A REPÚBLICA OPACA
Eduardo Simões
A partir de 1898, o grupo paulista
liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e Rodrigues
Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia para
resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto diretor
no início da República. Esse personalismo ameaçava levar de roldão as
instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta
da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.
Esse grupo, predominantemente
paulista, focado em ganhos financeiros e econômicos de curto prazo, imaginou
uma saída igualmente personalista, de matiz oligárquico-aristocrático,
semelhante dos conchavos do Império. Mas enquanto aqueles ficavam restritos ao
Paço Imperial, estes se espalhavam pelos casarões e eventuais palacetes dos
grandes caciques da política nacional.
A ideia diretriz era a de que a
política do país não passava, na verdade, de expressão dos desejos,
necessidades, medos e aversões dos grandes chefes regionais, antigos barões do
Império, e os novos barões do café paulistas e mineiros — os fluminenses estavam
em franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre
esses grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, hábito verbal
herdado do turbulento início do regime, ainda que na consecução desse objetivo,
‘fabricar acordos’, fosse necessário sacrificar os mais sagrados princípios e
valores.
Aliás, nada era sagrado nesse
novo arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas
ao bel-prazer da situação ou necessidades do momento, em nome da qual se
cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o soubesse, sendo
mantido estrategicamente na sua bestificação original. Como vemos, isso é
antigo na nossa república.
Um dos momentos em que essa
república opaca, nevoenta, ficava em transe era na escolha dos candidatos à
sucessão presidencial, e a primeira nesse ‘novo tempo’, já nascido caduco, foi
a sucessão de Rodrigues Alves, em 1906. Esse episódio é minuciosamente relatado
por ele próprio e transcrito por Afonso Arinos de Melo Franco no seu livro Rodrigues
Alves apogeu e declínio do presidencialismo — Volume II, José Olympio —
EDUSP, Rio de Janeiro, 1973, p.524–556.
Para termos uma ideia do quanto
esse terreno era obscuro e misterioso, vale a pena meditar nessas palavras de
Arinos, no livro citado.
“A ausência de partidos nacionais
e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as
candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”.
Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do
Brasil. Quando ocorre uma múltipla intenção de concorrência, instala-se uma
crise, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa no Podemos, que acabou nos
tribunais, ou quando Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite, o dono do partido
Gilberto Cassab, disse logo: “a liderança do partido [ou seja, ele próprio]
decidirá!” Leite ficou ressentido, e ficará ainda mais se Caiado não performar
bem. Nossa capacidade e teimosia em repetir os mesmos erros são
impressionantes.
“Grupos muito pequenos de
políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam
compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem
sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas
confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e
os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e por
isso mesmo veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os
manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das
posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser
divulgados completamente” (p. 526].
Vejamos como foi a sucessão de
Rodrigues Alves.
1º momento:
No início de agosto de 1904, no
meio do mandato, ele fica sabendo por outros que Pinheiro Machado está
arregimentando apoio à reeleição de Campos sales.
Pinheiro Machado é um político
gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir
que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da
mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por uma grande
frente acima de tudo [como o MDB após o regime militar], da mesma forma que
Campos Sales. Ele já tem um candidato do coração: Bernardino de Campos, do
mesmo pensamento que ele.
Alves fica intrigado. Por que
Pinheiro Machado, com seu discurso populista, iria lançar um candidato que saiu
sob vaia geral? Pinheiro diz que é preciso ‘reparar a injustiça’.
2º momento
Pinheiro se revela a Alves e diz
ter certeza de que não pensou em magoá-lo, embora soubesse que Alves já urdia a
candidatura de Bernardino.
3º momento
Alves fala a Pinheiro que já
estava combinando a candidatura de Bernardino, e para isso contava com o apoio
de Pernambuco. Pinheiro não liga.
4º momento
Campos Sales sabe dessa
iniciativa e se entusiasma, e assume-se como candidato — se Alves apoia
Bernardino, compra uma briga com Campos Sales. Em São Paulo, há uma forte
oposição a Sales. Pinheiro consegue dividir os paulistas.
5º momento
Começa a se espalhar o boato de
que Alves estaria contente com Campos Sales. O que não era verdade. Alves faz
declarações dúbias para não desagradar um lado ou outro. Uma energia preciosa
que deveria ser gasta com a política e a administração do país é gasta com
essas pendengas eleitoreiras. Na metade do mandato.
