terça-feira, 30 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 29

O que era Canudos?

Lendo alguns autores, Canudos parece um País das Maravilhas, meio El Dorado, meio Terra do Nunca, onde se vivia em paz, prosperidade, igualdade, democracia e socialismo, longe desse insensato mundo que costumamos chamar de realidade, como se a fantasia pudesse existir fora dos nossos sonhos.

Ultimamente, alguns estudiosos passaram a ver Canudos como um projeto “revolucionário”, construído conscientemente para afrontar a realidade injusta da sociedade rural brasileira do final do século XIX. Seus habitantes, revolucionários precoces, pressionavam as autoridades e donos de latifúndios por distribuição de terras. Isso era praticado em Canudos, onde as condições de vida eram melhores que nas fazendas do entorno; guiados por um homem de sensibilidade social, inteligência e iniciativa acima da média, destruído por um Estado a serviço de uma classe opressora.

Considerando o arranjo das edificações de Canudos, com as duas igrejas e cemitérios como as edificações mais destacadas, separadas e envoltas por espaços vazios, como praças, cercadas das casas da população privilegiada. Em volta delas espalhava-se uma enorme quantidade de casario irregular, no qual se abrigava a parcela pobre da população. A gente se vê remetido aos antigos centros cerimoniais na América Andina, na Mesoamérica e até na Anatólia, com duas diferenças: as obras de engenharia hidráulica e planejamento urbano desses centros antigos, que faltavam em Canudos. Sem falar que, enquanto os antigos centros eram ilhas de tecnologia de ponta na sua época, Canudos estava cercada de tecnologia mais avançada do que a que havia nela.

É preciso considerar que os centros cerimoniais eram, antes de tudo, pontos aglutinadores de populações dispersas, para as quais eram sinais de unidade, de identidade, a partir da resposta dada àquilo que sempre foi, e a arqueologia o comprova, a necessidade mais básica do ser humano: uma resposta para o sentido da vida neste mundo e no outro. Conselheiro, em Canudos, oferecia uma resposta muito incisiva e adequada à cultura sertaneja da época sobre isso.

Canudos era a manifestação da perplexidade dos sertanejos diante das mudanças do século, do seu abandono pelas autoridades constituídas, pela sociedade urbana brasileira em geral, e de sua dificuldade em decodificar e assimilar as regulamentações e as leis disfuncionais criadas nos centros políticos. Mas Canudos também representava o desejo do sertanejo de recuperar e/ou consolidar a sua identidade tradicional. A distância entre eles e a elite das cidades era tal que mesmo aquilo que era pensado, por essa elite, como uma vantagem para esse povo, se tornava desvantagem, como, por exemplo, as eleições e os direitos políticos.

Durante o Império, como as eleições eram acessíveis somente aos mais ricos, os grandes senhores de terras preocupavam-se apenas em cobrar produtividade de seus trabalhadores, além de braços para as eventuais lutas de vizinhos, de sorte que, na maior parte do tempo, eles eram deixados em paz.

Com a cidadania doada pelos republicanos, com a finalidade de promover a massa inerte da população, facultando as eleições a todos os homens que soubessem ler e escrever. Os fazendeiros, que, no passado, afirmavam o seu prestígio nas grandes festas de padroeiros e nos casamentos, afirmam-se agora pelo tamanho do séquito de eleitores que conseguem arrebanhar, numa amolação contínua, sem sentido e sem efeito. À exploração do burro de carga, juntava-se a humilhação do eleitor de cabresto, sem atenuar aquela.

Era no rito máximo dessa cidadania artificial que o sertanejo se sentia mais degradado, tratado como coisa sem vontade própria, com um poderoso a lhe dizer: “vote nesse”, “vote naquele”, “fale mal de X, porque é meu adversário”, “não fale mal de X, que agora é meu amigo”. Canudos foi um grito desesperado em busca de identidade e respeito, que a República não sabia dar porque não sabia lidar com essa gente, porque não a conhecia em absoluto, e no final a tratou da única forma para a qual estávamos culturalmente preparados: a violência extrema.

