O passageiro da agonia
Não há documentos,
entrevistas ou qualquer relato que nos esclareça o porquê do aparente frenesi
do Coronel Moreira César ao chegar em terras baianas. Se é que houve, pois os
observadores presentes são unânimes em constatar que, apesar da pressa aparente
— ou seria a eficiência do deslocamento? —, tudo corria em ordem, disciplina e
calma sob o seu comando.
Será que essa pressa
foi inventada por aqueles que queriam apresentá-lo como um desvairado?
Alguns criticam o
coronel César por não ter se avistado com os chefes militares das outras
expedições, perdendo informações que poderiam ser “vitais”; mas vamos pensar
melhor:
a) O Tenente Pires
Ferreira nem conseguiu chegar perto de Canudos e, embora tenha feito algumas
observações técnicas interessantes, ignoradas, ele é também autor de um
espalhafato, ao dizer que com mais cem homens, teria ido a Canudos e resolvido
tudo. Ele participou da expedição de Moreira César, que certamente tirou dele
tudo o que interessava.
O Tenente Ferreira não
é político, como Febrônio, embora Gonçalves o chame de “amigo”. Seu
relato é objetivo e ele viu a precariedade das armas e do modo de combater dos
canudenses, daí deduziu que seria possível uma ação contundente, mesmo com uma
pequena força. E ele estava parcialmente correto, contanto que não fosse uma
força de só 200 homens.
b) O Major Febrônio de
Brito voltou sem ver Canudos. Ele mostrou pouca habilidade em lidar com as
questões políticas e com o abastecimento da coluna. Recuou assustado, após
perder somente 1,6% de sua força, dando à sua retirada a conotação de uma fuga.
Depois, ele passou a confrontar furiosamente o governador. Moreira César seria
louco se buscasse conversar com ele, arriscando o apoio do governador, o
principal fornecedor de mantimentos.
c) Efetuemos uma
comparação: Pires Ferreira perdeu dez homens e chegou a pouco mais de 100 km de
Canudos. Febrônio também perdeu 10 e chegou talvez a cerca de 6 km de Canudos.
Arthur Oscar e Savaget, à frente de duas brigadas independentes, chegaram a Canudos
com centenas de mortos e feridos. Quantos pereceram da expedição de Moreira
César antes de chegar a Canudos? Dois. Ele mostrou habilidade tática e
surpreendeu os canudenses.
Há, sobre isso, mais um
detalhe: os jornais O Paiz e Gazeta de Notícias, quando narraram
o avanço da 3ª Expedição, projetaram o ataque para 24 de fevereiro. Ora, o
ataque só aconteceu em 3 de março. Será que ele acampou a uma curta distância
de Canudos e ficou lá, preparando a tropa, dando uma falsa ideia aos canudenses
e aos florianistas infiltrados de que ele não atacaria, para então pegar a todos
de surpresa? Como de fato ele pegou.
A chegada de Moreira
César também causou apreensão entre os oposicionistas. Os gonçalvistas
lembravam-se de sua atuação na deposição de Gonçalves, em 1891. Um amigo do
barão, Ubaldo da Silva, que morava no Rio de Janeiro, escreveu-lhe uma carta em
15 de fevereiro de 1897, na qual diz:
"Para dar cabo de
Antônio Conselheiro… não era preciso mandar aí o coronel Moreira César, homem…
sanguinário por índole [no Rio falavam dos fuzilamentos
de Anhatomirim], o qual vai talar de cadáveres o solo do nosso querido
sertão.
Se o César cercar os
Canudos, manda matar até as crianças e mulheres. Não estou fantasiando, pois
foi isso que aconteceu em Santa Catarina (Consuelo Novais Sampaio,
org., Canudos: cartas para o barão, EDUSP, São Paulo, 1999, p. 142–143).
