O BRASIL DE JOELHOS
Eduardo Simões.
Num debate recente no programa Em Pauta, da Globo News, Demétrio Magnoli, um dos poucos ali que sabe o que está dizendo, porque o diz com independência, não esperando aprovação do governo ou das redes, afirmou algo muito evidente: “Trump não quer negociar!” O que ele quer é a submissão, exceto, por certo, de Israel, o único aliado dos Estados Unidos trumpista, preferencial ou não.
De fato, o governo brasileiro e de outros países já negociaram e fizeram concessões, no nosso caso as razões técnicas estão sobejamente a nosso favor, afinal nós temos déficit comercial com os EUA, mas de nada adiantou e agora estamos de novo sob tarifas. Não há nenhum indício de busca de um acordo, mas somente de nossa rendição.
Também não sabemos se reagir vai nos dar vantagem, ninguém o sabe, nem a China, mas podemos, pelo menos, cair atirando ou vender caro a vitória, nem que seja para convencer Trump de que esse é um mau caminho, o que não deveria ser muito difícil a um governo que nos últimos meses não perdeu a oportunidade de cutucá-lo com provocações, sugerindo que ele é ora mentiroso ora pirata. Nesse sentido, Marco Rubio tem razão quando diz que Lula não negociou de boa-fé. Só sabemos que, no momento, estamos em desvantagem.
No início, antes das primeiras tarifas, Lula chegou a dizer num encontro com militantes ou numa inauguração, não tem diferença, que “se vier vai ter”, além de inúmeras outras afirmações desafiadoras. Como ele agora se coloca tão rápido de joelhos, após ameaçar retaliação? Por que não aproveita esse momento em que os EUA estão encalacrados no Oriente Médio, enfrentando uma brava resistência do Canadá, e um pouco da China, enquanto a produtividade interna cai e os preços aumentam em virtude da política tarifária, isso tudo às vésperas de uma eleição crucial?
O edifício trumpiano oscila e dá mostras de amplas rachaduras. A melhor hora, até o momento, de confrontá-lo é esta, mas infelizmente é preciso dar razão a Valdo Cruz e Marina Franceschini, que discordaram de Magnoli, repetindo literalmente os argumentos do governo.
Sim, o governo brasileiro está certo, mas não pelas razões de Marina e Valdo, que ecoaram as do governo: os empresários não querem! Trump pode tarifar outros setores! Os setores tarifados atualmente são poucos e têm pouco peso nas exportações! Ou seja, são mais pobres, os de renda mais baixa. Um belo exemplo de coerência política aplicada às relações internacionais e ao discurso de 'eles', os ricos, contra 'nós', os pobres.
A reação a Trump deve fazer parte de uma política de estado, prevista ou resenhada no programa de governo, ou essa história de Brasil soberano é apenas efeito sonoro? E se está no programa e as condições pedem, o governo tem que aplicar, ou deve reconhecer que o Brasil é governado não por um projeto de estado, mas pelos interesses de uma classe, justo a mais rica. Apesar do 'T' da legenda. Trump, no momento, está tarifando apenas os setores que não lhe interessam. Teria ele coragem de tarifar setores que podem afetar a economia dos EUA e agravar os juros e a inflação lá? Não reagir é fazer o jogo do Trump.
Entretanto, não temos alternativa. Para nossa desgraça, isso acontece num ano eleitoral e todas as bravatas ditas até agora não passaram de jogo de cena eleitoral, assim como é verdade que o país não está só polarizado, mas profundamente dividido. Qualquer indício de pujança econômica é pura manipulação estatística ou cabala numérica, tão ridículo quanto o sapo que inchou, inchou, para ficar do tamanho de um boi e a única coisa que conseguiu foi estourar.
O nosso parco crescimento nesses últimos anos foi obtido a custas de anabolizantes fiscais, e o resultado já se faz sentir: juros nas alturas, inflação pressionada, empresas do varejo, mesmo as gigantes, pedindo concordata ou recuperação, enquanto o sistema financeiro dá graves sinais de corrupção sistêmica. O governo sabe que as finanças e a economia nacionais, graças às suas intervenções, se sustentam apenas por um fio. Qualquer empurrão e tudo vem abaixo, ainda mais se o empurrão for dado por alguém do porte dos EUA.
Que dizer da capacidade de união e mobilização de um governo que faz todo tipo de contorção com as palavras, a lógica, os fatos e a história para gerar factoides políticos ou parecer que disse algo inteligente para os seus adeptos. Para conseguir esse efeito, o jovial Lula apelou para a catastrófica e já pré-histórica tática do nós contra eles, os ricos contra os pobres, levando a uma intensidade nunca vista, não tanto à polarização, mas à divisão do país.
E assim, após ter quebrado a economia e dividido psicologicamente a nação, como podemos de fato encarar um jogo onde vamos precisar de todos os recursos, de toda a unidade e uma resiliência que nós nunca tivemos, porque nunca tivemos um condutor que nos inspirasse ao mesmo tempo confiança e sabedoria, que, ao final, não foi apenas mais um que se locupletou com a nossa tradicional ignorância política.
Chegou a hora de ajoelhar-se, até colocar-se na condição de servo, para não dizer coisa pior, e o primeiro que o fez foi justo quem se elegeu dizendo que nos libertaria definitivamente de tudo isso.
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