domingo, 31 de maio de 2026

 

PILULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE AQUINO (pelos dominicanos espanhóis)

A Ciência Sagrada é uma ciência prática?

Nota dos dominicanos espanhóis

O que essas palavras significam para São Tomás? Aquilo que é ordenado a fazer algo, aquilo direcionado para a ação, é chamado de prático; aquilo ordenado para o conhecimento, aquilo direcionado para o conhecer, é chamado de especulativo. A inteligência humana, como tal, conhece por conhecer: este é o seu próprio fim, a sua obra específica. Mas ela também pode conhecer para direcionar algo além da sua própria operação: isto é, ela pode produzir (finis non est cognitio sed opus: In Sent. 3 d.35 q.1 a.3 sol.2). Mas mesmo neste segundo caso, trata-se de conhecimento intelectual; duas faculdades não seriam necessárias, mas sim uma com duas funções. A ciência prática lida especulativamente com coisas práticas. A inteligência, que é inerentemente especulativa, “torna-se” prática por extensão. Os princípios com os quais se opera em cada caso são diferentes. Assim, os princípios especulativos são resolutivos (analíticos), porque a verdade daquilo que se conclui é resolvida nesses princípios; os princípios práticos são composicionais (sintéticos) porque consideram a verdade conhecida na medida em que ela é “acionável”, ou seja, tendem a sintetizar o que é conhecido com a existência. Isso explica por que o prático vê as coisas em termos de sua existência singular (contingente), enquanto o especulativo vê tudo na medida em que é universal (necessário).

Toda ciência prática lida com o que pode ser feito pelo homem. Assim, a Moral lida com os atos humanos; a Arquitetura, com os edifícios. A doutrina sagrada, por outro lado, tem como objeto principal Deus, cuja maior obra é o homem. Portanto, não é uma ciência prática, mas sobretudo especulativa.

Solução: Deve-se dizer que a doutrina sagrada, sendo una, abrange tudo o que pertence às ciências filosóficas da perspectiva formal sob a qual a considera, isto é, na medida em que pode ser conhecida pela luz divina. Portanto, embora algumas ciências filosóficas sejam especulativas e outras práticas, a doutrina sagrada as abrange a todas, da mesma forma que Deus conhece a si mesmo e suas ações com o mesmo conhecimento. Além disso, estamos lidando com uma ciência mais especulativa do que prática porque se ocupa principalmente do divino, e não do humano. Pois, quando se ocupa da humanidade, fá-lo na medida em que o homem, por meio de suas ações, é direcionado para o conhecimento perfeito de Deus, visto que a felicidade eterna consiste nesse conhecimento.

 

Nota dos dominicanos espanhóis

Tomás de Aquino retoma a divisão de Aristóteles, segundo a qual os hábitos práticos do homem santo são a prudência e a arte, e os especulativos são a ciência, a sabedoria e o hábito dos princípios [disposição natural e inata da mente humana para discernir as verdades mais evidentes e universais sem necessidade de demonstração, como o princípio da não contradição]. A função prática, dissemos, é o próprio intelecto ordenando-se para um fim que não é sua própria operação; portanto, será sempre algo secundário a ele, e que pressupõe a função especulativa primária. Aqui, São Tomás rompe com toda a tradição ao atribuir à teologia a função especulativa como sua função primária. Até ele, todos os teólogos agostinianos concordavam em rejeitar um fim puramente especulativo para o conhecimento teológico, convergindo para uma teologia afetiva. A natureza de uma ciência deve ser determinada em termos de seu fim, e o fim último desta doutrina é a contemplação da primeira verdade na pátria celestial. Assim, trata-se, de fato, primordialmente de pensamento especulativo, como já havia expressado São Tomás. Isso é o que seus predecessores e contemporâneos rejeitaram, para quem o pensamento deveria ser um meio para a ação. Segundo ele, ao contrário, a ação não é o fim pretendido por esta ciência, mas antes a contemplação. Esta é a posição mais coerente com a escolha feita, na qual a inteligibilidade da criação tem primazia.

A doutrina sagrada é superior às outras ciências.

Solução. É preciso dizer: como esta ciência é especulativa em alguns aspectos e prática em outros, ela é superior a todas as outras ciências, tanto especulativas quanto práticas. Entre as ciências especulativas, diz-se que uma é superior a outra segundo a certeza que contém, ou segundo a dignidade do assunto que aborda. Em ambos os aspectos, a doutrina sagrada é superior às outras ciências especulativas. Quanto à certeza das ciências especulativas, fundada na razão natural, que pode errar, ela contrasta com a certeza fundada na luz da ciência divina, que não pode falhar. Quanto à dignidade do assunto, é porque a doutrina sagrada lida principalmente com algo que, por sua sublimidade, transcende a razão humana. As outras ciências consideram apenas o que está sujeito à razão.