O espalhamento de boatos
contra César era extenso e encarniçado, mas ele não ligava, não se justificava
nem se desviava um milímetro do seu objetivo. A sua capacidade de manter o foco
é impressionante, típica de quem tem muito autocontrole. Outro amigo de
Jeremoabo, Francisco P. de Carvalho Aragão, escreveu-lhe, do Rio de Janeiro,
uma carta muito reveladora, datada de 10 de fevereiro de 1897:
“Nomeação do cruel
Moreira César para comandar a 2ª expedição [na verdade, a
3ª]… O assassino dos infelizes prisioneiros da Ilha do Governador [em
nenhum lugar li sobre isso] e de Santa Catarina vai fazer uma carnificina
medonha nos maltrapilhos… de Canudos (idem, p. 138).”
Porém, logo adiante, o
mesmo Francisco Aragão confirma o que já dissemos antes sobre o porquê da ida
de Moreira César ao Rio:
“Ele já foi mandado
buscar [de Santa Catarina] com toda a pressa para
conter o jacobinismo na última tentativa de deposição de Prudente (idem,
idem).”
A má vontade em relação
a Moreira César tem muito a ver com o que aconteceu na deposição de Gonçalves,
o que deve ter feito os gonçalvistas acreditarem que ele ficaria 'cozinhando' a
situação, subserviente a Viana e Vitorino. Mas, quando ele atacou resolutamente
o arraial, a coisa mudou, e ele passa a ser tratado pelos gonçalvistas como
heroico, inditoso, bravo e intemerato. Etc.
Francisco Aragão também
faz uma crítica a Manuel Vitorino, que mostra que ele seguia a mesma estratégia
de Floriano.
“A economia prometida
não passa de uma burla. Os ministros estão cortando… os pequenos salários dos
civis para aumentarem os vencimentos dos militares.
Estes tiveram agora o
abono de 3 meses de soldo adiantados, além dos extraordinários adiantamentos
feitos no tempo… do Floriano… há oficiais do exército que, vivendo cem anos e
chegando aos últimos postos, não conseguirão saldar os seus débitos com o Tesouro (idem,
139).”
Foram
provavelmente os grandes proprietários gonçalvistas do sertão ou gente ligada a
eles (professores, advogados, médicos e até padres); gente que lia e assinava
jornais, que espalhou pelo sertão, para fazer medo aos canudenses ou para jogar
o povo contra o governador, o apelido de corta-pescoço.
Após pernoitarem, uma
parte no navio, outra parte no forte da Jiquitaia, as tropas foram para a
estação de Calçada, no subúrbio de Salvador, onde pegaram um trem em direção a
Queimadas, a estação mais próxima do teatro de operações. Calçada estava lotada.
Segundo Oleone Fontes (p. 31), havia cerca de duas mil pessoas alvoroçadas,
entre elas autoridades políticas e administrativas, civis e militares, da
Bahia, para ver a partida. Era o dia 7 de fevereiro de 1897.
O trem passa por uma
sequência de estações ferroviárias, com uma breve parada em Alagoinhas,
123 km de Salvador, às 19 horas do dia 7. A estação estava lotada.
Seguem-se Aramari,
Ouriçanguinhas (Ouriçangas), Cipó, Água Fria, Lamarão, Serrinha, a
173 km de Salvador, onde a tropa chegou às 2h00 da madrugada, e os oficiais
puderam fazer um “lunch”, oferecido pelo comissário de polícia. Segundo
Fontes, p. 69, a partir daqui a vegetação começa a mudar acentuadamente,
desaparecendo as “matas opulentas do litoral” e os “brejos”,
perto dos quais estão os canaviais. É uma zona de transição antes de adentrar o
sertão da caatinga.
Vieram Salgado,
Santa Luzia, onde o trem chegou entre 6:00h e 6h30 e os soldados puderam
esticar as pernas. Nessa cidade, brotaram lendas a respeito de inimizade e até
ameaças de Moreira César contra o coronel José Martins Leitão, grande
proprietário, aliado de Viana, acusado por Febrônio de Brito de ser amigo e
fornecedor do Conselheiro. Segue a estação de Rio do Peixe e, afinal,
Queimadas — o livro de Leone Fontes tem uma lista completa das estações
ferroviárias dessa linha. Recomendo.
