BAHIA
(O DESERTO DAS ALMAS)
O destino do Brasil
No inferno dos homens
sem alma e das almas sem honra, quando Deus se foi e a luz se apagou na terra
do sol, nós nos tornamos íntimos das trevas.
O Barão de Cotegipe,
nobre e político baiano, disse certa vez: “Se a República esperar o romper
do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas,
dará com tudo isso no Vaza-Barris.” (Antônio Coelho Rodrigues, A
República na América do Sul ou um pouco de história e crítica oferecido aos
latino-americanos, Senado Federal, Brasília, 2016, p. 36).
Há duas versões
possíveis para o nome 'Vaza-Barris', dado ao rio que nasce no sopé da serra dos
Macacos, próximo a Uauá, em cujas margens nasceu Canudos. Uma diz que, como a
navegação do rio é difícil e acidentada, os barris de água nos navios tendiam a
se chocar e afrouxar suas tábuas, vazando o seu conteúdo. A segunda remete ao
fato de que os navios dos séculos XVI e XVII tinham barris nos quais os marujos
faziam suas necessidades ou aliviavam o enjoo, e que, volta e meia, precisavam
ser limpos. É possível que estivessem a fazer isso na foz do rio, justo quando
alguém pensou em lhe dar um nome.
O santo do Ceará
Todo cearense, quando não
peca, é um santo, embora às vezes seja difícil discernir, neles e em todos os outros, os
limites entre a santidade e a loucura. Esse estado também tem uma quantidade
apreciável de gaiatos e gênios matemáticos que, em virtude da antiga
precariedade das condições locais, davam a impressão de brotar por geração
espontânea, aleatoriamente, como se Deus estivesse se divertindo em burlar a
lógica. Escapei desse destino — não sou santo nem matemático —, mas o nosso
personagem não, já que foi um pretenso santo, filho de um pretenso gênio da
matemática, embora nenhum dos dois jamais desenvolveu uma verve humorística (1).
Às vezes dá tudo numa pessoa só, sem nunca a gente saber onde começa e acaba o
gênio, o santo, o gaiato, o doido ou somente um pobre coitado.
O nosso santo
chamou-se, no batismo, Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim,
também conhecida como Vila Nova de Campo Maior, no dia 13 de março de 1830,
filho de Maria Joaquina de Jesus e de Vicente Mendes Maciel, um homem com uma
história que, de certa forma, prenunciava a do filho. Sua madrinha de batismo
foi uma rica fazendeira, Maria Francisca de Paula, a mãe da famosa Marica Lessa
(2), mostrando que seu pai tinha prestígio na sociedade local.
O pai era membro da
família Maciel, um clã remediado, numeroso e aguerrido. Um Maciel não levava
desaforo para casa nem morria na cama, e, nesse tempo, eles fizeram guerra a
outra família, igualmente numerosa, porém mais rica, os Araújos, supostamente
por causa de uma fofoca ociosa de mesa de botequim. O mesmo lugar onde o atual
presidente quer resolver os problemas do país e do mundo.
Vicente Maciel era um
filho natural do patriarca Miguel Carlos Maciel e, por isso, não estava
obrigado a participar das guerras da família; e, de fato, ele preferiu ir morar
em Quixeramobim, à sombra de um potentado da família dos Veras que, embora
aliados aos Araújos, não tinham mágoas dos Maciel, e aí Vicente constituiu uma
família com Maria Joaquina de Jesus, tornando-se um comerciante razoavelmente
bem-sucedido.
Enquanto isso, a guerra
dos Maciel contra os Araújo escalava, vitimando o pai e o tio de Vicente,
Miguel Carlos e Antônio, além do seu famoso meio-irmão, Miguel Carlos Filho.
Este homem morreu enganchado com Manuel Araújo, cada um com a sua faca cravada no
outro, segundo uma história semilendária que corria o sertão. Quem ousaria
desmenti-la?
Euclides da Cunha disse
em Os Sertões: O nordestino é, antes de tudo, um forte, e isso é verdade, mas
não porque o nordestino tenha em si uma força especial, uma herança genética; é
que a dureza das condições de sobrevivência, no final do século XIX, era
tamanha que só os fortes sobreviviam, ao contrário das comunidades
tecnologicamente mais adiantadas, cuja força está justamente em propiciar
condições para os mais fracos sobreviverem, prosperarem e terem descendência.
