domingo, 17 de maio de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 13

ESCOLÁSTICA E CAPITALISMO

Os processos que eventualmente fragmentaram o mundo social de São Tomás de Aquino são geralmente resumidos na expressão 'Ascensão do Capitalismo'. Embora infinitamente complexos, admitem uma descrição em termos de algumas generalizações amplas que não estão totalmente erradas. Além disso, embora não tenha havido uma ruptura abrupta, é possível datar os desenvolvimentos por pelo menos séculos. A iniciativa capitalista não estava ausente antes, mas a partir do século XIII começou lentamente a atacar a estrutura das instituições feudais que, por séculos, acorrentaram, mas também protegeram o agricultor e o artesão. A palavra “universitas” originalmente não significava nada além de corporação. Muitas pessoas se matriculavam apenas pelos privilégios legais que a filiação a tal corporação autônoma acarretava. O significado de universitas litterarum [conhecimento universal], que atribuímos ao termo Universidade, é de origem posterior e evolui dos contornos do nosso modelo econômico [supostamente capitalista].

No final do século XV, a maioria dos fenômenos que costumamos associar àquela vaga palavra “capitalismo” já havia surgido, incluindo grandes empresas, especulação no mercado de ações e de commodities e as “altas finanças”, aos quais as pessoas reagiam de maneira muito semelhante à nossa. Mesmo assim, esses fenômenos não eram todos novos. O que era verdadeiramente inédito era apenas sua importância absoluta e relativa. O crescimento da empresa capitalista, contudo, criou não apenas novos padrões e problemas econômicos, mas também uma nova atitude em relação a todos os problemas. A ascensão da burguesia comercial, financeira e industrial, naturalmente, alterou a estrutura da sociedade europeia e, consequentemente, seu espírito ou, se preferir, sua civilização. O ponto mais óbvio disso é que a burguesia adquiriu poder para afirmar seus interesses.

Tratava-se de uma classe que enxergava os fatos comerciais sob uma luz e um ângulo diferentes; uma classe, em suma, que estava envolvida com os negócios e, portanto, jamais poderia encarar seus problemas com o distanciamento do escolástico. Mas esse ponto é secundário em importância em relação a outro. Como vimos na primeira parte deste livro, é essencial perceber que, independentemente da afirmação de seus interesses, o homem de negócios, à medida que seu peso na estrutura social aumentava, transmitia à sociedade uma dose crescente de seu intelecto, assim como o cavaleiro fizera antes dele. Os hábitos mentais particulares gerados pelo trabalho no escritório, o esquema de valores que dele emana e a atitude em relação à vida pública e privada que lhe é característica, disseminaram-se lentamente por todas as classes e por todos os campos do pensamento e da ação humana.

Os resultados irromperam na época de transformação cultural que foi tão curiosamente chamada de Renascimento. Um dos resultados mais importantes foi o surgimento do intelectual laico e, portanto, da ciência laica. Podemos distinguir desenvolvimentos de três tipos diferentes. Primeiro, sempre existiram médicos e advogados leigos; mas, no Renascimento, eles começaram a suplantar o clero. Em segundo lugar, partindo de suas necessidades e problemas profissionais, artistas e artesãos leigos — não havia, na realidade, distinção sociológica entre eles — começaram a desenvolver um acervo de conhecimento técnico (por exemplo, em anatomia, perspectiva, mecânica) que foi uma importante fonte da ciência moderna, mas que se desenvolveu fora do âmbito acadêmico universitário: uma figura como Leonardo da Vinci ilustrará este ponto; e a figura de Galileu ilustrará outro ponto, a saber, como esse tipo de desenvolvimento produziu o físico laico. Teve seu análogo na economia; o empresário e o funcionário público, também partindo como o artista-artesão de suas necessidades e problemas práticos, começaram a desenvolver um repertório de conhecimento econômico que será analisado no próximo capítulo. Em terceiro lugar, havia os humanistas. Profissionalmente, eram estudiosos clássicos. Seu trabalho científico consistia na edição crítica, tradução e interpretação dos textos gregos e latinos que se tornaram disponíveis no século XV e século XVI. Mas eles gostavam de acreditar que o domínio do grego e do latim tornaria um homem competente em tudo; e isso, juntamente com sua posição social — também fora das universidades escolásticas — transformou esses críticos de textos em críticos de homens, costumes, crenças e instituições, bem como em literatos completos.