Eu não creio que em Canudos se vivia melhor que nas fazendas do entorno, afinal as terras de Canudos são de baixa produtividade, sem falar no testemunho daqueles que viram as casas em Canudos, como Horcades, Benício, Favilla Nunes, etc., que atestam a sua impressionante miséria. Além disso, as fazendas dos grandes proprietários ficavam nas melhores terras, bem abastecidas de água, onde podia-se plantar uma roça com resultados melhores.

Canudos, pelo tamanho, não era propriamente um arraial, embora a sua organização administrativa, fortemente personalista, lembrasse mais um arraial, e até uma aldeia. E, embora não fosse uma cidade na acepção completa do termo, já se observava nela alguma estratificação social, própria dela. Canudos era uma estrutura em transição, meio arraial, meio cidade, um centro cerimonial a caminho de se tornar cidade, um foco de civilização sertaneja, apartada do resto do país, que para eles não lhe fazia sentido.

Quando se quer falar sobre o seu tamanho, os estudiosos seguem Euclides da Cunha, que, por sua vez, segue automaticamente a contabilidade de Arthur Oscar, de cerca de 5.200 casas, “cuidadosamente contadas”. Calculando uma média razoável de 5 pessoas por casa, teríamos algo em torno de 25 mil habitantes — alguns autores especulam até 35 mil. Uma gigantesca e invisível metrópole numa das áreas mais inóspitas do semiárido.

O relatório de Oscar, entretanto, oferece dificuldades:

1º — A cidade foi submetida a um intenso bombardeio de artilharia, cuja intensidade deve ter sido considerável, revolvendo muitas casas, o que dificultava a contagem.

2º — Outro fator importante foi a pressa com que Arthur Oscar abandonou o local; e, a esse respeito, Marco Antonio Villa, em Canudos o povo da terra faz observações interessantes:

2.1 — Os combates acabaram no final da tarde (16:00h) do dia 5.

2.2 — Havia incêndios grassando no que sobrou e montes de cadáveres espalhados pelo solo.

2.3 — Na manhã seguinte, logo cedo, teve início a destruição completa do que sobrou. Não era mais possível fazer contagem.

A contagem, portanto, foi feita ao final do entardecer, em meio aos incêndios, após vários dias de duros combates, numa área que devia abranger vários quilômetros quadrados. Era humanamente impossível fazer o cômputo de um número tão grande de casas em tão pouco tempo, com pouca luminosidade e circunstâncias tão dramáticas. Lembra as atas eleitorais da época! Mas esse número enorme justificava, para a opinião pública, a dificuldade de um exército formidável em vencer uma gente tão pobre, enquanto ocultava a incompetência de um comandante. Num livro biográfico, que ouso dizer que foi um dos mais indecorosos que já li, o marechal Carlos Eugênio de Andrade Guimarães diz, sem apresentar nenhuma evidência, que seu irmão, Arthur, enfrentou cerca de dez mil homens armados (Arthur Oscar um soldado do império e da república, p. 121). Será que ele acreditava realmente nisso?

2.4 — Os números oficiais, finais, de Canudos são um abismo de contradição: 5.200 casas e 647 corpos de homens contados, contados pelo coronel Dantas Barreto. Muito pouco! Para uma cidade de 25 mil habitantes, toda centrada nas igrejas e mobilizada para a sua defesa. Essa foi uma das duas batalhas, durante a guerra, em que se contou, com certeza, mais de uma centena de mortos entre os canudenses, se o número apresentado pelo Tenente Ferreira não é um chute. Para onde foram os 25 mil habitantes?

As condições climáticas, pedológicas (relativas ao solo), culturais e tecnológicas impunham uma baixa produtividade e impediam que a localidade pudesse abrigar uma população muito grande. Nessa mesma compreensão, milita corretamente Marco Antônio Villa. Nem hoje, apesar do açude de Cocorobó, que impede a seca do Vaza-Barris, das modernas técnicas de fertilização do solo, irrigação e de transporte, etc., foi possível dar ao moderno município de Canudos uma população tão grande — a população em 2025 era quase 17 mil. Dizer que o Conselheiro, com os recursos do final do século XIX, conseguiu isso é um desvario.

