ODISSEIA DE NOLAN: ENTRE A TESTOSTERONA DOMESTICADA E A VIOLÊNCIA GRATUITA
Eduardo Simões
(tem spoiler)
As pessoas normalmente não perguntam, talvez porque temam a resposta, por que o homem frequentemente age com tanta intensidade e ‘perde’ a cabeça, causando muitos momentos constrangedores e até tragédias? Entretanto, se observassem bem, sem negar a importância dos fatores hormonais, afinal sobram pesquisas evidenciando os efeitos estressantes de doses extras de testosterona no comportamento masculino e feminino, veriam que esses momentos estão bastante ligados a pessoas a quem foram sonegadas as chances de uma boa educação, um entorno ‘sadio’ além de pai e mãe modelares.
Que fique bem claro: o ideal de comportamento socialmente aceito, capaz de conter os arroubos hormonais em limites socialmente aceitáveis, deve conectar-se com o entorno da criança e do adolescente. Não se pode esperar um comportamento pacífico, racional, num meio social agressivo, estressado, ou numa família onde os cônjuges e parentes adultos próximos não sabem se conter, porque são psicológica e socialmente imaturos. Há uma complementaridade necessária entre a atuação dos hormônios e a educação da criança.
Antes que se busque apressadamente condenar os impulsos naturais desse hormônio, é bom considerar que o amor exacerbado pela aventura, pelo desafio e até a confrontação violenta, estão de mãos dadas com a paixão por alguém, com as 'loucuras' que os homens fizeram ou fazem para ficar próximos de quem amam, etc., pois tudo isso também tem a ver com testosterona. Os antigos sabiam disso, e já haviam colocado no seu panteão deusas que assumiam ao mesmo tempo a função de protetoras do amor e da fertilidade e a da guerra, tais foram: Inana, na Suméria, Astarté, na Fenícia, Freya entre os nórdicos, a Vênus dos romanos, etc. Os gregos engendraram uma solução genial: casaram Afrodite com Marte.
Era uma mistura de amor à família e à aventura que fazia os homens deixarem a segurança da fogueira de sua caverna para se aventurar em campo aberto, enfrentando gatos maiores do que os leões atuais com caninos de 30 cm. Só muito doido, muito apaixonado ou sob o efeito de alguma ‘droga’. E essa droga era a testosterona! Um coadjuvante poderoso na construção das civilizações nos quatro cantos do planeta, inclusive no fato de milhares de homens se enfiarem em frágeis embarcações para enfrentarem outros a 580 km dali, sem conhecerem bem os seus recursos militares.
Onde não há testosterona, decerto não há muita inteligência, a começar pela construção de um cavalo empinado, para enganar os troianos, colocado num local onde a maré alta o alcançava, quase afogando os seus moradores. Não perceberam aonde ia a linha de maré mesmo após terem morado por dez anos naquelas praias! Os cearenses diziam, fazendo graça: “é tão inteligente que é burro”. Mas sem isso se perderia uma oportunidade para suspense, inclusive quando, graças à única posição possível do cavalo, ‘deitado no chão’, os troianos começam a espetá-lo com espada, sem se lembrarem de arrombar a portinha na barriga que naquela posição ficava bem visível. Que dizer do amontoado desgraçado em que dezenas de homens ficariam, uns sobre os outros, no traseiro do cavalo, ou no seu reto! Tudo pelo suspense.
Outra patacoada é que, pela dimensão do cavalo e a postura do bicho, seria impossível passar pelas portas da muralha; e o bicho passou sem um arranhão e portas intactas!? E não podia ser diferente, pois se perderia o suspense gerado pela lenta abertura do travessão da porta pelos gregos, enquanto os troianos, alertados, vinham combatê-los em massa. Tudo pelo suspense.
Dentro da cidade, outra bizarrice muito politicamente correta. O povo se revolta fortemente contra o cavalo e quer que os governantes o rejeitem, afinal, o povo sempre tem razão, mesmo se considerarmos que em 1200 a.C. a ideia de povo era a mesma que a de ‘filhos’, e os filhos obedecem prontamente aos pais. De repente, estamos em pleno século XXI depois de Cristo, onde foi comprovada a sabedoria do povo em episódios como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Revolução Cubana, o Khmer Vermelho, todas bem-sucedidas e prósperas.
