quinta-feira, 23 de julho de 2026

COLONIALISMO: AS IMPRECISÕES DA CASA DA HISTÓRIA EUROPEIA.

14 de maio de 2026

Élodie Messezant

[do site liberal francês contrepoints.org]

De 17 de abril de 2026 a 14 de março de 2027, a Casa da História Europeia apresenta a exposição temporária Pós-colonial, que explora “os efeitos duradouros que a colonização e seu fim tiveram na Europa nos últimos 70 anos”. A mostra reúne mais de 195 objetos e documentos históricos sobre o colonialismo, do século XII aos dias atuais, relatos pessoais e obras de arte. Para Constanze Itzel, diretora do museu, o objetivo é demonstrar a importância do legado colonial europeu, mas também “corrigir os desequilíbrios existentes nas narrativas sobre o passado do continente”.

A intenção é perfeitamente legítima: a história colonial, que suscita tanto debate, merece ser estudada. Mas, numa análise mais atenta, a exposição vai além da análise histórica: oferece uma interpretação altamente tendenciosa do passado europeu e dissemina inúmeras imprecisões, por exemplo, no que diz respeito às supostas ligações entre capitalismo e colonialismo. Incorre também numa simplificação excessiva quanto à exploração dos recursos naturais pelos regimes coloniais. Mais grave ainda, sugere claramente que o racismo estrutural ainda existe na Europa. Este viés ideológico levanta sérias questões, tendo em conta o financiamento europeu do museu.

Capitalismo e colonialismo

Pode-se ler, por exemplo, que “capitalismo e colonialismo andam de mãos dadas”, uma afirmação ilustrada pelo fato de que os impérios holandês e britânico se desenvolveram por meio de empresas privadas, “autorizadas a travar guerras em busca de lucro”. A ideia de que capitalismo e colonialismo estão ligados é, na verdade, uma tese clássica da tradição marxista, notavelmente retomada por Lenin em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” (1917). No entanto, ela se baseia em uma confusão entre capitalismo liberal e capitalismo de compadrio [que acontecia, por exemplo, no mercantilismo]: o primeiro se baseia no livre comércio, o segundo no intervencionismo estatal. Contudo, o imperialismo está intrinsecamente ligado a uma vontade política de controlar o comércio. Já em 1776, o economista Adam Smith se opôs ao colonialismo por razões morais (violação do princípio da não agressão), mas também por razões econômicas, visto que o mercantilismo é antiliberal por natureza (monopólio da metrópole, somente as companhias privilegiadas eram autorizadas a comercializar, etc.).

Quanto à “busca pelo lucro”, o impacto econômico do colonialismo foi estudado por historiadores como Paul Bairoch e Jacques Marseille, e a realidade é muito mais complexa do que aparenta. Em *O Terceiro Mundo em Impasse* (1971), por exemplo, Paul Bairoch conclui que não houve “benefício macroeconômico real para os diversos países que possuíam um império colonial”. Para Jacques Marseille, é difícil elaborar uma avaliação econômica abrangente da colonização. Em * Império Colonial e Capitalismo Francês: História de um Divórcio * (1984), ele se concentra na Argélia e distingue dois períodos. No primeiro período (1880–1930), o mercado colonial contribuiu para os “setores que então impulsionavam o crescimento”, mas no segundo período (1930–1960), garantiu a sobrevivência artificial “desses setores agora em declínio” em detrimento do “surgimento de novos setores”. Jacques Marseille acredita que a rentabilidade não é fácil de determinar, uma vez que as exportações podem, num caso, representar um “custo adicional” e, noutro, “cobrir custos fixos”.

Exploração de recursos naturais

Outra ideia errada é a de que os regimes coloniais se enriqueceram “saqueando os recursos humanos e naturais de suas colônias”, como petróleo, urânio e cobre. Isso é verdade no caso do cobre: ​​sua exploração em territórios como Katanga, sob a colonização belga (através da Union Minière du Haut Katanga ), gerou lucros significativos para empresas e investidores europeus. Essas receitas contribuíram para a riqueza de grupos privados e, indiretamente, para as potências coloniais.

