segunda-feira, 27 de julho de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 33

BAHIA (O DESERTO DAS ALMAS)

 

O destino do Brasil

No inferno dos homens sem alma e das almas sem honra, quando Deus se foi e a luz se apagou na terra do sol, nós nos tornamos íntimos das trevas.

O Barão de Cotegipe, nobre e político baiano, disse certa vez: “Se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isso no Vaza-Barris.” (Antônio Coelho Rodrigues, A República na América do Sul ou um pouco de história e crítica oferecido aos latino-americanos, Senado Federal, Brasília, 2016, p. 36).

Há duas versões possíveis para o nome 'Vaza-Barris', dado ao rio que nasce no sopé da serra dos Macacos, próximo a Uauá, em cujas margens nasceu Canudos. Uma diz que, como a navegação do rio é difícil e acidentada, os barris de água nos navios tendiam a se chocar e afrouxar suas tábuas, vazando o seu conteúdo. A segunda remete ao fato de que os navios dos séculos XVI e XVII tinham barris nos quais os marujos faziam suas necessidades ou aliviavam o enjoo, e que, volta e meia, precisavam ser limpos. É possível que estivessem a fazer isso na foz do rio, justo quando alguém pensou em lhe dar um nome.

 

O santo do Ceará

Todo cearense, quando não peca, é um santo, embora às vezes seja difícil discernir, neles e em todos os outros, os limites entre a santidade e a loucura. Esse estado também tem uma quantidade apreciável de gaiatos e gênios matemáticos que, em virtude da antiga precariedade das condições locais, davam a impressão de brotar por geração espontânea, aleatoriamente, como se Deus estivesse se divertindo em burlar a lógica. Escapei desse destino — não sou santo nem matemático —, mas o nosso personagem não, já que foi um pretenso santo, filho de um pretenso gênio da matemática, embora nenhum dos dois jamais desenvolveu uma verve humorística (1). Às vezes dá tudo numa pessoa só, sem nunca a gente saber onde começa e acaba o gênio, o santo, o gaiato, o doido ou somente um pobre coitado.

O nosso santo chamou-se, no batismo, Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, também conhecida como Vila Nova de Campo Maior, no dia 13 de março de 1830, filho de Maria Joaquina de Jesus e de Vicente Mendes Maciel, um homem com uma história que, de certa forma, prenunciava a do filho. Sua madrinha de batismo foi uma rica fazendeira, Maria Francisca de Paula, a mãe da famosa Marica Lessa (2), mostrando que seu pai tinha prestígio na sociedade local.

O pai era membro da família Maciel, um clã remediado, numeroso e aguerrido. Um Maciel não levava desaforo para casa nem morria na cama, e, nesse tempo, eles fizeram guerra a outra família, igualmente numerosa, porém mais rica, os Araújos, supostamente por causa de uma fofoca ociosa de mesa de botequim. O mesmo lugar onde o atual presidente quer resolver os problemas do país e do mundo.

Vicente Maciel era um filho natural do patriarca Miguel Carlos Maciel e, por isso, não estava obrigado a participar das guerras da família; e, de fato, ele preferiu ir morar em Quixeramobim, à sombra de um potentado da família dos Veras que, embora aliados aos Araújos, não tinham mágoas dos Maciel, e aí Vicente constituiu uma família com Maria Joaquina de Jesus, tornando-se um comerciante razoavelmente bem-sucedido.

Enquanto isso, a guerra dos Maciel contra os Araújo escalava, vitimando o pai e o tio de Vicente, Miguel Carlos e Antônio, além do seu famoso meio-irmão, Miguel Carlos Filho. Este homem morreu enganchado com Manuel Araújo, cada um com a sua faca cravada no outro, segundo uma história semilendária que corria o sertão. Quem ousaria desmenti-la?

Euclides da Cunha disse em Os Sertões: O nordestino é, antes de tudo, um forte, e isso é verdade, mas não porque o nordestino tenha em si uma força especial, uma herança genética; é que a dureza das condições de sobrevivência, no final do século XIX, era tamanha que só os fortes sobreviviam, ao contrário das comunidades tecnologicamente mais adiantadas, cuja força está justamente em propiciar condições para os mais fracos sobreviverem, prosperarem e terem descendência. No sertão antigo, o que valia era a lei natural, a lei do mais forte, que nem sempre era a dos mais ricos ou dos donos dos meios de produção.

