segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 38


O passageiro da agonia

Não há documentos, entrevistas ou qualquer relato que nos esclareça o porquê do aparente frenesi do Coronel Moreira César ao chegar em terras baianas. Se é que houve, pois os observadores presentes são unânimes em constatar que, apesar da pressa aparente — ou seria a eficiência do deslocamento? —, tudo corria em ordem, disciplina e calma sob o seu comando.

Será que essa pressa foi inventada por aqueles que queriam apresentá-lo como um desvairado?

Alguns criticam o coronel César por não ter se avistado com os chefes militares das outras expedições, perdendo informações que poderiam ser “vitais”; mas vamos pensar melhor:

a) O Tenente Pires Ferreira nem conseguiu chegar perto de Canudos e, embora tenha feito algumas observações técnicas interessantes, ignoradas, ele é também autor de um espalhafato, ao dizer que com mais cem homens, teria ido a Canudos e resolvido tudo. Ele participou da expedição de Moreira César, que certamente tirou dele tudo o que interessava.

O Tenente Ferreira não é político, como Febrônio, embora Gonçalves o chame de “amigo”. Seu relato é objetivo e ele viu a precariedade das armas e do modo de combater dos canudenses, daí deduziu que seria possível uma ação contundente, mesmo com uma pequena força. E ele estava parcialmente correto, contanto que não fosse uma força de só  200 homens.

b) O Major Febrônio de Brito voltou sem ver Canudos. Ele mostrou pouca habilidade em lidar com as questões políticas e com o abastecimento da coluna. Recuou assustado, após perder somente 1,6% de sua força, dando à sua retirada a conotação de uma fuga. Depois, ele passou a confrontar furiosamente o governador. Moreira César seria louco se buscasse conversar com ele, arriscando o apoio do governador, o principal fornecedor de mantimentos.

c) Efetuemos uma comparação: Pires Ferreira perdeu dez homens e chegou a pouco mais de 100 km de Canudos. Febrônio também perdeu 10 e chegou talvez a cerca de 6 km de Canudos. Arthur Oscar e Savaget, à frente de duas brigadas independentes, chegaram a Canudos com centenas de mortos e feridos. Quantos pereceram da expedição de Moreira César antes de chegar a Canudos? Dois. Ele mostrou habilidade tática e surpreendeu os canudenses.

Há, sobre isso, mais um detalhe: os jornais O Paiz e Gazeta de Notícias, quando narraram o avanço da 3ª Expedição, projetaram o ataque para 24 de fevereiro. Ora, o ataque só aconteceu em 3 de março. Será que ele acampou a uma curta distância de Canudos e ficou lá, preparando a tropa, dando uma falsa ideia aos canudenses e aos florianistas infiltrados de que ele não atacaria, para então pegar a todos de surpresa? Como de fato ele pegou.

A chegada de Moreira César também causou apreensão entre os oposicionistas. Os gonçalvistas lembravam-se de sua atuação na deposição de Gonçalves, em 1891. Um amigo do barão, Ubaldo da Silva, que morava no Rio de Janeiro, escreveu-lhe uma carta em 15 de fevereiro de 1897, na qual diz: 

"Para dar cabo de Antônio Conselheiro… não era preciso mandar aí o coronel Moreira César, homem… sanguinário por índole [no Rio falavam dos fuzilamentos de Anhatomirim], o qual vai talar de cadáveres o solo do nosso querido sertão.

Se o César cercar os Canudos, manda matar até as crianças e mulheres. Não estou fantasiando, pois foi isso que aconteceu em Santa Catarina (Consuelo Novais Sampaio, org., Canudos: cartas para o barão, EDUSP, São Paulo, 1999, p. 142–143).

O espalhamento de boatos contra César era extenso e encarniçado, mas ele não ligava, não se justificava nem se desviava um milímetro do seu objetivo. A sua capacidade de manter o foco é impressionante, típica de quem tem muito autocontrole. Outro amigo de Jeremoabo, Francisco P. de Carvalho Aragão, escreveu-lhe, do Rio de Janeiro, uma carta muito reveladora, datada de 10 de fevereiro de 1897:

“Nomeação do cruel Moreira César para comandar a 2ª expedição [na verdade, a 3ª]… O assassino dos infelizes prisioneiros da Ilha do Governador [em nenhum lugar li sobre isso] e de Santa Catarina vai fazer uma carnificina medonha nos maltrapilhos… de Canudos (idem, p. 138).”

Porém, logo adiante, o mesmo Francisco Aragão confirma o que já dissemos antes sobre o porquê da ida de Moreira César ao Rio:

“Ele já foi mandado buscar [de Santa Catarina] com toda a pressa para conter o jacobinismo na última tentativa de deposição de Prudente (idem, idem).”

A má vontade em relação a Moreira César tem muito a ver com o que aconteceu na deposição de Gonçalves, o que deve ter feito os gonçalvistas acreditarem que ele ficaria 'cozinhando' a situação, subserviente a Viana e Vitorino. Mas, quando ele atacou resolutamente o arraial, a coisa mudou, e ele passa a ser tratado pelos gonçalvistas como heroico, inditoso, bravo e intemerato. Etc.

Francisco Aragão também faz uma crítica a Manuel Vitorino, que mostra que ele seguia a mesma estratégia de Floriano.

“A economia prometida não passa de uma burla. Os ministros estão cortando… os pequenos salários dos civis para aumentarem os vencimentos dos militares.

Estes tiveram agora o abono de 3 meses de soldo adiantados, além dos extraordinários adiantamentos feitos no tempo… do Floriano… há oficiais do exército que, vivendo cem anos e chegando aos últimos postos, não conseguirão saldar os seus débitos com o Tesouro (idem, 139).”

