terça-feira, 28 de julho de 2026

 



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PESQUISAS GENÉTICAS NAS POPULAÇÕES AMERICANAS

[Artigo traduzido do site do Florida Museum].

O DNA antigo reconta a história dos primeiros habitantes do Caribe.

Por Natalie van Hoose • 23 de dezembro de 2020
  
A história dos habitantes originais das ilhas do Caribe ganha maior nitidez em um novo estudo publicado na revista Nature , que combina décadas de trabalho arqueológico com avanços na tecnologia genética.
Uma equipe internacional liderada por David Reich, da Escola de Medicina de Harvard, analisou os genomas de 263 indivíduos no maior estudo de DNA humano antigo nas Américas até o momento. A análise genética traça duas grandes ondas migratórias no Caribe, realizadas por dois grupos distintos, com milhares de anos de diferença, revelando um arquipélago povoado por povos altamente nômades, com parentes distantes frequentemente vivendo em ilhas diferentes.

O laboratório de Reich também desenvolveu uma nova técnica genética para estimar o tamanho da população no passado, mostrando que o número de pessoas que viviam no Caribe quando os europeus chegaram era muito menor do que se pensava anteriormente — provavelmente dezenas de milhares, em vez do milhão ou mais relatado por Colombo e seus sucessores.
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Os arqueólogos frequentemente se baseiam em vestígios da vida doméstica — cerâmica, ferramentas, ossos e conchas descartadas — para reconstruir o passado. Agora, avanços tecnológicos no estudo do DNA antigo estão lançando nova luz sobre a movimentação de animais e humanos, particularmente no Caribe, onde cada ilha pode ser um microcosmo de vida único.

Embora o calor e a umidade dos trópicos possam decompor rapidamente a matéria orgânica, o corpo humano contém um verdadeiro cofre de material genético: uma pequena parte do osso que protege o ouvido interno, excepcionalmente densa. Utilizando principalmente essa estrutura, pesquisadores extraíram e analisaram o DNA de 174 pessoas que viveram no Caribe e na Venezuela entre 400 e 3.100 anos atrás, combinando os dados com o DNA de 89 indivíduos previamente sequenciados.
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Duas ondas populacionais, separadas por milhares de anos.



Essas lâminas representam a tecnologia do início da Idade Arcaica e eram usadas para cortar, cavar, fabricar ferramentas como lanças e pontas, e preparar arbustos para construções. Foto do Museu da Flórida por William Keegan

As evidências genéticas oferecem novas perspectivas sobre o povoamento do Caribe. Os primeiros habitantes das ilhas, um grupo de usuários de ferramentas de pedra, chegaram a Cuba de barco há cerca de 6.000 anos, expandindo-se gradualmente para o leste, para outras ilhas, durante o período Arcaico da região. Sua origem permanece incerta — embora sejam mais aparentados com os povos da América Central e do Sul do que com os da América do Norte, sua genética não corresponde à de nenhum grupo indígena específico. No entanto, artefatos semelhantes encontrados em Belize e Cuba podem sugerir uma origem centro-americana, afirmou Keegan.

Há cerca de 2.500 a 3.000 anos, agricultores e ceramistas aparentados aos povos de língua arawak do nordeste da América do Sul [muito presentes no Brasil] estabeleceram uma segunda rota para o Caribe. Utilizando os braços do rio Orinoco como rodovias, eles viajaram do interior até a costa da Venezuela e seguiram para o norte, em direção ao Mar do Caribe, estabelecendo-se em Porto Rico e, eventualmente, migrando para o oeste. Sua chegada marcou o início da Era da Cerâmica na região, caracterizada pela agricultura e pela produção e uso generalizados de cerâmica.

Com o tempo, quase todos os vestígios genéticos dos povos da Era Arcaica desapareceram, com exceção de uma comunidade isolada no oeste de Cuba que persistiu até a chegada dos europeus [os cálculos apontam para o desaparecimento de até 98% dos portadores desses genes]. Casamentos entre os dois grupos eram raros, com apenas três indivíduos no estudo apresentando ancestralidade mista.
Muitos cubanos, dominicanos e porto-riquenhos da atualidade são descendentes de povos da Idade da Cerâmica, bem como de imigrantes europeus e africanos escravizados. No entanto, pesquisadores observaram apenas evidências marginais de ancestralidade da Idade Arcaica em indivíduos modernos.
“Isso é um grande mistério”, disse Keegan. “Para Cuba, é especialmente curioso que não vejamos mais ancestralidade arcaica.”

