segunda-feira, 6 de julho de 2015

A ESCOLA DE FUTEBOL

Prof Eduardo Simões

http://s2.glbimg.com/X4-oGlOd7HajzK9GodWhvIsIFHA=/0x0:5842x3835/690x453/s.glbimg.com/es/ge/f/original/2015/07/05/2015-07-06t015515z_982551347_nocid_rtrmadp_3_soccer-women-s-world-cup-final-japan-at-united-states.jpg
http://globoesporte.globo.com/

         Passando de taxi numa ao lado do estádio do Maracanã, no Rio, vi escrito numa parede o seguinte: “O Brasil é bom de bola, porque futebol não se aprende na escola”, provavelmente parafraseando um verso de Noel Rosa, em Feitio de oração, que diz: “ninguém aprende samba no colégio”, feito numa época em que quase 100 por cento dos negros, os inventores do samba, eram analfabetos, por falta de escolas, embora não fossem ignorantes, nem menos inteligentes que o branco comum, escrito por um homem que estudou no melhor colégio do Rio de Janeiro. Será que seus sambas não devem nada a essa formação? A verdade é que Noel, nesses versos, apenas critica a postura elitista da escola daquela época, que cultuava o canto orfeônico, a música clássica europeia, enquanto se fechava para esse autêntico ritmo nacional
Voltando ao Maracanã, eu e minha filha Silvia travamos o seguinte diálogo: “vocês viram o tamanho da idiotice daquela frase?”, “a cidade cesta cheia de frases como aquela, pintadas nas paredes”, respondeu ela, “é, já que as pessoas não estão querendo pensar, é melhor que fiquem pensando em besteiras, do que em coisa alguma!”, respondi. A frase infeliz, acima, me indignou pelas seguintes razões:
a) Forja um pretexto para desvalorizar a escola, em um país onde ela já é excessivamente desvalorizada.
b) fortalece uma mentalidade antiga e ignóbil, que está nos arrastando para o fundo do poço nos esportes... também: a ideia de que esporte é, apenas, uma extensão do marketing empresarial de grandes empresas, chamadas “clubes”, que nada têm a ver com a cultura nacional ou com o esporte enquanto via privilegiada de formação pessoal, como uma meta, absolutamente estratégica, para formar uma sociedade de pessoas saudáveis física, mental e afetivamente falando – aí se entende que o “professor” Dunga, numa entrevista, no Chile, reclame de “marcação muito ‘ríspica’”, que “o juiz deixou muito a ‘desiderar’”, ou o jogador da seleção que disse que iriam treinar durante a semana para “’acentuar’ nossos erros”.
Na contramão dessa mentalidade temos os países desenvolvidos que estimulam a formação de atletas nas escolas, criando, nestas, espaços de altíssimo nível para a prática dos mais variados esportes, como aquele país que nos derrotou no futebol, aqui dentro, por sete a um! Que dizer, então, das poderosas ligas esportivas americanas, desde o Ensino Médio até às Universidades, um ninho inesgotável de grandes atletas para o maior ganhador de medalhas olímpicas de todos os tempos, e maior potência de futebol do mundo. Pelo menos no futebol feminino.
Quem não se lembra, entre os que viram, o Pan-americano no Rio, quando as nossas meninas esmagaram todas as adversárias, vencendo-as com impressionantes goleadas, inclusive uma equipe universitária americana, escolhida de última hora para representar o seu país. Parecia que, finalmente, o futebol feminino, sem os vícios do masculino, iria ganhar a atenção que merecia, uma vez que, no masculino, as coisas só fazem degringolar, e já faz tempo, pois, convenhamos, pelo menos as meninas mostram raça, são lutadoras, ao invés dos marmanjos, indecisos entre jogar futebol e a praticar a canastrice teatral das faltas cavadas. Uma infâmia!
Nosso futebol feminino não deslanchou, e um analista, eu acho, resumiu bem a situação. Os clubes estão financeiramente esgotados para pagar os altos salários dos marmanjos, que não cessam de nos envergonhar, e não podem, portanto, arcar com as despesas do futebol feminino, ainda mais porque, os dados da polícia não me deixar mentir, as mulheres estão longe de serem valorizadas no Brasil, mesmo quando apresentam qualidades e virtudes que adoraríamos ver em nossos jogadores.
Não deu outra, este ano, oito depois do famoso Pan, nossas meninas amargaram uma campanha pálida, e um retorno antecipado para casa, depois de uma derrota magra para... a Austrália. A jogadora Formiga, já com 37 anos!, aparece na TV dizendo; “nem sempre os melhores vencem!” Pobre Formiga, não percebeu ainda o estrago que a falta de estrutura, organização e interesse geral podem provocar numa causa tão meritória quanto a dessas meninas. A única coisa que nos resta é a eterna ilusão de que ainda somos os melhores do mundo, em futebol. Chamar as escolas, que estão lotadas de material humano de primeira, para entrar no jogo, nem pensar. “Futebol não se aprende na escola”. E já começou a propaganda para o Pan no Canadá: “Venha torcer pelo Brasil de Cristiane!”, mais uma que vai cair de podre, no campo, por não ter quem a possa substituir à altura.
Enquanto isso o mundo continua girando e nos impressionando. O que foi aquela final da Copa Feminina de Futebol, em Edmonton, no Canadá, no dia 5 de junho? Por coincidência travada por dois países onde o futebol é aprendido nas escolas: Japão e Estados Unidos, e as americanas arrasaram as japonesas, que jogam muito bem, têm um time muito compacto, e um senso de coletivo espetacular, mas cujo esquema de jogo era também um tanto rígido e burocrático.
As americanas, por seu lado, também mostravam grupo coeso, mas dotado de uma velocidade, um entusiasmo, um domínio de bola e uma capacidade de criação e penetração espetacular. Elas envolviam a firme defesa japonesa quando bem entendiam, e os gols foram saindo aos borbotões: em cinco minutos já estava dois a zero, e aos quinze, quatro a zero. O terceiro gol americano, de Carli Lloyd, nasceu de um chute dado do círculo central, que encobriu a goleira japonesa, adiantada, um dos mais espetaculares e raros gols da história do futebol. Nosso Pelé tentou fazer um, em 70, e não conseguiu. Placar final: 5 x 2, para as americanas, exatamente o mesmo do Brasil contra a Suécia, na copa de 1958. As americanas garantiram o tricampeonato, em apenas sete edições de mundial, e ainda levaram três dos nove prêmios individuais dados pela FIFA, sem Blatter, “of course” – por falar em Pelé, Carli Lloyd, a Pelé americana, faz trabalho filantrópico na ONG Habitat for Humanity (Habitação para Humanidade), construindo casas para os mais pobres, enquanto o nosso Pelé acha “normal”, que morram um ou mais “pobres”, em obras para a Copa, sem falar na defesa de Joseph Blatter.
Eu não vi a Copa de 1958, mas vi a partida final da Copa do Mundo para Mulheres em 2015, disputada com estratégia, garra, luta, lealdade, habilidades futebolísticas raras, etc., além de um gol espetacular, com nada de firulas, cera, ou faltas forjadas. Nada de teatro. Dou-me por satisfeito, mas não de pleno, porque faltou o Brasil.
Quanto ainda falta, quantas humilhações ainda teremos que sofrer até que aprendamos a lição, que o melhor lugar para se formar gente, e, inclusive, grandes atletas, em qualquer modalidade, é a escola, que pode até não garantir a formação completa do craque, do esportista excepcional, mas pelo menos pode torná-lo mais gente.

E como nós estamos precisando disso agora!

sábado, 4 de julho de 2015



A nossa proposta é de sempre mostrar artigos originais ou traduções, mas essa entrevista do psicanalista francês Charles Melman, apresentada pela revista ISTOÉ, de 22/09/04,  é tão atual, importante e reveladora do mundo de hoje, que seria um absurdo não reproduzi-la integralmente no nosso blog, espero que leiam, gostem e reflitam muito  - Prof Eduardo Simões

A era do prazer
Novo destaque da psicanálise, Charles Melman afirma que os indivíduos nunca pensaram tão pouco como hoje e que as ideologias acabaram
Celina Côrtes
O psicanalista austríaco Sigmund
Freud (1856-1939) e o francês Jacques Lacan (1901-1980) provocaram uma revolução ao desvendar com mais profundidade o funcionamento da mente. Embora suas teorias continuem vigorando, o homem que eles analisaram tem diferenças fundamentais em relação ao cidadão do século XXI. Com o cuidado de não minimizar o conhecimento de seus antecessores, o psicanalista francês Charles Melman, 73 anos, está causando uma nova revolução na psicanálise com o livro O homem sem gravidade, gozar a qualquer preço (Ed. Companhia de Freud). Melman faz um retrato de corpo inteiro do novo homem, que põe o prazer à frente do saber e prioriza a estética em detrimento da ética. “O excesso se tornou norma”, diagnostica, com sua voz calma e pausada, à beira da piscina do Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Melman esteve na cidade participando de um seminário sobre os laços conjugais na modernidade. O evento, com o título Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?, foi promovido pela associação psicanalítica Tempo Freudiano.

