TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 13
ESCOLÁSTICA E
CAPITALISMO
Os processos que
eventualmente fragmentaram o mundo social de São Tomás de Aquino são geralmente
resumidos na expressão 'Ascensão do Capitalismo'. Embora infinitamente complexos,
admitem uma descrição em termos de algumas generalizações amplas que não estão
totalmente erradas. Além disso, embora não tenha havido uma ruptura abrupta, é
possível datar os desenvolvimentos por pelo menos séculos. A iniciativa
capitalista não estava ausente antes, mas a partir do século XIII começou
lentamente a atacar a estrutura das instituições feudais que, por séculos,
acorrentaram, mas também protegeram o agricultor e o artesão. A palavra
“universitas” originalmente não significava nada além de corporação.
Muitas pessoas se matriculavam apenas pelos privilégios legais que a filiação a
tal corporação autônoma acarretava. O significado de universitas litterarum
[conhecimento universal], que atribuímos ao termo Universidade, é de origem
posterior e evolui dos contornos do nosso modelo econômico [supostamente
capitalista].
No final do século XV,
a maioria dos fenômenos que costumamos associar àquela vaga palavra
“capitalismo” já havia surgido, incluindo grandes empresas,
especulação no mercado de ações e de commodities e as “altas
finanças”, aos quais as pessoas reagiam de maneira muito semelhante à
nossa. Mesmo assim, esses fenômenos não eram todos novos. O que era
verdadeiramente inédito era apenas sua importância absoluta e relativa. O
crescimento da empresa capitalista, contudo, criou não apenas novos padrões e
problemas econômicos, mas também uma nova atitude em relação a todos os
problemas. A ascensão da burguesia comercial, financeira e industrial,
naturalmente, alterou a estrutura da sociedade europeia e, consequentemente,
seu espírito ou, se preferir, sua civilização. O ponto mais óbvio disso é que a
burguesia adquiriu poder para afirmar seus interesses.
Tratava-se
de uma classe que enxergava os fatos comerciais sob uma luz e um ângulo
diferentes; uma classe, em suma, que estava envolvida com os negócios e,
portanto, jamais poderia encarar seus problemas com o distanciamento do
escolástico. Mas esse ponto é secundário em importância em relação a outro.
Como vimos na primeira parte deste livro, é essencial perceber que,
independentemente da afirmação de seus interesses, o homem de negócios, à
medida que seu peso na estrutura social aumentava, transmitia à sociedade uma
dose crescente de seu intelecto, assim como o cavaleiro fizera antes dele. Os
hábitos mentais particulares gerados pelo trabalho no escritório, o esquema de
valores que dele emana e a atitude em relação à vida pública e privada que lhe
é característica, disseminaram-se lentamente por todas as classes e por todos
os campos do pensamento e da ação humana.
Os
resultados irromperam na época de transformação cultural que foi tão
curiosamente chamada de Renascimento. Um dos resultados mais importantes foi o
surgimento do intelectual laico e, portanto, da ciência laica. Podemos
distinguir desenvolvimentos de três tipos diferentes. Primeiro, sempre
existiram médicos e advogados leigos; mas, no Renascimento, eles começaram a
suplantar o clero. Em segundo lugar, partindo de suas necessidades e problemas
profissionais, artistas e artesãos leigos — não havia, na realidade, distinção
sociológica entre eles — começaram a desenvolver um acervo de conhecimento
técnico (por exemplo, em anatomia, perspectiva, mecânica) que foi uma
importante fonte da ciência moderna, mas que se desenvolveu fora do âmbito
acadêmico universitário: uma figura como Leonardo da Vinci
ilustrará este ponto; e a figura de Galileu ilustrará outro ponto, a saber,
como esse tipo de desenvolvimento produziu o físico laico. Teve seu análogo na
economia; o empresário e o funcionário público, também partindo como o
artista-artesão de suas necessidades e problemas práticos, começaram a
desenvolver um repertório de conhecimento econômico que será analisado no
próximo capítulo. Em terceiro lugar, havia os humanistas. Profissionalmente,
eram estudiosos clássicos. Seu trabalho científico consistia na edição crítica,
tradução e interpretação dos textos gregos e latinos que se tornaram
disponíveis no século XV e século XVI. Mas eles gostavam de acreditar que o
domínio do grego e do latim tornaria um homem competente em tudo; e isso,
juntamente com sua posição social — também fora das universidades escolásticas
— transformou esses críticos de textos em críticos de homens, costumes, crenças
e instituições, bem como em literatos completos.