Eles não contribuíram, no entanto, para a economia técnica. Para nós, eles são importantes apenas na medida em que influenciaram a atmosfera intelectual geral de sua época. A Igreja Católica tinha poucos motivos para se opor ao médico ou ao advogado leigo em si e, na verdade, não se opôs a eles; era a patrona mais liberal do artista-artesão, cuja arte, de fato, permaneceu primordialmente religiosa; empregava humanistas na chancelaria papal e em outros lugares, e os Papas e Cardeais do Renascimento, alguns dos quais eram eles próprios humanistas ilustres, incentivavam invariavelmente os estudos humanísticos. O conflito que surgiu é, portanto, um problema. Pouco ou nada se sabe sobre a saga de uma nova luz que brilhou sobre o mundo e foi ferozmente combatida pelas forças das trevas, ou sobre um novo espírito de livre investigação que os capangas do autoritarismo conservador tentaram em vão sufocar. Tampouco a nossa compreensão do conflito é facilitada ao confundi-lo com o fenômeno correlato, mas bastante diferente, da Reforma Protestante — a revolução intelectual e a revolução religiosa reforçaram-se mutuamente, mas as suas origens não são as mesmas; não se relacionam numa simples relação de causa e efeito.

Não existiu um Novo Espírito do Capitalismo no sentido de que as pessoas precisariam adquirir uma nova forma de pensar para transformar um mundo econômico feudal em um mundo capitalista completamente diferente. Assim que percebemos que o feudalismo puro e o capitalismo puro são criações igualmente irrealistas de nossa própria mente, o problema de o que teria transformado um no outro [tão caro aos marxistas] desaparece completamente. A sociedade da Idade Média continha todos os germes da sociedade da era capitalista. Esses germes se desenvolveram gradualmente, cada etapa ensinando sua lição e produzindo um novo incremento de métodos capitalistas e de “espírito” capitalista. Da mesma forma, não existiu um Novo Espírito de Livre Investigação cujo surgimento exigisse explicação. A ciência escolástica da Idade Média continha todos os germes da ciência laica do Renascimento. E esses germes se desenvolveram lenta, mas firmemente, no sistema do pensamento escolástico, de modo que os leigos dos séculos XVI e XVII continuaram, em vez de destruir, o trabalho escolástico.

Isso se aplica mesmo onde é mais persistentemente negado. No século XIII, Alberto Magno observou que Roger Bacon experimentava e inventava — ele também insistia na necessidade de métodos matemáticos mais poderosos — enquanto Jordanus Nemore teorizava num espírito inteiramente “moderno”. Mesmo o sistema heliocêntrico de astronomia não foi simplesmente uma bomba lançada de fora para o interior da fortaleza escolástica. Ele teve origem na própria fortaleza. Nicolau Cusanus (1401–1464) era cardeal. E o próprio Copérnico era cônego (embora não tenha recebido ordens religiosas), doutor em direito canônico, viveu toda a sua vida em círculos eclesiásticos, e Clemente VII aprovou seu trabalho e desejou vê-lo publicado.