Mas mesmo aqueles que sobreviviam pagavam um preço alto ao precário equilíbrio entre o ambiente natural e psicossocial que os rodeava, sem falar de outra característica comum em comunidades muito isoladas: a endogamia, o casamento entre parentes próximos, que tende a potencializar genes recessivos prejudiciais, gerando disfunções físicas e mentais. 

O jornalista João Brígido dos Santos, que conheceu Vicente Mendes Maciel, o pai de Conselheiro, diz isso dele:

“Um bonito homem… vigoroso, inteligente, mas retraído, taciturno, mau e perigosamente desconfiado, bem que muito cortês e obsequioso, e honrado. Tinha momentos terríveis de cólera, se tocava no álcool. Em um desses momentos, deu tantas facadas na mulher que a deixou sacramentada” (citado por Fernando Câmara, Antônio Conselheiro e o Centenário de Canudos, palestra proferida nas Associações das Federações Comunitárias de Quixeramobim, em 22 de outubro de 1993).

Vicente tinha surtos de loucura, mas não podemos dizer se foi por causa disso que Antônio, aos 4 anos, e suas duas irmãs ficaram órfãos de mãe por dois anos, até Vicente se casar de novo com uma mulher que não simpatizava com o menino. Idoso, ele ainda recordava os maus-tratos. Antônio Conselheiro foi uma criança abusada.

Vicente conseguiu amealhar um certo patrimônio, dando boas condições materiais para a família, mas, com o tempo, as suas crises de demência ficaram mais frequentes, fazendo-o tomar decisões extravagantes — segundo Benício, ele tinha mania de reformar as casas que tinha — que dilapidavam o patrimônio da família, exasperando a madrasta, que descontava em Antônio. Vicente falece em 1855.

 

Antônio era um bom rapaz, calmo, estudioso, com um fino verniz de cultura geral, gentil, introvertido e muito religioso. Havia um vazio emocional imenso — causado por um pai mentalmente instável e uma madrasta repressora — que ele preenchia com uma literatura rasa, escapista, de aventuras de cavalaria, livros devocionais e biografias de santos, repletas de milagres e acontecimentos maravilhosos. Segundo Fernando Câmara, o povo da cidade gostava dele.

Ignorando o conselho dos mais velhos, o ingênuo e bondoso Antônio casou-se com uma prima de primeiro grau, Brasilina Laurentina de Lima, de somente 15 aninhos, em 1857. Uma adolescente de pele muito branca, olhos e cabelos negros, atraentes como Capitu, cheia de sedução e maneirismos muito precoces, aprendidos na convivência com a mãe, uma Maciel de hábitos muito livres.

Um temperamento sonhador e a dificuldade de priorizar um objetivo fizeram Antônio perder várias oportunidades e quebrar a empresa do pai, tornando-se alfabetizador de crianças pobres e depois advogado leigo. Não se deu bem em nenhuma das duas profissões — uma observação do Barão de Jeremoabo patenteia que a sua cultura geral era superficial, ainda que enorme, para os padrões da cultura média, inclusive a das elites, nos sertões (3).

O resultado do empobrecimento da família foi a fragilização dos votos matrimoniais, assumidos com uma companheira tão imatura, e que se romperam de vez quando Antônio a surpreendeu, em sua casa, em adultério com um soldado da polícia. Humilhado, ele foge para a fazenda de um amigo, e ela se muda com o amante para a cidade de Sobral, deixando um filho ou dois para ele criar.

Nesse momento, ele toma a decisão que mudará tudo. Incapaz de se curar de sua vergonha, ele afunda na autopiedade: abandona o seu filho, ou filhos, deixando-o(s) com a sogra, e se muda para Santa Quitéria, onde trabalha como professor e se une a uma artesã, Joana Imaginária, com quem tem mais um filho, Joaquim Aprígio. Porém, ele também os abandona e começa a mergulhar em crises de loucura e confusão mental de cunho religioso (4).

