segunda-feira, 20 de julho de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 32

Notas de Rio de Janeiro

1 - Antônio Coelho Rodrigues, A república na América do Sul — ou um pouco de história e crítica oferecido aos latino-americanos, vol. 231, Senado, Brasília, 2016.

2 - Anais do Senado do Império do Brasil 1888 — livro 1, transcrição, Secretaria Especial de Editoração e Publicações — Subsecretaria de Anais do Senado, 6ª sessão em 12 de maio de 1888.

3 - Os Sertões, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 295.

4 - Revista Defesa Nacional, nº 639, set/out, 1971.

5 - Walnice Galvão, No calor da hora — a Guerra de Canudos nos jornais (4ª Expedição), 4ª edição, Cepe, Recife, 2019, Kindle, p. 267).

6 - É bom que se saiba que a eleição do próprio Congresso Constituinte ficou longe de ser democrática ou minimamente respeitável, para os padrões republicanos. Diz Hélio Silva, em O poder civil, com a colaboração de Maria Ribas Cecília Carneiro, LePM editores, p. 9.

7 - Conforme Edgar Carone e outros, as reuniões conspiratórias na casa de Floriano eram conhecidas, e inclusive a professora das filhas dele — a esposa do coronel Joaquim Mursa — era utilizada como ‘correio’ entre os conspiradores. Certa vez, indagado pelo Barão de Lucena, o ministro de Deodoro sobre sua simpatia com os oposicionistas, Floriano dirá que ‘não era verdade’, ele somente ‘recebia os parlamentares [da oposição] a fim de aconselhá-los à moderação e à tolerância’.

Não é uma gracinha! Quem tem um amigo como Floriano não precisa de inimigo, pois já os tem em demasia. Outro livro de Hélio Silva, em parceria com Maria Cecília Ribas Carneiro, sobre o assunto é Nasce a República 1888–1894 – História da República Brasileira, Editora Três, Rio de Janeiro, 1975.

8 - Visconde do Ouro Preto, Advento da ditadura militar no Brasil, vol. 243, Senado Federal, Brasília, 2017, p. 46.

9 — Helio Silva — Maria Cecília Ribas Carneiro, 1889, a república não esperou o amanhecer, LP&M, Porto Alegre, 2005.

10 — Para quem não sabe, quando as tropas de Deodoro da Fonseca cercaram o quartel-general onde estavam refugiados os ministros do Império, em 15 de novembro de 1889, o Visconde de Ouro Preto solicitou que Floriano agisse, e ele disse que não poderia porque os revoltosos tinham canhões. Então, Ouro Preto lembrou que, na Guerra do Paraguai, ele havia atacado canhões sem nenhum problema, e ele respondeu algo assim: “No Paraguai, os canhões eram inimigos; aqui, somos todos brasileiros” — essa frase enchia os antigos brasileiros de estremecimentos patrióticos. Porém, quando chegou a hora de defender a sua permanência no poder, ele não hesitou em chamar estrangeiros, inclusive inimigos recentes, para massacrar brasileiros — os dois irmãos que assassinaram e profanaram o cadáver do almirante Saldanha eram uruguaios. 

11 — Segundo o Almirante de Esquadra Fonseca Hermes, no artigo “Os militares e a política durante a República”, publicado na Revista Marítima Brasileira, no 2ºT, do ano 2000, o partido de Prudente mostrou-se muito dividido a respeito da paz no Rio Grande do Sul. “Campos Sales, Manoel Vitorino, Leopoldo Bulhões e muitos outros são unânimes em aceitar o protocolo do acordo… Francisco Glicério e Quintino Bocaiúva achavam que a paz era um acinte à política do Marechal Floriano Peixoto e defendiam a rendição incondicional dos rebeldes. Esta posição… é a mesma… de Pinheiro Machado, representante oficial do castilhismo (p. 30). O acordo final deixou ainda lacunas, que só seriam resolvidas na Revolução Gaúcha de 1923, pela força das armas.”

