terça-feira, 19 de maio de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 15

(mudei o subtítulo)

Uma estranha transmudação

    Toda apuração de homicídio deve se basear em pelo menos quatro componentes, sem os quais a suspeita não se sustenta: um corpo, a arma utilizada no crime, a motivação e o(s) beneficiário(s). A Moreira César se atribui um número permanentemente aberto de vítimas, sem que haja corpo, arma, motivação e beneficiário.

    Os corpos nunca apareceram, sem falar que muitas das supostas vítimas, aleatoriamente listadas, ou já estavam mortas quando foram fuziladas, ou continuaram vivas após o serem.

     A arma do crime nunca apareceu, pois até hoje não se sabe se as vítimas foram fuziladas pelos soldados do 7º ou outra unidade militar em Anhatomirim, que estava fora da jurisdição de César.

        A motivação é só um detalhe, uma vez que Moreira César não conhecia as vítimas, nem contra elas tinha qualquer desafeição ou motivo para temê-las ou odiá-las. O fato de elas permanecerem vivas e livres não o prejudicava.

        Ele não teria vantagem com a sua morte violenta, antes dificultaria a sua missão, geraria ressentimentos, reduziria a cooperação dos catarinenses, além de lhe causar problemas com os seus superiores. Essas execuções eram ilegais e arruinariam sua carreira. Mas ninguém pensou nisso!

Em Niterói, onde a sua intervenção rápida e equilibrada evitou um grande conflito, ele ganhou um elogio extremamente honroso de uma lenda do exército brasileiro: o Barão do Rio Apa, o Marechal Augusto Eneas Galvão, ministro da Guerra na ocasião, teve o seu nome retirado de uma das ruas da cidade. Os niteroienses não precisam mais se lembrar dele, mas o que ele fez pela cidade e pelo Estado entre os dias 14 e 15 de dezembro de 1892, pelo qual foi elogiado, ainda não foi apagado da história. Que os niteroienses não percam as esperanças.

Eis a citação de Eneas Galvão.

“Sr. ajudante-general, declaro-vos em nome do sr. marechal vice-presidente da República, que deve ser louvado o coronel comandante do 7º BI, Antônio Moreira César, pelas providências acertadas que deu na noite de 14 e na manhã de 15 do corrente, com o fim de restabelecer a ordem pública alterada na cidade de Niterói e debelar a revolta do Regimento Policial do Estado do Rio de Janeiro.”

Por que ele ficou assim marcado?

Uma explicação possível talvez nos venha do livro do escritor gaúcho Tabajara Ruas, A cabeça de Gumercindo Saraiva, no qual ele narra a tentativa de aprofundar pesquisas sobre as degolas na Revolta Federalista com os descendentes dos envolvidos. Ninguém quis ajudá-lo, seja pelo horror dos fatos, seja por receio de retaliações, afinal, esses crimes hediondos envolveram membros de famílias poderosas no Estado. Ponha-se uma pedra em cima.  

No Paraná, a discussão sobre os massacres, e em especial a morte do Barão do Cerro Azul e seus companheiros, no km 65, emperra na responsabilidade dividida do presidente civil do estado, Vicente Machado, e na do General Raimundo Ewerton Quadros.

Em Santa Catarina também havia famílias importantes que se posicionaram decididamente a favor de um lado ou de outro e, no calor dos combates, da mesma forma que no Paraná e no Rio Grande, deram causa a excessos, que podem ter deixado feridas abertas e estremecimento nas relações.

Deve ter sido um alívio, para alguns, quando, em 1902, houve o lançamento bem-sucedido de Os sertões, falando de um César que ninguém conhecia, apresentando-o como o culpado máximo e solitário por tudo que acontecera. Como muitas pessoas ainda estavam desaparecidas, por comodidade e estratégia, acabaram todas na conta do coronel: os falecidos na ocasião, os falecidos em passado remoto e os a falecer no futuro. Velhos inimigos poderiam agora se olhar sem ‘contas em aberto’.

        Vimos também como os principais jornais de Desterro/Florianópolis se posicionaram acerca do coronel Moreira César, com o República, de cunho florianista, se derramando em elogios a César, e O Estado, federalista, com uma abordagem discreta, mas nunca o acusando de mortes ou abuso de autoridade.

Essa situação, porém, começa a mudar paulatinamente nos aniversários seguintes da morte de Moreira César.

Em 1898, a data do primeiro ano de sua morte coincidiu com a publicação dos resultados da eleição do sucessor de Prudente de Morais, e nesse momento só o República estava circulando, pois O Estado sofrera um empastelamento. O República efetua uma minuciosa cobertura das eleições e não faz referência ao aniversário de morte de Moreira César.