Isso não é de todo surpreendente, pois, como vimos, a autoridade da Igreja não era o obstáculo absoluto à livre pesquisa que se convencionou fazer parecer. A impressão predominante em contrário deve-se ao fato de que, até recentemente, o mundo se contentava em aceitar o testemunho dos adversários da Igreja, inspirado por um ódio irracional e por eventos individuais indevidamente dramatizados. Durante os últimos vinte anos, aproximadamente, uma opinião mais imparcial vem ganhando terreno [em alguns círculos ‘modernos’, predominantemente marxistas, esse preconceito iluminista continua intacto, como ‘prova’ da tese do ‘ópio do povo’ e da religião como uma ideologia ultrapassada]. Isso é uma sorte para nós, por facilitar muito a apreciação do desempenho científico-escolástico em nossa área. Se, então, removermos a camada de parcialidade, o verdadeiro quadro do conflito se revela sem maiores dificuldades. Era primordialmente político em sua natureza. Os intelectuais leigos, católicos tanto quanto protestantes, frequentemente se opunham à Igreja como poder político, e a oposição política contra uma Igreja se transforma muito facilmente em heresia.

Foi esse espírito de oposição política e o perigo incidental da heresia que a Igreja pressentiu — às vezes erroneamente — nas obras dos intelectuais laicos, e que a fez reagir até mesmo a escritos que nada tinham a ver com o governo da Igreja ou com a religião, e que teriam passado despercebidos se tivessem sido publicados por um clérigo de cuja lealdade política e religiosa a Igreja estivesse confiante. Havia, contudo, outro ponto de importância limitada, mas, para nós, considerável. Parece que a profissão científica nem sempre absorve as novidades com avidez. Além disso, os professores são homens constitucionalmente incapazes de conceber que o outro possa estar certo. Isso vale para todos os tempos e lugares. Na época de Galileu, porém, as universidades estavam nas mãos de ordens monásticas, exceto nos países que se tornaram ou estavam se tornando protestantes.

Essas ordens acolhiam noviços e prontamente lhes abriam a carreira científica. Mas não acolhiam o trabalho científico de pessoas que não queriam se juntar a elas: daí um conflito de interesses entre dois grupos de intelectuais que se opunham mutuamente. E o ressentimento profissional contra um oponente científico, do qual todas as épocas oferecem exemplos divertidos, por vezes adquiria uma conotação nada divertida em circunstâncias nas quais as universidades, embora nem sempre tivessem a atenção do Papa, sempre tinham a atenção da Inquisição. Mas isso não significa que esses professores não fizessem nada além de recitar textos aristotélicos.

Notas

Direito e capitalismo

Devido à importância do complemento financeiro da produção e do comércio capitalistas, o desenvolvimento do direito e da prática de títulos negociáveis ​​e de depósitos criados oferece talvez a melhor indicação que podemos ter para datar a ascensão do capitalismo. Em torno do Mediterrâneo, ambos surgiram ao longo do século XIV, embora a negociabilidade não estivesse totalmente estabelecida antes do século XVI.

 

Sentido do renascimento.

O “renascimento” do interesse pelo pensamento e pela arte da Grécia e Roma antigas foi um fator tão poderoso na vida intelectual daquela época apenas porque as formas antigas forneciam recipientes convenientes para novas necessidades e significados, até estas criarem seus próprios recipientes mais adiante. A verdadeira conquista cultural daquele período não consistiu em recondicionar antigas relíquias.

 

Pensamento laico

A palavra “laico” foi escolhida após alguma hesitação. 'Secular' não seria adequado porque deriva outra conotação da distinção: clero secular — clero regular. 'Ciência leiga' entra em conflito com o nosso uso do termo leigo (um homem sem formação em método científico). 'Laicista' transmite a ideia de antagonismo à Igreja (cf., por exemplo, as expressões 'estado laicista' ou 'laicismo'). Portanto, 'laico' terá de ser usado para denotar pessoas ou qualquer atividade (científica ou propagandística) de pessoas que não pertencem às ordens sagradas. O substantivo será 'laicos'. Há, contudo, uma dificuldade mais séria. Por um lado, o sistema educacional da Igreja Católica provou ser tão forte que muitos intelectuais leigos continuaram a ser influenciados por ela. Muitos deles conservaram hábitos mentais que não diferiam essencialmente dos intelectuais das ordens sacras. Por outro lado, um número crescente destes últimos renunciou à fidelidade ao sistema de pensamento escolástico tão completamente quanto qualquer leigo poderia ter feito: Erasmo de Roterdã (1467-1536) oferece um exemplo inicial. [Em tudo se nota uma mudança paulatina, por evolução, com suas fases de transição, e não revolução. A ideia de revolução é primitiva, imatura e egocêntrica, no sentido da epistemologia de Jean Piaget, basicamente antievolutiva].