Apesar de ser um dos profissionais mais badalados do momento na psicanálise, seu tom nada tem de arrogante. Melman foi um dos principais colaboradores de Lacan, que o escolheu para dirigir a Escola Freudiana de Paris. Ele fundou a Associação Freudiana Internacional, que mais tarde passou a se chamar Associação Lacaniana Internacional. O psicanalista evita injetar julgamento nas conclusões alinhavadas em seu livro. São constatações sobre a vida moderna, na qual ele vê aspectos positivos, entre os quais a “formidável liberdade”, e negativos, como o processo de substituição das neuroses pela depressão. O que ele batiza como “nova economia psíquica” teria, entre outras coisas, transformado o sexo em uma mercadoria como outra qualquer. Até a morte perde sua sacralidade, segundo Melman. Para ele, a exposição sobre arte anatômica – que está correndo o mundo desde 1997 e exibindo cadáveres plastificados e suas entranhas – seria um forte indício dessa tendência. “A questão atual é exibir. Exibir as tripas, o interior das tripas, o interior do interior”, analisa.

ISTOÉ -
O que é a Nova Economia Psíquica?
CHARLES MELMAN -
Hoje a saúde mental já não se origina mais da harmonia 
com o ideal de cada um, mas do objeto que possa trazer satisfação. Não há 
limites. Há uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de transar, de se casar ou não, de viver a família, a pátria e os ideais. Essa nova economia psíquica é organizada pela exibição de prazer e implica em novos deveres, dificuldades e sofrimentos. A partir do momento em que há no sujeito um tipo de desejo, ele se torna legítimo, e é legítimo esse indivíduo encontrar sua satisfação. A posição ética tradicional, metafísica, política, que permitia às pessoas orientar seu pensamento, está em falta. O excesso se tornou a norma.

ISTOÉ -
Quais são os aspectos positivos e negativos disso?
CHARLES MELMAN -
Cada um pode satisfazer publicamente suas paixões contando 
com o reconhecimento social, incluindo as mudanças de sexo. Há uma 
formidável liberdade, mas ela é estéril para o pensamento. Nunca se pensou
tão pouco. O trabalho do pensamento é comandado por aquilo que produz
obstáculo. Mas nada mais representa obstáculo, não sabemos o que há para pensar. O sujeito não é mais dividido, não se interroga sobre sua própria existência. Como faltam referências, o indivíduo se vê exposto, frágil e deprimido, necessitando sempre da confirmação externa. Assim, o eu pode se ver murcho, em queda livre, gerando uma sequência de estados depressivos diversos.


Isto é –
Como o sr. descreveria o indivíduo nessa economia psíquica?
CHARLES MELMAN -
A imprensa e a mídia substituíram as fontes de sabedoria de outrora.
Daí resulta um indivíduo manipulável e manipulado. Suas escolhas, opções e comportamento de consumidor é que organizam seu mundo. É uma forma de identificação que, me parece, não foi observada por Freud nem por Lacan.

ISTOÉ -
De que forma se dá o rompimento do modelo gerador de neuroses desvendado por Freud, no qual a relação com o mundo é marcada pela ausência do objeto querido, e que consequências tem esse rompimento?
CHARLES MELMAN -
Com o desaparecimento do limite, não há mais o sujeito do inconsciente de Freud, que se expressava por seus sonhos, lapsos e atos falhos. Se houve uma descoberta feita por Freud é a de que nossa relação com o mundo não se dá por intermédio de um objeto, mas pela falta dele. No complexo de Édipo o objeto em falta é a própria mãe. A pessoa precisava passar por essa perda para estabelecer suas identificações sexuais. Hoje, para se ter acesso à satisfação não é mais preciso passar pela perda, que era uma fonte de neuroses. Do conjunto de pessoas que se consultam nos serviços hospitalares, 15% são casos de depressão. Há, portanto, a emergência de um novo sintoma, a depressão, no lugar das neuroses de defesa.
ISTOÉ -
O prazer sexual estaria se banalizando?
CHARLES MELMAN -
O sexo realmente se banalizou. É encarado como uma necessidade, já que caiu por terra o limite que o tornava sagrado. Quando se fala em liberação sexual, não se fala mais no desejo. O homem contemporâneo trata o desejo sexual, de certa forma, como simples atividade corporal. A nova economia psíquica faz do sexo uma mercadoria entre outras.
ISTOÉ -
De que forma a exposição sobre arte anatômica, apresentada desde 1997 e ainda correndo o mundo, influenciou suas idéias?
CHARLES MELMAN -
Com essa exposição a morte deixou de ser sagrada. Passou a ser mais um bem de consumo. Os cadáveres, protegidos da putrefação por modernas técnicas, viram corpos plastificados expostos à visão. Algumas vezes com o interior do cérebro, do sistema digestivo e até um feto dentro do útero à mostra. Milhares de pessoas estão fazendo filas nos museus para ver a exposição. Estamos ultrapassando os limites. Até então, uma das características da espécie humana era destinar seus mortos à sepultura, com o respeito que costuma cercar a morte. A questão atual é exibir. Exibir as tripas, o interior das tripas, o interior do interior.
ISTOÉ -
Então não há mais nada que choque as pessoas?
CHARLES MELMAN -
Há sim, a pedofilia. Mas, de qualquer forma, os programas de televisão e a imprensa mostram os casos mais escabrosos em detalhes e todos se interessam por esse tipo de noticiário, como se fossem os fatos da atualidade. As jovens que foram violadas acabam sendo exibidas como mais um objeto.
ISTOÉ -
Por que a figura paterna foi esvaziada, assim como o lugar da autoridade de uma maneira em geral?
CHARLES MELMAN -
O problema do pai, hoje, é que não há mais autoridade, ou a função de referência. Sua figura se tornou anacrônica. Nas famílias, o pai e a mãe passam a ter as mesmas atribuições, o que dificulta a identificação dos filhos com a figura masculina e com a feminina.
ISTOÉ -
Por que o sr. diz que a vida política está desértica?
CHARLES MELMAN -
Os jovens sempre foram revoltados com a injustiça social. Hoje, no entanto, eles só têm uma vontade: participar da vida social. Eles não protestam contra as injustiças. Querem apenas encontrar um meio de gozar logo os prazeres da vida social. Por outro lado, muitos cidadãos podem constatar que falta potência ao poder político diante das forças econômicas, verdadeiras ‘mestres’ da situação. Então por que se engajar na vida política se ela é impotente para corrigir as desigualdades e dificuldades da vida social? Hoje, acabaram as ideologias, as palavras de ordem e até mesmo as utopias. Os indivíduos preferem eleger pessoas que souberam gerir bem seus negócios. Não há mais confiança nos políticos.
ISTOÉ -
Por que tanta desconfiança?
CHARLES MELMAN -
Porque nessa sociedade permissiva todas as figuras de autoridade parecem abusivas, é como se não ocupassem mais o seu lugar. É a mesma coisa com o pai na família.
ISTOÉ -
Quais são as características desse homem? Sem gravidade??
CHARLES MELMAN -
Faltam ao homem de hoje qualidades que lhe seriam singulares. Temos mais a impressão de uma generalização dos traços que se tornaram comuns a todos os cidadãos. É como se eles tivessem mais ou menos as mesmas qualidades e defeitos.
ISTOÉ -
Isso pode ser um dos resultados da globalização?
CHARLES MELMAN -
Sim. Fui há alguns dias ao Chile, no deserto de São Pedro de Atacama. Lá há um oásis com três a quatro mil pessoas, a maioria de jovens originados do povo inca, que habitava a região. Pelo que se interessam esses jovens de origem indígena, no fundo do deserto? Pelos mesmos objetos de consumo oferecidos em Xangai, no Rio de Janeiro e em Paris. O que vale sua cultura de origem em relação a esse culto de objetos? Nada.
ISTOÉ -
Como a estética está ocupando o lugar da ética?
CHARLES MELMAN -
O número de jovens que querem fazer teatro é inacreditável, mesmo 
os que já têm diplomas profissionais importantes. Por quê? A única maneira
hoje de ser aceito pelos outros é estar em cena, captar os olhares, agradar, ser sedutor, ou seja, a imagem de cada um é que se tornou decisiva para ser aceita e, eventualmente, para ganhar dinheiro. Esses progressos da estética são um ponto positivo da nossa cultura. Por que não? É agradável ver jovens esteticamente cuidados. Mas se torna um problema quando é o principal meio que eles têm para serem admitidos e reconhecidos.