Queimadas
foi alcançada no dia 8 de fevereiro de 1897, às 8:00h. Aqui a tropa teve que
desembarcar para prosseguir a pé, porque a ferrovia seguia para Juazeiro,
desviando-se de Canudos. Segundo Fontes, p. 78, aí o esperavam 180 praças da
polícia baiana. Ele então passa um telegrama a Luiz Viana:
“Aqui chegamos sem
novidade. O Dr. chefe de polícia [Félix Gaspar]… tem
empregado todos os esforços para remover dificuldades. Desejo muito que o 20 de
Infantaria de Sergipe vá estacionar em Jeremoabo ou Bom Conselho.”
Felix Gaspar, por sua
vez, em relatório ao governador, acrescenta:
“Coronel Moreira César,
a quem por conta do estado forneci abundantes meios de transporte e munições de
boca...
Logo depois da chegada dele àquela vila [Queimadas],
começou-se a fazer o movimento das forças que, em breves dias, terminou com
facilidade e ordem que soube imprimir ao serviço o notável militar (Oleone
Fontes, O Treme-Terra).”
Segundo a imprensa, a
tropa estava bem abastecida e organizada, se deslocando com calma e
eficientemente célere. Bem diferente dos que denunciaram açodamento e
desorganização. Nesse meio tempo, ele manda um telegrama ao Ministro da Guerra.
“Estou em Queimadas…
para o mais breve possível seguir para Canudos. A força está muito animada. Sem
ocorrer caso algum de indisciplina. Há muita dedicação. O estado sanitário,
ótimo. Governador e mais autoridades… solícitos em me auxiliar. Só temo que o
fanático Antônio Conselheiro não nos espere (idem, p.
83).”
Finalmente, a caatinga
está à vista. E o próximo destino é Monte Santo. No dia 11 de fevereiro,
parte de Salvador uma unidade do Exército, o 9º B.I., sob o comando do coronel
Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Nesse mesmo dia, Moreira César manda um
novo telegrama ao Comando da 3ª RM.
“Em vista das notícias
da fuga do Conselheiro [meu destaque], apressar
as operações me parece de grande vantagem; por isso poderão vir do 16º Batalhão
de Infantaria apenas 100 homens para ficarem guardando Monte Santo, que é a
base de operações, e vir também o coronel Souza Meneses para comandante dessa
base… Vinda de 100 homens poderá ser feita com urgência, o que não se dará com
o batalhão [cujo número oscila entre 300 e 1.000 homens] (idem, p.
87).”
De fato, haviam
desembarcado recentemente em Salvador 300 homens do 16º BI.
De onde ele tirou essa
história da fuga do Conselheiro? Parece que ele está jogando, tentando burlar
ou se desvencilhar de alguma coisa, de alguém ou de algum compromisso que,
aparentemente, quer prolongar a sua estadia na Bahia. O que será? O telegrama
seguinte vai no mesmo diapasão:
“Dr. Governador. — Nada
nos tem faltado. Só me preocupo apressar movimento, pois estou convencido
qualquer demora será prejudicial. (Idem, p. 87).”
No último telegrama
expedido em Queimadas, na tarde do dia 10, ele mostra ao governador da Bahia os
seus receios e o seu objetivo ali:
“Só receio a fuga dos
fanáticos… já providenciamos Tucano ouvir amigos. Desejo saber vossa opinião,
caso coluna receba confirmação notícias, sendo que considero em todos os casos,
nosso único objetivo prender os fanáticos de Antônio Conselheiro
(Aristides Milton, A Campanha de Caudos, vol. 5, Senado Federal, Brasília,
2003, p. 71).”
Eduardo Simões
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