Em 1899, no segundo aniversário, há uma mudança de cento e oitenta graus:

O Republica traz um artigo de primeira página informando sobre a cerimônia religiosa que aconteceu em Florianópolis, rememorando o evento, citando somente uma vez o nome de Moreira César, numa situação em que era quase impossível não o citar. Nessa missa, e em outras rezadas em Santa Catarina, havia uma grande afluência de povo e autoridades, citadas nominalmente, algo incompreensível para uma pessoa supostamente envolvida em crimes tão graves.

O Estado, de volta, também publica uma matéria estritamente informativa sobre a solene missa pelos falecidos da 3ª Expedição na primeira página, mas abre a segunda página para um elogio que antes só se veria no velho República. O título é CANUDOS; abre-o com um poema de Gavroche — possivelmente Arthur Azevedo:

Era tão bravo e valente, / Era tão guapo e tão forte, / Que ainda depois da morte, / Mete medo a muita gente.

        É um jornal FEDERALISTA falando de Moreira César:

“Quando o Brasil ansiava pelo resultado da expedição M. César… um grito de dor, de angústia, vimos sair…

Longe daqui, naquele sertão árido… — Ele — o republicano sem jaça, o soldado que pela predestinação de talento e bravura fora fadado às eminências, o homem de olhar de águia rasgando as nuvens do impossível, morreu.

Historiar a vida de tão grande homem… não é o que nos propomos.

Moreira César!

O teu nome indelével perdurará sempre na memória desta mocidade e será o exemplo de civismo e de bravura para as gerações seguintes.

É a ti, mocidade… a quem concito neste momento augusto a prantear tão ilustre morto.

A. Franco.”

Eis uma completa inversão ou, como diria Cunha: transmudação! Enquanto os florianistas tratam a data de uma forma fria e burocrática, os federalistas fazem-lhes homenagens tocantes, como se Moreira César fosse um dos seus, mas como o jornal federalista encerra as suas atividades em 1902, nada mais podemos afirmar a respeito. Um novo jornal, com o mesmo nome, foi fundado em 1915, mas com outra linha editorial.

A história seguiu. Em 27 de setembro de 1934, no Governo Provisório de Getúlio Vargas, foram exumados, em Florianópolis, os supostos restos mortais de pessoas supostamente fuziladas em Anhatomirim, com seus restos depositados em quatro urnas, a serem transportadas solenemente para o Rio de Janeiro, no navio hidrográfico Calheiros da Graça.

        O antigo jornal florianista República ainda existia e, na sua edição de 30 de setembro de 1934, falou sobre o assunto de maneira vagamente informativa, circunstancial, mas nada esclareceu sobre o conteúdo das urnas. Um de seus 'bravos' articulistas caricaturizou uma grave acusação contra Moreira César:

       “Os fuzilamentos aqui foram feitos alta noite, covardemente, arrancadas de suas casas as pobres vítimas eram encarceradas, ninguém sabia aonde [Desterro devia ser uma metrópole imensa, disfarçada numa cidadezinha de 31.000 habitantes], e passadas pelas armas… pelos soldados do sanguinário Moreira César, alguns deles, como… o saudoso Caetano Moura, foram embarcados pela manhã. Os parentes desse saudoso patrício ainda tiveram tempo de levar-lhe a bordo roupas e dinheiro, mas poucos momentos depois desembarcava ele em Santa Cruz para a morte… ao verem essa hedionda carnificina, os revolucionários… escondiam-se.”

        Se eu não fosse tão endurecido pela vida ou não conhecesse essa história, acho que iria às lágrimas. O jornal, que no passado, derramava-se em elogios a Moreira César, enquanto atacava desabridamente os federalistas, ataca o ídolo falecido e se cobre de pena pelos federalistas, sem que nenhuma de suas páginas, na época em que esses ‘crimes’ aconteceram, citasse qualquer anormalidade.   

Não falo mais de Caetano Moura!

        Curioso é que, embora escondidos, os revolucionários viam essa hedionda carnificina feita altas horas, onde ninguém sabia! Repete o relato mambembe de navios da marinha fazendo meia-volta-volta-e-meia no meio do mar, tudo “descoberto” depois que Moreira César estava morto. Somos provocados a perguntar: por que os revolucionários que sobreviveram, escondidos, não o denunciaram no governo de Prudente, quando havia plena liberdade para isso, e só o fizeram depois, à sombra das ambiguidades de Euclides da Cunha? O autor “disso”, fazendo como os “valentes”,  assina somente “um catarinense”. Mas não faria nenhuma diferença se assinasse “um marciano” ou “um lunático”.