ISTOÉ -
O sr. diz que a corrida à juventude perpétua gera um sentimento de desamparo, de falta de referências, ansiedade e cansaço. Pode explicar melhor?
CHARLES MELMAN -
Nossa nova economia psíquica é muito jovem. As gerações precedentes estão desorientadas pelos novos problemas. Ser jovem é dar testemunho de
que se participa dessa nova moral e inteligência. Mas, em geral, é bastante 
difícil se manter nessa posição. Há, portanto, ansiedade no indivíduo pelo medo de não ser mais reconhecido e apreciado. Antigamente as pessoas idosas eram respeitadas por sua sabedoria. Hoje, são rejeitadas pela velhice dos valores morais, que já não interessam.

ISTOÉ -
Quais as influências da publicidade sobre esse novo indivíduo?
CHARLES MELMAN -
Os publicitários são muito inteligentes. Precisam transformar 
o objeto de necessidade em objeto de desejo. Sabem que podemos nos desinteressar do objeto de necessidade rapidamente, mas o desejo é
permanente. Quer dizer, quando a publicidade quer vender um iogurte é 
preciso apresentá-lo como um produto estranho, enigmático. A publicidade
tem um papel pedagógico, que vai ao sentido da liberalização dos costumes. 
E as crianças são muito sensíveis às suas mensagens.

ISTOÉ -
O sr. diz que a mídia também tem um papel importante nesse contexto.
CHARLES MELMAN -
Considerável. Como não temos mais grandes textos de referência, a mídia se tornou nosso meio para pensar. Ainda assim, a parte informativa dos jornais diminuiu muito em relação às simples notícias da atualidade. Só interessa ao leitor o que o toca, diretamente ou por ligação afetiva.
ISTOÉ -
A nova psique, segundo o sr. diz, está criando também um novo fenômeno linguístico. Estaria surgindo uma nova língua?
CHARLES MELMAN -
Os jovens se comunicam por torpedos (mensagens eletrônicas via celular) com uma nova escrita, que tende ao desaparecimento das vogais. O privilégio é das consoantes, com uma ortografia completamente livre, fundada na ideia de que o receptor é incapaz de decifrar minha escrita. É uma escrita que inventa cada frase em particular. Acredito que teremos em breve romances escritos com essa nova linguagem. Os efeitos disso ainda não são previsíveis, mas trata-se de um processo divertido e interessante.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

“COMENTÁRIOS SOBRE AS CRÍTICAS DE VYGOTSKY A RESPEITO DE LINGUAGEM E PENSAMENTO E O JULGAMENTO E RACIOCÍNIO NA CRIANÇA” DE JEAN PIAGET - I 

Comentários do Prof Eduardo Simões [entre colchetes]


http://archivespiaget.ch/typo3temp/pics/5f9df9c540.jpg
 Uma das grandes paixões de Piaget, a biologia, em especial o trabalho de campo na natureza. Os Archives Jean Piaget, em Genebra, na Suiça, possui uma grande quantidade de informações sobre ele. Não deixe de visitar o seu site: www.archivesjeanpiaget.ch

            Segundo Piaget, esse comentário foi escrito a pedido de uma discípula de Vygostsky, a respeito de uma edição comemorativa de Pensamento e linguagem, do psicólogo soviético.
            Piaget começa lamentando não ter podido conhecer Vygotsky pessoalmente, ou mesmo por meio de suas obras, senão muito tempo após à sua morte, graças a apresentação feita por um ex-vygotskyano soviético, Alexander Luria (1902-1977) – nascido em 1896, Lev Semionovich Vygotsky, morreu em 1934, de tuberculose, em um período conturbado da história soviética , a ditadura stalinista, quando a União Soviética sofria um forte isolamento do resto do mundo, ao mesmo tempo que Vygotsky se isolava do seu grupo original de seguidores – salientando que a crítica de Vygotsky, escrita em 1934, versa apenas sobre os seus primeiros trabalhos, feitos entre 1923 e 1924, rascunhos ainda do que seria a sua grande obra, infelizmente não conhecida por ele, e que Piaget em parte ratifica e em outra retifica as críticas do soviético. Vejamos então:

            O egocentrismo cognitivo [começa aqui o texto de Piaget, traduzido diretamente do texto francês, Commentaires sur les remarques de Vygotsky concernant Le langage et la pensée che l’enfant et Le jugement et le raisonnement chez l’enfant; edição online de Archives Jean Piaget (www.archivesjeanpiaget.ch); a minha participação estará sempre entre colchetes e em itálico]
            A questão central levantada por Vygostsky é, na essência, aquela da natureza adaptativa e funcional das atividades da criança [adaptação ao meio e demonstração da organização interna, do pensamento, da criança], assim como de todo ser humano. Nesse ponto eu estou, no geral, plenamente de acordo com ele, e tudo aquilo que eu escrevi (após meus cinco primeiros livros) sobre o nascimento da inteligência no nível sensório-motor, e sobre a gênese das operações lógico matemáticas a partir das ações, me deixam hoje muito à vontade para situar o início do pensamento num contexto de adaptação cada vez mais biológico.
            Entretanto, afirmar que toda troca entre a criança e o meio tende para a adaptação não significa dizer que essa adaptação seja necessariamente bem sucedida no seu conjunto. É preciso nos guardar contra um otimismo biológico-social exagerado, para o qual Vygotsky resvala algumas vezes [já os vygotskyanos acusam Piaget de otimismo psicológico ou puramente biológico, como se as diversas etapas da inteligência acontecessem automaticamente, sem influência do meio, o que é um erro]. Há, com efeito, dois obstáculos em todo esforço de adaptação:
            1) O sujeito pode não ter ainda adquirido ou construído instrumentos ou órgãos de adaptação para realizar certas tarefas, porque a construção desses instrumentos é por vezes longa e difícil, como é o caso das operações lógicas cujos primeiros sistemas de equilíbrio não se constroem senão por volta dos sete oito anos...
            2) A adaptação, sendo um equilíbrio entre a assimilação de objetos às estruturas de ação do sujeito (estruturas tanto hereditárias [aquelas que o indivíduo herda geneticamente de seus país, como o seu corpo], como construídas pela organização progressiva das ações), e a acomodação dessas estruturas aos objetos, podendo acontecer que esse equilíbrio entre assimilação e acomodação tome formas não adequadas, de forma que o esforço de adaptação conduza então a erros sistemáticos.
            Acham-se erros sistemáticos desse tipo em todos os níveis de hierarquia de conduta. No campo da percepção... porque toda percepção contém uma parte de “ilusão”, e após haver estudado durante vinte anos a evolução desses erros sistemáticos da criança ao adulto [Piaget descobriu que a criança pré-operatória tem uma visão do todo mais apurada, ou pré-analítica, que os adultos, que as torna mais hábeis em achar a saída dos labirintos, podendo-se acrescentar aqui as chamadas ilusões de ótica], eu escrevi um livro...onde eu procuro relacionar essas erros múltiplos a mecanismos gerais fundados na centração do olhar que suscitam problemas semelhantes àqueles do egocentrismo [a criança pré-operatória só enxerga um detalhe de um todo por vez, julgando o conjunto por esse único detalhe, é claro que esse julgamento estará invariavelmente errado]. No plano da afetividade, é preciso uma grande dose de otimismo para imaginar que nossos sentimentos interindividuais sejam sempre bem adaptados, e que reações tão universais com as de ciúme, inveja, vaidade, etc., não apontem igualmente para diferentes formas de “erros sistemáticos” da perspectiva afetiva do individuo. No domínio do pensamento, toda a história das ciências, do geocentrismo [o sol gira ao redor da terra] à revolução copernicana [a terra é que gira ao redor do sol], dos falsos absolutos da física de Aristóteles, passando pela relatividade do princípio da inércia de Galileu [1], até à relatividade de Einstein, etc., nos mostra quantos séculos foram necessários para a ciência se libertar (e sem dúvidas só parcialmente), dos “erros sistemáticos” criados pela ilusão do ponto de vista imediato em oposição aos sistemas “descentrados”.
            A ideia central que eu exprimo por meio do termo “egocentrismo intelectual” é que o progresso do conhecimento não ocorre por simples adições ou estratificação aditiva [como se as novas aquisições de conhecimento formassem camadas sobre o conhecimento antigo], como se conhecimentos mais ricos e complexos viessem completar os mais pobres e simples, antes que esses progressos repousam permanentemente sobre correções de pontos de vista anteriores e atuais, por meio de processos tanto retroativos [tipo feedback] e aditivos [mas dinâmicos], que corrigem sem cessar esses “erros sistemáticos”, desde o início ou quando eles surgem durante o desenvolvimento. Ora, esse processo corretor sempre obedece a uma lei definida: a lei da descentração. Para a humanidade passar do geocentrismo para o heliocentrismo foi necessário um esforço gigantesco. Da mesma forma na criança pequena, segundo a descrição que dei sobre a evolução do conceito de “irmão”, e que Vygotsky aprova, ocorre um esforço semelhante, como quando um menino forceja para aceitar que seu irmão também tem um irmão, e que essa noção repousa sobre uma relação de reciprocidade e não sobre a “posse absoluta” [como se a criança dissesse, “meu” irmão é “meu” e de mais ninguém, e o fato de ter um irmão lhe desse uma vantagem, que ela não compartilha com mais ninguém]... (continua)

