sábado, 27 de junho de 2026


A REPÚBLICA OPACA 

Eduardo Simões

A partir de 1898, o grupo paulista liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e Rodrigues Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia para resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto diretor no início da República. Esse personalismo ameaçava levar de roldão as instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.

Esse grupo, predominantemente paulista, focado em ganhos financeiros e econômicos de curto prazo, imaginou uma saída igualmente personalista, de matiz oligárquico-aristocrático, semelhante dos conchavos do Império. Mas enquanto aqueles ficavam restritos ao Paço Imperial, estes se espalhavam pelos casarões e eventuais palacetes dos grandes caciques da política nacional.

A ideia diretriz era a de que a política do país não passava, na verdade, de expressão dos desejos, necessidades, medos e aversões dos grandes chefes regionais, antigos barões do Império, e os novos barões do café paulistas e mineiros — os fluminenses estavam em franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre esses grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, hábito verbal herdado do turbulento início do regime, ainda que na consecução desse objetivo, ‘fabricar acordos’, fosse necessário sacrificar os mais sagrados princípios e valores.

Aliás, nada era sagrado nesse novo arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas ao bel-prazer da situação ou necessidades do momento, em nome da qual se cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o soubesse, sendo mantido estrategicamente na sua bestificação original. Como vemos, isso é antigo na nossa república.

Um dos momentos em que essa república opaca, nevoenta, ficava em transe era na escolha dos candidatos à sucessão presidencial, e a primeira nesse ‘novo tempo’, já nascido caduco, foi a sucessão de Rodrigues Alves, em 1906. Esse episódio é minuciosamente relatado por ele próprio e transcrito por Afonso Arinos de Melo Franco no seu livro Rodrigues Alves apogeu e declínio do presidencialismo — Volume II, José Olympio — EDUSP, Rio de Janeiro, 1973, p.524–556.

Para termos uma ideia do quanto esse terreno era obscuro e misterioso, vale a pena meditar nessas palavras de Arinos, no livro citado.

“A ausência de partidos nacionais e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”. Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do Brasil. Quando ocorre uma múltipla intenção de concorrência, instala-se uma crise, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa no Podemos, que acabou nos tribunais, ou quando Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite, o dono do partido Gilberto Cassab, disse logo: “a liderança do partido [ou seja, ele próprio] decidirá!” Leite ficou ressentido, e ficará ainda mais se Caiado não performar bem. Nossa capacidade e teimosia em repetir os mesmos erros são impressionantes.

Grupos muito pequenos de políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e por isso mesmo veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser divulgados completamente” (p. 526].

Vejamos como foi a sucessão de Rodrigues Alves.

1º momento:

No início de agosto de 1904, no meio do mandato, ele fica sabendo por outros que Pinheiro Machado está arregimentando apoio à reeleição de Campos sales.

Pinheiro Machado é um político gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por uma grande frente acima de tudo [como o MDB após o regime militar], da mesma forma que Campos Sales. Ele já tem um candidato do coração: Bernardino de Campos, do mesmo pensamento que ele.

Alves fica intrigado. Por que Pinheiro Machado, com seu discurso populista, iria lançar um candidato que saiu sob vaia geral? Pinheiro diz que é preciso ‘reparar a injustiça’. 

2º momento

Pinheiro se revela a Alves e diz ter certeza de que não pensou em magoá-lo, embora soubesse que Alves já urdia a candidatura de Bernardino.

3º momento

Alves fala a Pinheiro que já estava combinando a candidatura de Bernardino, e para isso contava com o apoio de Pernambuco. Pinheiro não liga.

4º momento

Campos Sales sabe dessa iniciativa e se entusiasma, e assume-se como candidato — se Alves apoia Bernardino, compra uma briga com Campos Sales. Em São Paulo, há uma forte oposição a Sales. Pinheiro consegue dividir os paulistas.

5º momento

Começa a se espalhar o boato de que Alves estaria contente com Campos Sales. O que não era verdade. Alves faz declarações dúbias para não desagradar um lado ou outro. Uma energia preciosa que deveria ser gasta com a política e a administração do país é gasta com essas pendengas eleitoreiras. Na metade do mandato.