Análises com sistemas econômicos puros

 Este problema é um exemplo típico do que pode ser chamado de Problemas Espúrios, ou seja, problemas que o próprio analista cria por meio de seu método de procedimento. Para fins de descrição abreviada, construímos imagens abstratas de ‘sistemas’ sociais às quais atribuímos uma série de características bem definidas para contrastá-los nitidamente dos demais sistemas. Esse método de Tipos (logicamente) Ideais (discutido abaixo) tem, naturalmente, suas utilidades, embora inevitavelmente envolva distorção dos fatos. Mas se, esquecendo a natureza metodológica dessas construções, colocarmos o Homem Feudal ‘ideal’ frente a frente com o Homem Capitalista ‘ideal’, a transição de um para o outro apresentará um problema que, no entanto, não tem paralelo na esfera dos fatos históricos. Infelizmente, Max Weber emprestou o peso de sua grande autoridade a uma forma de pensar que não tem outra base senão o uso indevido do método dos Tipos Ideais. Consequentemente, ele se propôs a encontrar uma explicação para um processo que, com atenção suficiente aos detalhes históricos, se torna autoexplicativo. Ele encontrou isso no Novo Espírito — isto é, uma atitude diferente em relação à vida e seus valores — engendrado pela Reforma (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. por Talcott Parsons, 1930)...

Caso Galileu Copérnico

A subsequente luta em torno do sistema copernicano de astronomia deve ser brevemente mencionada, tanto para demonstrar o elemento de verdade na saga tradicional quanto para reduzi-la às suas verdadeiras dimensões. Nicolau Copérnico (1473–1543) concluiu seu manuscrito por volta de 1530. Durante décadas, sua ideia se espalhou discretamente, sem impedimentos. Encontrou, de fato, oposição e até mesmo ridículo por parte de professores que continuavam a se apegar ao sistema ptolomaico, mas isso é o que se pode esperar diante de uma nova abordagem... Foi esse ridículo, e não a Inquisição, que Galileu temeu quando, no final do século XVI, tornou-se um adepto convicto da teoria de Copérnico. A execução pela inquisição, em 1600, de outro adepto dessa ideia, Giordano Bruno, não é prova em contrário, pois ele também sustentava visões puramente teológicas de natureza herética e, além disso, expressava franco desprezo pela fé cristã. Mas quando Galileu finalmente decidiu defendê-la (1613 e 1632), a teoria foi de fato declarada herética por um grupo de conselheiros teológicos da Inquisição — não, porém, pelo Cardeal Belarmino — e ele foi proibido de defendê-la ou ensiná-la; quando não cumpriu sua promessa de se submeter, foi forçado a renunciá-la e preso por quinze dias. A questão não é apenas que, neste caso, uma teoria puramente física foi considerada teologicamente repugnante e que seu defensor científico sofreu por isso, mas também que tal ocorrência era uma possibilidade sempre presente em uma época que interpretava as escrituras mais ou menos literalmente. Este é o elemento de verdade na saga. Mas é claro que o caso foi bastante excepcional; para a maior parte do trabalho científico, essa possibilidade praticamente não existia. Além disso, o caso de Galileu foi complicado por sua impulsividade e seu infeliz talento para antagonizar pessoalmente pessoas que estavam em posição de expressar seu ressentimento. O caso do próprio Copérnico, e de fato toda a história da trajetória de sua teoria até 1613, sugere que uma abordagem mais diplomática poderia ter evitado o processo judicial.


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