sexta-feira, 26 de junho de 2026

 

Deputados e ilustres lideranças políticas baianas, reunidos no Jockey Clube do Rio de Janeiro, em 1933, para homenagear o interventor da Bahia, nomeado por Getúlio Vargas, Arthur Neiva, o penúltimo sentado, à direita, com braços cruzados, de óculos e paletó claro. No centro, sentado, segurando um volume, uma estrela política em ascensão na Bahia: Juraci Magalhães. Na extrema esquerda, sentado, olhando para frente, com as mãos nas coxas, o homem que desatou a tormenta: o ex-juiz, agora deputado federal Arlindo Leoni, que, embora tenha passado seus últimos anos de vida no Rio de Janeiro, ninguém o procurou para esclarecer o que aconteceu em Juazeiro, em novembro de 1896. Quem pagou o preço por tanta elegância e sofisticação, às vésperas de uma ditadura, foram os soldados e os sertanejos em Canudos (copiado de https://editoradionisi.com.br/folhaespiritacairbarschutel/2021/03/20/dr-arthur-neiva/)

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 28

A crucial questão sobre quem manda.

O general Sólon, a contragosto, coopera com Viana. Para ele, aquilo tinha ares de ser mais uma questão política interna, e a forma despreocupada como o governador tratava do assunto não era do feitio a augurar bons resultados. Havia também a delicada questão da ausência de uma regulação legal do princípio constitucional. Quem ficaria no comando da tropa e dirigiria as operações: o governador ou a autoridade militar federal no estado?

No dia 4 de novembro, o general Sólon pôs 103 praças (esse número varia um pouco) do 9º B.I. à disposição do governador, comandadas pelo Tenente Manuel da Silva Pires Ferreira. No dia 6, eles seguiram de trem para Juazeiro. Mas havia um problema sério pendente, apontado pelo general Tristão de Alencar Araripe (Expedições militares contra Canudos — seu aspecto marcial, 2ª edição, Coleção General Benício, vol. 230, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1985, p. 11–12).

“Não ficou registrada a missão… dada ao tenente Pires Ferreira. Proceder de acordo com o juiz de direito constitui uma evasiva perigosa e a transferência de quase toda responsabilidade ao simples tenente.”

Viana nunca esclareceu essa questão. Ele, que não estava interessado naquilo, aparentemente, apenas disse ao tenente que acertasse com o juiz sobre o que fazer.

Sequer se cuidou das condições materiais mínimas da tropa. Viveram da ajuda dos moradores. Foi o começo muito desleixado, mas também típico, de uma grande tragédia. Os soldados chegaram a Juazeiro no dia 7 e lá ficaram esperando o ataque. Que não aconteceu.

O que fazer? Ficar lá esperando ou sair ao encontro dos canudenses em seu reduto? Coube ao novato tenente Pires Ferreira decidir, talvez até provocado por alguns chefes locais gonçalvistas, que almejavam ver o Conselheiro expulso de sua zona de influência. 'Não vai tomar providências, tenente?' 'Está com medo?' E outras provocações desse tipo.

Insuflado pelos outros ou pelo próprio ego, no dia 12 de novembro, o tenente parte com seus soldados para dobrar, à força, a maior comunidade religiosa autônoma do Brasil. No dia 19 de novembro, sua tropa chegou a Uauá, e na madrugada do dia 21, sofreu um ataque de extraordinária intensidade, de centenas de conselheiristas — o número de atacantes, que oscila, conforme o autor, entre 100 e três mil. O tenente, em sua 'parte' (relatório), conta 500, e também diz estarem muito mal armados. Cita poucos fuzis comblain ou chuchu, além de bacamartes, garruchas, clavinotes, pistolas, facões e foices.

Repelidos os atacantes, o tenente vistoria o entorno, recupera o corpo do soldado Teotonio Pereira Bacelar, um dos que estavam de vigia e que, em virtude de estar “muito estropiado” (cansado?), não conseguiu se abrigar a tempo, sendo pego e degolado pelos conselheiristas — ele foi a primeira vítima de degola dessa guerra. O tenente ainda diz que, em virtude de os atacantes ocuparem algumas casas, os soldados os desalojaram, pondo fogo nelas. Outros, como Aristides Milton, aliado de Viana, acusaram os soldados de pôr fogo na cidade toda por pura maldade, mostrando uma grande característica desse conflito: informes oficiais desencontrados, quando não contraditórios, decorrentes de rixas políticas. O tenente e sua tropa se retiram.

Suas baixas foram: 1 oficial, 7 soldados e 2 civis, os guias da tropa, o equivalente a 9,7% da tropa.

Em seu relatório, o tenente omite a causa de sua ida a Canudos e faz várias considerações muito pertinentes quanto às condições da tropa, mas  conclui com uma afirmação leviana: se tivesse mais 100 homens, teria ido a Canudos e resolvido tudo.

Apesar desse relatório, nenhuma providência foi tomada para preparar melhor as tropas das futuras expedições. Deduzo que os altos escalões estavam muito ocupados fazendo política.