6º momento

São Paulo ferve com grupos contra e a favor de Sales e Bernardino, que nesse momento estava na Europa. O time de Pinheiro foi perfeito.

7º momento

Jorge Tibiriçá, governador de São Paulo, preocupado com as perturbações no seu estado, começa a solicitar o posicionamento de Alves. Ele também simpatiza com Bernardino.

8º momento

Muito discretamente, Alves começa a trabalhar na seara paulista pelo nome de Bernardino, que é bem aceito em casa, depois que volta da Europa.

9º momento

Sondagens mostram que pequenos estados, menos Paraná, apoiam Bernardino. A Bahia quer Rui e o Rio Grande, Pinheiro. Minas e Rio ficam com São Paulo.

10º momento

A imprensa cooptada pelos florianistas (= Pinheiro) começa a mover intensa campanha contra Bernardino, com foco no pessoal, como são as campanhas até hoje (2026) — essa campanha foi tão eficiente que um pobre coitado escreveu recentemente um livro sobre 1897 dizendo que Bernardino de Campos era florianista, e da ala dos jacobinos (os mais radicais). Essa campanha esfria o apoio de Nilo Peçanha, no Rio, que pula fora, mas sem o dizer explicitamente.

11º momento

O grupo controlado por Pinheiro nomeia-se Coligação. Mais tarde, esse grupo se chamará Bloco.

12º momento

Pernambuco começa a sinalizar simpatia por Afonso Pena de Mina. Conservador, burocrata, sem carisma, com idade avançada e alguns problemas de saúde. Um típico político da velha escola. Não molha nem seca. Apesar da insistência de Alves, Rosa e Silva, de Pernambuco, não deixa claro. Vai esperar para que lado a canoa vira.

Afonso Arinos, que é mineiro, transcreveu no seu livro uma opinião de Rodrigues Alves sobre Afonso Pena: “Referiu-me o Gastão da Cunha (mineiro) que o Lafaiete [o conselheiro do Império Lafaiete Rodrigues Pereira] dizia que o Pena era uma fechadura velha, que abria para todos os lados com chave, prego, dedo, etc.” (p. 554)

13º momento

A turma de Minas, pró-Pena, tenta ganhar o apoio de Campos Sales.

14º momento

Alves tenta o apoio de Sales à candidatura de Bernardino, mas ele não se pronuncia. Pareceu aquela situação: não vai ser eu, mas também não vai o Bernardino. São Paulo continua dividido e sem candidato viável. Sales age como se tivesse rompido com Alves.

15º momento

Severino, da Bahia, apoia Sales, mas Pinheiro trabalha para esvaziar essa candidatura, dando força à crença de que ele lançou Sales apenas para dividir os paulistas.

16º momento

Rui Barbosa, o eterno perdido no espaço, lança a sua candidatura. Severino não gosta de Rui, mas também não aceita Bernardino. Alves perde estados importantes.

17º momento

O nacionalismo baiano vence e Severino passa a apoiar Rui, embora não se desse muito com ele.

18º momento

Pinheiro agradece a Alves a sua discrição na refrega. Alves lembra-lhe que esse era o seu dever institucional.

19º momento

Fica claro que Pinheiro não se interessa mais pela candidatura de Campos Sales, que teve que se segurar na brocha. Após ter feito o papel de cavalo de Troia para Pinheiro, Campos Sales, desolado e magoado, pensa em retirar a sua candidatura, mas fica aguardando até o último segundo.

20º momento

Pinheiro começa a fazer sondagens em Minas, onde, com o apoio do governador Bias Fortes, começa a turbinar a candidatura de Afonso Pena. Pinheiro quer a unanimidade de Minas. Os mineiros topam.

21º momento

Glicério avisa a Alves que ele acaba de perder Minas. A candidatura de Bernardino está perdida. Glicério tenta que ele retire o apoio de Bernardino e abrace Campos Sales. Alves se recusa a deixar Bernardino em maus lençóis — seria uma grande humilhação depois de tudo.