Eles não contribuíram, no entanto, para a economia técnica. Para
nós, eles são importantes apenas na medida em que influenciaram a atmosfera
intelectual geral de sua época. A Igreja Católica tinha poucos motivos para se
opor ao médico ou ao advogado leigo em si e, na verdade, não se opôs a eles;
era a patrona mais liberal do artista-artesão, cuja arte, de fato, permaneceu
primordialmente religiosa; empregava humanistas na chancelaria papal e em
outros lugares, e os Papas e Cardeais do Renascimento, alguns dos quais eram
eles próprios humanistas ilustres, incentivavam invariavelmente os estudos
humanísticos. O conflito que surgiu é, portanto, um problema. Pouco ou nada se
sabe sobre a saga de uma nova luz que brilhou sobre o mundo e foi ferozmente
combatida pelas forças das trevas, ou sobre um novo espírito de livre
investigação que os capangas do autoritarismo conservador tentaram em vão
sufocar. Tampouco a nossa compreensão do conflito é facilitada ao confundi-lo
com o fenômeno correlato, mas bastante diferente, da Reforma Protestante — a
revolução intelectual e a revolução religiosa reforçaram-se mutuamente, mas as
suas origens não são as mesmas; não se relacionam numa simples relação de causa
e efeito.
Não
existiu um Novo Espírito do Capitalismo no sentido de que as pessoas
precisariam adquirir uma nova forma de pensar para transformar um mundo
econômico feudal em um mundo capitalista completamente diferente. Assim que
percebemos que o feudalismo puro e o capitalismo puro são criações igualmente
irrealistas de nossa própria mente, o problema de o que teria transformado um
no outro [tão caro aos marxistas] desaparece completamente. A sociedade da
Idade Média continha todos os
germes da sociedade da era capitalista. Esses germes se desenvolveram
gradualmente, cada etapa ensinando sua lição e produzindo um novo incremento de
métodos capitalistas e de “espírito” capitalista. Da mesma forma, não existiu
um Novo Espírito de Livre Investigação cujo surgimento exigisse explicação. A
ciência escolástica da Idade Média continha todos os germes da ciência laica do
Renascimento. E esses germes se desenvolveram lenta, mas firmemente, no
sistema do pensamento escolástico, de modo que os leigos dos séculos XVI e XVII
continuaram, em vez de destruir, o trabalho escolástico.
Isso
se aplica mesmo onde é mais persistentemente negado. No século XIII,
Alberto Magno observou que Roger Bacon experimentava e inventava — ele também
insistia na necessidade de métodos matemáticos mais poderosos — enquanto
Jordanus Nemore teorizava num espírito inteiramente “moderno”. Mesmo o sistema
heliocêntrico de astronomia não foi simplesmente uma
bomba lançada
de fora para o interior da fortaleza escolástica. Ele teve origem na própria fortaleza. Nicolau
Cusanus (1401–1464) era cardeal. E o próprio Copérnico era cônego (embora não
tenha recebido ordens religiosas), doutor em direito canônico, viveu toda a sua
vida em círculos eclesiásticos, e Clemente VII aprovou seu trabalho e desejou
vê-lo publicado.
Isso
não é de todo surpreendente, pois, como vimos, a autoridade da Igreja não era o
obstáculo absoluto à livre pesquisa que se convencionou fazer parecer. A
impressão predominante em contrário deve-se ao fato de que, até recentemente, o
mundo se contentava em aceitar o testemunho dos adversários da Igreja, inspirado
por um ódio irracional e por eventos individuais indevidamente dramatizados.
