quarta-feira, 25 de maio de 2016

AS CRIANÇAS DE CANUDOS (1897-1898)

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos dos EUA, BR, Bélgica e Bulgária. Deus os abençoe.

Obs: todas as fotos em preto e branco, exceto a primeira, que é de Flávio de Barros, são do grande fotógrafo Evandro Teixeira, todas batidas no sertão de Canudos.

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__ Nos primeiros dias de março de 1897, começaram a chegar à Salvador, na Bahia, os restos miseráveis da última expedição militar a Canudos, comandada pelo coronel Moreira César, um homem que em diversas oportunidades dera graves testemunhos de desequilíbrio emocional, e que morrerá, inglório, no sertão, após ter arrastado os seus comandados a uma humilhante derrota. Estava claro que a guerra contra a cidadela sertaneja, supostamente monarquista e inimiga da república, não seria vencida tão fácil.
__ Um corretor alemão, Franz Wagner, protestante, há várias décadas residindo em Salvador, resolve tomar a iniciativa de convocar a sociedade local para ajudar aos soldados e suas famílias, que, como se sabe, eram recrutados invariavelmente entre os mais pobres da população e recebiam um soldo de miséria, inversamente proporcional aos imensos sacrifícios que lhes eram impostos pelo momento e pela elite em geral indiferente.
__ O apelo de Franz Wagner faz dirigir à sua casa, em 27 de julho de 1897, uma constelação de representantes dessa elite, entre os quais se contam banqueiros, comerciantes, diretores de faculdade, executivos da Estrada de Ferro Inglesa, jornalistas, o Secretário do Interior e Justiça, o Presidente da Câmara dos Deputados da Bahia, o comandante da polícia, o Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Salvador, religiosos católicos, etc., e daí nasce, neste dia, o Comitê Patriótico da Bahia, com o objetivo de dar apoio e sustento às famílias dos soldados mortos ou incapacitados pela guerra. É claro que, para os presentes, aquela guerra era justa, e os sertanejos não passavam de jagunços bárbaros, selvagens, que precisavam, pela força das armas, serem reduzidos ao regime republicano.

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__ Mãos a obra! E, graças à militância do Comitê e à generosidade dos baianos, consegue-se levantar 588$680 (lê-se quinhentos e oitenta e oito mil e seiscentos e oitenta réis), em pouco mais de um mês de coleta. Faltava agora tomar pé do que estava acontecendo na frente de batalha para saber da melhor forma de usar esse fundo. O jornalista Lelis Piedade, secretário do Comitê, se dirige então para o interior, à localidade de Cansanção, para vistoriar a montagem de uma enfermaria de campanha. No caminho ele passa pelas localidades de Queimadas, Alagoinhas e Monte Santo, onde tomou contato com o outro lado da guerra, ouvindo as pessoas diretamente envolvidas, de um lado e de outro, assim como padres e jornalistas, além de presenciar todo rol de brutalidades e miséria, ao longo do caminho percorrido pela quarta expedição militar, sob o comando do general Arthur Oscar.
__ Ao longo dos combates, e isso é claramente colocado nos Sertões de Euclides da Cunha, como em toda guerra civil, a comiseração, a piedade e o equilíbrio emocional de comandantes e soldados são muito mais exigidos, e em geral também desprezados, que numa guerra entre nações. O outro, o adversário, é muito mais desumanizado, demonizado, que naquelas. O destino comum dos prisioneiros, homens e mulheres que resistiam, apresentados indistintamente como fanáticos, capazes de dar sua vida para não gritar “viva a República”, confirmavam as acusações de “conspiração monarquista”, ,mas não eram contrastadas pelo fato de os soldados também estarem dando sua vida pela república, e o quão selvagem, bárbaro, fanático e fora de propósito é matar alguém só por causa disso. A degola, o corte parcial do pescoço, era o fim comum dos prisioneiros.

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__ Restavam, entretanto, as crianças e suas mães, em especial aquelas, afinal em Canudos não havia apenas “fanáticos”, mas famílias, e muitas, com prole numerosa, como é comum entre os sertanejos. Seres humanos, que nem sabiam a diferença entre república, monarquia, e outras pendências de adultos, mas que já eram capazes de identificar sua fonte de prazer, alimento e segurança, só pelo cheiro ou pelo som da voz, que vinha de seus pais, que estavam a ser calados para sempre.
__ Havia mais um fator a considerar: há apenas nove anos fora abolida a escravidão no Brasil, e só os ideólogos mais encarniçados do governo, e até do abolicionismo, podiam crer que uma simples assinatura, ainda que feita com uma caneta de ouro, apagaria do dia para a noite as marcas de 400 anos de escravidão. Mas havia gente, de alto calibre intelectual, que acreditava nisso. Num dos versos do Hino da República, Medeiros Albuquerque, republicano “roxo”, diz: “nem cremos que escravos outrora, tenha havido em tão nobre país”. Esse “outrora”, tão longínquo no verso, não distava nem 3 anos da abolição da escravatura! A Abolição gerara ressentimentos e ações indenizatórias, a guisa de alienação forçada de patrimônio, resolvida, formalmente, pelo jeitinho mais simples e barato: a destruição de documentos históricos.
__ Narram os relatos que no dia 2 de outubro de 1897, um dos braços direitos de Antonio Conselheiro, Antonio Beatinho, achegou-se, com uma bandeira branca, ao comandante das tropas federais, General Arthur Oscar, e pediu-lhe que aceitasse a rendição de alguns moradores de Canudos, comprometendo-se a poupar-lhes a vida. Após breve tratativa, o acordo, perfeitamente justo e humanitário, foi selado e pouco depois apareceram os rendidos – segundo o repórter Favila Nunes, do Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro, de 17 de outubro de 1897, eles seriam 60 homens e 500 mulheres. Os homens, na verdade, eram estropiados de guerra, apresentando terríveis ferimentos, alguns já evoluindo para gangrena. Ou seja, os canudenses saudáveis transferiam o “abacaxi” de cuidar de feridos e não combatentes para o exército, e assim continuar a luta mais desembaraçados. Foi o que entenderam os oficiais da tropa.