[nesse primeiro trecho Piaget começa a esclarecer um termo que deu muito estresse na compreensão de sua obra por Vygotsky, que seria o célebre “egocentrismo”, depois nós veremos porque, capital na teoria do suíço. O que Piaget diz nesses primeiros parágrafos é que não basta por uma criança para interagir com o meio (sociohistóricocultural) que, embora necessário, não é suficiente para provocar mudanças qualitativas no pensamento, ou mesmo para levar nessa ou naquela direção o processo de desenvolvimento. Se isso por se só fosse possível as ditaduras se eternizariam e as democracias bem-sucedidas também, e o computador teria todo o poder que burocratas, empresários do setor e intelectuais deslumbrados dizem que ele tem. A primeira dificuldade no processo de interação social, portanto, é o egocentrismo natural da criança, uma característica genética da espécie, ligado às condições gerais do seu desenvolvimento]

Notas

[1] Isso acontece, segundo as palavras do professor José Lourenço Cindra, UNESP de Guaratinguetá, em seu interessante ensaio intitulado “Esboço da evolução histórica do principio da relatividade”, publicado na Revista Brasileira do Ensino de Física, vol. 16, nºs 1-4, 1994, edição online, porque “a partir de Galileu, foi se estabelecendo a convicção que não podemos detectar o estado de movimento retilíneo uniforme (movimento inercial) a menos que tomemos outro corpo como referencial”.

sábado, 10 de janeiro de 2015

UMA GRANDE TRAGÉDIA (PARA MIM)

Prof Eduardo Simões

            Não me sinto obrigado a ser factualmente perfeito ao relatar acontecimentos da História Geral, a história de outros povos, embora me esforce muito, mas me sinto profundamente obrigado a sê-lo, quando se trata da história de meu país. Mas como fazê-lo, se a um professor de escola comum só reste o que está disponível na Internet, e esta espelha como poucos o descaso da história desse país pelo seu próprio povo?
            Cada site ou blogue que eu acesso, para me certificar de alguma coisa, como data, nome, local, dinâmica do evento, etc., o apresenta de uma forma diferente!  Ao invés de sair esclarecido o pesquisador só aumenta suas dúvidas, sem falar das análises desses fatos, que poderiam ser esclarecedoras de certos pontos, mas que não passam de toscas falsificações ou repetições d fraudes espalhadas há mais de um século, como a autora de um texto sobre o General Antônio Ernesto Gomes Carneiro, que apresenta os maragatos federalistas como “defensores da monarquia (algo muito comum), parlamentaristas ‘anarquistas’” (creio que ela falava no sentido pejorativo!?), etc. Situação típica de quem expõe sobre algo que ignora absolutamente. Pelo menos ela expôs; a maioria nem isso.
            E as bibliotecas nas escolas? Estas estão recebendo teses acadêmicas a mancheia, daquelas que só os ultraespecialisas conseguem ler, em todas as áreas, inclusive história, e uma infinidade de livros de leitura, de qualidade boa ou duvidosa – até parece que estamos a formar uma nação de literatos que não sabe ler escrever ou falar corretamente, pelo menos o português – inclusos folhetos pornográficos, do tipo que se usa para acender fogo de churrasco, mas nada de um manual básico das matérias, principalmente história, que possa servir de ponto de apoio para alunos e professores dirimirem suas dúvidas sobre um assunto.
            A moderna historiografia brasileira, de tendência quase exclusivamente marxista, decretou que o fato não é relevante, e o que importa é a teoria filosófica que embasa a análise do historiador. Os fatos negam a teoria? Pior para eles! Os livros de historia mais recentes transformaram-se em longas e tediosas digressões onde o autor tenta a golpe de “marreta” forçar-nos a ver algo que só ele consegue ver. E não só! Quer-nos convencer de que essa é a única visão possível da história, se o leitor não quiser cair na pecha de “reacionário”, “conservador”, ou outra idiotice desse calibre.
            Mais do que tornar-se sabedor das ações de personagens de outrora, aprender uma abordagem científica sobre as motivações ou a natureza das mudanças sócias, o leitor de história no Brasil é antes informado da maravilhosa ‘genialidade’ do autor do livro que está lendo. Fazer história só com fatos, supondo que se está a fazê-la com honestidade, é ficar na superfície e permanecer infantilizado, sujeito à manipulações e mitologias de todo tipo, mas fazer história sem fato é afogar-se na própria vaidade, na sensação de “senhor da história” e nos interesses pessoais, como num delírio esquizofrênico. A maior e mais completa coleção de Historia do Brasil, “História da Civilização Brasileira”, em 12 volumes, organizada por Sérgio Buarque de Holanda, é absolutamente ilegível, um Varnhagen às avessas, embora Sergio Buarque tenha outros ótimos livros.
             Precisamos escrever uma história que seja factualmente correta, tanto quanto é possível com as fontes que temos, analiticamente discreta, como se confiássemos no discernimento de quem nos lê, completa e numa linguagem clara, ‘popular’ capaz de ser lida pelo não especialista, o homem comum, aquele que no fim das contas é quem realmente faz a história acontecer.

            Caro leitor (a) desculpe-me enfim, se alguma data, nome ou evento da História Brasil sair errada nos textos desse blogue, pois eu também pago o preço de viver numa sociedade que não valoriza o seu passado e o seu futuro, e o seu presente simplesmente esvai-se.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A Herança do Primeiro Bispo

Professor Eduardo Simões

Dom Pero Fernandes Sardinha, nomeado Bispo de Salvador em 22 de junho de 1552, portanto ainda no governo de Tomé de Sousa, é um desses personagens "condenados" a ser polêmicos na história.

Apesar de sua grande erudição teológica e de ter suas qualidades morais gabadas pelos seus contemporâneos, é consenso entre os padres jesuítas que aqui estavam, segundo as cartas trocadas entre eles, que o bispo jamais entendeu as peculiaridades de nossa terra, nela permanecendo como um estranho ou alguém em permanente estado de choque, até o "espetacular" desfecho de sua vida.

Ao desembarcar no Brasil, Sardinha vinha muito sobrecarregado:

Primeiro por uma vasta erudição acumulada nos corredores e salas de aula das melhores universidades europeias, num país em que até hoje o excesso de erudição e saber causam estranheza.

Segundo por uma autossuficiência que afastava os bons conselheiros, indispensáveis para o enfrentamento bem-sucedido de uma nova realidade; e terceiro por normas de um direito canônico adaptado a uma realidade cultural estranha à da diocese que ele ia assumir. A receita certa do mais completo fracasso.

Primeiros conflitos
No início, ele foi muito ajudado pelos jesuítas de Manuel da Nóbrega e recebeu destes todo o apoio, mas logo começaram os atritos, aparentemente por causa de sua visão pastoral oposta à destes em relação aos indígenas.