O general Carlos Teles, um dos grandes nomes do exército na 4ª Expedição, escreveu algo a respeito no Jornal do Brasil, em 23 de agosto de 1897, ao mesmo tempo em que faz justiça a Moreira César:

“Que Canudos tem somente mil casas (ranchos) ou pouco mais e nunca quatro a cinco mil… Calculo, ao chegar ali a quarta expedição, o número de jagunços em seiscentos no máximo; … eles nunca possuíram balas explosivas [essa informação estava sendo espalhada pelo general Arthur Oscar]; … se não fosse a morte do Coronel Moreira César, Canudos teria sido tomado a 3 de março último.

Pelo número insignificante de armamentos e munições de guerra que então possuíam os jagunços; … O mal causado à quarta expedição foi com as armas e munições abandonadas pela do Coronel Moreira César e por outras anteriores: que calculo em duzentos, no máximo, o número de jagunços existentes em Canudos depois do assalto de 18 de julho findo; … não há ali fim restaurador nem mesmo influência de pessoa estranha nesse sentido; que em Canudos não existe nenhum estrangeiro.”

Um escândalo, portanto, que 600, ou um pouco mais de pobres sertanejos, paralisem um exército com milhares de homens, com armas modernas, canhões e os recursos do Tesouro Nacional. Quem o diz é um dos mais conceituados generais do exército brasileiro, que atuou no conflito.

Em seguida, ele passa a discorrer sobre as baixas da 4ª Expedição, quase repetindo o que disse Honório Vilanova, no livro de Nertan Macedo.

“Não é de admirar o grande número de baixas que teve a segunda coluna [da 4ª Expedição, comandada por Arthur Oscar] nos dias 25, 26 e 27 e... a 28 de junho, considerando-se que os jagunços combatiam em ótimas posições, bem entrincheirados e ocultos nas caatingas, de onde poucos homens bem armados e municiados podem pôr fora de combate centenas de valentes soldados… É certo que os cartuchos queimados não se enchem de novo, mas é também certo que podem ser substituídos por outros tomados aos comboios nas estradas [e isso aconteceu na 4ª Expedição]. Deem a Antônio Conselheiro cinco a dez mil jagunços, dois ou três milhões de tiros e intentos restauradores monarquistas… [como faziam os generais Arthur Oscar e Carlos Eugênio] … [Podem] adulterar a verdade para encarecer Canudos e alarmar o espírito público, a isso não me presto… Bahia, 21 de agosto de 1897” (Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais, (p. 110–112). Cepe Editora. Edição do Kindle.

Ele denuncia claramente uma campanha de desinformação, que aparentemente era encaminhada pelo Comando da 4ª Expedição, com o qual ele rompeu, com o intuito de alarmar a população, gerando mais violência nas cidades e conseguir mais recursos para a guerra. Era uma questão política.

Num artigo do Jornal do Comércio, de 10 de agosto de 1897, Manuel Benício ironiza: “Os jagunços ou são poucos ou adotaram a tática de combater em grupos de cinco a dez. Os próprios assaltantes confessam isso.”

Benício, comentando os números apresentados por Carlos Teles, acima, faz um grande elogio a Moreira César:

“Para S. S. [General Carlos Telles], a terceira expedição teria liquidado Canudos, se não fora a desgraça da morte do distinto Moreira César de saudosa memória. Naquela ocasião, estavam os jagunços mal armados, e agora o estão bem, graças ao armamento e munições tomados àquela malfadada expedição (idem, idem).”

Posteriormente, em seu livro, Benício se unirá aos detratores de Moreira César. Por que ele fez isso se antes estava convencido da ‘saudosa memória’ do coronel? Foi convencido do oposto com o lançamento da parte de Cunha Mattos? Quis ‘apimentar’ a história e turbinar as vendas de seu romance? Foi obrigado a fazê-lo? Lendo os seus artigos no Jornal do Comércio e o seu livro, tem-se a impressão de que existem dois Manuel Benício.

Um relato jornalístico tenta explicar a multiplicação, ou a impressão de um grande número, de conselheiristas, no Jornal de Notícias, de Salvador, de 7 de agosto de 1897, que coincide com o que diz Vilanova em Nertan Macedo:

“Usam eles de uma astúcia em atirar contra os defensores da lei… armam uma trincheira, limitada, e, atirando de um ponto, correm logo para outro e outro” (citado por Walnice Galvão, No calor da hora, Kindle, p. 462).