Dentre as ciências práticas, a mais valiosa é aquela que se orienta para um fim superior, assim como a ciência civil se orienta para o militar, visto que o bem do exército tem como fim o bem do povo. O fim da doutrina sagrada, como ciência prática, é a felicidade eterna, que é o fim para o qual todos os objetivos das ciências práticas se orientam. É evidente, sob todas as perspectivas, que a doutrina sagrada é superior às demais ciências.

Resposta às objeções: Nada impede que aquilo que é certo por sua natureza nos pareça menos certo, devido à fragilidade do nosso entendimento, pois o nosso entendimento. Portanto, a dúvida que surge em alguns a respeito dos artigos de fé não se origina na incerteza do seu conteúdo, mas na fragilidade do entendimento humano. No entanto, o pouco que se pode saber sobre as coisas sublimes é preferível ao muito e à certeza que podemos saber sobre as coisas inferiores [materiais].

Nota dominicanos espanhóis

Esta resposta pressupõe, embora não explicitamente, o papel da razão na tarefa teológica. Ela atua como causa primária, mas subordinada à fé. É precisamente a maneira como a inteligência humana participa dessas outras ciências “inferiores” à teologia que as torna mais certas: não em si mesmas, como esclarece São Tomás de Aquino, mas devido às limitações do nosso entendimento [daí a necessidade da fé prévia].

 

O segundo ponto a ser destacado é o seguinte: esta ciência pode recorrer a disciplinas filosóficas, não por necessidade, mas para melhor explicar seu objeto de estudo. Pois ela não deriva seus princípios de outras ciências, mas diretamente de Deus por meio da revelação. E mesmo quando recorre a outras ciências, não o faz por serem superiores, mas sim por serem subordinadas e subservientes, assim como a arquitetura tem fornecedores, ou a ciência civil tem fornecedores militares. A ciência sagrada o faz não por deficiência ou incapacidade, mas devido à fragilidade de nossa compreensão. A partir daquilo que conhece pela razão natural (da qual outras ciências procedem), ela é conduzida, como que guiada pela mão, àquilo que transcende a razão humana e que é o objeto da ciência sagrada.

A doutrina sagrada é uma sabedoria.

 

Nota dos dominicanos espanhóis

Esta era a afirmação tradicional a respeito da doutrina sagrada, da qual ninguém discordava. Desde Santo Agostinho, ao afirmar o caráter da sabedoria e negar o da ciência para a teologia, a questão, ao longo da escolástica, não ofereceu dúvidas. A sabedoria é o supremo dos hábitos intelectuais ou cognitivos. A sabedoria é o mais elevado dos hábitos intelectuais ou cognitivos. Ou seja, a ciência em seu grau mais elevado; aquilo que se manifesta por meio de suas causas ou princípios mais elevados. Ciência suprema em todos os sentidos, ela julga os princípios de todas as ciências: ela os ordena, explica e defende. Por outro lado, “sabedoria” evocava um conhecimento “delicioso”, que se harmonizava admiravelmente com a doutrina sagrada. Mas o que tradicionalmente se apresentava como um dilema (ou é ciência ou é sabedoria) é resolvido por São Tomás de Aquino ao observar que a sabedoria não se opõe à ciência, mas antes lhe acrescenta algo. É conhecimento por meio de causas (ciência) e por meio da causa suprema (sabedoria). Para São Tomás, na realidade, precisamente por ser ciência subordinada à ciência de Deus, a teologia é una, especulativa e prática, superior a todas as outras ciências e à sabedoria. E isso se aplica ainda mais à metafísica, visto que esta alcança Deus indiretamente (quantum ad illud quod est per creaturas cognoscibile =  no que se refere àquilo que é cognoscível através das criaturas), enquanto a teologia o alcança diretamente (quantum ad id quod no tum est sibi de seipso = no que se refere àquilo que lhe é desconhecido). A revelação é, na realidade, uma derivação da luz pela qual Deus se conhece, como já vimos anteriormente.