Isso porque enquanto os jesuítas de Nóbrega criam numa conversão gradual dos índios, respeitando os seus costumes e desvinculando o cristianismo da cultura europeia, a percepção do bispo era fortemente eurocêntrica.

Sua visão começava por combater acirradamente qualquer insinuação de nudez ou a simples mostra de partes do corpo durante a liturgia, como faziam os europeus de seu tempo, sem falar na obrigatoriedade do uso da língua portuguesa na liturgia e nos sacramentos – inclusive naquele que é, até hoje, considerado como fulcral para a aquisição e o aprimoramento da fé católica: a confissão. 
"Confundindo... a religião com a cultura, queria o bispo que se exigisse dos índios, antes de serem admitidos ao batismo, a capitulação diante da civilização ocidental" (Sérgio B. de Hollanda; História geral da civilização brasileira; vol.2; Bertrand Brasil; pág. 58)


O passo seguinte foi ainda mais grave: os índios, na visão do bispo, segundo cartas dos jesuítas aos seus superiores em Portugal e até ao rei, não passavam de selvagens, no sentido mais pejorativo do termo, incapazes de assimilar corretamente o cristianismo como era praticado na Europa que, segundo a mentalidade do bispo, era o único correto, o que justificaria, inclusive, a sua escravização, contrariando uma bula do Papa Júlio III, de 1537, que declarava ilícita a escravidão dos índios.

O choque de concepções foi tão forte que Nóbrega, pretextando dar uma ajuda à fundação do aldeamento de São Paulo, pediu licença a Sardinha e viajou para o sul, em 1552. O bispo ficou entregue aos seus próprios pré-conceitos e aos membros menos preparados do clero de Salvador.

Segundo Pedro Calmon, em sua História do Brasil, o bispo cometeu outro grave erro ao se cercar de vários clérigos despreparados e até mal-afamados, para formar o seu cabido – conjunto de padres que servem junto ao bispo no serviço de uma catedral – o que só serviu para agravar a situação.

Com auxiliares tão despreparados, o bispo começa a meter os pés pelas mãos também com os colonos, exigindo de forma muito acintosa que eles cumprissem os seus deveres de fiéis cristãos, em especial no pagamento do dízimo, feito com guarda armada e ameaças, o que era aceitável para os padrões daquele tempo, mas não por pessoas que estavam longe de serem exemplos de "bons cristãos", como os colonos aqui estabelecidos.

Sardinha completou as suas medidas, excomungando o donatário da Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, que, deprimido pelo fracasso de seu empreendimento, deu-se ao vício indígena do fumo, algo inconcebível para o bispo, que o apartou oficialmente da igreja Católica, não sem antes submetê-lo à humilhação pública de ser expulso de um ato religioso.

Fora de controle
Com a chegada do segundo governador, Duarte da Costa, em 13 de julho de 1553, trazendo o seu filho primogênito Álvaro da Costa, a situação tomou um rumo inesperado, pois, segundo uma certa tradição, ele era um jovem impetuoso e dado a farras – como nas baladas de hoje.

Nesse caso, Álvaro da Costa seria o patrono de todos os "filhinhos de papai" que até hoje infernizam o sono da gente trabalhadora – que começaram a incomodar os moradores mais sossegados e a desafiar a autoridade do bispo, que, como era do seu feitio, fez um duro sermão a respeito desses acontecimentos na frente dos interessados.

O efeito foi imediato: o governador tomou o lado do filho e a pequena cidade do Salvador viu-se dividida em duas facções inconciliáveis. Chegou-se à beira do conflito generalizado, enquanto na periferia os troca-tapas, as ameaças, os desaforos e as prisões arbitrárias começaram a ocorrer. Nada de novo sob o sol!

Esse conflito, retratado de diferentes maneiras, conforme o autor se coloca, quer a favor do bispo ou quer a favor do governador, revela bem a imaturidade psicológica dos principais envolvidos, o que nos faz desconfiar de sua condição de "novo-rico", gente que emigrou muito rapidamente de uma posição social desfavorecida para uma muito eminente.

Muito parecido ocorreu com a nova nobreza após a Revolução de Avis (1383-85), processo esse que só fez aumentar com o incremento do comércio colonial e, como nós observamos na história recente do Brasil, nós sabemos o quanto a sensibilidade e o amor próprio dessa gente é sensível e dado a reações explosivas, públicas e desproporcionais.

Os índios aldeados ao redor da cidade, provavelmente contrariados tanto com a política de catequese do bispo como dos excessos cometidos contra eles pelo filho do governador e percebendo o conflito entre os portugueses, aproveitaram-se para levantar-se em 1556, obrigando os dois lados a uma trégua.

O comando da reação colonial foi entregue a Álvaro da Costa, que conseguiu, com uma grande mortandade de índios, uma vitória incontestável, debelando a rebelião, enquanto deixava a situação do bispo ainda mais difícil, afinal, a função do clero, prevista no Padroado Régio, carta que regulava as relações entre o estado e a Igreja em Portugal, era de apaziguar os espíritos para viabilizar a colonização e a cristianização que daí adviria.

Ora, a ação de D. Sardinha estava longe de atingir esse objetivo, por isso ele foi destituído do cargo em 2 de junho de 1556 e convocado, junto a alguns de seus partidários, para ir a Portugal para dar explicações ao rei.

Em 15 de junho de 1556, D. Sardinha embarcou no navio "Nossa Senhora da Ajuda", mas no dia seguinte o navio, levado por ventos e corrente contrários, foi dar em uma praia onde encalhou, e seus ocupantes, passageiros e tripulação foram capturados, mortos e devorados pelos índios locais em um festim canibal.

As controvérsias de Moacyr Soares Pereira
O impacto da morte de Sardinha na Europa foi tremendo, nunca antes um alto clérigo da Igreja Católica sofrera um fim tão "selvagem" para a mentalidade do europeu da época, por isso o estado colonial português apressou-se em cair como um raio sobre os responsáveis.

Em 1557, a regente de Portugal, Catarina da Áustria, declarou guerra perpétua e autorização para escravizar os índios caetés, supostos causadores da morte do bispo, segundo podemos ver no artigo do falecido professor Moacyr Soares Pereira, "O naufrágio e morte de D. Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil; sua revisão histórica" (Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; abril-junho, 1995, pág. 285).

a) A responsabilidade dos caetés.
A responsabilidade dos caetés sempre esteve muito ligada à crença que se construiu ao longo da história de que o naufrágio ocorreu na barra do rio Cururipe, em Alagoas, terra tradicionalmente habitada pelos índios caetés, de fala tupi, senhores da faixa litorânea que ia de Alagoas até o sul da Paraíba.

Essa versão tem sua principal fonte nos escritos de um senhor de engenho da época chamado Gabriel Soares, em seu Tratado descritivo do Brasil, que, vindo de Portugal, chegou aqui em 1577.

O problema é que documentos antigos, pelo menos quatro, feitos por contemporâneos desse acontecimento, ignorados ou só recentemente encontrados, revelam que a nau do bispo naufragou não na barra do Cururipe, mas na barra do rio Vaza-Barris, mais ao sul, no território de Sergipe, área tradicionalmente associada aos índios tupinambás, também de língua tupi, mas inimigos dos caetés.

Entretanto, também é certo que entre esses dois povos havia uma guerra interminável e, não raro, a fronteira entre eles se movia conforme um ou outro avançava nos territórios dos adversários.

O trabalho dos pesquisadores Marcos Eugênio O. Lima e Alan M. Matos de Almeida da UFS, assim como a página do professor Ivan Paulo sobre a história de Sergipe sustentam que havia caetés em Sergipe. A autoria dos caetés, portanto, pode até ser descartada, mas não por causa do critério geográfico.

Outra questão surge do costume dos próprios índios. Um sucesso tão arrasador como esse (que redundou na prisão e devoramento de dezenas de pessoas) seria um motivo de glória para uma tribo.

Surge, então, a indagação: Por que os tupinambás, que também eram inimigos incondicionais dos portugueses, como os caetés, abririam mão dessa "glória" para deixar a "culpa" e a "glória" recaírem toda sobre os caetés se eles, naturalmente, pouco se importavam com o desconforto e os valores dos portugueses e nem acreditavam que estes fossem tão poderosos assim (tanto é que nunca deixaram de travar contatos com os franceses)?