Quem melhor fundamentou uma contagem sobre o número de casas e de habitantes em Canudos foi Manuel Benício no Jornal do Comércio do Rio, na edição de 12 de agosto de 1897. Diz ele:

Canudos, 18 de julho… Canudos. Tem no máximo duas mil casinholas… Cerca de duas horas estivemos a contá-las [ele e o correspondente do jornal A Notícia do Rio de Janeiro], do Alto da Favela, e não chegamos a mais de 1.200. São casebres sem portas, de parede de taipa [pintadas de vermelho e branco ou cinza]… com cobertura de folhas de icó emboçadas de barro.

Para fazer a vontade dos exasperados… darei a maior: 300 casebres… a eles que nunca tiveram a pachorra de contá-los como eu tive…

Não me convencerão nunca de que Canudos tem 4.000 casas e que estamos brigando com 3.000 jagunços. As casas não passam de dois mil, e aposto todo o ordenado que o jornal me quiser pagar… Dentro de Canudos, nos cinco grupos [de casas] que formam, são três de 200 — bairro cinzento — dois de 300 — bairro vermelho [a soma dá 1.200]. Em derredor de Canudos há outras casas, que não sobem a 200, e que não são metidas em conta… [porque] já foram incendiadas…

Em cada casarepartida com uma sala de três ou quatro metros, que serve também de cozinha, e em um quarto escuro, no máximo podiam habitar cinco pessoas… Visitei… 15 casas destas! Em uma delas encontrei: o capitão Laureano Roco… o alferes Jonas Napoleão… outro alferes [Galdino]… outro alferes que foi ajudante do coronel Flores [Thompson Flores, do 7º BI, morto precocemente]… Para esse casebre levei uma jaguncinha de nove anos, ferida em um pé. Era impossível estarmos ali, tão apertado era o recinto.

Cinco pessoas [por casa], vá!

Vamos dar [com exagero] … 1,5 criança por casa, e 1,5 mulher também por casa e 1,5 homem ainda por casa. Soma, 7.500 pessoas! 8.000, vá! [O número exato, considerando 1.500 casas, seria 6.750].”

Benício também calculou que a 4ª Expedição não enfrentou mais que mil conselheiristas, coincidindo perfeitamente com o número de corpos de homens contados entre as ruínas de Canudos após a sua queda: 647 (Walnice Galvão, No calor da hora…)

Prossegue Manuel Benício caracterizando os grupos humanos que as tropas encontraram na sua ida a Canudos:

Antônio Conselheiro divide-os em classes de sua confiança pessoal. Há a classe dos fanáticos… Esta cerca sempre ele… [gente de] sua maior confiança, armando-a a Mannlicher, etc. [Frei João Evangelista já a notara e calculou-a em uns 800].

Há a dos valentões, bandidos que vivem a explorar as estradas, saqueando, fazendo piquetes [não formavam a Guarda Católica], acoitados nos antros… dispersos [não moravam em Canudos], tiroteando as tropas… os soldados caçadores de bodes, e que fogem ao primeiro tiro certo que recebem.

É a pior jagunçada

Pode-se juntar a essa classe a dos pequenos lavradores e criadores da circunvizinhança… que defendem as suas propriedades atacadas pela força [o exército] para haver alimento a todo transe [comum na 4ª Expedição].

Há ainda os vagabundos, os trabalhadores, que vivem a caçar… a tomar serviços [avulsos], os quais voltam a Canudos, onde deixam as famílias… [Percorrendo] às vezes, vinte léguas de distância do arraial…

Alguns estão armados… [com] espingarda de caça, pica-paus [pequena espingarda carregada pela boca], clavinotes, etc. A duzentos metros não são muito temíveis [a Mannlicher, do exército, tinha o alcance de 500 m].

Agora as mulheres… no combate de 18 [de julho], dia em que muitas foram presas, mortas e outras se entregaram… Nos dias seguintes, magotes delas vieram se entregar, dizendo que, por ordem do Conselheiro” [as mulheres foram entregues à sanha daqueles que o Conselheiro tratava como demônios!].

