PÍLULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO - 1
É necessário, ou não, que além da filosofia,
haja outra doutrina?
Diz 2 Timóteo 3:16: “Toda a Escritura é inspirada
por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a
instrução na justiça.” Ora, a Escritura divinamente inspirada não se
enquadra no âmbito das questões filosóficas, visto que estas são produto
exclusivo da razão humana. Segue-se, então, que faz sentido que, além das
questões filosóficas, exista outra ciência divinamente inspirada.
Solução: Deve-se dizer: Para a salvação da humanidade,
era necessário que, além das questões filosóficas, existisse outra ciência cujo
campo a razão humana pudesse analisar, cujo critério fosse a revelação divina,
este seria o caso. Isso porque Deus, como o fim para o qual a humanidade se
esforça, transcende a compreensão que a razão sozinha pode alcançar. Isaías
64:4 diz: “Deus, ninguém viu o que preparaste para aqueles que te amam, nem
mesmo tu.” O fim precisa ser conhecido pela humanidade para que ela possa
direcionar seus pensamentos e ações para ele. Portanto, para sua salvação, a
humanidade precisava da revelação divina para conhecer o que não podia
apreender apenas por meio de sua própria razão humana. Além disso, o que a
razão humana sozinha pode compreender sobre Deus também requer revelação
divina, visto que, apenas com a razão humana, a verdade de Deus seria conhecida
por poucos, após muita análise e com resultados repletos de erros. Contudo, a
salvação completa da humanidade depende do conhecimento preciso da verdade de
Deus, pois a salvação se encontra em Deus. Assim, para a salvação alcançar a humanidade com mais facilidade e segurança, era necessário que as
pessoas fossem instruídas sobre o divino por meio da revelação divina. Disso
tudo decorre que, além dos temas filosóficos, resultados da razão, deve
haver uma doutrina sagrada, resultante da revelação.
Resposta às objeções: 1. À
primeira, deve-se dizer: O homem não deve analisar apenas com suas faculdades
naturais o que excede ao seu entendimento; porém, o que o excede foi revelado por
Deus para ser aceito pela fé. Por isso, o texto continua (v. 25): “Muitas
coisas vos foram mostradas que estão acima dos homens.” A doutrina sagrada se
concentra nessas coisas. 2. Sobre o segundo ponto, devemos dizer: diferentes
formas de conhecimento correspondem a diferentes ciências. Por exemplo, tanto o
astrólogo quanto o físico podem concluir que a Terra é redonda. Mas enquanto o
astrólogo deduz isso por meio de algo abstrato, a matemática, o físico o faz
por meio de algo concreto, a matéria. Portanto, nada impede que as mesmas
coisas se situem no âmbito das questões filosóficas, sendo conhecidas pela
simples razão natural, e, ao mesmo tempo, no âmbito de outra ciência cujo modo
de conhecimento se dá pela luz da revelação divina. Disso se segue que a
teologia, que estuda a doutrina sagrada, é por sua própria natureza distinta da
teodiceia, que é considerada parte da filosofia.
A doutrina sagrada é uma ciência?
É preciso dizer: a doutrina sagrada é ciência [na concepção aristotélica
de ciência, um pouco diferente da atual]. Existem dois tipos de ciências. 1)
Algumas, como a aritmética, a geometria e outras semelhantes, deduzem suas
conclusões de princípios evidentes à luz do entendimento natural. 2) Outras,
por outro lado, deduzem suas conclusões de princípios evidentes à luz de uma
ciência superior. Assim, a perspectiva, que se baseia nos princípios fornecidos
pela geometria; ou a música, que se baseia nos fornecidos pela aritmética.
Neste último sentido, diz-se que a doutrina sagrada é ciência, visto que extrai
suas conclusões de princípios evidentes à luz de uma ciência superior, isto é,
a ciência de Deus e dos santos. Assim, da mesma forma que a música aceita os
princípios fornecidos pelo matemático, a doutrina sagrada aceita os princípios
fornecidos por Deus por meio da revelação.
Resposta às objeções: 1. À primeira, deve-se dizer: os princípios de
qualquer ciência são ou autoevidentes ou se reduzem aos fornecidos por uma
ciência superior. Estes últimos são os princípios próprios da doutrina sagrada,
como já foi dito (solução). 2. À segunda, é preciso dizer: os
eventos específicos que aparecem na doutrina sagrada não são tratados como o
objetivo principal, mas como exemplos a serem imitados, como ocorre na moral.
Ou para declarar a autoridade daqueles homens por meio dos
quais a revelação divina, fundamento das Escrituras ou da Sagrada Doutrina, nos
foi transmitida.
Nota (dos dominicanos espanhóis)
São Tomás de Aquino adota a afirmação aristotélica, um ditado comum
entre os escolásticos, *de singularibus non est scientia* [o singular, o
específico, não é ciência, coisa difícil de ser entendida hoje, quando
muitos, especialmente os marxistas, querem a partir de um único exemplo somente
tirar todas as conclusões possíveis ou além], que se refere à ciência
propriamente dita, ou ciência especulativa, e não à ciência prática, como
indica a resposta ao se referir a exemplos de conduta moral. Contudo, o
conteúdo desse ditado fala de singularidade quando, na realidade, a exigência
inescapável para a ciência é antes a necessidade. O importante na demonstração
científica, característica da teoria aristotélica, é que, partindo de certas
verdades presumidas como conhecidas, isto é, de princípios, procede-se num
necessário processo dedutivo ao conhecimento de outras verdades, que serão as
conclusões. A necessidade é, portanto, um aspecto essencial do processo. Em
outras palavras, a inteligibilidade postula um afastamento do contingente e uma
proximidade ao necessário. Mas sempre que a singularidade for compatível com a
necessidade de alguma forma, a ciência poderá existir, mesmo de realidades
singulares. A teologia, ciência da fé que procede da fé, segue e imita o
conhecimento de Deus. Mas Deus conhece a si mesmo, e Ele é o único objeto
essencial do seu conhecimento. Tudo o mais [a história de Israel ou da Igreja,
por exemplo] é apenas um objeto secundário, e somente na medida em que se
relaciona com Deus. Os artigos de fé que dizem respeito às criaturas e, dentro
delas, às circunstâncias históricas, são objetos de fé apenas na medida em que
acrescentam algo a Deus (secundum quod eis aliquid veritatis primae adiungitur:
De verit. q.14 a.8 ad 1) [“conforme algo da Verdade Primeira lhes é
acrescentado”. O fato de o Antigo Testamento não falar dos dinossauros não tira
nem acrescenta nada ao que as Sagradas Escrituras revelam de Deus]. Mas essas
pessoas ou eventos, contingentes em si mesmos, possuem algo de eterno, algo de
necessário e algo de verdade imutável, na medida em que são afetados pela
decisão de Deus e pelo conhecimento de Dele, que delas procede. Diante dos
eventos da História Sagrada, São Tomás, mesmo partindo de termos inspirados na
epistemologia aristotélica, não se posiciona como Aristóteles. Para ele, a
natureza temporal e singular do objeto da fé, enquanto tal, é acidental à
própria fé. Os eventos interessam enquanto se relacionam com a Primeira
Verdade.
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