Para mim, uma coisa até esse momento é absolutamente certa: o naufrágio ocorreu na barra do Vaza-Barris em Sergipe – se alguém quiser se aprofundar a respeito, eu recomendo o artigo citado de Moacyr Pereira na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro constante em http://www.ihgb.org.br/rihgb.php?s=20.

b) A punição contra os caetés
Segundo o mesmo Moacyr, a acusação contra os caetés fez parte de uma campanha orquestrada e colonialista para justificar a guerra justa contra esses índios, sendo a sua extinção, ocorrida poucos anos depois, um mero genocídio: "o maior genocídio contra do índio brasileiro no primeiro século da nossa história".

Desconsiderando que o termo genocídio só surgirá na linguagem jurídica mundial em 1944 e oficializado pela comunidade mundial na Carta de Londres de 8 de agosto de 1945, sendo, por conseguinte, totalmente inadequado para caracterizar um evento do século XVI, a decisão de atacar e destruir os índios de Alagoas e Sergipe não era tão simples assim.

Portanto, precisa ser enquadrada dentro da lógica colonial, esta sim condenável, embora não deva ser julgada pelos mesmos valores de hoje, sob pena de caírmos em anacronismo – concepção que desconsidera a evolução das sociedades ao longo do tempo.

b.1. É certo que os colonos portugueses nunca precisaram de acontecimentos tão dramáticos para obterem a autorização real para fazerem suas guerras se tornarem "justas" no Brasil, quando se davam a esse trabalho, sem falar que os caetés já vinham há muito tempo movendo guerra contra os colonos de Pernambuco, que os desalojaram de sua terra.

A morte do bispo não acrescentou nada ao status dos caetés com os colonos portugueses, não se justificando a tese de um complô que se deu ao trabalho de ir até Portugal para "fazer a cabeça" da regente contra os caetés.

b.2. Gabriel Soares fala em sua obra que os caetés foram punidos com a extinção cultural por essa “desfeita sacrilega” ao poder colonial, pouco tempo depois do ocorrido.

O professor Moacyr Pereira concorda com isso e, inclusive, esclarece-lhe o tempo: 5 anos após o massacre do bispo. Mas aí começam os problemas para a tese do professor Moacyr.

b.2.1. Segundo Soares, o fim dos caetés está ligado a uma confederação de tribos tupis e jês da Bahia e do Pernambuco, formada logo após o incidente com o bispo para dar uma lição nos caetés, em vista de sua "excessiva" agressividade e ardor guerreiro.

Ainda segundo Soares, foi o ataque dessa confederação de tribos que de fato desmantelou os caetés, ficando aos portugueses a oportunidade de ajudar no extermínio com ataques secundários, além da incorporação de muitos caetés ao plantel dos escravos na colônia. Aqui Moacyr Pereira e Gabriel Soares divergem.

b.2.2. Um texto constante no livro O feudo: a Casa da Torre de Garcia DÁvila, de Moniz Bandeira, pág. 133, Google Books (versão online) – além de Pedro Calmon – diz que uma expedição punitiva-escravagista contra os caetés foi enviada a Sergipe (?) pelo Governador-Geral Manuel Teles Barreto.

Tal expedição foi completamente massacrada pelos caetés de Sergipe, aliados aos franceses, junto ao Rio Real, na fronteira com a Bahia, entre 1583 e 1587.

Eis um trecho do livro de Moniz Bandeira que narra esse episódio: "quando os caetés que habitavam o rio Sirigi (Sergipe), acima do rio Real, na enseada do Vaza-Barris...".

Frei Vicente do Salvador fala desse episódio no seu livro "História do Brasil", Livro Quarto, Capítulo Décimo Sétimo, "De uma grande traição que o gentio de Sergipe fez aos homens da Bahia, e a guerra que o governador fez aos Aimorés", embora lhe dê uma motivação bem diversa daquela dada pelos autores precedentes.

A data e o posicionamento geográfico dos caetés nesses textos levam de roldão quase tudo o que se afirmou nos parágrafos acima.

b.2.3. Frei Vicente do Salvador no Livro Quarto, Capítulo Vigésimo, pág. 96, edição online, fala que Cristovão Barros, o filho bastardo de Antônio Cardoso de Barros – donatário fracassado da Capitania do Ceará e um dos devorados no naufrágio do Vaza-Barris – resolveu se vingar dos índios que haviam morto o seu genitor, e que habitariam em Sergipe.

"Muito estimou Cristovão de Barros entrar no governo para poder ir vingar assim a traição, que o gentio de Sergipe fez aos homens da Bahia (no massacre do rio Real)... como a morte de seu pai Antonio Cardoso de Barros, que ali mataram e comeram, indo para o reino com o primeiro bispo desta Bahia".

O professor Moacyr ganha um ponto precioso em sua tese ao mesmo tempo em que sofre uma derrota acachapante: a expedição punitiva de Cristovão de Barros ao gentio sergipano (tupinambá ou caeté?). Se o relato de frei Vicente for plenamente confiável, deu-se em fins de 1589, 33 anos após o naufrágio do bispo! Como fica a tese da "guerra santa" e do "genocídio" imediato contra os assassinos do bispo?

O texto de frei Vicente dá muito mais ênfase ao desejo de vingança pessoal de Cristovão de Barros do que a uma pretensa política "genocida" do estado português, na qual elementos de justiça bruta "guerra tão justa dada com o consentimento de el-rei", seja por conta da morte do bispo seja por causa da aliança, estreita e contínua, que os índios de Sergipe faziam com corsários franceses, misturam-se interesses bem pessoais com políticos e outros muito objetivos; "esperaram trazer muitos escravos".

O rescaldo
O incrível fim de Pero Sardinha – não conheço a história de outro bispo da Igreja Católica que tenha conhecido morte semelhante – sacudiu durante séculos o imaginário do povo brasileiro, ora condenando ora aplaudindo, e até procurando ver nele o sinal da nossa afirmação cultural.

Houve reflexo também no "Manifesto Antropofágico" de Oswald de Andrade, de 1927, que via no fim do bispo um símbolo – este, que tanta questão fazia que os índios se tornassem espiritualmente europeus, acabou sendo transformado, literalmente, em índio – e termina o seu texto em uma ironia ácida autodatada no "ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha".

O final do Manifesto pode até valer como uma nota de humor negro, mas aquilo que ele vê no acontecido não podia ser mais equivocado, pois a morte do bispo desencadeou fortes paixões e motivação psicológica que levou a uma das mais raivosas matanças de índios de nossa história, enfraquecendo as possibilidades de afirmação cultural destes ao longo dos primeiros séculos.

Será esta a vingança final do bispo ou um aviso de que não convém que política e religião andem juntas?

O caráter pendular de nossas reações emocionais acaba por se refletir no caráter também pendular em nossa forma de abordar os problemas nacionais e a nossa história.

À historiografia "tradicional", sempre preocupada em apontar para a estabilidade e o consenso social em torno de valores e figuras históricas consagradas pelo costume ou a tradição, sucedeu outra que só consegue ver conflitos, luta de classes etc., usando deste como uma camisa de força tal qual os costumes e a tradição faziam antes em relação aos "grandes personagens".

Assim, logo se veem conspirações, genocídios etc., em que um sentido histórico mais moderado veria um conjunto de situações historicamente condicionadas, levando para um desfecho que não é exatamente aquele que desejaria o historiador.

É, por acaso, função de a história completar as lacunas do tempo com as sobras dos historiadores?

É tão absurdo assim ver, no massacre dos índios de Alagoas e Sergipe, o resultado de movimentos históricos profundos e gigantescos, não necessariamente sob o completo controle dos agentes, como o quer a "historiografia das intenções" ou "das conspirações", tão comum em nossa intelectualidade de esquerda?

Seria muito complicado ver índios e colonos envolvidos por acontecimentos e/ou movimentos que ultrapassavam de muito a sua compreensão imediata, o seu discernimento e o seu poder de decisão, enquanto se procura, por meio de uma análise linear, comprovar em apenas um acontecimento a única crença possível que alguns alimentam acerca das motivações e movimentos históricos?

Voltamos à camisa de força, ao dogma, à mistura explosiva de religião com política, transformando a política em religião.

Agitar gratuitamente um conceito, procurando moldá-lo a tudo que, ainda que distante, se assemelhe ao seu uso original é desmoralizá-lo por completo.

Esse fato é grave quando nos referimos a um tão carregado de significado e emotividade como "genocídio", que nos induz logo à imagem de homens, mulheres e crianças desarmados, que não representavam o menor perigo objetivo, sendo levados ao matadouro pelo simples fato de estarem ali, como se a sua simples existência já fosse uma provocação, conforme o conceito foi originalmente criado em meados dos anos 1940.