        É curioso ver essa mudança quando lemos as pequenas notícias e editoriais do República na época desses  “dramáticos” acontecimentos, e percebermos uma disposição bem diferente em relação aos federalistas. Num editorial em 24 de fevereiro de 1895, p. 2, o jornal se regozija com o início dos julgamentos dos federalistas que haviam escapado à punição do coronel.

“O dever de todos aqueles cujo patriotismo é patente, consistia somente em pedir o início do processo contra os revoltosos que, antes dele, afrontavam a opinião pública…

Como republicanos, não admitíamos que criminosos confessos permanecessem entre nós gozando de uma impunidade que ofendia a lei… [o Procurador não podia ficar] inerte diante dos criminosos que mereciam punição imediata…

Nos era impossível assistir à impunidade de nossos algozes [os federalistas dominaram Santa Catarina por um tempo], que até há poucos dias, estavam na posse de uma liberdade criminosa e injustificável.”

Pelo texto acima, vê-se que os acusados estavam todos vivos e presentes nas redondezas ou ao alcance dos olhos da justiça, que, pelo menos nesse caso, não cometeu o disparate de denunciar e condenar pessoas mortas, como afirmou uma 'pesquisadora'.

        Ou ainda nessa edição de 9 de junho de 1897, onde acusa os federalistas de serem restauradores enquanto se coloca contra o presidente Prudente de Morais.

“O jornal da oposição [O Estado], que tem feito papéis dos mais degradantes, que tem mudado de cor como o camaleão, para mais facilmente iludir… não passa de refinado explorador, de reles politiqueiro… a ninguém deve ter escapado o programa interesseiro, hipócrita, bajulador do nosso adversário.

[A] reação restauradora do 6 de setembro [início da Segunda Revolta da Armada], iniciada por esses [os federalistas de O Estado] que hoje, ao lado do atual presidente da República [Prudente], dirigem o país, auxiliados pelos que não tiveram repugnância em firmar aliança com o elemento restaurador, para trabalharem pela ruína da pátria.”

        E esses são editoriais da época em que a luta armada havia cessado. Imagine-se o nível de linguagem no momento do conflito. Eu os li e atesto: eram terríveis, e quem tiver interesse procure na hemeroteca catarinense os números desse período, que estão disponíveis na Internet. Imaginar que, 40 anos depois, esses homens estariam denunciando as injustiças contra os federalistas, quando, se dependesse deles na época de Moreira César, não escaparia um!

        Pois bem, a estranha aventura do Calheiros da Graça continuou na sua chegada ao Rio de Janeiro.Pelo jornal O Paiz, de 28 de setembro de 1934, sabemos que o navio era esperado no Rio daí a 4 dias, algo como 1 ou 2 de outubro; entretanto, algo misterioso aconteceu, e a edição de 30 de setembro traz a seguinte notícia:

Ancorou em nosso porto, ontem [dia 29], inesperadamente [meu destaque], às 14 ½ horas, o navio hidrográfico Calheiros da Graça… trazendo a seu bordo as urnas funerárias que contêm os despojos dos fuzilados em Santa Catarina, por ocasião da revolta da esquadra em 1893.

        Parece que alguém não queria publicidade.

Uma foto do jornal Diário de Notícias mostra 2 soldados carregando uma das urnas, uma espécie de meia pirâmide, afunilada embaixo, cujo lado media cerca de 70 cm. Se fossem 40, por exemplo, os exumados, teria de haver cerca de dez em cada urna; se fossem 80, haveria vinte! Como couberam? O mais normal seria uma pessoa por urna! Por que misturar os ossos? Mas há outros mistérios:

1º — Não se sabe exatamente de onde esses ossos foram retirados. Não há informações nem fotos das exumações. Disseram que foi de Anhatomirim.

2º — Os jornais não dizem se foi feita uma perícia nos ossos.

3º — Segundo uma fonte, as urnas foram entregues já lacradas pelo comandante militar da ilha de Anhatomirim, dizendo que os ossos foram retirados de lá. Não sabemos quantos corpos foram exumados.

4º — Por não serem feitas as perícias costumeiras, não sabemos se há marcas que comprovem fuzilamento ou se eles pereceram de outra maneira, ou se esses ossos datam realmente do período do suposto massacre. Hoje, por meio da genética, daria para saber se são ascendentes de pessoas ainda vivas. Faremos um dia esses testes?

5º — Li em algum lugar que essas urnas teriam sido tiradas de Anhatomirim em 1913 e levadas para o cemitério de Florianópolis, antes da transferência para o Rio. Nenhum dos jornais de 1934 mencionou isso. Por que tudo o que envolve essa ilha fica sempre numa zona cinzenta de mistério? Visível o bastante para ser utilizado seletivamente, mas escuro o suficiente para não sabermos com o que estamos lidando.

Eduardo Simões

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