Os gregos, como no original, saíram da barriga do cavalo, mas naquele cavalo havia um lugar por onde eles sairiam mais rápido e com menos sacrifício, só pela força da gravidade, embora com bem menos dignidade. Mas já que ninguém viu a portinha da barriga, eles até poderiam ter saído pelos olhos que não tiraria nem acrescentaria nada do filme.
No filme, a personagem de Hathaway comenta seu temor em relação aos ‘povos do mar’, algo formidável, pois esse termo, utilizado nesse contexto, só foi criado em 1855, pelo egiptólogo francês Emanuel Rougé. Que dizer da consciência de Ulisses de estar vivendo na ‘Idade do Bronze’, um conceito criado apenas em 1836, por Christian Tomsen? Isso é o que dá em utilizar erudição como penduricalhos em uma história malfeita.
Os lestrigões, assim como os ciclopes, eram primitivos, gigantescos e canibais, representavam forças antigas e instintivas que só sabiam se impor pela força. No filme, os lestrigões aparecem vestidos em armaduras renascentistas! Estavam milhares de anos à frente dos gregos. Tudo pelo suspense, pelo efeito visual e a violência gratuita.
Circe, no original, é uma mulher sedutora e perigosa. A ‘femme fatale’ dos franceses, um risco real aos navegantes incautos. Ela pode transformar o seu caminhãozinho de alguns numa Ferrari, para destruí-lo no momento seguinte, num momento de fúria, justificada ou não. Mas isso seria evocar antigas imagens de mulheres, mulheres reais, mas não politicamente corretas, e desviaria muito do objetivo central do filme: mostrar, por meio de toda aquela ‘jornada do herói’, a domesticação final de Ulisses, e assim Circe aparece como uma megera incapaz de suscitar sentimento que não seja piedade, aversão e medo. Ela é fatal; mas está na cara, e quem se mete com ela está solicitando um castigo, pois a mulher de verdade jamais mente ou seduz.
Ulisses, no original, é um personagem intenso, com a mente aguçada — da mesma forma que Aquiles na Ilíada — que, apesar de ter feito de tudo para não ir à guerra, depois que foi, adaptou-se bem e se tornou um dos combatentes mais insignes. O clima de perigo, guerra, companheirismo, novidades em terras estranhas aflorou de sua aventurosa evolução pessoal. Após a guerra em Tróia, ele, aparentemente, estava dividido entre voltar para a rotina do lar ou aproveitar a oportunidade para conhecer novas gentes e lugares, como se 10 anos de estresse e violência tivessem reacendido nele o desejo juvenil de experimentar o mundo. Até que ponto todos os obstáculos que aparecem para ele são reais, ainda que mitológicos, ou apenas representações mentais de sua dificuldade em tomar o caminho de casa, para a rotina? Talvez não o quisesse, pelo menos num primeiro momento.
Mas suponhamos, com o filme, que ele, traumatizado pela violência da guerra e os constantes perigos do mar, acabasse por perder a memória ou tomado de um tal medo das águas que resolvesse se estabelecer no primeiro lugar aprazível, com a companhia agradável que encontrasse. Já vimos que com a Circe de Nolan, ao contrário da original, ele não encontraria nem uma coisa nem outra, embora no original ele tenha um filho com ela, já com Calipso a coisa foi diferente. E como foi!
Segundo o original, ela o acolhe após um naufrágio e fica apaixonada por ele. Encantada com a sua inteligência e as suas histórias, cobre-o de agrados, esperando que ele fique como seu companheiro. Ulisses, que nada podia fazer, já que Netuno lhe impedia a partida, ficou e tornou-se pai de dois filhos de Calipso, mas sempre ansiando o retorno a Ítaca, enquanto ela tenta por todos os meios demovê-lo desses pensamentos.
Em vão. Eu, sinceramente, nunca vi um casal mais burocrático, mais absurdo e sem sentido que o Ulisses e Calipso de Nolan. São absolutamente frios, comedidos. Ela, bela e com uma saia curta, andava pelas areias de uma praia paradisíaca e ele, que não sabia se um dia voltaria para casa, preocupado apenas em juntar madeira velha. Pareciam um casal de herdeiros de um casamento de conveniência ou membros de um reality show, só esperando aquilo acabar para irem para suas casas e seus respectivos cônjuges. Para que essa cena?