Será que o que aconteceu em Sergipe no século XVI se enquadra nesse conceito?

Sem negar que em muitas partes houve uma matança desnecessária, injustificada e covarde de índios, neste caso há controvérsias:

a) Os autores antigos são unânimes em dizer que esses índios estavam em estreita aliança com contrabandistas e piratas franceses, e que em função disso a ligação terrestre entre a capitania mais rica, Pernambuco, e a capital da colônia, Salvador, distando apenas uns 800 km, estava cortada.

b) Que os franceses não apenas contrabandeavam o pau-brasil local como também armavam e orientavam militarmente os índios locais (caetés ou tupinambás?).

c) Que os franceses participaram ativamente no combate à expedição luso-indígena massacrada junto no rio Real, sem falar que durante o embate final entre Cristovão de Barros e os índios de Sergipe, acima referido, estes mostraram uma grande sofisticação bélica, com armadilhas e manobras diversionistas, comuns a um exército europeu, mas estranhas à concepção de guerra indígena.

d) O texto de Pedro Calmon diz o seguinte: "O mesmo missivista da Companhia de Jesus (provavelmente o visitador Cristovão de Gouveia) explicava: "...De três anos a esta parte somente nesta Capitania (Sergipe), são mortos em semelhantes entradas perto de 500 homens brancos, e que com estes são agora alguns seiscentos (o autor se refere ao grupo massacrado no rio Real, que constava de uns 130 portugueses e mestiços), pág. 929-930.

O livro de Muniz Barreto diz: "o número de portugueses mortos pelos índios em semelhantes entradas naqueles últimos três anos subiram a mais de 600" (pág. 133).

O que houve em Sergipe foi uma guerra, uma guerra duríssima para ambos os lados, na qual os nativos levaram a pior e sofreram as maiores perdas.

Certamente, foram por razões de ordem econômica e política que moveram a metrópole a dar guerra de extermínio aos índios de Sergipe, servindo a morte do bispo apenas como um pretexto menor ou secundário.

A morte do bispo, então, serviu para enfurecer e mobilizar o homem comum, o soldado, a bucha de canhão, que partiram para lá pensando em mover uma guerra santa, em serem o braço da vingança divina, logo ele que era tão humilhado e desprezado no seu cotidiano, da mesma forma como motivou os índios a darem mais de si, a confiarem que a vitória era possível.

Afinal, se eles haviam sido bem-sucedidos no episódio do naufrágio, por que não o seriam agora?

Outra coisa que fica clara é o desencontro entre as diversas fontes. Abundam omissões, lacunas, contradições etc.

Isso é raro na nossa história? É tão difícil assim aceitar isso e se conter para não sair completando, sem esclarecer ao leitor, o que falta às crônicas originais, considerando que a retirada ou o corte de uma informação, nessas condições, seria um crime de lesa memória?

Desde que os impostos estivessem sendo pagos em dia, em nada interessava ao estado colonial coletar dados sobre acontecimentos sociais relevantes, afinal não havia, para o Estado, nada relevante fora do fisco, como parece acontecer até hoje.

Bibliografia
BANDEIRA, Moniz. O feudo: a Casa da Torre de Garcia DÁvila. Google-Book: online. p 132-135, 148. Acesso em 22/02/2012.
CALMON, Pedro. "História do Brasil". In: Enciclopédia Delta Larousse. 2ª ed. Rio de Janeiro: Delta, v. II, 1964. p 929-930.
HOLLANDA, Sergio Buarque (org). História Geral da Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. p. 119, 125, 132 v.I e p.58 v.II.
PEREIRA, Moacyr Soares. "O naufrágio e morte de D. Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil; sua revisão histórica". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. abril-junho, 1995. p. 285. edição online.
SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. p 93-94. edição online.
SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil. edição online.

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O I CHING DA TEMPESTADE BRASILEIRA PERFEITA

Prof Eduardo Simões


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Fonte:  http://nunoquelhas.blogspot.com.br/

            A valer tudo o que dizem os especialistas minimamente imparciais, desvinculados oficialmente de partidos, a grande imprensa e o que veem nossos olhos; creio que estamos que estamos na expectativa da tempestade perfeita: esfarelamento social – aumento da criminalidade, sob as mais variadas formas, descrédito das instituições públicas, em especial aquelas ligadas à segurança (polícia) e à reprodução da sociedade (escola [recentemente, como professor, cheguei a ser agredido fisicamente por um garoto da 5ª série!]), enquanto vândalos sem bandeira estouram portas de bancos, e vândalos com bandeiras, da direita, para variar, tentam calar o congresso à força e insuflar a volta dos militares ao poder – sem falar do esfarelamento político – governos, nos três níveis, incrivelmente incapazes, oposições incrivelmente sedentas e políticos incrivelmente corruptos – e do esfarelamento econômico – indústria estagnada, balanço de pagamentos deficitário, inflação resistente, consumo em baixa, como baixos estão os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, energia mais cara, preço da gasolina defasado, ameaçando a sobrevivência da maior e mais importante empresa do país, carro chefe da principal bolsa de valores...
            E para quem acha os desmandos internos são demasiados, o ambiente global está longe de ser amigável. A queda vertiginosa do preço mundial do petróleo ameaça os investimentos naquilo que já foi apresentado como a “redenção do Brasil” e nosso passaporte para o Primeiro Mundo: o pré-sal, que de tanto o governo postergar o início da perfuração, para garantir que permanecesse sob controle dos interesses ‘dele’, normalmente confundido com os interesses da nação, perdeu-se o tempo ideal para o investimento, e se o preço baixar mais a exploração essa ‘mina de ouro’ se tornará antieconômica. Sob a mesma ameaça encontram-se outras comodities, matérias-primas, devido a perda de vapor da locomotiva chinesa – o interminável escândalo do petróleo ganha mais um contorno trágico; a justiça americana, aquela mesma que costuma conceder indenizações de milhões de dólares em simples ações de divórcio, acolheu uma representação de acionistas da Petrobrás, nos EUA, que se sentiram lesados por esse interminável mar de lama, mais preta que o ouro a que aquela está acostumada a retirar de dentro da terra.
            Some isso tudo aos efeitos da maior seca já registrada na região mais densamente povoada do país, talvez até o início de uma mudança climática permanente, então está na hora de começar a prender a orar e de buscar ajuda em manuais de sobrevivência que não sejam apenas uma extensão do ego de seus autores, em geral pessoas bem-sucedidas, quando não bem-nascidas, a dizer que tudo está sujeito à vontade do leitor, e que basta ele querer, inventar, etc., para virar a situação, a revelia do que acontece fora dele. É costume citar o mantra que a palavra chinesa para crise é a mesma para oportunidade.
            Quem se interessa pela cultura chinesa, mais do que apenas seus pedaços, sabe que eles não assim tão superficiais ou ‘capitalistas’, exceto os membros do seu partido comunista. A densidade de sua sabedoria escapa à mente dos gurus da livre iniciativa, livre da razão, mas não das ambições deles, e se revela em formas surpreendentes, como no várias vezes milenar livro das mutações, o I Ching, que, devidamente jateado das pretensões divinatórias, traz lições de sabedoria surpreendentemente atuais, para as diversas situações da vida.
            No caso brasileiro, quem melhor se encaixa e o hexagrama 28, o fatídico Ta Kuo, traduzido como, Preponderância do Grande, representado por uma linha descontínua acima, seguido de quatro linhas contínuas, e uma sexta linha descontínua. O autor, ou autores, veem nelas uma enorme e pesada viga mestra (as quatro linhas contínuas), mas fraca nas extremidades (as linhas descontínuas). Em função disso a viga como que cede, ou sela, sob o seu próprio peso ameaçando cair e causar grande estrago. O ‘grande’ sugerido pelo nome diz respeito ao governante e suas elites pesando sobre a população, muito a propósito em nosso caso, denunciado um período de fastio, de decadência, de um modelo, sistema ou projeto, de sociedade ou mesmo pessoal.
            Na primeira linha, a imagem que vem é de uma enchente que encobre as árvores, os homens sábios e produtivos, mas que no nosso caso, já que a China fica no hemisfério oposto, o que dá para ver é a seca, que estiola a inciativas sábias e bem intencionadas, que, nessas ocasiões não são levadas a sério pelos que seguem a ‘onda’, os inconscientes e oportunistas, que só agravam a situação. Mas quem é sábio, porém, não teme ficar sozinho na sua sabedoria e na lucidez com que descortina o horizonte, enquanto busca outras oportunidades. Agindo sempre com o máximo de cuidado possível, como convém nessas épocas especiais, embora essa não pareça ser a conduta diretriz de nossos governantes, capazes de tudo para ficarem com a maioria.
            Na segunda linha, aparece a ideia de um homem já maduro, tomando uma esposa significativamente mais jovem. Não é algo comum, mas os tempos também não o são, e antes que a frivolidade possa nos dirigir para futilidades do tipo ‘golpe do baú’, o comentador, provavelmente o grande Confúcio, nas aclara, apontando esse episódio para a união íntima, necessária, nesse contexto, da sabedoria com a juventude. A sabedoria tempera o ardor típico da juventude, enquanto esta dá uma sobrecarga de esperança àquela, pois a sabedoria também pode cansar. Isso também significa que os fautores do projeto de sociedade que está decadente devem sair com sinceridade de seus altos pedestais e procurar no povo, na base, para adquirir nova vitalidade, fazer novas adaptações e mudanças. Será que os nossos políticos ainda são capazes de ouvir o povo, de falar-lhes de maneira convincente?
            Na terceira linha, um homem poderoso avança com arrogância e força, ignorando e oprimindo quem lhe faz oposição, quando o momento é de movimentos calmos e de ampliar alianças, causando desgraças. Eu imagino logo o PT em Brasília e o PSDB em São Paulo. As palavras do comentarista chinês são claras demais para não serem reproduzidas: “em épocas de perigo, uma atitude obstinada procurando avançar apenas acelera a catástrofe”.
            Na quarta linha, o homem, o governante e/ou seu grupo realmente consegue fazer aliança com o povo, mas há um alerta: se essa aliança não for como o casamento acima, sincero, mas antes um movimento de oportunismo, com segundas intenções, como usar o povo como “bucha de canhão” na sua luta por permanecer ou conquistar o poder, a derrocada e a humilhação não estarão longe.
            Na quinta linha ocorre uma situação análoga e oposta à segunda: uma mulher idosa busca um marido, simbolizando uma elite, que ao invés de recuperar o seu viço junto a uma mulher jovem, o povo, busca encontrá-lo na associação com outros grupos da elite. Os rituais e costumes sociais são observados escrupulosamente, mas de tal aliança não sai fruto digno de mudar a angustiante situação. O mesmo do mesmo, nada muda, vide a aliança PT-PMDB, que controla folgadamente os centros de poder do país, mas não consegue torna-los fontes de decisões sábias e prudentes, mas antes agravam a crise com um susto atrás do outro no circo do Congresso, e a aliança PSDB-Dem, que faz oposição, mas que também não consegue gestar saídas seguras e confiáveis para a crise. Onde está a sinceridade?
            Na sexta linha, em virtude de tantos erros a situação só agravou-se, e as pessoas corretas precisarão continuar vivendo e assumir decisões, inclusive na defesa de seus princípios morais. Pode daí surgir a necessidade de atravessar uma torrente impetuosa ou enfrentar o deserto escaldante, sem praticamente nenhuma chance de sucesso, como aconteceu a Jesus ao estrar pela última vez em Jerusalém, ou como já aconteceu a tantas pessoas nesse país, que se dispuseram a enfrentar a oligarquia militar, o crime organizado, as quadrilhas de corruptos, etc. As águas o envolvem e ele perece sem culpa, fazendo o que acha certo.
            De fato, quanto mais anômalo e crítico é o momento histórico, mais possiblidades de que ocorram desajustes e injustiças, e a violência cresce, principalmente contra as pessoas inocentes e corretas, inclusive enquanto procuram dar uma direção correta à sociedade – dessa violência, nós somos testemunhas diárias, nem as crianças escapam. A sabedoria se torna subversão, e é preciso ter coragem para tomar a decisão suprema, a forma maior de amor: dar a vida pelos amigos. Se isso acontecer com mais frequência é possível que ainda haja uma saída para o Brasil, e a tempestade dure pouco, caso contrário os próximos anos serão muito “emocionantes”.