Durante os últimos vinte anos, aproximadamente, uma opinião mais imparcial vem
ganhando terreno [em alguns círculos ‘modernos’, predominantemente marxistas,
esse preconceito iluminista continua intacto, como ‘prova’ da tese do ‘ópio do
povo’ e da religião como uma ideologia ultrapassada]. Isso é uma sorte para
nós, por facilitar muito a apreciação do desempenho científico-escolástico em
nossa área. Se, então, removermos a camada de parcialidade, o verdadeiro quadro
do conflito se revela sem maiores dificuldades. Era primordialmente político em
sua natureza. Os intelectuais leigos, católicos tanto quanto protestantes,
frequentemente se opunham à Igreja como poder político, e a oposição política
contra uma Igreja se transforma muito facilmente em heresia.
Foi
esse espírito de oposição política e o perigo incidental da heresia que a
Igreja pressentiu — às vezes erroneamente —
nas obras dos intelectuais laicos, e que a fez reagir até mesmo a escritos que
nada tinham a ver com o governo da Igreja ou com a religião, e que teriam
passado despercebidos se tivessem sido publicados por um clérigo de cuja
lealdade política e religiosa a Igreja estivesse confiante. Havia, contudo,
outro ponto de importância limitada, mas, para nós, considerável. Parece que a
profissão científica nem sempre absorve as novidades com avidez. Além disso, os
professores são homens constitucionalmente incapazes de conceber que o outro
possa estar certo. Isso vale para todos os tempos e lugares. Na época de
Galileu, porém, as universidades estavam nas mãos de ordens monásticas, exceto
nos países que se tornaram ou estavam se tornando protestantes.
Essas
ordens acolhiam noviços e prontamente lhes abriam a carreira científica. Mas
não acolhiam o trabalho científico de pessoas que não queriam se juntar a elas:
daí um conflito de interesses entre dois grupos de intelectuais que se opunham
mutuamente. E o ressentimento profissional contra um oponente científico, do
qual todas as épocas oferecem exemplos divertidos, por vezes adquiria uma
conotação nada divertida em circunstâncias nas quais as universidades, embora
nem sempre tivessem a atenção do Papa, sempre tinham a atenção da Inquisição.
Mas isso não significa que esses professores não fizessem nada além de recitar
textos aristotélicos.
Direito e capitalismo
Devido à importância do
complemento financeiro da produção e do comércio capitalistas, o
desenvolvimento do direito e da prática de títulos negociáveis e
de depósitos “criados” oferece talvez a
melhor indicação
que podemos ter para datar a ascensão do capitalismo. Em torno do Mediterrâneo, ambos surgiram ao
longo do século
XIV, embora a negociabilidade não
estivesse totalmente estabelecida antes do século XVI.
Sentido do renascimento.
O “renascimento” do
interesse pelo pensamento e pela arte da Grécia e Roma antigas foi um fator tão
poderoso na vida intelectual daquela época apenas porque as formas antigas
forneciam recipientes convenientes para novas necessidades e significados, até
estas criarem seus próprios recipientes mais adiante. A verdadeira conquista
cultural daquele período não consistiu em recondicionar antigas relíquias.
Pensamento laico
A palavra “laico” foi
escolhida após alguma hesitação. 'Secular' não seria adequado porque deriva
outra conotação da distinção: clero secular — clero regular. 'Ciência leiga'
entra em conflito com o nosso uso do termo leigo (um homem sem formação em método
científico). 'Laicista' transmite a ideia de antagonismo à Igreja (cf., por
exemplo, as expressões 'estado laicista' ou 'laicismo'). Portanto, 'laico' terá
de ser usado para denotar pessoas ou qualquer atividade (científica ou
propagandística) de pessoas que não pertencem às ordens sagradas. O substantivo
será 'laicos'. Há, contudo, uma dificuldade mais séria. Por um lado, o sistema
educacional da Igreja Católica provou ser tão forte que muitos intelectuais
leigos continuaram a ser influenciados por ela. Muitos deles conservaram
hábitos mentais que não diferiam essencialmente dos intelectuais das ordens
sacras. Por outro lado, um número crescente destes últimos renunciou à
fidelidade ao sistema de pensamento escolástico tão completamente quanto
qualquer leigo poderia ter feito: Erasmo de Roterdã (1467-1536) oferece um
exemplo inicial. [Em tudo se nota uma mudança paulatina, por evolução, com suas
fases de transição, e não revolução. A ideia de revolução é primitiva, imatura e egocêntrica, no sentido da epistemologia de Jean Piaget, basicamente
antievolutiva].