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__ Indagado sobre o que fazer com os prisioneiros, o Ministro da Guerra, Marechal Carlos Bittencourt, é categórico: “não temos como alimentar e cuidar de tanta gente”. E isso era verdade, pois os soldados, devido a grande improvisação e falta de profissionalismo, passavam até fome, e necessidades diversas. No final ele acrescenta, à sua resposta, um enigmático “tome providências” (verhttp://guerradecanudos1896.blogspot.com.br/). A providência tomada foi a execução sumária dos prisioneiros escapando somente algumas crianças, cujo choro comoveu aos soldados ou acendeu neles a ideia de um ganho extra, além das mulheres mais “apresentáveis” e “prendadas”, que poderiam se tornar damas em algum bordel ou trabalhar em casa de família. Acredita-se que em torno de algumas poucas dezenas de mulheres e crianças tenham sido poupadas, sem nem por isso deixarem de sofrer os abusos que tradicionalmente se praticam nesses momentos, como o estupro. Nenhum homem foi poupado, inclusive o negociador de Canudos, Antonio Beatinho, uma fonte de informações sobre Canudos e o Conselheiro maravilhosa, degolado junto com os outros.
__ No dia 5 de outubro de 1897 caiu a última resistência no arraial de Canudos, no sertão da Bahia. No dia seguinte, seguindo as ordens do comandante da expedição, as casas do arraial foram contadas e incineradas. Ao todo umas 5.200, contadas em apenas poucas horas!, o que, junto com a degola generalizada dos prisioneiros, nos faz desconfiar de uma tentativa deliberada de ocultar o tamanho e o caráter da revolta, para não expor tanto a incompetência do exército como o despropósito de tamanha mortandade e destruição. Não se fez prisioneiro em Canudos; a “queima de arquivos”, pelo menos aqueles que caíram nas mãos do exército, foi completa.
__ Cansadas, exauridas, famintas, e amendrontadas pelos casos de varíola que começavam a graçar, as tropas deixaram o lugar não em ordem, mas em quase debandada, deixando para trás armas e munições, posteriormente encontradas por pesquisadores locais ou de universidades.
__ Outro drama, entretanto, já começara: o das crianças, algumas vezes arrancadas à força de seus familiares e parentes ligados à causa do Conselheiro e distribuídas entre os soldados como butim de guerra. O repórter Favila Nunes, do jornal Gazeta de Notícias, tenta justificar a forma descarada como o General Arthur Oscar, faz a “distribuição” dessas crianças. Para Nunes, isso se deve ao fato de o General ter “um belo coração de pai, dá gostosamente estas crianças a quem as possa tratar, e por isso eu levarei a pobre Josefa. Quase todos os oficiais já têm uma desgaçadinha destas para proteger [negritos de minha autoria]. O que se faz com carinho e dedicação. Até o General Arthur tem uma...” O adjetivo no diminutivo parece tentar justificar que essas crianças sejam tratadas como objetos ou coisas à disposição, passadas de mão em mão, como um presente! O jornalista, por sua vez, não deixa de tirar partido da situação, e proclama isso como atitude meritória!


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__ Chegando ao sertão de Canudos, entretanto, Lelis Piedade se inteira, por meio de conversas muito com gente do lugar, inclusive conselheiristas, padres, jornalistas que cobriam a guerra, e mesmo pelas cenas ocorridas antes seus olhos, de toda a extensão e gravidade daquela tragédia, e seu entendimento começa a mudar; pois, embora ainda tratando os sertanejos como “fanáticos”, não conseguiu deixar de se admirar com a educação e a honradez da mulher sertaneja, além de ficar profundamente tocado com a situação das crianças e a selvageria dos soldados – ele viu prisioneiros sendo levados à parte, por seus verdugos, para serem degolados; a venda rotineira de crianças, inclusive uma mulher ébria, traz-lhe crianças com marcas de espancamento e as tenta vender-lhe; soube de adolescentes sendo degolados e uma criança de doze anos estuprada por um soldado, com o conhecimento e a indiferença de seus superiores. Ele também notifica que ouvira relatos de sertanejos, dizendo que pessoas eram jogadas vivas em fogueiras, por se recusarem a dar “vivas à república” (talvez como uma forma de vingança contra a incineração do cadáver do coronel Moreira César, da terceira expedição, pelos sertanejos).
__ Mesmo durante a debandada final, quando já destruído fora o arraial e seus defensores aniquilados, se deixou assistir a cenas aterradoras; segundo frei Pedro Sinzig, em seu livro Reminiscências de um frade: “Dona Joana, mãe de seu João Régis, presenciou a sogra... e a cunhada... morrerem de fome e de sede, caídas na caatinga, na marcha forçada que o exército comandou, tangendo mulheres e crianças até Alagoinhas... Caia gente como mosca, mas os soldados não deixavam o povo nem ajudar com uma reza... os que iam arriando à beira da estrada, sem direito a enterro. Era como bicho”. Segundo o relato de uma de suas irmãs, que sobrevivera à retirada, um menino de apenas 3 anos, por não conseguir acompanhar os soldados, foi abandonado no caminho.
__ Ao voltar a Salvador, o relato de Lelis cai como um raio, esfarelando a consciência ingênua de muitos, que viam naquela guerra uma causa “patriótica”, e das discussões que se seguiram a maioria da direção do Comitê chegou a uma conclusão, que não foi unânime nem isenta de crítica, que era preciso incorporar aos cuidados com as famílias dos militares, os cuidados com o que restara das famílias sertanejas envolvidas na guerra, entre as quais se incluíam, prioritariamente as crianças que haviam perdido os pais ou estavam, junto com eles, em situação de extrema miséria e total indignidade, conforme consta de ata datada de 20 de janeiro de 1898. Da ação desse Comitê nós devemos muito do que sabemos sobre um dos aspectos mais escabrosos dessa guerra, ausentes dos livros mais conhecidos.
__ Indiferentes às críticas os membros do comitê se dirigiram, em primeiro lugar, aos militares, pedindo-lhe que devolvessem as crianças a fim de serem levadas às suas famílias originais ou a parentes próximos, ou ainda a um orfanato. Essa “colheita”, entretanto, foi escassa, pois boa parte das crianças já havia sido doada ou vendida a diversas pessoas, desde comerciantes a donos de fazenda, onde elas já estavam sendo usadas para realizar trabalhos domésticos e outros afazeres, e em diversos casos não foram, simplesmente, devolvidas, pois já haviam sido compradas e incorporadas aos “bens” do patriarca – o senhor Matias da Costa Batista, um próspero comerciante de Alagoinhas, se apropriara de três crianças, que lhes teriam sido supostamente dadas por oficiais do exército, recusou-se a dar informações sobre o paradeiro das crianças, afirmando que estas lhes pertenciam e que não achava justo que se protegesse filhos de “jagunços”.
__ Enquanto isso, dificultando as iniciativas do Comitê, artigos na imprensa procuravam justificar a atitude dos soldados como casos de extremo de heroísmo e humanidade, levando a crer que soldados famélicos, fazendo das tripas coração, tentavam proteger as crias do inimigo, um inimigo, além do mais, degenerado pela miscigenação, e elas próprias, as crianças, portadoras, em sua carne, desse pecado capital. Era verdade que os soldados estavam famélicos, e eram também, eles próprios, mestiços, embora disso não fale a imprensa, mas esse soldado teve, em diversos casos, teve uma postura muito mais pragmática, “capitalista”, do que a descrita naqueles panegíricos. Era um miserável tirando vantagem de outro, mais miserável ainda. Um padrão de relação social, herdada do passado, que se espalhava do centro rico à periferia pobre.