6º momento
São Paulo ferve com grupos contra
e a favor de Sales e Bernardino, que nesse momento estava na Europa. O time de
Pinheiro foi perfeito.
7º momento
Jorge Tibiriçá, governador de São
Paulo, preocupado com as perturbações no seu estado, começa a solicitar o
posicionamento de Alves. Ele também simpatiza com Bernardino.
8º momento
Muito discretamente, Alves começa
a trabalhar na seara paulista pelo nome de Bernardino, que é bem aceito em
casa, depois que volta da Europa.
9º momento
Sondagens mostram que pequenos
estados, menos Paraná, apoiam Bernardino. A Bahia quer Rui e o Rio Grande,
Pinheiro. Minas e Rio ficam com São Paulo.
10º momento
A imprensa cooptada pelos
florianistas (= Pinheiro) começa a mover intensa campanha contra Bernardino,
com foco no pessoal, como são as campanhas até hoje (2026) — essa campanha foi
tão eficiente que um pobre coitado escreveu recentemente um livro sobre 1897
dizendo que Bernardino de Campos era florianista, e da ala dos jacobinos (os
mais radicais). Essa campanha esfria o apoio de Nilo Peçanha, no Rio, que pula
fora, mas sem o dizer explicitamente.
11º momento
O grupo controlado por Pinheiro
nomeia-se Coligação. Mais tarde, esse grupo se chamará Bloco.
12º momento
Pernambuco começa a sinalizar
simpatia por Afonso Pena de Mina. Conservador, burocrata, sem carisma, com
idade avançada e alguns problemas de saúde. Um típico político da velha escola.
Não molha nem seca. Apesar da insistência de Alves, Rosa e Silva, de Pernambuco,
não deixa claro. Vai esperar para que lado a canoa vira.
Afonso Arinos, que é mineiro,
transcreveu no seu livro uma opinião de Rodrigues Alves sobre Afonso Pena: “Referiu-me
o Gastão da Cunha (mineiro) que o Lafaiete [o conselheiro do Império
Lafaiete Rodrigues Pereira] dizia que o Pena era uma fechadura velha, que
abria para todos os lados com chave, prego, dedo, etc.” (p. 554)
13º momento
A turma de Minas, pró-Pena, tenta
ganhar o apoio de Campos Sales.
14º momento
Alves tenta o apoio de Sales à
candidatura de Bernardino, mas ele não se pronuncia. Pareceu aquela situação:
não vai ser eu, mas também não vai o Bernardino. São Paulo continua dividido e
sem candidato viável. Sales age como se tivesse rompido com Alves.
15º momento
Severino, da Bahia, apoia Sales,
mas Pinheiro trabalha para esvaziar essa candidatura, dando força à crença de
que ele lançou Sales apenas para dividir os paulistas.
16º momento
Rui Barbosa, o eterno perdido no
espaço, lança a sua candidatura. Severino não gosta de Rui, mas também não
aceita Bernardino. Alves perde estados importantes.
17º momento
O nacionalismo baiano vence e
Severino passa a apoiar Rui, embora não se desse muito com ele.
18º momento
Pinheiro agradece a Alves a sua
discrição na refrega. Alves lembra-lhe que esse era o seu dever institucional.
19º momento
Fica claro que Pinheiro não se
interessa mais pela candidatura de Campos Sales, que teve que se segurar na
brocha. Após ter feito o papel de cavalo de Troia para Pinheiro, Campos Sales,
desolado e magoado, pensa em retirar a sua candidatura, mas fica aguardando até
o último segundo.
20º momento
Pinheiro começa a fazer sondagens
em Minas, onde, com o apoio do governador Bias Fortes, começa a turbinar a
candidatura de Afonso Pena. Pinheiro quer a unanimidade de Minas. Os mineiros
topam.
21º momento
Glicério avisa a Alves que ele
acaba de perder Minas. A candidatura de Bernardino está perdida. Glicério tenta
que ele retire o apoio de Bernardino e abrace Campos Sales. Alves se recusa a
deixar Bernardino em maus lençóis — seria uma grande humilhação depois de tudo.
