domingo, 17 de maio de 2026

 

PÍLULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO - 1

É necessário, ou não, que além da filosofia, haja outra doutrina?

Diz 2 Timóteo 3:16: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça.” Ora, a Escritura divinamente inspirada não se enquadra no âmbito das questões filosóficas, visto que estas são produto exclusivo da razão humana. Segue-se, então, que faz sentido que, além das questões filosóficas, exista outra ciência divinamente inspirada. 

Solução: Deve-se dizer: Para a salvação da humanidade, era necessário que, além das questões filosóficas, existisse outra ciência cujo campo a razão humana pudesse analisar, cujo critério fosse a revelação divina, este seria o caso. Isso porque Deus, como o fim para o qual a humanidade se esforça, transcende a compreensão que a razão sozinha pode alcançar. Isaías 64:4 diz: “Deus, ninguém viu o que preparaste para aqueles que te amam, nem mesmo tu.” O fim precisa ser conhecido pela humanidade para que ela possa direcionar seus pensamentos e ações para ele. Portanto, para sua salvação, a humanidade precisava da revelação divina para conhecer o que não podia apreender apenas por meio de sua própria razão humana. Além disso, o que a razão humana sozinha pode compreender sobre Deus também requer revelação divina, visto que, apenas com a razão humana, a verdade de Deus seria conhecida por poucos, após muita análise e com resultados repletos de erros. Contudo, a salvação completa da humanidade depende do conhecimento preciso da verdade de Deus, pois a salvação se encontra em Deus. Assim, para a salvação alcançar a humanidade com mais facilidade e segurança, era necessário que as pessoas fossem instruídas sobre o divino por meio da revelação divina. Disso tudo decorre que, além dos temas filosóficos, resultados da razão, deve haver uma doutrina sagrada, resultante da revelação.

Resposta às objeções: 1. À primeira, deve-se dizer: O homem não deve analisar apenas com suas faculdades naturais o que excede ao seu entendimento; porém, o que o excede foi revelado por Deus para ser aceito pela fé. Por isso, o texto continua (v. 25): “Muitas coisas vos foram mostradas que estão acima dos homens.” A doutrina sagrada se concentra nessas coisas. 2. Sobre o segundo ponto, devemos dizer: diferentes formas de conhecimento correspondem a diferentes ciências. Por exemplo, tanto o astrólogo quanto o físico podem concluir que a Terra é redonda. Mas enquanto o astrólogo deduz isso por meio de algo abstrato, a matemática, o físico o faz por meio de algo concreto, a matéria. Portanto, nada impede que as mesmas coisas se situem no âmbito das questões filosóficas, sendo conhecidas pela simples razão natural, e, ao mesmo tempo, no âmbito de outra ciência cujo modo de conhecimento se dá pela luz da revelação divina. Disso se segue que a teologia, que estuda a doutrina sagrada, é por sua própria natureza distinta da teodiceia, que é considerada parte da filosofia.

A doutrina sagrada é uma ciência?

É preciso dizer: a doutrina sagrada é ciência [na concepção aristotélica de ciência, um pouco diferente da atual]. Existem dois tipos de ciências. 1) Algumas, como a aritmética, a geometria e outras semelhantes, deduzem suas conclusões de princípios evidentes à luz do entendimento natural. 2) Outras, por outro lado, deduzem suas conclusões de princípios evidentes à luz de uma ciência superior. Assim, a perspectiva, que se baseia nos princípios fornecidos pela geometria; ou a música, que se baseia nos fornecidos pela aritmética. Neste último sentido, diz-se que a doutrina sagrada é ciência, visto que extrai suas conclusões de princípios evidentes à luz de uma ciência superior, isto é, a ciência de Deus e dos santos. Assim, da mesma forma que a música aceita os princípios fornecidos pelo matemático, a doutrina sagrada aceita os princípios fornecidos por Deus por meio da revelação.

Resposta às objeções: 1. À primeira, deve-se dizer: os princípios de qualquer ciência são ou autoevidentes ou se reduzem aos fornecidos por uma ciência superior. Estes últimos são os princípios próprios da doutrina sagrada, como já foi dito (solução). 2. À segunda, é preciso dizer: os eventos específicos que aparecem na doutrina sagrada não são tratados como o objetivo principal, mas como exemplos a serem imitados, como ocorre na moral. Ou para declarar a autoridade daqueles homens por meio dos quais a revelação divina, fundamento das Escrituras ou da Sagrada Doutrina, nos foi transmitida.

Nota (dos dominicanos espanhóis)

São Tomás de Aquino adota a afirmação aristotélica, um ditado comum entre os escolásticos, *de ​​​​singularibus non est scientia* [o singular, o específico, não é ciência, coisa difícil de ser entendida hoje, quando muitos, especialmente os marxistas, querem a partir de um único exemplo somente tirar todas as conclusões possíveis ou além], que se refere à ciência propriamente dita, ou ciência especulativa, e não à ciência prática, como indica a resposta ao se referir a exemplos de conduta moral. Contudo, o conteúdo desse ditado fala de singularidade quando, na realidade, a exigência inescapável para a ciência é antes a necessidade. O importante na demonstração científica, característica da teoria aristotélica, é que, partindo de certas verdades presumidas como conhecidas, isto é, de princípios, procede-se num necessário processo dedutivo ao conhecimento de outras verdades, que serão as conclusões. A necessidade é, portanto, um aspecto essencial do processo. Em outras palavras, a inteligibilidade postula um afastamento do contingente e uma proximidade ao necessário. Mas sempre que a singularidade for compatível com a necessidade de alguma forma, a ciência poderá existir, mesmo de realidades singulares. A teologia, ciência da fé que procede da fé, segue e imita o conhecimento de Deus. Mas Deus conhece a si mesmo, e Ele é o único objeto essencial do seu conhecimento. Tudo o mais [a história de Israel ou da Igreja, por exemplo] é apenas um objeto secundário, e somente na medida em que se relaciona com Deus. Os artigos de fé que dizem respeito às criaturas e, dentro delas, às circunstâncias históricas, são objetos de fé apenas na medida em que acrescentam algo a Deus (secundum quod eis aliquid veritatis primae adiungitur: De verit. q.14 a.8 ad 1) [“conforme algo da Verdade Primeira lhes é acrescentado”. O fato de o Antigo Testamento não falar dos dinossauros não tira nem acrescenta nada ao que as Sagradas Escrituras revelam de Deus]. Mas essas pessoas ou eventos, contingentes em si mesmos, possuem algo de eterno, algo de necessário e algo de verdade imutável, na medida em que são afetados pela decisão de Deus e pelo conhecimento de Dele, que delas procede. Diante dos eventos da História Sagrada, São Tomás, mesmo partindo de termos inspirados na epistemologia aristotélica, não se posiciona como Aristóteles. Para ele, a natureza temporal e singular do objeto da fé, enquanto tal, é acidental à própria fé. Os eventos interessam enquanto se relacionam com a Primeira Verdade.

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