Alguns dizem que a culpa dos soldados é evidente, pelo fato de os canudenses se aproximarem cantando hinos religiosos, e as sentinelas. Os soldados, portanto, atacaram gratuitamente uma simples procissão religiosa. Mas isso é uma grande tolice:

a) Na parte do tenente, não fica claro quem começou a atirar. Sabemos somente que um tiroteio começou ao alvorecer do dia 21.

b) Não há registro de corpos de mulheres entre os mortos no combate de Uauá contados pelo tenente.

c) Não é comum, no sertão, procissão só de homens. Ainda mais levando armas.

d) Isso evidencia o comando pessoal de Antônio Conselheiro nessas ações, pois, nas antigas crônicas das Cruzadas, eram comuns narrativas de tropas cristãs indo para o combate a cantar salmos bíblicos e cânticos. 

A diferença entre as baixas aponta para um empate estratégico ou uma vitória de Pirro para os canudenses.

O mal estava feito. Houve um confronto, com mortes de ambos os lados. Uma tropa federal brasileira foi confrontada por uma força armada dentro do território nacional. A guerra tornava-se inevitável, a não ser que um dos lados cedesse, mas ninguém estava pensando nisso, nem havia ninguém com prestígio suficiente para conduzir uma mediação. Ia começar uma das guerras mais sangrentas da nossa história, e nós nem temos ainda uma ideia clara de como tudo isso começou!

De fato, o primeiro telegrama do juiz Leoni diz: “Notícias transmitidas por positivo confirmam boato vinda perverso Antônio Conselheiro, reunido a bandidos, partirão Canudos dia 2 vindouro. População receosa. Cidade sem garantias. Requisito enérgicas providências [era assim que se escreviam os antigos telegramas, pois o seu preço era determinado pela quantidade de palavras, e artigos e preposições contavam como palavras]. (Marco Antônio Villa; Canudos o povo da terra, 3ª edição, Ática, São Paulo, 1999, p. 141)”

O telegrama nada diz sobre a causa da ida do Conselheiro e sua gente a Juazeiro, que acabou não acontecendo. O juiz só acusa gratuitamente os canudenses de querer promover um saque na cidade! Manuel Benício, em seu O rei dos jagunços, fala brevemente, sem citar fonte, que tudo se deu “por causa de madeira paga e não entregue”, enquanto outros asseveram que os canudenses apenas se prontificaram a ir a Juazeiro pegar e transportar o madeirame a Canudos. Quem diz a verdade?

Encontrei uma versão mais detalhada, de Manuel Benício, no Jornal do Comércio do Rio, de 20 de agosto de 1897.

Achando-se ele [Conselheiro] em Canudos… comprou de um indivíduo, comissário de polícia no Juazeiro, um conto e tanto de madeiras especiais, lavradas [aparelhadas], para a conclusão da sua… igreja… modelada sobre antigas construções portuguesas.

Esta soma foi entregue antecipadamente ao comissário de polícia. Passaram-se alguns meses e a tal autoridade, ligada com o juiz de direito da comarca de Juazeiro, nem mandava a madeira nem restituía o dinheiro…

Isto… agitou… os espíritos dos sequazes de Conselheiro, que mandaram dizer que, se durante determinado prazo não recebessem o dinheiro nem as madeiras, eles mesmos iriam buscá-las.

O delegado recorreu ao seu amigo, o juiz de direito, informando-o que um bando de fanáticos de Antônio Conselheiro, para [o] liquidarem [matar], ameaçava saquear Juazeiro. O juiz telegrafou ao governador pedindo força…

O fato da entrega do dinheiro dos conselheiristas ao comissário de polícia é aqui conhecido desde as mais altas até as mais inferiores classes sociais, mas só é repetido à meia boca [em segredo]."

Ataques a cidades e promessas não cumpridas não eram incomuns no antigo sertão, mas o fato de as pessoas não quererem relatar ou testemunhar o fato, dar mais detalhes, reduz um pouco a força dessa afirmação. Por que, depois, ninguém se preocupou em aprofundar essa história? Se o relato de Benício foi o que realmente aconteceu, o juiz Arlindo Leoni pode ser considerado o principal causador do conflito.  

O próprio fato de não sabermos praticamente nada sobre Manuel Benício, apesar de ser um jornalista consolidado o bastante para escrever matérias de quase página inteira no mais conceituado jornal da época, é um mistério intrigante. Não se sabe o local e a data do seu nascimento nem do seu falecimento e, fora o seu O rei dos jagunços e artigos do Jornal do Comércio, ele não existe.

Ninguém se preocupou em pesquisar e entrevistar os envolvidos, como o juiz Leoni, que viveu até 1936, no Rio de Janeiro. Luís Viana, morto em 1920, também era um personagem fundamental que, parece, nunca foi entrevistado nem escreveu nada a respeito. O seu arquivo pessoal foi convenientemente despachado para a casa de um amigo e convenientemente perdido durante uma inundação, mas e a memória dele e a dos que trabalhavam com ele? Por que não se procurou essa gente? O tenente Pires Ferreira estava vivo ainda em 1912, ocupando cargo importante na polícia da Bahia. Por que não se procurou mais informações com ele? Aceitou-se a obra de Euclides como uma verdade canônica, e ninguém se preocupou em conferir ou aprofundar. Isso não faz sentido, a não ser que houvesse outra coisa!

Eduardo Simões        


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