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__ Entretanto, os casos de sequestro, bem distante da piedade cristã, durante a retirada, estão muito bem documentados nas notas que o comitê fazia circular pelos jornais da cidade, pedindo notícias sobre o paradeiro de crianças, como o caso do menino Hermenegildo, de 2 para 3 anos, que a mãe vira sendo levado por um oficial de nome Maximiano; do menino Manuel Florêncio, levado por um soldado de polícia, com o assentimento de seu sargento, este de nome Magdaleno; a menina Silvina, de apenas 9 anos, cujos pais, ainda vivos, moravam na Serra de Aporá; etc.
__ O resultado do trabalho altamente meritório do Comitê Patriótico foi que 13 meninos e meninas forma devolvidos a pais e mães, logo tinha sido sequestrados, enquanto outras 13 foram entregues a parentes; 21 foram entregues a pessoas idôneas, civis ou militares, a guisa de adoção, e 50 encaminhadas a orfanatos, para adoção. O próprio Lelis acabou abrigando em sua casa três filhas de um líder famoso de Canudos, o comerciante Juaquim Macambira, que haviam sido tomadas por soldados do batalhão do coronel Dantas Barreto, da polícia, e levadas para Salvador. Posteriormente duas delas seriam devolvidas a parentes e uma terceira ficou com Lelis, para completar os estudos.
__ Dificuldades adicionais obstacularizavam os trabalhos do Comitê, como a necessidade de se conseguir salvo conduto às mulheres e crianças resgatadas, para poderem voltar aos seus familiares no entorno de Canudos, sem sofrer represálias por parte de fazendeiros, que conservavam antigos ódios contra a comunidade conselheirista, sem falar na recusa da Santa Casa, de 18 de março de 1898, em receber as crianças de Canudos em seu abrigo de órfãos, tanto pelo fato de elas terem mais de 10 anos, como pelo fato de que eles “talvez tenham recebido uma educação viciosa”, e, por conseguinte, não convinha “pô-los em contato com os filhos da instituição”. As crianças são então enviadas ao asilo de mendicidade. Uma justificativa burocrática, palaciana, cega para a excepcionalidade da situação, e uma recusa de um olhar cristão sobre a realidade.

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__ Afora eles, salvaram-se todos...



O jaguncinho de Euclides

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__ Um dos termos que mais marcou e discriminou essas crianças, vítimas da brutalidade militar-estatal, foi o de “jaguncinho”, com que os jornalistas e intelectuais lhes apodaram, como se a natureza “degenerada” de seus pais, que era antes uma condição social, fosse-lhes transmitida na fecundação, entre os quais o famoso Euclides da Cunha, escritor de Os sertões, que, quando de sua estadia em Belo Monte, em setembro de 1897, foi ofertado com uma criança pelo General Arthur Oscar, criança esta que Euclides só tratava por “jaguncinho”. Esta, assim como diversas outras, escaparam da ação protetora do Comitê Patriótico, uma vez que foram espalhadas, sem qualquer critério, pelo imenso território nacional, por soldados e jornalistas de outros estados.

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__ O “jaguncinho”, de nome Ludgero, foi trazido para São Paulo, e entregue, para sorte do menino, a um amigo de Euclides, o educador Gabriel Prestes, acima, sem filhos. O menino desde o início chamava atenção pela sua inteligência vivaz, prática, tipicamente sertaneja, e a memória minuciosa que tinha dos eventos que redundaram na morte de seus pais e na destruição de seu mundo. Tentando desvinculá-lo de tudo que dissesse respeito a Canudos, como a uma mácula de origem, o menino é registrado Ludgero Prestes e é-lhe atribuído uma data de nascimento “adequada”, não se sabia a real: 15 de novembro, o dia da Proclamação da República, a mesma que destruíra a sua família, contra a qual seu pais lutaram até a morte.
__ Em 1908, onze anos após o encontro, Euclides da Cunha, agora escritor famoso, lhe escreve uma cartinha, saudando o homem que ele se tornara, mas sem deixar de lembrar quem ele realmente era: “o pobre jaguncinho que me apareceu pela primeira vez... no final de uma batalha”. É curioso perceber duas coisas nessa cartinha: O menino, lhe “apareceu”, não foi-lhe “trazido”, como quando acontece com alguém que aparece de livre e espontânea vontade, como que para fazer uma visita ou travar amizade. Euclides o lembra de que ele era um “jaguncinho”, como a dizer-lhe: “lembre-se sempre que, originalmente, você não é um dos nossos, e que nós não lhe devemos nada pela destruição de sua família e sua infância, afinal você descende de jagunços”. Euclides, que viu e denunciou Canudos, chama aquilo de batalha! No final da carta Euclides dá-lhe o endereço de sua casa no Rio, sem deixar de tornar ao “assunto”: “uma casa tão hospitaleira quanto a minha rude barraca em Canudos”. Será que alguma vez acudiu a Euclides perguntar ao menino se ele preferia estar protegido na “rude barraca” ou lá fora, junto com seus pais legítimos?
__ As coisas mudam, é não é tão fácil assim apagar uma memória legada de fatos tão trágicos, principalmente, quando os principais interessados em apagá-la fazem de tudo para reavivá-la. Em 1898, Ludgero começa o seu curso escolar, com o nome de Ludgero Prestes, filho de pais desconhecidos, tutelado de Gabriel Prestes, originário da Bahia; mas, no final de
seu curso de professor já parece, na filiação, o nome de seu pai verdadeiro, um tal João Luiz, e, quando de seu casamento, o documento que traz o nome de seus genitores aponta-os como sendo João Luiz e Maria Luiz, e o local de seu nascimento Canudos, na Bahia. Uma reviravolta digna de um filme.

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Autor desconhecido - Fotografia de 1908, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7474066

__ Ludgero Prestes recusa a adoção espúria, porquanto forçada e segregadora, e avança poderosamente nos símbolos, buscando resgatar sua identidade e retornar às suas origens, tão destroçadas. Dificilmente ele teria nascido em Canudos, que, em 1890, era uma humilde fazenda com poucas casas – Euclides afirma que ele foi “achado” em Cocorobó, uma fazenda a 15 km de Canudos, local mais provável de nascimento. Então ele conscientemente quis retomar a herança e a esperança de seus pais em sua vida, sem falar que foi aí que ele entrou na idade da razão, os 7 anos, justo na destruição do arraial. Como ele soube o nome dos pais? Fez uma pesquisa a respeito? Esteve na Bahia? Não sabemos. Mas há uma pista na via dos símbolos: Ludgero é uma das formas latinas do nome Luiz, logo seus pais podem ter sido uma criação de Ludgero; João e Maria são nomes comuns no sertão e de personagens de uma fábula muito conhecida: João e Maria, largados numa floresta por um pai covarde e uma madrasta má. Seria razoável crer que, para ele, essa madrasta era a personificação da república?
__ Ludgero não se apartará do sobrenome de Prestes, nem deixou de fazer jus à força de sua raça e à fama de “sobrevivente”, que os sertanejos carregam, além da “sina”, da maioria, inclusive o que vos escreve, de acabar em São Paulo. Tornou-se um professor, casou-se, e foi o primeiro diretor do Grupo Escolar de Bebedouro, diretor do Grupo Escolar de Olimpia, e orador do Serra Negra Futebol Clube, de Serra Negra. Constituiu família, deixando descendência: quatro filhos. Morreu precocemente, em 13 de outubro de 1934, na cidade de Amparo, com apenas 43 anos, vítima de câncer no fígado, a sede dos sentimentos intensos, das emoções represadas.