Por volta de 1865, ele fica sabendo, na casa de uma de suas irmãs, que a ex-esposa, abandonada pelo soldado, se tornara prostituta e que vivia da caridade pública, mas também circula que, na casa dessa irmã, ele tem um surto e fere à faca o cunhado, que tentou contê-lo. No final dos anos 60 ou início dos anos 70, ele abandona de vez a companhia de parentes e amigos e se perde pela caatinga para se tornar um novo homem, fazer a sua jornada do herói, nas condições que lhe foram dadas.

Será que em algum momento ele se perguntou se, caso não tivesse abandonado tudo e ficado para criar o(s) filho(s) do jeito que desse, ele não poderia ter dado a volta nessa história? Mas, como fez isso, e ainda abandonou os filhos que teve, não terá ficado um sentimento de culpa e pensamentos de que ele não tinha mais salvação, no estilo da Missão Abreviada?

Nesse meio tempo, ele ouve falar, e talvez participe, das missões de José Antônio de Maria Ibiapina, o padre Ibiapina, um ex-juiz e ex-professor do Barão de Cotegipe, que, abandonado pela noiva, larga tudo e vira padre. Em 1866, preocupado com os mais pobres, sai em missão pelos sertões adentro.

“Sempre de batina, a pé ou a cavalo, [Ibiapina] peregrinou por Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba, catequizando, organizando missões, construindo capelas, igrejas, açudes, cacimbas, poços, cemitérios e hospitais, chegando a fundar mais de vinte Casas de Caridade para moças órfãs, onde elas recebiam educação religiosa e moral, aprendiam a ler, escrever e trabalhos domésticos, além de terem assistência à saúde [já Conselheiro não queria conversa com mulheres]… ensinou técnicas agrícolas aos sertanejos… e defendeu os direitos dos trabalhadores rurais” [enquanto Conselheiro só queria saber das coisas espirituais]. (Padre Mestre Ibiapina, 05/08/2021, site institucional da Universidade Federal de Pernambuco).

Num longo processo de mutação interna e externa, compatível com os valores e as expectativas pessoais e do meio social onde vivia, Antônio Vicente Mendes Maciel 'transmudara-se' de um humilde rapaz, do qual todos gostavam, mas também abusavam, em um líder carismático, poderoso e autoritário. Um campeão dos valores tradicionais, contra um mundo em transformação. Assume um nome, “Peregrino”, como se não fosse deste mundo — e não o era em muitos sentidos. Para o povo, ele é Antônio Conselheiro, de cuja boca só saem bons conselhos, além de outros nomes que mostram uma certa confusão entre a realidade de um pobre coitado e a idealização de um poderoso profeta, que dele faziam os sertanejos, e que o confundia também.

Mas, por mais que alguém mude, qualquer mudança só será possível a partir de um acordo consciente com o passado, porque é impossível enterrar a própria história. Ela faz parte do que cada um é a cada momento. O inofensivo e atrapalhado comerciante, professor e advogado quixeramobinense continuavam nele, fossem ou não compatíveis com a sua nova forma de vida.

Em primeiro lugar, ele tivera uma esposa e um filho, ou filhos, e, em que pese o fato de ela o ter traído, isso não justificava, aos olhos da doutrina católica, o abandono do filho, ou filhos, o que era considerado um pecado grave desde a mais remota Idade Média. Isso o colocava em situação de impossibilidade de comunhão.

Em segundo lugar, ele constituíra uma família fora da Igreja, com a artesã Joana, e a abandonara para se dedicar à pregação. Porém, desde os séculos XII e XIII, a Igreja ensinava que o homem casado só podia deixar a esposa para ser padre com o consentimento dela, e com o compromisso de ela guardar celibato. Além disso, se o casal tivesse filho, o homem só poderia ingressar na carreira religiosa após essa criança ter se tornado um adulto independente.

Esse homem, duas vezes em pecado grave diante da Igreja, tomou ares de guardião da fé católica tradicional e fez da Missão Abreviada o seu livro de cabeceira, com o hábito de sua leitura e até cópia diária. Esse livro, absurdamente penitencial, que atiça, como poucos, os sentimentos de culpa do leitor até em relação aos seus mais despreocupados pensamentos. Como ele conseguia suportar isso sem enlouquecer?

Se é que não enlouqueceu?   


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