Mudanças nos estilos de cerâmica não estão relacionadas a novas migrações.


Esses vasos em forma de efígie são exemplos de cerâmica saladóide [um tipo específico de cultura ceramista, em Saladero, nas margens do rio Orinoco, na Venezuela], caracterizada por pintura branca sobre fundo vermelho e formas ornamentadas. Foto cedida por Corinne Hofman.

Durante a Era Cerâmica, a cerâmica caribenha passou por pelo menos cinco mudanças marcantes de estilo ao longo de 2.000 anos. A cerâmica vermelha ornamentada, decorada com desenhos pintados de branco, deu lugar a vasos simples, de cor bege, enquanto outros vasos eram pontuados com pequenos pontos e incisões ou apresentavam rostos de animais esculpidos que provavelmente também serviam como alças.

Alguns arqueólogos apontaram essas transições como evidência de novas migrações para as ilhas. Mas o DNA conta uma história diferente, sugerindo que todos os estilos foram desenvolvidos por descendentes das pessoas que chegaram ao Caribe há 2.500 a 3.000 anos, embora possam ter interagido e se inspirado em povos de fora.

“Essa era uma pergunta que talvez não tivéssemos pensado em fazer se não tivéssemos um especialista em arqueologia em nossa equipe”, disse a coautora principal Kendra Sirak, pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório Reich. “Documentamos essa notável continuidade genética ao longo das mudanças no estilo da cerâmica. Falamos sobre 'vasos versus pessoas', e, até onde sabemos, são apenas vasos.”

Estudos genéticos revelam conexões familiares entre ilhas

Destacando a interconectividade da região, um estudo de cromossomos X masculinos revelou 19 pares de “primos genéticos” vivendo em ilhas diferentes — pessoas que compartilham a mesma quantidade de DNA como primos biológicos, mas que podem estar separadas por gerações. No exemplo mais impressionante, um homem foi enterrado nas Bahamas enquanto seu parente foi sepultado a cerca de 965 quilômetros de distância, na República Dominicana.
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Descobrir uma proporção tão alta de primos genéticos em uma amostra de menos de 100 homens é mais um indicador de que o tamanho total da população da região era pequeno, disse Reich, professor de genética no Instituto Blavatnik da HMS e professor de biologia evolutiva humana em Harvard.
Quando você analisa amostras de dois indivíduos modernos, raramente descobre que eles são parentes próximos”, disse ele. “Aqui, estamos encontrando parentes em todos os lugares.”
Revisão das estimativas do tamanho da população caribenha

Uma técnica desenvolvida pelo coautor do estudo, Harald Ringbauer, pós-doutorando no Laboratório Reich, usou segmentos compartilhados de DNA para estimar o tamanho da população no passado, um método que também poderia ser aplicado a futuros estudos de povos antigos. A técnica de Ringbauer mostrou que cerca de 10.000 a 50.000 pessoas viviam em duas das maiores ilhas do Caribe, Hispaniola e Porto Rico, pouco antes da chegada dos europeus [em todo o Caribe talvez fossem uns 80 mil]. Isso está muito aquém do milhão de habitantes que Colombo descreveu a seus patronos, provavelmente para impressioná-los, disse Keegan.

Mais tarde, o historiador do século XVI, Bartolomé de las Casas, afirmou que a região abrigava 3 milhões de pessoas antes de ser dizimada pela escravidão europeia e por doenças. Embora isso também fosse um exagero, o número de pessoas que morreram em decorrência da colonização continua sendo uma atrocidade, disse Reich.

Neste momento, não me importo se estou certo ou errado”, disse ele. “É simplesmente empolgante ter uma base mais sólida para reavaliar como encaramos o passado no Caribe. Um dos resultados mais significativos deste estudo é que ele demonstra a importância da cultura para a compreensão das sociedades humanas. Os genes podem ser unidades discretas e mensuráveis, mas o genoma humano é construído culturalmente.”

Daniel Fernandes , da Universidade de Viena e da Universidade de Coimbra, em Portugal, também foi co-primeiro autor do estudo. Outros co-autores seniores são Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza de Roma, Mark Lipson, da Harvard Medical School e Harvard, e Ron Pinhasi, da Universidade de Viena.
Este trabalho foi financiado pela National Geographic Society, National Science Foundation, National Institutes of Health/National Institute of General Medical Sciences, Paul Allen Foundation, John Templeton Foundation e Howard Hughes Medical Institute.

O original em inglês
https://www.floridamuseum.ufl.edu/science/ancient-dna-retells-story-of-caribbeans-first-people/


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