Fontes
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/10799/10799_5.PDF
Wikipedia em portugês - Ludgero Prestes

terça-feira, 24 de maio de 2016

O FIM DO GOVERNO TEMER

Prof Eduardo Simões

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http://oglobo.globo.com/

Uma assombração tutela o presidente interino

__ Afinal aconteceu o que já era esperado por todos, embora não tão rápido: um dos mais importantes auxiliares de Temer cair por envolvimento na Lava Jato. Este foi Romero Jucá, implicado numa trama para bloquear as investigações. Convenhamos que, apesar de seus efeitos dramáticos e preocupantes, sua queda foi justa e necessária.
__ É dramática e preocupante a queda precoce de uma liderança tão significativa, principalmente pelas circunstâncias, que todos ignoram ou fingem ignorar em benefício próprio, em que Temer assumiu o governo. Este mesmo eu não sei se está consciente disso, mas a verdade é que seu mandato, absolutamente indispensável, surge da necessidade imperiosa de o Brasil fazer cessar a sua autodestruição, principalmente deter a queda vertiginosa da economia, para aí sim, pudermos ter eleições gerais, que renovem não só o titular da presidência como todos os cargos proporcionais, enquanto a justiça faz uma faxina geral poderes da República.
__ É preciso debelar, acima de tudo e no curto prazo, a crise econômica, cujo agravamento acirra paixões, e para sua solução o governo Dilma-PT, o mesmo que gerou a crise, mostrou rara incapacidade; portanto era indispensável que caísse. Entretanto os que a substituíram, e o diálogo Jucá-Machado é a prova disso, tampouco se mostram capazes de entender a peculiaridade desse momento e a natureza do governo de Temer: impedir a implosão do país.
__ O senador Lindbergh do PT, franco atirador, puxador de palavras de ordem, eterno  garoto de passeata, apressa-se em dizer que, em vista da gravação, o impedimento de Dilma é uma farsa. O PT só pensa nisso, não aceita em absoluto que a rotatividade do poder, desde que feita nas formas previstas pela lei, é algo inerente à democracia. Os petistas não concebem rotatividade de poder fora de seus quadros.
__ O senador Renan Calheiros aproveitou para dizer que tratará o governo Temer da mesma forma que tratou o governo Dilma. Essa frase, como a grande maioria daquelas proferidas por um político do naipe de Calheiros, tem duas interpretações ou dois renans possíveis. Ou ele fará o que fez de fato pela Dilma, procurando livrá-la o quanto possível do impedimento, um forte aliado, ou agora, que preside o Senado no processo de impedimento, será imparcial como um magistrado de outro mundo, esquecido que foi eleito precipuamente para uma função política, que exige um alinhamento minimamente transparente.
__ Mas isso seria esperar muito de Calheiros, que já se alinhou com tudo, menos com a verdade e a honestidade, e por isso tem quase uma dezena de denúncias sérias em fase adiantada de apuração, e buscava na aliança com Dilma e o PT conseguir mais espaço para manobrar em prol da sua pele. De repente, em meio a essa bizarria meio política e meio jurídica criada pelo STF, entregue a um Senado tão frágil, ele deve estar se julgando um juiz do Supremo; quem sabe não se torna um caro “colegua” dos ilustres magistrados, conseguindo uma absorvição ou uma pena mais branda. Para escapar vale tudo, inclusive dizer que deixará seu colega de partido, Michel Temer, “na mão”, pelo “bem do Brasil”, como ele disse? Desconfio que se Calheiros, um dia, prezou o Brasil ele não estava pensando no Banco do Brasil. A queda de Temer lhe traria uma vantagem: ante a incapacidade de nossa Câmara gerar uma liderança capaz sequer de se tornar síndico de prédio, ele poderia se tornar o presidente interino. Quem tem Calheiros como companheiro de partido não precisa de inimigo.
__ O Partido Verde, de Álvaro Dias, fazendo jus à sua fama de oportunista, já salta de lá, dizendo que não compõe mais a base do governo, longe de um pacto para salvar o país do naufrágio, os ratos, muito bem remunerados, se apressam por abandonar o barco e salvar a si mesmos. Marina Silva, do Rede Sustentabilidade, continua invisível como nunca. Se ela desaparecer definitivamente alguém dará falta? O que ficará depois disso? Já imaginaram uma eleição apenas presidencial, como quer o PT, e, em surdina, o PSDB, com a economia do país desabando e os políticos mentindo como nunca para garantir a vitória no pleito. Nessas condições as tais barreiras, que em Brasilia separaram os grupos pró e contra governo teriam que ser levantadas em cada sessão eleitoral para evitar a carnificina...

__ Ainda há tempo 
NADA MAL, NADA MAL

Prof Eduardo Simões

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__ Sempre que se vê uma cena absurda, de violência covarde, não provocada, contra alguém do grupo LGBT em nossas ruas, logo saltam várias pessoas e jornalistas, cevados de complexo de inferioridade, de vira-latas, a dizerem que tal coisa só se dá no Brasil, que o Brasil ou os brasileiros são isso ou aquilo. Pois bem, no dia de combate a homofobia saiu os resultados de uma grande pesquisa, feita em uns 53 países, envolvendo dezenas de milhares de pessoas, onde se pode comprovar o quanto os brasileiros estão avançados, republicanos e democráticos quanto a esse tema. As paradas gays, que aqui ocorrem, não só estão entre as maiores do mundo, como, salvo poucos excessos, que parecem abundar mais no exterior, constituem um acontecimento de massa predominantemente pacífico e familiar, como é de nossa índole e formação religiosa.
__ segundo a pesquisa, a aceitação do fenômeno complexo, estritamente humano e social, dos LGBT é visto com naturalidade e aceitação por mais de 80% das pessoas entrevistadas, embora eu desconfie que no interior mais afastado os dados não sejam assim tão animadores, embora, também, raramente de lá venha alguma denúncia escabrosa de agressão gratuita a essa gente, como acontece nas ruas de nossas maiores e mais “civilizadas” cidades. Eis um fenômeno interessante para estudos – a esse respeito eu gostaria de dar o meu testemunho pessoal, uma vez que sou professor de escola pública no interior de São Paulo, o estado mais desenvolvido do país; às vezes, quando um aluno se destaca e eu me aproximo para lhe dar um breve abraço, com uns tapas nas costas, na frente de todos, como era comum aos homens absolutamente héteros fazer, quando que eu era criança, e a questão LGBT nem se colocava ainda, o menino salta para lá, como se eu portasse uma doença contagiosa grave, dizendo aquelas expressões características: “que é isso!”
__ Mas, diriam alguns, o que fazer justamente com esses indivíduos que maculam a nossa paz familiar e social, agredindo verbal ou fisicamente uma pessoa pelo simples fatos de mostrar carinho ou cuidado por uma pessoa do mesmo sexo, seja por interesse homoafetivo ou não? Há, na nossa crônica policial, o caso de um pai e um filho, cuja atitude pública paterno-filial foi confundida com homoafetividade, sofrendo, como resposta, uma agressão física. Esses indivíduos são imaturos ou doentes, com tendência a projetar nos outros as “sem vergonhices”, que antes lhe são imputáveis, ou se formaram na absorção excessiva de preconceitos sociais.
__ Podemos considerar também a atitude preconceituosa de algumas mulheres e garotas adolescentes, que sacam contra homens e garotos, que não se mostram muito agressivos em relação a elas, eu mesmo vejo isso acontecer em pátios de escolas, sacando o onipresente “bicha”, pronunciado em alto e bom som. É o outro gume do punhal.
__ Pela educação, a calma, os bons exemplos, o respeito à lei, que a todos deve tratar igualmente, e um judiciário célere, podemos provocar uma mudança positiva no comportamento dessa gente, no sentido de não reagir com violência à frustração e ao diferente, e até perceber que boa parte dessa diferença está ligada à violência “natural” tradicionalmente associada ao comportamento masculino, que não mais se justifica nos dias de hoje, nem ao homem que a pratica nem à mulher que a espera.

