O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 14
(mudei o subtítulo)
Os seus contemporâneos o conheciam
Até Os Sertões de Euclides da Cunha, em 1902, Moreira César era muito admirado no Sul. Em 1885, quando ele foi transferido para Jaguarão, numa aparente punição política, por causa do seu envolvimento com o republicanismo, um jornal de Porto Alegre o recepcionou com esse texto reproduzido pelo general Ferraz, nº 639, p. 50.
“Acha-se nesta cidade, de passagem para Jaguarão, o distinto capitão… Antônio Moreira César, um dos oficiais que mais se têm interessado pela “questão militar”… há pouco transferido… para o 3º Batalhão de Infantaria.
O capitão César tem curso completo do estado-maior de 1ª classe e é um moço que, pelos seus conhecimentos e pela sua inteligência, deve ter um futuro brilhante na carreira das armas.”
Lá, enfrentando um exílio político, ao invés de se remoer em mágoas, como um coitadinho, por uma suposta injustiça sofrida — como Floriano Peixoto, Antônio Conselheiro, Arthur Oscar, Cunha Mattos — desdobrou-se na construção de um cordão sanitário na fronteira com o Uruguai, que nesse momento, 1886, enfrentava uma epidemia de varíola. Aí ganhou mais uma menção honrosa. Diz o general Ferraz (27):
“Em Jaguarão… Moreira César recebe um elogio em que são exaltadas a atividade, a lealdade… em serviço do cordão sanitário, ainda mesmo com sacrifício de sua saúde.
O jornal República publicou, ao final de seu mandato como governador provisório, um editorial altamente elogioso. O editorial chamou-se “ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA” e saiu no dia 28 de setembro de 1894 (28).
Nessa edição veio um poema que mostra bem a intensidade e a qualidade dos sentimentos que despertava na população local. Eis alguns versos.
“A TIRE D’AILE [de repente]
Ao coronel Moreira César/ Ilustre cidadão, patrício abnegado, / .... / A lei, a liberdade, eis os vossos ideais, / Trabalhar pelo bem, com toda lealdade, / Querer que a pátria goze as florações da paz, / E lance sempre ao mundo enorme claridade.
Eis toda a aspiração sincera, proveitosa, / Daquele cujo nome, nobre, tão subido, / Está gravado, eterno, na alma generosa / Do povo desta terra, sempre agradecido [os destaques são meus].”
E o que os federalistas dizem? No seu jornal, O Estado, de 5 de novembro de 1896, poucos dias após a partida de César para o Rio de Janeiro, eles fazem uma comparação entre a sua administração e a de Hercílio Luz.
“Sua Excelência [Hercílio Luz] assumiu a administração do Estado em fins do ano de 1894, substituindo o sr. Coronel Moreira César, que esteve no governo apenas 6 meses, deixando nos cofres do Tesouro um saldo de 200 contos de réis aproximadamente [exatos 210 contos e 800 mil réis (210 milhões e 800 mil réis), comparados aos 480 mil réis, que ele encontrou quando assumiu], estando todos os servidores pagos em dia”
Nesse período, já estava claro o fosso que se abria entre Moreira César e os florianistas, devido ao seu apoio à normalidade democrática, representada pela posse de Prudente de Morais, confirmado, mais tarde, pela sua recusa em apoiar o plano de golpe do vice Manuel Vitorino. Prudente chamou-o ao Rio, às vésperas de entrar de licença-saúde, como uma garantia contra o golpismo difuso, pois todos sabiam que ele, com o 7º B.I., resistiria. A certeza da guerra civil paralisava os conspiradores.
A fama de seus feitos em Santa Catarina ultrapassou a fronteira do estado. No dia 11 de novembro de 1894, o jornal República publicou uma singela notícia, com o nome CORONEL CESAR, reproduzindo trecho do jornal pindamonhangabense Gazeta Semanal, sobre o reconhecimento dos catarinenses ao trabalho do coronel e uma iniciativa de homenagem a ele, proposta pela Assembleia Legislativa do Estado.
“Segundo acabamos de ler na República [de Santa Catarina] … o nosso ilustre conterrâneo Antônio Moreira César, ao deixar o governo daquele estado, no dia 28 de setembro próximo passado, foi alvo de diversas demonstrações de apreço…
No mesmo dia 28… o congresso daquele estado aprovou por unanimidade de votos o seguinte requerimento, apresentado e fundamentado pelo sr. Deputado Emilio Blum…
‘Requeiro que seja considerado um voto de louvor ao digno coronel Moreira César, bem como seja nomeada uma comissão para redigir uma mensagem que lhe seja dirigida, em agradecimento aos relevantes serviços prestados neste estado.'”
O jornal de Pindamonhangaba também faz referência ao editorial do República de 29 de setembro de 1894, chamado CORONEL CÉSAR, que diz o seguinte:
“Militar disciplinado e distinto, patriota decidido e abnegado, o coronel César deixa na pátria catarinense um sulco luminosíssimo que jamais se apagará.
Em cada dia de sua honesta e isenta administração… o ilustre militar… deixou um capítulo cheio de proveitosas lições e feracíssimos exemplos.
O militar, portanto… acaba de revelar-se administrador — modesto, correto e honestíssimo, sem outra preocupação a não ser o bem público.
E, como o Nilo, que deixa no solo árido do Egito, os fermentos de uma vida nova e a fertilização dos campos, o coronel Moreira César deixa na pátria catarinense fecundos e proveitosos exemplos de disciplina, honestidade e civismo.
Nesse mesmo jornal, numa seção chamada SOLICITADAS, em um texto chamado também CORONEL MOREIRA CÉSAR, assinado por “alguns paraibanos”, aparece mais um superlativo elogio (29).
COMO É QUE UM HOMEM QUE FAZ AS MALDADES QUE DIZEM QUE ELE FEZ SAI COM TODO ESSE PRESTÍGIO, AO INVÉS DE TER O POVO NAS RUAS PROTESTANDO CONTRA A SUA PRESENÇA?
Fomos enganados todo esse tempo?
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