12 — O sepultamento de Floriano no cemitério de São João Batista se deu no dia 6 de julho de 1895, depois que o seu mausoléu ficou pronto, e contou com ampla participação de populares e políticos, inclusive de Prudente de Morais. Quando Morais se retirou, os intratáveis jacobinos tomaram conta do lugar e começaram uma sequência de discursos extremamente agressivos, tanto no seu elogio ao morto, como hostis ao Presidente da República e outros supostos inimigos do marechal. Entre eles se destacou, pela intensidade e destempero, o escritor Raul Pompeia, um funcionário público, que por conta disso perdeu um rendoso emprego na Biblioteca Nacional e começou a sofrer isolamento dos intelectuais favoráveis a Prudente e dos oportunistas. Em 3 de outubro de 1895, Pompeia tenta se justificar com um artigo na página 4 do jornal O Paiz, chamado Clamor maligno, onde acusa seus acusadores. A resposta veio pelo poeta e jornalista Luís Murat, na primeira página do jornal O Comércio de São Paulo, no artigo chamado Um louco no cemitério, que reprova fortemente o discurso. Murat, porém, não fica só nisso e comenta, destratando, um quase duelo entre Pompeia e Olavo Bilac, em 1892, quando Pompeia foi vaiado, chamando-o, por meio de um terceiro, “o maior covarde que eu já vi”, além de referência explícita a uma suposta preferência homossexual de Pompeia, já nascida no lançamento de O Ateneu, em 1888. Pompeia escreve uma resposta a Murat, mas os jornais recusam-se a publicá-la, e o bullying sobre Pompeia, vindo de todas as partes, só aumentou. Na noite de Natal, de 24 para 25 de dezembro de 1895, Pompeia, inesperadamente, se mata com um tiro no peito, diante de sua mãe e irmã, aos 35 anos. As duas eram estritamente dependentes da renda que ele trazia com seu trabalho. Num evento que mostra como poucos a essência da sociedade nacional. 

13 — Segundo O Paiz, Floriano, nesse momento, respondia às cartas que vários admiradores lhe mandaram, entre eles um tal general Mena Barreto, que suponho ser o Tenente-Coronel Antônio Adolfo da Fontoura Mena Barreto, em ação na Revolta Federalista, que ainda transcorria. Ele então incumbe seu médico, Dr. Pedro Nolasco, de terminar essa carta, devendo tecer os maiores elogios ao valente oficial pela defesa brilhante da República no Rio Grande do Sul. Segundo o Almirante Fonseca Hermes, o bilhete, que depois ficou conhecido como o Testamento Político de Floriano, foi achado na hora de preparar o cadáver, num dos bolsos do Marechal, talvez para ninguém dissesse que ele estava ansioso para ver o país pegar fogo. Nem desse texto, feito na hora extrema, ele, o homem que não sabia de nada, assumiu a autoria! O testamento é uma síntese do seu pensamento tortuoso, estreito e obsessivo contra a ordem civil e o estado de direito, e um lembrete de sua ‘mania’ estratégica, de ver conspirações monarquistas em toda parte, urgindo um implacável esmagamento. O “inválido da Pátria” estava velho demais para se expor às primeiras linhas do front, mas não para não insuflar jovens cadetes a odiar e massacrar por ele e em favor dele. Mesmo longe do poder, ele continuava envenenando o ambiente, jogando uns contra os outros, como num governo paralelo, crente, ou querendo crer, que só ele podia salvar o Brasil, das quimeras que a sua mente fantasiava.

14 — O interesse de Castilho na guerra também era econômico, pois, enquanto durasse, o governo federal mandaria dinheiro para a manutenção das tropas, para os fornecedores de suprimentos, em geral grandes proprietários (carne, artesanato de couro, indústria têxtil, propinas, etc.), e estes, por sua vez, o apoiariam nas demandas estaduais, contra a oposição, em destrutivas e disfuncionais operações de guerra, atrasando a estabilidade do país e do estado. O estudioso gaúcho Gunther Axt diz em um artigo: “Em junho de 1895, a força legalista na guerra civil montava a quase 24 mil combatentes, sendo apenas 8.300 das tropas de linha. Os demais eram provisórios, muitos dos quais haviam transformado o engajamento em um… negócio, pois recebiam soldo, armamento, fardamento e ainda tinham relativa permissão para perseguir desafetos e praticar saques e confiscos. A desmobilização [em virtude das tratativas de paz]… suscitava resistências” (Gunther Axt, Ordem e terror limite: a cidadela do Cati na fronteira do Brasil com o Uruguai entre 1896 e 1909, Cadernos do Lepaarq, número 35, janeiro–junho 2021, p. 60).

Castilhos… não pretendia aceitar a anistia dada pelo governo federal aos revoltosos de 1893 e pretendia aplicar uma lição ao governo uruguaio, que, durante a contenda, tolerou mobilização [dos federalistas] em seu território. João Francisco… coadjuvou secretamente com o caudilho blanco Aparício Saraiva nas revoluções do Partido Nacionalista, estaladas entre 1897 e 1904 [dentro do Uruguai], contrabandeando armas e munições (idem, Tiroteio e mortes no clube Pinheiro Machado (Santana do Livramento 1910) — entre cisão partidária local e crise internacional, História (São Paulo), vol. 41, 2022, p. 3).

 


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