__ Para além disso fica o mistério da livre escolha, da preferência pessoal, que coloca, entre quem faz a escolha e os que a percebem, muito mais coisas do que pode aquilatar a nossa vã sabedoria. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

NÃO É NUESTRO PAIS (CARTA AO SITE BRASILEIRO DO JORNAL EL PAIS)

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de BR, EUA, Bélgica e Bulgária. Deus os abençoe.

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         Senhor Editor
         Sempre fui um fã do site brasileiro do El Pais, em virtude da quantidade e da qualidade de artigos noticiosos e de opinião que fizeram a fama de um dos mais importantes veículos de informação e análise do Hemisfério Ocidental, até ser brutalmente surpreendido e decepcionado com um editorial, datado de 12 de maio do El Pais, Brasil, com o seguinte título: Um Brasil de Temer.
         A primeira coisa a observar é a tentativa forçada, fracassada e infame de criar um trocadilho entre o nome do presidente provisório e o verbo temer, de “dar medo”, tenho certeza que o senhor consegue fazer muito melhor, acompanhada da seguinte chamada: “A destituição de Dilma Rousseff não soluciona nada e aumenta a instabilidade do país”; e acrescenta um pouco mais abaixo, que ela aporfundará a crise institucional vivida pelo país. A questão, quanto a esse ponto, é saber que profeta, Nostradamus ou bola de cristal lhe passaram essa informação, uma vez que os verbos, embora no presente, pelo contexto, apontam para um futuro; manhas da língua portuguesa, a não ser que o Senhor esteja querendo propor que uma simples mudança de quadros administrativos possa, de per si, gerar mudanças numa estrutura tão gigantesca e complexa como a político-econômica do Brasil. Isso só é possível, fora de um âmbito político-ideológico, a um pensamento mágico!
         Qual seria então a solução, que por sinal não é colocada pelo Senhor? Deixar as coisas como estão? Olhar, impassíveis, o país derretendo econômica e moralmente nas mãos de um governo sem o mínimo de apoio institucional ou de alguém, que, fora do seu partido, não tenha sido escandalosamente comprado? Sem considerar a incapacidade técnica e de estatura moral da atual presidente em dar qualquer direção ao país, em que pese a sua “integridade”, posta já em cheque pelo testemunho do ex-senador Delcídio do Amaral, um de seus mais próximos, o Senhor, complacente, anota que contra ela pesam denúncias de “práticas nocivas”, que outros praticaram, inclusive em outros países. Mas se me consta à memória os espanhóis não foram tão liberais nem usaram de tais analogias, no possível envolvimento da infanta Cristina com as falcatruas de seu marido. Nós também somos um país sério, e apenas o contrário nas anedotas. Que nós curtimos, mas não queremos imitar!
         O Senhor reproduz que o governo do tirou milhões da miséria, mas esqueceu-se de atualizar seus dados e considerar que o índice de desemprego, nos últimos dois anos da presidenta simplesmente dobrou, em relação ao período aúreo, arrastando uns cinco milhões ao desemprego, à informalidade a empregos precários e maus pagos. A renda média do trabalhador está caindo, junto com a produção e o PIB.
         O Senhor então não sabe, ou demonstra não saber, que as acusações pelo envolvimento da senhora Dilma Rousseff, na Operação Lava Jato e no Petrolão, que mancham a honra do país, foi fruto de um acordo zelosamente guardado pelo seu principal articulador, o Presidente da Câmara Eduardo Cunha, que também é atingido em cheio por esse escândalo? O seu ex-braço direito, Delcídio do Amaral é quem a denuncia! Aliás, quem, próximo desse monumento de integridade, que é a nossa, queira Deus, ex-presidenta, não está envolvido em escândalo? Que país, a Espanha inclusive, admite um governante cercado por tanta gente corrupta? Mas o Senhor parece só ter olhos para a “infestação de corruptos” do lado oposto. A brincadeira acabou; o Senhor já pode abrir o seu olho esquerdo.
         Por falar em Eduardo Cunha, custa-me crer que o Senhor tenha escrito o que escreveu a esse respeito, tão ofensivo é ao povo de meu país e ao mais elementar bom senso. Chamar Cunha de “verdadeiro motor do processo de impeachment”, é deconhecer e tripudiar sobre os milhões de brasileiros que foram as ruas, nas maiores manifestações da história desse país, pedindo a saída desse governo e o fim do caudal de corrupção que extravasava da cadeira presidencial da senhora Dilma; é desconhecer e tripudiar do altíssimno nível moral e jurídico que embasam as figuras de Miguel Reale e Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT (!), que são os autores da peça acusatóreia que levou ao impeachment, e que não cessaram de denunciar a ceifa proposital que Cunha e Calheiros fizeram ao extirpar da peça acusatória a parte referente à Lava Jato e ao Petrolão, onde a presidenta está envolvida até o pescoço. Se existe um momento em que o Congresso foi particularmente suspeito quanto ao andamento do processo foi justamente quando conseguiu extirpar a acusação mais grave contra a presidenta deste processo. Mas nem isso salvou a sua pele nem a de Eduardo Cunha, sobre as quais o povo, por meio de seus representantes ainda bailará.
         Por fim pela primeira vez, nos últimos nãos vemos um Congresso minimamente articulado com a presidência da república, apontando minimamente para uma superação da fragmentação política, embora só um ingênuo acredite que a travessia será fácil suave e sem dor, mas pelo menos ela começou.
         Resta-me por fim, lamentar que um veículo de informação com a história e a envergadura do El Pais tenha aquiescido em se transformar numa mera repetidora do discurso oficial do Partido dos Trabalhadores, uma agremiação política ainda impúbere, sem credibilidade, abandonado por vários de seus fundadores, com algumas de suas grandes personalidades recolhidas a centros de detenção, por roubalheira, controlado por um caudilho, hoje acusado de chefe de quadrilha, uma espécie de Francisco Franco da esquerda, imune a qualquer franqueza...

         Francamente!   