No sertão antigo, o que valia era a lei natural, a lei do mais forte, que nem
sempre era a dos mais ricos ou dos donos dos meios de produção.
Mas mesmo aqueles que
sobreviviam pagavam um preço alto ao precário equilíbrio entre o ambiente
natural e psicossocial que os rodeava, sem falar de outra característica comum
em comunidades muito isoladas: a endogamia, o casamento entre parentes próximos,
que tende a potencializar genes recessivos prejudiciais, gerando disfunções
físicas e mentais.
O jornalista João
Brígido dos Santos, que conheceu Vicente Mendes Maciel, o pai de Conselheiro,
diz isso dele:
“Um bonito homem…
vigoroso, inteligente, mas retraído, taciturno, mau e perigosamente
desconfiado, bem que muito cortês e obsequioso, e honrado. Tinha momentos
terríveis de cólera, se tocava no álcool. Em um desses momentos, deu tantas
facadas na mulher que a deixou
sacramentada” (citado por Fernando Câmara, Antônio Conselheiro e o
Centenário de Canudos, palestra proferida nas Associações das Federações
Comunitárias de Quixeramobim, em 22 de outubro de 1993).
Vicente tinha surtos de
loucura, mas não podemos dizer se foi por causa disso que Antônio, aos 4 anos,
e suas duas irmãs ficaram órfãos de mãe por dois anos, até Vicente se casar de
novo com uma mulher que não simpatizava com o menino. Idoso, ele ainda recordava
os maus-tratos. Antônio Conselheiro foi uma criança abusada.
Vicente conseguiu
amealhar um certo patrimônio, dando boas condições materiais para a família,
mas, com o tempo, as suas crises de demência ficaram mais frequentes, fazendo-o
tomar decisões extravagantes — segundo Benício, ele tinha mania de reformar as
casas que tinha — que dilapidavam o patrimônio da família, exasperando a
madrasta, que descontava em Antônio. Vicente falece em 1855.
Antônio era um bom
rapaz, calmo, estudioso, com um fino verniz de cultura geral, gentil,
introvertido e muito religioso. Havia um vazio emocional imenso — causado por
um pai mentalmente instável e uma madrasta repressora — que ele preenchia com
uma literatura rasa, escapista, de aventuras de cavalaria, livros devocionais e
biografias de santos, repletas de milagres e acontecimentos maravilhosos.
Segundo Fernando Câmara, o povo da cidade gostava dele.
Ignorando o conselho
dos mais velhos, o ingênuo e bondoso Antônio casou-se com uma prima de primeiro
grau, Brasilina Laurentina de Lima, de somente 15 aninhos, em 1857. Uma
adolescente de pele muito branca, olhos e cabelos negros, atraentes como
Capitu, cheia de sedução e maneirismos muito precoces, aprendidos na
convivência com a mãe, uma Maciel de hábitos muito livres.
Um temperamento
sonhador e a dificuldade de priorizar um objetivo fizeram Antônio perder várias
oportunidades e quebrar a empresa do pai, tornando-se alfabetizador de crianças
pobres e depois advogado leigo. Não se deu bem em nenhuma das duas profissões —
uma observação do Barão de Jeremoabo patenteia que a sua cultura geral era
superficial, ainda que enorme, para os padrões da cultura média, inclusive a
das elites, nos sertões (3).
O resultado do
empobrecimento da família foi a fragilização dos votos matrimoniais, assumidos
com uma companheira tão imatura, e que se romperam de vez quando Antônio a
surpreendeu, em sua casa, em adultério com um soldado da polícia. Humilhado,
ele foge para a fazenda de um amigo, e ela se muda com o amante para a cidade
de Sobral, deixando um filho ou dois para ele criar.
Nesse momento, ele toma
a decisão que mudará tudo. Incapaz de se curar de sua vergonha, ele afunda na
autopiedade: abandona o seu filho, ou filhos, deixando-o(s) com a sogra, e se
muda para Santa Quitéria, onde trabalha como professor e se une a uma artesã,
Joana Imaginária, com quem tem mais um filho, Joaquim Aprígio. Porém, ele
também os abandona e começa a mergulhar em crises de loucura e confusão mental
de cunho religioso (4).
