segunda-feira, 29 de junho de 2026

 

O MAIOR HERÓI DESCONHECIDO DE CANUDOS

Eduardo Simões 

Há um personagem absolutamente insignificante na crise de Canudos — desconhecido até por Pedrão, um dos sobreviventes —, revelando muito da profunda distorção de valores que sempre existiu na nossa sociedade, que persiste até hoje, tanto que ninguém se preocupou em ressaltar a extrema importância humanitária de sua iniciativa, já nos últimos estertores da cidadela conselheirista: ANTONIO BEATINHO.

Esse personagem, completamente desconhecido, era provavelmente um ajudante ou um sub-beato no grupo mais íntimo de Antônio Conselheiro; talvez uma daquelas pessoas pacíficas e bondosas que a gente só nota em pequenas comunidades,  porque nas grandes a sua luz natural desaparece no excesso da luminosidade artificial de muitos outros. Só os que são da mesma natureza os percebem, enquanto a maioria só os descobre após suas mortes, e às vezes nem isso.  

A pequena luz de Beatinho virou sol no dia 1º de outubro, quando, após duros combates, estando ele encurralado com centenas de mulheres, crianças e velhos, que não queriam ou não podiam absolutamente lutar. Arriscando-se a tomar um tiro dos canudenses, que não queriam saber de rendição, ele achou um pequeno galho, talvez da estrutura de uma casa espatifada, e nele amarrou um trapo branco, e, por conta própria, foi parlamentar com os militares, após arrastar-se penosamente sob o monte de escombros a que ficara reduzida a cidade.

Ele foi levado à barraca onde estava o general João Barbosa, e para lá também foi o acadêmico de medicina Alvim Horcades, que testemunhou e reproduziu o diálogo a seguir, após Beatinho ser desamarrado e autorizado a falar com o general. 

 
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P. 82



P 85

Horcades complementa esse discurso com uma nota nº 23, onde deixa bem claro que fez um registro absolutamente fiel das palavras de Beatinho.
 
P 86
O final nós sabemos. Beatinho trouxe centenas de pessoas para o acampamento militar, onde todos os homens foram assassinados, inclusive Beatinho, assim como muitas mulheres e crianças, ou vendidas posteriormente para particulares, inclusive cafetinas em várias cidades.


P 87

No segundo parágrafo da página 85, Beatinho revela o principal móvel que fez ele, alguém tão insignificante, procurar por conta própria os militares: “está tudo [todos] metido em buracos e os meninos só vivem gritando, porque estão todos com fome e sede... morreu quase tudo, e eu hoje vendo que morria [as pessoas ao seu redor], resolvi apresentar-me... Se isso durar mais dias vosmeces matam todos”

Sim, ele se comoveu com a morte do seu povo, o sofrimento das pessoas nos buracos, a fome que grassava e, especialmente, o grito das crianças com fome. BEATINHO FOI O ÚNICO QUE SE PREOCUPOU COM O SOFRIMENTO DOS INOCENTES, EM ESPECIAL DAS CRIANÇAS, e só isso o torna, de longe, O MAIOR PERSONAGEM DE CANUDOS. Nenhum outro personagem, ao que se sabe, mostrou esse tipo de preocupação.

Conselheiro, até o fim, viveu alheado na sua loucura ou confusão mental, conferindo as obras nas igrejas, segundo Vilanova, copiando compulsivamente a Missão Abreviada, abrigado numa casa com paredes de pedra de mais de um metro de grossura, segundo Horcades. Quanto aos militares, nem se pode falar, em que pese o fato de que o “pior” deles, para os brasileiros que ignoram a sua história, Moreira César, tenha tido o cuidado de não disparar nenhum tiro sobre as casas onde estavam os moradores pacíficos. Todos os combates da 3ª Expedição foram ao redor das igrejas e nas casas próximas, as casas dos ricos locais, onde havia foco ativo de resistência.

NÃO É CURIOSO QUE O MAIS BIZARRO E CRUEL DE TODOS, QUE MATAVA POR COMPULSÃO OU PRAZER, TENHA SE PRIVADO DE DISPARAR SOBRE AS CASAS DO POVO POBRE DE CANUDOS? Inclusive, e Euclides da Cunha o diz, quando ele deu dois disparos de apresentação, antes de Canudos, ele mandou graduar os canhões para um alvo a meia légua, quando Canudos achava-se a uma légua.

Quiseram as circunstâncias que o mérito de Beatinho, porém, fosse superior!

Sintomaticamente, não sabemos nada sobre o seu rosto, embora saibamos que era alto e esguio, porque os vários autores que o descreveram, provavelmente por informação de terceiros, e pouco caso com descrições objetivas, o retratam de um jeito diferente, desde “mestiço”, passando por “pardo”, até cabelo “castanho claro” e “olhos azuis”.





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