sábado, 21 de maio de 2016

QUEM NOS DERA OUTRA VEZ... CAUBY PEIXOTO

Prof Eduardo Simões

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__ Somos, desgraçadamente, um povo sem memória, que pouco cultiva a sua história, e não consegue ver nela senão uma tediosa crônica de fatos, sem sentido para a vida. Há alguns anos, numa turma do 2º ano do Ensino Médio, fiz a pergunta de quem já ouvira falar da grande trindade da Música Popular Brasileira (MPB), Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil... Silêncio, só um aluno disse que já ouvira falar de Caetano Veloso. Ofereci pontos positivos para quem fosse capaz de cantarolar pelo menos um trecho de suas músicas... Silêncio absoluto.
__ Escrevo estas linhas sobre o impacto do desaparecimento de um dos maiores artistas da época de ouro do rádio: Cauby Peixoto, que comprovou, na exiguidade e na faixa etária dominante de seu séquito fúnebre, a ausência dessa memória. É profundamente doloroso para quem nasceu e cresceu embalado pela voz inconfundível e pelos hits melancólicos, mas bem construídos dessa época, vê-lo ir-se tão pouco acompanhado em seu último momento, ele que agradou a tantos, embora, neste caso, mais do que em qualquer outro, a qualidade se impõe a sobejas à quantidade.
__ Cauby pertence a uma época de alta qualidade e, principalmente, tremenda diversidade na música brasileira: samba, romântico, bossa nova, o começo da jovem guarda, sertanejo de qualidade em suas diversas manifestações, como o baião, o xaxado, a quadrilha, o picaresco, etc., de uma qualidade que ultrapassa o tempo e vai para a sepultura de seus autores e interpretes ou zunindo no ouvido de seus velhos fãs, inimaginável para quem se vive, agora, sepultado, literalmente sepultado, de músicas descartáveis de qualidade duvidosa, oriundas do falso sertanejo e do funk.
__ Cauby, e os grandes cantores do rádio tinham duas marcas inconfundíveis, hoje relegadas, uma voz potente, com uma afinação impecável, e um carisma, uma personalidade tamanha, que eles conseguiam projetá-la na sua interpretação, tornando-a inconfundível, mesmo quando escutada em um rádio cheio de ruídos de interferência. Entre os vozeirões, que eu ainda ouvi cantar, ressaltaria, correndo o risco de ser injusto, além de Cauby, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Aguinaldo Rayol, e, mais recentemente, Emílio Santiago, embora esses últimos já não conseguissem projetar tanto carisma como os anteriores. Mesmo aqueles que não tinham voz tão potente, como um Ivon Cury ou uma Clementina de Jesus, davam tal personalidade e timbre na voz que também se tornavam inconfundíveis para os seus fãs e os outros. Não vou falar das grandes divas da voz dessa época e posteriores por receio de esse artigo virar num tratado.
__ Não portavam um falso carisma, feito sob encomenda por um marqueteiro, não, eles eram autênticos, embora acalentassem alguma malandragem, como, no caso de Cauby, vestir camisas e ternos muito frágeis, para se rasgarem ao menor puxavante das fãs, exacerbando a sua popularidade. A sua inteligência superior, assim como autenticidade e a qualidade de seu carisma e de seu caráter, transpareciam nas entrevistas, onde ao contar detalhes de sua vida pessoal ou de sua carreira davam inesgotáveis lições de vida, que, mesmo aos de outra geração, Cauby era mais de vinte anos mais velho do que eu, prendia-nos, com os olhos grelados, diante da TV, torcendo para não sermos interrompidos. Esse “cara” sabia muito!
__ A mudança nesse patamar de qualidade, eu experimentei quando, escutando uma entrevista do famoso empresário circense Orlando Orfei, outro da geração de Cauby, vi o seu riquíssimo ser cortado abruptamente, para apresentar o do astro do momento: Ed Mota. Mota respondia com monossílabos, gaguejava, arrastava a voz como que procurando as palavras, parecia um analfabeto, um homem inculto, ou alguém que estava com a mente turvada por alguma química, e, é claro que do pouco que ele falava não se tirava nada... desliguei, ao mesmo tempo, a TV e o meu desejo de espatifá-la.
__ Por falar em Ed Mota, um grande diferencial entre Cauby, sua geração e os “novos” é que aqueles respeitavam e amavam os seus fãs, e faziam de tudo para cultivar a sua proximidade, inclusive cantando, à exaustão, o sucesso mais querido por aqueles. Isso é ser grato, reconhecer que o fã é realmente indispensável ao seu sucesso profissional, ao invés de esnobá-los nas redes sociais como fez Mota, num ataque de egolatria. Cauby se gabava de, ser “obrigado” a cantar várias vezes “Conceição”, em um mesmo show, junto com o povo, era o seu sucesso, a sua marca indelével, que o levaria ao túmulo, como de fato aconteceu. Mota desprezou o seu “Manuel”, e mostrou para os seus fãs que não passa de um “mané”, ansioso por agradar quem não lhe deu um centavo para fazê-lo chegar ao sucesso: os gringos, para quem Mota faz shows especiais.
__ Cauby tinha um “cacoete”. Tratava a todos por “professor”, ressaltando a sua humildade e a sua inteligência. Era um homem que buscava aprender com os outros e por isso tinha sempre tanto a ensinar a todos. Os espertos aprenderam. Ele também nos lembrava da época de ouro da educação e do povo brasileiro, quando nós tínhamos orgulho, embora às vezes um tanto ingênuo, de sermos o que éramos, indispensável para sermos o que precisaríamos ser, e que já não temos mais, mas que precisamos recuperar.
__ Mas, diria alguém, que importância pode ter para nós e o nosso país, a existência de um cantor tão idoso, com 85 anos, que fazia, quando muito, shows intimistas, a plateias pequenas e seletas, em lugares “pouco” frequentados, inviáveis em um Rock in Rio, um Lolapalooza, ou grandes eventos, mesmo porque a sua voz, seu principal patrimônio, já não é a mesma da juventude? Além do exemplo de amor ao trabalho e à sua profissão, os grandes do passado que ainda vivem e atuam, são a prova do potencial, da capacidade, hoje um tanto desacreditadas pelo discurso da esquerda ressentida, fracassada, manipuladora, e não educadora, das emoções populares, de nossa sociedade em se superar e criar realidades sublimes. Uma nação que cria e sustenta um artista do calibre de um Cauby Peixoto, é capaz de enfrentar e superar qualquer problema. Sim, para além do nosso complexo de inferioridade atual, do nosso complexo de vira-latas, nós somos um povo capaz de grandes realizações. Cauby era a prova viva disso.

__ Ele fez bem a sua parte, deu o melhor de si. Descanse em paz!

sábado, 14 de maio de 2016

A FALTA QUE ELES FAZEM

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Rússia, BR, EUA, Portugal, Argentina, Itália e Ucrânia. Deus os abençoe.