 Foram provavelmente os grandes proprietários gonçalvistas do sertão ou gente ligada a eles (professores, advogados, médicos e até padres); gente que lia e assinava jornais, que espalhou pelo sertão, para fazer medo aos canudenses ou para jogar o povo contra o governador, o apelido de corta-pescoço.

Após pernoitarem, uma parte no navio, outra parte no forte da Jiquitaia, as tropas foram para a estação de Calçada, no subúrbio de Salvador, onde pegaram um trem em direção a Queimadas, a estação mais próxima do teatro de operações. Calçada estava lotada. Segundo Oleone Fontes (p. 31), havia cerca de duas mil pessoas alvoroçadas, entre elas autoridades políticas e administrativas, civis e militares, da Bahia, para ver a partida. Era o dia 7 de fevereiro de 1897.

O trem passa por uma sequência de estações ferroviárias, com uma breve parada em Alagoinhas, 123 km de Salvador, às 19 horas do dia 7. A estação estava lotada.

Seguem-se Aramari, Ouriçanguinhas (Ouriçangas), Cipó, Água Fria, Lamarão, Serrinha, a 173 km de Salvador, onde a tropa chegou às 2h00 da madrugada, e os oficiais puderam fazer um “lunch”, oferecido pelo comissário de polícia. Segundo Fontes, p. 69, a partir daqui a vegetação começa a mudar acentuadamente, desaparecendo as “matas opulentas do litoral” e os “brejos”, perto dos quais estão os canaviais. É uma zona de transição antes de adentrar o sertão da caatinga.

Vieram Salgado, Santa Luzia, onde o trem chegou entre 6:00h e 6h30 e os soldados puderam esticar as pernas. Nessa cidade, brotaram lendas a respeito de inimizade e até ameaças de Moreira César contra o coronel José Martins Leitão, grande proprietário, aliado de Viana, acusado por Febrônio de Brito de ser amigo e fornecedor do Conselheiro. Segue a estação de Rio do Peixe e, afinal, Queimadas — o livro de Leone Fontes tem uma lista completa das estações ferroviárias dessa linha. Recomendo.

Queimadas foi alcançada no dia 8 de fevereiro de 1897, às 8:00h. Aqui a tropa teve que desembarcar para prosseguir a pé, porque a ferrovia seguia para Juazeiro, desviando-se de Canudos. Segundo Fontes, p. 78, aí o esperavam 180 praças da polícia baiana. Ele então passa um telegrama a Luiz Viana:

“Aqui chegamos sem novidade. O Dr. chefe de polícia [Félix Gaspar]… tem empregado todos os esforços para remover dificuldades. Desejo muito que o 20 de Infantaria de Sergipe vá estacionar em Jeremoabo ou Bom Conselho.”

Felix Gaspar, por sua vez, em relatório ao governador, acrescenta:

“Coronel Moreira César, a quem por conta do estado forneci abundantes meios de transporte e munições de boca... Logo depois da chegada dele àquela vila [Queimadas], começou-se a fazer o movimento das forças que, em breves dias, terminou com facilidade e ordem que soube imprimir ao serviço o notável militar (Oleone Fontes, O Treme-Terra).”

Segundo a imprensa, a tropa estava bem abastecida e organizada, se deslocando com calma e eficientemente célere. Bem diferente dos que denunciaram açodamento e desorganização. Nesse meio tempo, ele manda um telegrama ao Ministro da Guerra.

“Estou em Queimadas… para o mais breve possível seguir para Canudos. A força está muito animada. Sem ocorrer caso algum de indisciplina. Há muita dedicação. O estado sanitário, ótimo. Governador e mais autoridades… solícitos em me auxiliar. Só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere (idem, p. 83).”

Finalmente, a caatinga está à vista. E o próximo destino é Monte Santo. No dia 11 de fevereiro, parte de Salvador uma unidade do Exército, o 9º B.I., sob o comando do coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Nesse mesmo dia, Moreira César manda um novo telegrama ao Comando da 3ª RM.

“Em vista das notícias da fuga do Conselheiro [meu destaque], apressar as operações me parece de grande vantagem; por isso poderão vir do 16º Batalhão de Infantaria apenas 100 homens para ficarem guardando Monte Santo, que é a base de operações, e vir também o coronel Souza Meneses para comandante dessa base… Vinda de 100 homens poderá ser feita com urgência, o que não se dará com o batalhão [cujo número oscila entre 300 e 1.000 homens] (idem, p. 87).” 

De fato, haviam desembarcado recentemente em Salvador 300 homens do 16º BI.

De onde ele tirou essa história da fuga do Conselheiro? Parece que ele está jogando, tentando burlar ou se desvencilhar de alguma coisa, de alguém ou de algum compromisso que, aparentemente, quer prolongar a sua estadia na Bahia. O que será? O telegrama seguinte vai no mesmo diapasão:

“Dr. Governador. — Nada nos tem faltado. Só me preocupo apressar movimento, pois estou convencido qualquer demora será prejudicial. (Idem, p. 87).”

No último telegrama expedido em Queimadas, na tarde do dia 10, ele mostra ao governador da Bahia os seus receios e o seu objetivo ali:

“Só receio a fuga dos fanáticos… já providenciamos Tucano ouvir amigos. Desejo saber vossa opinião, caso coluna receba confirmação notícias, sendo que considero em todos os casos, nosso único objetivo prender os fanáticos de Antônio Conselheiro (Aristides Milton, A Campanha de Caudos, vol. 5, Senado Federal, Brasília, 2003, p. 71).”

Eduardo Simões 


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