22º momento
Afonso Pena, tão quietinho, ficou
‘cheio de gás’ com a possibilidade de ser presidente. Arregaçou as mangas e foi
para a arena. Alves sentiu como se Pena tivesse esquecido a velha parceria que
ligava ambos e tivesse se atirado sem reservas nos braços de Pinheiro e da
Coligação.
23º momento
Pena pressiona fortemente a Sales
pelo apoio à sua candidatura e tenta, por meio dele, o apoio do presidente
(Alves).
24º momento
Tibiriçá, governador de São
Paulo, passa a ver viabilidade na campanha de Pena. Até deputados mineiros que
não simpatizavam com Pena e queriam Bernardino começam a apoiá-lo.
25º momento
Alves descobre que os deputados
mineiros pró-Bernardino estavam há tempos em tratativas com Pinheiro. Nem a
oposição em Minas lhe restava mais.
26º momento
Pinheiro tenta conseguir, em vão,
a desistência de Rui nesse primeiro momento, mas no seguinte ele concorda. A
resistência a Rui é grande. Rosa e Silva (PE) diz: “Com Rui, nem para o céu.”
27º momento
Glicério, apesar das evidências
em contrário, faz grande alarde da adesão dos paulistas à candidatura de Campos
Sales.
28º momento
A Coligação se consolida com a
presença de Rui Barbosa, dizendo que a Bahia foi decisiva.
29º momento
A Coligação se irrita com o apoio
de São Paulo a Pena. Talvez quisessem isolar completamente o estado para melhor
encurralá-lo. Vai saber!
30º momento
Foi escolhido um vice para Pena.
Nilo Peçanha do Rio, inimigo figadal de Prudente de Morais e um dos
florianistas mais ativos na capital. Se Pena estivesse atento, ficaria
preocupado. Pernambuco começa a se movimentar contra Peçanha, mas Minas o
resguarda.
31º momento
A Coligação lança um manifesto da
candidatura de Pena, fazendo críticas veladas ao presidente. Alves, assim como
Prudente, está politicamente isolado. Só lhe resta o apoio popular, que é
grande.
32º momento
Afonso Pena vence a eleição
presidencial de 1º de março de 1906, com 97,92% dos votos válidos, numa eleição
bem esvaziada — ele teve metade dos votos dados a Rodrigues Alves.
33º momento
A Coligação da turma de Pinheiro
Machado, agora chamada Bloco, fez um banquete em 12 de outubro de 1906 para
comemorar o resultado das eleições e lançar as bases do novo governo. O orador
foi Joaquim Murtinho. Porém, logo após o discurso, Rui Barbosa achegou-se a
Pinheiro e lhe disse, indignado, que aquilo não era o que tinha sido combinado,
seja lá o que eles tenham combinado.
“Após exprimir ‘sua amarga e
inconcebível surpresa’, Rui diz de entrada que não mais militava na Coligação.
Acrescenta que não tinha o hábito de ser ‘amadrinhado’ a decisões de que não
participara. Não sacrificaria ‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo”
[desde que J.J. Seabra não estivesse no meio, é claro] (p.554). Rui demorou,
mas no final percebeu que tinha sido usado.
Foi o ‘bafão’, ou o ‘bafafá’,
como diziam os antigos, daquele dia, antes mesmo de começar o governo.
Entretanto, como sintoma daquilo
que Arinos falava anteriormente: a completa obscuridade em que eram feitas
essas manobras, o jornal Correio da Manhã, de 1º de março, editorado pelo
baiano Leão Veloso, ataca vigorosamente a Rodrigues Alves, chamando-o de ‘mal
agradecido’, em relação ao resultado das eleições que o frustraram
completamente. ‘Dá a vitória da situação a Rui Barbosa, à sua ‘abnegação sem
exemplo’. Pinheiro Machado representara apenas uma comédia. Prevalecera a
vontade da Bahia” (556).
Os fatos, apontados
minuciosamente nas anotações de Rodrigues Alves, diziam justo o contrário.
Porém, é possível que muita
informação tenha se perdido nessa caminhada e que, inclusive, alguns momentos
tenham uma interpretação bem diferente daquela que Alves dá, pois nesse caso,
como em vários outros momentos capitais para o futuro da nação, não ficou nenhum
documento.
É possível até que o Correio da Manhã esteja certo!
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