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__ Um dos comentaristas políticos mais respeitáveis, para mim, Gerson Camarotti, apareceu em um programa de TV, logo após a posse de Michel Temer, para destacar, desconsolado, a inexistência de “notáveis” no atual ministério, refletindo a opinião de não poucos. E eu fico pensado: “mas afinal o que essa gente entende por “notável”, e por que esse adjetivo adquire essa força na atual circunstância?”
__ Notável, em termos técnicos, são grandes especialistas em sua área. Senão vejamos: Albert Einstein foi o maior físico do mundo moderno, mas dado às suas excentricidades seu temperamento introvertido, quase antissocial, “teimoso como uma mula”, com ele próprio se qualificava, só um louco, ou um “notável”, o convidaria para fazer parte de uma equipe de governo, e quando o foi, Bem Gurion o convidou para ser presidente de Israel, ele recusou-se – reconheceu que era muito bom em lidar com fatos objetivos, mas não com pessoas. Com isso ele deixou de ser “notável” para ser inteligente, e mostrou mais juízo que o seu quase anfitrião. Nenhum dos maiores treinadores de futebol foi jogador de futebol de mesma envergadura.
__ Podemos entendê-lo também do ponto de vista político, com um homem capaz de mobilizar grandes multidões em torno de um ideal, embora aqui, como em circunstâncias análogas, valha mais a questão de quem veio antes: o ovo ou a galinha? Por exemplo: quem era Charles de Gaulle na derrocada francesa de 1940? Um mero coronel de infantaria, entusiasta de uma arma desacreditada. Foi o desejo da melhor parcela da população francesa em resistir ao nazismo que fez De Gaulle ser o que ele foi mais tarde. Não era Churchill, um velho prosaico e decadente político vitoriano, quando o desejo da nação inglesa de resistir a Hitler o convidou para liderar a nação? O único notável entre os grandes foi, decerto, Franklin Roosevelt, mas a política externa de Roosevelt era um horror! Os japoneses pegaram os americanos totalmente desprevenidos e as suas intervenções na Europa fizeram com a União Soviética saísse da guerra excessivamente prestigiada e a França quase rompida com a América. Notáveis eram também os grandes ditadores do momento: Hitler, Mussolini e Stalin. Desnecessário é falar de sua herança.
__ Resta-nos debruçar-nos sobre o sentido mitológico, no significado mais pejorativo possível deste termo, para entender-mos que “notáveis” são os velhos e surrados “salvadores da pátria”, absolutamente necessário aos povos que se recusam a amadurecer e teimam em agir como crianças diante da história, sempre esperando que alguém “maior” lhes diga o que fazer ou no que acreditar, ou pelos menos o impeça, com a sua presença, de fazer alguma bobagem ou crer que bobagens não estão sendo feitas, porque tudo isso, afinal, e uma grande bobagem. O que os “notáveis” do tempo de Collor fizeram que não estava previsto absolutamente em lei ou desbordasse das condições políticas do momento? Se não mudaram nada, porque são “notáveis”? Só por que deram uma aparência de que tudo estava bem, embora o país estivesse em pandarecos?
__ Nunca superaremos essa fase de um povo sem projeto, sem uma utopia nacional, pela qual valha a pena viver e até morrer, senão resistir, para defender essa utopia? Falo de uma utopia nacional, e não na de grupos fechados, de cunho patrimonialista, gestadas por elites econômicas, políticas e sindicais, de olho apenas no curto prazo e no segredo do cofre da nação. Vivemos e morremos, inclusive de doenças curáveis, pelas utopias dos outros, de facções, nunca por uma utopia que nos congregue como uma nação, simplesmente porque nenhuma nas duas ainda existe, nem uma utopia digna de uma nação nem o vice-versa, e a que existe, depois de outras seis, a Constituição de 1988, está com seu prazo de validade para lá de vencido...
__ É hora de construir outra utopia nacional, de zerar o país, mas não por meio de uma eleição presidencial a nos arrastar em um caudal de mentiras, calúnias e promessas irrealizáveis, com foram as eleições passadas, e Dilma só não é acusada e processada por crime de responsabilidade em virtude dessa campanha, porque a nação perdeu a sua bússola ética e moral, e precisa achá-la antes que não se ache mais nos mares revoltos de nosso momento histórico, mas antes de uma Assembleia Nacional Constituinte, que elabore uma outra utopia minimamente crível, que nos dê um norte e nos mantenha pelo menos navegando.

MAS QUE SONO!

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__ Vários analistas brasileiros, alguns dos quais reputados como pessoas ilustradas e inteligentes, que, inclusive, não são petistas, estão a repercutir, preocupados, as críticas vindas de alguns órgãos da imprensa estrangeira, especializada em ser estrangeira, sobre a ausência de mulheres, negros e outras minorias. Isso fede ao antigo modismo brasileiro de parecer politicamente correto ou não dar azo aos falatórios da vizinhança, mesmo sabendo que a vizinhança, e não falo apenas de alguns países da Amércia Latina, está longe de ser um modelo de seriedade institucional e até psiquiátrica, entenda-se aqui Venezuela, de onde vem a mais forte reação. Pobre gente!
__ A primeira questão é: o fato de o Governo Dilma estar lotado de mulheres, negros e outras minorias, impediu que este se tornasser o maior valhacouto de bandidos da República Brasileira? Como fica aquela conversa tão repetida nas eleições, quase como verdade de fé ou um dogma brasileiro, de que mulher sabe administrar melhor, mulher é mais honesta, blá, blá, blá? Isso é uma discriminação grosseira às avessas, ainda mais porque nós somos não o que nosso sexo, gênero ou coisa que o valha, além dos estereótipos sociais, culturais, nos impõem, mas antes frutos de uma escolha fundamental feita em um meio condicionante e estruturante, mas também pelo indivíduo condicionado e estruturado, que em um dado momento de sua vida, que só ele pode aquilatrar, faz a escolha que dirá que ele de fato é, que tipo de moral ou de escolhas ele fará ao longo de sua vida. A esse respeito reproduzo uma frase de ouro, feita por um homem de vida controvertida, mas inegavelmente muito inteligente e brilhante, o costureiro Clodovil Hernades, que disse: “EU NÃO ME ORGULHO DE SER HOMOSSEXUAL, ISSO FOI UMA ESCOLHA MINHA, EU ME ORGULHO DE SER QUEM EU SOU”, o que, inclusive o possibilitou de fazer a escolha que fez... Sábias, sábias, sábias palavras.
__ Precisamos parar de nos orientar pelo que outros, que não conhecem as especificidades de nossa cultura nem o nosso momento histórico, acham que seria o melhor para nós. Nesse item, por sinal, esquerda e direita dão um show de hipocrisia. Quando os manda-chuvas do FMI, que é um órgão da ONU, mandavam os brasileiros fazerem reformas liberalizantes na economia, abertura de mercado, etc. todos, em especial a esquerda, esganiçaram a defesa da soberania nacional, mas quando a UNESCO, que é órgão da ONU, começou a recomendar a inclusão de crianças especiais, prometendo inclusive financiamentos do Banco Mundial, os nossos políticos, em especial os da esquerda, acorreram supersônicos para lotar salas de aulas, já lotadas, de crianças especiais, que precisam de um tipo de assistência que as escolas públicas ainda não estavam, nem estão, preparadas para dar. Ninguém se importou, abalou ou fez qualquer manifestação mais contundente, afinal são só crianças! Bem diferente dos russos que, considerando as características de sua cultura, que são diferentes das do Brasil e do Ocidente em geral, recusaram-se, publicamente, a dar à questão ho homossexualismo o mesmo tratamento que é dado no Ocidente. É uma questão cultural, própria da evolução daquela sociedade, que, reitero, é diferente da nossa e da ocidental, e que não pode, por esta, ser obrigada e subvertê-la, para parecer politicamente correta, como nós as vezes nós fazemos, quando a questão envolve dinheiro.
__ Por fim ninguém pode ignorar que o PT aparelhou profundamente o Estado Brasileiro de sorte que, ao longo desses meses, e enquanto durar essa longa crise que o STF nos presenteou, ele fez e fará uso intensivo de todo o aparato a seu dispor para jogar seus aliados, dentro e fora do Brasil, contra o governo provisório, legítimo e legal que se abre. Ademais, se o povo não é “boçal”, como disse, em uma tirada muito infeliz, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, então porque os seus representantes legítimos e legais, deputado e senadores, por esmagadora maioria, não podem costurar uma saída provisória e emergencial para a hecatombe gerada por aqueles que subiram à rampa do Palácio nos braços desse mesmo povo, e que agora se encaminham, por suas próprias decisões, para as ladeiras da história?
__ O ritmo deve ser o nosso, a forma e o conteúdo devem ser os nossos, como nossos serão o prêmio e as desgraças que advirão se falharmos nessa tentativa. Que se danem eles! Vamos em frente!   

