O PREÇO DE MERS EL-KEBIR
Eduardo Simões
Navegando pelo site mises.org.br/, encontrei o
artigo “Repensando Churchill: Crimes de guerra encobertos, O lado sombrio de
1945 e o Triunfo do estado de bem-estar social”, que se inicia com esse
parágrafo exemplar:
“Há diversos episódios ocorridos durante a guerra reveladores do caráter de Churchill que merecem ser mencionados. Um incidente relativamente menor foi o ataque britânico à frota francesa em Mers-el-Kébir (Orã), na costa da Argélia. Após a queda da França, Churchill exigiu que os franceses entregassem sua frota à Grã-Bretanha. Os franceses recusaram, prometendo afundar os navios antes de permitir que caíssem em mãos alemãs. Contra o conselho de seus oficiais navais, Churchill ordenou que os navios britânicos posicionados na costa argelina bombardeassem a frota francesa. Cerca de 1.500 marinheiros franceses foram mortos. Isso foi, obviamente, um crime de guerra, por qualquer definição: um ataque não provocado contra as forças de um aliado sem declaração de guerra. Em Nuremberg, oficiais alemães foram condenados à prisão por menos do que isso. Percebendo isso, Churchill mentiu sobre Mers-el-Kébir em sua história da guerra e suprimiu evidências sobre o episódio nas histórias oficiais britânicas do conflito”.
A paixão é, deveras, a grande dissimuladora da ignorância, ao fazer o apaixonado parecer um especialista em algo que ele não conhece patavina. Vejamos então o contexto que levou à chamada Operação Catapulta, em 3 de julho de 1940, minuciosamente descrita por Churchill em seu livro The Second World War — na edição em português está entre as páginas 379 a 383 — ficando clara uma mentira de Raico.
1º - Não dá para negar que as exigências abusivas da França, durante e depois do Tratado de Versalhes, foram um fator crucial para o crescimento do nazismo e o posterior início da 2ª Guerra Mundial.
2º - Quando a guerra estourou, a população francesa dividiu-se em dois grandes grupos: a extrema direita da Ação Francesa, extremamente simpática ao nazismo, e a esquerda, em especial os comunistas, orientados por Stalin a trabalhar com Hitler.
3º - É fato: o exército francês era o mais poderoso da Europa nessa época, e os erros de comando não explicam por si só a derrocada do país em somente 45 dias. Influenciados por esses grupos, a mentalidade dominante no exército era: “não temos por que lutar, essa guerra é de Churchill”. Os franceses se renderam muito fácil. Dava para confiar?
4º - O jornalista francês Alemanha Raymond Cartier, que escreveu sobre a guerra, relata episódios em que se viam claros indícios de traição, em especial de gente da extrema direita infiltrada, no exército francês. Dava para confiar?
5º - A França foi, com a Rússia, o país que mais voluntários cedeu às tropas das SS, a Divisão Charlemagne, que inclusive, com os voluntários espanhóis, foi a unidade que sustentou a última resistência contra os soviéticos em Berlim, em 1945. Dava para confiar?
6º - Além dos voluntários, os franceses remeteram centenas de milhares de trabalhadores, homens, para sustentar o esforço de guerra nazista na Alemanha. No final da guerra, esses mesmos homens saíram caçando mulheres que haviam se aproximado, muitas por razões estritamente pessoais, de soldados alemães, e as submeteram às mais degradantes humilhações, dignas das piores selvagerias.
7º - A França se rendeu aos alemães em 22 de junho de 1940 e os ingleses fizeram de tudo para que os franceses lhe cedessem seus navios. Em vão. Os franceses se declararam neutros, portanto, JÁ NÃO ERAM MAIS ALIADOS. Raico mente.
8º - Petain, o novo chefe do regime colaboracionista francês, Vichy, disse logo após a rendição, inclusive para justificá-la, que “os alemães vão torcer o pescoço dos ingleses como o de uma galinha”. Ninguém confiava na capacidade inglesa de resistir, e Churchill precisava dar uma resposta decisiva ao mundo, para os franceses e até os ingleses, de até onde ia a determinação dele para vencer a guerra. A Inglaterra também precisava de tempo. Você arriscaria?
9º - Foram dadas chances para a frota francesa em Mers el-Kebir se render, ou simular rendição, pois uma coisa era certa: se os poderosos navios franceses caíssem nas mãos dos alemães, a Inglaterra perderia sua única vantagem e a guerra estaria perdida. Você arriscaria?
10º - Quanto à promessa de não entregar o navio aos alemães, a França já tinha prometido não se render à Alemanha e se rendeu. Em 1944, os alemães por pouco não se apoderaram da frota francesa em Toulon, que preferiu se autoafundar e passar para o lado dos aliados. E isso mostra, já no final da guerra, que os franceses ainda tinham fortes dúvidas de qual era o lado certo. Você arriscaria?
11º - A política interna de Vichy era uma piada, eram os nazistas quem mandavam, inclusive quando ordenaram, e Pétain cedeu, que lhes mandassem todos os judeus lá residentes. Se von Mises, por exemplo, morasse nesse “aliado”, nessa época, poderia ter acabado num campo de concentração. Você arriscaria?
12º - Nem os franceses confiavam em Vichy. Em 14 de agosto de 1945, o marechal Pétain foi condenado à morte por um tribunal de guerra francês, escapando por pouco, devido à sua história na 1ª Guerra e sua idade.
No seu livro Memórias da Segunda Guerra Mundial, que Raico decerto não leu, na página 383, Churchill diz que, após apresentar dados minuciosos da operação aos deputados da Câmara dos Comuns, fez uma breve conclamação a uma guerra sem quartel contra o nazismo, encerrando seu discurso.
“A Câmara permaneceu muito silenciosa durante a leitura do relatório [do ataque a Mers el-Kebir], mas ao fim ocorreu uma experiência única em minha vida. Todos pareceram manter-se erguidos por todos os lados, ovacionando, durante o que me pareceu um longo tempo. Até esse momento, o Partido Conservador havia me tratado com reserva, e era da bancada trabalhista que eu costumava receber a acolhida mais calorosa… Nessa ocasião, porém, todos se uniram num solene acordo ostensório” (idem, idem).
O ataque a Mers el-Kebir era o que faltava para convencer o mundo, e até os ingleses, de que o governo de Churchill não se renderia e que estava disposto a ir às últimas consequências para alcançar a vitória. Isso galvanizou a Inglaterra, salvando o país do nazismo, e de tabela todo o mundo ocidental, e o resto da humanidade de ter que enfrentar uma aliança entre a União Soviética comunista e Alemanha nazista.
O poder de decisão, o heroísmo de Churchill, indiferente ao oportunismo político e ao julgamento dos ignorantes de má-fé, sua disposição em pagar o preço de fazer a coisa certa mesmo na mais desvantajosa posição, de ser coerente com o seu discurso até o risco de passar para a história como um criminoso, ao contrário dos covardes tão admirados, fez dele o símbolo máximo de um mundo que acabou, mas que um dia, não muito distante, será procurado de novo como a única chance de a humanidade continuar existindo.
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