SQUATTER: A OPERAÇÃO MAIS MALUCA DA 2ª GUERRA MUNDIAL
Eduardo Simões
David Stirling, nascido em 1915, era descendente de uma
série de nobres militares escoceses por parte de pai e do rei Carlos II, por
parte de mãe. Um nobre endinheirado, com uma fortuna suficiente para
sustentá-lo após sua expulsão do Trinity College de Cambridge, uma das
faculdades mais elitistas do Reino Unido, após 28 graves incidentes
disciplinares — nunca terminou a universidade — e sustentá-lo em sua busca
pessoal. Seja como artista em Paris e cowboy no sertão dos Estados Unidos,
procurando descobrir sua vocação.
Quando estourou a 2ª Guerra, ele, que já tinha um curso na
Guarda Escocesa, voltou para ela, até que, em meio às suas loucas aventuras e
violações do regulamento, resolveu inventar uma unidade militar de operações
especiais, para fazer ataques na retaguarda das tropas inimigas. Para obter
autorização e recursos do alto-comando, ele, mentindo e fingindo-se mais ferido
do que estava, entrou no quartel-general, e para não ser apanhado, após ser
reconhecido, invadiu o gabinete do general Ritchie, para quem falou do seu
projeto. Ritchie gostou e transmitiu a Sir Claude Auchinleck, o comandante
geral das tropas britânicas no Norte da África. Auchinleck aprovou, mas
adiantou: nada de recursos até mostrar algum retorno.
Stirling, que não era ‘comum’, juntou-se a outro... O
oficial de ligação da aeronáutica, e um dos mais qualificados e condecorados
agentes coletores de informação do exército britânico, Dudley Clark, de família
humilde, mas aventureira, que alcançou a patente de brigadeiro, apesar de seus
disfarces nada convencionais (abaixo) — mas, dizem, fora isso Clark tinha fama
de andar sempre acompanhado de belas mulheres, e talvez por isso, ou nem tanto,
além de não gostar de crianças, sem falar que, para um homem nascido no século
XIX, seria difícil explicar esses disfarces para os filhos, ele nunca se casou.
Foi coerente.
Da junção dos dois doidos, nasceu, em 1941, no Norte da
África, o SAS (Special Air Service), uma unidade irregular de combate, que
deveria saltar de paraquedas para fazer ações de sabotagem na retaguarda dos
inimigos. Foram admitidos na unidade vários dos piores soldados de outras
unidades do front — como o irlandês beberrão Paddy Maine, recém-saído da prisão
por ter nocauteado o seu superior; nada especial para quem já nocauteou um
cavalo com um soco, e que fará uma brilhante carreira no SAS. O treinamento era
maluco; como não havia recursos para criar todo o aparato de treino, inclusive
a torre de salto, os voluntários eram jogados de caminhões em alta velocidade,
simulando a aterrissagem com paraquedas. Stirling mesmo os empurrava. Algumas
costelas e braços tiveram que ser reparados. Falhas no equipamento de salto (o
cabo estático) abreviaram a vida de dois voluntários, mas no dia seguinte os
oficiais foram os primeiros a saltar para provar que o equipamento havia sido
consertado.
Quando começou a operação Crusader, do exército inglês, em
1941, Stirling achou que era hora do SAS fazer a sua aparição, por meio de uma
operação contra os campos de pouso alemães na retaguarda, na OPERAÇÃO SQUATTER
(invasor). Na noite de 16 para 17 de novembro de 1941, a totalidade do SAS,
entre 60 e 50 homens, saiu para a missão sem se importar com o tempo — sua
missão era atacar aeroportos e comboios ítalo-germânicos na retaguarda. Boa
parte de seu equipamento era improvisado ou roubado de outras unidades do
exército inglês. Chegados ao solo, fariam a pé seu deslocamento para os alvos.
Quando estavam sobrevoando a área de salto, perceberam estar em cima de uma
tempestade de areia. Stirling não hesitou: saltou com todos os seus homens —
algo como um grupo saltar de paraquedas no meio de uma tempestade de ventos. As
chances de morrer ou se quebrar feio no salto são de quase 100%.
Dos quase 60 que saltaram, só uns 21 ou 22 sobreviveram,
após andarem umas 36 horas pelo deserto do Saara, até chegar ao ponto de
encontro, entre eles o próprio Stirling. Era impossível continuar a operação.
Eles então voltaram e ainda posaram para uma foto onde aparecem os
sobreviventes, inclusive o fotógrafo, do qual só aparece a sombra. Stirling,
com seu metro e noventa e oito, se destaca. Depois dessa, melhor treinados, os
SAS se tornaram uma tropa lendária, capaz das missões impossíveis de verdade,
modelo de todas as outras que lhe seguiram. E, com isso, o jovem louco, que não
sabia o que fazer da vida, escreveu um nome gigante na história militar, até
morrer, em 1990, com um título de nobreza conquistado ao enfrentar, e ensinar
outros homens a enfrentar, missões que a quase totalidade das pessoas comuns
classificaria como impossíveis.
O lema da unidade era: “Quem ousa, vence”, e o principal
general inglês na guerra, Bernard Montgomery, exprimiu com exatidão quem era
Stirling: “o rapaz Stirling é louco, completamente, completamente louco. No
entanto, numa guerra, há lugar para os loucos.”
Vejam o que diz o texto da Wikipedia em português sobre o
SAS de Stirling, onde se percebe a importância dessa iniciativa de Stirling na
criação de unidades similares do mundo inteiro, redefinindo a forma de as
forças de segurança e militares lidarem com situações extremas.
“É considerada a primeira “SOF - Special Operation
Force” e criadora das operações tipo “Destrua e Fuja”. Dentre diversas
forças especiais, a SAS é uma das mais respeitadas do mundo, pelo fato de ser
uma unanimidade, assim mantendo uma influência tão grande
no Ocidente como na Spetsnaz GRU da Rússia e
no Oriente.
Muitos grupos de operações especiais do mundo foram
inspirados no SAS Britânico, como: a Força Delta americana, Sayeret
Matkal de Israel, GSG 9 [da polícia alemã], Special Air
Service Regiment [da Australia], KSK [do exército alemão], GIGN [da
polícia francesa], GOE [da polícia portuguesa], o GROM da Polônia, SFF-SG
da Índia.”
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