22º momento

Afonso Pena, tão quietinho, ficou ‘cheio de gás’ com a possibilidade de ser presidente. Arregaçou as mangas e foi para a arena. Alves sentiu como se Pena tivesse esquecido a velha parceria que ligava ambos e tivesse se atirado sem reservas nos braços de Pinheiro e da Coligação.

23º momento

Pena pressiona fortemente a Sales pelo apoio à sua candidatura e tenta, por meio dele, o apoio do presidente (Alves).

24º momento

Tibiriçá, governador de São Paulo, passa a ver viabilidade na campanha de Pena. Até deputados mineiros que não simpatizavam com Pena e queriam Bernardino começam a apoiá-lo.

25º momento

Alves descobre que os deputados mineiros pró-Bernardino estavam há tempos em tratativas com Pinheiro. Nem a oposição em Minas lhe restava mais.

26º momento

Pinheiro tenta conseguir, em vão, a desistência de Rui nesse primeiro momento, mas no seguinte ele concorda. A resistência a Rui é grande. Rosa e Silva (PE) diz: “Com Rui, nem para o céu.”

27º momento

Glicério, apesar das evidências em contrário, faz grande alarde da adesão dos paulistas à candidatura de Campos Sales.

28º momento

A Coligação se consolida com a presença de Rui Barbosa, dizendo que a Bahia foi decisiva.

29º momento

A Coligação se irrita com o apoio de São Paulo a Pena. Talvez quisessem isolar completamente o estado para melhor encurralá-lo. Vai saber!

30º momento

Foi escolhido um vice para Pena. Nilo Peçanha do Rio, inimigo figadal de Prudente de Morais e um dos florianistas mais ativos na capital. Se Pena estivesse atento, ficaria preocupado. Pernambuco começa a se movimentar contra Peçanha, mas Minas o resguarda.

31º momento

A Coligação lança um manifesto da candidatura de Pena, fazendo críticas veladas ao presidente. Alves, assim como Prudente, está politicamente isolado. Só lhe resta o apoio popular, que é grande.

32º momento

Afonso Pena vence a eleição presidencial de 1º de março de 1906, com 97,92% dos votos válidos, numa eleição bem esvaziada — ele teve metade dos votos dados a Rodrigues Alves.

33º momento

A Coligação da turma de Pinheiro Machado, agora chamada Bloco, fez um banquete em 12 de outubro de 1906 para comemorar o resultado das eleições e lançar as bases do novo governo. O orador foi Joaquim Murtinho. Porém, logo após o discurso, Rui Barbosa achegou-se a Pinheiro e lhe disse, indignado, que aquilo não era o que tinha sido combinado, seja lá o que eles tenham combinado.

Após exprimir ‘sua amarga e inconcebível surpresa’, Rui diz de entrada que não mais militava na Coligação. Acrescenta que não tinha o hábito de ser ‘amadrinhado’ a decisões de que não participara. Não sacrificaria ‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo” [desde que J.J. Seabra não estivesse no meio, é claro] (p.554). Rui demorou, mas no final percebeu que tinha sido usado.

Foi o ‘bafão’, ou o ‘bafafá’, como diziam os antigos, daquele dia, antes mesmo de começar o governo.

Entretanto, como sintoma daquilo que Arinos falava anteriormente: a completa obscuridade em que eram feitas essas manobras, o jornal Correio da Manhã, de 1º de março, editorado pelo baiano Leão Veloso, ataca vigorosamente a Rodrigues Alves, chamando-o de ‘mal agradecido’, em relação ao resultado das eleições que o frustraram completamente. ‘Dá a vitória da situação a Rui Barbosa, à sua ‘abnegação sem exemplo’. Pinheiro Machado representara apenas uma comédia. Prevalecera a vontade da Bahia” (556).

Os fatos, apontados minuciosamente nas anotações de Rodrigues Alves, diziam justo o contrário.

Porém, é possível que muita informação tenha se perdido nessa caminhada e que, inclusive, alguns momentos tenham uma interpretação bem diferente daquela que Alves dá, pois nesse caso, como em vários outros momentos capitais para o futuro da nação, não ficou nenhum documento.

É possível até que o Correio da Manhã esteja certo!


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