Em relação ao petróleo, é preciso fazer uma distinção importante. Em áreas como o Irã e o Iraque, as potências europeias (notadamente por meio da Companhia Anglo-Persa de Petróleo ) se beneficiaram de concessões extremamente favoráveis ​​desde o início do século XX, o que contribuiu para seu poderio energético e industrial. No entanto, tratava-se de um controle indireto (concessões) e não de exploração colonial clássica (soberania e administração territorial), e os estados produtores gradualmente retomaram o controle entre as décadas de 1950 e 1970 [aproveitando-se da estrutura herdada e da tecnologia gerada nos países europeus]. Quanto ao urânio, a afirmação não se sustenta: a exploração, por exemplo, no Níger, começou por volta da década de 1970 com empresas como a Areva, portanto, após a independência. Assim, é difícil apresentar esse recurso como um fator determinante do enriquecimento dos impérios coloniais, uma vez que estes já haviam desaparecido.

Diversos historiadores econômicos apontaram que a industrialização europeia dependia inicialmente de recursos domésticos, como o carvão. No início do século XX, o comércio europeu de carvão representava 80% das exportações globais (com o Reino Unido na liderança). Em *Mitos e Paradoxos da História Econômica * (1994), Paul Bairoch observou que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, os países desenvolvidos eram 95% autossuficientes em matérias-primas.

Racismo estrutural na Europa?

Por fim, a exposição dá um passo além ao afirmar que as instituições europeias de hoje tratam os cidadãos de forma diferente com base em sua origem ou aparência física. Ela evoca um racismo estrutural presente na educação, no emprego, na habitação, na saúde e até mesmo na polícia, herdado diretamente do passado colonial. Por exemplo, afirma que o racismo está presente em todas as fases da vida social, “desde a mais tenra idade”, com “segregação” na educação, uma “disparidade salarial por motivos de raça” e desigualdades estruturais na saúde, na habitação, no policiamento e na política. O colonialismo e a escravidão assumiram outras formas: “Nem o colonialismo nem a escravidão simplesmente deixaram de existir. Pelo contrário, deram origem ao trabalho por contrato, ao neocolonialismo e a inúmeras desigualdades persistentes.”

Que a discriminação existe na Europa, como em outros lugares, é difícil negar. Mas falar em “racismo estrutural” exige demonstrar que as desigualdades observadas resultam principalmente do próprio funcionamento das instituições, independentemente de outras variáveis. Comecemos pelo direito: os Estados europeus contemporâneos baseiam-se em princípios de igualdade perante a lei, consagrados tanto ao nível nacional como europeu. Esses princípios são acompanhados por mecanismos eficazes de reparação. Portanto, não existem obstáculos legais, nem distinções, entre cidadãos com base em critérios racistas. Na realidade, as desigualdades que possam existir entre indivíduos na educação, no emprego ou nas condições de vida são em grande parte explicadas por fatores socioeconômicos (nível de escolaridade, capital cultural, dinâmica territorial, etc.). A tese da discriminação sistêmica, portanto, não deriva de uma abordagem científica, mas sim ativista. Além disso, é aceita no âmbito do movimento pós-moderno, que se caracteriza pela rejeição da ideia de verdade e objetividade: para os seus defensores, qualquer disparidade é considerada uma prova em si mesma, independentemente de qualquer relação causal [o que é uma loucura!].

Uma exposição financiada pelo contribuinte europeu.

Para além dos debates históricos que suscita, esta exposição levanta uma questão mais ampla: a utilização de fundos públicos europeus para promover uma visão particular da história e da identidade do continente. A questão não se centra, claramente, no estudo do colonialismo, nem no reconhecimento da história colonial da Europa — o que é essencial —, mas sim na oferta de uma interpretação unidimensional do presente. O Parlamento Europeu, que financia a Casa da História Europeia com 9 milhões de euros anualmente, participa, assim, na guerra cultural contra a Europa, à custa de todos os contribuintes.


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