quarta-feira, 29 de julho de 2026

 

SQUATTER: A OPERAÇÃO MAIS MALUCA DA 2ª GUERRA MUNDIAL

Eduardo Simões

David Stirling, nascido em 1915, era descendente de uma série de nobres militares escoceses por parte de pai e do rei Carlos II, por parte de mãe. Um nobre endinheirado, com uma fortuna suficiente para sustentá-lo após sua expulsão do Trinity College de Cambridge, uma das faculdades mais elitistas do Reino Unido, após 28 graves incidentes disciplinares — nunca terminou a universidade — e sustentá-lo em sua busca pessoal. Seja como artista em Paris e cowboy no sertão dos Estados Unidos, procurando descobrir sua vocação.

Quando estourou a 2ª Guerra, ele, que já tinha um curso na Guarda Escocesa, voltou para ela, até que, em meio às suas loucas aventuras e violações do regulamento, resolveu inventar uma unidade militar de operações especiais, para fazer ataques na retaguarda das tropas inimigas. Para obter autorização e recursos do alto-comando, ele, mentindo e fingindo-se mais ferido do que estava, entrou no quartel-general, e para não ser apanhado, após ser reconhecido, invadiu o gabinete do general Ritchie, para quem falou do seu projeto. Ritchie gostou e transmitiu a Sir Claude Auchinleck, o comandante geral das tropas britânicas no Norte da África. Auchinleck aprovou, mas adiantou: nada de recursos até mostrar algum retorno.

Stirling, que não era ‘comum’, juntou-se a outro... O oficial de ligação da aeronáutica, e um dos mais qualificados e condecorados agentes coletores de informação do exército britânico, Dudley Clark, de família humilde, mas aventureira, que alcançou a patente de brigadeiro, apesar de seus disfarces nada convencionais (abaixo) — mas, dizem, fora isso Clark tinha fama de andar sempre acompanhado de belas mulheres, e talvez por isso, ou nem tanto, além de não gostar de crianças, sem falar que, para um homem nascido no século XIX, seria difícil explicar esses disfarces para os filhos, ele nunca se casou. Foi coerente.



Da junção dos dois doidos, nasceu, em 1941, no Norte da África, o SAS (Special Air Service), uma unidade irregular de combate, que deveria saltar de paraquedas para fazer ações de sabotagem na retaguarda dos inimigos. Foram admitidos na unidade vários dos piores soldados de outras unidades do front — como o irlandês beberrão Paddy Maine, recém-saído da prisão por ter nocauteado o seu superior; nada especial para quem já nocauteou um cavalo com um soco, e que fará uma brilhante carreira no SAS. O treinamento era maluco; como não havia recursos para criar todo o aparato de treino, inclusive a torre de salto, os voluntários eram jogados de caminhões em alta velocidade, simulando a aterrissagem com paraquedas. Stirling mesmo os empurrava. Algumas costelas e braços tiveram que ser reparados. Falhas no equipamento de salto (o cabo estático) abreviaram a vida de dois voluntários, mas no dia seguinte os oficiais foram os primeiros a saltar para provar que o equipamento havia sido consertado.

Quando começou a operação Crusader, do exército inglês, em 1941, Stirling achou que era hora do SAS fazer a sua aparição, por meio de uma operação contra os campos de pouso alemães na retaguarda, na OPERAÇÃO SQUATTER (invasor). Na noite de 16 para 17 de novembro de 1941, a totalidade do SAS, entre 60 e 50 homens, saiu para a missão sem se importar com o tempo — sua missão era atacar aeroportos e comboios ítalo-germânicos na retaguarda. Boa parte de seu equipamento era improvisado ou roubado de outras unidades do exército inglês. Chegados ao solo, fariam a pé seu deslocamento para os alvos. Quando estavam sobrevoando a área de salto, perceberam estar em cima de uma tempestade de areia. Stirling não hesitou: saltou com todos os seus homens — algo como um grupo saltar de paraquedas no meio de uma tempestade de ventos. As chances de morrer ou se quebrar feio no salto são de quase 100%.

Dos quase 60 que saltaram, só uns 21 ou 22 sobreviveram, após andarem umas 36 horas pelo deserto do Saara, até chegar ao ponto de encontro, entre eles o próprio Stirling. Era impossível continuar a operação. Eles então voltaram e ainda posaram para uma foto onde aparecem os sobreviventes, inclusive o fotógrafo, do qual só aparece a sombra. Stirling, com seu metro e noventa e oito, se destaca. Depois dessa, melhor treinados, os SAS se tornaram uma tropa lendária, capaz das missões impossíveis de verdade, modelo de todas as outras que lhe seguiram. E, com isso, o jovem louco, que não sabia o que fazer da vida, escreveu um nome gigante na história militar, até morrer, em 1990, com um título de nobreza conquistado ao enfrentar, e ensinar outros homens a enfrentar, missões que a quase totalidade das pessoas comuns classificaria como impossíveis. 

O lema da unidade era: “Quem ousa, vence”, e o principal general inglês na guerra, Bernard Montgomery, exprimiu com exatidão quem era Stirling: “o rapaz Stirling é louco, completamente, completamente louco. No entanto, numa guerra, há lugar para os loucos.”

Vejam o que diz o texto da Wikipedia em português sobre o SAS de Stirling, onde se percebe a importância dessa iniciativa de Stirling na criação de unidades similares do mundo inteiro, redefinindo a forma de as forças de segurança e militares lidarem com situações extremas.

“É considerada a primeira “SOF - Special Operation Force” e criadora das operações tipo “Destrua e Fuja”. Dentre diversas forças especiais, a SAS é uma das mais respeitadas do mundo, pelo fato de ser uma unanimidade, assim mantendo uma influência tão grande no Ocidente como na Spetsnaz GRU da Rússia e no Oriente.

Muitos grupos de operações especiais do mundo foram inspirados no SAS Britânico, como: a Força Delta americana, Sayeret Matkal de Israel, GSG 9 [da polícia alemã], Special Air Service Regiment [da Australia], KSK [do exército alemão], GIGN [da polícia francesa], GOE [da polícia portuguesa], o GROM da Polônia, SFF-SG da Índia.”


A foto parece dizer: “já que a guerra é inevitável e não fomos nós que a fizemos, e sim os políticos, por que não vivê-la como uma aventura?” Stirling conversa com uma equipe do SAS recém-retornada de uma missão de 3 meses, no dia 18 de janeiro de 1943. Ele conversa com o tenente Edward McDonald, do destacamento L.

Grupo francês do SAS na Tunísia, em 1943, mostrando que até na guerra os franceses fazem questão de parecer mais elegantes que os ingleses. Ambos os grupos igualmente mortais.


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