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sábado, 6 de dezembro de 2014

OS SUJOS, OS MAL LAVADOS E A SECA

Prof Eduardo Simões


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Fonte http://querido-deus.blogspot.com.br/

            Foi notável o clamor que se levantou da oposição, a respeito da possibilidade instituição dos chamados conselhos populares, por meio de votação no Congresso, ante a expectativa de estes se tornarem massa de manobra do Executivo, atropelando o Legislativo e outras instâncias e/ou instituições políticas nacionais, tal como acontece em algumas “democracias populares”, em particular na Venezuela, onde a ação desses grupos, associadas ao estado populista, arrastaram o país ao caos. Mas há várias pedras no meio do caminho...
            Em primeiro lugar, como diz uma matéria da Folha de São Paulo online, de 15/06/2014, essa iniciativa não é novidade, porque conselhos populares já existem no Brasil, desde 1931, como o Conselho Nacional de Educação, sem falar de outros como o Conselho nacional de Saúde, de 1937, além de diversos outros nas mais variadas áreas, alguns, inclusive, de caráter normativo, como o CONAMA, Conselho Nacional do Meio Ambiente, além de outros de caráter consultivo, como o Conselho de Desenvolvimento Econômico, constituído por empresários, etc. Sem falar que eles não só não são controlados pelo governo como não obrigam este a nada.
            Em segundo lugar, o decreto do governo apenas serviria para regulamentar a criação de novos conselhos e instâncias, sem mexer nos antigos, a meu ver desnecessário, uma vez que o grande problema da presença popular no processo de tomadas de decisões, tanto políticas como administrativas, passa muito mais pela falta de uma cultura de participação, e por uma tradição de clientelismo, que por impedimentos legais ou institucionais a essa participação. O que está faltando claramente é uma educação para a participação cidadã, que demanda muito mais que atrelar o nosso sistema educacional aos resultados do PISA, ou a formar uma força de trabalho acéfala, e o funcionamento mais ágil das instâncias já criadas, além do combate aos vícios existentes e decorrentes, por exemplo, da unicidade sindical, que transforma os sindicatos em plataformas de lutas de poder de grupos de pressão alheios aos interesses das classes trabalhadoras.
            Fora isso há muitos outros órgãos de expressão da vontade popular como as igrejas, a família, os clubes, etc. A questão é fazer os seus gestores darem um mínimo de pelota aos seus liderados e encaminhar aquilo porque clamam as “bases”. Faltam raízes à nossa democracia, e por isso a nossa cidadania é antes uma lei no papel do que uma realidade palpável e percebida no dia a dia, de onde essa enxurrada de leis e decretos repetitivos, criando e recriando o que já existe, ao invés de dar efetividade a estes. Seja como for isso são águas passadas, e a proposta do governo foi derrotada devido a ação de deputados do PMDB, que, segundo analistas, mandaram um recado para o governo, a dizer que precisam de mais proteção no caso do Petrolão, ou seja, o PT precisa segurar mais a Polícia Federal, senão... Isso não tem moral, mas tem muita lógica para nós.
            Por falar em campanhas difamatórias, mentiras, etc., essa mesma oposição, que criticou tanto as mentiras do governo na última eleição e alardeou tanto o perigo do bolivarismo nos conselhos populares do Governo Federal, fez aprovar no Estado onde tem mais poder e prestígio, São Paulo, uma lei para criar os tais mesmos conselhos, com a anuência de todos os partidos da Assembleia (Estadão online, 04/12/2014). Faça o que eu faço, mas não faça o que eu digo.
            E o que dizer das duas dúzias de gatos pingados, vários partidários do deputado Izalci Cunha (PSDB-DF), segundo o Estadão online (02/12/2014), que a nossa popularíssima oposição arranjou para bloquear, no grito, a votação laxista do governo no Congresso? Não era justamente isso que eles diziam mais temer na criação dos conselhos populares do PT? E como os seus deputados vãos às galerias para impedir, no braço, que o Congresso voltasse a funcionar normalmente, com a retirada da claque de baderneiros? Hipócritas, hipócritas, hipócritas.
            Juntando tudo isso mais as estranhas mudanças climáticas em curso, só podemos recomendar que se ponha as barbas de molho, quem as tem, senão pegue uma emprestada, enquanto se formam as condições perfeitas para a tempestade perfeita, nem que seja em molho de tomate, visto que a água, assim como a vergonha e o juízo, está muito escassa na nação.

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