A impressão que passa é que o autor ficou muito temeroso de ser acusado e cancelado, por estimular os homens a pularem a cerca, traindo suas esposas, e por isso fez essa relação a mais asséptica possível. Nunca passaram de bons amigos — quiçá vitorianos. As belíssimas e mortais sereias, ao invés de aparecerem em toda a sua exuberância, justo para capturar os incautos, parecem extensões móveis dos aglomerados de rochas sombrias onde repousam, e Ulisses, ao ouvi-las, parece estar sentindo uma dor fora do comum. Se o canto da sereia produz tanto mal-estar, por que os homens querem se aproximar delas? Esse episódio também mostrou, de uma maneira insólita, o quanto Ulisses se arriscava por uma boa aventura ou um novo conhecimento. Às vezes, ele é ele mesmo.
Por fim, a mensagem final. Ulisses, sentado numa escadaria, fingindo-se veterano — é curioso que ninguém se lembre da voz dele — diz a Penélope que ficara chocado com a brutalidade da guerra de Troia e que essas histórias de invasões de ‘povos do mar’ tinham muito a ver com as incursões dos próprios gregos contra os outros povos, e de uma certa forma eles também eram responsáveis por essas instabilidades e notícias ruins, como, hoje em dia, os únicos culpados pelo que acontece no mundo são os homens brancos. Mesmo considerando que os gregos de Nolan não são tão brancos assim: perguntem a Helena de Menelau.
Afinal, aparece uma justificativa nova e verossímil para essas aventuras e para o fato de Ulisses ter ficado tanto tempo sem voltar para casa: Ulisses era um neurótico de guerra! E mais, ele entendeu definitivamente a esterilidade da guerra, desse meio de fazer política e daí por diante seria, além de um negociador astuto, que ele já era, um convicto pacifista. Um mundo novo se abre… Ledo engano!
Na cena seguinte, ele tranca todos os pretendentes de Penélope no salão de festa e jantar do seu castelo e começa a massacrá-los, mesmo após ter dito que se contentaria em matar um só deles! Alguém bebeu ou comeu alguma coisa estragada nesse filme! Mas enquanto esse absurdo acontecia no salão de festa e jantar, um homem sozinho a enfrentar dezenas de outros — o número de pretendentes oscila em torno de 50 —, no andar de cima outro absurdo acontecia. Um mero servo doméstico do vilão enfrenta, de igual para igual, o filho de Ulisses. Um especialista em serviços caseiros encara com naturalidade e até perigo um jovem da nobreza militar treinado pelos melhores espadachins da época.
Depois disso, cheguei a temer que, de uma hora para outra, Ulisses começasse a dar golpes com a borda da mão, a fazer furos na parede com socos e dar pulos desmesurados, fazendo piruetas como naqueles filmes de kung fu classe B... menos. Para não falar daqueles gritinhos à la Bruce Lee: Iááááá! Iiiiiiiii! Grááá! Au! Au! Nada mais me espantaria, nem o fato de o homem que fez um pungente discurso pacifista contra a destruição de uma cidade, por causa do rapto de uma mulher, ser o mesmo que fez um horroroso banho de sangue no principal aposento público de seu castelo, por causa da insolência de uns poucos, e quiçá um só. Afinal, eles saquearam a sua despensa e os seus rebanhos, e desejaram casar com a sua mulher. Menelau não estava mais justificado?
Enfim, nada nesse filme faz sentido ou é percebido nesse filme, exceto o desejo do diretor em anunciar ao mundo o quanto é submisso à visão de uma parcela pequena e pouco culta de certos movimentos identitários. Nolan criou um herói masculino patético, desfibrado, contraditório, que dá as mais vis demonstrações de fraqueza, por não saber como estar numa posição de força. Matt Damon fica pequenino diante de Anne Hathaway em todos os sentidos. O Ulisses de Nolan abusa da violência gratuita para mostrar que ainda é relevante na história.
Para mim, a única coisa realmente criativa nesse filme foi a coluna de vértebras colocada no penacho de Agamemnon, uma vez que nunca deveria estar ali nem foi criação de Christopher Nolan.
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