Isso é uma versão requentada do episódio do Levita e a sua concubina (Jz 19) e de Lote, em Sodoma (Gn 19,8)? Ou é a versão conselheirista de 'mulheres e crianças primeiro'?

A lenda da prosperidade dos habitantes de Canudos veio da abundância de comida e objetos encontrada nas casas ocupadas pelos soldados de Moreira César. Tal confusão ocorre porque os soldados da 3ª Expedição invadiram as casas próximas das igrejas, que pertenciam à elite local: os comerciantes, os principais proprietários, os quase burocratas da Santa Companhia e assistentes próximos do Conselheiro.

Isso desmente o mito de uma sociedade igualitária, pois a maior parte da população, as 'classes produtoras', vivia numa pobreza espantosa, do ponto de vista de quem vivia em cidade, mas que era natural do semiárido. Os sertanejos não viam, nisso, motivo de vergonha ou sentimentos de inferioridade, pois eles não se viam pobres, e não concebiam um mundo diferente do seu, exceto como anarquia ou afastamento de Deus. Sua confiança e generosidade são muito puras, assim como o seu ressentimento e desejo de vingança, quando se sentem traídos ou ameaçados.

O militar e jornalista Favila Nunes fez o seguinte informe no Gazeta de Notícias, do Rio, em 5 de outubro de 1897:

“As portas [das casas] são tão pequenas que é preciso abaixar-se a cabeça para transpô-las; estendendo-se o braço para cima, toca-se quase a cumeeira; os caibros e ripas são seguros com cordas ou com cipós, as dobradiças das portas e microscópicas janelinhas são de sola [couro], na sua quase totalidade não têm reboco nem caiação, interna ou externa; é um aldeamento de barro, eis o que são as casas de Canudos” (Walnice Galvão, idem, p. 249).

O jornalista Favilla Nunes escreveu o seguinte, na edição de 1º de janeiro de 1898 do jornal Gazeta de Notícias, do Rio:

“Uma população enorme não tinha uma cadeira, uma mesa, uma só cama!… Os combatentes não souberam utilizar-se de quatro canhões Krupp 7,5 e não sabiam fazer uso da alça de mira das carabinas que nos tomaram [Como acertaram Moreira César a 400 metros?].

Viviam na mais absoluta miséria e morreram de fome e sede, sem ter… quem lhes fizesse um curativo.”

Entre as casas da elite se destacava a dos irmãos Vilanova, descrita no jornal A Notícia de 29 de setembro de 1897: “algumas constituem magníficas habitações cobertas com telhas francesas. A do célebre bandido Vilanova, por exemplo, é muito forte, não tendo até agora a artilharia conseguido destruí-la” (citado por Walnice Guerra, No calor da hora…, Kindle, p. 571).

Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, também notou a imponência da casa.

“A casa de Vila Nova era uma trincheira fortíssima, bem armada, bem municiada (idem, idem, p. 540).”

Alvim Horcades, em seu livro Descrição de uma viagem a Canudos, de 1899, p. 179, fala que a casa onde morava o Conselheiro, que ele chamou de casa-trincheira, tinha paredes de pedra de mais de um metro de largura.

“Algumas [casas] havia que tinham espessas paredes, porém arranjadas [creio que ele quis dizer ‘arrancadas’] na ocasião da investida feita pela força, pois constavam elas de uma sólida estacada cheia de grandes pedras que impediam a perfuração por qualquer projétil [a casa dos Vila Nova era assim]. Dentre todas, menciono destacadamente 3 destas casinholas, que serviam de morada ao Santo Conselheiro e eram conhecidas pelo nome de Santuário; estas tinham paredes trincheiras (pois bem mereciam ser assim denominadas), que mediam pouco mais ou menos um metro e meio de sólidas pedras e onde o bandido-chefe colocara toda a sua santaria [imagens de santos].”

Noutras palavras. Assim como não faz sentido vê-los como pobres coitadinhos, por causa da ausência de objetos e serviços comuns em uma cidade grande, tampouco faz sentido propalar que havia em Canudos uma sociedade igualitária e próspera, a caminho do socialismo, conforme as expectativas, anseios e alucinações importadas do pensamento europeu do século XIX.

Eduardo Simões

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