Análises com sistemas
econômicos puros
Este problema é
um exemplo típico do que pode ser chamado de Problemas Espúrios, ou seja,
problemas que o próprio analista cria por meio de seu método de procedimento.
Para fins de descrição abreviada, construímos imagens abstratas de ‘sistemas’
sociais às quais atribuímos uma série de características bem definidas para
contrastá-los nitidamente dos demais sistemas. Esse método de Tipos
(logicamente) Ideais (discutido abaixo) tem, naturalmente, suas utilidades,
embora inevitavelmente envolva distorção dos fatos. Mas se, esquecendo a
natureza metodológica dessas construções, colocarmos o Homem Feudal ‘ideal’
frente a frente com o Homem Capitalista ‘ideal’, a transição de um para o outro
apresentará um problema que, no entanto, não tem paralelo na esfera dos fatos
históricos. Infelizmente, Max Weber emprestou o peso de sua grande autoridade a
uma forma de pensar que não tem outra base senão o uso indevido do método dos
Tipos Ideais. Consequentemente, ele se propôs a encontrar uma explicação para
um processo que, com atenção suficiente aos detalhes históricos, se torna
autoexplicativo. Ele encontrou isso no Novo Espírito — isto é, uma atitude
diferente em relação à vida e seus valores — engendrado pela Reforma (A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. por Talcott Parsons, 1930)...
Caso Galileu Copérnico
A subsequente luta em
torno do sistema copernicano de astronomia deve ser brevemente mencionada,
tanto para demonstrar o elemento de verdade na saga tradicional quanto para
reduzi-la às suas verdadeiras dimensões. Nicolau Copérnico (1473–1543) concluiu
seu manuscrito por volta de 1530. Durante décadas, sua ideia se espalhou
discretamente, sem impedimentos. Encontrou, de fato, oposição e até mesmo
ridículo por parte de professores que continuavam a se apegar ao sistema
ptolomaico, mas isso é o que se pode esperar diante de uma nova abordagem...
Foi esse ridículo, e não a Inquisição, que Galileu temeu quando, no final do
século XVI, tornou-se um adepto convicto da teoria de Copérnico. A execução
pela inquisição, em 1600, de outro adepto dessa ideia, Giordano Bruno, não é
prova em contrário, pois ele também sustentava visões puramente teológicas de
natureza herética e, além disso, expressava franco desprezo pela fé cristã. Mas
quando Galileu finalmente decidiu defendê-la (1613 e 1632), a teoria foi de
fato declarada herética por um grupo de conselheiros teológicos da Inquisição —
não, porém, pelo Cardeal Belarmino — e ele foi proibido de defendê-la ou
ensiná-la; quando não cumpriu sua promessa de se submeter, foi forçado a
renunciá-la e preso por quinze dias. A questão não é apenas que, neste caso,
uma teoria puramente física foi considerada teologicamente repugnante e que seu
defensor científico sofreu por isso, mas também que tal ocorrência era uma
possibilidade sempre presente em uma época que interpretava as escrituras mais
ou menos literalmente. Este é o elemento de verdade na saga. Mas é claro que o
caso foi bastante excepcional; para a maior parte do trabalho científico, essa
possibilidade praticamente não existia. Além disso, o caso de Galileu foi
complicado por sua impulsividade e seu infeliz talento para antagonizar
pessoalmente pessoas que estavam em posição de expressar seu ressentimento. O
caso do próprio Copérnico, e de fato toda a história da trajetória de sua
teoria até 1613, sugere que uma abordagem mais diplomática poderia ter evitado
o processo judicial.
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