevidência dos pais, é o Estado quem deve tratá-la, que quando uma criança é abusada é o Estado quem deve salvá-la, punir os agressores e providenciar tratamento, se a família não tem recursos. Não há uma disputa entre Estado e família, isso é uma falsa dicotomia pregada pela ESP, mas antes deve haver uma complementariedade de ações acadêmicas, educativas, preventivas, sob todos os aspectos, em defesa da criança e do jovem, pois a sociedade, tanto quanto a família, é engrandecida quando uma criança se torna um adulto bem-sucedido, da mesma forma que ela sofre, assim como a família, e às vezes até mais do que esta – como nos assassinatos, nos acidentes de trânsito, na imperícia profissional, etc. – toda vez que um menino ou menina fracassa na sua maturação.  
DESCONSIDERA ACINTOSAMENTE AQUELAS QUE MAIS CUIDAM DA EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS NAS NOSSAS FAMÍLIAS: AS MÃES – os homens são a maioria esmagadora e mais ativa daqueles que estão levando adiante, pelo menos publicamente, o projeto da ESP, mas quem for a uma escola pública, nos momentos de reunião de pais, como a entrega de nota e coisas assim, verá que a maioria esmagadora dos presentes são mulheres, mães e parentes. Por que elas não agitam tão ferozmente a bandeira da ESP e não se fazem notar nesse movimento? É porque elas sabem o quão difícil é educar uma criança e secretamente devem sentir muita pena dos professores por terem que enfrentar o que nós enfrentamos, com dezenas de crianças e jovens numa mesma turma. As mães sabem, ainda que intuitivamente, que no momento em que o professor for completamente desmoralizado pelo projeto do ESP, e passarem a ser acusados levianamente de “doutrinação”, o futuro de seus filhos estará definitivamente perdido. As mães são as nossas maiores aliadas nessa luta!
ENTRETANTO... é preciso reconhecer que alguns professores fazem de sua aula palco para uma grotesca doutrinação, um circo para a exibição de sua imaturidade emocional, e sua incapacidade estrutural para ser professor, como aquele... como não dizer... estrupício, que pôs para fora de aula um aluno que ousou assumir a defesa de um candidato. Então que fazer?
1º - É preciso reconhecer nisso um sintoma da falência do atual modelo de ensino, em todas as áreas possíveis – a falência acadêmica já está amplamente demonstrada nos resultados de exames internos e externos.
2º - Episódios como o citado acima mostram o quão baixa é a qualidade do professorado brasileiro provocada tanto pelos baixos salários como pelas péssimas condições de trabalho, para não falar do desprestígio social. É preciso tornar a carreira de professor mais atraente para os jovens mais capazes de todas as classes sociais, promover a categoria, e não pisoteá-la ainda mais, como quer a ESP, e quando isso acontecer essas “tranqueiras” vão sumir das escolas. Os pais que amam seus filhos concordam comigo.
3º - Uma mudança eficaz na escola demanda uma mudança em larga escala em padrões e conceitos vigentes na sociedade, inclusive no seio das famílias, com a descoberta e o resgate prévio dos mais autênticos valores que alicerçam a nossa sociedade, atualmente reduzidos a pó pela busca desenfreada de riqueza, que se assenhorou de todos, inclusive de muitos que sempre fizeram combate em favor dos pobres, contra a corrupção e à concentração de renda. É preciso reconhecer: estamos TODOS muito contaminados.
4º - É preciso repensar o papel da escola como elemento não só informador (conteúdos), mas formador (valores nacionais, republicanos e democráticos), de forma que a escola seja antes de tudo um centro estimulador da socialização e maturidade emocional, aprendida no contato com o seu grupo geracional, além daquela formação prévia que o educando trará de sua família – quem melhor avançou nisso, na minha opinião, foi o modelo finlandês.
5º - Precisamos retornar ao bom caminho das escolas experimentais antigas e recuperar o apreço pela psicologia do desenvolvimento da criança, pela observação científica e meticulosa do comportamento e das necessidades de toda ordem das crianças e dos jovens, para podermos traçar objetivos e métodos de ensino compatíveis com a grau de maturidade de jovens e crianças.
6º - Precisamos envolver todos aqueles que de uma forma ou de outra trabalham no circuito escolar, para que possamos acompanhar e turbinar, desde a formação do professor na universidade até a sua aposentadoria, o seu trabalho com as crianças, de tal sorte que nunca haja empobrecimento da informação ou formação prestadas em sala de aula, nem perda de tempo precioso, por meio de doutrinações fajutas.
7º - Precisamos nos conscientizar de um fato atual grave e corriqueiro: as crianças do Brasil estão sob ataque! Ataque de todo tipo; como o da pornografia onipresente, a indiferença ou o mimo dos genitores, para não falar dos ataques físicos, muitos dos quais redundam em morte, e dos quais a grande imprensa tem dado grande destaque, principalmente aqueles que são praticados por aqueles que têm a obrigação biológica, moral e legal de manter e proteger a criança.
8º - O desvalor da criança no Brasil é tradicional e histórico, e é a causa primeira e última da desvalorização do professor, que o ESP pretende agravar, com graves perda para as mesmas crianças, como vimos acima, apesar do discurso em contrário. A mensagem do ESP para a educação é uma só: “já que não queremos mudar para valer o que está aí, enfrentar os desafios do presente, vamos voltar ao passado, de forma agravada, por meio de uma lei”; afinal se deu certo em 1800, por que não dará certo em 2018?
9º - Tomadas as medidas acima, afastada a assombração do ESP, estabeleçamos concursos e provas de qualificação severíssimas para os futuros professores de forma a deixarmos ao máximo fora do sistema aqueles que não estejam preparados para exercer essa augusta profissão, que um dia, espero ainda estar vivo para vê-lo, será valorizada nesse país, mesmo porque não há outro jeito de sermos um país respeitável.
Sr Kataguiri, eu sei que os jovens não gostam de ler os clássicos e não sabem o que perdem com esse preconceito, mas se o senhor tomar um dos clássicos do liberalismo político, o francês Voltaire, lerá uma das definições mais espetaculares e definitivas do que é a essência do liberalismo, descrita numa frase lapidar: “Não concordo com uma só palavra do que você diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizê-la”. Por que vocês, então, querem cassar a palavra dos professores?
A Bíblia recomenda, das mais variadas formas e em diversos trechos, em especial do Primeiro Testamento, a seguinte máxima de sabedoria: “Menino, ouve as palavras de teu mestre”; já o Escola Sem Partido recomenda: “Menino vigia e denuncia o teu mestre”.
A quem seguiremos? 

Saudações