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sexta-feira, 13 de maio de 2016

A HORA DO PESADELO

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Rússia, EUA, BR, Portugal, Argentina, Ucrânia, Itália. Deus os abençoe.

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Os principais responsáveis pelo atual estado do Brasil e por suas futuras dificuldades.

__ Incendiário, irresponsável, sicofanta, sequelado, maníaco, esquizofrênico, rancoroso, descompensado, delirante, etc. Assim eu qualifico o discurso de despedida da senhora quase-presidenta diante do Palácio do Planalto, ao se despedir provisoriamente do seu cargo, ou nem sei mais como qualificar esse bicho criado pelo STF. Mas se tais adjetivos cabem à obra, no mesmo gênero e grau cabem à autora.
__ Nesse discurso Dilma Rousseff mostrou, à sobejas, que não está, e nunca esteve, preparada para o cargo que ocupou, que não entendeu, nem entende, o momento porque passa, e se o entende, então é uma das pessoas mais hipócritas que já sentou naquela cadeira, e olha que foram muitas! Seu discurso foi um ataque direto, contundente, contra todos que não se conformam aos seus delírios pessoais, e aos de seu partido, e contra tudo o que dá forma e consistência à república e à democracia neste país: partidos, instituições e leis, e, o que é mais notável e preocupante, conclamou a sua massinha de seguidores profissionais para, lutando contra aqueles, “defender a democracia”.
__ Para mim ficou clara a estratégia do núcleo duro do PT: aproveitar-se dos efeitos de seus erros catastróficos, para lança-los sobre as costas de seus inimigos, e ninguém faria isso sem um mínimo de sentimento de culpa se não estiver fortemente convencido que é vítima, mesmo sem o ser, de um “golpe”. Não foi assim que aconteceu com o governo Fernando Henrique, a quem coube tomar duras medidas para consertar as ruínas herdadas dos governos militares e seus compinchas, para entregar um estado enxuto ao PT, que depois o chamou de “herança maldita”? Da mesma forma como aconteceu com Campos Sales, em 1902, que foi obrigado a impor ao país sacrifícios imensos, para salvá-lo da derrocada financeira causada por medidas militares nacional-populistas e guerras civis, recebendo como paga a maior vaia já dada a um presidente em sua despedida, organizada por grupos ligados ao nacional-militarismo populista, que criou a necessidade de medidas tão duras, e que seria a versão século XIX das esquerdas atuais? Mas foi graças aos sacrifícios de Campos Sales que o presidente seguinte, Rodrigues Alves, pode fazer um dos governos mais dinâmicos da Primeira República.
__ Outro ponto da “profecia” é que o novo governo reprimirá os “movimentos sociais”, uma vez, é claro, que boa parte desses movimentos é apenas uma extensão do projeto totalitário do PT, de o partido absorver a sociedade civil. Eis a tática desse abjeto partido: jogar de maneira sistemática e provocativa, até o limite do insuportável, grupos de fanáticos e provocadores profissionais, contra instituições e pessoas, como forma de intimidação, forçando uma intervenção das forças de segurança, dizendo depois para as suas bases fanatizadas, e para o povo, de que está havendo repressão, conforme havia sido “predito”, justificando o apelativo de “golpe”. É fogo político proposital, supostamente controlado. A última vez que tentaram fazer isso em larga escala deu como resultado a Primeira Guerra Mundial. Essa gente está brincando com fogo, e nós no meio dele, e esse fogo só fará crescer, enquanto durar esse longo processo. Algo mais a agradecermos ao STF.
__ As provocações já começaram: mulheres descompensadas se atiraram sobre a rampa do Palácio, para desmoralizar a posse do vice, enquanto nas estradas, quadrilhas fecham o fluxo de veículos, e queimam pneus, destruindo o asfalto, feito com o suor e o dinheiro do povo brasileiro, para protestar contra o impedimento. É a inversão absoluta e doentia de valores; a aplicação da lei vira “golpe” e o combate à lei e às instituições “defesa da democracia”, a vida política neste país está virando uma farsa sem fim, até o dia em que os céus se cansarão; aí Deus abrirá mão de sua cidadania brasileira, e nos entregará ao julgamento correto, mas frio e insensível da história, de cujas sentenças não nos livraremos até pagarmos o último centavo.

APÓS 125 ANOS, UMA FARSA COM ARES DE TRAGÉDIA

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Conseguirão, Dilma e Lula, incendiar o Brasil?

__ Peço vênia a Marx, para inverter os termos de seu aforismo sobre a história, e dizer: “A história não se repete, e quando parece se repetir a primeira vez é como farsa, a segunda como tragédia”
* Dilma nasceu em Minas, mas fez carreira política no Rio Grande do Sul; Deodoro da Fonseca nasceu em Alagoas, mas começou sua carreira política no Rio Grande.
* Dilma foi expulsa do governo no seu segundo mandato; Deodoro foi tirado do governo no seu segundo mandato (o primeiro foi como presidente do Governo Provisório).
* Dilma foi tirada do governo pelo Congresso; e o Congresso tirou do governo a Deodoro da Fonseca.
* Dilma é substituída por um vice com o qual não se entendia; Deodoro foi substituído pelo seu desafeto, Floriano Peixoto.
* No seu primeiro mandato Dilma impôs um Ministro da Fazenda, Mantega, que quebrou o Brasil; no seu primeiro mandato, no governo provisório, o Ministro da Fazenda de Deodoro, Rui Barbosa, quebrou o Brasil com o encilhamento.
* O objetivo de Mantega era, com a intervenção do estado na economia, fortalecer setores da indústria nacional, contra o capital estrangeiro; O objetivo de Rui Barbosa era promover, via apoio estatal, a industrialização do Brasil, para reduzir a influência da cafeicultura paulista, tradicionalmente ligada ao capital estrangeiro.
* Dilma teve três ministros da fazenda; Deodoro teve três ministros da fazenda, e ambos tiveram um ministro de sobrenome Barbosa.
* O Vice, e sucessor, de Dilma enfrentará crises muitos fortes no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro; o vice, e sucessor, de Deodoro enfrentou crises fortíssimas nesses dois estados: Revolta da Armada e Revolução Federalista.
* O vice de Dilma é de São Paulo, o primeiro paulista a ocupar o governo federal em 110 anos, e decerto contará com o apoio decisivo de São Paulo; O vice de Deodoro, Floriano, era de Alagoas, mas só conseguiu manter-se no poder graças ao apoio decisivo de São Paulo, quando as forças federalistas, após ser assenhorarem do Paraná, já ameaçavam chegar até ao Rio De Janeiro.
* Na repressão ao avanço federalista as tropas paulistas, que invadiram o Paraná, cometeram a maior carnificina, justamente em Curitiba e no percurso da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, após uma fuga infame do governador local Vicente Machado, e de seu Comandante de Armas, caindo o comandante, mas sobrando o governador; o governador Beto Richa e o comandante de sua polícia promoveram uma carnificina impune contra os professores, da mesma forma com ficaram impunes os massacres de 1894, tendo-se salvo, apenas, a pele do governador. O governador Beto Richa é do PSDB, partido que tem o seu centro político principal em São Paulo.
__ A nossa história está se tornando perigosamente repetitiva, até aos mínimos detalhes. Será o prenúncio de uma tragédia?