Por volta de 1865, ele
fica sabendo, na casa de uma de suas irmãs, que a ex-esposa, abandonada pelo
soldado, se tornara prostituta e que vivia da caridade pública, mas também
circula que, na casa dessa irmã, ele tem um surto e fere à faca o cunhado, que tentou
contê-lo. No final dos anos 60 ou início dos anos 70, ele abandona de vez a
companhia de parentes e amigos e se perde pela caatinga para se tornar um novo
homem, fazer a sua jornada do herói, nas condições que lhe foram dadas.
Será que em algum
momento ele se perguntou se, caso não tivesse abandonado tudo e ficado para
criar o(s) filho(s) do jeito que desse, ele não poderia ter dado a volta nessa
história? Mas, como fez isso, e ainda abandonou os filhos que teve, não terá
ficado um sentimento de culpa e pensamentos de que ele não tinha mais salvação,
no estilo da Missão Abreviada?
Nesse meio tempo, ele
ouve falar, e talvez participe, das missões de José Antônio de Maria Ibiapina,
o padre Ibiapina, um ex-juiz e ex-professor do Barão de Cotegipe, que,
abandonado pela noiva, larga tudo e vira padre. Em 1866, preocupado com os mais
pobres, sai em missão pelos sertões adentro.
“Sempre de batina, a pé
ou a cavalo, [Ibiapina] peregrinou por Pernambuco,
Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba, catequizando, organizando missões,
construindo capelas, igrejas, açudes, cacimbas, poços, cemitérios e hospitais,
chegando a fundar mais de vinte Casas de Caridade para moças órfãs, onde elas
recebiam educação religiosa e moral, aprendiam a ler, escrever e trabalhos
domésticos, além de terem assistência à saúde [já Conselheiro não queria
conversa com mulheres]… ensinou técnicas agrícolas aos sertanejos… e
defendeu os direitos dos trabalhadores rurais” [enquanto Conselheiro só
queria saber das coisas espirituais]. (Padre Mestre Ibiapina, 05/08/2021, site
institucional da Universidade Federal de Pernambuco).
Num longo processo de
mutação interna e externa, compatível com os valores e as expectativas pessoais
e do meio social onde vivia, Antônio Vicente Mendes Maciel 'transmudara-se' de
um humilde rapaz, do qual todos gostavam, mas também abusavam, em um líder
carismático, poderoso e autoritário. Um campeão dos valores tradicionais,
contra um mundo em transformação. Assume um nome, “Peregrino”, como se não
fosse deste mundo — e não o era em muitos sentidos. Para o povo, ele é Antônio
Conselheiro, de cuja boca só saem bons conselhos, além de outros nomes que
mostram uma certa confusão entre a realidade de um pobre coitado e a
idealização de um poderoso profeta, que dele faziam os sertanejos, e que o
confundia também.
Mas, por mais que
alguém mude, qualquer mudança só será possível a partir de um acordo consciente
com o passado, porque é impossível enterrar a própria história. Ela faz parte
do que cada um é a cada momento. O inofensivo e atrapalhado comerciante, professor
e advogado quixeramobinense continuavam nele, fossem ou não compatíveis com a
sua nova forma de vida.
Em primeiro lugar, ele
tivera uma esposa e um filho, ou filhos, e, em que pese o fato de ela o ter
traído, isso não justificava, aos olhos da doutrina católica, o abandono do
filho, ou filhos, o que era considerado um pecado grave desde a mais remota Idade
Média. Isso o colocava em situação de impossibilidade de comunhão.
Em segundo lugar, ele
constituíra uma família fora da Igreja, com a artesã Joana, e a abandonara para
se dedicar à pregação. Porém, desde os séculos XII e XIII, a Igreja ensinava
que o homem casado só podia deixar a esposa para ser padre com o consentimento
dela, e com o compromisso de ela guardar celibato. Além disso, se o casal
tivesse filho, o homem só poderia ingressar na carreira religiosa após essa
criança ter se tornado um adulto independente.
Esse homem, duas vezes
em pecado grave diante da Igreja, tomou ares de guardião da fé católica
tradicional e fez da Missão Abreviada o seu livro de cabeceira, com o hábito de
sua leitura e até cópia diária. Esse livro, absurdamente penitencial, que atiça, como poucos, os sentimentos de culpa do leitor até em relação aos seus mais
despreocupados pensamentos. Como ele conseguia suportar isso sem enlouquecer?
Se é que não
enlouqueceu?
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