 

Esta doutrina é, dentre toda a sabedoria humana, a sabedoria em mais alto grau, não apenas em um sentido específico, mas de forma única e completa. O papel do sábio é guiar e julgar; e seu julgamento é feito tendo como ponto de referência a causa suprema de tudo o que é inferior. Assim, em todos os tipos de coisas, aquele que mantém em mente a causa suprema de cada coisa concreta é chamado de sábio. Por exemplo, o trabalhador que prepara os projetos de um edifício é chamado de sábio e arquiteto em relação aos trabalhadores que esculpem a madeira ou poliam a pedra. Nesse sentido, 1 Coríntios 3:10 diz: “Como sábio mestre de obras, ele lançou os alicerces.” E na vida humana, o sábio é chamado de prudente por guiar a ação humana ao seu fim próprio. Por isso, Provérbios 10:23 diz: “A sabedoria do homem é a prudência.” Assim, aquele que tem como ponto de referência a causa suprema de todo o universo, que é Deus, será chamado de sábio em mais alto grau. Portanto, a sabedoria é definida como o conhecimento do divino, como afirma Agostinho no Livro XII de *De Trinitate*, p. 11. O aspecto mais genuíno da doutrina sagrada é referir-se a Deus como a causa suprema, e não apenas pelo que se pode conhecer d'Ele através da criação… mas também por aquilo que somente Ele pode saber de Si mesmo e que Ele comunica aos outros por meio da revelação. Disso se segue que a doutrina sagrada é sabedoria em grau máximo.

Resposta às objeções:

A doutrina sagrada não extrai seus princípios de nenhuma outra ciência humana, mas da ciência divina, que, como sabedoria em grau máximo, governa todo o nosso entendimento.

Os princípios das outras ciências são ou autoevidentes e não necessitam de demonstração; ou são evidentes em alguma outra ciência sendo demonstrados por um processo mental natural. O conhecimento próprio que se possui na ciência sagrada é dado pela revelação, não pela razão natural. Portanto, não lhe cabe provar os princípios de outras ciências, mas apenas julgá-los. Assim, condena como falso tudo o que, em outras ciências, é incompatível com a sua verdade.

Ao sábio corresponde julgar. Visto que existem duas maneiras de julgar, a sabedoria também deve ser compreendida de duas maneiras. Uma delas é se o juiz possui uma inclinação particular para algo. Por exemplo, a pessoa virtuosa julgará corretamente tudo o que se relaciona à virtude, visto que tem inclinação para ela. Daí o que se diz no Livro X da Ética, 12: “A pessoa virtuosa é a regra e a medida das ações humanas.” Outra maneira de julgar é pelo conhecimento. Assim, por exemplo, um especialista em moral pode julgar os atos de uma virtude específica mesmo que não a possua. Agora, quando se trata de julgar assuntos divinos, a primeira maneira indicada é aquela que corresponde à sabedoria que está entre os dons do Espírito Santo, seguindo o que se diz em 1 Coríntios 2:15: “O homem espiritual discerne todas as coisas”, etc... A segunda forma de julgamento pertence à doutrina sagrada, na medida em que é adquirida por meio do estudo; embora adote os princípios que emanam da revelação.

Nota dos dominicanos espanhóis

A teologia não demonstra os princípios de outras ciências, mas condena como falso tudo o que é incompatível com a verdade teológica. Será necessário, mais uma vez, ter em mente que a inteligência do teólogo em seu trabalho é intrínseca e constantemente iluminada e medida pela fé. Quando a teologia ultrapassa o alcance da revelação, essa condenação poderia também se estender a áreas fora de sua competência [criava-se assim uma área de atrito perigosa]. São Tomás estabelece a distinção relevante para resolver a objeção levantada [a sabedoria como dom do Espírito Santo e como resultante da leitura dos textos sagrados]: como a teologia envolve diversos níveis de inteligibilidade e diversos modos de acesso às suas conclusões, é legítimo propor a distinção. Mas isso não implica separação. A frase conclusiva deste ad 3 (licet eius principia ex revelatione habeantur = embora seus princípios sejam derivados da revelação) adverte sobre a necessidade de uma recomposição contínua da unidade teológica, retornando constantemente aos seus princípios (In Boet. de Trin. q.6 a.1). Nada se encontra em São Tomás que autorize a fundamentação nele da ruptura dos devotos do século XV, que dissociaram a teologia espiritual da teologia especulativa. O trabalho teológico não é um projeto meramente humano, nem tem nada a ver com uma tarefa filosófica “aplicada” a dados aceitos como postulados. “O teólogo não é um filósofo que trabalha sobre uma crença, mas um crente” (Congar). As conclusões teológicas estão sempre intimamente ligadas aos seus princípios, que, como sabemos, são os artigos de fé (ver a passagem citada em In Boet. de Trin.).


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